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volume 3, número 1 | 2019
Pesquisa e Desenvolvimento em Pedagogia: Educação, Sociedade e Cultura
Anápolis – Goiás
2019 EDITORES
Eliseu Vieira Machado Júnior
Faculdade Metropolitana de Anápolis (FAMA) Paula Letícia de Melo Souza
Faculdade Metropolitana de Anápolis (FAMA)
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CADERNOS DE PESQUISA
F a c u l d a d e M e t r o p o l i t a n a d e A n á p o l i s – F A M A
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Com periodicidade semestral, o periódico Cadernos de Pesquisa
publica trabalhos originais, inéditos, com mérito científico, que
contribuam para o estudo das diversas áreas do conhecimento
associado às atividades de pesquisa desenvolvidas por professores e
estudantes dos cursos de graduação e pós-graduação oferecidos pela
Faculdade Metropolitana de Anápolis - FAMA. O objetivo é
possibilitar a integração acadêmica e o intercâmbio científico e
institucional. Os Cadernos de Pesquisa adotam a versão on-line, em
sistema de publicação continuada de textos completos, resumos
expandidos e resumos simples. Recomendamos aos autores a leitura
atenta das Diretrizes aos Autores antes de submeterem seus trabalhos
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E X P E D I E N T E
CORPO EDITORIAL
EDITORES
Eliseu Vieira Machado Júnior, Universidade Federal de Goiás (UFG), Universidade Estadual de Goiás (UEG), Faculdade Metropolitana de Anápolis (FAMA) Paula Letícia de Melo Souza, Faculdade Metropolitana de Anápolis (FAMA)
COORDENAÇÃO GERAL
Thiago Soares Silva Ribeiro, Faculdade Metropolitana de Anápolis (FAMA)
COORDENAÇÃO DA EDIÇÃO
Reinan de Oliveira da Cruz, Faculdade Metropolitana de Anápolis (FAMA)
CONSELHO EDITORIAL
Prof. Dr. Felipe Correa Veloso dos Santos (FAMA) Profª. Drª. Janaina de Moura Oliveira (FAMA) Profª. Drª. Lúcia Coelho Garcia Pereira (FAMA)
Prof. Drª. Marcela Luzia Rodrigues Pereira Prof. Dr. Marcelo do Nascimento Gomes (FAMA)
Profª. Drª. Marcia Sumire Kurogi Diniz (FAMA) Prof. Dr. Ronice Alves Veloso (FAMA)
REVISÃO
Sandra Fátima da Silva Araújo
ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO Ana Paula Fernandes de Melo
CADERNOS DE PESQUISA
Faculdade Metropolitana de Anápolis | FAMA
Av. Fernando Costa, 49 - Vila Jaiara - St. Norte, Anápolis - GO, 75.064-780 Telefone: (62) 3310-0000
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C129
Cadernos de pesquisa : pesquisa e desenvolvimento em pedagogia : educação, sociedade e cultura. / Eliseu Vieira Machado Junior e Paula Letícia de Melo Souza (Editores); Reinan de Oliveira da Cruz e Thiago Soares Silva Ribeiro (Coordenadores.) – 1. ed. – Anápolis, 2019.
167 p.
Formato: PDF
Inclui Referências bibliográficas
ISBN: 978-85-69676-17-1 (Recurso Eletrônico; v.3, n.1)
1. Desigualdades socioculturais. 2. Comunidades rurais – festa religiosa. 3.
Português – diversidade cultural. 4. Anápolis - Educação a distância. 5. Educação ambiental. 6. Inclusão digital. I. Machado Junior, Eliseu Vieira. II. Souza, Paula Letícia de Melo. III. Cruz, Reinan de Oliveira da. IV. Ribeiro, Thiago Soares Silva. V. Título.
CDU – 37.013.42/.43 Fonte: Bibliotecária Vanessa Severo de Moraes – Faculdade FAMA CRB-1 1806.
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S U M Á R I O
• A (DES)CONSTRUÇÃO DO TERRITÓRIO: ESTUDO DE CASO DA FRAGMENTAÇÃO MUNICIPAL DE ANÁPOLIS (GO) ... 9
• DURKHEIM: SOCIÓLOGO E EDUCADOR ... 21
• CORPOS, RITMOS, VOZES E (EN)CANTOS: A VOZ E A PERFORMANCE EM FESTAS RELIGIOSAS DE COMUNIDADES RURAIS CENTROESTINAS ... 37
• VONTADE DE SABER PORTUGUÊS: LEITURA E DIVERSIDADE CULTURAL NO LIVRO DIDÁTICO ... 50
• OS FESTEJOS DE SÃO SEBASTIÃO NO MUNICÍPIO DE LEOPOLDO DE BULHÕES - GO: REGASTE DA TRADIÇÃO E DAS MEMÓRIAS DE UM POVO ... 66
• SÃO SEBASTIÃO ESTÁ MUITO SATISFEITO: AS DEVOÇÕES PLURAIS EM CAPELINHA DO MATO GRANDE ... 80
• A REDUÇÃO DAS DESIGUALDADES SOCIOCULTURAIS A PARTIR DE UMA FORMAÇÃO CRÍTICA DE LEITORES ... 90
• A DIVERSIDADE SEXUAL NO DISCURSO DE PROFESSORES E NOS MATERIAIS DIDÁTICOS DE ESCOLAS PÚBLICAS GOIANAS ... 106
• A INSERÇÃO DA EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA NO MUNICÍPIO DE ANÁPOLIS (GO): PERSPECTIVAS E DESAFIOS ... 112
• PERCEPÇÃO AMBIENTAL UTILIZANDO TRILHA INTERPRETATIVA COM CRIANÇAS DO DISTRITO DE MANIRATUBA –GO ... 124
• A EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO ÂMBITO ESCOLAR: UM ESTUDO DE CASO EM ESCOLAS PÚBLICAS ... 139
• Legislação da EJA: o caso da educação a distância ... 149
• PERCEPÇÃO DO USO DAS TIC’S COMO RECURSO EDUCACIONAL POR ACADÊMICOS DE UM CURSO DE PEDAGOGIA EM ANÁPOLIS-GO ... 154
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• INCLUSÃO DIGITAL DOS ALUNOS DO ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO EM UM COLÉGIO DA REDE ESTADUAL DE RIANÁPOLIS-GO ... 158
• DIREITOS HUMANOS NA ESCOLA BRASILEIRA ... 163
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ARTIGOS COMPLETOS E RESUMOS EXPANDIDOS 2019/2
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A (DES)CONSTRUÇÃO DO TERRITÓRIO:
ESTUDO DE CASO DA FRAGMENTAÇÃO MUNICIPAL DE ANÁPOLIS (GO)
Ms. Luan Filipe Fonseca Coelho1 Diogo Jansen Ribeiro2 Francine Pereira Rebelo 3 Lucas Pedro do Nascimento4
RESUMO
O território brasileiro, desde o início de sua ocupação pelos europeus passou por diversas transformações em sua configuração. Para atender interesses de diferentes agentes entre eles o capital, o mesmo foi articulado e fragmentado, criando novos estados e municípios. O presente artigo, tem como objetivo geral compreender como ocorreu o processo de fragmentação do país e do Estado de Goiás. Para tanto, o objetivo específico, consiste em realizar um estudo de caso sobre a fragmentação territorial do Município de Anápolis (GO), considerando a ação de diferentes agentes/fatores, como por exemplo os aspectos políticos, econômicos e sociais. Durante a construção do mesmo, utilizou-se como metodologia a revisão bibliográfica, levantamento de material cartográfico sobre a temática, além da inserção dos resultados no artigo. De forma geral, desde a década de 1930, Goiás passou por quatro surtos emancipatórios, que provocou fragmentações em seu território original. Desse total, Anápolis participou de três deles, o que originou novos municípios a partir de seu território, discussões que serão aprofundadas no desenvolvimento do artigo. Para concluir, o artigo destaca a importância que Anápolis ainda exerce em tais áreas que foram fragmentadas/emancipadas.
Palavras-chave: Território. Fragmentação. Anápolis (GO)
ABSTRACT
The Brazilian territory, from the beginning of its occupation by the Europeans, underwent several transformations in its configuration. To meet the interests of different agents among them, capital was articulated and fragmented, creating new states and municipalities. The objective of this article is to understand how the fragmentation process of the country and the State of Goiás occurred. To this end, the specific objective is to carry out a case study on the territorial fragmentation of the Municipality of Anápolis (GO), considering the action of different agents / factors, such as the political, economic and social aspects. During its construction, a bibliographical review methodology was used, as well as the mapping of the cartographic material on the subject, as well as the insertion of the results into the article. In general, since the 1930s, Goiás has experienced four emancipatory outbreaks, which has led to fragmentation in its original territory. Of this total, Anápolis participated in three of them, which originated new
1 Graduado em Geografia pela Universidade Estadual de Goiás (UEG). Graduado em Pedagogia pela Faculdade Educacional da Lapa (FAEL). Especialista em Docência no Ensino Superior (UNIASSELVI). Especialista em Educação a distância (UNIASSELVI). Mestrando em Ciências Sociais e Humanidades (TECCER/UEG).
Professor da Secretaria Estadual de Educação (SEDUCE/GO). Professor do Curso de Pedagogia da Faculdade Metropolitana de Anápolis (FAMA).
2 Professor do Curso de Pedagogia da Faculdade Metropolitana de Anápolis (FAMA).
3 Doutoranda em Antropologia Social pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professora do Curso de Direito da Faculdade Metropolitana de Anápolis – FAMA.
4 Mestre em Territórios e Expressões Culturais no Cerrado (UEG), professor do curso de Pedagogia da Faculdade Metropolitana de Anápolis.
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municipalities from its territory, discussions that will be deepened in the development of the article. To conclude, the article highlights the importance that Annapolis still exerts in such areas that have been fragmented / emancipated.
Keywords: Territory. Fragmentation. Anápolis (GO)
1. INTRODUÇÃO
A discussão sobre o território e sua configuração espacial é cada vez mais objeto de estudo interdisciplinar, pois, compreender a produção e a configuração do território sob o qual a sociedade está inserida se torna uma necessidade para diferentes agentes. Após ressaltar a importância dessa categoria para pesquisas de cunho histórico, econômico e geográfico, o presente artigo tem por objetivo analisar como ocorreu o processo de fragmentação territorial do município de Anápolis (GO), considerando os aspectos políticos e econômicos e sociais.
Para isso, é necessário ressaltar o conceito de território e, partir da escala macro para a micro, ou seja, apresentar de forma sucinta como ocorreu a fragmentação do território nacional, posteriormente, do estado de Goiás, e por último, do município analisado. Durante a realização da pesquisa e produção do artigo, utilizou-se a revisão bibliográfica, a coleta de dados em sites oficiais, e a análise de mapas para representar cartograficamente tais alterações.
Para embasar teoricamente a pesquisa, os seguintes autores foram de suma importância: Barreira (2006), Cunha (2009), Freitas (1995), Luz (2009), Moraes (2006), Palacin (1994), Polonial (2004), Raffestin (1993), Saquet (2013), Souza (2000) entre outros.
No primeiro tópico, é apresentado uma revisão teórica sobre o território em diferentes perspectivas. Para o segundo tópico, apresenta-se como ocorreu as transformações no território brasileiro, desde a chegada dos colonizadores até o século XXI. No terceiro, chama-se a atenção para a configuração de Goiás, que também passou por transformações importantes no que diz respeito a dinâmica territorial. Para analisar e discutir sobre o município objeto da pesquisa, que é Anápolis (GO), reservou-se o quarto tópico. E, para sintetizar toda discussão realizada, tem-se as considerações finais.
2. MATERIAL E MÉTODOS
Entre os principais procedimentos, destaca-se: a revisão bibliográfica, técnica e documental contínua, afim de expandir o referencial sobre categorias norteadoras da pesquisa
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Faculdade Metropolitana de Anápolis | https://www.faculdadefama.edu.br | Cadernos de Pesquisa | v.3, n.1, 2019 | ISBN: 978-85-69676-17-1 11 (território; município; distritos); elaboração de banco de dados com mapas e imagens catalogadas sobre o território anapolino e dos novos municípios gerados da fragmentação territorial; tabulação e tratamento dos dados colhidos em campo; e concomitante com tais etapas, a produção do artigo aqui apresentado.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Para iniciar a discussão sobre o território, faz-se necessário apresentar seu conceito, considerando os principais autores e obras sobre a categoria. De acordo com Ratzel (apud Saquet 2013, p. 30), o território, em uma abordagem geopolítica pode ser compreendido como área, ou seja, como uma parcela do espaço, com ou sem a presença do homem, com ou sem modificações. Complementando a ideia Ratzeliana, Raffestin (1993, p. 143) aponta que “o território se forma a partir do espaço, é o resultado de uma ação conduzida por um ator sintagmático (ator que realiza um programa) em qualquer nível”. Assim, o território se apoia no espaço, no entanto, não é o espaço em si.
Ainda sobre o território, Souza (2000, p. 78) pontua que este é “fundamentalmente um espaço definido e delimitado por e a partir de relações de poder”. Nesse sentido, pode-se afirmar que territórios são construídos e desconstruídos em escalas temporais diferentes:
séculos, décadas, anos, meses ou dias. Assim, territórios podem ter um caráter permanente, mas também podem ter uma existência periódica.
De acordo com Haesbaert e Limond (2007 p. 42-43) três questões devem ser consideradas no que diz respeito a categoria território:
Primeiro, é necessário distinguir território e espaço (geográfico); eles não são sinônimos, apesar de muitos autores utilizarem indiscriminadamente os dois termos – o segundo é muito mais amplo que o primeiro.
O território é uma construção histórica e, portanto, social, a partir das relações de poder (concreto e simbólico) que envolvem, concomitantemente, sociedade e espaço geográfico (que também é sempre, de alguma forma, natureza);
O território possui tanto uma dimensão mais subjetiva, que se propõe denominar, aqui, de consciência, apropriação ou mesmo, em alguns casos, identidade territorial, e uma dimensão mais objetiva, que pode se denominar de dominação do espaço, num sentido mais concreto, realizada por instrumentos de ação político-econômica.
Em síntese, o território é composto por formas, objetos e ações, sinônimo de espaço habitado (SANTOS, SOUZA E SILVEIRA, 1998). Todavia, questiona-se: como ocorre o
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Faculdade Metropolitana de Anápolis | https://www.faculdadefama.edu.br | Cadernos de Pesquisa | v.3, n.1, 2019 | ISBN: 978-85-69676-17-1 12 processo de fragmentação desse território? Quais são os agentes envolvidos? Como atuam? E, no caso do município de Anápolis, quais foram os fatores que interferiram na fragmentação do município? Para responder tais questionamentos, elabora-se os próximos parágrafos. Após apresentar a revisão teórica da categoria, parte-se para a discussão de como ocorreu a fragmentação territorial do Brasil, do Estado de Goiás e, o estudo de caso sobre o município de Anápolis.
Breve história sobre o território brasileiro: de tempos pretéritos ao século XXI
As alterações no território brasileiro começam com a chegada dos portugueses, e partir de então, uma série de alterações foram realizadas, entre elas o processo de fragmentação territorial. “A sequência da configuração territorial pode ser delineada a partir da seguinte forma: época de Colônia (capitanias hereditárias), período imperial (províncias) e atualmente como República ou Federação (unidades federativas ou Estado)” (SOARES e FAÇANHA, 2011, p. 223).
Sobre a fragmentação territorial em capitanias hereditárias, Moraes (2000, p. 411) ressalta que “o Brasil nasce e se desenvolve sob o signo da conquista territorial: trata-se da construção de uma sociedade e de um território, e mais, de uma sociedade que vai ter na montagem do território um de seus elementos básicos de coesão e de identidades sociais”.
Séculos depois, “com a independência, em 1822, a estrutura político-administrativa do Brasil foi redefinida. A Constituição de 1824, no Art. 2º, assinala a divisão do território brasileiro em Províncias, podendo serem subdivididas em municípios” (GOMES, 2015, p. 239).
No entanto, com o advento da proclamação da República, cada província passou a condição de Estado da Federação.
Adiantando o recorte temporal, durante o período Republicano, nas décadas de 1940 e 1950 a fragmentação do território ganha novas discussões e propostas. Entre tais propostas, destaca-se a
[...] de Ari Machado Guimarães, propondo a divisão territorial em 35 departamentos de cerca de 243 mil quilômetros quadrados, separados por limites naturais, e a do general Juarez Távora, candidato a Presidente em 1954, dividindo o Brasil em 32 unidades. Em 1943, através do decreto-lei 3.812, de 13 de setembro, Getúlio Vargas cria os territórios do Amapá, do Rio Branco (Roraima), do Guaporé (Rondônia), de Ponta Porã (sul do Mato Grosso do Sul), e do lguaçu (sudoeste do Paraná e oeste de Santa Catarina). A Constituição de 1946 eliminou os territórios do lguaçu e de Ponta Porã (Art. 8º das Disposições Constitucionais Transitórias). Manteve os territórios de Rondônia, Amapá e Roraima. Os municípios desses últimos tornaram-se autônomos com o decreto-lei 411, de 1969 (MARTINS, 2001, p. 268-269).
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Faculdade Metropolitana de Anápolis | https://www.faculdadefama.edu.br | Cadernos de Pesquisa | v.3, n.1, 2019 | ISBN: 978-85-69676-17-1 13 Todas as fragmentações territoriais que o país foi submetido, está ligada direta e/ou indiretamente com as ações de diferentes agentes, que para atender seus interesses pressiona o poder público e seus órgãos equivalentes, provocando transformações na configuração territorial. Apresentadas, de forma geral as principais fragmentações no território brasileiro, parte-se então para a análise da configuração e da fragmentação territorial de Goiás.
A (des)construção do território goiano: novos e velhos tempos
O Estado de Goiás, assim como as demais unidades da federação brasileira passou por um intenso processo de povoação e de fragmentação territorial. Sobre o processo de povoação, afirma-se que “no fim do século XVII, o território de Goiás era suficientemente conhecido, tanto em São Paulo como em Belém. Os caminhos de penetração se achavam descritos nos roteiros que corriam de mão em mão” (PALACIN, 1994 p. 19).
Novas fragmentações territoriais no território goiano entram em cheque. Entre elas a disputa pela região de São Felix, que fica sob a posse de Goiás (1737); a elevação da Comarca de Goiás a condição de Capitania (1744); a divisão de Goiás em duas comarcas, uma ao norte, sediada em São João das Duas Barras e a outra sediada ao sul, em Vila Boa (1809); a perda de território de Desemboque e de Araxá para Minas Gerais (1816); e a elevação de Vila Boa a categoria de cidade (1818) (POLONIAL, 2004).
Outro processo de fragmentação do território em Goiás foi a tentativa pelo separatismo do norte de Goiás. Sobre tal processo, Polonial (2004, p. 45) assinala que
O norte de Goiás lutou pela sua emancipação, reivindicando a criação da Província da Palma, que correspondia a aproximadamente ao atual Estado do Tocantins. Liderados por Joaquim Teotônio Segurado- que era fiel ás cortes portuguesas, tanto que era um dos representantes de Goiás em Portugal- no dia 14 de setembro de 1821 foi instalado o governo do Norte com a capital em Cavalcante. A separação durou até 1823, quando, por decreto imperial, foi determinada a reunificação a Goiás, com a capital permanecendo em Vila Boa.
A partir de então, houve alterações significativas no território goiano, com a elevação de povoados a categoria de vila e de vila a categoria de cidade, o que eventualmente ocasionariam novas fragmentações territoriais e/ou alterações. Outros movimentos também promoveram alterações no que diz respeito a fragmentação territorial goiana, entre eles a macha para o oeste, implementada a partir da década de 1930, movida por interesses capitalistas e
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Faculdade Metropolitana de Anápolis | https://www.faculdadefama.edu.br | Cadernos de Pesquisa | v.3, n.1, 2019 | ISBN: 978-85-69676-17-1 14 políticos implementados no processo de interiorização, buscando a construção de novas cidades e de novos territórios (MORAES, 2006).
A transferência da capital da cidade de Goiás para Goiânia também foi fator para a fragmentação territorial goiana, pois altera-se de forma direta e indireta a dinâmica regional até então existente. Além de tal fator, a construção em 1956, do que se tornaria a nova Capital Federal (Brasília) também influiu na dinâmica territorial goiana. Afirma-se, de acordo com Moraes (2006, p.85) que “a construção de Brasília, como um centro político nacional numa política territorial, formal ou não, deve ser entendida como um conjunto complexo de programas e ações dirigidas para a eliminação de obstáculos à total socialização do espaço”.
Sobre tal processo no território goiano, Barreira e Teixeira (2006, p. 06) afirmam que:
A reestruturação territorial do Estado de Goiás foi profunda, com intenso processo de incorporação de terras e criação de novos municípios. No período 1960/1970 ocorreu uma redivisão territorial acentuada — em 1950 o Estado contava com 63 municípios, em 1960 eram 146 e em 1970 o número sobe para 169. Em 1980, diminuiu o ritmo desta redivisão, pois havia 173 municípios, em 1990 são 211 e em 2000 o total de 242.
Deste processo de restruturação territorial, fez parte a criação do Estado do Tocantins em 1986, dividindo-se o Estado de Goiás ao meio.
A fragmentação territorial goiana propicia o “processo de criação de municípios uma vez que mais da metade dos municípios existentes hoje no Estado de Goiás foram criados entre as décadas de 30 e 50 (BARREIRA e TEIXEIRA, 2006 p. 06). De acordo com Neto (2002, p. 38) “Goiás já tinha nascido dividido não só pelos interesses de território mais estratégicos (Mato Grosso), mas principalmente pelas dificuldades apresentadas pela sua imensa espacialidade e seu fraco povoamento e ocupação”.
Tal apontamento, pode ser exemplificado pela necessidade de fragmentação do território goiano para a criação do Estado do Tocantins em 1988, pois de acordo com Neto (2002, p. 38) “o Estado povoou-se dentro dessa diversidade e, nesse particular, o sul foi mais privilegiado, porque, dadas as ligações preferenciais com a região core do País” visto sua proximidade com os Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. No entanto, a fragmentação territorial e a criação do Estado do Tocantins não ocasionou grandes alterações na estrutura econômica goiana, pois os recursos econômicos concentravam no território pertencente a Goiás, ao sul do Estado.
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Faculdade Metropolitana de Anápolis | https://www.faculdadefama.edu.br | Cadernos de Pesquisa | v.3, n.1, 2019 | ISBN: 978-85-69676-17-1 15 Feito a contextualização para discutir as principais fragmentações do território goiano, parte-se para um estudo de caso sobre o município de Anápolis, apresentando os fatores que promoveram sua fragmentação e alterações no seu território.
Após apresentar como ocorreu a fragmentação do território brasileiro e goiano, o presente tópico aborda as tais transformações em Anápolis (GO). Para tanto, levou-se em consideração o processo histórico do município, além dos fatores econômicos, políticos e sociais que contribuíram com a fragmentação do território municipal. Para iniciar a discussão, faz-se necessário apresentar brevemente a história do Município de Anápolis.
De acordo com Polonial (2007, p. 15) “desde o início do século XIX, a região onde hoje está o Município de Anápolis já era povoada por pequeno número de fazendeiros e que recebiam para pousadas viajantes e religiosos”. Anápolis contava naquela época, século XIX, com movimentação de tropeiros que partiam de Minas Gerais rumo a Goiás, objetivando o comércio e a agricultura.
Sobre o surgimento de Anápolis, Polonial (2007, p. 16), ressalta que “o povoado não teve início com a capela, nem com a homenagem à Santana, embora esses eventos façam parte da formação da história de Anápolis”. Assim, fazendeiros e comerciantes começaram suas atividades econômicas e religiosas antes da construção da primeira capela, pois desde 1833 os fazendeiros da região das Antas festejavam anualmente o dia de Nossa Senhora de Santana, na residência do senhor Manoel Rodrigues da Silva. Em 1871, existiam apenas sete casas na região, e no ano seguinte esse número saltou para vinte moradias, fora a população rural local.
Meio século depois, entre 1920 e 1930, chegam a Anápolis os trilhos de ferro. De tal forma, “explica-se o grande desenvolvimento econômico alcançado por Anápolis, devido ao fato da cidade ser o ponto terminal da estrada de ferro” (POLONIAL, 2011, p. 48). A cidade se transformara, então, no maior centro de trocas do Estado de Goiás. Sobre os trilhos e sua importância para Anápolis, Haddad (2011, p. 52) ressalta que:
Anápolis foi, com certeza, a cidade que mais se beneficiou com a construção da Estrada de Ferro Goiás. Nunca antes, e nem depois, a cidade constatou, em termos proporcionais, um crescimento econômico tão vertiginoso, como aquele que ocorreu durante os anos trinta. Graças à ferrovia foi possível à cidade criar a base econômica que lhe garantiu o acúmulo de capitais que lhe deu a infra-estrutura necessária para viabilizar os projetos econômicos das décadas seguintes, inclusive o DAIA.
A economia anapolina passa a ter ainda mais destaque, visto que, nesse período, a concentração dos interesses econômicos regionais em Anápolis possibilitou o desenvolvimento das obras de infraestrutura e a valorização das terras (LUZ, 2009). Acompanhado de
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Faculdade Metropolitana de Anápolis | https://www.faculdadefama.edu.br | Cadernos de Pesquisa | v.3, n.1, 2019 | ISBN: 978-85-69676-17-1 16 transformações econômicas, Anápolis vai perdendo território. Sobre isso, Freitas (1995, p.16- 17) destaca que:
Constituído pela resolução provincial n° 811 de 15 de dezembro de 1877, que elevou a Freguesia de Santana das Antas a categoria de vila, o Município de Anápolis (instalado em 1892) tinha originalmente, uma área de 2.096,5 Km². Contudo, com o passar dos anos, essa área foi sendo reduzida, até chegar aos 1.078,2 Km² [..]. Essa redução do espaço territorial se deu em razão da criação de novos Municípios, emancipando Distritos então existentes.
Para expressar cartograficamente a afirmação anterior, podemos utilizar o mapa produzido por Cunha (2009), que sintetiza tais dados. A autora pontua a fragmentação e a emancipação de distritos (que eram pertencentes a Anápolis) entre 1948 e 2000, período em que houve maior criação de novos municípios. Observe:
Figura 1 - Fragmentação territorial do município de Anápolis (GO) entre 1948 e 2000 Fonte: CUNHA, W.C.F (2009, p. 48)
De acordo com Freitas (1995, p. 17) a fragmentação e “o desmembramento de Anápolis ocorreu em três dos quatro surtos emancipatórios ocorridos em Goiás, após o fim do Estado Novo”. No primeiro surto emancipatório ocorrido em 1948, quando foram criados 15 novos municípios em Goiás, Anápolis teve sua primeira fragmentação. Segundo Freitas (1995, p. 17), “pela Lei Estadual nº 104, de 03 de agosto daquele ano, foi criado o Município de Nerópolis. A região desse novo Município correspondia a principal área de cultivo de arroz de Anápolis”.
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Faculdade Metropolitana de Anápolis | https://www.faculdadefama.edu.br | Cadernos de Pesquisa | v.3, n.1, 2019 | ISBN: 978-85-69676-17-1 17 O segundo surto emancipatório, não afetou Anápolis diretamente, contudo, com o terceiro processo (surto) de emancipações, foram fragmentados e emancipados quatro distritos.
São eles:
Nova Veneza: região responsável pela maior parte da produção cafeeira de Anápolis, habitada por italianos e seus descendentes, que chegaram a região em 1912. Tornou-se Município pela Lei Estadual nº 2095, de 14 de novembro de 1958.
Damolândia: antigo Distrito de Santo Antônio do Capoeirão, tornou-se Município pela Lei Estadual n° 2120, de 14 de novembro de 2958.
Brasabrantes: antigo Distrito de São João da Meia Ponte, tornou-se Município pela Lei Estadual nº 2090, de 14 de novembro de 1958.
Goianápolis: Distrito com mesmo nome, tornou-se Município pela Lei Estadual nº 2142, de 14 de novembro de 1958 (FREITAS, 1995 p.17).
Por último, ainda de acordo com Freitas (1995) no quarto processo de fragmentação do território de Anápolis, criou-se o Município de Ouro Verde de Goiás, emancipando o distrito de Boa Vista do Matão, através da Lei Estadual nº 4592.
A ilustração a seguir sintetiza as informações sobre as emancipações de municípios que se formaram a partir da fragmentação do município de Anápolis. Observe:
CRIAÇÃO DO MUNICÍPIO DE
DATA LEI
Nerópolis 03/08/1948 Lei Estadual n° 104
Nova Veneza 14/11/1958 Lei Estadual n°2095
Damolândia 14/11/1958 Lei Estadual n°2120
Brasabrantes 14/11/1958 Lei Estadual n°2090
Goianápolis 14/11/1958 Lei Estadual n°2142
Ouro Verde de Goiás 1963 Lei Estadual n°4.592
Campo Limpo de Goiás 21/07/1997 Lei Estadual n°13.133
Tabela 1 - Criação de novos municípios a partir do território de Anápolis (1948 a 1997) Fonte: FREITAS, R. A. (1995)
Para identificar quais são os agentes e fatores que promovem essas fragmentações territoriais, devemos levar em consideração o capital, as transformações socioeconômicas e as ações (politicas). Ao discutir a fragmentação territorial anapolina para atender a interesses do capital e do Estado, temos que ressaltar, “o processo de expansão das fronteiras agrícolas e das frentes pioneiras que transformaram Anápolis em um centro econômico, influenciando na dinamização do Estado de Goiás” (LUZ, 2009, p. 181).
Outro fator que também foi responsável por modificações na estrutura anapolina foi a chegada dos trilhos de ferro. Sobre tal assunto, Polonial (2011, p. 48) destaca que “entre 1920-1930, chegam a Anápolis os trilhos de ferro. De tal forma, “explica-se o grande desenvolvimento econômico alcançado por Anápolis, devido ao fato da cidade ser o ponto
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Faculdade Metropolitana de Anápolis | https://www.faculdadefama.edu.br | Cadernos de Pesquisa | v.3, n.1, 2019 | ISBN: 978-85-69676-17-1 18 terminal da estrada de ferro” A cidade se transformara, então, no maior centro de trocas do Estado de Goiás.
Para finalizar, é importante observar na dinâmica territorial anapolina, que mesmo passando por intenso processos de fragmentações e emancipações, Anápolis continua como município referência, pois mantém relações socioespaciais com municípios e regiões circunvizinhas. O mapa a seguir representa a localização, a área urbana, as rodovias estaduais e federais, além da localização de seus distritos. Observe:
Figura 2 - Mapa de localização do município de Anápolis (GO) Fonte: SIEG 2016 Org: RODRIGUES, I.F.S.
Sua “área direta de influência abarca municípios distantes cerca de 50 km da cidade, como é caso de: Nova Veneza, Ouro Verde, Damolândia e Goianápolis” (LUZ, 2009 p.
191). Para finalizar, é necessário refletir sobre o seguinte questionamento: será possível, nas próximas décadas novas fragmentações no território anapolino para atender os interesses do capital, do Estado e de demais outros agentes?
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O território, seja ele em escala federal, estadual ou municipal está em constante processo de (re)construção desde a chegada dos colonizadores europeus. As alterações que nele
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Faculdade Metropolitana de Anápolis | https://www.faculdadefama.edu.br | Cadernos de Pesquisa | v.3, n.1, 2019 | ISBN: 978-85-69676-17-1 19 ocorrem são resultados de interesse do capital, do estado e de diferentes agentes que o produzem. Entre as fragmentações territoriais no Brasil, pode-se destacar as capitanias hereditárias, as províncias e a criação, emancipação e extinção de unidades federativas.
Em Goiás, a configuração territorial também passou por transformações, entre as de maior destaque está a fragmentação e a criação do Estado do Tocantins na década de 1980, fator justificado por um viés econômico e de planejamento. Em um recorte municipal, pode-se analisar o caso de Anápolis (GO) que passa a se fragmentar e perder território desde o momento em que seus distritos e áreas que até então pertenciam ao município começam a se emancipar politicamente. Entre os interesses envolvidos no processo emancipatório, pode-se destacar os econômicos, sociais e políticos.
Todavia, Anápolis mesmo perdendo territórios, continua a exercer forte atuação regional sobre os novos municípios que foram fragmentados e emancipados a partir de seu território original. Essa atuação se deve em virtude de sua localização privilegiada, por ser polo que recebe diariamente cidadãos para as mais diferentes atividades (educação/saúde/lazer), além de concentrar um distrito agroindustrial responsável pela geração de empregos.
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Faculdade Metropolitana de Anápolis | https://www.faculdadefama.edu.br | Cadernos de Pesquisa | v.3, n.1, 2019 | ISBN: 978-85-69676-17-1 20 LUZ, J.S. A produção do espaço de Anápolis/GO: A trajetória de uma cidade média entre duas metrópoles, 1970-2009. 2009. Tese de doutorado. UFU, Uberlândia, MG, 2009.
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DURKHEIM: SOCIÓLOGO E EDUCADOR
Francine Pereira Rebelo 5 Luiz Antônio Guerra 6
RESUMO
O presente artigo visa delinear as principais ideias da Sociologia da Educação de Émile Durkheim. Pretende-se aqui analisar seus estudos pedagógicos inseridos no conjunto da sua obra, de maneira a esclarecer aspectos centrais da sua Sociologia. Realiza-se, ainda, uma breve comparação com o pensamento de Karl Marx, a partir do papel destinado à educação nas perspectivas teóricas de ambos os autores, com o objetivo de aprofundar em alguns pontos da Sociologia de Durkheim, abrindo espaço também para alguns questionamentos.
Palavras-chave: “Sociologia”, “Sociologia da Educação”, “Émile Durkheim”.
ABSTRACT
Abstract: “Durkheim: Sociologist and Educator”. This article aims to outline the main ideas of Durkheim's Sociology of Education. Our purpose is to analyze their pedagogical studies included in the set of his work, in order to clarify key aspects of its sociology. A brief comparison is also made with the thought of Karl Marx, in view of the role of education in the theoretical perspectives of both authors, with the objective of deepening in some points of the Durkheim's Sociology and make some questions.
Keywords: “Sociology”; “Sociology of Education”; “Émile Durkheim”.
1. INTRODUÇÃO
Qualquer cientista social que pretenda pensar o processo de socialização de um indivíduo – e o papel da educação neste processo – não pode se esquivar do legado de Émile Durkheim. Para este fundador da ciência sociológica, a relação entre o indivíduo e a sociedade em que ele vive é um fenômeno humano que tem uma natureza própria e, por consequência, suscetível de ser analisada e explicada segundo as regras do método científico. Em realidade, pode-se dizer que a tensão entre indivíduo e sociedade perpassa a totalidade da obra durkheimiana.
Durkheim busca fundar uma ciência social prática e útil, levando em consideração a interiorização dos valores sociais comuns. Ele defende que um indivíduo só existe em função
5 Doutoranda em Antropologia Social pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professora do Curso de Direito da Faculdade Metropolitana de Anápolis – FAMA.
6 Doutorando em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade de São Paulo (USP).
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Faculdade Metropolitana de Anápolis | https://www.faculdadefama.edu.br | Cadernos de Pesquisa | v.3, n.1, 2019 | ISBN: 978-85-69676-17-1 22 de outros, pelo calor do grupo, pela participação comunal. Através de métodos científicos próprios, ele procurou determinar o campo dessa nova ciência, que para ele seria justamente o instrumento conciliador das relações entre os interesses individuais e sociais. Muitos estudiosos da obra de Durkheim apontam as raízes do seu pensamento na preocupação de fomentar a solidariedade social, o que é evidente na importância que ele dá à educação.
Durkheim foi professor de Pedagogia e de Sociologia ao mesmo tempo, durante grande parte da sua vida. Na sua aula inaugural de posse da cadeira de Ciência da Educação na Universidade de Sorbonne em 1902, Durkheim deixa claro que é enquanto sociólogo que ele aborda o tema da educação. Sua opinião é de que “a educação é uma coisa eminentemente social, tanto por suas origens quanto por suas funções e que, logo, a Pedagogia depende mais da Sociologia do que de qualquer ciência” (Durkheim, 2011a: 98).
É impossível desvincular a obra pedagógica de Durkheim – cujos principais livros são
“Educação e Sociologia” (1922), “Educação moral” (1925) e “Evolução Pedagógica na França”
(1938) – da sua abordagem científica dos fatos sociais. Nesse sentido, Paul Fauconnet, colaborador da L’Aneé Sociologique, revista fundada por Durkheim, afirma no prólogo de
“Educação e Sociologia”, que através da análise da educação de Durkheim podemos perceber melhor a essência do seu pensamento sobre as relações entre os indivíduos e a sociedade da qual faz parte, e, mais ainda, como ele compreende a dinâmica de transformação social.
Dessa maneira, o objetivo deste artigo é delinear as principais ideias da Sociologia da Educação de Durkheim, expressão que ele mesmo cunhou. Pretende-se aqui analisar seus estudos pedagógicos inseridos no conjunto da sua obra, de maneira a esclarecer aspectos centrais do núcleo argumentativo e epistemológico da sua Sociologia.
Num segundo momento, é realizada uma breve comparação com o pensamento de Karl Marx, a partir do papel destinado à educação nas perspectivas teóricas de ambos os autores, com o objetivo de aprofundar em alguns pontos da Sociologia de Durkheim, abrindo espaço também para alguns questionamentos.
1.1. A SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO DE DURKHEIM
No seu esforço em consolidar uma ciência social objetiva, Durkheim buscou formular uma visão de mundo alternativa ao individualismo metodológico, muito influente na comunidade científica na segunda metade do século XIX. Alguns pensadores da época, como
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Faculdade Metropolitana de Anápolis | https://www.faculdadefama.edu.br | Cadernos de Pesquisa | v.3, n.1, 2019 | ISBN: 978-85-69676-17-1 23 os “economistas ortodoxos” e os “utilitaristas”, desenvolviam suas teorias em torno do comportamento interessado e egoísta das pessoas. Para Durkheim, entretanto, o problema desses pensadores é que “não se percebe que não pode haver sociologia se não há sociedades, e que não há sociedades se só existem indivíduos” (DURKHEIM 2011b: 06). Assim, seria inaceitável que as escolhas individuais servissem de ponto de partida para sua Sociologia. Para ele, o princípio de ação egoísta não é capaz de assegurar a estabilidade coletiva e, portanto, defende que uma sociedade não pode subsistir sem ideais morais comuns, pois “as paixões humanas só se detêm diante de uma força moral que elas respeitam” (DURKHEIM, 1984: VII).
Para ele, é impossível que as pessoas vivam juntas sem adquirirem um sentimento coletivo, de modo a subordinar seus interesses particulares ao interesse geral. Esse apego a algo exterior ao indivíduo é a fonte da moral, que se desenvolve em toda sociedade humana, permitindo sua reprodução e existência.
“Depois de repetida várias vezes, a mesma ação tende a se reproduzir da mesma forma. Pouco a pouco, pela formação de hábitos, nosso comportamento assume uma forma que então se impõe à nossa vontade com a força de uma obrigação. Sentimo-nos compelidos a executar todas as nossas ações segundo o mesmo padrão. O mesmo se dá com as relações sociais e com as manifestações do nosso comportamento privado. Depois de um período inicial de tentativas e instabilidade, elas se fixam assumindo a forma que se reconhece pela experiência como a melhor, e a partir de então somos compelidos a nos conformar a ela. Essa força da obrigação é, ademais, não apenas autoridade do uso comum: é um sentimento, mais ou menos claro, de que essa é a forma exigida pelo interesse público. É assim que se formam os costumes, as primeiras sementes de que nascem o direito e a moral; pois moral e direito são apenas hábitos coletivos, padrões constantes de ação que se tornam comuns a toda uma sociedade”
(DURKHEIM 2003: 23-24).
Conclui-se que os elementos morais de determinada sociedade são fenômenos como os outros, consistem em normas sociais com características distintivas, desenvolvidas historicamente. A moral é um fato social, e, assim sendo, é objeto de estudo da Sociologia, passível de ser analisada e determinada cientificamente, com a finalidade de compreender problemas práticos de nossa sociedade. Para Durkheim, “é fato social toda maneira de fazer, fixada ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior”, ou também “toda maneira de fazer que é geral na extensão de uma dada sociedade e, ao mesmo tempo, possui uma existência própria, independente das suas manifestações individuais” (DURKHEIM 2007:
13).
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Faculdade Metropolitana de Anápolis | https://www.faculdadefama.edu.br | Cadernos de Pesquisa | v.3, n.1, 2019 | ISBN: 978-85-69676-17-1 24 Os fatos sociais são exteriores às consciências individuais, impondo-se como realidades anteriores, independentes e que exercem uma coerção na conduta dos indivíduos. Durkheim analisa cientificamente a sociedade como uma “coisa”, que tem uma natureza própria, embora não se realize fora dos indivíduos que a compõem. Para ele, a sociedade não é igual à soma dos indivíduos, e tampouco se transforma a cada geração – ao contrário, liga uma geração à outra.
Entretanto, afirmar que Durkheim pretende edificar um conhecimento objetivo da ação social, exterior às consciências individuais, não significa que, na sua concepção, o indivíduo perca toda e qualquer autonomia, vontade e capacidade de ação, como muitas vezes se interpretou. O indivíduo durkheimiano é um sujeito de integração, produto da socialização. Em oposição ao indivíduo egoísta, Durkheim propõe um indivíduo moral, na condição de pertencente a um coletivo. Segundo o autor, na realidade, os próprios indivíduos têm interesse na vida em sociedade, “em parte, porque ela é útil aos nossos interesses, mas acima de tudo porque é o único domínio em que nossas inclinações sociais são satisfeitas”, lembrando que
“tais inclinações são o produto da afinidade entre semelhantes que se observa por toda parte na natureza” (DURKHEIM, 2011a: 102). No prefácio da 2ª edição de “A Divisão do Trabalho Social”, Durkheim afirma que só pode existir liberdade na medida em que há normas coletivas que impedem que uma pessoa possa tirar proveito de outra, devido sua superioridade física ou econômica. O autor compreende o fundamento da unidade social no que Jean-Claude Filloux chama de “comunhão normativa”, ou seja, uma solidariedade fomentada e regulada por normas comuns interiorizadas pelos membros da sociedade (FILLOUX, 1975). Assim sendo, “a função prática da moral é na realidade tornar a sociedade possível, ajudar as pessoas a viverem juntas sem muitos prejuízos ou conflitos, em resumo, dar salvaguarda aos grandes interesses coletivos” (DURKHEIM 2003: 20). “De fato”, defende Durkheim, “o homem só é homem porque vive em sociedade” (DURKHEIM, 2011a: 58).
“O antagonismo que muitas vezes se supôs existir entre a sociedade e o indivíduo não corresponde à realidade. Estes dois termos estão longe de se oporem e só poderem se desenvolver de modo divergente. Na verdade, um implica o outro. Ao querer a sociedade, o indivíduo quer a si mesmo. O objetivo e o efeito da ação que ela exerce sobre ele, principalmente através da educação, não são nem um pouco reprimi-lo, diminuí-lo, desnaturá-lo, mas sim amplificá-lo e transformá- lo em um ser verdadeiramente humano” (DURKHEIM, 2011a: 61, grifos nossos).
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Faculdade Metropolitana de Anápolis | https://www.faculdadefama.edu.br | Cadernos de Pesquisa | v.3, n.1, 2019 | ISBN: 978-85-69676-17-1 25 Tendo em vista que fatos sociais consistem em maneiras de agir, de pensar e de sentir exteriores ao indivíduo, dotados de um poder coercivo em virtude do qual se lhe impõem, conclui-se que a educação também é um fato social, assim como a moral, e na concepção de Durkheim, intimamente ligada a ela. No primeiro capítulo de “As Regras do Método Sociológico”, o autor cita a maneira como são educadas as crianças para exemplificar a definição de fato social e, desta maneira, exprime sua própria noção de educação:
“Quando se observam os fatos tais como são e tais como sempre foram, salta aos olhos que toda educação consiste num esforço contínuo para impor à criança maneiras de ver, de sentir e de agir às quais ela não teria chegado espontaneamente. (...) Essa pressão de todos os instantes que sofre a criança é a pressão mesma do meio social que tende a modelá-la à sua imagem e do qual os pais e os mestres não são senão os representantes e os intermediários” (DURKHEIM 2007: 06).
Toda educação, de qualquer sociedade, repousa sobre uma base comum, independente da complexidade dessa sociedade, da variedade de maneiras de se educar e da especificidade das formas de conhecimento existentes. Para Durkheim, não há povo que não sustente um conjunto de ideais e práticas que são reproduzidas em todas as crianças através de alguma forma de educação, seja qual for sua situação social. Esse conjunto de ideais é o eixo educativo mediante o qual a sociedade prepara a criança, formando as condições apropriadas para a sua existência.
Para o sociólogo francês, os seres humanos não carregam aptidões inatas, geneticamente herdadas, mas apenas algumas predisposições vagas e flexíveis, incapazes de determinar o desenvolvimento da sua vida pessoal e profissional. No intervalo que existe entre as virtudes gerais e indeciss que constituem o indivíduo quando ele nasce e sua personalidade adulta, que define seu papel útil na sociedade, há uma distância imensa. É essa distância que cabe à educação fazer a criança percorrer. Chegamos, portanto, à seguinte definição de educação:
“A educação é a ação exercida pelas gerações adultas sobre aquelas que ainda não estão maduras para a vida social. Ela tem como objetivo suscitar e desenvolver na criança um certo número de estados físicos, intelectuais e morais exigidos tanto pelo conjunto da sociedade política quanto pelo meio específico ao qual ela está destinada em particular”
(DURKHEIM, 2011a: 53-54).
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Faculdade Metropolitana de Anápolis | https://www.faculdadefama.edu.br | Cadernos de Pesquisa | v.3, n.1, 2019 | ISBN: 978-85-69676-17-1 26 A partir desta definição, conclui-se que a educação é uma socialização metódica das novas gerações, que corresponde à necessidade da sociedade de assegurar sua reprodução e perenidade. Essa socialização se opera desde o nascimento, inicialmente na família, mas é na escola que se dá de maneira sistematizada, o que faz com que esta se torne o lugar por excelência da reprodução social, de valores, normas e saberes.
Pode-se dizer que Durkheim tem uma concepção dual da consciência humana. É como se em cada um de nós houvesse dois seres distintos, ainda que inseparáveis. Um é o individual, composto pela consciência do que diz respeito aos acontecimentos da nossa vida pessoal; o outro é o ser social, composto de um conjunto de ideias, hábitos e sentimentos que exprimem em nós o coletivo do qual fazemos parte. Para Durkheim, edificar esse ser social é a função primordial da educação. “De fato, este ser social não somente não se encontra já pronto na constituição primitiva do homem como também não resulta de um desenvolvimento espontâneo” (DURKHEIM, 2011a: 54). Ele encara cada pessoa e cada geração como uma “tábula quase rasa”, a qual deve a sociedade, através da educação, construir novamente e rapidamente, substituindo o ser egoísta que nasce por um ser capaz de viver em sociedade.
Conforme foi dito, no pensamento de Durkheim, os indivíduos são vistos como seres morais, pertencentes ao coletivo, que possuem uma autonomia relativa. Portanto, na sua concepção, a educação não se trata de um processo de despersonalização, anterior ao indivíduo, nem o seu oposto, ou seja, um desenvolvimento do individualismo. Para Durkheim, a educação é um processo que individualiza socializando. “Ela não se limita a reforçar as tendências naturalmente marcantes do organismo individual, ou seja, desenvolver potencialidades ocultas que só estão esperando para serem reveladas. Ela cria um novo ser no homem” (DURKHEIM, 2011a: 55). Em “Educação Moral”, o autor defende que a educação deve visar formar na criança o sentido da vida coletiva, ao mesmo tempo em que estimula a sua criatividade individual. Assim, ele elenca os três “elementos da moralidade” que devem estar presente nas formas e conteúdos escolares: o ensino de espírito de disciplina, de vinculação aos grupos e de autonomia da vontade.
Afirmou-se na introdução deste artigo que a tensão entre o indivíduo e a sociedade em que ele vive é a grande preocupação moral que permeia toda a obra de Durkheim. Na sua pedagogia não é diferente: ele reconhece o dilema pedagógico de ensinar a disciplina e, ao mesmo tempo, a autonomia. Para ele, a disciplina é útil não apenas à sociedade, como meio
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Faculdade Metropolitana de Anápolis | https://www.faculdadefama.edu.br | Cadernos de Pesquisa | v.3, n.1, 2019 | ISBN: 978-85-69676-17-1 27 indispensável para a cooperação e solidariedade social, mas também ao interesse do próprio indivíduo. Faz-se ainda mais necessário o incentivo de uma disciplina moral pela educação em sociedades democráticas e modernas, nas quais a religião deixou de ser a principal entidade organizadora e mantenedora da coesão social a partir da contenção dos desejos individuais.
Portanto, conclui-se dos argumentos apresentados acima que:
“...cada sociedade elabora um certo ideal do homem, ou seja, daquilo que ele deve ser tanto do ponto de vista intelectual quanto físico e moral; que este ideal é, em certa medida, o mesmo para todos os cidadãos, que a partir de certo ponto ele se diferencia de acordo com os meios singulares que toda sociedade compreende em seu seio. É este ideal, único e diverso ao mesmo tempo, que é o polo da educação.
Portanto, a função desta última é suscitar na criança: 1°) um certo número de estados físicos e mentais que a sociedade à qual ela pertence exige de todos os seus membros; 2°) certos estados físicos e mentais que o grupo social específico também considera como obrigatórios em todos aqueles que o formam. Assim, é o conjunto da sociedade e cada meio social específico que determinam este ideal que a educação realiza. A sociedade só pode viver se existir uma homogeneidade suficiente entre seus membros; a educação perpetua e fortalece esta homogeneidade gravando previamente na alma da criança as semelhanças exigidas pela vida coletiva. No entanto, por outro lado, qualquer cooperação seria impossível sem uma certa diversidade; a educação assegura a persistência desta necessária diversidade diversificando-se e especializando-se a si mesma” (DURKHEIM, 2011a: 52-53).
Ainda que todas as práticas educativas sejam ações exercidas por uma geração sobre a seguinte no intuito de adaptá-la ao meio social no qual está destinada a viver, cada sociedade consolida um tipo diferente de educação, uma vez que “a moral que é ‘válida’ para um determinado tipo de sociedade não serve para uma sociedade de tipo diferente. (...) não há ideais morais que possam ser considerados como universalmente válidos” (GIDDENS, 1976:
296). Portanto, não há um modelo único de educação, por mais que cada sociedade acredite serem universais seus valores e persigam um ideal através de suas práticas educativas. Afirmar que é um fato social quer dizer que a educação vigente coloca a criança em contato com princípios e costumes de determinada sociedade – e não com a humanidade em geral –, através de determinadas estruturas escolares, métodos e tradições pedagógicas, programas de ensino e ideais dos professores bem definidos. “As sociedades cristãs da Idade Média”, exemplifica o
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Faculdade Metropolitana de Anápolis | https://www.faculdadefama.edu.br | Cadernos de Pesquisa | v.3, n.1, 2019 | ISBN: 978-85-69676-17-1 28 autor, “não teriam podido sobreviver se tivessem concedido à reflexão livre a importância que lhe damos hoje” (DURKHEIM, 2011a: 46).
Giddens chama atenção para a importância da dimensão histórica em toda a obra de Durkheim. Nesse sentido, exemplar é o curso pedagógico publicado com o título de “A evolução pedagógica na França”, no qual Durkheim realiza uma ampla análise desde a Idade Média para explicar a realidade pedagógica francesa no início do século passado. Ele mostra como a educação europeia se desenvolveu a partir de uma série de mudanças políticas e econômicas, marcadas pelo surgimento de novas mentalidades e de necessidades emergentes ainda não institucionalizadas. Nesse processo, ao mesmo tempo em que o sistema escolar foi afetado por tais mudanças sociais, as transformações nas práticas pedagógicas e no conteúdo do ensino possibilitaram novas representações coletivas da sociedade.
Este ponto da obra pedagógica de Durkheim ajuda a esclarecer sua visão acerca da dinâmica de uma sociedade e o papel que nela possui o indivíduo. Na sua opinião, a transformação abrupta nos meios educativos não seria capaz de promover a mudança na mentalidade das pessoas, da mesma forma que uma lei não tem o poder de transformar, por si mesma, os costumes coletivos. Esse foi, por exemplo, o caso do fracasso da Comuna de Paris.
Para o autor, as instituições têm de responder mudanças que partem da própria sociedade, não de reflexões pessoais. Pode-se dizer que é justamente esse o sentido da exterioridade do coletivo sobre o particular, na compreensão durkheimiana dos fatos sociais.
“Esbarramos aqui na condenação geral a que todas estas definições [anteriores de ‘educação’] se expõem. Elas partem do postulado de que há uma educação ideal, perfeita, válida sem distinção para todos os homens; e é esta educação universal e única que o teórico tenta definir. Mas primeiro, se a história é levada em consideração, nada que confirme tal hipótese pode ser encontrado. (...) Porém, na verdade, cada sociedade, considerada em determinado momento de seu desenvolvimento, tem um sistema de educação que se impõe aos indivíduos com uma força geralmente irresistível. Não adianta crer que podemos educar os nossos filhos como quisermos. Há costumes aos quais somos obrigados a nos conformar; se os transgredirmos demais, eles acabam se vingando nos nossos filhos. (...) Pouco importa se foram criados com ideias arcaicas ou avançadas demais; tanto em um caso como no outro, eles não terão condições de viver uma vida normal.
Portanto, em qualquer época, existe um tipo regulador de educação do qual não podemos nos distanciar sem nos chocarmos com vigorosas resistências que escondem dissidências frustradas. Ora, não fomos nós, individualmente, que inventamos os costumes e ideias que determinam este tipo de educação. Eles são o produto da vida em comum e refletem suas necessidades. Em sua maior parte, eles são inclusive fruto das
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Faculdade Metropolitana de Anápolis | https://www.faculdadefama.edu.br | Cadernos de Pesquisa | v.3, n.1, 2019 | ISBN: 978-85-69676-17-1 29 gerações anteriores. Todo o passado da humanidade contribuiu para elaborar este conjunto de máximas que dirige a educação de hoje, nela está gravada toda a nossa história (...). Como, então, o indivíduo pode pretender reconstruir, somente a partir de sua reflexão pessoal, o que não é fruto do pensamento individual?” (DURKHEIM, 2011a: 46-48).
Se todos nós estamos inseridos num conjunto de ideias e sentimentos coletivos que não podemos modificar à vontade, com uma natureza própria, definida e completa que se impõe a nós, então não cabe à pedagogia buscar uma educação ideal, fora de qualquer tempo e espaço, mas sim, entender as estruturas educacionais existentes que se organizaram lentamente ao longo do tempo, com estreita relação com todas as outras instituições sociais. Para Durkheim, o papel do pedagogo não é o de inventar um sistema de ensino como se já não existisse outro, mas sim conhecer profundamente o sistema de sua época e suas raízes históricas, pois as mudanças no sistema educacional, caso venham a ser realizadas, devem responder a câmbios surgidos na própria estrutura social. Com efeito, é em relação a esta compreensão da dinâmica e necessidades sociais ainda não institucionalizadas que a Sociologia pode e deve auxiliar a Pedagogia, defende Durkheim. À Sociologia incumbe determinar os fins da educação,
“segundo o qual, o funcionamento de toda sociedade deve ser analisado em termos de mecanismos de integração (vontade de ‘viver juntos’) e de mecanismos de regulação (submissão a normas comuns)” (FILLOUX 2010: 22).
1.2.A FUNÇÃO SOCIAL DA EDUCAÇÃO: COMPARANDO DURKHEIM E MARX
Como toda comparação entre pensadores clássicos, muitos são os pontos de encontro e distanciamento que poderíamos apontar entre as obras de Émile Durkheim e Karl Marx. Um empreendimento inesgotável, principalmente se tratando desses dois autores que ainda hoje influenciam o desenvolvimento da Sociologia. Em realidade, as preocupações que guiaram suas obras são distintas, de certo modo opostas, se considerarmos que o conflito assume uma posição central na sociologia marxista, enquanto o horizonte de Durkheim é a solidariedade entre os membros da sociedade. Vale ressaltar ainda que as teorias revolucionárias de Marx precederam em algumas poucas décadas aos esforços de Durkheim em consolidar uma ciência social objetiva, mas ambos desenvolveram seus pensamentos em um contexto histórico europeu de capitalismo industrial em crise e democracia ocidental nascente, marcado por grandes mudanças e um aumento da complexidade social. Ciente dessas questões, nesta seção