Relatos de Experiência
Projeto Biblioteca Aprendiz do Centro
Comunitário Ludovico Pavoni - CCLP
Rosana Formigoni Telles
Bibliotecária graduada pela FESP-SP (Fundação Escola de Biblioteconomia de São Paulo); com
especialização em Sistemas Automatizados de Informação, PUCAMP (Pontifícia Universidade Católica de Campinas); Master in Curriculum and Teaching (Michigan State University) e com pós-graduação em Gestão do Conhecimento, SENAC-SP.
Resumo: As bibliotecas comunitárias quando sob a direção de um bibliotecário têm cumprido papel de
extraordinária importância no desenvolvimento de competências informacionais, formação de leitores e como espaço para a pesquisa, a curiosidade e o crescimento cultural e intelectual de populações mais carentes. Este projeto ganhou o IX Prêmio Laura Russo sob o tema Empreendedorismo Social em 2010.
Palavras-chave: Biblioteca comunitária; Centro Ludovico Pavoni; Projeto Biblioteca Aprendiz; Prêmio Laura Russo
1 NATUREZA DA INSTITUIÇÃO
O Centro Comunitário Ludovico Pavoni – CCLP é uma das inúmeras instituições sem
fins lucrativos que atuam no país, prestando serviços às comunidades carentes. Criado
em 1995, por iniciativa dos padres da Ordem Pavoniana1, oriunda da Itália, o centro
atende crianças, adolescentes e adultos moradores das favelas Real Parque e Jardim
Panorama.
O CCLP assumiu para si a responsabilidade de contribuir para a melhoria da qualidade
de vida de moradores das duas comunidades, atuando de forma a elaborar programas
que despertem o exercício da coletividade, da cidadania e da eficiência no trabalho.
Programas como o Viva o Leite (que distribui mensalmente 6.000 litros de leite) e Cesta
Básica (280 cestas mensais, com prioridade para as famílias dos 120 alunos
matriculados no centro) incluem as famílias ligadas ao centro e às comunidades das
favelas, garantindo o comprometimento dos pais com a educação suplementar
proporcionada aos seus filhos, regularmente matriculados no CCLP.
Sob orientação de uma diretora pedagógica e graças ao trabalho voluntário de vários
profissionais, os alunos matriculados no CCLP – quando não se encontram na escola
municipal ou estadual que, obrigatoriamente devem frequentar – participam dos projetos
Pirilampo e Crescer, oferecidos pelo centro.
1
O Projeto Pirilampo atende crianças de 4 a 11 anos, trabalhando no sentido de integrar
os aspectos emocional, cognitivo e social por meio de atividades pedagógicas,
recreativas e culturais.
O Projeto Crescer atende adolescentes entre 12 e 14 anos, orientando-os para a
construção dos seus projetos de vida de maneira crítica, consciente e cidadã, por meio
de atividades pedagógicas, recreativas e culturais que os despertem para a realidade do
mercado de trabalho.
1.1 Natureza do Entorno
Segundo um levantamento realizado sobre as favelas de São Paulo pela prefeitura do
município2, entre as 2.018 favelas existentes na cidade, a do Real Parque pode ser
considerada – como “brincam” seus moradores – “uma favela de primeiro mundo” que,
por não ser tão populosa (menos de 3.000 habitantes, de acordo com dados de 2.000 do
IBGE) seus problemas, se comparados às grandes favelas da capital, não são tão sérios.
A proximidade de ruas asfaltadas por onde circulam linhas de ônibus urbanos, as vielas
cimentadas, o esgoto parcial canalizado pelos próprios moradores e a disponibilidade de
água e luz, graças aos “gatos” – ou ligações clandestinas – não eliminam a opressão
sentida pelos moradores da favela que, com o passar dos anos e por causa da
especulação imobiliária, foram-se encolhendo para dar lugar a bairros de apartamentos e
casas de classe média ascendente e alta. Essas pessoas são forçadas a vivenciar o
desnível social imposto por seus vizinhos ricos e por projetos imobiliários milionários que,
ao se instalarem nos limites da favela, além de acentuarem a sensação de abismo social
– com suas instalações voltadas aos milionários da cidade – tentam, com a força do
dinheiro, adquirir seus pequenos lotes de terra, afastando-os de suas casas, de seus
universos.
2 RESPONSÁVEL
A responsável pelo projeto é a bibliotecária Rosana Formigoni Telles, graduada pela
FESP-SP (Fundação Escola de Biblioteconomia de São Paulo); com especialização em
Sistemas Automatizados de Informação, PUCAMP (Pontifícia Universidade Católica de
Campinas); Master in Curriculum and Teaching (Michigan State University) e com
pós-graduação em Gestão do Conhecimento, SENAC-SP.
3 ENDEREÇO
O Centro Comunitário Ludovico Pavoni está localizado à Rua Barão de Castro Lima, 478,
no Real Parque, São Paulo.
Endereço do site: http://www.ccludovicopavoni.org.br/
Telefones: 3758-9060 / 3758-4112
4 HISTÓRICO DO PROJETO
O projeto foi iniciado em março de 2005, a partir da grande quantidade de livros
constantemente doados ao CCLP e que se encontravam e informalmente arranjados em
uma estante no refeitório. Do ponto de vista da biblioteconomia escolar, tal informalidade
no arranjo dos livros desencadeou a perspectiva de um desafio: aplicar a experiência
profissional da autora – adquirida em bibliotecas de escola internacional de elite, com
amplos recursos orçamentários – para montar e fazer funcionar uma biblioteca que
prestasse empréstimo manual às crianças e adolescentes do centro comunitário, com
“recurso nulo”, tendo como lema o “aproveitamento máximo dos recursos disponíveis”.
Imediatamente, fez-se presente uma citação de Friedrich Schiller:
[...] Deve, entretanto, empenhar-se em engendrar o Ideal a partir da conjugação do possível e do necessário. Deve moldá-lo em ilusão e verdade, nos jogos de sua imaginação e na seriedade de suas ações; deve moldá-lo em todas as formas sensíveis e espirituais e lançá-lo, silenciosamente, no tempo infinito.
5 OBJETIVO
Capacitar um grupo de adolescentes carentes do Projeto Crescer do CCLP com os
princípios básicos de organização necessários para, com ônus mínimo para a instituição,
criar uma biblioteca para prestar serviço de empréstimo manual e desenvolver um
programa básico de capacitação informacional para aos alunos e professores do centro,
com base no modelo de biblioteca escolar apresentado no livro Information Power (AASL
- American Association of School Librarians, 1998).
6 BENEFÍCIADOS
6.1 Aprendiz
Atuação como voluntário em projeto de inclusão social;
Participação em projeto de inclusão informacional;
Motivação para a leitura a partir do contato com os livros;
Aquisição de conhecimento para aprimoramento pessoal;
Motivação para se engajar em processo contínuo de aprendizagem;
Melhor desempenho escolar;
Maior chance de sucesso na atuação profissional.
6.2 Aluno do CCLP
Oportunidade de utilizar uma biblioteca;
Participação em projeto de inclusão informacional;
Acesso à literatura e informação em suporte impresso;
Motivação para se engajar em processo contínuo de aprendizagem;
Melhor desempenho escolar;
Motivação para, no futuro, participar do Projeto Biblioteca Aprendiz;
Reconhecimento e valorização do trabalho realizado pelos aprendizes.
6.3 Centro Comunitário Ludovico Pavoni
Apoio a projeto inovador;
Agregação de valor à proposta educacional da instituição (biblioteca atuando como agência educadora);
Possibilidade de oferecer treinamento e oportunidade de inserção no mercado de trabalho para a equipe de aprendizes;
Possibilidade de propiciar desenvolvimento profissional para os funcionários da instituição a partir do estabelecimento de uma nova visão de biblioteca
escolar.
6.4 Pai de Aluno
Inclusão dos pais no interesse e valorização de novas descobertas;
Fortalecimento da auto-estima;
Valorização de um serviço prestado pelo CCLP;
Colaboração na ênfase à responsabilidade frente ao material da biblioteca,
7 DESCRIÇÃO DO PROJETO
O trabalho de organização física do acervo está apoiado no conceito de linha de
produção industrial. Os aprendizes se organizam em equipes para atuar nas diferentes
etapas envolvidas na seleção, encaminhamento dos livros recusados e processamento
técnico do livro, inclusive inclusão de cartão para realização de empréstimo manual.
A simplificação do número de chamada, com utilização das categorias (I para Infantil; F
para Ficção; número de classificação de Dewey para os livros de Não-ficção) acrescidos
das três primeiras letras do sobrenome do autor, associada à estruturação de um
programa básico de capacitação informacional foram utilizadas para garantir a
compreensão do sistema de organização utilizado e consequente inclusão informacional
dos usuários.
Aprendizes, alunos e professores passam a atuar como colaboradores da manutenção
da ordem na biblioteca, tornando-se autônomos na busca de informações devido ao fato
de terem adquirido o conhecimento básico abaixo citado:
Planta baixa da biblioteca;
Partes do livro;
Principais categorias e formatos;
Número de chamada;
Sistema de classificação Decimal de Dewey (Homem das Cavernas).
Além da capacitação nos princípios básicos para a organização de uma biblioteca, os
aprendizes são sensibilizados para os seguintes conceitos:
Crença e dedicação na busca de resultados (sonhos);
Aproveitamento máximo de recursos disponíveis;
Valor da informação;
Custo e benefício na organização da informação;
Consistência na execução de tarefas;
Pró-atividade e retrabalho;
Trabalho em equipe (compartilhamento de conhecimento);
Comunicação entre equipes;
Controle de qualidade;
Atendimento ao cliente;
O incentivo à leitura é resultado do envolvimento com o trabalho, a saber:
Participação nas tomadas de decisão (definição de políticas e procedimentos);
Participação na organização da biblioteca;
Contato com os materiais durante o processo de seleção;
Respeito pelo trabalho dos colegas;
Orgulho por possuir uma biblioteca organizada pelo grupo.
Atualmente, o CCLP conta com uma biblioteca de aproximadamente 2.000 livros (16,9
livros por aluno). O espaço inicial, de 3 metros quadrados, foi ampliado para 30 metros
quadrados. A partir deste ano, será agregada uma sala complementar que abrigará a
coleção de Livros Infantis com criação de espaço agradável para leitura, a ser desfrutado
pelos alunos do Projeto Pirilampo.
Os aprendizes passam uma manhã por semana com a autora, realizando os trabalhos
necessários. O cento comunitário contratou uma estagiária para gerenciar a biblioteca,
que está aberta todos os dias da semana e recebe os alunos dos Projetos Pirilampo e
Crescer que, graças à inclusão de um período semanal reservado à biblioteca garantido
na grade horária para todos os grupos, podem desfrutar desse tempo para a realização
de leitura e retirada de livros.
O trabalho realizado pela equipe de aprendizes é valorizado pela comunidade do CCLP
e o sentido de apropriação vivenciado pelos aprendizes é forte fator motivacional que
leva ao desenvolvimento natural de uma mentalidade de respeito e cuidado quanto ao
uso da biblioteca por parte dos alunos, administradores e professores.
O sonho inicial de organizar uma biblioteca para os alunos do CCLP foi transformado em
objetivo comum e, de acordo com Senge (1990), “quando existe um objetivo concreto e
legítimo, as pessoas dão tudo de si para aprender, não por obrigação, mas por livre e
REFERÊNCIAS
AMERICAN ASSOCIATION OF SCHOOL LIBRARIANS. Information power: building partnerships for learning. Chicago: American Library Association, 1998.
MIGUEL, Sylvia. A ciência contra as ameaças da natureza. Jornal da USP. São Paulo, 15-21 dez., 2003. Ambiente, Ano XVIII, no. 670. Disponível em: http://www.usp.br/jorusp/arquivo/2003/jusp670/pag03.htm. Acesso em: 22 de agosto de 2006.
SCHILLER, Friedrich. A educação estética do homem: numa série de cartas. São Paulo: Iluminuras, 1990.