O poeta está para o ser humano, como a Universidade está para a sociedade. Ela há de ser a guardiã permanente do saber para nutrição da sociedade. Ela não pode ser ape-nas uma eficiente escola de pr-eparação de profissionais, mas
"además otra cosa", como quer o mestre da "História como Sistema". A Universidade precisa não só de "contato p.erma-nente com a ciência, sob pena de aniquilar-se", mas também "de contato com a existência pública - com e realidade his-tórica, com o presente, que é sempre um "integrum", e só pode ser tomado como uma totalidad.e, sem amputações "ad usum delphini". Abrangente e universal ela tem que ser con-temporânea do passado, do pres.ente e do futuro, pois só assim aberta à plena atualidade, situada no meio dela, sub-mersa, imersa e emersa na fonte das águas do sab.er de todos os tempos.
Creio profundamente que é uma questão de vida e morte, especialmente num país como o nosso, que apenas balbucia sua própria história, que madruga nos anhelos vestibulares de sua civilização, - uma questão de vida e morte - insisto - que a Universidade assuma aqui um posto de reitoria -do destino nacional - a reitoria cultural, profissional e científica que lhe é própria.
Só assim, assumindo a Universidade sua missão de depo-sitária e distribuidora do saber - ao lado de seu dever quan-titativamente maior, mas qualitativamente menor, de institui-ção para formar estudantes - só assim será capaz de pre-parar os que comandam a história, e de ser, no Brasil, o que foi em outras partes e em tempos melhores: o pulso da his-tória de um povo.
Não poderia fazer augúrio melhor do que este para a Universidade de minha terra. Desta terra, qu.e o filho exilado tem levado como um bem pungente e inestimável no cora-ção rachado pelas raízes da saudade sempre longa. Rachado,
mas também nutrido por ela, como nesta hora em que parti-cipa do fervor desta Casa, cérebro e alma do país do Ceará Grande.
22 Rev. de l・エセZ。ウL@ Fortaleza, 5 (2) pág. 7-22, jul./dez. 1982
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A PROBLEMÁTICA DO SER EM
ALEGRIA BREVE
Unhares Filho
1. INTRODUÇÃO
Convencionamos, antes de tudo, as siglas IC, CF, EP, AP, NN, AB, EH para referirmo-nos neste trabalho às seguin-tes e respectivas obras de Vergílio Ferreira: Invocação ao Meu Corpo; Carta ao Futuro; Estrela Polar; Aparição; Nítido Nulo; Alegria Breve e O Existencialismo é um Humanismo. Usaremos
tais siglas seguidas do número da página em que se encontra o que citarmos desses livros.
Depois de procurar defender o homem no sentido de uma libertação sócio-econômica e em atenção a postulados neo-realistas, nessa posição chegando ao ápice com o romance
Vagão J (1946), Vergílio Ferreira, a partir de Mudança (1949).
assume uma nova atitude ficcional, passando ao cultivo do chamado romance da condição humana, de forte impregnação existencialista. Não se pode dizer, no entanto, que Vergílio Ferreira siga a linha do enjôo e da depressão total, encontra-dos nos romances de um Sartre ou de um Camus, que prepa-ram a coisificação do homem no "nouveau roman". Aparen-tando-se muito com a doutrina e a temática existenciais des-ses autores, o romance do escritor português equilibra-se, apro-ximando-se, por outro lado, da concepção existencial de um
André Malraux.
Da filiação ideológica de Vergílio Ferreira surge o tipo de romance-ensaio explorado por ele, de quem afirma Leodegá-rio A. de Azevedo Filho: "não é um ficcionista que faz ensa1o, mas um ensaísta que faz ficção". (1) Comprometendo-se em-bora com as suas idéias filosóficas, o romancista luso con-segue não raro legitimar esteticamente a sua narrativa, gra-ças a uma sensibilidade e a uma consciência artística que o levam a adotar uma linguagem renovada, disfarçadamente elaborada, que muitas vezes atinge o poético e o simbólico, ao passo que atenta para uma funcionalidade formal em rela-ção
à
efabulação, que é sinuosa, truncada, mas nunca, supri-mida, e em relação à mensagem ideológica. Devido a essa linguagem criativa, sublinhada por "reagrupamentos verbais e sintáticos", é que Aniceta de Mendonça, referindo-se aos úl-timos romances vergilianos, fala de "uma nova construção do sentido, que foi o que de verdadeiramente novo VergílioFer-reira trouxe à ficção portuguesa dos nossos dias". (2)
A preocupação da ficção e do ensaio do escritor em es-tudo é o homem em sua condição, em face da solidão, da angústia, do abandono, do absurdo, das evidências, do es-panto, da condenação
à
liberdade eà
morte, da escolha com responsabilidade e do recomeço ininterrupto, enfim das pos-sibilidades humanas do estar-sendo-no-mundo-com-os-outros. Daí se nega a existência de Deus e, se afirma a transcendên-cia do Ser, surgido do nada. Daí se nega ainda a nossa con-dição de "coisa", afirmando em nós a concon-dição de um "pour-soi" contra um "en-"pour-soi". (Cf. EH, p. 118)São três os romances vergilianos que formam o ciclo existencial propriamente dito: Aparição (1959}, Estrela Polar
(1962) e Alegria Breve (1965). Vejamos a respectiva
corres-pondência aos sintagmas de Heidegger. Alberto, Adalberto e Jaime, respectivas personagens principais dessas narrati-vas, encarnam, em sua problemática, pela ordem, s.egundo Aniceta, os seguintes sintagmas heideggerianos: Dasein
(es-tar-sendo); Mitsein (ser-com-alguém) e Nichtigkeit
(nada-nada). Nesses livros, como bem mostra Aniceta de Mendonça, a freqüência temática é esta: "O homem como um ser-em; O
1) AZEVEDO FILHO, Leodegário A. de. Vergílio Ferreira e o romance da verticalidade humana. In: 2.° Congresso brasileiro de língua e literatura. Rio de Janeiro, Gernasa, 1971, p. 214.
2) MENDONÇA, Aniceta de. O romance de Vergílio Ferreira; existencia-lismo e ficção. Assis, ILPHA-HUCITEC, 1978. p. 17.
24 Rev. de Letras, Fortaleza, 5 (2) : pág. 23-46, jul./dez. 1982
homem como um para-a-morte; O homem como um ser-com-alguém". (3)
Sob a concepção sartriana de que "a existência precede a essência", (Cf. EH, p. 262) a ficção de Vergílio Ferreira,
diante do problema existencial assume a postura de uma aprendizagem e de um ensinamento. Quanto à aprendizagem, o autor, como homem que é, "faz-se fazendo-se, constrói-se o que é, determina-se essência por aquilo que realiza". (EH,
p. 187). E toma consciência de que "A arte é o estatuto da plenitude da nossa identificação". (CF, p. 82) Quanto ao en-sinamento, o romancista pretende transmitir em forma de arte
(porque esta é a maneira mais profunda, significativa e efici-ente de fazê-lo) a sua aprendizagem doutrinai. Ademais, o projeto individual e a mensagem artística devem endereçar-se a todas as pessoas. Consideremos, nesse sentido, a afirma-ção de Sartre de que o homem, "ao escolher-se a si próprio, ele escolhe todos os homens". (EH, p. 219)
Munido do aparato ontológico-literário cujas bases ligei-rament.e estamos expondo nesta introdução, pretenaemos pro· ceder a uma leitura do romance Alegria Breve, remetendo-nos
a aspectos de outros livros da ficção de Vergílio Ferreira, fun-damentando-nos em textos ensaísticos desse autor e seguindo o método hermenêutica.
A divisão da parte essencial do trabalho em A ideologia
e Os processos ocorre apenas por necessidade de
ordena-ção do que temos de expor, pois na verdade sabemos que não se dissociam do conteúdo de uma obra literária os meios de sua construção. Esses serão tratados aqui como símbolos, mi-tos e técnicas.
O processo da identificação e da aceitação da cond:ção humana é coleante, inquieto, questionador, e reprova, con-forme dissemos, a negação do homem como coisa. É uma conscientização em marcha do problema existencial, cujo afrontamento, de tão corajoso e de tão exaustivo, deve ir anu-lando-o. Valoriza-se o homem com essa conscientização, re-velando-se a ele as suas próprias possibilidades. Alegria Bre-ve torna-se a história desse processo, colocando sempre a
per-sonagem narradora no limiar do projeto da realização humana. Assim , "As persp·ectivas da transcendência" serão "Esta esoe-rança sôfrega, este impulso cego, desesperado" (AB, p. 271)
3) Ibidem, p . 19 e 22.
Da filiação ideológica de Vergílio Ferreira surge o tipo de romance-ensaio explorado por ele, de quem afirma Leodegá-rio A. de Azevedo Filho: "não é um ficcionista que faz ensa1o, mas um ensaísta que faz ficção". (1) Comprometendo-se em-bora com as suas idéias filosóficas, o romancista luso con-segue não raro legitimar esteticamente a sua narrativa, gra-ças a uma sensibilidade e a uma consciência artística que o levam a adotar uma linguagem renovada, disfarçadamente elaborada, que muitas vezes atinge o poético e o simbólico, ao passo que atenta para uma funcionalidade formal em rela-ção à efabulação, que é sinuosa, truncada, mas nunca, supri-mida, e em relação
à
mensagem ideológica. Devido a essa linguagem criativa, sublinhada por "reagrupamentos verbais e sintáticos", é que Aniceta de Mendonça, referindo-se aos úl-timos romances vergilianos, fala de "uma nova construção do sentido, que foi o que de verdadeiramente novo VergílioFer-reira trouxe à ficção portuguesa dos nossos dias". (2)
A preocupação da ficção e do ensaio do escritor em es-tudo é o homem em sua condição, em face da solidão, da angústia, do abandono, do absurdo, das evidências, do es-panto, da condenação à liberdade e à morte, da escolha com responsabilidade e do recomeço ininterrupto, .enfim das pos-sibilidades humanas do estar-sendo-no-mundo-com-os-outros. - Daí se nega a existência de Deus e, se afirma a
transcendên-cia do Ser, surgido do nada. Daí se nega ainda a nossa con-dição de "coisa", afirmando em nós a concon-dição de um "pour-soi" contra um "en-"pour-soi". (Cf. EH, p. 118)
São três os romances vergilianos que formam o ciclo existencial propriamente dito: Aparição (1959), Estrela Polar
(1962) e Alegria Breve (1965). Vejamos a respectiva corres-pondência aos sintagmas de Heidegger. Alberto, Adalberto e Jaime, respectivas personagens principais dessas narrati-vas, encarnam, em sua problemática, pela ordem, s.egundo Aniceta, os seguintes sintagmas heideggerianos: Dasein
(es-tar-sendo); Mitsein (ser-com-alguém) e Nichtígkeit
(nada-nada). Nesses livros, como b.em mostra Aniceta de Mendonça, a freqüência temática é esta: "O homem como um ser-em; O
1) AZEVEDO FILHO, Leodegário A . de. Vergílio Ferreira e o romance da verticalidade humana. In: 2.° Congresso brasileiro de língua e literatura.
Rio de Janeiro, Gernasa, 1971, p. 214.
2) MENDONÇA, Aniceta de. O romance de Vergílio Ferreira; existencia-lismo e ficção. Assis, ILPHA-HUCITEC, 1978. p. 17.
24 Rev. de Letras, Fortaleza, 5 (2) : pág. 23-46, jul./dez. 1982
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homem como um para-a-morte; O homem como um ser-com-alguém". (3)
Sob a concepção sartriana de que "a existência precede a essência" , (Cf. EH, p. 262) a ficção de Vergílio Ferreira,
diante do problema existencial assume a postura de uma aprendizagem e de um ensinamento. Quanto à aprendizagem, o autor, como homem que· é, "faz-se fazendo-se, constrói-se o que é, determina-se essência por aquilo que realiza". (EH,
p. 187). E toma consciência de que "A arte é o estatuto da plenitude da nossa identificação". (CF, p. 82) Quanto ao en-sinamento, o romancista pretende transmitir em forma de arte (porque esta é a maneira mais profunda, significativa e efici-ente de fazê-lo) a sua aprendizagem doutrinai. Ademais, o projeto individual e a mensagem artística devem endereçar-se a todas as pessoas. Consideremos, nesse sentido, a afirma-ção de Sartre de que o homem, "ao escolher-se a si próprio, ele escolhe todos os homens". (EH, p. 219)
Munido do aparato ontológico-literário cujas bases ligeí-rament.e estamos expondo nesta introdução, pretenaemos pro· ceder a uma leitura do romance Alegria Breve, remetendo-nos
a aspectos de outros livros da ficção de Vergílio Ferreira, fun-damentando-nos em textos ensaísticos desse autor e seguindo o método hermenêutica.
A divisão da parte essencial do trabalho em A ideologia
e Os processos ocorre apenas por necessidade de
ordena-ção do que temos de expor, pois na verdade sabemos que não se dissociam do conteúdo de uma obra literária os meios de sua construção. Esses serão tratados aqui como símbolos, mi-tos e técnicas.
O processo da identificação .e da aceitação da cond;ção humana é coleante, inquieto, questionador, e reprova, con-forme dissemos, a negação do homem como coisa.
E:
uma conscientização em marcha do problema existencial, cujo afrontamento, de tão corajoso e de tão exaustivo, deve ir anu-lando-o. Valoriza-se o homem com essa conscientização, re-velando-se a ele as suas próprias possibilidades. Alegria Bre-ve torna-se a história desse processo, colocando sempre aper-sonagem narradora no limiar do projeto da realização humana. Assim, "As persp·ectivas da transcendência" serão "Esta esoe-rança sôfrega, este impulso cego, desesperado" (AB, p. 271)
3) Ibidem, p . 19 e 22 .
do homem divinizar-se numa imanência iluminada do Ser, que aparece a si mesmo. E na parte intitulada "O nada como limi-te do projeto ontológico" veremos como da Nichtigkeit das
raízes, representada pela neve, a solidão e o abandono, Jaime começa tudo, consciente da brevidade da alegria, mas senhor e deus de si mesmo. Destarte, o projeto é o ato de preen-cher construtiva e essencialmente o presente com o lançar-se para o futuro. O projeto assinala uma busca contínua, que paradoxalmente já encontra no próprio ato de buscar. Porque "saber, ver, é já conquistar". (/C, p. 196) E mais: "O
existen-cialista não tomará nunca o homem como fim, porque ele está sempre por fazer". (EH, p. 268)
Chamamos a atenção do leitor para o sentido do adje-tivo "ontológico" que utilizamos no presente trabalho. Quere-mos fazer significar tal palavra o seguinte: "referente ao
Dasein", conforme à Otontologia de Heidegger.
2 . ANALISE
2 . 1 - A ideologia
2 . 1 . 1 - As perspectivas da transcendência
Alegria Breve é um monólogo em que dois planos se
dis-tinguem e se unem, formando uma unidade. Esses planos são o da efabulação alinear, muito truncada nos aspectos
tempo-ral e actancial com suspensões de sentido funcionais e ex-pressiva irregularidade sintática, e o de uma latência em aue subjazem os valores ideológicos da doutrina existencialista da condição humana. Pode dizer-se que se trata de uma nar-rativa em que a camada sintagmática elabora a camada pa-radigmática. Estamos diante, portanto, de um romance que é uma grande metáfora existencial por seu cunho simbólico ou alegórico.
Em Alegria Breve as peripécias do questionamento
on-tológ ico mesclam-se com as ações descritas, evocadas ou
4) ELIADE. Mircea. Mito e realidade. Trad. Pala Civelli. São Paulo, Pers-pectativa, 1972. p . 85 . "Para o homo religiosus, o essencial precede a existência. Isso é verdadeiro tanto para o homem das sociedades 'primitivas' e orientais como para o judeu, o cristão e o muçulmano.'' Conclui-se que ocorre aqui o contrário do que se dá com o exis· tencialista.
26
Rev. de Letras, Fortaleza, 5 (2) : pág. 23-46, jul./dez. 1982anunciadas pelo narrador-personagem, conforme ocorram no presente, num passado próximo, num passado remoto ou hajam de ocorrer no futuro. O presente salienta-se mais por causa do tipo de narrativa redonda, que começa como acaba;
no caso, com o enterro de Agueda, a mulher de Jaime. A des-crição de cenas em torno desse sepultamento e a narração de reações interiores de Jaime aparecem nos primeiro e úl-timo capítulos, ambos terminando com a frase: "Amanhã é um dia novo". Essa técnica sugere que toda a narrativa pudesse ser escrita num só dia, momento culminante da lenta trans-formação do pseudo-narrador, o limite de sua transcendência, limite que não é terminante, porque é apenas marco de uma nova prospecção, de um contínuo projeto. De cima desse marco Jaime contou sua história, isto é, fez uma retrospecção, assinalada de perspectivas.
Também a técnica de narrativa circular torna-se signifi-cante da própria volta às raízes, à origem. Agueda é a última criatura a morrer na aldeia, que representa o mundo. Tudo se desmorona, todas as pessoas e todos os animais perecem, fica apenas Jaime. Este, cercado de neve, recriará o mundo. Esse mundo seria, segundo o que lemos no silêncio sugesti-vo, aquele em que as pessoas, conscientes de sua condição
humana, tivessem um único compromisso, o do humanismo, pelo qual se enfrentaria a problemática existencial "até o seu desgaste", (5) pois, como se lê em Alegria Breve, "basta
mui-tas vezes a repetição de um problema para se gastar. Fica intacto e Çtasta-se". (AB, p. 220)
A mudança muitas vezes abrupta do tempo narrativo traz ao leitor, não raro, a sensação de intemporalidade. Esta ob-servação de Jaime adapta-se ao nosso ponto de vista: "Pela manhã a neve infiltra-se pelos desfiladeiros, e toda a serra e a aldeia flutuam. Então é como se o tempo se esvaziasse e a vida surgisse fora da vida." (AB, p. 6) A vida fora da vida
é bem a atitude existencialista de quem, por ligar-se tanto à verdadeira vida, a da consciência do Ser, se desliqa da vida dos "mortos". Em sua transcendência ou na perspectiva de alcançá-la, Jaime cria o seu tempo e pereniza-o no esoaço existencial do presente: "O tempo invento-o no meu sanaue.
É o tempo absoluto, o fulqor da eternidade". (A{3. p. 173) A propósito do tempo no a11tor em estudo, leiamos o que afir-ma Jacinto do Prado Coelho:
5) AZEVEDO FILHO, op . cit. nota 1, p. 213.
do homem divinizar-se numa imanência iluminada do Ser, que aparec.e a si mesmo. E na parte intitulada "O nada como limi-te do projeto ontológico" veremos como da Nichtigkeit das
raízes, representada pela neve, a solidão e o abandono, Jaime começa tudo, consciente da brevidade da alegria, mas s.enhor e, deus de si mesmo. Destarte, o projeto é o ato de preen-cher construtiva e essencialmente o presente com o lançar-se para o futuro. O projeto assinala uma busca contínua, que paradoxalmente já encontra no próprio ato de buscar. Porque "saber, ver, é já conquistar". (/C, p. 196) E mais: "O
existen-cialista não tomará nunca o homem como fim, porque ele está sempre por fazer". (EH, p. 268)
Chamamos a atenção do leitor para o sentido do adje-tivo "ontológico" que utilizamos no presente trabalho. Quere-mos fazer significar tal palavra o seguinte: "referente ao
Dasein", conforme à Otontologia de Heidegger.
2. ANALISE
2 . 1 - A ideologia
2 . 1 . 1 - As perspectivas da transcendência
Alegria Breve é um monólogo em que dois planos se
dis-tinguem e se unem, formando uma unidade. Esses planos são o da efabulação alinear, muito truncada nos aspectos tempo-ral e actancial com suspensões de sentido funcionais e ex-pressiva irregularidade sintática, e o de uma latência em aue subjazem os valores ideológicos da doutrina existencialista da· condição humana. Pode dizer-se que se trata de uma nar-rativa em que a camada sintagmática elabora a camada pa-radigmática. Estamos diante, portanto, de um romance que é uma grande metáfora existencial por seu cunho simbólico ou alegórico.
Em Alegria Breve as peripécias do questionamento
on-tológico mesclam-se com as ações descritas, evocadas ou
4) ELIADE, Mircea. Mito e realidade. Trad. Pola Civelli. São Paulo, Pers-pectativa, 1972. p. 85. "Para o homo religiosus, o essencial precede a existência. Isso é verdadeiro tanto para o homem das sociedades 'primitivas' e orientais como para o judeu, o cristão e o muçulmano." Conclui-se que ocorre aqui o contrário do que se dá com o exis-tencialista.
26 Rev. de Letras, Fortaleza, 5 (2) : pág. 23-46, jul./dez. 1982
anunciadas pelo narrador-personagem, conforme ocorram no presente, num passado próximo, num passado remoto ou hajam de ocorrer no futuro. O presente salienta-se mais por causa do tipo de narrativa redonda, que começa como acaba;
no caso, com o enterro de Agueda, a mulher de Jaime. A des-crição de cenas em torno desse sepultamento e a narração de reações interiores de Jaime aparecem nos primeiro e úl-timo capítulos, ambos terminando com a frase: "Amanhã é um dia novo". Essa técnica sugere que toda a narrativa pudesse ser escrita num só dia, momento culminante da lenta trans-formação do pseudo-narrador, o limite de sua transcendência, limite que não é terminante, porque é apenas marco de uma nova prospecção, de um contínuo projeto. De cima desse marco Jaime contou sua história, isto é, fez uma retrospecção, assinalada de perspectivas.
Também a técnica de narrativa circular torna-se signifi-cante da própria volta às raízes, à origem. Agueda é a última criatura a morrer na aldeia, que representa o mundo. Tudo se desmorona, todas as pessoas e todos os animais perecem, fica apenas Jaime. Este, cercado de neve, recriará o mundo. Esse mundo seria, segundo o que lemos no silêncio sugesti-vo, aquele em que as pessoas, conscientes de sua condição
humana, tivessem um único compromisso, o do humanismo, pelo qual se enfrentaria a problemática existencial "até o seu desgaste", (5) pois, como se lê em Alegria Breve, "basta
mui-tas vezes a repetição de um problema para se gastar. Fica intacto e ÇJasta-se". (AB, p. 220)
A mudança muitas vezes abrupta do tempo narrativo traz ao leitor, não raro, a sensação de intemporalidade. Esta ob-servação de Jaime adapta-se ao nosso ponto de vista: "Pela manhã a neve infiltra-se pelos desfiladeiros, e toda a serra e a aldeia flutuam. Então é como se o tempo se esvaziasse e a vida surgisse fora da vida." (AB, p. 6) A vida fora da vida
é bem a atitude existencialista de quem, por ligar-se tanto à verdadeira vida, a da consciência do Ser, se desliqa da vida dos "mortos". Em sua transcendência ou na perspectiva de alcançá-la, Jaime cria o seu tempo e pereniza-o no esoaço existencial do presente: "O tempo invento-o no meu sanoue. É: o tempo absoluto, o fulqor da eternidade". (Af3, p. 173) A
propósito do tempo no a11tor em estudo, leiamos o que afir-ma Jacinto do Prado Coelho:
5) AZEVEDO FILHO, op . cit. nota 1, p . 213.
A obra de ficção de Vergílio Ferreira, como outras representativas da modernidade, encontra-se no limite da própria negação do romance como história, como narrativa de algo situado no tempo. Jorra do instante vivido em subjectividade profunda, aberta ao intemporal. Arrasta os elementos narrati-vos num caudal poético-reflexivo. (6)
De fato, o poético, o reflexivo, o simbólico e o fantástico constituem elementos perenes em Nítido Nulo e nos
roman-ces de Vergílio Ferreira que formam a trilogia existencial. De-ter-nos-emos a falar acerca do poético e do simbólico, com maior vagar, oportunamente. Quanto ao fantástico, embora o lugar próprio de falar sobre ele fosse no item específico rela-cionado com as técnicas dentro do capítulo Os processos,
antecipamos o tratamento de tal aspecto por necessidade de entendimento da transcendência, que se opera num clima fantástico, que por sua vez se resolve com a compreensão da simbologia ontológica. Com essa compreensão, a hesitação, própria do fantástico, tende a desfazer-se, dando lugar ao estranho.
Escreve Aniceta de Mendonça:
Alegria Breve é o mais fantasmático dos
roman-ces de Vergílio Ferreira. O expressionismo de certas páginas faz-nos lembrar muitas vezes o espaço lite-rário de Raul Brandão, onde se movimentam vultos imprecisos que é preciso recuperar do fantástico para darmos contornos aos significantes que ainda e apenas são. A aldeia de Alegria Breve, os seus
velhos, os seus enterros pertencem a um mundo de fantasmas, no qual é difícil fazer coincidir a cena real e a cena imaginária. (7)
E Todorov, referindo-se aos vários tipos de alegoria, por ele classificados, afirma: "Em cada caso, o fantástico se
6) COELHO, Jacinto do Prado. Vergílio Ferreira: um estilo de narrativa
à beira do íntemporal. In: - - - . Ao contrário de Penélope. Lisboa, Liv. Bertrand, 1976, p. 286.
7) MENDONÇA, op. cit., nota 2, p . 78-79.
28
Rev. de Letras, Fortaleza, 5 (2) : pág. 23-46, jul./dez. 1982acha posto em questão". (8) Recuperando do fantástico o mundo alegórico de Alegria Breve, podemos ver emergir da morte simbólica e, portanto, do falso mas funcional mundo fantasmático, a iluminação do Ser, a transcendência do ho-mem, ou seja, a sua divindade ontológica, negadora de qual-quer outra divindade, já que, como está na epígrafe de Fer-nando Pessoa, em Nítido Nulo, "Não haver deus é um deus também". Vergílio Ferreira entenderia, porém, essa afirmativa como metonímia, pois a condição humana sem deus não é propriamente uma divindade, mas o homem em seu Daseín
e com a sua imanência.
Vejamos algumas chaves da alegoria ontológica do ro-mance em 。ョ£ャゥセN・Z@
Tenho de ir à vila buscar o ordenado, vivo ainda à custa dos mortos. As vezes vou com meses de atraso, eles não gostam. Têm a vida escriturada, geometrizada, como um cemitério. (AB, p. 269)
Subitamente, dois cães. Estaria o Médor? Não reparei. (AB, p. 270)
Voltará o meu filho, choverá um dia, voltará a Primavera - quando voltará a Primavera? (AB,
p. 273)
Encontram-se essas passagens no último capítulo do livro. A primeira mostra-nos que simbolicamente é que estão mortos aqueles à cuja custa Jaime vive; são, portanto, vivos mortos, pois não se pode aceitar que mortos reais paguem ordenado a alguém. Ademais, não estão sepultados no ce-mitério, "têm a vida como um cemitério" . A comparação é sugestiva, precisa e elucidativa. Os homens, não livres, mas escravos do utilitarismo, das normas e das convenções so-ciais, possuem a vida presa à regularidade, à sistemática de alinhamento tumular como o da geometria de um cemitério. Ora, enquanto Sartre proclama que "o homem é livre, o homem é liberdade" (EH,p. 227), Vergílio Ferr-eira escreve que "A liber-dade ( ... ) é coetânea da consciência, é o seu modo de ser". (EH, p. 1 '8) E diz mais que a liberdade nos dá a possibilidade" de nos recusarmos "como en-soí (coisa)". (Cf. Ibidem). Se
8) TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica . Trad. Maria Clara Correa Castello. São Paulo, Perspectiva, 1975. p . 81.
A obra de ficção de Vergílio Ferreira, como outras representativas da modernidade, encontra-se no limite da própria negação do romance como história, como narrativa de algo situado no tempo. Jorra do instante vivido em subjectividade profunda, aberta ao intemporal. Arrasta os elementos narrati-vos num caudal poético-reflexivo. (6)
De fato, o poético, o reflexivo, o simbólico e o fantástico constituem elementos perenes em Nítido Nulo e nos
roman-ces de Vergílio Ferreira que formam a trilogia existencial. De-ter-nos-emas a falar acerca do poético e do simbólico, com maior vagar, oportunamente. Quanto ao fantástico, embora o lugar próprio de falar sobre ele fosse no item específico rela-cionado com as técnicas dentro do capítulo Os processos,
antecipamos o tratamento de tal aspecto por necessidade de entendimento da transcendência, que se opera num clima fantástico, que por sua vez se resolve com a compreensão da simbologia ontológica. Com essa compreensão, a hesitação, própria do fantástico, tende a desfazer-se, dando lugar ao estranho.
Escreve Aniceta de Mendonça :
Alegria Breve é o mais fantasmático dos
roman-ces de Vergílio Ferreira. O expressionismo de certas páginas faz-nos lembrar muitas vezes o espaço lite-rário de Raul Brandão, onde se movimentam vultos imprecisos que é preciso recuperar do fantástico para darmos contornos aos significantes que ainda e apenas são. A aldeia de Alegria Breve, os seus
velhos, os seus enterros pertencem a um mundo de fantasmas, no qual é difícil fazer coincidir a cena real e a cena imaginária. (7)
E Todorov, referindo-se aos vários tipos de alegoria, por ele classificados, afirma : " Em cada caso, o fantástico se
6) COELHO, Jacinto do Prado. Vergílio Ferreira : um estilo de narrativa
à beira do intemporal. In: - -- . Ao contrário de Penélope. Lisboa, Liv. Bertrand, 1976, p . 286 .
7) MENDONÇA, op . cit. , nota 2, p . 78-79.
28
Rev. de Letras, Fortaleza, 5 (2) : pág. 23-46, jul./dez. 1982acha posto em questão" . (8) Recuperando do fantástico o mundo alegórico de Alegria Breve, podemos ver emergir da morte simbólica e, portanto, do falso mas funcional mundo fantasmático, a iluminação do Ser, a transcendência do ho-mem, ou seja, a sua divindade ontológica, negadora de qual-quer outra divindade, já que, como está na epígrafe de Fer-nando Pessoa, em Nítido Nulo, " Não haver deus é um deus também " . Verg ílio Ferreira entenderia, porém, essa afirmativa como metonímia, pois a condição humana sem deus não é propriamente uma divindade, mas o homem em seu Dasein
e com a sua imanência.
Vejamos algumas chaves da alegoria ontológica do ro-mance em 。ョ£ャゥセ M ・Z@
Tenho de ir à vila buscar o ordenado, vivo ainda à custa dos mortos. As vezes vou com meses de atraso, eles não gostam. Têm a vida escriturada, geometrizada, como um cemitério. (AB , p. 269)
Subitamente, dois cães. Estaria o Médor? Não reparei. (AB, p. 270)
Voltará o meu filho, choverá um dia, voltará a Primavera - quando voltará a Primavera? (AB ,
p. 273)
Encontram-se essas passagens no último capítulo do livro. A primeira mostra-nos que simbolicamente é que estão mortos aqueles à cuja custa Jaime vive ; são, portanto, vivos mortos, pois não se pode aceitar que mortos reais paguem ordenado a alguém. Ademais, não estão sepultados no ce-mitério, "têm a vida como um cemitério". A comparação é sugestiva, precisa e elucidativa. Os homens, não livres, mas escravos do utilitarismo, das normas e das convenções so-ciais, possuem a vida presa à regularidade, à sistemática de alinhamento tumular como o da geometria de um cemitério. Ora, enquanto Sartre proclama que " o homem é livre, o homem é liberdade" (EH,p . 227), Vergílio Ferreira escreve que "A liber-dade ( ... ) é coetânea da consciência, é o seu modo de ser". (EH, p. QセXI@ E diz mais que a liberdade nos dá a possibil idade" de nos recusarmos "como en-soi (coisa) ". (Cf. Ibidem). Se
8) TODOROV, Tzvetan . Introdução à literatura fantástica . Trad. Maria Clara Correa Castello. São Paulo, Perspectiva, 1975. p . 81.
Jaime ainda vive " à custa" dos entes coisificados da vila, talvez seja, simbolicamente, porque ainda influam no mundo pela contradição de sua atitude em relação à de Jaime, cuja transcendência ontológica se verifica, possibilitando-lhe a
re-cusa libertadora. A exemplo dos moradores da vila que mor-rem, a extinção das pessoas da aldeia e a destruição dos prédios desta são alegóricas.
O segundo passo citado em destaque, e que funciona como chave do alegórico do livro, refere-se ao cão Médor. Ora, sabe-se que este fora morto por Jaime, conforme o que se conta no capítulo XVIII. Constituir-se-ia um absurdo acre-ditar na aparição do fantasma do cachorro, e o contexto não se capacita a forjar a incerteza, própria do fantástico, em torno dessa aparição. E, se bem que Jaime deixe transpare-cer, pelo que acontece em outras passagens, que sofre de amnésia, o contexto não nos convenc-e de que tal deficiência chegue ao grave ponto de a personagem não se recordar de haver morto e enterrado o cão, pois pouco antes do passo em análise, no mesmo capítulo, declara: "há dias enterrei Médor". (AB, p. 269) A amnésia seria significante das flutua-ções do estado algo intemporal da transcendência do inqui-ridor Jaime, que de tão pr-esente ao mundo pelo Dasein, se torna ausente dele, e Médor cada vez mais se confirma como símbolo do animalesco do homem, (9) e como tal conlribÚi para compor a alegoria da narrativa. Jaime ainda se sentiria abalado em sua interioridade pelo animalesco da não-cons-ciência e/ ou perseguido por essa força animalesca de pes-soas tidas como simples entes.
Quanto à terceira passagem referida em destaque, teça-mos também considerações, para que fique demonstrada como uma das chaves do alegórico. Espera o pseudo-narra-dor que o seu filho volte. Como pode voltar alguém que mor-reu? Esse filho renasceria da dúvida (o filho de Vanda teria o sangue de Jaime?), da esterilidade de Agueda e talvez da esterilidade do próprio Jaime. Esse filho surgiria do nada e seria como uma chuva fecundante ou como a Primavera. Seria como aquele "anúncio do Messias que não vem nunca, que é a sua maneira de vir". (AB, p. 175) Se, "para Heidegger,
9) Cf. COELHO, Nelly Novaes. Escritores portugueses. São Pau lo, Quíron, 1973 . p . 229. " O 'cão', - presença essencial e constante no uni-verso vergiliano representa como sempre a imagem deformada do homem, - o infra-humano instintivo ; a parte animal, não consc iente''.
30
Rev. de Letras, Fortaleza, 5 (2) : pág. 23-46, jul./dez. 1982não é do ser que provém o nada, mas, ao invés, deste que provém aquele" (AB, p. 81), o filho, que voltará, surg irá do nada para a expectativa e para o espanto de Jaime em inter-rogação, e simboliza o Ser, unido à transcendência humana, porque "O meu filho instalará a sua divindade em todo o reino de todos os deuses mortos" (AB , p. 271) A volta do filho, em seu simbolismo, equivale ao renovado aperfeiçoamento da consciência do Dasein, a qual apresenta oscilações.
Passemos a considerar o modo como d-evemos entender, realmente, o sentido da transcendência. Prende-se ao sentido de humanismo existencialista e ao projetar-se do homem fora de si para fazer existir o homem. (Cf. EH, p. 268) Nasce daí
a concepção de imanência e da aparição do Ser do homem a este.
Verifiquemos o que diz Sartre :
Não há outro universo senão o universo huma-no, o universo da subjetividade humana. É a esta
ligação da transcendência, como estimulante do homem - não no sentido de que Deus é trans-cendente, mas no sentido da superação - e da subjectividade, no sentido de que o homem não está fechado em si mesmo mas presente sempre num universo humano, é a isso que chamamos hu-manismo existencialista. (EH, p. 268-269)
Não se afasta dessa posição a de Vergílio Ferreira na simbólica da Alegria Breve e naquela dos seus outros livros
comprometidos com o existencialismo. Todavia -a transcen dência dos romances, por seu nível artístico, aparece também com a marca simbólica da divinização do homem que cria um novo mundo, mundo livre e cheio de consciência humanista. Assim , o filho esperado d-e Jaime, filho que se identifica com o Ser, possui transcendência como já mostramos. Leiamos, para maior comprovação do que afirmamos, este trecho refe-rente à expectativa da chegada do suposto filho de Vanda e Jaime:
Jaime ainda vive "à custa" dos entes coisificados da vila, talvez seja, simbolicamente, porque ainda influam no mundo pela contradição de sua atitude em relação à de Jaime, cuja transcendência ontológica se verifica, possibilitando-lhe a
re-cusa libertadora. A exemplo dos moradores da vila que mor-rem, a extinção das pessoas da aldeia e a destruição dos prédios desta são alegóricas.
O segundo passo citado em destaque, e que funciona como chave do alegórico do livro, refere-se ao cão Médor. Ora, sabe-se que este fora morto por Jaime, conforme o que se conta no capítulo XVIII. Constituir-se-ia um absurdo acre-ditar na aparição do fantasma do cachorro, e o contexto não se capacita a forjar a incerteza, própria do fantástico, em torno dessa aparição. E, se bem que Jaime deixe transpare-cer, pelo que acontece em outras passagens, que sofre de amnésia, o contexto não nos convenc-e de que tal deficiência chegue ao grave ponto de a personagem não se recordar de haver morto e enterrado o cão, pois pouco antes do passo em análise, no mesmo capítulo, declara: "há dias enterrei Médor". (AB, p. 269) A amnésia seria significante das flutua-ções do estado algo intemporal da transcendência do inqui-ridor Jaime, que de tão pr-esente ao mundo pelo Dasein, se torna ausente dele, e Médor cada vez mais se confirma como símbolo do animalesco do homem, (9) e como tal conlribÚi para compor a alegoria da narrativa. Jaime ainda se sentiria abalado em sua interioridade pelo animalesco da não-cons-ciência e/ ou perseguido por essa força animalesca de pes-soas tidas como simples entes.
Quanto à terceira passagem referida em destaque, teça-mos também considerações, para que fique demonstrada como uma das chaves do alegórico. Espera o pseudo-narra-dor que o seu filho volte. Como pode voltar alguém que mor-reu? Esse filho renasceria da dúvida (o filho de Vanda teria o sangue de Jaime?), da esterilidade de Agueda e talvez da esterilidade do próprio Jaime. Esse filho surgiria do nada e seria como uma chuva fecundante ou como a Primavera. Seria como aquele "anúncio do Messias que não vem nunca, que é a sua maneira de vir". (AB, p. 175) Se, "para Heidegger,
9) Cf. COELHO, Nelly Novaes. Escritores portugueses. São Paulo, Quíron, 1973 . p . 229. "O 'cão' , - presença essencial e constante no uni-verso vergiliano representa como sempre a imagem deformada do homem, - o infra-humano instintivo; a parte animal, não consciente' '.
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Rev. de Letras, Fortaleza, 5 (2) : pág. 23-46, jul./dez. 1982não é do ser que provém o nada, mas, ao invés, deste que provém aquele" ( AB, p. 81 ), o filho, que voltará, surgirá do nada para a expectativa e para o espanto de Jaime em inter-rogação, e simboliza o Ser, unido à transcendência humana, porque "O meu filho instalará a sua divindade em todo o reino de todos os deuses mortos" (AB , p. 271) A volta do filho, em seu simbolismo, equivale ao renovado aperfeiçoamento da consciência do Dasein, a qual apresenta oscilações.
Passemos a considerar o modo como d-evemos entender, realmente, o sentido da transcendência. Prende-se ao sentido de humanismo existencialista -e ao projetar-se do homem fora de si para fazer existir o homem. (Cf. EH, p. 268) Nasce daí
a concepção de imanência e da aparição do Ser do homem a este.
Verifiquemos o que diz Sartre:
Não há outro universo senão o universo huma-no, o universo da subjetividade humana. É a esta
ligação da transcendência, como estimulante do homem - não no sentido de que Deus é trans-cendente, mas no sentido da superação - e da subjectividade, no sentido de que o homem não está fechado em si mesmo mas presente sempre num universo humano, é a isso que chamamos hu-manismo existencialista. (EH, p. 268-269)
Não se afasta dessa posição a de Vergílio Ferreira na simbólica da Alegria Breve e naquela dos seus outros livros
comprometidos com o existencialismo. Todavia -a transcen dência dos romances, por seu nível artístico, aparece também com a marca simbólica da divinização do homem que cria um novo mundo, mundo livre e cheio de consciência humanista. Assim, o filho esperado d-e Jaime, filho que se identifica com o Ser, possui transcendência como já mostramos. Leiamos, para maior comprovação do que afirmamos, este trecho refe-rente à expectativa da chegada do suposto filho de Vanda e Jaime:
cendência obscura, somos gagos, de mãos inábeis. Em humildade adoramos, um menino vai nascer, a neve o diz, excessiva luz, os meus olhos tremem, chorosos de miséria. (AB, p. 179)
Vejamos que o espírito do filho é a própria idéia daquela esp.era, espírito que passa junto ao casal, que envolve e em-polga os amantes com uma "transcendência obscura", por eles adorada submissamente. A neve, símbolo do nada pri-mordial, é o estrume da planta do Ser.
Em Aparição, Alberto, ·em sua "evidência", na
"totaliza-ção de mim a mim próprio", sente-se "como um absoluto di-vino". (AP, p. 10l E o encarcerado Jorge de Nítido Nulo, o
qual tenta libertar-se pelo Oasein e a invenção artística, numa
das horas em que está "bem nas tintas até aos pêlos do ser", escreve: Bセ@ uma hora absoluta creio qu.e devia nascer um deus. Que deus? Sei lá. Um deus". (NN, p. 13) Observe-se
que há em Nítido Nulo uma perspectiva de transcendência
existencialista, assim como Jorge se sente detentor de um espírito didático, pois pretende transmitir uma verdade: "vim
para trazer a verdade, eu vo-la dou". (NN, p. 38)
A passagem que segue configura bem a Nichtigkeit, ao
pintar-se uma situação de solidão, abandono e frieza primor-diais, situação em que Jaime, sugerindo estar ainda num es-tado primitivo de evolução e ser como o primeiro próximo homem de um mundo novo, se anuncia como deus:
Então abruptamente atiro uma patada violenta: para desentorpecer um pé? para tomar posse do mundo: um estrondo reboa como o anúncio de um Deus. Sou eu, ó noite. Trêmulo olhar de lágri-mas, na solidão astral, e o frio, o frio, o frio ads-tringente e nulo, restrito em mim, pequeno, tão só. Terei divindade que chegue? - tão grande o uni-verso. Pequeno e medroso aqui. Atiro a minha pa-tada violenta, respiro até aos ossos o universo in-teiro. Sou eu. (AB, p. 9)
Observe-se que a personagem aceita a sua pequenez existencial e a sua parte animalesca ("patada"). No último capítulo escreverá que é um "bicho diferente". Tudo isso par-ticipa do reconhecimento da condição humana. Abramos pa-32 Rev. de Letras, Fortaleza, 5 (2) : pág. 23-46, jul./dez. 1982
rênteses a fim de chamar a atenção do leitor para a expres-sividade estilística do trecho transcrito, rico pela linguagem sensorial-afetiva, conforme acontece em geral com a obra de Vergílio Ferreira, e para o fato de que o mesmo trecho lem-bra o conto "Adão e Eva no Paraíso", de Eça de Queirós, escritor de quem, como se sabe, o outro sofre benéfica influ-ência.
Jaime chega até a utilizar, na simbólica de sua " pode-rosa e terrível divindade" ( AB, p. 268) (pois "um deus urra nas minhas veias" - AB, p. 266), significantes ligados ao
Natal de Cristo para anunciar o nascimento do filho:
O homem espera que o retornem ao ventre, acocorado em miséria sobre o lume que se extingue. Astros submersos, terra estéril, sobrevivente eu; clamo a morte do homem, anuncio a sua vinda -Natal. Choro meu de alegria, ó anjos da nova pura. Cântico dos anjos da anunciação, dos anjos das trevas e do desastre, os sinos bradam para o vazio do mundo. Virgindade do meu sangue, um Deus Menino vai nascer. Os deuses nascem sobre o se-pulcro dos deuses. Dobro os sinos até ao esgota-mento. (AB, p. 254)
O sentido de réplica encontra-se sobretudo na penúltima oração, e repare-se que o retorno ao ventre, ao qual se alude na p·rimeira linha do trecho supracitado, se coordena com a volta do filho anteriormente comentada: aqui se nos depara a mesma situação alegórica questionando o fantástico.
Percorrendo-se o caminho para a transc-endência em Ale-gria Breve, encontram-se muitos incidentes entre glórias e
misérias, dores e prazeres, e são "Trêmulo aviso, fugidia ple-nitude" (AB, p. 174) ou "Trêmulo sinal de um mundo além
de mim" (AB, p. 270), ou "misterioso indício de uma verdade
serena no recomeço absoluto". (AB, p. 42) Tudo isso como o pinheiro que verga "com um sinal alto de espaço e de ori-gens" (AB, p. 179) ou como o galo "que canta ao longe" (AB,
p. 43) ou "no meu quintal" (AB, p. 75), anunciando talvez o homem no seu Oasein. E há silêncios longos, gritos de
deses-pero, uivos muitos de cães e muita neve. Há várias espécies de angústia, notadamente "a angústia por retirarmo-nos da sólida e animal instalação nas coisas" (Cf. EH, p. 82) (Jaime,
cendência obscura, somos gagos, de mãos inábeis. Em humildade adoramos, um menino vai nascer, a neve o diz, excessiva luz, os meus olhos tremem, chorosos de miséria. (AB, p. 179)
Vejamos que o espírito do filho é a própria idéia daquela esp.era, espírito que passa junto ao casal, que envolve e
em-polga os amantes com uma "transcendência obscura", por eles adorada submissamente. A neve, símbolo do nada pri-mordial, é o estrume da planta do Ser.
Em Aparição, Alberto, em sua "evidência", na
"totaliza-ção de mim a mim próprio", sente-se "como um absoluto di-vino". (AP, p. 10) E o encarcerado Jorge de Nítido Nulo, o
qual tenta libertar-se pelo Dasein e a invenção artística, numa
das horas em que está "bem nas tintas até aos pêlos do ser", escreve: "E:: uma hora absoluta creio qu.e devia nascer um deus. Que deus? Sei lá. Um deus". (NN, p. 13) Observe-se
que há em Nítido Nulo uma perspectiva de transcendência
existencialista, assim como Jorge se sente detentor de um espírito didático, pois pretende transmitir uma verdade: "vim para trazer a verdade, eu vo-la dou". (NN, p. 38)
A passagem que segue configura bem a Níchtígkeít, ao
pintar-se uma situação de solidão, abandono e frieza primor-diais, situação em que Jaime, sugerindo estar ainda num es-tado primitivo de evolução e ser como o primeiro próximo homem de um mundo novo, se anuncia como deus:
Então abruptamente atiro uma patada violenta: para desentorpecer um pé? para tomar P'Osse do mundo: um estrondo reboa como o anúncio de um Deus. Sou eu, ó noite. Trêmulo olhar de lágri-mas, na solidão astral, e o frio, o frio, o frio ads-tringente e nulo, restrito em mim, pequeno, tão só. Terei divindade que chegue? - tão grande o uni-verso. Pequeno e medroso aqui. Atiro a minha pa-tada violenta, respiro até aos ossos o universo in-teiro. Sou eu. (AB, p. 9)
Observe-se que a personagem aceita a sua pequenez existencial e a sua parte animalesca ("patada"). No último capítulo escreverá que é um "bicho diferente". Tudo isso par-t icipa do reconhecimenpar-to da condição humana. Abramos pa-32 Rev. de Letras, Fortaleza, 5 (2) : pág. 23-46, jul./dez. 1982
rênteses a fim de chamar a atenção do leitor para a expres-sividade estilística do trecho transcrito, rico pela linguagem sensorial-afetiva, conforme acontece em geral com a obra de Vergílio Ferreira, e para o fato de que o mesmo trecho lem-bra o conto "Adão e Eva no Paraíso", de Eça de Queirós, escritor de quem, como se sabe, o outro sofre benéfica influ-ência.
Jaime chega até a utilizar, na simbólica de sua " pode-rosa e terrível divindade" (AB, p. 268) (pois "um deus urra
nas minhas veias" - AB, p. 266), significantes ligados ao
Natal de Cristo para anunciar o nascimento do filho:
O homem espera que o retornem ao ventre, acocorado em miséria sobre o lume que se extingue. Astros submersos, terra estéril, sobrevivente eu; clamo a morte do homem, anuncio a sua vinda -Natal. Choro meu de alegria, ó anjos da nova pura. Cântico dos anjos da anunciação, dos anjos das trevas e do desastre, os sinos bradam para o vazio do mundo. Virgindade do meu sangue, um Deus Menino vai nascer. Os deuses nascem sobre o se-pulcro dos deuses. Dobro os sinos até ao esgota-mento. (AB, p. 254)
O sentido de réplica encontra-se sobretudo na penúltima oração, e repare-se que o retorno ao ventre, ao qual se alude na primeira linha do trecho supracitado, se coordena com a volta do filho anteriormente comentada: aqui se nos depara a mesma situação alegórica questionando o fantástico.
Percorrendo-se o caminho para a transc.endência em Ale-gria Breve, encontram-se muitos incidentes entre glórias e
misérias, dores e prazeres, e são "Trêmulo aviso, fugidia ple-nitude" (AB, p. 174) ou "Trêmulo sinal de um mundo além
de mim" (AB, p. 270), ou "misterioso indício de uma verdade
serena no recomeço absoluto". (AB, p. 42) Tudo isso como o pinheiro que verga "com um sinal alto de espaço e de ori-gens" (AB, p. 179) ou como o galo "que canta ao longe" (AB,
p. 43) ou "no meu quintal" (AB, p. 75), anunciando talvez o homem no seu Dasein. E há silêncios longos, gritos de
embaixo os cães uivam, em cima os dois picos da montanha apontam insistentemente para o alto. E sob o testemunho dos quatro elementos su rge a força do erotismo. Ora é o desejo pela espiritualista Ema, ora a conjunção " vulcânica" com a sensual Vanda, ora o relacionamento carnal esforçado com Agueda. E vem a dúvida da paternidade, e não se sabe de quem é a esterilidade. Jaime golpeia-se de inquirições. Ocorre o enternecimento dele, após a cólera, ,quando da ago-nia mortal de Agueda. E à acusação da moribunda "-Des .. . gra ... ça ... do . .. " , responde a irreverência explosiva e humana do marido com um palavrão instintivo. De tudo resta o silêncio e sua aprendizagem: B セ@ pois difícil a apren-dizagem do silêncio - do silêncio absoluto, mineral?" (AB ,
p. 101) E, não obstante ser breve a alegria, (10) valeu a pena
viver. (Cf. AB, p. 187)
Iluminado pela consciência do Ser e esperando fisica-mente que " Amanhã é um dia novo", Jaime, da profundeza do seu nada, pode exclamar, embora perplexo e interroga-tivo: "Sou o deus único, o deus final, a terra não pode morrer como é possível que?" (AB , p. 262)
2 . 1 . 2 - O nada como limite do projeto ontológico
Vimos que o silêncio em Alegria Breve é de um
apren-dizado difícil. Ao passo que isso corrobora a "teoria de inclu-são do silêncio" (11) s.egundo a qual devemos ler o além da
10) Já que a palavra " alegria" se encontra no título do romance em aná-lise e se prende intimamente ao sentido geral desse livro, apresen-tamos um levantamento, que não se pretende exaustivo, de ocorrên-cias da referida palavra em Alegria Breve, algumas das quais citadas
no corpo do trabalho :
( . . . ) É uma alegria absoluta, imperiosa e todavia calma como a len-tidão da terra". (p . 8)
" ( ... ) a alegria mais simples que é a alegria de ser". (p . 42) "( ... ) a alegria é clara e trêmula como um olhar".
(Ibidem)
" Alegria breve, este meu sabê-lo, estap asse de todo o milagre de eu ser e a deposição disso para o estrume da terra." (p. 187)
" Choro meu de alegria". (p. 254)
" Uma alegria imperceptível, como um halo, sobre uma vasta amar-gura" .
" ( ... ) ele dirá na alegria calma do seu triunfo perfeito : I - É apenas a minha voz." (p . 272)
" Fugidia alegria, luz breve." (Ibidem)
11) PORTELLA, Eduardo et ali i. Teoria literária. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1975. p . 16.
34 Rev. de Letras, Fortaleza, 5 (2) : pág. 23-46, jul./ dez. 1982
li
fala, o não-dito, sabemos que o silêncio, ao lado de signifi-car a incomunicabilidade, simboliza, juntamente com a neve e a solidão, o nada em Alegria Breve. Nos livros da fi cção
existencialista de Vergílio Ferreira a palavra " silêncio" apa-rece com uma freqüência acentuada. Aniceta de Mendonça anotou-a 81 vezes em Aparição, 100 vezes em Estrela Polar
e 126 vezes em Alegria Breve. (1 2) Neste romance, diríamos que há, como em Estrela Polar, " Fachos de enigma, apelo
devorador desde um abismo de silêncio" (EP, p. 168) e , como
em Aparição, se escuta " Música do fim, a alegria subtil desde
o fundo da noite, desde o silêncio da morte". ( AP, p. 215)
Já observamos também a afirmação de Heidegger de que o Ser provém do nada. E lemos no ensaio vergiliano : "o ser existe a partir do Nada, porque é o Nada que me fundamenta a transcendência do ser, a sua constituição como ser" . (EH, p. 83) E explica-se Vergílio Ferreira com estas
pa-lavras que bem se podem adaptar ao caso de Alegria Breve.
( ... ) o Nada, segundo Heidegger - esclareça-mos - rigorosamente não aparece após a aniquila-ção do conjunto do existente, mas com esse exis-tente: o nosso recuo perante esse existente torna-o estranho aos nossos olhos, leva-nos a verificar que
há existentes em vez de coisa nenhuma. (EH, p. 82)
Acrescenta, adiante, o escritor: "Partindo do nada, ( ... ) o homem tem de constituir-se uma Tábua de Valores e de assumi-los em responsabilidade" . (EH, p. 187) Eis que Jaime
se encontra só, no "nada-nada", para recomeçar um novo mundo, e está "cheio de verdade, de justiça, de futuro" , (AB ,
p. 262) embora, às vezes, fique indeciso e fuja ao ideal por causa da fraqueza assumida de sua própria humanidade. Ainda não sabe " a palavra final" (Cf. AB, p. 272) , mas tem
consciência de sua condenação e de sua grandeza: " Fico eu ainda, alguém teria de ficar, fui eu o condenado a essa ex-cessiva grandeza." (AB, p. 269)
O nada da nossa condição limita-nos no sentido de par-tirmos daí, desse silêncio, donde nasce a voz, o fogos que
nos dá a consciência de sermos. Mas, para diante, o nosso
12) Cf. MENDONÇA, op . cit. nota 2, p . 72.
embaixo os cães uivam, em cima os dois picos da montanha apontam insistentemente para o alto. E sob o testemunho dos quatro elementos su rge a força do erotismo. Ora é o desejo pela espiritualista Ema, ora a conjunção " vulcânica" com a sensual Vanda, ora o relacionamento carnal esforçado com Agueda. E vem a dúvida da paternidade, e não se sabe de quem é a esterilidade. Jaime golpeia-se de inquirições. Ocorre o enternecimento dele, após a cólera, ,quando da
ago-nia mortal de Agueda. E à acusaç8.o da moribunda "-Des ... gra ... ça ... do . .. " , responde a irreverência explosiva e humana do marido com um palavrão instintivo. De tudo resta o silêncio e sua aprendizagem: B セ@ pois difícil a apren-dizagem do silêncio - do silêncio absoluto, mineral?" (AB,
p. 101) E, não obstante ser breve a alegria, (lO) valeu a pena viver. (Cf. AB, p. 187)
Iluminado pela consciência do Ser e esperando fisica-mente que "Amanhã é um dia novo", Jaime, da profundeza do seu nada, pode exclamar, embora perplexo e interroga-tivo: "Sou o deus único, o deus final , a terra não pode morrer como é possível que?" (AB, p. 262)
2. 1 . 2 - O nada como limite do projeto ontológico
Vimos que o silêncio em Alegria Breve é de um
apren-dizado difícil. Ao passo que isso corrobora a "teoria de inclu-são do silêncio" (11) s.egundo a qual devemos ler o além da
10) Já que a palavra " alegria" se encontra no título do romance em aná-lise e se prende intimamente ao sentido geral desse livro, apresen-tamos um levantamento, que não se pretende exaustivo, de ocorrên-cias da referida palavra em Alegria Breve, algumas das quais citadas
no corpo do trabalho:
( . .. ) É uma alegria absoluta, imperiosa e todavia calma como a len-tidão da terra' '. (p . 8)
" ( ... ) a alegria mais simples que é a alegria de ser" . (p . 42) " ( ... ) a alegria é clara e trêmula como um olhar".
(Ibidem)
" Alegria breve, este meu sabê-lo , estap osse de todo o milagre de eu ser e a deposição disso para o estrume da terra." (p . 187) " Choro meu de alegria". (p. 254)
" Uma alegria imperceptível, como um halo, sobre uma vasta amar-gura' '.
" ( ... ) ele dirá na alegria calma do seu triunfo perfeito : I - É apenas a minha voz." (p . 272)
" Fugidia alegria, luz breve." (Ibidem)
11) PORTELLA, Eduardo et alii . Teoria literária. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1975. p . 16.
34 Rev. de Letras, Fortaleza, 5 (2) : pág. 23-46, jul./ dez. 1982
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fala, o não-dito, sabemos que o silêncio, ao lado de signifi-car a incomunicabilidade, simboliza, juntamente com a neve e a solidão, o nada em Alegria Breve. Nos livros da fi cção
existencialista de Verg íl i o Ferrei r a a palavra " silêncio" apa-rece com uma freqüência acentuada. Aniceta de Mendonça anotou-a 81 vezes em Aparição, 100 vezes em Estre la Polar
e 126 vezes em Alegria Breve. (12) Neste romance, diríamos que há, como em Estrela Polar, " Fachos de enigma, apelo
devorador desde um abismo de silêncio" (EP, p. 168) e , como
em Aparição, se escuta "Música do fim, a alegria subtil desde
o fundo da noite, desde o silêncio da morte". (AP, p. 215)
Já observamos também a afirmação de Heidegger de que o Ser provém do nada. E lemos no ensaio vergiliano : " o ser existe a partir do Nada, porque é o Nada que me fundamenta a transcendência do ser, a sua constituição como ser". (EH, p. 83) E explica-se Vergílio Ferreira com estas
pa-lavras que bem se podem adaptar ao caso de Alegria Breve.
( ... ) o Nada, segundo Heidegger - esclareça-mos - rigorosamente não aparece após a aniquila-ção do conjunto do existente, mas com esse exis-tente: o nosso recuo perante esse existente torna-o estranho aos nossos olhos, leva-nos a verificar que
há existentes em vez de coisa nenhuma. (EH, p. 82)
Acrescenta, adiante, o escritor: "Partindo do nada, ( ... ) o homem tem de constituir-se uma Tábua de Valores e de assumi-los em responsabilidade" . (EH, p. 187) Eis que Jaime
se encontra só, no "nada-nada" , para recomeçar um novo mundo, e está " cheio de verdade, de justiça, de futuro ", (AB ,
p. 262) embora, às vezes, fique indeciso e fuja ao ideal por causa da fraqueza assumida de sua própria humanidade. Ainda não sabe "a palavra final" (Cf. AB, p. 272) , mas tem
consciência de sua condenação e de sua grandeza: " Fico eu ainda, alguém teria de ficar, fui eu o condenado a essa ex-cessiva grandeza." (AB, p. 269)
O nada da nossa condição limita-nos no sentido de par-tirmos daí, desse silêncio, donde nasce a voz, o fogos que
nos dá a consciência de sermos. Mas, para diante, o nosso
12) Cf. MENDONÇA, op . cit. nota 2, p . 72.
projeto não tem limites: " só o ilimitado é o LIMITE de todos os limites, só o silêncio é a voz" (NN, p. 312), disse Sara a
Jorge em Nítido Nulo. E Vergílio Ferreira escreve na Carta
ao Futuro: " Jamais o homem terá atingido os seus limites,
porque jamais terá deixado de ser tudo aquilo em que existia". (CF, p. 59)
Encaremos o projeto ontológico em seus dois aspectos, entre si relacionados: aquele em que "o homem está constan-temente fora de si mesmo", " projectando-se e perdendo-se fora de si" para "fazer existir o homem" (Cf. EH, p. 268), e
aquele pelo qual "o que somos em definitivo fica sempre adia-do". (EH, p. 79). Estas últimas palavras são de Vergílio Fer-reira, interpretando Sartre.
E pergunta: "Mas como falar em totalidade acabada, se o homem se define precisamente pelo projecto, pelo não-acaba-mento?" (EH, p. 78) Lê-se também: "o homem é constante
projecto". (EH, p. 81) Maiores esclarecimentos nos oferece
Sartre:
( .. . ) o homem antes de mais nada é o que se lança para um futuro, e o que é consciente de se projetar no futuro. O homem é antes de mais nada um projecto que se vive subjectivamente ( . .. ) nada existe anteriormente a este projecto; nada há no céu inteligível, e o homem será antes de mais o que tiver projectado ser. (EH, p. 217)
Alegria Breve constitui-se uma narrativa intensamente
condicionada ao presente, mas, conquanto traga uma expe-riência necessária, como história que é, da nadificação dos entes, portanto dos "mortos", projeta-se no futuro. Provam isso as freqüentíssimas recorrências ao futuro como tempo verbal, a adoção de atitudes sisíficas de tenacidade e reno-vação e ainda o uso repetido da palavra esperança. Verifi-que-se o emprego dela às páginas 36, 46, 51, 227, 228, 259, e 271. Cerca de três vezes Jaime sente que lhe farão esta co-brança: "- Que fizeste da esp-erança?" (AB, p. 36, 46,
51). E eis a passagem em que, a nosso ver, a esperança apa-rece com o seu mais intenso poder galvanizador: "Ah, a es-perança é mais forte que toda a miséria e todo o estrume acumulado pelos séculos." (AB , p. 227)
36 Rev. de Letras, Fortaleza, 5 (2 ) : pág. 23-46, jul. / dez. 1982
H.
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Vejamos alguns passos em que se reflete o projeto on-tológico em Alegria Breve, algum dos quais já citamos:
O homem novo vai nascer. (AB, p. 127)
Recons-truir tudo desde as origens, desde a primeira pala-vra. (AB, p. 134) Não se conquista, uma conclusão
final, a vida não é uma aritmética. (AB, p-. 174)
Re-começamos a vida ( .. . ) ( AB, p. 261 l Recomeça tudo
de novo. (AB, p. 273) Terei de ir à lenha amanhã.
Terei de ir à vila. Um cansaço profundo. Dorme. Amanhã é um dia novo. (AB, p. 273)
Essas passagens dão-nos a convicção de uma nova evi-dência definidora do homem, de tal forma que a compreen-são do projeto ontológico nos dois ângulos apontados nos mostra duas essenciais definições do homem: o que sabe e o que sonha, o que raciocina e o que imagina. Projetan-do-se fora de si para tomar consciência de sua condição, o homem sabe. Projetando-se com o saber, num contín uo mo-vimento de aperfeiçoamento, em demanda do futuro, o ho-mem sonha. O cansaço aparece por conta do esforço na busca do Ser e por conta do espanto na contemplação do mesmo Ser. O cansaço leva ao sono, e este ao sonho, que também pode ocorrer no homem acordado e lúcido, e é quando se torna mais importante. Mas o sonho de quem dorme, com ser uma atitude mais comum e natural, legitima o sonho do acordado. A opinião de um discípulo de Heideg-ger, Emmanuel Carneiro Leão, justifica o sono e o sonho ou a esperança de Jaime: "Nós não dormimos apenas para des-cansar. Nós dormimos sobretudo para sonhar. Pois sonhar é ser homem." (13) A propósito desse assunto, consulte-se o nosso trabalho, A "Outra Coisa"
na
poesia de Fernando Pessoa (14): o ortônimo e o heterônimo Álvaro de Campostambém perseguiram o saber, cansaram e sonharam sisifica-mente. São entre as personalidades pessoanas as que se re-ferem com marcante freqüência ao cansaço e ao sono.
Para confirmar a definição do homem como aquele que sabe, recorramos à ficção e ao ensaio de Vergílio Ferreira .
13) LEÃO, Emmanuel Carneiro. Aprendendo a pensar. Rio de Janeiro, Vo-zes, 1977 . p. 180 .
14) LINHARES FILHO, José . A "Outra Coisa" na poesia de Fernando Pes-soa.. Fortaleza, UFC / PROED, 1982 .