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O TEMOR SECRETO DOS PERIGOS DA ALMA

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Academic year: 2018

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP

PAULA NOGUEIRA DE TOLEDO MORELLI

O TEMOR SECRETO DOS PERIGOS DA ALMA

Uma revisão bibliográfica sobre o conceito do medo na Psicologia Analítica

MESTRADO EM PSICOLOGIA CLÍNICA Núcleo de Estudos Junguianos

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP

PAULA NOGUEIRA DE TOLEDO MORELLI

O TEMOR SECRETO DOS PERIGOS DA ALMA

Uma revisão bibliográfica sobre o conceito do medo na Psicologia Analítica

Dissertação apresentada à Banca Examinadora como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, sob a orientação do Prof. Doutor Durval Luiz de Faria.

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Banca Examinadora:

Orientador:__________________________________________ Prof. Dr. Durval Luiz de Faria

Examinadora:__________________________________________ Profa. Dra. Ceres Alves de Araujo

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AGRADECIMENTOS

Ao Sérgio, meu marido, pelo incentivo amoroso.

Às minhas queridas filhas, Marina e Fernanda, que muito me ajudaram com inteligência e carinho.

Aos meus pais, Maria Sylvia e João, e todos da família que sempre valorizaram o ensino e a cultura.

Ao meu orientador, Durval Luiz de Faria, que com muita paciência e sabedoria me ajudou a escrever essa dissertação.

Às Profas. Dras. Ceres Alves de Araújo e Marion Gallbach por me mostrarem os caminhos para esta dissertação no exame de qualificação.

Aos professores e colegas do Núcleo de Estudos Junguianos da PUCSP

Aos meus terapeutas Sônia Barros de Carvalho e Tito Cavalcanti por me ajudarem realizar esse sonho.

Às minhas colegas de consultório pelas colaborações, palpites e dicas.

À Maria Zélia Alvarenga pela generosidade e pelas aulas de Mitologia.

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RESUMO

Esta dissertação tem como objetivo formular hipóteses acerca do medo, assim como pensar sobre ele no contexto clínico, a partir de uma revisão bibliográfica sobre o conceito do medo nas obras coligidas de C. G. Jung e outros autores da Psicologia Analítica. Utiliza-se o método qualitativo de pesquisa, por meio de revisão bibliográfica nos sites portal CAPES e Scielo, artigos e livros da abordagem. Para ilustrar a questão do medo usamos o conto “Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque de Holanda. Concluiu-se que o medo pode ser uma emoção protetora ou perturbadora do eu, assim como sinalização das mudanças nas etapas do desenvolvimento. O estudo finaliza ressaltando os significados do medo na clínica junguiana, assim como modos de se lidar com ele.

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ABSTRACT

The aim of this dissertation is to formulate a hypothesis regarding fear, as well as how conceive it in a clinical context, parting from a bibliographical review of the concept of fear in the collect works of C. G. Jung and other authors of Analytical Psychology. A qualitative method of research is used, through a bibliographical review of the CAPES and Scielo portal websites, articles and books on the approach. To illustrate the question of fear Chico Buarque de Holanda’s tale “Little Yellow Riding Hood” is used. It is concluded that fear may be a protective and disturbing emotion of the ego, as well as a signal of the changes in the stages of development. The study finishes pointing out the meanings of fear in the Jungian clinic, as well was the ways of dealing with it.

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SUMÁRIO

Introdução...9

1. Objetivo...15

2. Método...16

3. Conceito do medo...18

4. O medo nas obras coligidas de C. G. Jung...24

5. O medo em outros escritos de Jung 5.1 Memórias, Sonhos, Reflexões...52

5.2 Cartas...59

6. O medo em outros autores da Psicologia 6.1 Marie-Louise Von Franz – O medo e o arquétipo do Puer...64

6.2 Erich Neumann – O medo e o arquétipo da Grande Mãe...65

6.3 Verena Kast – O medo e o complexo...67

7. O medo na Mitologia ...74

8. Ilustração: Chapeuzinho Amarelo...79

9. Discussão...86

Considerações Finais ...89

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INTRODUÇÃO

“Medo estampado na cara ou escondido no porão O medo circulando nas veias

Ou em rota de colisão

O medo é do Deus ou do demo É ordem ou é confusão

O medo é medonho, o medo domina O medo é a medida da indecisão”¹

(Lenine)

Medo é um tema comum nos consultórios de psicologia. Crianças, adolescentes e adultos sofrem com essa emoção quando ela deixa de funcionar como um sistema de alarme em situações de perigo e passa a ser algo tão intenso, que pode aprisionar e paralisar o desenvolvimento da psique. Em minha experiência como psicóloga clínica, observei que o medo pode aparecer de forma escancarada e dirigida a algum objeto ou de forma discreta como, por exemplo, quando alguém vai deixando aos poucos de fazer coisas simples do dia-a-dia, atrapalhando seus relacionamentos e sua produção.

A análise e discussão sobre a questão do medo nos levam a percebê-lo como sintoma de que algo mais profundo precisa ser visto. A importância deste estudo é a compreensão desta emoção, que pode causar tantos transtornos, através da revisão bibliográfica da obra de Jung e outros pensadores da Psicologia Analítica.

Existem pessoas com medo de dormir no escuro, de crescer, de solidão, de multidão, de cobras, de morte, de altura, de lugares fechados, de fantasmas, de monstros e de ficar doente, entre tantos outros. Todo mundo tem medo. Podemos listar vários.

A vida moderna acrescentou novos medos a essa lista: avião, dirigir carros, explosões atômicas e medos tecnológicos como, por exemplo, ficar sem celular.

São vários estudos e pesquisas sobre o medo. Na literatura acadêmica é possível notar que estão mais presentes nas áreas da psicologia, neuropsicologia, psiquiatria e também nas ciências sociais.

Os gregos usavam duas palavras para diferenciar suas apreensões: deos, que significava um temor refletido e controlado; e phobos, medo intenso e irracional acompanhado de fuga.

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O medo pode ser considerado normal ou patológico. O medo normal é um mecanismo de defesa, que protege a vida e aparece quando deparamos com algo que nos coloca em risco. Desaparece quando não há mais nada a temer. É uma emoção inata (ANDRÉ, 2007).

O medo patológico aparece, em uma de suas formas, como fobia, que é definida como medo exagerado, intenso e incontrolável por um objeto específico. A fobia causa angústia e, muitas vezes, priva o indivíduo de atividades simples do cotidiano como forma de evitar o contato com a situação que causou o temor. O medo muito intenso pode chegar até ao ataque de pânico (ANDRÉ, 2007).

A fim de distinguir-se o medo, da fobia e do pânico, vale considerar o artigo de Vargas (2006, p.107) sobre os transtornos de ansiedade, estudo esse que esclarece os transtornos fóbicos: “Fobias são medos persistentes e irracionais de um objeto, atividade ou situação específica, e traz por resultado um desejo irresistível de evitar aquele objeto, atividade ou situação temida, os quais são denominados estímulos fóbicos”.

Pânico é diferente de medo. Pode ser considerada uma síndrome, um conjunto de sintomas. Faz parte dos transtornos da ansiedade, que “é uma emoção universal e parte necessária da resposta de nosso organismo ao estresse”. (VARGAS, 2006, p.108).

“Dos antigos casos de ansiedade, distinguiu-se clinicamente os “ataques de pânico espontâneos”, que eram qualitativamente diferentes de outros estados de ansiedade crônica. Dividiu-se, assim, aquela antiga categoria em “transtorno de pânico” (TP) e transtornos de ansiedade generalizada (TAG). O TP é uma síndrome caracterizada pela presença recorrente de ataques de pânico (AP), que são crises espontâneas e súbitas de mal-estar e sensação de perigo, morte ou desmaio, com múltiplos sintomas e sinais de alerta e hiperatividade autonômica, palpitações ou taquicardia, sudoreses, tremores, asfixia ou sufocamento, dor torácica, tonturas, náuseas, etc. Entre os sintomas psíquicos encontram-se: medo intenso (perder o controle, morrer, enlouquecer), despersonalização ou desrealização”. (VARGAS, 2006, p.108)

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O DSM – IV – TR Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (2008) classifica vários transtornos de ansiedade, onde o medo patológico se apresenta: Ataque de Pânico, Agorafobia, Transtornos do Pânico, Fobia Específica, Fobia Social, Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e transtorno de ansiedade generalizada (TAG).

Na psicologia profunda o medo é considerado uma emoção que pode ser projetada nos mais diferentes objetos, causando angústia e prejudicando muitas vezes a vida cotidiana de quem o vive

O medo é segundo Jung (2002, p.27), uma emoção que nos possui e que mostra indícios de uma adaptação insuficiente. A escola junguiana refere-se ao medo como sintoma de um conflito entre opostos psíquicos que ocorre na constituição da consciência. (PIERI, 2002: p. 313).

A necessidade de refletir sobre esta emoção aparece também na arte, em suas diversas formas. Encontramos na literatura, no cinema e na música muitos trabalhos relacionados a este tema como tentativa de compreendê-lo melhor, uma vez que é uma emoção que nos domina. Não escolhemos ter medo.

Carlos Drummond de Andrade escreveu, em 1945, no livro “A Rosa do Povo” o seguinte poema:

O Medo²

Em verdade temos medo. Nascemos no escuro As existências são poucas; Carteiro, ditador, soldado. Nosso destino, incompleto.

E fomos educados para o medo. Cheiramos flores de medo. Vestimos panos de medo. De medo, vermelhos rios Vadeamos.

Somos apenas uns homens e a natureza traiu-nos. Há as árvores, as fábricas,

Doenças galopantes, fomes.

Refugiamo-nos no amor, Este célebre sentimento, E o amor faltou: chovia,

Ventava, fazia frio em São Paulo.

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Fazia frio em São Paulo... Nevava.

O medo, com sua capa, Nos dissimula e nos berça .

Fiquei com medo de ti, Meu companheiro moreno. De nós, de vós, e de tudo. Estou com medo da honra.

Assim nos criam burgueses. Nosso caminho: traçado. Por que morrer em conjunto? E se todos nós vivêssemos?

Vem, harmonia do medo, Vem ó terror das estradas, Susto na noite, receio De águas poluídas. Muletas

Do homem só. Ajudai-nos, lentos poderes do Láudano. Até a canção medrosa se parte, se transe e cala-se.

Faremos casas de medo, Duros tijolos de medo, Medrosos caules, repuxos, Ruas só de medo, e calma.

E com asas de prudência Com resplendores covardes, Atingiremos o cimo

De nossa cauta subida.

O medo com sua física, Tanto produz: carcereiros, Edifícios, escritores, Este poema; outras vidas.

Tenhamos o maior pavor. Os mais velhos compreendem. O medo cristalizou-os.

Estátuas sábias, adeus.

Adeus: vamos para a frente, Recuando de olhos acesos. Nossos filhos tão felizes... Fiéis herdeiros do medo,

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Na música, no cinema e nas artes plásticas também encontramos obras relacionadas ao medo, mostrando ser este um tema de interesse para o ser humano.

Os contos de fadas e as histórias da mitologia grega são gêneros literários muito utilizados pelos teóricos da psicologia analítica, por serem considerados umas das formas mais puras de expressão do inconsciente. Os mitos de Fobos, Deimos e Pan, normalmente, ilustram discussões sobre medos e fobias. Escolhemos a história “Chapeuzinho Amarelo” e os mitos de Ares, Prometeu e Merlin para esse fim.

Este trabalho é uma revisão de literatura que tem como objetivo compreender os aspectos psicológicos do medo, tendo como referencial de análise, a Psicologia Analítica.

A idéia do título foi retirada de um trecho dos escritos de Jung, Os arquétipos e o inconsciente coletivo, que diz:

“(...)os primitivos temem os afetos, (emoções) descontrolados, pois neles a consciência submerge com facilidade, dando espaço à possessão. Todo o esforço da humanidade concentrou-se por isso na consolidação da consciência. Os ritos serviam para esse fim, assim como as représentations

collectives, os dogmas; eles eram os muros construídos contra os perigos

do inconsciente, os perils of the soul. O rito primitivo consiste, pois, em exorcizar os espíritos, quebrar feitiços, desviando dos maus agouros;”. (JUNG, 2001, §47)

Iniciaremos o trabalho mostrando, no capítulo um, o conceito de medo do ponto de vista de outras abordagens teóricas, da Psicologia Analítica e da psiquiatria. O objetivo deste capítulo é contextualizar a questão do medo em diferentes enfoques.

Em seguida, no capítulo dois, faremos uma revisão de literatura sobre a questão do medo nas obras coligidas de Carl Gustav Jung, observando como o conceito foi desenvolvido cronologicamente.

Na seqüência, no capítulo três, faremos uma revisão nos escritos de Jung sobre o medo nos livros “Memórias, sonhos e reflexões” e nos três volumes “Cartas”.

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Prosseguindo, no capítulo cinco, falaremos sobre o medo na mitologia mostrando mitos que falam sobre esta emoção e seus conflitos. O objetivo é ampliar a compreensão do medo.

No capítulo seis, a história “Chapeuzinho Amarelo”, de Chico Buarque de Holanda, foi escolhida para ilustrar o estudo, uma vez que fala sobre o medo que pode paralisar. São muitos os medos de Chapeuzinho, que não sabe exatamente o que teme mais e, por isso mesmo, não se arrisca, não brinca, não vive. O medo que protege, pode também limitar a vida. A análise do livro pretende compreender esta emoção que possui a menina.

No capítulo sete faremos uma discussão sobre os vários aspectos do medo apontados na dissertação e encerraremos o trabalho nas considerações finais.

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1. OBJETIVOS

O objetivo geral deste trabalho é realizar uma revisão de literatura sobre o medo, dentro do referencial da Psicologia Analítica.

Os objetivos específicos são:

a) Pensar sobre a questão do medo a partir dos textos de Carl Gustav Jung e também de outros autores junguianos.

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2. MÉTODO

Esta dissertação é uma pesquisa teórica que, por meio de uma revisão de literatura, faz um estudo sobre o conceito do medo, ao longo da obra coligida de C. G. Jung, assim como de outros autores da Psicologia Analítica.

O método usado é o qualitativo, que, segundo Penna (2003), é o mais adequado às ciências humanas e sociais, que buscam a compreensão dos fenômenos humanos através da interpretação. Rey (2005) considera a pesquisa qualitativa uma produção teórica que envolve “a construção permanente de modelos de inteligibilidade que lhe dêem consistência a um campo ou um problema na construção de um conhecimento” (REY, 2005, p.11).

Por ser uma revisão de literatura, buscamos, em primeiro lugar, citações sobre o medo na obra de Jung, obedecendo ao critério cronológico, para que se pudesse observar com clareza o desenvolvimento do conceito. A data registrada é a da última revisão do autor e não a data da primeira publicação, nos casos em que houve mudanças no conteúdo escrito.

Em seguida, a revisão bibliográfica foi direcionada a outros autores da Psicologia Analítica, que escreveram sobre o medo. Como foram encontrados vários autores junguianos falando sobre o tema, selecionamos os textos de Marie-Louise Von Franz e Eric Neumann que escreveram sobre o arquétipo do Puer Aeternus e da Grande Mãe, respectivamente, e Verena Kast que escreveu sobre a humanização do arquétipo, como ilustração.

Buscamos também artigos, dentro de sites nacionais e internacionais, incluindo o portal da CAPES e o site Scielo, que discorressem sobre o medo.

Foram encontrados os seguintes artigos: Roazzi, Federicci e Wilson (2001), Federici e Carvalho (2002), Mestre (2000), Santos (2003), Siqueira-Batista et al (2008) e Ballone (2002).

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A ilustração foi analisada sobre a ótica da Psicologia Analítica, na qual este trabalho foi baseado.

Bauer (2002) fala das possibilidades de aplicações de diferentes métodos de pesquisa qualitativa, como texto, imagem e som, que podem ser usados a serviço da pesquisa social. São registros que podem complementar questões teóricas e abstratas. O autor ressalta a importância de uma integração do processo, que parte de um problema e se conduz, através da teorização, para a amostragem (livro, filme), para uma análise do conteúdo, que unirá teoria e realidade.

A análise de documentos é um dos muitos procedimentos e instrumentos usados em pesquisas qualitativas, que entre outras características podem ser multimetodológicas. (ALVEZ-MAZZOTTI, 1998).

Gill (2002) e Rose (2002) apresentam metodologias para investigação de representações sociais mediante texto e imagem, que por serem complexas precisam passar por um processo de simplificação que selecione os pontos a serem destacados, baseados na teoria e nos objetivos da pesquisa.

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3. CONCEITO DE MEDO

A palavra medo é comumente usada para definir “um estado afetivo suscitado pela consciência do perigo ou que, ao contrário, suscita essa consciência.” (HOUAISS, 1879, p. 1879). É um estado ansioso, de temor irracional ou fundamentado.

O medo é universal e presente em diferentes formas de vida. No entanto, podemos considerar o medo humano mais complexo e diferenciado do que o medo animal.

É interessante observar a variação que o sentido do termo adquire ao longo da história: do homem pré-histórico, que tinha medo de ser devorado por animais, ao homem atual, com medo de seqüestro relâmpago e outros relacionados à violência social.

Em estudos sobre a história do medo, encontramos o trabalho de Delumeau (1999), História do medo no ocidente, que conceitua o medo como uma emoção e como um componente básico da experiência humana.

A partir da Grécia, o autor descreve o medo em vários grupos sociais. Os gregos consideravam o medo como uma punição dos deuses. Em época de guerra, procuravam divinizar e entrar em harmonia com Deimos (o terror) e Phóbus (o medo). O medo era considerado como uma vivência externa. Só a partir da Idade Média é que o medo passa a ser considerado uma vivência interna.

Delumeau retira da história os principais medos coletivos: o medo do mar e seus mistérios, da noite, de tempestades e outros fenômenos da natureza. Medo das pestes, das guerras, das bruxas, dos demônios e outros agentes de Satã, como o judeu, o mulçumano e a mulher. Medos do céu incluíam a eclipse e os cometas e eram relacionados ao apocalipse. O autor ressalta que rumores coletivos ajudavam a espalhar o medo como, por exemplo, mendigos que raptavam crianças.

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Tabela: Itens e porcentagens produzidos a partir da associação livre

1. Fantasma (11,49%) 6. Bruxa (8,1%) 11. Barata (4,7%) 2. Assaltante (10,81%) 7. Monstro (7,43%) 12. Prova (4%) 3. Diabo (10,13%) 8. Papafigo (6,1%) 13. Rato (4%) 4. Morte (9,5%) 9. Doença (5,4%) 14. Morcego (2,7%) 5. Revólver (8,1%) 10. Vampiro (5,4%) 15. Sanguessuga (2,02%)

O artigo “Um Estudo do Medo Entre Adultos”, realizado por Federici e Carvalho (2002), fala sobre o resultado de uma pesquisa sobre as representações sociais do medo em adultos e o nível de consenso destas representações, em função da variável gênero.

A pesquisa destaca vinte itens entre os medos adultos, que foram separados em cinco grupos: entidades sobrenaturais (medo do desconhecido), problemas relacionados á saúde, violência social, acidente e abandono. Não foram encontradas diferenças significativas entre os grupos pesquisados, isto é, nas questões de gênero, os medos mais comuns entre homens e mulheres, aparecem representados nos mesmos itens.

A tabela abaixo mostra os itens mais significativos nesta pesquisa de representações do medo.

Tabela: representações do medo entre adultos.

Entidades Sobrenaturais

Saúde Violência

Social

Acidente Abandono

Bruxa Morte Seqüestro Trânsito Velhice Feitiçaria AIDS Menino de rua Dor Separação Fantasma Sangue Violência sexual Polícia Solidão

Diabo Doença Assaltante - - Escuro - Desemprego - -

O pesquisador M. Mestre (2.000) pesquisou sobre emoção e sociabilidade e, ao falar sobre o medo, destaca duas vertentes que merecem análise. A primeira refere-se aos medos permanentes, por se tratar daqueles compartilhados por todos os seres humanos e, portanto, considerados como “universais”. São: o medo da morte, da perda e do desconhecido.

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da reputação, medo da crítica, do fracasso e da solidão. A autora conclui que as emoções, principalmente o medo, revelam os valores e normas culturais, que controlaram a sociabilidade de uma determinada época.

Na psicologia, neuropsicologia e psiquiatria, o medo é considerado uma emoção. Jung, em sua teoria, diferencia sentimento, de emoção, o que foi fundamental, uma vez que, até hoje, existem confusões sobre estes temas, na literatura.

Sobre o sentimento, Jung escreve: “O sentimento é o conteúdo, ou matéria da

função do sentimento, determinado pela discriminação atuada do próprio sentir” (JUNG, 1991[1937], §895). O sentimento é discriminativo e valorativo e se relaciona ao objeto, não pelo pensamento, mas pelos modos da recepção, de como nos relacionamos com os objetos. É uma avaliação que se difere do pensamento, por seu caráter subjetivo, “[...] é uma apercepção, segundo que, nos modos da aceitação, da rejeição, mas também da indiferença, se verifica entre o sujeito e o objeto intencional que, conforme já foi dito, pode ser constituído pelo estado de ânimo do próprio sujeito ou de um elemento específico do seu mundo (interno e externo).” (PIERI, 2002, p 450).

Continuando o processo de diferenciação entre sentimento, emoção e afeto, podemos citar Schmitt (2006), que considera importante fazer uma pequena distinção entre esses termos, uma vez que eles são utilizados de forma livre, como se tivessem o mesmo significado. Esclarece que Jung diferenciou emoção, de sentimento, explicando que, este último, pode ser voluntário, enquanto que a emoção não o é.

Prosseguindo na distinção entre emoção e sentimento, Schimitt (2006) define afeto como uma atividade mediada pelo sistema nervoso autônomo e, portanto, inconsciente. “Aparece sem avisar”. O sentimento, por sua vez, requer reflexão e consciência.

Na Conferência XXXII de 1932, Freud (1996) considera o medo uma emoção primária de defesa frente a uma situação de perigo real ou que veio a tona através de lembranças. Quando o objeto causador desta emoção aparece indeterminado, usa-se o conceito de angústia. Para a Psicanálise, angústia, na medida em que constitui um estado afetivo, é a reprodução de um evento antigo, que representou uma ameaça de perigo.

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psíquico necessário ao processo de individuação. “É um conflito que surge numa tensão entre opostos, que é iminente à vida” (HARK, 2000, p.85).

A definição acima é muito importante neste estudo que pretende falar do medo, que surge do conflito entre consciente e inconsciente no processo de desenvolvimento psíquico. Somente o contato com o conflito permitirá o conhecimento dos conteúdos, que estão aprisionando o indivíduo no seu processo de individuação.

Jung levanta o lado positivo da neurose, que pode indicar o lado da personalidade, que ainda não foi desenvolvido.

“A neurose não é apenas algo negativo, mas também algo positivo. Só mesmo um racionalismo que nega a alma é capaz e, de fato, deixa de reparar nisso, apoiado na limitação de uma visão de mundo meramente materialista. Na realidade, a neurose contém a alma do doente, ou ao menos uma parte muito essencial dela. Se a neurose, de acordo com o propósito racionalista, pudesse ser extraída, como um dente estragado, o doente não ganharia nada com isso, ao contrário, teria perdido algo essencial. Assim como um pensador que tivesse perdido a dúvida quanto à verdade de suas conclusões, como uma pessoa moralista para quem a tentação deixasse de existir ou para uma pessoa corajosa que fosse privada da existência do medo. Perder uma neurose significa tanto quanto tornar-se supérfluo, a vida perde seu cume e com isso, o sentido” (JUNG, 1993 [1934], § 355).

Seguindo nesse raciocínio Jung cria uma teoria criativa da neurose que, segundo ele admite, pode ser uma pulsão voltada para o autoconhecimento e a auto-realização.

“O doente não tem de aprender como se livrar de uma neurose, mas, sim, como

suportá-la. Pois a doença não é uma carga supérflua e sem sentido, mas é sim, o

próprio doente; ele mesmo é o “outro” que por comodismo infantil, por medo ou por outra razão qualquer, sempre procurou excluir. Deste modo, como afirma acertadamente FREUD, fazemos do eu um “lugar de ansiedade”, o que nunca aconteceria se não nos defendêssemos neuroticamente contra nós mesmos” (JUNG, 1993[1934],§ 360).

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Ramos (2006) fala sobre o desenvolvimento do processo simbólico e explica que uma boa relação mãe-bebê possibilita o desenvolvimento da capacidade de simbolizar. O adulto que não desenvolveu esta capacidade deve ter vivido uma relação com o materno de maneira insuficiente. E continua:

“Deste modo, o medo – ou qualquer outra excitação -, em vez de se transformar em processo mental, fixar-se-ia no plano físico. A excitação não contida não pode ser representada no plano consciente e traduzida verbalmente. Ela não é compreendida, ou seja, não lhe é dado um significado; portanto, permanece somente como sensação corporal desagradável de apreensão e angústia.” (RAMOS, 2006, p.59)

Isto explica alguns casos onde “o paciente se queixa de sintomas orgânicos sem se dar conta de que eles se referem a determinado sentimento conflitivo”. (RAMOS, 2006, p.61). Ramos ainda afirma que uma pessoa com um conflito reage neuroticamente, enquanto outras reagem de forma somática.

Quando o medo é projetado em objetos ou situações específicas, não consideradas ameaçadoras, podemos considerá-lo uma fobia. Os objetos fóbicos são carregados de elementos simbólicos. Jung (2000) diz que a atividade inconsciente também pode ser observada através dos sintomas fóbicos.

“É nos estados patológicos que podemos encontrar os exemplos clássicos da atividade psíquica inconsciente. Quase toda a sintomatologia da histeria, das neuroses compulsivas, das fobias e, em grande parte, da esquizofrenia, [...] tem suas raízes na atividade psíquica inconsciente. Por isso estamos autorizados a falar de uma alma inconsciente” (JUNG, 2000[1919],§297).

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4 – O MEDO NAS OBRAS COLIGIDAS DE JUNG

Ao fazermos uma revisão da literatura sobre o medo, nas obras coligidas de Jung, observamos grande quantidade de citações referentes ao medo e, também, que é um assunto importante na compreensão do desenvolvimento da psique.

No processo psicológico, medo é uma emoção sempre presente, expresso em muitas dificuldades, que aprisionam e dificultam o caminho da individuação. O medo, objeto desta dissertação, aparece nos escritos de Jung, principalmente nos conflitos da relação consciente/inconsciente e envolvem, sobretudo, conteúdos arquetípicos e complexos.

Outros teóricos desta abordagem, como Von Franz (1999; 2003), Eric Neumann (1993), Verena Kast (1997; 2003) e outros, igualmente se debruçaram sobre este tema, contribuindo de maneira significativa para o desenvolvimento da Psicologia Analítica.

Para que este estudo fique mais claro, é preciso ressaltar, de maneira didática, alguns conceitos da psicologia junguiana, entre tantos existentes, que ajudem na compreensão desta emoção. O objetivo não é o aprofundamento das definições levantadas, mas apenas uma sistematização que permita o conhecimento do medo como emoção, dentro da psicologia analítica, de forma mais clara, inclusive para os leitores que não conhecem a abordagem.

Contribuições da abordagem junguiana para o estudo do medo.

O modelo de psique junguiano aborda duas categorias: consciente e inconsciente. A psique, a personalidade como um todo, contém todos os conteúdos, tanto conscientes como inconscientes. Em 1937, Jung escreve:

“Por psique entendo a totalidade dos processos psíquicos, tanto conscientes como inconscientes” (JUNG, 1991, § 752)

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verdade, organiza as impressões do mundo interno e externo, e sua função principal é a adaptação à vida.

“Entendo por ego um complexo de representações que ajusta o centro de meu campo de consciência e que me parece ter um alto grau de continuidade e identidade consigo próprio. Por isso falo também de complexo de ego. O complexo de ego é tanto um conteúdo como uma condição da consciência, pois um elemento psíquico só estará consciente para mim quando referir-se ao complexo do ego. Como o ego é o centro do meu campo de consciência, ele não é idêntico ao todo de minha psique, mas apenas um complexo entre muitos outros.” (JUNG, [1937]1991, § 810 ).

O aspecto externo é representado pela persona (máscara em latim), aspecto arquetípico da personalidade que ajuda o indivíduo na adaptação social. Grinberg (2003) define Persona como:

“Arquétipo que utilizamos para nos apresentarmos ao mundo e aos outros. É um canal de expressão de nossa individualidade, sendo extremamente útil à nossa adaptação coletiva e no relacionamento com outras pessoas. Torna-se inadequada quando, para esconder nossa sombra (pólo oposto), a empregamos de forma unilateral e rígida”. (GRINBERG, 2003, p.229)

O ego nasce, a partir do Self (si mesmo), o centro do psiquismo. Assim, para Jung, o inconsciente e o consciente são considerados parte da psique.

“... o ego ao nascer está imerso na totalidade do Self, sem haver discriminação

entre o eu e o não eu. O estado pré-egóico é o estado paradisíaco, unitário, não dividido. O surgimento da consciência vem da ruptura dessa totalidade indiscriminada. Lentamente, certos conteúdos do inconsciente vão se separando e formando a consciência”. (Ramos, 1994, p.14).

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Segundo Jung (1991[1993], p.426) utilizo o termo ‘individuação’ para indicar o processo por meio do qual uma pessoa se torna um indivíduo psicológico, uma unidade, um todo separado e indivisível”.

A meta da individuação é a autoconsciência, é unir os pólos opostos consciente/inconsciente do eixo ego-self, após um processo onde o ego nasceu, cresceu e se desenvolveu. A individuação une essas duas polaridades, para que o indivíduo torne-se individuado, isto é, não dividido. (Ruby; 1998). A conscientização de alguns aspectos da Sombra faz parte do processo de individuação que, por se opor à Persona, traz aspectos sombrios da personalidade e representa a parte obscura, inferior e indiferenciada da psique.

O inconsciente, para Jung, é um conceito exclusivamente psicológico, “que abrange todos aqueles conteúdos ou processos psíquicos não-conscientes, isto é, que não se relacionam de modo perceptivo com o ego” (JUNG, 1991[1937], p.424). É de onde flui a vida e divide-se em pessoal e coletivo.

Faria (2003) descreve o inconsciente segundo a Psicologia Analítica:

“Para além da consciência, que Jung compara com uma película que recobre a vastidão do inconsciente, temos o inconsciente pessoal, que muitas vezes o autor denominou de sombra. No inconsciente pessoal estão os conteúdos que foram constituídos na vivência pessoal do indivíduo, mas que foram esquecidos por se tornarem energicamente fracos, ou por terem sido reprimidos. Para a Psicologia Analítica, no entanto, o inconsciente não se reduz ao pessoal. À medida que nos afastamos da consciência, penetramos numa região mais inacessível, em que se colocaria o mundo arquetípico, o inconsciente coletivo, fonte das possibilidades humanas, composto de estruturas inerentes ao ser: os arquétipos.” (FARIA, 2003, p.30)

O Inconsciente coletivo pode ser comparado a uma usina geradora de símbolos, a serviço da ampliação da consciência. “O inconsciente junguiano não é apenas o lugar do reprimido, mas também uma fonte de possibilidades criativas” (FARIA, 2003, p.32)

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amedrontadoras e avassaladoras, cujo objetivo último, no entanto, é o de acordá-lo para uma transformação.” (FARIA 2003, p.32)

As estruturas do inconsciente coletivo são os arquétipos, que são os protótipos, “as conecções mitológicas, os motivos e imagens que podem nascer de novo, a qualquer momento e lugar sem tradição ou migração histórica”. (JUNG, 1991, p.417).

Segundo Grinberg (2003), os arquétipos podem ser chamados também de imagens primordiais. Eles coordenam o desenvolvimento da consciência. Por um lado estão ligados a instintos (biologia, impulsos) e por outro a imagens (idéias, inspiração criativa). São bipolares, pois apresentam aspectos negativos e positivos da experiência humana. Quanto mais inconsciente um arquétipo, mais ele nos possui.

O Self (si mesmo) é o arquétipo central da psique e coordena o desenvolvimento de todos outros arquétipos. É o centro da personalidade, da totalidade. Atua dentro da experiência do ser humano através de símbolos, imagens arquetípicas”. (JUNG, 1991, p.442).

O símbolo é um conceito importantíssimo dentro da Psicologia Analítica, e também para este estudo, pois integra a consciência e o inconsciente. Os símbolos emergem dos arquétipos constelados na relação do indivíduo como mundo e “tem por função revelar e anunciar ao indivíduo e ao coletivo as direções necessárias ao seu desenvolvimento”. (FARIA, 2003).

“Todo produto psíquico que tiver sido por algum momento a melhor expressão possível de um fato até então desconhecido ou apenas relativamente conhecido pode ser considerado um símbolo se aceitarmos que a expressão pretende designar o que é apenas pressentido e não está ainda claramente conhecido.” (JUNG, 1991)

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Medo nas Obras Coligidas de C. G. Jung – revisão bibliográfica

O estudo do medo, segundo os escritos de Carl Gustav Jung em suas obras coligidas, visa ampliar a compreensão deste fenômeno da psique, que é muito observado na prática clínica.

Os trechos associados a esta emoção, foram retirados de volumes diversos e identificados em categorias, privilegiando os conceitos mais abrangentes para uma melhor fundamentação teórica deste afeto.

Jung, em seus escritos, fala muitas vezes sobre o medo, um sintoma, para ele, de um distúrbio originário, principalmente, do conflito entre os opostos consciente/inconsciente. Esse conflito aparece em fases diferentes do desenvolvimento da personalidade e é interessante observar como o medo do inconsciente permeia diversos distúrbios do desenvolvimento.

No volume I, Estudos Psiquiátricos, escrito entre 1902 e 1905, Jung faz uma primeira observação sobre o medo.

“Talvez a maioria dos histéricos que frui plenamente de seus sentidos seja doente porque possui grande massa de recordações, dotada de muita emoção e, por isso, profundamente arraigada no inconsciente; já não pode ser controlada e tiraniza a consciência do doente. [...] Os doentes procuram excluir suas emoções da vida diária; por isso, de noite elas os atormentam com sonhos ruins, e de dia os importunam com repentinos ataques de ansiedade precordial, inibem as forças de ação [...]” (JUNG, 1994[1905],§ 176).

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Em Estudos Experimentais, volume II, Jung descreve o método das associações, desenvolvido por ele, em 1904 , pelo qual, pela simples reação a uma palavra estímulo, pode-se observar a presença, ou não, de um complexo. Em decorrência desses estudos desses estudos, formulou a “teoria dos complexos”, que ocupa lugar de destaque em sua concepção geral das estruturas e processos psíquicos. Fazendo a análise de um de seus experimentos de associações, Jung observa: “Pessoas com complexos bem vivos têm muitas vezes certo medo do futuro.” (JUNG, 1997 [1904] § 675).

Este pensamento nos mostra uma primeira idéia sobre a possibilidade de aprisionamento em um estágio do desenvolvimento que ainda não está bem elaborado. O indivíduo sente-se inseguro emocionalmente e, por isso, com medo da próxima etapa da vida.

Em ensaios encontrados no volume III, Psicogênese das doenças mentais, Jung continua desenvolvendo sua teoria dos complexos, ressaltando o valor afetivo destes. Nesta época, Jung usava o termo afeto como sinônimo de emoção.

“A realidade dispõe de tal modo que o ciclo pacífico das idéias egocêntricas seja constantemente interrompido por idéias de forte tonalidade afetiva, os chamados

afetos. Uma situação de ameaça e perigo põe à parte o jogo calmo das idéias

substituindo-o por um complexo de outras idéias com tonalidade afetiva mais forte. O novo complexo desloca tudo mais para um segundo plano, e aparece, momentaneamente, como mais evidente, porque inibe completamente qualquer outra idéia; das idéias diretamente egocêntricas, apenas permite substituir aquelas que dizem respeito à sua situação, podendo inclusive, sob determinadas condições, recalcar as idéias contrárias mais fortes até um estado (...) de inconsciência. Ele possui agora a tonalidade de atenção mais forte.”. (JUNG, 1990 [1906], § 84)

E completa:

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a inervação corporal, permitindo que o complexo de associações se torne logo evidente. Devido ao medo, inúmeras sensações corporais se alteram. Assim sendo, o eu normal perde a tonalidade de atenção. O eu normal deve ceder às sensações mais fortes do novo complexo, embora, em geral, sem se sujeitar a elas totalmente, permanecendo num segundo plano, como um afeto do eu. Isso ocorre porque mesmo os afetos muito fortes não são capazes de alterar todas as sensações que fundamentam o eu. Como a experiência cotidiana nos mostra, o afeto do eu é um complexo fraco que possui uma força de constelação bem inferior ao complexo afetivo.” (JUNG, 1990 [1906], § 86)

Quando a situação de perigo passa, o complexo perde sua força, mas mesmo assim, alguns componentes corporais e psíquicos permanecem presentes; “os joelhos continuam a tremer, o coração ainda bate sobressaltado, o rosto permanece vermelho, ou pálido, a sensação é de que a pessoa quase não se refez do medo” (1990 [1906], § 87). Através do teste de associação, Jung observou que, nas reações das palavras-estímulo, está presente a idéia de inibição emocional, “A maioria dos complexos encontra-se em estado de repressão, pois, geralmente, dizem respeito a segredos íntimos, delicadamente escondidos, que a pessoa não quer ou não pode revelar”. (1990 [1906], § 87). Aqui podemos encontrar a idéia de que o ego se amedronta diante do complexo e do inconsciente.

No volume VI, Tipos Psicológicos (1991), publicado em 1920, encontramos várias citações sobre a emoção do medo, sempre expressas nas definições dos tipos. A questão do medo aparece muitas vezes nas descrições da atitude introvertida e também nas do tipo intuitivo. Fica claro que é uma emoção que pertence à natureza humana, e, portanto, inerente a todos os seres, mas que fica mais evidente nos tipos acima descritos, por estar relacionada à função superior.

Sobre o tipo extrovertido e o medo Jung escreve:

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criança introvertida, porque é menos reflexiva e, via de regra, não tem medo. [...] gosta de levar seus empreendimentos ao extremo e, por isso, se expõe a riscos. Tudo que é desconhecido parece atraente”. (JUNG, 1991 [1920], §961)

Ao falar sobre a criança introvertida, ressalta o receio frente aos objetos desconhecidos:

“[...] um dos primeiros sinais de introversão numa criança é sua natureza reflexiva e pensativa, seu pronunciado receio e, inclusive, medo dos objetos desconhecidos. Bem cedo se manifesta também uma tendência de auto-afirmação perante os objetos e tentativas de dominá-los. O desconhecido é olhado com desconfiança. Em geral, coloca-se forte resistência contra influencias externas. A criança quer ter seu próprio caminho e, de forma alguma, aceita um caminho estranho que não consegue entender por si só. Quando faz perguntas não é por curiosidade ou sensacionalismo, mas quer nome, significados e explicações que lhe dêem segurança subjetiva em relação ao objeto. [...] na criança introvertida encontramos bem cedo a atitude de defesa característica do introvertido adulto, contra o poder dos objetos, [...] como se estes possuíssem um poder sobre ele, contra o qual precisa defender-se.(JUNG, 1991 [1920], §962 )

E descreve assim a atitude do introvertido:

“O inconsciente cuida, antes de tudo, da relação com o objeto e de tal forma a destruir completamente a ilusão de poder e a fantasia de superioridade da consciência. O objeto assume dimensões assustadoras apesar de tentativas conscientes para rebaixá-lo. Por isso, o eu se esforça mais ainda para separar-se do objeto e dominá-lo. Finalmente o eu se cerca de um sistema formal de defesas que procura preservar, ao menos, a ilusão de superioridade.”. (JUNG, 1991 [1920], § 698)

E sua relação com o objeto:

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sobre uma influencia estranha. Os objetos tem para ele qualidades poderosas e aterradoras que não consegue ver conscientemente, mas que julga perceber pelo inconsciente. Como sua relação consciente com o objeto é relativamente reprimida, ela passa pelo inconsciente onde é carregada com as qualidades deste. Estas qualidades são principalmente arcaico-infantis. Por isso torna-se primitiva sua relação com o objeto, assumindo todas aquelas peculiaridades que caracterizam a relação primitiva com o objeto. É como se o objeto possuísse , então, força mágica. Os objetos estranhos e novos despertam pavor e confiança, como se trouxessem perigos desconhecido; objetos tradicionais estão como que dependurados em sua alma por fios invisíveis, toda mudança parece incômoda, quando não perigosa, pois parece significar uma animação mágica do objeto.” .

(JUNG, 1991[1920], §699)

No livro O eu e o inconsciente, volume VII/2, de 1928, Jung diz que não devemos supervalorizar nossa fantasia, mas “há no homem uma estranha tendência a fazê-lo, e toda a aversão contra a fantasia, assim como a desvalorização crítica do inconsciente nascem, basicamente, do medo que se tem dessa tendência.” (JUNG, 2004[1928], §352). E volta a falar do medo do inconsciente, desta vez, citando o inconsciente coletivo e o perigo da identificação com a persona.

“Quando o eu se identifica com a persona, o centro individual jaz no inconsciente. Ele torna-se como que idêntico ao inconsciente coletivo, porquanto toda personalidade é por assim dizer apenas coletiva. Em tais casos há sempre uma intensa força de sucção rumo ao inconsciente e ao mesmo tempo uma fortíssima resistência consciente contra isso, manifestando-se um medo da destruição dos ideais conscientes. [...] O inconsciente coletivo constitui uma parte da consciência, ao passo que uma grande parte do mundo real configura um conteúdo inconsciente. Tais pessoas sentem um medo demoníaco diante da realidade, que corresponde àquele que o homem comum experimenta diante do inconsciente.” (JUNG, 2004[1928], p.152)

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sintética do símbolo” (§99). Esse encontro com o homem primitivo causa temores por causa de sua natureza instintiva, tão rejeitada pelo homem consciente. Contra a força da “natureza instintiva do primitivo se levanta o princípio regulador da individuação. (...) A força integradora da individuação é tão grande, que junto aos instintos, formam um par de opostos” E completa: “Essa contradição é expressão e possivelmente também a raiz daquela tensão que chamamos de energia psíquica” (JUNG, 1983 [1928], §99).

No volume IV, Freud e a Psicanálise (1929) Jung expõe suas colaborações com Freud, assim como também esboça suas idéias fundamentais e diferenças de pressupostos entre sua teoria e a freudiana. O estudo “A divergência entre Freud e Jung”, apresentado em 1929, mostra as opiniões de Jung em relação á psicanálise: “o que pretendo é colocar limites à terminologia avassaladora do sexo que vicia toda discussão da psique humana e, também, colocar a própria sexualidade em seu lugar”. (JUNG, 1989[1929], §779); “É muito importante encontrar uma nova atitude ou um novo modo de vida que forneça um declive conveniente para a energia encurralada”; (JUNG, 1989[1929], §780). Um fator importante, relacionado ao medo, nesse volume, é quando ele diz:

“O psicoterapeuta não deve refugiar-se no ângulo patológico e recusar terminantemente a idéia de que a psique doente é uma psique humana que, apesar de sua doença, participa de toda vida psíquica da humanidade. Ele tem que admitir, inclusive, que o eu está doente porque foi cortado do todo e porque perdeu sua conexão com a humanidade e com o espírito. O eu é realmente o lugar do medo, como diz acertadamente Freud” (JUNG, 1989[1929], §782).

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“Hoje em dia podemos considerar como mais ou menos certo que os complexos são

aspectos parciais da psique dissociados. A etiologia de sua origem é muitas vezes

um chamado trauma, um choque emocional, ou uma coisa semelhante, que arrancou fora um pedaço da psique. Uma das causas mais freqüentes é, na realidade, um conflito moral cuja razão última reside na impossibilidade aparente de aderir à totalidade da natureza humana. Esta impossibilidade pressupõe uma dissociação imediata, quer a consciência do eu saiba quer não. Regra geral há uma inconsciência pronunciada a respeito dos complexos, e isto naturalmente lhes confere uma liberdade ainda maior. Em tais casos, a sua força de assimilação se revela de modo todo particular, porque a inconsciência do complexo ajuda a assimilar inclusive o eu, resultando daí uma modificação momentânea e

inconsciente da personalidade, chamada identificação com o complexo. Na idade

média este conceito completamente moderno tinha um outro nome: chamava-se

possessão”. (JUNG: 2000 [1934], §204)

“A tendência de anular a realidade dos complexos, assimilando-os, prova não sua

futilidade, mas a sua importância. É a confissão negativa do temor instintivo do

homem primitivo diante de coisas obscuras, invisíveis e que se movem por si mesmas. Este temor manifesta-se, de fato, no primitivo (grifos do autor), com o chegar da escuridão da noite, do mesmo modo que entre nós é durante a noite que os complexos ensurdecidos, como bem o sabemos pelo bulício da vida, levantam sua voz com mais força, afugentando o sono ou pelo menos perturbando-o com sonhos maus.” (JUNG:2000[1934], §209)

“Os complexos, com efeito, constituem as verdadeiras unidades vivas da psique

inconsciente, cuja existência e constituição só podemos deduzir através deles.”

(JUNG, 2000 [1934], §210).

No capítulo sobre alma e morte, Jung levanta dois pontos importantes para a compreensão do medo, facilmente observáveis em nossa prática clínica: o medo da morte e o medo da vida, como podem observar no parágrafo a seguir:

(34)

vida, mas deveríamos dizer a mesma coisa quando são velhos, ou seja, que eles têm medo também das exigências normais à vida”. (JUNG, 2000[1934], §797)

Em Psicologia e Religião, volume XI/1 de 1939, Jung discute o fator religioso, em seu contexto universal, e considerou o fenômeno da experiência religiosa, uma vivência psicológica bastante significativa. Considera que esse fenômeno pode ser reconhecido como conteúdos arquetípicos da alma humana, as representações primordiais coletivas que estão na base das diversas formas de religião”. Em seus escritos, podemos perceber que faz questão de definir o que entende por religião “[...] o termo religião designa a atitude particular de uma consciência transformada pela experiência do numinoso” (JUNG, §9; [1939]1984). Não se refere à religião como profissão de fé.

“A numinosidade é, segundo Jung, a característica principal do arquétipo, uma espécie de “carga emocional que se transfere para a consciência sempre que surge uma imagem arquetípica (Briefe III, 52) (...) na psicologia dos complexos, o conceito de numinosidade expressa forte poder amedrontador das forças psíquicas” (HARK, 2000)

A experiência numinosa pode ser aterrorizadora e, podemos compará-la, com alguns transtornos psíquicos, como a neurose, que causam medo por seu poder de subjugação. Na neurose “o indivíduo sente-se derrotado por algo irreal (...) algo que é mais forte do que ele mesmo” (JUNG, 1984[1939]; §12).

“Na maioria das pessoas há uma espécie de deisidaimonia em relação aos conteúdos inconscientes. Além de todo receio natural, de todo sentimento de pudor e de tacto, existe em nós um temor secreto dos perils of the soul (dos perigos da alma)” (JUNG, 1984[1939], §23).

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No volume XI/2, Interpretação Psicológica do Dogma da Trindade, de 1940, Jung fala, entre outras coisas, sobre as transições das fases da vida e do desenvolvimento da psique. Discute o caráter numinoso destas mudanças, que muitas vezes aparece de forma aterrorizante, principalmente se não esclarecermos os acontecimentos da vida sob a luz de dados conscientes e inconscientes, de forma complementar.

“É evidente que nestas mudanças não se trata de fatos banais da vida cotidiana, mas de mudanças que afetam o destino do homem. Semelhantes transições, em geral, têm um caráter numinoso: são ensinamentos, iluminações, comoções, reveses, experiências religiosas, isto é, místicas, ou outro fator de natureza semelhante. O homem moderno tem noções de tal modo confusas acerca do que seja a “vivência mística”, ou um medo tão racionalista da mesma, que, em certos casos, desconhece a natureza de sua experiência e repele ou recalca seu caráter numinoso, o qual é tratado como um fenômeno obscuro e irracional, ou mesmo patológico. Estas interpretações errôneas se baseiam numa realização insuficiente e numa compreensão defeituosa das grandes conexões que, de modo geral, só esclarecem plenamente quando os dados da consciência se acrescentam também os dados do inconsciente. Sem estes, muitas lacunas permanecem em aberto na série de experiências da vida de um homem e com elas são freqüentíssimas as ocasiões de racionalizações insatisfatórias. Quando existe uma tendência, por ligeira que seja, para a dissociação, ou uma fleuma com inclinação para um estado habitual de inconsciência, pode-se preferir as falsas causalidades á verdade.” (JUNG, 1979[1940], §274).

A emoção latente nos períodos de transição é uma experiência de caráter numinoso, que por ser irracional é responsável, muitas vezes, pelo temor da perda da consciência, medo de estar possuído, medo dos fantasmas do inconsciente.

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mãos de ferro, não a tivesse colocado em seu devido lugar” (JUNG, 1983 [1942], §68) e cita Nietzsche, que reconheceu que devia tudo a sua doença.

Jung coloca o tema dos opostos, o conflito entre consciente e inconsciente, como fator que facilita o desenvolvimento da consciência, o ideal sobre-humano.

“O problema dos opostos como principio inerente à natureza humana constitui uma

etapa a mais no desenvolvimento do nosso processo de autoconhecimento. [...]

Comumente as neuroses infantis são produzidas por um choque entre as forças da realidade e uma atitude infantil insuficiente, caracterizada, em sua causa, por uma dependência anormal de pais reais ou imaginários [...] mas existem muitas neuroses que só aparecem na idade madura ou que se agravam de tal forma que os pacientes se tornam incapacitados para o trabalho [...] nestes casos é fácil comprovar que em sua juventude já existia uma excessiva dependência dos pais.” (JUNG, 1983 [1942], §88).

E ressalta a importância da vivência do conflito entre opostos, como fatores necessários ao equilíbrio, num sistema de auto-regulação que é a psique.

No volume XVII, O Desenvolvimento da Personalidade, Jung fala sobre psicologia infantil, seus ganhos e dificuldades. Podemos observar através do quarto prefácio, de 1945, como foi, com o tempo, reformulando e atualizando seus estudos nessa área. Para falar da Psicologia Analítica voltada para crianças, em conferências proferidas em Londres, Jung fala de seus trabalhos que contribuíram para o desenvolvimento da psicologia, entre eles o estudo dos complexos de carga emotiva, causadores de muitas perturbações psíquicas. Cita também Freud, ressaltando o valor da descoberta do inconsciente e a metodologia para explorá-lo.

Nestas conferências ficam claras as suas preocupações com o desenvolvimento da personalidade e com a psicologia infantil e, como podemos falar de individuação desde os primeiros momentos da vida psíquica.

Para a presente pesquisa, é importante destacar o momento onde Jung fala sobre o desenvolvimento da consciência e o medo humano do desconhecido:

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unido a um alargamento do âmbito da consciência, e que cada passo adiante representa uma conquista extremamente repleta de dor e de esforço. Poder-se-ia quase afirmar que nada é mais odioso para o homem do que renunciar a uma parte do seu inconsciente, por menor que ele seja. O homem sente um temor profundo diante do desconhecido. (...) Se até o adulto, considerado como maduro, teme o desconhecido, por que então não deveria hesitar uma criança em dar um passo à frente, em direção do desconhecido?” (JUNG, 2002[1945], §146).

A idéia de temor diante do novo pode explicar, entre outros aspectos do desenvolvimento emocional, situações de simbiose, como veremos no próximo capítulo. “Como apegar-se demasiadamente aos pais é desnatural e doentio, assim também o medo excessivo diante do desconhecido é igualmente doentio.” (JUNG, 2002[1945],§146).

O volume V, Símbolos da transformação, de 1950, é uma edição revista e ampliada da primeira publicação, em 1911. É uma referência nos escritos de Jung, considerado por ele mesmo, no prefácio à quarta edição, como “um marco, colocado no lugar onde dois caminhos se separam” (p.XIV). Foi considerada a primeira obra maior, escrita depois de seu encontro com Freud.

A importância desse volume, neste estudo, se deve ao fato de relatar o caso de Miss Miller, um exemplo típico das manifestações do inconsciente, e também, por conter textos que discutem a transformação e regressão da libido, o medo da loucura, da morte e também da vida.

No capítulo intitulado, O canto da mariposa, podemos acompanhar a discussão de um caso onde o medo do desconhecido, do inconsciente e do desejo, pode levar o neurótico a desistir da vida, cometendo o que Jung chamou de um suicídio parcial.

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envolvido na perigosa luta. Quem renuncia a façanha de viver, precisa sufocar dentro de si mesmo o desejo de fazê-lo, portanto cometer uma espécie de suicídio parcial. Isto explica as fantasias de morte que freqüentemente acompanham a renúncia ao desejo.” (JUNG, 1986[1950], §165)

Neste mesmo volume, Jung fala sobre o medo do mundo interno, que muitas vezes pode ser mais pavoroso que o do mundo externo, principalmente quando negado. É o temido encontro com o inconsciente.

“Mas a realidade externa não é a única fonte de medo que cerceia os instintos; o homem primitivo muitas vezes teme ainda mais uma realidade “interna”, o mundo dos sonhos, das almas do outro mundo, dos demônios e deuses, e também dos feiticeiros e bruxas, embora nosso racionalismo pense poder eliminar esta última fonte de medo apontando sua irrealidade. Trata-se, no entanto de realidades psíquicas internas, cuja natureza irracional não é influenciável por raciocínios lógicos.”. (JUNG, 1986 [1950], §221)

Jung disse que, mesmo com o esforço racional de avaliação, “a realidade interna é e será uma fonte de medo genuína, que se torna tanto mais perigosa quanto mais for negada” (1986[1950]; § 222). A emoção, nesse caso, é mais poderosa do que o pensamento.

Podemos observar nos três parágrafos abaixo, o medo sob a ótica das transformações da libido, da regressão e progressão, aprisionando ou libertando o indivíduo no caminho da individuação.

“A libido progressiva, que domina o consciente do filho, exige separação da mãe; mas a isto se opõe a saudade da criança pela mãe sob a forma de uma resistência psíquica, que na neurose se expressa através de inúmeros temores, isto é, o medo da vida. Quanto mais o indivíduo foge à adaptação tanto mais aumenta seu medo, que então o acomete em todas as oportunidades e em grau cada vez maior, impedindo-o. O medo do mundo e dos homens causa um recuo maior, num círculo vicioso, o que leva ao infantilismo e à volta “para dentro da mãe” (JUNG, 1986[1950], §456)

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produz medo e transforma-se em medo. O medo parece vir da mãe, mas na realidade é o medo mortal do indivíduo instintivo, inconsciente, que, em conseqüência do contínuo recuo diante da realidade, está excluído da vida”. (JUNG, 1986[1950], §457)

“O espírito do Mal é o medo, a proibição, o antagonista que se opõe à vida que almeja duração eterna assim como a toda grande ação isolada, que instila no corpo o veneno da fraqueza e da idade através de traiçoeira picada de serpente; ele é toda tendência ao retrocesso, que ameaça fixar-se na mãe, bem como dissolver e extinguir o inconsciente. Para o indivíduo heróico, o medo é um desafio e uma missão, pois só a audácia pode libertar do medo. E quando o homem não ousa, alguma coisa se rompe no sentido da vida e todo o futuro está condenado a uma mediocridade vã, a um crepúsculo iluminado só por fogos-fátuos.” (JUNG, 1986[1950], §551)

O medo da vida e o medo da morte, podem também explicar situações de relação simbiótica entre mãe e filho, a necessidade da interdição paterna e, também, o medo de crescer presente no Puer Aeternus.

“A separação do filho de sua mãe representa a despedida do homem da inconsciência do animal. Só pela intervenção da proibição do incesto pode surgir o indivíduo cônscio de si mesmo, que antes de modo irreflexivo se identificava com a parentela como uma coisa só. Só assim nasceu a idéia de morte individual e definitiva. Deste modo, pelo pecado de Adão, que consistiu justamente na conscientização, a morte entrou no mundo. O neurótico que não consegue separar-se da mãe tem boas razões: afinal é o medo da morte que o prende a ela. (...) Provavelmente deve-se considerar a lei, que em última análise e originalmente se exprime como “proibição do incesto”, como obrigação a domesticação” (JUNG, 1986 [1950], §415)

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Os arquétipos e o inconsciente coletivo, volume IX/1 (1954), é um livro onde Jung desenvolve os conceitos de arquétipos e inconsciente coletivo, que são fundamentais para a compreensão das idéias da psicologia analítica. Para o nosso estudo, vale ressaltar o que ele falou sobre o medo nesse volume.

O medo das emoções do inconsciente é tão forte, que obrigou o homem civilizado a desenvolver a consciência.

“Mal o inconsciente nos toca e já o somos, na medida em que nos tornamos inconscientes de nós mesmos. Este é o perigo originário que o homem primitivo conhece instintivamente, por estar ainda tão próximo deste pleroma, e que é objeto de seu pavor. Sua consciência ainda é insegura e se sustenta sobre pés vacilantes. Ele ainda é infantil, recém saído das águas primordiais. Uma onda do inconsciente pode facilmente arrebentá-lo e ele se esquecer de quem era fazendo coisas nas quais não se reconhece. Por isso, os primitivos temem os afetos (emoções) descontroladas, pois nele a consciência submerge com facilidade, dando espaço à possessão. Todo o esforço da humanidade concentrou-se por isso na consolidação da consciência. Os ritos serviam para esse fim, assim como as représentations

collectives, os dogmas; eles eram os muros construídos contra os perigos do

inconsciente, os perils of the soul. O rito primitivo, consiste, pois, em exorcizar os espíritos, quebrar feitiços, desviando dos maus agouros; “. (JUNG, 2001[1954], §47)

No capítulo sobre o simbolismo da mandala, Jung, fala de seus significados e suas funções, entre as quais podemos destacar a protetora, a terapêutica e a organizadora, importantes em situações desordenadas e conflitivas. “Trata-se de Yantras no sentido indiano, isto é, de instrumentos de meditação para mergulhar em si mesmo (...) Ao mesmo tempo, as Yantras servem ao estabelecimento da ordem interior, encontrando-se por isso freqüentemente em série de imagens; aparecem logo depois de estados caóticos, desordenados, conflitivos ligados ao medo” (JUNG, 2001 [1950] §710).

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relata a grande façanha que é vencermos os temores e que esta experiência é importantíssima, mas não a única no processo de individuação, que envolve muitos movimentos internos.

“É muito maior do que se imagina o número de pessoas que têm medo do inconsciente. Tais pessoas têm medo até da própria sombra. Quando se trata da anima e do animus, este medo cresce até se transformar em pânico. A sizígia (animus-anima) representa, na realidade, aqueles conteúdos de uma psicose (e de modo claríssimo nas formas paranóides da esquizofrenia). O próprio fato de vencer tal medo, quando isso ocorre, já representa uma façanha moral extraordinária, mas não é a única condição a ser satisfeita no caminho que conduz à verdadeira experiência do si-mesmo.” (JUNG, 1988 [1950], §62).

No volume XIII, Estudos Alquímicos, de 1954, Jung relaciona imagens do inconsciente e símbolos da alquimia. Os textos que resultaram destes estudos trouxeram muitos mal-entendidos, mas aos poucos suas palavras puderam ser mais compreendidas, quando Jung relaciona alquimia e individuação, como parte do processo de autoconhecimento da psique humana. Jung (2003) explica no prefácio: “A alquimia medieval representa o traço de união entre a gnose e os processos do inconsciente coletivo que podem ser observados no homem de hoje.”.

Através de estudos de outras culturas e sua filosofia, Jung pôde fazer paralelos para uma melhor compreensão de um de seus principais pressupostos, o inconsciente coletivo.

‘[...] assim como a anatomia do corpo humano é a mesma, apesar das diferenças raciais, assim também a psique possui um substrato comum, que ultrapassa todas as diferenças de cultura e de consciência. A este substrato dei o nome de inconsciente coletivo. A psique inconsciente, que é comum a toda a humanidade, não consiste apenas de conteúdos aptos a se tornarem conscientes, mas de predisposições latentes a reações idênticas.”. (JUNG, 2003 [1954], §11)

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“mais do instinto do que da vontade consciente, e mais do afeto do que do juízo racional” (p.21). Quando isso ocorre, pode ocorrer a desadaptação em situações que “exijam um esforço moral mais alto” (p.21). Aqui podemos observar que o conflito consciente/inconsciente, tem uma função de manter o ser humano num campo mais conhecido, portanto mais seguro. Sabemos que o homem, em seu processo de individuação precisa do outro para sobreviver física e psicologicamente. Para isso o ego coloca na sombra o desejo ameaçador para a vida em grupo. A moral pode ser considerada um processo adaptativo, derivado da ampliação da consciência.

“Os instintos bastam apenas para um tipo de natureza que permanece mais ou menos invariável. O indivíduo que depende de um modo preponderante do inconsciente, e é menos propenso a escolha consciente, tem a tendência para um acentuado conservadorismo psíquico. Este é o motivo pelo qual os primitivos não mudam no decurso de milênios, sentindo medo diante de tudo o que é estranho e incomum. Tal característica poderia levá-los a desadaptação e, portanto, aos maiores perigos anímicos, isto é, uma espécie de neurose. Uma consciência mais elevada e mais ampla, que só surgirá mediante a assimilação do desconhecido, tende para a autonomia, para a revolta contra os velhos deuses, os quais não são mais do que as poderosas imagens primordiais a que a consciência se achava subordinada.

Quanto mais poderosa e independente se torna a consciência e, com ela, a vontade consciente, tanto mais o inconsciente é empurrado para o fundo, surgindo facilmente a possibilidade de a consciência em formação emancipar-se da imagem primordial inconsciente”. (JUNG, 2003 [1954], §12, 13).

O perigo para a psique é quando ocorre um desenvolvimento unilateral, em que os instintos ficam atrofiados. A consciência fica “desenraizada”, podendo sucumbir a uma neurose, numa tentativa psíquica de se restabelecer o equilíbrio. O desenvolvimento que ocorre com sabedoria, não segue à risca as realizações culturais, não se afasta totalmente das imagens primordiais. O desafio é o equilíbrio entre as duas forças: consciente e inconsciente. Jung encontrou em filosofias orientais, como por exemplo, o I Ching, a valorização do equilíbrio entre os opostos.

Referências

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