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Metáforas do sofrimento no trabalho: um estudo da expressão “nervoso” no meio rural

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Academic year: 2018

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Revista de Psicologia

RESUMO

NO MEIO RURAL

1

WORK SUFFERING METAP HORS:

A STUDY ABO UT THE EXPRESSION " NERVES" IN THE RURAL AREA

Vanderléia Dal Castel

2

Jussara Maria Rosa Mendes

3

O estudo apresenta algumas reflexões que vêm sendo desenvolvidas para a compreensão das queixas descritas pelo termo "nervoso" no meio rural e sua relação com o trabalho. A sua denominação represen-ta as dificuldades enfrenrepresen-tadas no cotidiano dos trabalhadores e está relacionada com as situações conflitivas no trabalho e a luta pela sobrevivência das populações de baixa renda . A tensão nervosa é uma lingua-gem psicológica de sofrimento e contempla a dimensão psicossocial, cultural e econômica de um grupo. Nesse sentido, compreende-se o fenômeno como um processo histórico, construído na relação dialética entre o indivíduo e a estrutura social.

Palavras chave: Trabalho rural; processo de trabalho; "problema de nervos".

ABSTRACT

This paper presents some reflections which have been developed in arder to help understand the complaints called "nerves" in the rural zone and its relation to work. This nomination represents the difficulties faced by these workers in the everyday life and it is related to conflictive situations at work and to strategies for these low income population to survive. The nerves tension is a psychological suffering language and it considers the psychosocial, cultural and economic dimensions of a group. Thus, the phenomena is understood as a historical process, built on the dialectic relation between individuais and social structure.

Key words: Rural work, work process and "attacks of bad nerves" .

' Dissertação apresentada no ano de 2003 na Pós-graduação em SeNiço Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

2 Psicóloga, Especialista em Saúde e Trabalho, doutoranda do Programa de Pós-graduação em SeNiço Social, da PUC-RS -Porto Alegre. Membro

integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Saúde e Trabalho (NEST) e Laboratório de Psicologia do Trabalho (LPT) UnB- Brasília. Endereço: Rua São Manuel, 1757 apto. 06 CEP: 90620-110. Telefone: (051) 32197102 E-mail: [email protected]

3 Professora Doutora em SeNiço Social (PUC-SP); Diretora da Faculdade de SeNiço Social e Coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas

em Saúde e Trabalho- NEST, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. PUC-RS, Faculdade de SeNiço Social. Av. lpiranga, 6681 - Partenor, CEP 90619-900- Porto Alegre-AS . Telefone: (51) 3203.3539

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1 INTRODUÇÃO

Compreende-se que o trabalho significa para o sujeito humano, além da busca da necessidade de sobrevivência, a possibilidade de realização de objetivos e aspirações; é um espaço de criatividade, de transformação, de prazer, de construção de iden-tidade, ou seja, é parte constituinte do sujeito. Por outro lado, pode tomar-se uma fonte de sofrimen-to e de incômodo quando suas condições de reali-zação não lhe permitem esse exercício subjetivo.

Partindo deste entendimento, a pesquisa pro-põe compreender a linguagem descrita pela expres-são "nervoso" relacionada ao trabalho, não dissociando-a da estrutura econômica, política e social que envolve o dia-a-dia dos trabalhadores rurais. As mudanças que vêm ocorrendo na orga-nização do processo de trabalho e a luta pela so-brevivência dos pequenos agricultores que residem em comunidades rurais têm implicações no desenvolvimento de estados de tensão nervo-sa nesses sujeitos.

O estudo apresenta, também, a preocupação com as situações sociais e econômicas enfrentadas pelos trabalhadores rurais, o que contribui para o agravo da saúde das farm1ias nos últimos anos, as-sociadas às transformações ocorridas no processo de trabalho, que intensificaram o ritmo e a jornada de trabalho. Os que ainda continuam inseridos no meio rural encontram muitas dificuldades para sua subsistência, o que repercute na forma como ostra-balhadores se relacionam com seus projetos de vida e desejos, oriundos de sua história de vida.

2 A EXPRESSÃO "NERVOSO" E SUARE-LAÇÃO COM O TRABALHO

O estado descrito por algumas pessoas como "nervoso" é reconhecido pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM IV) como um modo de caracterizar sintomas que denotam excessiva preocupação, irritabilidade, insônia, an-siedade, palpitações, incapacidade para se concen-trar, sensações de formigamento no corpo, tonturas, aperto no peito, falta de ar, depressão, inquietação, transtorno digestivo, entre outros. Estes sintomas são vistos como uma expressão es-pecífica da cultura para o sofrimento e estados emocionais. (SPITZER, 1996).

Essa vivência é apontada por Low (1989) como sendo a definição de uma linguagem do

so-m

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frimento. Os "nervos", para ele, têm várias signi-ficações, pois são a expressão da condição social, cultural, política e econômica de uma sociedade. A sua origem é entendida por meio da condição de desigualdade econômica que se reflete nos confli-tos de classe, na relação desigual de gênero, discri-minação, desemprego, pobreza, relações de dominação e isolamento social e cultural, bem como em relação aos percalços na vida familiar. Dessa forma, a tensão "nervosa" é uma linguagem psico-lógica de sofrimento que contempla a dimensão psicossocial, cultural e econômica de um grupo.

Estudos de Souza (1983), sobre o "problema de nervos", apontam que o desenvolvimento de sintomas nervosos é conseqüência de sentimentos de fracasso individual, sentimento de exploração, relacionados ao trabalho desenvolvido sem recom-pensa, e o não-reconhecimento social, bem como está associado as baixas condições socioeconômicas do trabalhador e sua família.

Os dados do cotidiano de trabalho observa-dos por Costa (1989) mostraram que, nos ambula-tórios psiquiátricos ligados aos serviços públicos, há uma grande referência ao "doente dos nervos", quando os profissionais reconheceram a associa-ção dos sintomas às dificuldades relacionadas ao trabalho, assim como as questões referentes à iden-tidade do trabalhador. O autor sugere que a "do-ença dos nervos" está também relacionada com a questão da identidade, entendida por ele como tudo aquilo que se vivenda (sente, enuncia) como sen-do eu, por oposição à quilo que se percebe ou enun-cia como não-eu (aquilo que é meu; aquilo que é outro; aquilo que é do outro). Portanto, o sintoma está relacionado à trajetória profissional e seus per-calços, compostos por uma variedade de sintomas, em geral com manifestações corpóreas.

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movimen-tos que dizem respeito à singularidade humana, assim como existe uma identidade social, étnica, religiosa, de classe, profissional, política etc. que interage na forma de o homem ver o mundo, de vivenciá-lo emocionalmente e de se comportar den-tro dele em relação a outras pessoas. OACQUES, 2002).

Entretanto, os autores referidos identificam que há uma relação entre os estados "nervosos" e as dificuldades da vida laboral, ou seja, há uma interrelação entre a trajetória profissional e os per-calços na história de vida de cada sujeito trabalha-dor. Neste sentido, as queixas descritas pela linguagem "nervosa", representam situações conflitivas vivenciadas no trabalho e na reprodu-ção social, ou seja, aquelas relacionadas à luta pela sobrevivência das populações de baixa renda.

3 "PROBLEMA DE NERVOS": UMA EX-PRESSÃO MULTIDETERMINADA PELO TRABALHO NO CONTEXTO RURAL

A explicação sobre o "problema de nervos" no contexto rural foi discutida no Brasil inicialmente pelos estudos de Rozemberg (1994), que entrevis-tou 45 sujeitos residentes em comunidades rurais e obteve as seguintes definições da expressão: difi-culdade para dormir, cansaço, dor no corpo, dor de cabeça, tormento na mente, disparo do coração, vontade de fugir, medo de tudo, crises de choro, briga, quebra de coisas, vontade de beber veneno e outros. Os sintomas descritos pelos trabalhadores eram causados pela impossibilidade de dar conta do trabalho excessivo, assim como a condição eco-nômica, a qual exigia que toda a família trabalhas-se até a exaustão.

Outros estudos ainda realizados no meio ru-ral descrevem que as queixas relacionadas ao ter-mo "nervoso" expressam o sofrimento e os estados emocionais tanto físicos (tremor, dor de cabeça, tonteira, aflição, desânimo, insônia, dores pelo corpo) como mentais (tristeza, melancolia, angústia, irritabilidade, inquietação, cansaço, e depressão). (SOUZA, 1983; DUARTE, 1986;

OLI-VEIRA, 2000; DAL CASTEL, 2001; 2002). Os au-tores concluíram que a linguagem do "nervoso" é uma expressão característica do dia-a-dia dos tra-balhadores e está relacionada a fatores estressantes no seu cotidiano de vida.

Rozemberg (1994) constatou que o consumo de calmantes estava associado ao "problema de ner-vos" em 25 comunidades rurais da região serrana do estado do Espírito Santo e encontrou, entre 34 lavradores de áreas rurais (30% dos entrevista-dos), alguém que referia e descrevia para si e/ ou familiares que sofria de "problema dos nervos". Em 11 relatos, correspondendo a 32%, apareceu o excesso de trabalho como fator desencadeador privilegiado dos estados "nervosos". Em 88% dos 34 depoimentos foi referido pelo trabalhador o uso de um ou mais "remédios de nervos", ou seja, usavam regularmente medicamentos psicotrópicos. A pesquisa apontou para a necessidade de se com-preender esta nova situação, num contexto socioeconômico e cultural em que se encontram inseridos os pequenos agricultores, que vêm sen-do silenciasen-dos pelo uso de calmantes, mascaransen-do suas angústias e estados emocionais.

A compreensão desse quadro "nervoso" ou "problema de nervos" está associada à trajetória no trabalho, além da agravante socioeconômico que também está desencadeando os sintomas aci-ma descritos. Além disso, é preciso levar em consideração que, em alguns casos, o pano de fundo para o estado nervoso pode estar relaci-onado ao uso de agrotóxicos (inseticidas, fungicidas e herbicidas), que possuem compo-nentes como organofosforados e manganês, que afetam o sistema nervoso central, provocando sintomas que podem ser caracterizados por es-tados acima descritos. (LEVIGARD, 2001; GIARDI, 2002). No entanto, os sintomas nervo-sos estão associados a múltiplas dimensões: psicossocial, sentimento de exploração, fracas-so e não reconhecimento fracas-social; situação eco-nômica e ocupacional, exposição a agrotóxicos e a Lesões por Esforços Repetitivos/ Distúrbios Osteomusculares relacionados ao trabalho, LER/ OORT 4, que acabam provocando muitas vezes

li-mitações físicas no trabalhador.

'Lesões por Esforço Repetitivo (LER) consistem em um conjunto de afecções que acometem músculos, tegumentos, tendões, ligamentos, articulações, nervos e vasos sanguíneos. As síndromes compressivas de nervos periféricos, tenossinovites, mialgias e síndromes dolorosas miofaciais são afecções freqüentemente presentes, isoladas ou concomitantes. (MAENO, 2003, p. 83).

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Faria et al (1999 e 2000) observaram que, em duas regiões do Rio Grande do Sul, com 1.479 tra-balhadores rurais, a prevalência geral dos transtor-nos psiquiátricos menores foi de 36% (538 pessoas), sendo que 41% em Antônio Prado e 32% em Ipê. Entre os trabalhadores, 18% usaram medicamen-tos psicotrópicos e 5% foram hospitalizados por motivos psiquiátricos, em algum momento de sua vida. Os dados apontaram para uma associação entre morbidade psiquiátrica e trabalho intensivo com ferramentas manuais. Sendo assim, esses fa-tores estão ligados a um grande desgaste físico na realização do trabalho, também indicando que os baixos níveis tecnológicos e socioeconômicos da po-pulação do meio rural estão associados aos distúrbi-os psiquiátricdistúrbi-os, daddistúrbi-os esses constataddistúrbi-os pelo autor na pesquisa de campo.

O "problema de nervos" foi definido por Go-mes (2000) como a terceira categoria de doenças mais referida entre trabalhadores de um grupo, o que o levou a concluir que o "nervoso" é uma lin-guagem por meio da qual eles nomeiam suas do-res, deixando entrever a percepção de que o sofrimento pode ter origem em fatores externos, vinculados a problemas vivenciados no seio da fa-mília e no trabalho.

Considerando esses estudos, todos os autores concordam que há uma relação entre a expressão "nervosa" e as questões associadas às mudanças nas condições socioeconômicas, política e social das famílias que vivem do trabalho rural.

4 O CAMINHO METODOLÓGICO DA PESQUISA

A proposta de pesquisa desenvolvida apre-senta resultados do estudo realizado com trabalha-dores rurais do estado do Rio Grande do Sul. Privilegiou-se nessa investigação uma abordagem qualitativa. Para esta, foram realizadas oito en-trevistas no mês de julho de 2002, em três comu-nidades. Foi adotada a entrevista semi-estruturada com roteiro norteador, cujo eixo central foi com-posto por questões referentes a categorias proces-so de trabalho, situação econômica e problemas de saúde (a expressão "nervosa", ou "problema de ner-vos", emergiu espontaneamente no discurso dos sujeitos).

O procedimento ético para a realização das entrevistas consistiu na apresentação da

propos-m

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ta de pesquisa aos participantes, sendo que a sua realização somente foi levada a efeito após a assi-natura de um termo de consentimento pós-infor-mado. Neste, salientou-se que em nenhum momento seria identificado o nome do sujeito que participaria da pesquisa, sendo que os nomes apre-sentados no resultado do estudo seriam fictícios. A escolha na abordagem qualitativa para desenvolvimento da pesquisa deu-se a partir da necessidade de compreender as experiências e vivências no cotidiano dos trabalhadores do meio rural. Trata-se de um método que trabalha com o universo de significados, aprofunda as dimen-sões ocultas dos fenômenos das relações huma-nas, ou seja, um lado que não é captável em equações, médias e estatísticas, no qual se traba-lha com categorias. Essas categorias permitem decodificar e traduzir, com o auxílio de conceitos teóricos, as estruturas do discurso do sujeito, que revelam relações entre diferentes sujeitos sociais. (MINAYO, 2002).

Nesse sentido, Martinelli (1999) enfatiza que a pesquisa qualitativa não é desenvolvida com um

grande número de sujeitos, pois é preciso aprofundar o conhecimento em relação àquele sujeito com quem se está dialogando. A partir deste pressu-posto, delimitou-se os sujeitos que fizeram parte do estudo, que foram escolhidos intencionalmen-te, ou seja, o número de sujeitos envolvidos foi sig-nificativo, em função do que se buscou com a pesquisa. O indicativo que norteou o número de entrevistas a serem realizadas baseou-se no princí-pio de saturação da informação (MARTINELLI, 1999, p. 15), ou seja, quando os dados começam a se repetir é o momento de identificar se chegou ao conjunto das informações que se poderia obter em relação ao tema.

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indelicado pedir que os filhos se retirassem, e a comunicação assim aconteceu, respeitando esses princípios.

O procedimento para a análise dos dados foi a interpretação das entrevistas coletadas por meio da técnica de análise de conteúdo, proposta por Bardin (1977), que propõe explicitar qualitati-vamente a percepção dos trabalhadores sobre suas vivências no cotidiano de seu trabalho. Outra fun-ção dessa técnica diz respeito à descoberta do que está por trás dos conteúdos manifestos ou nas en-trelinhas do que está sendo dito.

Portanto, é valido salientar que, no processo de apropriação do tema, o pesquisador não nasce pronto, mas assim se toma na busca contínua do conhecimento, na interação inseparável entre teo-ria e prática. Articular permanentemente esses dois campos é ação indispensável em todo processo de pesquisa na medida em que toda ida ao campo se inicia a partir de alicerces teóricos. Entretanto, por meio do contato vivo com a realidade em estudo, o pesquisador alimenta a teoria, ampliando-a ou even-tualmente rompendo com estruturas explicativas até então tidas como válidas.

4.1 A Região em Estudo

O muniápio no qual se realizou a pesquisa está localizado na região norte do estado do Rio Gran-de do Sul. Tem aproximadamente 5.755 habitantes, sendo que, dessa população, 3.105 residem em áre-as rurais (dados referentes a 1999, estimados pela Fundação de Economia e Estatistica (FEE) do estado do Rio Grande do Sul). Na maioria das vezes, eles desenvolvem trabalhos agrícolas na área rural e sua atividade é caracterizada como agricultura familiar. O relevo do município é montanhoso, o que toma difícil o preparo da terra para o plantio. Devido às características da região, o cultivo da terra é realiza-do, muitas vezes, manualmente.

4.2 Os Sujeitos da Pesquisa

As fanu1ias selecionadas para participar da pesquisa foram escolhidas intencionalmente, ou seja, elas participavam do programa de saúde men-tal, coordenado pelos profissionais da Secretaria de Saúde daquele município. Os sujeitos são caracte-rizados por pequenos produtores, por possuírem entre 7 e 30 hectares e trabalham em regime fami-liar. A terra é o centro de referência da economia e

da cultura da população local. A atividade pro-dutiva envolve homens, mulheres e também as cri-anças. Sua principal atividade agrícola é o plantio e a colheita de milho, trigo e soja, mas também são desenvolvidas atividades na produção de lei-te, criação de suínos e aves etc. Devido ao relevo da região, grande parte das lavouras está locali-zada em encostas, no alto dos morros. As estra-das são de terra, estreitas e sinuosas, sendo que os moradores contam com poucos ônibus para o seu deslocamento. De modo geral, as casas já têm abastecimento de água encanada, precariamente instalada pelos próprios moradores, mas carece de fossas ou de um sistema de saneamento, sen-do ainda freqüente e usual o despejo sen-do esgoto diretamente nos rios.

Os trabalhadores entrevistados na pesquisa relataram que em algum momento de sua ativi-dade, dependendo do que é plantado, utilizam força animal para realizar o plantio, sendo que neste caso fazem uso de sua própria força do corpo para impulsionar os instrumentos de trabalho.

So-mente uma das famílias utilizava maquinaria agrícola como trator e plantadeira (que realiza o plantio direto). O motivo dado por eles para con-tinuar trabalhando com métodos mais antigos para o preparo da terra é a dificuldade de finan-ciamento bancário, que não facilita essa passa-gem para a mecanização.

5 RESULTADOS E DISCUSSÕES

5.1 A Organização do Processo de Tra-balho no Espaço Rural

O processo de trabalho, na visão de Marx (1867 /1968), é um processo pelo qual os seres hu-manos atuam sobre as forças da natureza, sub-metendo-as ao seu controle e transformando os recursos naturais em formas úteis à sua vida. Por isso, ao modificar a natureza, o trabalhador colo-ca em ação suas energias físico-musculares e men-tais. Assim, no processo de interação com a natureza, ele se transforma a si mesmo, atribuin-do, desta maneira, um significado ao seu próprio trabalho.

O processo de trabalho é o meio pelo qual o ser humano coloca em prática as aspirações, os de-sejos, suas necessidades, e no qual, além da interação com o meio ambiente, há uma atividade mental que o acompanha e dá sentido a suas ações.

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O depoimento abaixo a caracteriza essa relação homem/processo de trabalho no meio rural:

A família inteira vai para a roça, quem estiver em casa e puder trabalhar, seja mais velho, seja mais novo, todo mun-do tem de trabalhar, então, cada um tem o seu serviço, é dividido. Só que nos fins de semana não dá para sair todo mundo de casa, não dá para dei-xar os bichinhos, a lavoura sem cui-dado, então, um tem que sempre ficar[ ... ] a verdade é que férias nunca tiramos. A gente trabalha muito se estressa bastante, também, porque, não é sempre que as coisas vão bem, mas se a gente parar de trabalhar desanima. (Pedro).

O trabalho desenvolvido no meio rural tem como especificidade a dedicação da família em tem-po integral na propriedade, ou seja, devem ter per-manentes cuidados nos períodos de cultivo e colheita da lavoura e outras tarefas, que são as alternativas de renda que mantém a subsistência de todos os envol-vidos no processo, o que leva os trabalhadores a con-viverem com controles e pressões (externas) ligadas a organismos multinacionais que detém novas tecnologias de sementes e fertilizantes. A dependên-cia aos bancos envolve os agricultores em uma rela-ção de submissão a financiamentos, reduzindo a sua capacidade de investimento na propriedade. Sobre esta vivência, um trabalhador expressou: "Nós só trabalhamos e eles só levam o lucro" (Paulo).

Nesse contexto de transformações, o traba-lhador rural perdeu o controle sobre a sua produ-ção, ou seja, no momento da venda de seus produtos, estes são desvalorizados e o que o traba-lhador recebe não é suficiente para pagar suas dí-vidas e manter sua subsistência, visto que suas dívidas com empresas privadas são negociadas em dólar, o que dificulta o seu pagamento e os próxi-mos investimentos. Assim, os objetivos planejados durante o ano todo pela família são suprimidos e como eles enunciam, "não se consegue dar o giro" (Mário); "trabalha o ano inteiro e não tem lucro nenhum" (Paulo). Todos esses fatores são motivos para desencadear nos trabalhadores sentimentos de fracasso, frustração, impotência, angústia, senti-mento de não ter sido reconhecido, gerando con-flitos e sensações de serem objetos, no jogo do mercado das grandes multinacionais, as quais desconsideram o seu trabalho.

m

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O trabalhador perdeu o controle sobre suas ações, suas atividades deixaram de ter um sentido para a sua vida, o significado do trabalho para si passa a ser reduzido ao plano econômico. Esta vivência coloca o trabalhador diante de sentimen-tos ambivalentes: por um lado, ele busca, por meio do acesso aos bens de consumo, realizar seus ob-jetivos, seus sonhos de ter uma "casa com mais conforto, um carro bom" (Paulo), mas, por outro lado, ele se vê diante de uma realidade estranha; "Falta dinheiro; o tanto que o cara recebe não con-segue dar a volta nunca, parece que sempre falta alguma coisa" Goão). Assim, o sentimento anta-gônico deriva dessa luta pela não-anulação desse sentimento, que é próprio da singularidade exis-tente em cada ser humano, ou seja, a atividade mental que acompanha o sujeito trabalhador de-senvolve mecanismos de defesa contra as agres-sões do meio.

Um outro fator de instabilidade enfrentada pelo trabalhador rural é a insegurança e o medo vivenciados quotidianamente pelas condições cli-máticas, como o excesso ou a falta de chuva, ou mesmo o controle das ervas daninhas, insetos e moléstias (vírus, fungos e bactérias) que prejudi-cam suas plantações e são influenciadas pelo cli-ma. As variações que ocorrem podem alterar a produção e a colheita de seus produtos, como enfatiza uma trabalhadora: "Trabalha sempre ar-riscando, né, medo de botar o que a gente põe em cima da terra que é tudo caro e acaba perdendo aquele também[ ... ]" (Tânia).

As modificações no processo de trabalho le-varam a um aumento na jornada de trabalho para a família que vive do trabalho rural, o que signifi-ca que ao final do dia, a fadiga é intensa. Além do mais, o trabalho na roça é exposto a elevadas tem-peraturas, frio e calor, movimentos repetitivos, po-dendo tornar-se penoso, pois demanda maior incremento de esforço físico e mental. Sobre isto o trabalhador descreve:

Ah! O horário não tem limite, até que tiver serviço, mas no caso dá umas dez horas por dia. Praticamente doze horas por dia, porque das ve-zes entra noite adentro (Emílio).

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No entanto, as mudanças no processo de trabalho no meio rural têm submetido os traba-lhadores a jornadas extenuantes, a precárias con-dições de trabalho e os deixado com sentimento de não ter reconhecimento pelo seu trabalho. Vivências como essas podem provocar problemas de saúde que não são necessariamente doenças, como a fadiga e o estado de tensão nervosa.

5.2 Fatores de Desequilíbrio entre o Su-jeito e seu Trabalho

A inviabilidade na concretização da reali-zação de planos de ascensão social e de proporci-onar um maior bem-estar para a família pode gerar conflitos psíquicos que resultam em crises emoci-onais e encontram, dentro de um espaço social,

um caminho possível de representação. Estamos nos referindo aqui à expressão do "nervoso" em nossa cultura cuja linguagem encontra-se incor-porada às vivências no trabalho descrito também pelo trabalhador de áreas rurais. Para se compre-ender essa forma de expressão são descritos inici-almente alguns fatores que se entende como sendo o pano de fundo para os estados de tensão com os quais os trabalhadores convivem no seu dia-a-dia (Quadro 1).

Quadro 1

Fatores que contribuem para o estado de tensão nervosa entre os trabalhadores rurais.

(ver página 72)

Novas tecnologias; Aumento da jornada de trabalho- maior do que 14 horas diárias; Redu-ção do número de componentes da família; Ex-posição a elevadas temperaturas (frio e calor); Exposição a fatores químicos (uso de agrotóxicos); Dívidas bancárias ou dificuldade de acesso ao crédito bancário; Dificuldades econômicas; Difi-culdade para sair de férias. Falta de controle so-bre sua produção agrícola (no momento da venda); Insegurança com relação à instabilidade do clima; Intensas pressões, angústias, medos e frustrações no momento do plantio e colheita da safra; O não-reconhecimento pelo seu trabalho; Separação dos filhos; Trabalho em solilóquio (so-litário, isolado).

A seguir são apresentadas falas que retra-tam fragmentos da vida cotidiana dos

trabalha-dores que descrevem a sua rotina de trabalho, bem como, os sentimentos envolvidos na realização das suas atividades:

É sofrido porque a gente trabalha e às vezes não tem a compensa de ter lucro em cima do que a gente traba-lha; faça uma conta, você trabalha um ano inteiro e chega ao final do ano e você não recebe um pila, e sabe que você tem que comer, tem que continuar a vida, tudo para frente e você trabalha o ano e não ter resultado e sabendo que vai vir o outroanonafrente, [ ... ] entãoésofri-doporisso. Goão).

É, inclusive ontem eu fui ao médico, porque não dormia mais de noite de dor nas costas, dor nos braços, dos nas pernas, e daí o doutor me deu calmante, porque é do trabalho, pará de trabalha, quem vai fazer meu ser-viço, não tem. (Maria).

No primeiro depoimento percebe-se que o sentimento dos trabalhadores está relacionado ao não reconhecimento do seu trabalho, o que impli-ca em sofrimento. Já na segunda fala, o trabalha-dor sabe que a sobrevivência da família depende, quase inteiramente, das condições físicas para o tra-balho, qualquer limitação no corpo constitui ame-aça de extrema gravidade. Estes dois fatores representam um fator potencializador de sofrimen-to psíquico ao trabalhador, vissofrimen-to que 。ヲ・セ。@ esferas de sua vida que são significativas, geradoras e transformadoras de significado.

O trabalhador compreende que entre ele e o seu trabalho há um processo de autoconstituição que o torna sujeito de sua história, por isso so-mente ele pode falar da relação entre o trabalho e o seu estado "nervoso". Veja-se nos depoimen-tos dos trabalhadores a sua própria explicação para suas mazelas:

Acho que essa dor no estômago que é causado pelo nervosismo, tam-bém, porque, às vezes as coisas não vão bem, daí começa ficar meio de-primido e daí começa dor no estô-mago. É bastante trabalho, cansa, cansa os músculos na hora tu não sente depois que tu vai dormir, não dorme, a canseira[ .. ]; Ah! A gente enfrenta dificuldade, acho que o pro-blema de saúde já vem mesmo do

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balho, bastante sofrido, canseira, daí começa dor pelo corpo, c:oisa assim. (Maria).

Problema de nervo, não sei se é de tanto trabalhar que esgotou os ner-vo, também, pode ser que o próprio trabalho das vezes foi que [silêncio]. Goão)

A expressão "problema de nervos" é uma lin-guagem psicológica que descreve o sofrimento na relação do sujeito com o seu trabalho. Evidencia uma sobrecarga de trabalho que representa as vivências negativas no plano do trabalho a que os trabalhadores estão expostos no seu dia-a-dia. Essa vivência negativa transforma-se em uma tensão nervosa, ou seja, o sujeito é submetido a excitações vindas do exterior (informações visuais, auditivas, táteis, etc.) ou do interior (excitações pulsionais, in-veja, desejo), o que faz com que o trabalhador rete-nha energia. A excitação, quando se acumula, toma-se a origem de uma tensão nervosa. Para li-berar essas energias, o trabalhador dispõe de mui-tas vias de descargas: a via psíquica, a via motor, a via visceral, etc. Assim, se o desenvolvimento do trabalho possibilita esse livre movimento, ele será fator de equihbrio; se ele se opõe, será fator de sofri-mento e de doença, ou seja, se o trabalho realizado é fonte de conflito para o trabalhador, este poderá estar suscetível à tensão nervosa, até que apareça a fadiga, depois a astenia (fraqueza orgânica) e a se-guir, a doença. (DEJOURS et al., 1993).

Sobre a explicação acima é possível obser-var no depoimento da trabalhadora como ela vivenda o processo de sobrecarga física e mental:

Foi esgotação de nervo, né; foi can-sando, cansa a musculatura ... não podia mais, começou me dá uma coi-sa ruim de tanto que eu ta v a sofrendo me deu um nervoso. (Márcia).

É importante levar em consideração, tam-bém, que o fato do trabalho rural ter como carac-terística a exigência de esforço físico e/ ou mental pode provocar incômodo, sofrimento ou desgaste da saúde. Tais situações podem desencadear pro-blemas de saúde que não são necessariamente do-enças, como a fadiga e o estresse. (SATO, 1994).

Outro fator negativo para a vivência no tra-balho é a partida dos filhos para a cidade, em busca de melhores condições de vida, trabalho e educa-ção, o que gera uma situação nova, que acaba por produzir situações antes não experimentadas:

Ele procurou emprego porque a roça não dava mais, não sobrava, a gente trabalhava por dia e sabe como que é rapaziada, a gente colhia e dava malemal [ ... ];A gente foi se cansan-do e além de tucansan-do não sobrancansan-do e os filhos da gente indo embora por fal-ta de dinheiro né, porque trabalha-vam e não sobrava ... e a gente acaba ficando sozinha [ ... ] (Márcia).

Em algumas situações, o ideal do trabalho familiar e rural que eles acalentaram para si e para seus filhos estava tendo que ser abandonado. O jovem nascido no campo, hoje, está projetando suas perspectivas num futuro de vida urbana e o agricultor de meia-idade, antes familiarizado com as referências de seus antepassados, com as quais se organizava no seu processo de trabalho, en-contra-se diante de uma realidade estranha e mutável.

A busca da sobrevivência, guiada pelo fator econômico, mascara o caráter histórico e huma-no da vida social transformando o homem em ele-mento passivo, em espectador de um drama que se renova continuamente, em que os únicos ele-mentos relativamente ativos são as coisas inertes. É o próprio processo de coisificação à qual se reduz a atividade humana. (GOLDMANN, 1979). A coisificação é compreendida como a própria alie-nação5 do homem na relação com sua obra. Seu trabalho aparece como coisa e objeto e não como o objetivo de sua própria construção.

Dessa forma, as queixas referentes ao ficar "nervoso" estão associadas às múltiplas dimen-sões da vida humana: a psicossocial, que envol-ve sentimentos de exploração, de frustração, de não-reconhecimento social; a situação econômi-ca e outros que podem se associar ao longo da história de vida do trabalhador. Além disso, a linguagem expressa pela metáfora 6 "nervoso" pode relacionar-se às dificuldades de sobrevivên-cia dessa classe sosobrevivên-cial. Nesse sentido, essa

lingua-5 Etimologicamente alienação na definição em Latim alienatus refere-se a estado daquele que pertence a outro.

6A palavra metáfora é utilizada para referir uma expressão que é dita e tem sentido figurado e pode ser substituída por outra, em virtude

da relação de semelhança subentendida. (LUFT, 2000)

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gem configura uma metáfora para o sofrimento e reflete o profundo desequilíbrio entre o sujeito e o seu trabalho.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Compreende-se que o trabalho age sobre o trabalhador que constrói formas de pensar, de sentir e de expressar suas experiências no espa-ço social. As vivências de cada pessoa se dife-renciam por meio de comportamentos, atitudes, jeitos particulares que definem os modos de ser e de se expressar em um determinado contexto sociocultural fortemente influenciado pela estru-tura da sociedade.

Nesse sentido, compreende-se a expressão do "nervoso" como uma linguagem determinada na relação dialética entre o indivíduo e a realida-de produzida socialmente, na história do homem com o seu trabalho. A expressão metafórica reve-la o sofrimento vivenciado no preve-lano do trabalho, na família e na vida em sociedade.

O terna abordado neste ensaio teve a pre-tensão de trazer para a interlocução algumas dis-cussões sobre aspectos que envolvem a relação do trabalho com a saúde. A reflexão consiste em sensibilizar os diferentes profissionais para as diversas demandas que emanam do campo de in-tervenção na especificidade do trabalhador rural, pois sua compreensão ainda não foi devidamen-te incorporada e compreendida suficiendevidamen-temendevidamen-te nos diversos campos do conhecimento que inte-gram as Ciências Sociais e Humanas, o que tem suscitado intervenções nem sempre adequadas, como a indicação indiscriminada de consumo de medicamentos psiquiátricos, assim como a escolha por práticas individuais que privilegia ações frag-mentadas, descontextualizando o trabalhador do seu meio.

Nesse sentido, os apontamentos realizados nesse espaço se propõem a preencher (não de for-ma conclusiva) a lacuna de estudos sobre a temática proposta, na medida em que se sugere uma reflexão sobre a proposição e encaminhamen-to de Políticas Públicas capazes de intervir e cola-borar na realidade específica do trabalhador rural. Da mesma forma, alerta-se para a necessidade de se repensar uma formação profissional que con-temple a particularidade do trabalhador rural nos seus temas em debate no meio acadêmico.

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Quadro 1

Fatores que contribuem para o estado de tensão nervosa entre os trabalhadores rurais.

Processo de trabalho/

Organização do trabalho

Condições de trabalho

(pressões mentais)

Novas tecnologias; Falta de controle sobre sua produção agrícola (no momento da venda);

Aumento da jornada de trabalho -maior do que 14 Insegurança com relação a instabilidade do clima; horas diárias;

Redução do número de componentes da família; Intensas pressões, angústias, medos e frustrações no momento do plantio e colheita da safra;

Exposição a elevadas temperaturas (frio e calor); O não-reconhecimento pelo seu trabalho;

Exposição a fatores Quúnicos (uso de agrotóxicos); Separação dos filhos;

Dívidas bancárias ou dificuldade de acesso ao

Trabalho em solilóquio (solitário, isolado). crédito bancário;

Dificuldades econômicas;

Dificuldade sair de férias .

Referências

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