UNIVERSIDADE DE LISBOA
FACULDADE DE LETRAS
Traduzindo a Acessibilidade – relatório de estágio em Tradução na Electrosertec
Maria Ana Vasconcelos Miranda da Graça Moura
Relatório de estágio realizado sob a orientação da Prof.ª Doutora Maria Clotilde Almeida, elaborado para a obtenção do grau de Mestre em Tradução
2022
A tradução é a democratização do conhecimento e os seus agentes são os tradutores.
- Professora Teresa Seruya
Nota prévia
O presente relatório, conducente ao grau de Mestre em Tradução, foi redigido, parcialmente em simultâneo com a realização de um estágio curricular na empresa ElectroSertec, no ano lectivo de 2019-2020, no seguimento da parte curricular do Mestrado em Tradução, frequentado em 2018-2019 na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
A duração do estágio foi de cerca de 302 horas na sua totalidade, das quais, aproximadamente, 187 horas foram realizadas no primeiro semestre e 115 horas no segundo semestre.
No decorrer do estágio curricular na Electrosertec, fiquei encarregue de transcrever e traduzir a informação de um vídeo de uma página web do produto GlassOuse, da tradução de uma Nota de Lançamento do telemóvel MiniVision, um Manual de Instrução relativamente ao mesmo telemóvel, de dezanove tutoriais online sobre a pulseira electrónica de apoio à navegação Sunu Band e de uma brochura, um panfleto e de um guia de início rápido acerca de um tablet de magnificação de texto denominado Optelec, mas para o efeito do presente relatório que versa o tema da tradução técnica, foi restringida a análise apenas ao Manual de Instrução do telemóvel MiniVision e aos dezanove tutoriais online acerca da pulseira electrónica de navegação Sunu Band, uma vez que estes documentos foram os mais vastos e mais ricos de informação.
É de salientar que todas as traduções foram realizadas por mim, com recurso a várias fontes de pesquisa, tais como dicionários online, corpus e, especialmente, o recurso ao orientador local Dr, Aquilino Rodrigues.
Esta dissertação de Mestrado foi escrita ao abrigo do Antigo Acordo Ortográfico.
Agradecimentos
Em primeiro lugar, quero agradecer à minha família toda a força e apoio que sempre me deram para que seguisse o percurso de tirar um Mestrado e, ainda mais, na feitura do presente relatório de estágio. Quero agradecer especialmente à minha madrinha e ao meu padrinho, sem os quais certamente não estaria nesta etapa da minha vida. Agradeço ainda à minha mãe, à minha madrinha e ao meu padrinho por nunca me deixarem perder a esperança, me encorajarem sempre e nunca duvidarem das minhas capacidades.
Em segundo lugar, agradeço à Professora Doutora Maria Clotilde Almeida por toda a orientação e apoio técnico prestados durante a elaboração do presente relatório. Apesar de a escrita deste relatório ter sido demorada e com alguns percalços, agradeço-lhe especialmente a sua paciência e confiança depositada em mim durante a elaboração desta dissertação.
Agradeço à ElectroSertec e, ainda mais, ao meu supervisor local, Dr. Aquilino Rodrigues, por me ter aceitado como estagiária curricular em Tradução e por toda a sua disponibilidade e simpatia em ajudar-me a responder a qualquer pergunta que me tenha surgido relativamente às traduções que me foram atribuídas. O Dr. Aquilino Rodrigues fez-me sentir sempre parte da pequena família da ElectroSertec. Apesar de esta empresa não ser especificamente de tradução, na mesma encontrei a oportunidade de crescer enquanto tradutora. Posso afirmar que foi uma experiência importantíssima para que me tornasse numa melhor profissional.
Por último, deixo também o meu sincero agradecimento a todos os meus amigos, sem o encorajamento dos quais certamente não teria terminado o meu Mestrado em Tradução e não teria força para lutar contra as dificuldades que foram surgindo.
A todos, um muito obrigado.
Resumo
O presente relatório de estágio foi elaborado após a conclusão do estágio curricular em Tradução realizado na ElectroSertec e dedica-se quer à análise semântica da tradução de Manuais de Instruções de equipamentos específicos para pessoas com deficiência visual ou motora quer às questões e dificuldades de Inglês para Português Europeu de terminologia específica da área da Tecnologia, nomeadamente da Tecnologia Acessível para Pessoas com Deficiência. Afigurou-se de maior importância a elaboração de glossários para cada Manual traduzido, com o propósito de criar recursos terminológicos próprios, não só para a ElectroSertec, mas também para outros tradutores nesta área tecnológica.
É de realçar que o presente relatório consiste numa reflexão linguística baseada nas opções tradutórias que tomei nos textos de chegada de maneira que houvesse conformidade com os textos de partida, pelos prismas semântico e sintático.
Palavras-chave: Tradução técnica; terminologia técnica; manuais de instruções; abordagem semântica, sintática e pragmática.
Abstract
This internship report was written after concluding the curricular internship in Translation at ElectroSertec and is dedicated both to the semantic analysis of the translation of Instruction Manuals for specific equipment for people with visual or motor disabilities and to the questions and difficulties of translating specific terminology from English into European Portuguese in the area of Technology, namely Accessible Technology for People with Disabilities. The preparation of glossaries for each translated Manual was of the utmost importance, in order to create terminological resources not only for ElectroSertec, but also for other translators in this technological area.
It should be emphasized that this report consists of a linguistic reflection based on the translation options I have taken in the target texts so that there would be conformity with the source texts, from a semantic, and syntactic approach.
Keywords: Technical translation; technical terminology; instruction manuals; semantic, syntactic, and pragmatic approach.
Índice
Nota prévia Agradecimentos Resumo
Abstract Introdução
Parte 1 – Caracterização do Estágio Curricular 1.1. Descrição do Estágio Curricular
1.2. Descrição das traduções e das tarefas realizadas ao longo do Estágio 1.3. Descrição dos recursos utilizados para a consulta de dúvidas e questões Parte 2 – Caracterização de um Manual de Instruções
2.1. Definição do género textual de um Manual de Instruções 2.2. Sequências textuais de um Manual de Instruções
2.2.1. Sequências explicativas 2.2.2. Sequências injuntivas 2.2.3. Sequências descritivas
2.3. Características léxico-sintáticas 2.3.1. Registo linguístico
2.3.2. Recursos lexicais e tempos verbais 2.4. Organização de um Manual de Instruções Parte 3 – Tradução
3.1. Delimitação do conceito de Tradução Técnica 3.1.1 Definição de texto técnico
3.1.2. Características específicas da Tradução Técnica 3.2. O papel do tradutor enquanto mediador intercultural 3.2.1. Competências requeridas pelo tradutor técnico 3.2.1.1. Conhecimento do campo temático
3.2.1.2. Utilização correcta da terminologia
3.2.1.3. Competências nos géneros técnicos característicos 3.2.1.4. Domínio da documentação como ferramenta de trabalho 3.3. Linguagem Geral e Linguagem Especializada
3.4. Estratégias de Tradução
3.4.1. Tradução literal 3.4.2. Empréstimo 3.4.3. Equivalência 3.4.4. Recategorização 3.4.5. Expansão/Explicitação 3.5. Questões léxico-semânticos 3.5.1. Terminologia
3.5.1.1. Siglas
3.6. Questões Semânticas: metáfora e tradução técnica 3.6.1. Postulados gerais da abordagem cognitiva da metáfora
3.6.2. Metáfora, terminologia e tradução técnica Considerações finais
Bibliografia
Anexo A – Glossários
I – GlassOuse Assistive Device II – Telemóvel MiniVision
III – Pulseira Inteligente Sunu Band
IV – MiniVision – Release Note – software nº MV_6784 V – Optelec Compact 10 HD
Anexo B – Traduções dos Manuais
I – Tradução de GlassOuse Assistive Device II – Tradução de Telemóvel MiniVision
III – Tradução de Pulseira Inteligente Sunu Band
IV – MiniVision – Notas de lançamento – software nº MV_6784 V – Tradução de Optelec Compact 10 HD
Anexo C – Originais dos Manuais
I – Original de GlassOuse Assistive Device II – Original de Telemóvel MiniVision
III – Original de Pulseira Inteligente Sunu Band
IV – MiniVision – Release Note – software nº MV_6784 V – Original de Optelec Compact 10 HD
Introdução
O presente relatório versa uma análise linguística referente ao trabalho de tradução realizado ao longo de trezentas e duas horas de estágio na empresa ElectroSertec, das quais, aproximadamente, 187 horas foram realizadas no primeiro semestre e 115 horas no segundo semestre. Durante o referido período de estágio foram abordadas três ordens de questões: em primeiro lugar, a análise dos Manuais de Instrução a trabalhar e a traduzir, dando especial foco à importância de compreender o funcionamentos dos dispositivos e aparelhos descritos nos mesmos; em segundo lugar, a identificação de terminologia técnica especializada e a subsequente pesquisa terminológica específica dos equipamentos em questão, o que se revelou um problema, dada a ausência de informação quer nas bases de dados consultadas quer nos recursos online; em terceiro lugar, a apresentação das propostas de tradução, seguida da discussão e troca de ideias com o Dr. Aquilino Rodrigues para procurar e encontrar as mais adequadas soluções tradutórias para a terminologia analisada e, assim, veicular o conteúdo do texto de partida.
Traduzir é uma arte e, como tal, o tradutor é, em si, um artesão. Traduzir implica compreender na sua totalidade o significado de um texto na língua de partida e transpô-lo na sua totalidade para a língua de chegada, mesmo não existindo uma tradução directa do conceito, ou termo, a traduzir. Para além disto, é necessário conhecer e compreender a cultura própria quer da língua de chegada quer da língua de partida, tendo ao mesmo tempo em conta as ferramentas conceptuais que estruturam a terminologia técnica de ambas. Posto isto, houve um cuidado especial para que a informação na língua de chegada fosse fidedigna, fluente e facilmente compreensível para os leitores dos manuais de instrução em questão.
Tendo em vista a elaboração deste Relatório, começou-se por proceder à selecção dos textos a analisar e, posteriormente, a traduzir. Estes textos descrevem quer o equipamento quer o seu funcionamento, de modo a que pessoas com deficiências visuais, motoras e físicas consigam ter acesso às mesmas ferramentas que as outras pessoas e, assim, consigam ter mais facilidade no seu dia-a-dia pessoal e profissional. Os Manuais de Instrução em questão incluem dispositivos de uso diário, tal como o telemóvel MiniVision e a pulseira táctil SunuBand, ampliadores de ecrã, tal como o Optelec, e ainda outros dispositivos.
De seguida, encetei uma reflexão sobre a experiência adquirida no estágio na empresa ElectroSertec, que se revelou de extrema importância para a elaboração dos textos na língua de chegada e para a posterior análise de questões e problemas de tradução apresentadas neste Relatório.
O trabalho que se segue foca-se em competências que adquiri durante a prática de tradução; ao resultado de pesquisa terminológica longa; e, por fim, à análise linguística das soluções de tradução do texto de chegada. Para tal, foram seleccionados exemplos quer na língua de chegada quer na língua de partida, seguidos de comentários às traduções em questão, feitos com base em reflexão e pesquisa em dicionários e websites na internet.
A estrutura do relatório divide-se em três partes, subdividas em subalíneas. Na primeira alínea efectua-se a caracterização do estágio curricular, descrevendo a actividade tradutória realizada neste período, as traduções realizadas ao longo do estágio e, ainda, os recursos utilizados para a consulta de dúvidas e questões.
Na segunda alínea realiza-se a definição e a delimitação do conceito de um Manual de Instrução, explora-se a delimitação do conceito de tradução técnica, explica-se brevemente a diferença entre linguagem geral e linguagem especializada e, por fim, define-se o género textual dos textos maioritariamente trabalhados durante o estágio curricular, ou seja, os manuais de instrução.
Por último, na terceira alínea, que constitui o cerne do presente relatório, desenvolve-se uma perspectiva de aplicação de questões teóricas à resolução de problemas pela prática de tradução destes textos, apresentando e analisando vários problemas e questões de tradução dos documentos traduzidos.
1. CARACTERIZAÇÃO DO ESTÁGIO CURRICULAR 1.1. Descrição do estágio curricular
O estágio curricular em questão, realizado no terceiro e quarto semestres do Mestrado em Tradução na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, teve lugar na ElectroSertec. A duração do estágio foi de cerca de 302 horas na sua totalidade, das quais, aproximadamente, 187 horas foram realizadas no primeiro semestre e 115 horas no segundo semestre do ano lectivo 2019/2020.
A Electrosertec, ou Sertec, sediada em Moscavide, é uma empresa especializada na venda de produtos de Tecnologias de Apoio com foco em necessidades especiais. Dentro da variedade de serviços prestados nesta empresa destaca-se quer a venda de produtos, nomeadamente relacionados com baixa-visão, deficiência motora, dislexia, eduação especial, quer a prestação de serviços relacionados com apoio informático, produção braille, produção áudio, entre outros.
Durante o período de estágio realizado na Electrosertec, Dr. Aquilino Rodrigues, o supervisor local, desempenhou a função não só de meu orientador, como também de meu mentor. O Dr. Aquilino Rodrigues esteve sempre disponível para me esclarecer quer questões de âmbito terminológico, já que as mesmas não estavam disponíveis nem em recursos online, nem nas bases de dados consultadas, quer questões tradutórias de natureza técnica e especializada. Além disto, o Dr. Aquilino Rodrigues
A empresa, e o seu responsável, teve o cuidado e a delicadeza de me facilitar o acesso à internet, o que foi uma ajuda significativa no que toca à consulta de recursos disponíveis online, tal como dicionários, bases de dados terminológicas, corpus, entre outros.
O programa de tradução assistida por computador com o qual escolhi trabalhar durante a realização do estágio foi o SDL Trados Studio, neste caso a versão de 2014, com o qual aprendi a trabalhar no seminário de Tradução Assistida por Computador – cadeira que frequentei não só em Licenciatura, como também na parte curricular do Mestrado em Tradução. Optei por trabalhar com este programa por dois motivos. O primeiro está relacionado com o facto de os meus pais serem ambos tradutores, daí já estar familiarizada com o programa, uma vez que os dois me ensinaram a trabalhar com o mesmo desde que comecei a desenvolver interesse na Tradução como uma possível futura saída profissional. O segundo prende-se com o facto de, durante a Licenciatura, ter tido contacto com as várias ferramentas de Tradução Assistida por Computador, nomeadamente o WordFast e o SDL Trados Studio, e de o segundo, comparativamente ao primeiro, ser extremamente intuitivo e fácil de utilizar.
1.2. Descrição das traduções e das tarefas realizadas ao longo do estágio curricular
O trabalho desenvolvido durante o Estágio Curricular, na empresa ElectroSertec, no âmbito do Mestrado em Tradução, centrou-se, principalmente em Manuais de Instrução de diversos produtos e dispositivos, cujo público- alvo são pessoas com deficiência visual ou física. Assim, tendo em conta o propósito do Estágio, foi realizada, ao longo das 302 horas de estágio, a tradução de quatro manuais de instrução, cuja temática é, conforme referido anteriormente, a utilização e manuseio de vários produtos e equipamentos para pessoas com deficiência visual ou física, de forma a que a informação fosse acessível e de fácil compreensão para o público-alvo.
Conforme referido anteriormente, ao longo das 302 horas de estágio foram efectuadas quatro traduções de quatro equipamentos diferentes. Numa primeira instância serão enumeradas as traduções que serão objecto de análise no presente relatório:
1. “SunuBand”
Tradução: Sunu Band
A Sunu Band é uma pulseira inteligente de mobilidade cujo intuito é melhorar a navegação para os deficientes visuais. Ao utilizar radar e realidade aumentada, a Sunu Band permite às pessoas com visão baixa e cegas viajar com confiança. O feedback táctil avançado indica o caminho que o utilizador deverá seguir, alertando-o até para a presença de obstáculos à volta de qualquer obstáculo.
A elaboração da tradução desta pulseira, que se dividiu em dezanove tutoriais, realizou-se em seis etapas:
numa primeira instância, procedeu-se à consulta de cada tutorial no website http://tutorials.sunu.io/ de forma a compreender a informação acerca de cada um. De seguida, foi necessário copiar o texto informativo e criar um novo documento em Word, onde constaria o texto a ser traduzido. Foi ainda tirada uma captura de ecrã à imagem ilustrativa do tutorial em questão, para depois se proceder à sua edição, nomeadamente à tradução do texto da imagem, de forma a que os tutoriais já traduzidos não tivessem de ter uma imagem explicativa em inglês. A seguinte etapa foi o cerne do objectivo do estágio curricular, isto é, a tradução do texto. Por último, após realizar a tradução quer do texto quer da ilustração da imagem, foi necessário formatar o documento Word para que este mantivesse o formato original do tutorial online. A estagiária decidiu, ainda, ordenar e formatar todos os tutoriais traduzidos para fornecer à entidade de estágio um manual de instruções que pudesse ser utilizado pelo público à qual a Sunu Band se destina, de forma a que este fosse mais fácil de consultar. Este documento é composto por 54 páginas ilustradas por figuras e esquemas.
2. “MiniVision”
Tradução: MiniVision
O MiniVision é um telemóvel especificamente concebido para pessoas cegas, com visão subnormal ou com deficiência visual. Com o seu teclado físico real e interface totalmente vocalizada, o MiniVision é 100%
acessível e de fácil utilização. Este produto é apresentado em forma de Manual de Instrução, ou seja, trata- se de um guia que ajuda a entender o funcionamento do produto a que se refere, neste caso o telemóvel MiniVision. Já que se trata de um Manual de Instruções, o mesmo inclui explicações sobre o funcionamento do telemóvel, das suas diferentes componentes físicas, das funções das teclas, das opções disponíveis, etc.
A elaboração da tradução deste documento efectuou-se, sensivelmente, em três etapas: na primeira etapa, a estagiária optou por dividir o Manual de Instrução em 24 capítulos mais gerais, de forma a tornar a tarefa de tradução mais simples e organizada e, para além disso, para que pudesse proceder à entrega gradual de resultados à entidade de estágio. A estagiária optou por entregar semanalmente um capítulo do Manual, em vez de apresentar somente a tradução integral. Na segunda etapa, procedeu-se à tradução da informação do capítulo em questão e, posteriormente, à formatação do mesmo, para que depois esta pudesse ser entregue à entidade de estágio. Por último, procedeu-se à aglomeração dos 24 capítulos traduzidos e à sua formatação, para que o documento final se assemelhasse ao original na sua formatação e estrutura.
Este documento apresenta uma extensão de 76 páginas.
Em seguida, serão listados os textos traduzidos, mas que não constam da análise do presente relatório:
1. “MiniVision - Release Note - software version n° MV_6784”
Tradução: MiniVision - Notas de lançamento - versão do software nº MV_6784
Este documento, apresentado sob a forma de nota de lançamento, refere-se à documentação técnica produzida e distribuída juntamente com o lançamento de um novo produto de software ou de uma actualização do produto (por exemplo, alterações recentes, melhorias de características, ou correcções de bugs). Descreve muito sucintamente um novo produto ou detalha sucintamente alterações específicas incluídas numa actualização do produto. Como tal, este documento é organizado em quatro pontos essenciais, nomeadamente no processo de actualização de software, nos melhoramentos do sistema, no melhoramento de aplicações e, ainda, numa nova aplicação.
A elaboração da tradução deste documento revelou-se menos complexo, uma vez que foi apenas necessário realizar a sua tradução.
2. “GlassOuse Assistive Device”
Tradução: Dispositivo de Assistência GlassOuse
O dispositivo de assistência GlassOuse é, sucintamente, um rato para utilizar na cabeça, concebido especialmente para pessoas deficientes ou que tenham movimento corporal limitado. Este equipamento sem fios, ao ser colocado na cabeça e através da sua movimentação, permite controlar telemóveis, computadores, tablets e televisões inteligentes.
A elaboração da tradução deste dispositivo efectuou-se em três etapas: na primeira etapa foi-me solicitado que ouvisse o vídeo de apresentação do produto no website www.glassouse.com e que trascrevesse o texto para um documento Word. De seguida, teria de traduzir a informação transcrita em inglês para português.
A segunda etapa passou por consultar a informação curta do website www.glassouse.com e copiar todo o texto informativo e descritivo que lá se encontrava para, de seguida, o traduzir para português. Por fim, a terceira etapa foi realizada ao traduzir um manual de utilizador de quatro páginas, cujo objectivo consiste em explicitar e explicar as diferentes componentes, funcionalidades e modo de utilização do produto em questão. Estes três documentos têm como objectivo apresentar o produto, torná-lo cativante e acessível e, sobretudo, explicar o seu funcionamento e manuseio. Estes documentos perfazem uma totalidade de 10 páginas de texto.
3. “Optelec Compact 10 HD”
Tradução: “Optelec Compact 10 HD”
O dispositivo Optelec Compact 10 HD é, sucintamente, um ampliador de ecrã que permite ampliar e, consequentemente, ler jornais, cartas, revistas, etc, com a particularidade de ser um ampliador com um design muito mais pequeno, portátil e dobrável.
Durante a realização do estágio, foi-me solicitado que traduzisse três documentos relacionados com o Optelec Compact 10 HD, nomeadamente uma brochura, um panfleto e um guia de início rápido. A realização da tarefa de tradução efectuou-se em três estapas: numa primeira instância, uma vez que a informação tanto da brochura como do panfleto quer do guia de início rápido foi disponibilizada em formato PDF, foi necessário transcrever o texto referente ao produto e guardá-lo num documento Word. Depois, a estágia realizou a tradução do documento em questão. Por último, foi necessário criar um novo documento Word, onde constasse o texto de partida e o texto de chegada num formato bilingue, uma vez que o documento serviria como referência a um designer, a fim de que, posteriormente, o texto fosse formatado com imagens que ilustrassem o produto.
Estes três documentos perfazem uma totalidade de 12 páginas de texto.
1.3. Descrição dos recursos utilizados para a consulta de dúvidas e questões
Durante a realização do estágio curricular surgiram variadas dúvidas e questões no que toca à terminologia da área da tecnologia, em geral, e da acessibilidade, em particular.
De forma a fundamentar as opções de tradução e terminologia escolhidas foram consultadas várias fontes e ferramentas que se encontram disponíveis online, nomeadamente dicionários monolingues, bilingues e bases de dados terminológicas. É de salientar que houve um cuidado especial da parte da estagiária para que todos os termos escolhidos, ou a grande maioria, fossem discutidos, verificados e validados pelo supervisor local Dr. Aquilino Rodrigues, de forma a garantir que a terminologia utilizada fosse não só a mais correcta, como também a mais comumente utilizada por profissionais e o público-alvo da área.
Assim, os dicionários online monolingues consultados na língua de partida foram: Cambridge Dictionaries (www.dictionary.cambridge.org/), Oxford Learner’s Dictionaries (www.oxfordlearnersdictionaries.com/), Collins Online Dictionary (www.collinsdictionary.com/), Dictionary by Merriam-Webster (www.merriam-webster.com/), Urban Dictionary (www.urbandictionary.com/) e The Free Dictionary (www.thefreedictionary.com/).
Relativamente a dicionários monolingues consultados na língua de chegada foram consultados o dicionário Priberam (www.dicionario.priberam.org/) e a Infopédia (www.infopedia.pt). As fontes terminológicas que serviram de apoio à tradução foram principalmente o EUR-Lex, que é uma plataforma de acesso directo e gratuito ao direito da União Europeia, (https://eur-lex.europa.eu/), o IATE, que é a base de dados terminológica multilingue da EU de referência (https://iate.europa.eu/) e, por último, o Proz, que é uma plataforma de dados terminológicos (https://www.proz.com/).
PARTE 2 – CARACTERIZAÇÃO DE UM MANUAL DE INSTRUÇÕES
Os manuais de instrução são, sucintamente, documentos técnicos com uma finalidade específica, isto é, ajudar leigos a identificar e resolver problemas técnicos sem os mesmos necessitarem de recorrer a assistência especializada. Uma vez que os manuais de instrução transformam uma linguagem especializada numa linguagem simples, questão que será abordada no ponto 3.2. Linguagem Geral e Linguagem Especializada, estes são essenciais nos sectores técnicos e mais frequentemente associados a software e hardware, sistemas informáticos e bens electrónicos. É de realçar que também os objectos do dia-a-dia são acompanhados por manuais de instrução, ainda que estes apresentem uma extensão menor.
Um manual de instruções deve ser fácil e intuitivo de explorar, o que significa que o mesmo deverá ser escrito e estruturado de igual modo, ou seja, de uma forma clara, objectiva e concisa. De uma forma geral, um manual de instruções contém um corpo, uma tabela de conteúdos, um índice, um glossário de termos e, ainda, materiais adicionais de referência. O corpo é a parte mais importante do manual, dado que fornece todos os procedimentos e instruções necessárias para realizar uma tarefa. Os utilizadores dos manuais de instrução precisam de saber não só como executar a tarefa, mas também em que situações e sob que termos a deverão realizar, pelo que se afigura de uma grande importância que o manual seja o mais minucioso e detalhado possível. Cada tarefa ou acção a realizar merece uma secção ou capítulo próprio, que poderá subdividir-se em subcapítulos se a informação for mais complexa e requerer explicações adicionais. É importante referir que a maior parte das instruções é acompanhada por gráficos, tabelas e desenhos com legendas, de forma a facilitar a compreensão das mesmas. Um manual útil recorre a fotografias, desenhos e ilustrações para explicar graficamente procedimentos complicados, uma vez que esta é a forma mais eficaz de tornar compreensível um assunto complexo.
Conforme referido anteriormente, a informação contida nos manuais de instrução deverá ser clara, objectiva e concisa, de forma a agilizar a leitura e compreensão dos utilizadores. Desta forma, as construções frásicas deverão ser constituídas por frases curtas e simples, em vez de extensas e complexas.
Os manuais de instrução apresentam uma estrutura sintática característica, que será posteriormente abordada no ponto 2.2. (Sequências textuais de um Manual de Instruções).
2.1. Definição do género textual de um manual de instruções
Antes de começar a definir o género textual de um manual de instruções, é pertinente começar por esclarecer o que se entende por « texto ». De acordo com o dicionário online da Porto Editora, « texto » define-se como uma
“sequência finita e organizada de enunciados, que constitui a unidade fundamental do processo comunicativo e que é dotada de sentido e de uma determinada intencionalidade”. Existem vários autores importantes que também apresentam a sua própria definição de texto, como tal, de seguida, seguem-se algumas destas definições. Kirkwood define texto como “any passage, spoken or written, of whatever length, that does form a unified whole (…) A text is a unit of language in use”. Crystal (1992) define texto como “a piece of naturally occurring spoken, written, or signed discourse identified for purposes of analysis. It is often a language unit with a definable communicative function, such as a conversation, a poster.” Brown & Yule (1983) definem texto como “a technical term to refer to the verbal record of a communicative act.” Cook (1989) define-o como “a stretch of language interpreted formally, without context”. Nunan (1993) usa-o ao referir-se a “any written record of a communicative event”. Por fim, Nord (2005) define texto como “a communicative action which can be realized by a combination of verbal and non- verbal means”. Tendo em conta o referido anteriormente, pode-se afirmar, segundo Mateus (2003) que “tanto os produtos resultantes do uso primário da língua na situação básica da conversa como os que resultam do uso da língua escrita em situações não pessoais, tanto os produtos de um só locutor como os que resultam da actividade colaborativa de vários falantes são objectos dotados de sentido e de unidade – ou seja, são produtos coesos internamente e coerentes com o mundo relativamente ao qual devem ser interpretados. A tais produtos chama-se textos”.
Os Manuais de Instrução podem ser caracterizados como um texto técnico que se integra no género de tipo exortativo. Antes de caracterizar e definir o que significa um género de tipo exortativo parece pertinente começar por definir o que é um texto técnico.
De acordo com Luís Cavaco Cruz em Manual Prático e Fundamental de Tradução Técnica, o texto técnico é
“um acto concreto de comunicação em que
▪ os emissores são especialistas, engenheiros, técnicos ou profissionais;
▪ os destinatários são outros especialistas, engenheiros e técnicos, formadores ou público em geral;
▪ a situação comunicativa está relacionada com a (…) oferta de serviços;
▪ o foco predominante é a exposição ou a exortação;
▪ o meio é geralmente escrito;
▪ o tema é de natureza exclusivamente técnica.”
Neste mesmo pensamento, o texto técnico subdivide-se em género técnico. Assim, e de acordo com Luís Cavaco Cruz, o género técnico é definido como “um protótipo textual, usado em determinadas situações comunicativas que se repetem dentro de uma cultura específica em qualquer das áreas incluídas na nomenclatura da UNESCO para os campos da tecnologia, e que tem como finalidade que a comunicação seja efectuada da forma mais eficiente possível.”
Os géneros técnicos apresentam uma série de elementos textuais fixos, sendo estes:
▪ “um ou dois focos contextuais (exortativos, expositivos, ou uma combinação de ambos),
▪ um emissor que é sempre um especialista,
▪ um receptor que pode ser outro especialisa ou o público em geral,
▪ um meio que pode ser escrito, oral ou audiovisual,
▪ e, finalmente, como protótipo, um funcionamento textual interno de características relativamente ficas e convencionais.”
De acordo com Luis Cavaco Cruz, é possível definir, através de definição anterior, o modelo de caracterização do género:
1. “Género
2. Foco contextual dominante 3. Foco contextual secundário 4. Receptor”
Ainda do trabalho de Luis Cavaco Cruz, inspirado em Gamero Pérez (2001) surgiu um modelo de género técnico orientado para a função textual:
1. “Géneros expositivos
2. Géneros expositivos com foco secundário exortativo.
3. Géneros exortativos
4. Géneros exortativos com foco secundário expositivo”
Conforme referido anteriormente, os manuais de instrução, sendo textos técnicos, integram-se no género de tipo exortativo, uma vez que a sua função é aconselhar o leitor a fazer algo, ou seja, aconselhar o utilizador de qualquer produto à correcta utilização e manuseamento apropriado do equipamento ou aparelho em questão, por exemplo.
Nesta mesma linha e considerando que a função de um manual de instruções é aconselhar o leitor a fazer algo é necessário referir a inteligibilidade da informação veiculada e, assim, ter em conta a questão da transmissão do conhecimento.
De acordo com o Dicionário Online Priberam de Português, inteligibilidade pode ser definida como “a qualidade do que se consegue entender, do que é inteligível.” Ainda o Dicionário Online Infopédia define inteligibilidade como “a qualidade do que é claro, do que é facilmente compreensível.”
É, desta forma, crucial reflectir sobre os factores que determinam a inteligibilidade dos textos técnicos. Estes estão ligados à recepção da mensagem e do conteúdo e à forma como estes interagem com o receptor. Daqui advém a necessidade de perceber como funcionam estes conteúdos e como se caracterizam esses receptores.
Luis Cavaco Cruz afirma que “só da relação entre o objecto e o signo, segundo Jakobson, nasce o conceito na nossa mente.” O mesmo poderá ser melhor compreendido através da seguinte ilustração da autoria do mesmo autor:
Não pode, assim, haver conhecimento sem linguagem, pois, de acordo com Luis Cavaco Cruz, “só esta permite que os processos de apreensão e interpretação dos estímulos cognitivos do mundo envolvente, através do trinómio
‘signo – conceito – objecto’, possam constituir-se em pensamento e daí em acções do quotidiano.”
Uma vez que é fundamental um texto técnico ser inteligível, já que este necessita de ser claro e facilmente compreensível, é necessário que se tenha em consideração dois factores cruciais para a existência de conhecimento, sendo estes, de acordo com Rowley e Farrow:
➢ Acessibilidade
“Accessibility is concerned with the availability of knowledge to potential users. […] Also the form and style of communication needs to be amenable. The user’s subject knowledge, environmental context, language used and preferences, all influence the success with which a message is received.”
➢ Relevância
“Knowledge available to an individual must be appropriate to the task in hand. […] Knowledge is relevant when it meets the user’s requirements and can contribute to the completion of the task in which the user is engaged, […]. Relevance can be assessed in relation to many of the other characteristics listed in this section, such as currency and accuracy, but may specifically be judged in terms of level of detail and completeness. Completeness is normally judged in relation to a specific task or decision; all of the material information that is necessary to complete a specific task must be available. In addition, the level of detail, or granularity, of the information must match that required by the task and the user.
É de constatar que, tendo em conta o referido anteriormente, a forma como o conhecimento e a informação estão acessíveis ao utilizador desempenha um papel crucial para a boa recepção da informação, ou seja, para se a informação transmitida é bem veiculada e facilmente compreensível para o utilizador.
Os factores que influenciam a boa recepção da informação são vários, nomeadamente:
▪ “o nível de conhecimento do receptor acerca do assunto em questão;
▪ o contexto em que é veiculada a informação;
▪ os registos e níveis de língua utilizados;
▪ a relevância da informação para o receptor;
▪ a promoção, completude, precisão e o detalhe dessa informação”
2.2. Sequências textuais de um Manual de Instruções
Afigura-se da maior importância esclarecer que qualquer texto pode ser constituído por um único tipo ou vários tipos de texto. Assim, tenha-se como exemplo o linguista francês Adam (Les Textes: Types et prototypes, Paris, 1992) cujo modelo de tipo de texto se baseia na teoria do acto de fala e na linguística funcional. Para este autor, um tipo de texto é uma unidade de texto composta por sequências de texto que aparecem em configurações estruturais de uma rede relacional semântica. As sequências de texto são unidades de texto autónomas compostas por proposições que formam padrões semânticos. As macro-proposições podem ser definidas como as unidades básicas que combinam pedaços de texto em configurações semânticas específicas de texto que, por sua vez, cumprem funções pragmáticas específicas, ou seja, formam sequências prototípicas. Maria Auxiliadora Bezerra define estas sequências prototípicas como “(...) unidades linguístico-textuais (prototípicas) que fazem parte da constituição dos gêneros textuais, contribuindo para se identificar um género que se estrutura com predominância de forma narrativa ou argumentativa, por exemplo. (...) As sequências textuais, por se repetirem em textos orais ou escritos, vão sendo adquiridas pelos ouvintes, leitores ou escreventes. (...)”. [Sequências textuais | Glossário Ceale, http://www.ceale.fae.ufmg.br/app/webroot/glossarioceale/verbetes/sequencias-textuais | Consultado a 12- 05-2021] Enquanto Adam identifica cinco sequências prototípicas, ou seja, descritivas, narrativas, argumentativas, explicativas e dialogais, Maria Auxiliadora Bezerra identifica seis tipos de sequências prototípicas, sendo estas descritivas, narrativas, argumentativas, explicativas, injuntivas (ou prescritivas) e dialogais que reflectem as formas prototípicas de linguagem, ou seja, padrões estruturais que utilizamos ao descrever, narrar, discutir, etc. Para sumarizar, e de acordo com Ana Martins, “as sequêcias textuais prototípicas (...) não são textos ou discursos reais ou empíricos, mas abstrações, ou seja, conjuntos de características no que toca aos diferentes modos de organização das frases em texto.” [Sequências textuais | Ciberdúdivas da Língua Portuguesa, https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/sequencias-textuais-prototipicas-e-generos- textuais/25055# | Consultado a 12-05-2021].
Nos manuais de instrução é possível aferir que predominam as seguintes sequências textuais:
1. Descritivas 2. Explicativas 3. Injuntivas
2.2.1. Sequências descritivas nos Manuais de Instrução
Os conteúdos que são mais frequentemente descritos nos manuais de instrução são, nomeadamente:
- o objecto (descrição do equipamento ou do software, por exemplo)
- o procedimento (os passos que o utilizador deverá seguir para conseguir um bom manuseamento do equipamento ou software em questão, por exemplo)
- o modo de funcionamento do objecto (a forma como o equipamento ou o software realiza as suas funções, por exemplo)
Neste tipo de texto existe a predominância de:
- substantivos, adjectivos e verbos de estado
- utilização de uma linguagem clara, simples e directa com uma terminologia específica e apropriada
- comparações e enumerações que facilitam a apresentação do objecto ao utilizador do equipamento ou do software
- descrições objectivas.
Utilizando como referência a Norma Culta, a mesma caracteriza a descrição objectiva como:
• Descrição exata e preciso do objeto ou ser;
• Maior aproximação possível da realidade;
• Isenta de opiniões e duplos sentidos;
• Descrição de aspectos físicos;
• Utilização de uma linguagem clara, directa e realista;
• Utilização de uma linguagem denotativa;
• Descrição que torna o texto mais verídico
[https://www.normaculta.com.br/texto-descritivo | consultado a 10-10-2021]
2.2.2. Sequências explicativas nos Manuais de Instrução
As sequências explicativas seguem uma estrutura fixa que se divide em três fases:
- fase da pergunta - fase da explicação - fase da conclusão
No caso dos Manuais de Instruções, o cerne do presente relatório, é possível afirmar que o mais comum é a ocorrência da fase da explicação, sem existir previamente a fase da colocação da pergunta. Os Manuais de Instruções são redigidos com dois intuitos extremamente específicos, sendo estes descrever e explicar os equipamentos ou aparelhos em questão, os modos de manuseamento e os procedimentos dos produtos, geralmente sem a existência de colocação prévia de questões, mesmo de teor retórico.
De acordo com a Norma Culta, “a principal finalidade de um texto explicativo é instruir o leitor acerca de um procedimento. Fornece uma informação que condiciona a conduta do leitor, incitando-o a agir.”
[https://www.normaculta.com.br/tipos-de-texto/ | consultado a 10-10-2021]
De acordo com Carmo (apud TE_document-theorique.pdfcollegedemontreal.org/…/ pág. 9 | consultado a 10-10- 2021), “as instruções dadas ao leitor passam por várias estratégias que integram as sequências textuais explicativas, conforme segue:
1. Definição: referência factos ou conceitos presentes nos manuais. Uso de expressões, a saber, trata-se de, (…) significa que, entre outras.
2. Reformulação: recurso a expressões metalinguísticas, mediante utilização de sinónimos, de paráfrase e de conetores textuais, como por exemplo, i.e., por outras palavras, entre outros.
3. Exemplo: inserção de exemplificação introduzida por expressões como por exemplo e nomeadamente, etc.
4. Comparação: referência a casos semelhantes/diferentes que se afiguram familiares ao utilizador e que o podem ajudar a compreender a nova situação. Uso dos seguintes conectores, entre outros: como, à semelhança de, ao contrário de, entre outros.
5. Ilustração: inserção de dados apresentados em gráficos e/ou tabelas ou de imagens, tais como desenhos, fotografias, etc.
6. Recurso ao especialista: recurso a citações, de consulta a peritos no assunto, etc.
2.2.3. Sequências injuntivas nos Manuais de Instrução
Os Manuais de Instrução são textos instrucionais, isto é, o seu propósito é instruir o utilizador de como deverá efectuar o manuseamento do produto. Um texto instrucional tem como função aconselhar, recomendar ou comandar, ordenar e injungir, isto é impor, o utilizador a seguir certos passos.
É pertinente realçar e explicitar a diferença entre o conceito de texto injuntivo, como referido anteriormente, e de texto prescritivo.
De acordo com a Norma Culta, o que distingue estes dois conceitos é o grau de obrigatoriedade em relação às instruções, isto é:
1. Os textos injuntivos ou instrucional informam, ajudam, aconselham, recomendam e propõem, dando alguma liberdade de atuação ao interlocutor.
O texto injuntivo (ou instrucional) apresenta as seguintes características:
• Instrui o leitor acerca de um procedimento;
• Induz o leitor a proceder de uma determinada forma;
• Permite a liberdade de atuação ao leitor;
• Utiliza linguagem objectiva e simples;
• Utiliza predominantemente verbos no infinitivo, imperativo ou presente do indicativo com indeterminação do sujeito.
2. Os textos prescritivos obrigam, exigem, ordenam e impõem, exigindo que as determinações sejam cumpridas da forma que estão referidas, sem margem para alterações.
O texto prescritivo apresenta as seguintes características:
• Instrui o leitor acerca de um procedimento;
• Exige que o leitor proceda de uma determinada forma;
• Não permite a liberdade de atuação ao leitor;
• Apresenta carácter coercitivo;
• Utiliza linguagem objectiva e simples;
• Utiliza predominantemente verbos no infinitivo, imperativo ou presente do indicativo com indeterminação do sujeito. [https://www.normaculta.com.br/texto-injuntivo-e-texto-prescritivo/ | consultado a 10-10-21]
Nos Manuais de Instrução é predominante a utilização das três sequências textuais referidas acima.
2.3. Características léxico-sintáticas 2.3.1. Registo linguístico
Mesmo que usado por utilizadores com uma compreensão mais do que básica do equipamento a que se refere o manual de instrução, o mesmo terá de presumir que se dirige ao utilizador médio ou, na maioria dos casos, leigo e ajustar o seu estilo de escrita e linguagem em conformidade. Isto significa que os manuais de instrução deverão ser limpos de toda a gíria técnica e termos especializados que um leitor possa considerar confusos ou mesmo ininteligíveis, fora quando a linguagem especializada e técnica se refere a nomes e funções de teclas, componentes físicos e virtuais ou, até, procedimentos específicos. Assim, os manuais de instrução caracterizam-se por utilizarem maioritariamente linguagem comum e, no que toca a terminologia específica e inalterável, linguagem especializada.
2.3.2. Recursos lexicais e tempos verbais
Conforme referido anteriormente, um manual de instruções deve ser fácil e intuitivo de explorar, o que significa que o mesmo deverá ser escrito de uma forma clara, objectiva e concisa, de forma a agilizar e facilitar o manuseio do equipamento pelo utilizador e guiá-lo a executar, passo a passo, a dúvida ou questão que o mesmo procurou.
Os Manuais de Instrução inserem-se no tipo de texto injuntivo ou instrucional, isto é, o tipo de texto que pretende levar ao leitor mais do que uma simples informação, ou seja, pretende instruí-lo. Também pode ser denominado instrucional, já que visa orientar, ensinar, estabelecer directrizes de procedimento e é, geralmente, utilizados em, por exemplo, receitas, bulas de remédios e, o cerne da questão deste relatório de estágio, manuais de instruções.
Este tipo de texto caracteriza-se por ser pobre em processos de coesão gramatical, nomeadamente no que toca a recorrer a poucas ou raras referências e substituições, a utilizar algumas elipses de modo a tornar o texto mais curto e a informação mais rápida e acessível, e a utilizar algumas conjunções, especialmente do tipo aditivo. Contudo, é rico em processos lexicais, nomeadamente, na repetição e correlação semântica nos campos lexicais a que o texto se refere e o facto de a reiteração por repetição ser um dos processos mais comuns.
Para além da linguagem simples e clara, manuais de instrução eficazes deverão ser escritos na voz activa e recorrer a tempos verbais como o imperativo, como por exemplo seleccione, toque, pressione, utilize, aceda, evite, o futuro, nomeadamente, deverá, será e, ainda, o infinitivo, tal como seleccionar, abrir, fechar, ligar, desligar,
executar, tocar, manter, etc. A utilização destes recursos lexicais e de tempos verbais asseguram a máxima clareza e facilidade de compreensão, que é o intuito e propósito de um manual de instruções. Os verbos podem aparecer acompanhados por advérbios ou locuções adverbiais que expressam o modo como devem ser realizadas determinadas acções (lentamente, rapidamente, etc.). Podem ainda surgir palavras em correlação semântica, apontando para a sequência em que deve ser realizada a tarefa (aqui, ali, agora, depois, etc.)
2.4. Organização de um Manual de Instruções
De uma forma geral, os manuais de instrução seguem uma estrutura fixa com uma determinada ordem de organização dos vários itens descritos no mesmo. Numa primeira instância, geralmente é apresentado um título (que se refere à marca, nome do produto, etc.), seguido de um subtítulo (guia de início rápido, guia de instalação, guia de consulta rápida, etc.) e, se houver necessidade de tal, poderão surgir outros subtítulos (instalação, utilização, localização, precauções, garantia, especificações técnicas, etc.). Esta organização típica serve o propósito de facilitar a tarefa de consulta do utilizador, uma vez que os itens se encontram dispostos por números de página e, dessa forma, o utilizador não necessita de perder tempo à sua procura, podendo, assim, proceder facilmente à utilização do dispositivo ou equipamento em questão.
É de salientar que a descrição dos diversos itens do manual pode ser acompanhada por desenhos ou fotografias que ilustram quer as várias componentes quer o funcionamento geral do equipamento em questão. Ao longo dos manuais de instrução também é costume aparecerem ítens, geralmente numerados, iniciados por verbos de acção, que explicitam as instruções que o utilizador deverá ler, compreender e executar, de forma a garantir um bom e correcto funcionamento do equipamento, conforme projectado pela marca que criou o produto. Alguns destes verbos são: abrir, (des)ligar, instalar, tocar, pressionar, carregar, seleccionar, inserir, etc. Estes verbos de acção encadeiam-se através de conectores, maioritariamente de lógica temporal, como, por exemplo: em primeiro lugar, depois, de seguida, simultaneamente, finalmente ou por fim. A utilização destas é de elevada importância, uma vez que estes guiam o utilizador na execução das tarefas, conforme pretendido pela marca que projectou o equipamento.
Por fim, existem, ainda, outras marcas típicas num manual de instrução. Os avisos ou mensagens importantes aparecem com frequência, seguidos de expressões destacadas no texto, tal como Cuidado! Perigo! Importante!
Atenção! que podem ser acompanhadas, ou não, por símbolos, como:
3.1. Delimitação do conceito de Tradução Técnica
“Translation is that which transforms everything so that nothing changes.”
– Günter Grass
“Translation is not a matter of words only: it is a matter of making intelligible a whole culture”
– Anthony Burgess
De um modo geral, a Tradução Técnica refere-se à tradução de materiais que tratam de domínios científicos e técnicos ou, por outras palavras, a tradução técnica requer a utilização de um tradutor técnico. Um tradutor técnico qualificado compreende o assunto e os termos especializados desse domínio quer na língua de partida quer na língua de chegada. A tradução técnica é a tradução de um texto de partida que apenas uma determinada percentagem de falantes da língua de partida consegue compreender.
O objectivo de tal tradução é tornar o texto de partida absolutamente claro e conciso e, ainda, de fácil compreensão pelo público da língua de chegada. A tradução técnica pode ser utilizada em diversos tipos de texto, tais como manuais técnicos, manuais de utilização, manuais de instrução, websites técnicos, entre outros. A tradução técnica implica um conhecimento genuíno e profundo do assunto e elevadas competências linguísticas. É de salientar que também a compreensão do texto e o conhecimento da indústria é essencial.
Tendo em conta o referido anteriormente, pode referir-se, então, que a Tradução Técnica, de acordo com Luís Cavaco Cruz na sua obra Manual Prático e Fundamental da Tradução Técnica (2012) e baseando-se em Byrne, pode ser definida como:
The purpose of technical translation is, therefore, to present new technical information to a new audience, not to reproduce the source text, per se, or reflect its style or language. Technical translation is a communicative service provided in response to a very definite demand for technical information which is easily accessible (in terms of comprehensibility, clarity and speed of delivery); [Byrne]
Apesar de existir quem considere a tradução técnica como “inexistente enquanto género de tradução”, é de salientar que a tradução técnica envolve vários factores, tal como desvendar e compreender o intuito do documento original, determinar e apropriar a tradução para o público-alvo, seja este especializado ou leigo, e ter em conta o nível estilístico e linguístico, bem como a terminologia a utilizar, que este género de tradução requer. De acordo com Zethsen (1999), “(...) the purpose of a technical text is to transmit objective information on a technical subject (…)”.
A tradução técnica, enquanto uma subcategoria específica de tradução, envolve mais do que a simples transferência de características linguísticas técnicas. O trabalho do tradutor técnico inclui a avaliação do estilo e conteúdo do texto original, a localização de possíveis problemas de tradução, a compilação de recursos necessários para realizar a tradução, tal como a consulta de dicionários, bases de dados e corpus, a redacção de um rascunho de tradução, a pesquisa de conceitos e termos desconhecidos e, por fim, a tradução do texto. Os tradutores técnicos são rigorosos no que toca aos critérios exigidos para uma boa tradução, nomeadamente no que toca à exactidão, integralidade e à utilidade, contudo os tradutores enfrentam problemas em produzir um texto de alta qualidade se o texto original for de baixa qualidade. Nestes casos, não tão excepcionais, o tradutor deverá escolher se pretende manter ou melhorar o texto na tradução.
Por último, o tradutor técnico necessita de considerar o público-alvo e as respectivas necessidades dos leitores na produção do texto, contudo deverá também considerar que nível de fidelidade ao texto de partida é necessário.
3.1.1. Definição de texto técnico
O texto técnico é um acto concreto de comunicação em que os remetentes são especialistas, técnicos ou profissionais; os receptores são outros especialistas, técnicos, profissionais em formação da área ou o público- geral; a situação comunicativa está relacionada com a indústria; o foco predominante é a exposição ou a exortação;
a modalidade é geralmente escrita; o campo é de natureza exclusivamente técnica; e as suas características intratextuais são muito variadas e são determinadas fundamentalmente pelas convenções de género como uma categoria semiótica.
3.1.2. Características específicas da Tradução Técnica
Conforme referido em 2.1. Definição do género textual de um manual de instruções no presente relatório de estágio, os Manuais de Instrução podem ser caracterizados como texto técnico. O texto técnico corresponde a uma tipologia clássica baseada no conceito de campo temático. Contudo, este não deve ser o único critério de caracterização, uma vez que há também que ter em conta uma série de elementos que demonstram um funcionamento peculiar do mesmo. Referimo-nos às diferentes dimensões do contexto estudado por muitos dos linguistas e tradutólogos actuais dentro do paradigma de investigação que trata da língua em uso (Schiffrin, 1984) e que Alcaraz (1990:109) denomina como paradigma da pragmática (dentro da área da Linguística). Aplicado à Tradução, o grupo de tradutólogos que adoptam esta abordagem reivindicam a Tradução como uma operação textual centrada no plano linguístico: esta é a chamada abordagem textual à tradução. Citarei, pela sua clareza e representatividade, o trabalho de Hatim e Mason (1990) que identificam três grandes dimensões de contexto:
comunicativa, pragmática e semiótica.
I. Dimensão comunicativa: é a variação linguística dentro do que se denomina a dimensão comunicativa do contexto. A língua está longe de ser uma unidade homogénea e fechada; a realidade é que existem diversas variedades dependendo do utilizador da língua, e outras dependendo do uso feito da língua. O conceito de dialecto engloba todas as variedades relacionadas com o utilizador: dialectos geográficos, dialectos temporais, dialectos sociais, dialectos standard ou não standard, e idiolectos. Por outro lado, o registo inclui as variedades relacionadas com o uso, que são: o campo do discurso (variação de acordo com diferentes quadros sociais e profissionais, por exemplo científicos, legais, etc.), o modo (meio através do qual a actividade linguística é produzida, por exemplo oral, escrita, escrita para ser lida, etc.), e finalmente, o tom ou tenor (relação entre remetente e receptor: informal, íntimo, discreto, respeitoso, etc.).
No entanto, a análise do dialecto e do registo, apesar da sua importância, não é suficiente. A tradução não consiste exclusivamente na correspondência de registos da língua de partida com registos da língua de chegada. À dimensão comunicativa devem ser acrescentadas duas outras dimensões do contexto que explicam a intenção (dimensão pragmática) e o enquadramento da mensagem num sistema geral de valores (dimensão semiótica).
II. Dimensão pragmática: relaciona-se com o “fazer coisas com as palavras”, isto é, com a intenção pretendida pelo remetente do texto. A identificação da função textual, ou seja, o foco textual, permite determinar o que o texto pretende transmitir: explicar conceitos, descrever uma situação, provocar uma reacção no receptor, etc.
Há três funções: argumentativa, expositiva e explicativa.
A função argumentativa textual consiste em avaliar as relações entre diferentes conceitos.
A função expositiva textual consiste na análise de determinados conceitos, ou na síntese dos seus elementos constituintes. Dentro desta, existem três variantes: a) exposição conceptual, b) descrição e c) narração.
Enquanto a exposição se refere a conceitos, a descrição refere-se a objectos ou situações, e a narração trata de ações ou eventos.
Com textos exortativos, o remetente pretende regular o modo de agir ou de pensar das pessoas através de exortação ou instrução.
Tendo em conta o referido anteriormente, é possível afirmar que os focos contextuais predominantes nos textos técnicos são a exposição (especialmente a descrição) e a exortação. Também é importante referir que quase todos os textos técnicos têm mais do que um foco, ou seja, são multifuncionais. Como remetentes, os utilizadores são técnicos, profissionais, etc., e como receptores são quer outros técnicos e profissionais, quer operadores, ou mesmo o público em geral, que recebem os textos como aprendizes ou consumidores (manuais de instruções).
III. Dimensão semiótica: trata da capacidade dos textos de agirem como sinais e de se relacionarem não só com os seus interlocutores, mas também com outros textos.
As categorias semióticas são: texto, discurso e género.
Em relação à categoria de texto, há que referir a intertextualidade, que é a dependência de um texto em relação a textos anteriores.
O discurso tem a ver com a atitude adoptada em relação às áreas de actividade sociocultural.
O género é uma forma convencional de texto associado a ocasiões sociais particulares.
É de notar que muitos dos géneros técnicos são específicos deste domínio e não ocorrem em nenhum outro domínio, como por exemplo o cerne deste relatório de estágio, o manual de instrucções.
3.2. O papel do tradutor técnico enquanto mediador intercultural
“A translator is a reader, an interpreter and a creator all in one.”
– Bijay Kumar Das
“Words travel worlds. Translators do the driving.”
– Anna Ruscomi
Traduzir é uma arte e, como tal, o tradutor é, em si, um artesão, possuidor de liberdades criativas e do seu próprio estilo. No entanto, certos requisitos aplicam-se aos tradutores, especialmente no que diz respeito às competências analíticas de resolução de problemas. Segue-se uma breve explicação sobre o que o trabalho de tradução requer do tradutor em geral e do tradutor técnico em específico.
“ [translation is an activity] which inevitably involves at least two languages and two cultural traditions , i.e., at least two sets of norm-systems on each level.”
- Gideon Toury (1995)
É importante realçar que os profissionais da actividade tradutória não podem tomar nada como garantido. Isto é, os mesmos devem estar envolvidos num processo constante de desaprendizagem, porque as realidades e expectativas da sua cultura poderão não ser as mesmas de outra cultura. É necessário ter em conta que até a própria situação cultural e social poderá não estar aberta a uma afluência de ideias e perspectivas que poderão estar presentes noutra cultura. Por outras palavras, se se pretende transferir sentido de uma língua para a outra, é necessário conhecer a natureza quer da língua quer da cultura do público-alvo. É praticamente impossível saber se o conteúdo traduzido será bem recebido, isto é, se o público-alvo estará aberto a receber a tradução em questão.
Com respeito à palavra, é o tradutor elege a solução tradutória no texto de partida correspondente ao significado linguístico no texto de chegada. A única forma de um tradutor se poder aproximar da associação específica que um
autor atribui a uma palavra é através de uma análise contextual, já que os significados estabelecidos de uma palavra poderão estar num processo de ser alterados ou modificados por mudanças culturais ou sociais.
No entanto, não há duas pessoas que retirem exactamente o mesmo significado de uma palavra. Tome-se como exemplo a discrepância de percepção que poderia estar relacionada com a palavra "cultura". As associações que um humanista faz à "cultura" são radicalmente diferentes das associações feitas por um biólogo. Assim, ao falar, é necessário garantir a direcção de pensamento que uma palavra ou uma sequência de palavras deverá ter. Se de facto cada palavra tivesse o mesmo limite conceptual, isto implicaria que várias pessoas poderiam produzir exactamente a mesma tradução de um determinado texto. Os tradutores, melhor do que ninguém, sabem que isto não é absolutamente verdade.
Robinson (2003) afirma que “(...) translators don’t translate words, they translate what people do with words”.
A tradução não é a tradução de palavras, ainda que o produto final das traduções apareça sob a forma de palavras e frases. Conforme referido anteriormente, cada indivíduo desenvolve conotações diferentes ao ser confrontado com a mesma palavra. Assim, é absolutamente necessário que o tradutor pesquise e estude os campos semânticos das palavras, termos e conceitos em questão, quer o seu significado no presente e no passado.
Desta forma, para que um texto seja transferido e transportado de uma língua de partida (LP) estrangeira para uma língua de chegada (LC), deve ser iniciada primeiro uma interpretação e uma compreensão do texto em mãos.
É nesta fase que ocorre o maior número de erros de tradução, se o tradutor não compreender na sua totalidade o significado do texto que deve transferir. Estes equívocos, erros ou más interpretações podem ocorrer não por falta de competência do tradutor, mas sim porque as palavras têm um limite de significado claramente definido, que deve ser conhecido.
Aqui surge uma importante visão do processo de tradução e, por extensão, das funções de um tradutor. Conforme referido anteriormente, os tradutores devem estar sempre envolvidos num processo de desaprendizagem, nomeadamente cada vez que interagem com um texto. Isto porque a tendência imediata é assumir que a palavra no texto tem o mesmo significado primário que o tradutor tem em mente para a palavra em questão. Qualquer olhar superficial para um dicionário indica que a maioria das palavras desenvolveu uma multiplicidade de significados e sentidos ao longo dos séculos. Assim, um exercício inestimável para qualquer tradutor é o uso constante de dicionários, não necessariamente para aprender novas palavras, mas para compreender melhor o espectro de conotações e direcções de significado que uma palavra em particular poderá conter. O dicionário auxilia, portanto, o tradutor a refinar o seu pensamento situacional na outra língua.
Num contexto multicultural, o tradutor deve tornar-se o mediador mais indispensável entre línguas e culturas.
O tradutor está sempre ligado ao movimento interior de uma palavra em relação a um movimento semelhante, mas diferente, na outra língua. É possível, então, afirmar que os tradutores estão equipados com as ferramentas
necessárias para estabelecer a interacção entre as línguas e culturas e, ao mesmo tempo, estão bem conscientes das limitações da tradução.
Pela sua própria natureza, os tradutores encontram-se sempre entre dois sítios: a realidade da LP e as possibilidades da LC. Através do acto de tradução, o tradutor abre a porta ao "diálogo" entre elas. Esta é, sucintamente e sem dúvida alguma, a maior missão do tradutor.
Tendo em conta o referido anteriormente, é possível, então, afirmar que o tradutor, seja literário ou, como tema central deste relatório, técnico, é um mediador intercultural. De acordo com Taft (1981), um mediador intercultural é definido como “a person who facilitates communication, understanding and action between persons or groups who differ with respect to language and culture. The role of the mediator is performed by interpreting the expression, intentions, perceptions and expectations of each cultural group to the other, that is, by establishing and balancing the communication between them. In order to participate to some extent in both cultures. Thus a mediator must be to a certain extent bicultural.”
De forma a exemplificar o tradutor como sendo um mediador intercultural, pareceu pertinente referir alguns exemplos provenientes da Tese de Mestrado “Onde não há médico – Questões de tradução e adaptação à realidade cabo-verdiana “ de Levindo Nascimento, onde a adaptação cultural do manual “Onde não há médico” ao contexto de Cabo Verde, dado que a tradução dos textos do Inglês para Português de Moçambique não poderia ser usada em Cabo Verde, por motivos climático-culturais.
Levindo Nascimento propõe que as alterações propostas em termos de terminologia e/ou de expressões
“representam a adaptação unicamente das partes que implicam a incompreensão, ou mesmo, uma certa estranheza em relação às passagens do texto para o leitor cabo-verdiano.” Assim sendo, o mesmo divide os aspectos tratados em três grupos distintos, nomeadamente aqueles que não se enquadram no modelo cultural de Cabo Verde e devem ser eliminados do texto; outros que necessitam de uma reformulação terminológica e os outros que necessitam ser adaptados às dimensões culturais de chegada”.
I. Partes a eliminar do texto
Em função das diferenças entre o modelo cultural cabo-verdiano e o de Moçambique, em que se sugere a supressão de excertos textuais que não se enquadram na realidade de Cabo Verde (faltam as páginas)
Nº Termo e/ou expressão a eliminar Comentário justificativo
1 Comité de saúde das comunidades O sistema de saúde dispões de conselhos de saúde, designados de Junta de Saúde e que tem o poder de decisão sobre diversas matérias mas não há o registo de conselhos de saúde ao nível local.
2 Jornadas de trabalho, projetos comunitários como a instalação de um poço ou limpeza da aldeia.
O modelo cultural do cabo-verdiano alterou-se nos últimos anos e por isso,
os trabalhos
comunitários deram lugar as obras públicas, realizadas e patrocinadas pelas autoridades locais e governamentais.
3 Viúvas podem transmitir tuberculose se mantiverem relações sexuais antes da prática dos rituais tradicionais.
O modelo cultural cabo-verdiano dá primazia ao conhecimento científico em vez do conhecimento fundamentado em crenças no sobrenatural e metafísico.
4 mexoeira Planta pertencente apenas ao modelo
cultural moçambicano.
5 mapira Planta pertencente apenas ao modelo
cultural moçambicano.
6 insectos e larvas Não faz parte do modelo cultural alimentar de Cabo Verde, porque, por um lado, a cultura alimentar do país tem bases ocidentais e por outro, devido ao clima seco e árido, estas espécies podem nem existir no ecossistema local.
7 licha Fruto pequeno e avermelhado,
inexistente em Cabo Verde. Também com a designação de líchia. Da árvore