Caderno A
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Especializ
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ação em
ação em
Filosofia Clínica
Filosofia Clínica
Instituto Packter
Instituto Packter
Cel. Lucas de Oliveira, 1937
Cel. Lucas de Oliveira, 1937
conjuntos 301 / 302 / 303
conjuntos 301 / 302 / 303 / 304
/ 304
Porto Alegre - RS
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fone (fax) 051 330 66 34
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www.filosofiaclinica.com.br
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ADVERTÊNCIA
ADVERTÊNCIA
Estes escritos são destinados aos filósofos diplomados em escolas reconhecidas Estes escritos são destinados aos filósofos diplomados em escolas reconhecidas pelo Ministério da Educação que cursam Filosofia Clínica no Instituto Packter.
pelo Ministério da Educação que cursam Filosofia Clínica no Instituto Packter.
São colagens, ilustrações e fragmentos de textos que têm o objetivo de auxiliar São colagens, ilustrações e fragmentos de textos que têm o objetivo de auxiliar nossas aulas práticas.
nossas aulas práticas.
Não documentam, apenas complementam a Filosofia Clínica. Não documentam, apenas complementam a Filosofia Clínica.
Os
Os esescrcrititos os aquaqui i cocontntididos os fafazezem m parparte te de de cencentetenas nas de de hohoraras/s/aulaula, a, mamaisis exposições em vídeo, pré-estágio, estágio, prática clínica em aula.
exposições em vídeo, pré-estágio, estágio, prática clínica em aula. Por isso o nome de Caderno: de A até R, num total de 18. Por isso o nome de Caderno: de A até R, num total de 18.
Fora desse contexto, não nos responsabilizamos pelo uso destes ensinamentos, Fora desse contexto, não nos responsabilizamos pelo uso destes ensinamentos, o que condenamos sob o ponto de vista ético.
o que condenamos sob o ponto de vista ético.
Lúcio Packter Lúcio Packter
#1
#1
Os escritos que seguem foram retirados da tese de graduação e pós-graduação, Os escritos que seguem foram retirados da tese de graduação e pós-graduação, ant
ante e prprojojeteto o de de doudoutotoraradodo, , inintititutulalada da “F“Fililososofiofia a ClClínínicica: a: UmUma a InIntrtrododuçução ão àà Psicoterapia Filosófica”, de Lúcio Packter.
Psicoterapia Filosófica”, de Lúcio Packter.
#2
#2
“A Filosofia Clínica é assim definida: “A Filosofia Clínica é assim definida:
a)
a)
O uso do conhecimento filosófico à psicoterapia.O uso do conhecimento filosófico à psicoterapia.b)
b)
A atividade filosófica aplicada à terapia do indivíduo. A atividade filosófica aplicada à terapia do indivíduo.c)
c)
"As "As teoteoriarias s filfilosóosóficficas as empempregregadaadas s às às pospossibsibililidaidades des do do ser ser humano enquanto se realiza por si mesmo.”humano enquanto se realiza por si mesmo.”
[Limites da Definição]
[Limites da Definição]
“A “A FilFilosoosofia fia ClíClínicnica a aprapresesententa a sensentitido do somsomententee quando relacionada à pessoa dentro de um exercício de psicoterapia. A explanação dos quando relacionada à pessoa dentro de um exercício de psicoterapia. A explanação dos valores, a construção e a modificação das arquiteturas do saber, resultado de uma valores, a construção e a modificação das arquiteturas do saber, resultado de uma tarefa causal, tudo aqui está a um serviço.tarefa causal, tudo aqui está a um serviço.
"O saber, como aquisição da produção humana ou em sua origem divina, é "O saber, como aquisição da produção humana ou em sua origem divina, é projetado no objetivo: a pesquisa como influxo terapêutico.”
projetado no objetivo: a pesquisa como influxo terapêutico.”
#3
#3
[Psicote
[Psicoterapia
rapia Filosófica
Filosófica]
]
“A psicoterapia tem uma concepção anômala na“A psicoterapia tem uma concepção anômala na versão filosófico clínica: a vivência da circunstância relacional objetivando remeter às versão filosófico clínica: a vivência da circunstância relacional objetivando remeter às pessoas envolvidas diferentes opções às questões por elas propostas; isso, com base nos pessoas envolvidas diferentes opções às questões por elas propostas; isso, com base nos prproceocedimdimentoentos s filfilosóosóficficos os clíclínicnicos. os. EspEspeciecificficameamentente, , o o filfilósoósofo fo sisituatua-se -se ententre re asas amizades de quem partilha uma trajetória de vida tendo-se nisso a busca de opções às amizades de quem partilha uma trajetória de vida tendo-se nisso a busca de opções às
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Os
Os esescrcrititos os aquaqui i cocontntididos os fafazezem m parparte te de de cencentetenas nas de de hohoraras/s/aulaula, a, mamaisis exposições em vídeo, pré-estágio, estágio, prática clínica em aula.
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Lúcio Packter Lúcio Packter
#1
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Os escritos que seguem foram retirados da tese de graduação e pós-graduação, Os escritos que seguem foram retirados da tese de graduação e pós-graduação, ant
ante e prprojojeteto o de de doudoutotoraradodo, , inintititutulalada da “F“Fililososofiofia a ClClínínicica: a: UmUma a InIntrtrododuçução ão àà Psicoterapia Filosófica”, de Lúcio Packter.
Psicoterapia Filosófica”, de Lúcio Packter.
#2
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“A Filosofia Clínica é assim definida: “A Filosofia Clínica é assim definida:
a)
a)
O uso do conhecimento filosófico à psicoterapia.O uso do conhecimento filosófico à psicoterapia.b)
b)
A atividade filosófica aplicada à terapia do indivíduo. A atividade filosófica aplicada à terapia do indivíduo.c)
c)
"As "As teoteoriarias s filfilosóosóficficas as empempregregadaadas s às às pospossibsibililidaidades des do do ser ser humano enquanto se realiza por si mesmo.”humano enquanto se realiza por si mesmo.”
[Limites da Definição]
[Limites da Definição]
“A “A FilFilosoosofia fia ClíClínicnica a aprapresesententa a sensentitido do somsomententee quando relacionada à pessoa dentro de um exercício de psicoterapia. A explanação dos quando relacionada à pessoa dentro de um exercício de psicoterapia. A explanação dos valores, a construção e a modificação das arquiteturas do saber, resultado de uma valores, a construção e a modificação das arquiteturas do saber, resultado de uma tarefa causal, tudo aqui está a um serviço.tarefa causal, tudo aqui está a um serviço.
"O saber, como aquisição da produção humana ou em sua origem divina, é "O saber, como aquisição da produção humana ou em sua origem divina, é projetado no objetivo: a pesquisa como influxo terapêutico.”
projetado no objetivo: a pesquisa como influxo terapêutico.”
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problemáticas: nesse contexto, a psicoterapia praticada pela filosofia despreocupa-se problemáticas: nesse contexto, a psicoterapia praticada pela filosofia despreocupa-se primordialmente, como opção, com as curas médicas do estudo e da terapêutica das primordialmente, como opção, com as curas médicas do estudo e da terapêutica das doenças mentais, embora possa existir coincidência. Todavia, localiza-se mais no doenças mentais, embora possa existir coincidência. Todavia, localiza-se mais no âmbito da área educacional, enquanto filosofia.”
âmbito da área educacional, enquanto filosofia.”
#4
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clínico]
ico]
“O “O fifilólósosofo fo clclíniínico co é é ininiciciaialmlmentente e oo estudante de filosofia disposto a compartilhar um caminho incerto com outras pessoas, estudante de filosofia disposto a compartilhar um caminho incerto com outras pessoas, a atuar filosoficamente em cada endereço desse caminho tal, pois é em cada endereço a atuar filosoficamente em cada endereço desse caminho tal, pois é em cada endereço que sua identidade se modela. Partilhando um período da existência de outro ser, sob que sua identidade se modela. Partilhando um período da existência de outro ser, sob a responsabilidade que o nomeou filósofo, sua identidade reside em sua posição dentro a responsabilidade que o nomeou filósofo, sua identidade reside em sua posição dentro da situação vivenciada.”da situação vivenciada.”
#5
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[Características do
[Características do filósofo clínico]
filósofo clínico]
“Basicamente podemos caracterizar o“Basicamente podemos caracterizar o filósofo clínico em sua atividade e através dela:filósofo clínico em sua atividade e através dela:
a)
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Um partilhante emprestando as teorias filosóficas a pessoas emUm partilhante emprestando as teorias filosóficas a pessoas em suas especificidades.suas especificidades.
c)
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"Um pesquisador das filosofias terapêuticas.” "Um pesquisador das filosofias terapêuticas.”#6
#6
[Indicações]
[Indicações]
“ “ A A FiFilolososofifia a ClClínínicica a é é inindidicadcada a a a papartrtir ir dadas s pspsicicolologogiaias,s, designada a lidar com questões metapsicológicas. Uma ilustração estaria em Sócrates, designada a lidar com questões metapsicológicas. Uma ilustração estaria em Sócrates, umum dos pais dos pais da da FiFiloslosofiofia a ClíClínicnica, a, ao ao admadminiinistrstrar ar a a maimaiêutêutica ica comcomo o recrecursurso o dede conhecimento interno.
conhecimento interno.
Ocorre também a indicação deste trabalho simultaneamente a tratamentos Ocorre também a indicação deste trabalho simultaneamente a tratamentos méd
médicoicos s menmentaitais s por por acoacompampanhar nhar os os desdesdobdobramramententos os exiexistestencinciais ais da da pespessoasoa: : asas psicoses, por exemplo, podem ser incluídas em seu campo de atividades.
psicoses, por exemplo, podem ser incluídas em seu campo de atividades.
Mas, insistentemente, seu foco tende a iluminar as questões fundamentais que Mas, insistentemente, seu foco tende a iluminar as questões fundamentais que há muito seguem o indivíduo: éticas, axiológicas, antropológicas, científicas, artísticas há muito seguem o indivíduo: éticas, axiológicas, antropológicas, científicas, artísticas e, no somatório, essencialmente filosóficas.”
e, no somatório, essencialmente filosóficas.”
#7
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“O“Os s momododos s cocom m os os ququaiais s o o fifilólósosofofo estrutura o trabalho relacionam-se às vertentes de reflexão que segue. Por citar, estrutura o trabalho relacionam-se às vertentes de reflexão que segue. Por citar, questões éticas ou axiológicas justamente lecionam um parecer diferente diante da questões éticas ou axiológicas justamente lecionam um parecer diferente diante da mesma questão quando um examinador existencialista e um outro, cético nominalista, mesma questão quando um examinador existencialista e um outro, cético nominalista, opinam e atuam.”#8
[Propriedade do local de atendimento]
“A limitação imposta pelo consultório logo é derrubada quando a vivência em Filosofia Clínica demonstra que muitos lugares são sujeitos a bons espaços de trabalho.Ao ter como partilhante um estudante com graves dificuldades de relacionamento na escola, por exemplo, o filósofo provavelmente deixará o consultório e pesquisará o local onde julga encontrar algumas respostas.
Nesse e em outros casos seria desaconselhável limitar o trabalho filosófico clínico a um laboratório fechado, o consultório. De fato, a maior parte do trabalho em Filosofia Clínica parece ser realizada longe do ambiente original.”
#9
[Relação entre o filósofo clínico e a pessoa (partilhante) que o
procura]
“...basicamente, o filósofo permite livre cursar à manifestação, ao conteúdo que o partilhante traz e que surge sempre mais, ao ser em seus exercícios de coisa, e tudo isso oscilando conforme um discurso prático.No intuito de dividir uma realidade que se lhes apresenta, nada se sabe sobre algum retorno do filósofo junto aos seus partilhantes e nem se esses o farão por outros meios. Os partilhantes podem efetuar várias transmutações: em um grau adiantado dos trabalhos às vezes é difícil divisar quem é o filósofo e quem são os partilhantes. Assim, sendo também um processo de identificação, e considerando que observamos
sempre a partir de um ponto de vista que determina as possibilidades do que podemos conhecer, segundo Karl Popper, torna-se notório que durante tal processo associativo haja um câmbio de concepções, problemas e pontos de vista entre o filósofo e os partilhantes.
Quanto a isso, existe uma surpresa inicial quando os partilhantes se descobrem alienados aos elos escravagistas governados por conceitos rígidos da conduta clássica da saúde aos quais seguem as ciências médicas. Livres de tais categorias classificatórias, surge outro posicionamento, de uma forma tal que as pessoas envolvidas aqui podem pesquisar, sob a orientação filosófica, perspectivas de diferentes morais.
Exemplificando, a relação filósofo-partilhante é uma relação essencialmente de amizade. Cabe ao filósofo ter os cuidados de somente aceitar como partilhante alguém que em sua existência ocuparia de certo modo um tal lugar, reservado à amizade.
Para tanto, existe a entrevista inicial, uma vez que o filósofo não pode determinar tal aceite a priori, na acepção dada por Kant, na segunda parte da Crítica da Razão Pura, na Lógica Transcendental, quando mostra que a intuição traz apenas o modo como somos afetados pelo objeto; já o entendimento é a nossa capacidade de pensar esse objeto da intuição sensível. “O entendimento nada pode intuir e os
sentidos nada podem pensar. Só pela reunião se tem conhecimento”, afirma Kant. Assim, a empatia torna-se determinante.”
[Sobre o processo clínico]
“A prática da Filosofia Clínica demonstra uma contínua modificação subjetiva vinda em dados sutis da semiose. O indivíduo percebe-se movido em sua situação estrutural, percebe-sente e previne, mas como não acontece à mente o entendimento do que exatamente transcorre, o mesmo ocorrendo com o filósofo, e também não adivinha um objeto referencial contra o qual poderia impor resistências, e ele mesmo somente tem notícias em si de um fluir dialeticamente pouco averiguável e a trespassar célere, esse fluir, omisso de suas faculdades, contra toda a revolução latente, estreitando-se e solucionando-se para representar o mudar; omisso, no sentido de descuidado, por ser um processo em grande parte inconsciente; contra a revolução latente porque mesmo ignorando a mudança que se realiza, há uma resistência natural ao mudar. Afinal, a estrutura a ser removida é a antítese à nova estrutura, síntese.Qualitativamente, no íntimo, o indivíduo reconhecerá a operatória, ainda que socialmente não; então, algo se desdobra nessa estrutura tornando-a, de um modo irremediável, tardia.
Cria-se o emergencial que se impulsiona por urgência, e que em qualidades eféticas surge, rompe, desponta unicamente para o contíguo desaparecimento. Tudo isso é metamorfose, toda a sorte até então é indiferente.
O desenvolver incerto, duvidoso em seu redemoinho que se bate contra e em defesa da própria construção, enquanto o ser segue conhecendo seus acidentes de beleza malvada: a malvadez deve ser entendida, nessa expressão, desde um enfoque estético; o mau (perverso) ocorre porque o agente da beleza não consegue sabê-la por estar associado à luta das mudanças; quem a vislumbra de fora, dissociado, pode concebê-la sob a estética.
Há um momento onde o processo de Filosofia Clínica se torna mais compreensível, quando o partilhante cresce de onde partiu, promove-se senhor em algum grau de sua causa escrava, porem não seria logo de início que o colocaríamos diante da confutação aristotélica, não ainda. A fragilidade da mudança não cartesiana requer silêncio; mudar, deslocar, sair de um lugar para outro significa alterar o equilíbrio inicial no sentido de alcançar algum outro e, daí, a instabilidade (o frágil).
Em quietude atenta o filósofo vislumbra uma delicada estrutura de translados; quieto, admira e se cativa com a ternura, a brutalidade, o feitio de um conceito que não lhe é dado a conhecer além de vê-lo simplesmente metamorfosear a suas vistas.
O partilhante exerce uma epistemologia mais tranqüila sobre si mesmo, altera programas emocionais, e seguramente existenciais, o que ocorre durante o processo filosófico clínico mediante a vivência e o exercício da filosofia; a indagação
racional sobre o mundo e o homem com o propósito de construir explicações tão próximas quanto se conseguir de algum critério tido como a verdade. O partilhante romperá as pressões sociais que o sufocavam e aprenderá a olhar diferente o que por hábito lhe era igual.”
#11
Fundamentação Teórica da Filosofia Clínica
Nossas raízes vão ao período grego em que pipocaram os pré-socráticos, uma leva de pensadores ocupados em analisar mais ou menos tudo o que lhes surgia. A
intenção de explicar o mundo por um punhado de conhecimentos que hoje, somados, não ultrapassariam a inteligência de uma calculadora portátil, não fazia deles arrogantes, mas sim homens sensatos que davam a melhor resposta diante do que sabiam. A exigência à época era essa.
É muito curioso que agora enquanto digito este comentário diretamente em uma tela colorida de cristal líquido, nossos melhores filósofos não têm respostas mais precisas àquelas que tantas vezes chegaram a nós pela boa vontade de gente comum
apreciadora de prosa miúda.
Entre a mistura de opiniões para todos os gostos, um homem, Protágoras veio pôr ordem à diversidade de opiniões. Protágoras não se debruçou exatamente sobre as teorias, mas sobre quem as erguia. Constatou que a teoria é apenas um modo de ser no mundo da criatura humana, constatou que todas as formas de relação que estabeleço com qualquer coisa mostram quem sou, que sou eu a medida exata de tudo quanto pretender mensurar sob qualquer significado: ético, epistemológico, emocional...
É daí que inicia a Filosofia Clínica; retomamos Protágoras em Schopenhauer, atualizado.
O filósofo clínico, a pessoa que busca seus serviços, cada um em si mesmo, a resultante da relação entre ambos, essa é a medida das coisas.
Longe de qualquer relativismo, a urgência disso é que enfim a responsabilidade retorna à pessoa, viva ou morra assim, queira ou não, e por todos os parâmetros consideráveis.
Muito bem, a continuar desse princípio, uni-se o logicismo formal ao empirismo inglês e à analítica da linguagem. E para tanto usa-se o trabalho matemático do pesquisador russo Georg Cantor.
Vamos devagar agora na exposição.
A análise matemática de Cantor abrevia explanações que nos levariam a discussões duvidosas e distantes; em Filosofia Clínica ela serve de síntese a questões práticas que precisamos entender em teoria.
Tudo em clínica é a resultante da qualidade da Interseção entre o filósofo e a pessoa. Isso é facilmente representado assim:
Havendo interseção importa o caráter da mesma!
Basicamente, há quatro tipos de qualidade de interseção:
a . Interseção Positiva: aquela que é subjetivamente boa, no sentido de bem-estar, entre ambos.
+
b. Interseção Negativa: aquela que é subjetivamente ruim, no sentido de mal-estar, a ambos.
-c. Interseção Confusa: As pessoas envolvidas não sabem determinar propriamente o que estão vivenciando.
~
d. Interseção Indefinida : aquela que oscila com freqüência suficiente a tal modo que não se pode entendê-la como nenhuma das anteriores.
i
Tudo o mais está na dependência direta à interseção.
Você pode dominar perfeitamente os submodos, os tópicos da Estrutura de Pensamento da pessoa, Autogenia e ainda mais - e tudo isso de nada servirá se a qualidade de interseção for ruim à atividade clínica. Quando me referir à boa qualidade de interseção estarei me referindo à empatia, sintonia, harmonia, amizade, interesse mútuo em proveito de uma causa, basicamente. É suficiente saber que toda a interseção deste mundo sem direcionamento clínico também conduz a muito pouco.
O logicismo formal é o início imediato de nossa clínica.
Como nada sei a respeito da pessoa que me procura, sem contar os pré-juízos (ufa!), preciso estabelecer critérios a esse conhecimento.
Primeiro, não quero conhecer a pessoa a ponto de responder as questões últimas como o escopo da existência, dicotomias como vida e morte, inferências cosmológicas ou teocêntricas, nada disso. Isso até pode ocorrer, mas o objetivo aqui é muito outro: o objetivo da clínica filosófica é, tanto quanto possível, reconhecer e entender as interseções (choques) entre os tópicos da Estrutura de Pensamento, e em seguida utilizar os submodos para tentar trabalhar essas interseções tópicas.
Trabalhar no sentido de resolver, aplacar, abrandar, dissolver, absorver, expurgar etc ??!
A priori, não sei.
A resposta vai depender do que for obtido da pesquisa que o filósofo clínico e a pessoa conseguirem em seu trabalho mútuo.
Na Matemática Simbólica, última parte da Filosofia Clínica, esse objetivo é ampliado (veremos isso em outro lugar).
Como usamos o logicismo formal em clínica?
Nós recolhemos todos os dados disponíveis da pessoa em quatro ou cinco consultas. Esta colheita segue os critérios:
a. Considera-se somente os dados literais.
b. Não são permitidos saltos temporais e saltos lógicos. c. O filósofo se limita a “agendamentos mínimos”.
A explicação é simples: o filósofo quer apenas documentar a história da pessoa contada por ela mesma ; ele reserva sua participação, nesta parte inicial, a um “agendamento mínimo” no qual apenas solicita à pessoa a continuação de sua narrativa. Não são permitidos saltos temporais nem lógicos pela simples razão de se ter um relato compreendido, inteiro, tão completo e ordenado quanto for isso possível.
Se o filósofo conseguir tal feito, a primeira seqüência de seu trabalho pode ser considerada satisfatória.
Em seguida, ele usará processos divisórios com o objetivo de pesquisar demoradamente segmentos relevantes do histórico.
Como o filósofo saberá quais os segmentos relevantes, se a mensuração inicial que fez se baseou em um logicismo formal cujo conteúdo pode ser exatamente falso?
Bem, primeiro a exatidão do conteúdo:
a. De um modo geral, forma e conteúdo têm estreita relação estabelecida de modo consensual. Assim, quando uma pessoa disser “água”, ela provavelmente não estará dizendo pedra, flor ou madeira. Ainda assim, há critérios como contexto (que aparecem nos exames categoriais) que nos dão uma garantia inicial considerável.
b. Como o filósofo clínico está interessado na Estrutura de Pensamento, o somatório de forma e conteúdo entre outros, torna-se mais breve e igualmente mais fundo o início pela forma (o molde que sustenta o corpo, o conteúdo); do contrário, diante de qualquer informação o filósofo sairia à cata epistemológica do termo - principiando um processo penoso e quase que certamente interminável.
c. No princípio, logo às primeiras consultas, uma descrição da forma da questão parece bastar ao filósofo. Parece bastar.
d. Não há como pesquisar o conteúdo sem antes termos a forma. Exemplo: como pesquisar o conceito de flor sem que antes a pessoa profira, direta ou indiretamente, o termo flor? Na verdade, pode, mas a comunicação feita por nomenclatura irá por terra.
Agora, como saber os termos relevantes nessa abordagem inicial? Simples:
a. Partes aparentemente contraditórias.
b. Segmentos frágeis do ponto de vista narrativo. c. Saltos temporais.
d. Indicações problemáticas a partir do Assunto Imediato ou dos exames categoriais.
Evidentemente que a pesquisa pode colocar esses quatro itens por terra logo em seguida quando associarmos o empirismo inglês e a analítica da linguagem ao trabalho.
Bem, associamos o empirismo e a analítica da linguagem ao processo divisório que fazemos logo imediatamente após a colheita do histórico por várias razões:
a. Para saber a correspondência entre forma e conteúdo (termo e conceito). Ou seja, quando a pessoa me diz “água pura” quero entender o que se passa conceitualmente à malha intelectiva dela: a pessoa viu rolar água puras de cachoeira, sentiu a língua tocar um cubo de gelo, lembrou de um poema sobre água pura ?
b. Quero, talvez, conforme o caso, outras informações: associações fundas entre os conceitos, vivências, o uso específico e contextual do conceito, dados epistemológicos, éticos, emocionais etc etc etc...
O positivismo lógico de Karl Popper e os pré-juízos de Gadamer entram aqui como uma funda advertência ao filósofo, no sentido do limite de nosso conhecimento, suas limitações, as noções agarradas umas às outras, cracas, que servem ao que vem depois. Um duro golpe a velhas ambições filosóficas de ter o mundo à palma da mão.
Acredito que somente isso bastaria a uma excelente clínica. Mas a filosofia é exigente com seus filósofos.
E, assim, coloquei uma segunda grande parte que denominei Esteticidade.
Ela engloba coisas como o gosto, a intuição, a arte, mecanismos instantâneos da malha intelectiva, intencionalidade e dados extraordinários. Aqui consideramos a fundo os aspectos da Somaticidade.
Por último, a Matemática Simbólica. O marco final e vital de toda a Filosofia Clínica.
A fundamentação teórica sobre a Esteticidade e a Matemática Simbólica virá encartada nos próximos Cadernos.
#12
Métodos da Filosofia Clínica
Na colheita das categorias aristotélico-Kantianas, cujo objetivo é localizar existencialmente a pessoa (questões imediatas e remotas, situações atuais e em cada momento de vida, histórico, sensações, temporalidade e relações com os objetos importantes), o filósofo usa de historicidade, fenomenologia, empirismo e analítica da linguagem, essencialmente. Paulo Rodrigues e Nereu Haag, filósofos clínicos, lembram ainda um uso reiterado de noções cartesianas.
É correto.
Acho que incrustados aos métodos mencionados, há muito de Bacon, muito de cientificismo e de indução, há experimentalismo também, entre alguns outros.
Minha intenção aqui não é defender o uso ou minha escolha deste ou daquele método, estou apenas apontando quais utilizei na estruturação do logicismo formal em Filosofia Clínica. Em tal caso, preciso admitir que a fundamentação de meu trabalho levou-me a esses métodos e nunca o contrário, até encontrar certas agruras que essa teimosia me causou. Apesar de pequenos embates entre fundamentação e método, no início de meu trabalho, cito os que viveram ao confronto. Conforme já afirmei aos meus alunos, descartei - não sem dor - tudo o que não teve aplicação prática.
Como ilustração, consideremos o uso modificado que realizei a propósito da metodologia mencionada:
Historicidade:
a. Interpretação de fatos, conceitos, eventos na vida pessoal e suas implicações atuais e futuras (profilaxia) correlatas.
Fenomenologia; distante de Husserl, mas devida ao mestre: a. Investigação do que aparece.
b. Divisões sucessivas em busca do dado de intencionalidade (John Searle). Empírico e Analítico de Linguagem:
a. Pesquisar as relações entre conceito e termo. b. Ater-se à experiência.
Na Esteticidade e na Matemática Simbólica outros métodos uniram-se a esses, conforme estudaremos nos próximos Cadernos.
Bibliografia
O que é básico consta no currículo acadêmico, nos quatro anos do curso de graduação em filosofia que as faculdades lecionam.
Como os alunos de São Paulo e Salvador têm pedido, segue agora uma pequena biblioteca de grande valor. Confira...
Sobre Protágoras e seus afins temos The Sophists, de Harold Barrett; e também Great Sophists in Periclean Athens, de J. DeRomilly. Socrates, de E. A. Taylor, é providencial. De Platão, A República e os Diálogos. Depois, os escritos de lógica de Aristóteles. Para quem gostar e entender e quiser maiores profundidades, os três volumes de Principia Mathematica de Bertrand Russell e de Alfred North Whitehead. Como complemento, o trabalho de J.W. Dauben chamado Georg Cantor: His Mathematics and Philosophy at the Infinite, e o livro de Robert L. Vaughan chamado Set Theory.
Schopenhauer com The World as Will and Representation fica por conta da boa vontade de cada um.
John Locke e George Berkeley podem ser diretamente estudados em David Hume: A Treatise of Human Nature e Philosophical Essays Concerning Human
Understanding.
Em seguida, Crítica da Razão Pura, de Kant, e desta vez sem timidez. Chega um dia na vida em que Kant precisa ser lido e pronto.
Então há uma série de boas pesquisas filosóficas, já na área da analítica da linguagem.
O ensaio de Isaiah Berlin chamado Essays on J.L.Austin é maravilhoso. Vale a pena e vale o descanso. Há também um trabalho inicial de John Wisdom, Logical
Constructions, para ser lido no inverno. É claro que o Tractatus e Philosophical Investigations do nosso mestre Wittgenstein nem preciso falar porque é simplesmente
obrigatório; leitura de cabeceira. E se você quiser emendar The Analysis of Mind e The Analysis of Matter de Bertrand Russell, vá firme!
Uma síntese importante entre os primeiros trabalhos de Saussure e Roman Jakobson pode ser apreciada através dos textos de Claude Levi-Strauss; depois, Roland Barthes. Nesse mesmo caminho, Gilles Deleuze, Jacques Derrida e Michel Foucault.
Entre os norte americanos quero destacar um importante trabalho de Leonard Bloomfield, de 1933: Language. Além disso há o escrito publicado em 1957 de Noam
Chomsky chamado Syntactic Structures.
Há ainda pequenos escritos de apoio como Interpretation Theory: discourse and the surplus of meaning, de Paul Ricoeur; Minds, Brains and Science, de John Searle; On Photography, de Susan Sontag; Sobre Espelhos, de Umberto Eco;
qualquer coisa de Aldous Huxley; Verdade e Método, de Hans Gadamer; Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas Kuhn; A Derrota do Pensamento, de A. Finkielkraut ; um pequeno e delicioso livro do antropólogo Edward T. Hall, publicado em 1959, chamado The Silent Language; o mastodôntico A Montanha Mágica, de Thomas Mann;
Introduction to Logical Theory, de Peter Frederick Strawson (que alguns anos depois pesquisou fortemente o dilema corpo-mente, e as relações entre sujeito e predicado); How to Do Things with Words, de John Langshaw Austin; The Concept of Mind e também Dilemmas, de Gilbert Ryle. Esses escritos servem de base para uma
melhor compreensão da explicação que agora segue sobre a pesquisa do termo e do conceito. Meu trabalho, neste ponto, foi muito beneficiado por esses filósofos
Os últimos filmes de Woody Allen, Ingmar Bergman, Fellini (Amarccord), ajudam. Pat Metheny , Keith Jarrett e Egberto Gismonti, na música. Rodin, como aperitivo à Bienal que estudaremos à Esteticidade. Paul Klee, Escher, Canalletto, em desenho e pintura. O teatro de Gerald Thomas, se possível. E, claro, Internet para todos.
É o suficiente para que você passe com segurança da primeira à segunda parte da Filosofia Clínica; do logicismo formal aliado ao empirismo e à analítica da linguagem, primeira parte, à Esteticidade aliada à Somaticidade, segunda parte. Além disso, sugiro que você siga anotando as obras e os autores que são citados em cada um de nossos Cadernos.
#14
Quanto à ordenação de conteúdos para a formação do filósofo clínico, podemos aventar o que segue:
a. O mundo como representação. b. Aspectos da lógica formal. c. “do empirismo.
d. “da analítica de linguagem. e. Estudo das categorias.
f. “da EP.
g. “dos submodos. h. Esteticidade. i. Somaticidade.
j. Aspectos médico-psiquiátricos. k. Pré-estágio e estágio clínico.
l. Matemática Simbólica.
#15
Exames Categoriais - Aspectos Gerais
Explorando as cinco categorias (Assunto, Circunstância, Lugar, Tempo e Relação), o filósofo forma um conceito bem estruturado do mundo da outra pessoa:
Muito bem, como o clínico trabalhará com tais estruturações informais do intelecto? Qual a ordenação inicial, a classificação?
Usamos uma derivação do modelo metafísico aristotélico do ser apresentado nas categorias e então os predicamentos conseqüentes em sua lógica formal. A aplicação em clínica exigiu modificações fundas que acabaram por transformar a forma do entendimento do grande mestre estagirita.
”Packter — Bom, a importância clínica das citações dos fragmentos de Protágoras é notória. Primeiro, o filósofo sabe muito pouco à respeito da pessoa que procura por seus serviços, pois ela traz uma vivência da qual nada sei.
Mas o que sabemos então?
Ora, temos um amontoado de pré-juízos (Gadamer) mais ou menos ordenados: (a) Esta é uma pessoa; (b) Ela está aqui com algum propósito; (c) Tem a pele rosada; (d) Veste-se e se expressa de um modo simples... E assim por diante.
Estes pré-juízos (Gadamer) são o princípio da clínica, tanto para o filósofo quanto para a pessoa. Também por isso podem ser muitas vezes o fim...afinal, quem pode saber até o ponto em que não são os pré-juízos um impedimento à interseção?!
Ponha muita atenção em uma coisa: a priori o filósofo conhece um mínimo sobre a pessoa e esse mínimo é apenas um modo de iniciar a terapia.
A pessoa que está diante de você e que você pela primeira vez tem um contato, pode ter uma vida pobre emocionalmente e riquíssima do ponto de vista ético, ou uma vida vazia de espiritualidade e repleta até o bordo de um entendimento mecanicista sobre as coisas; pode ainda ter uma vida espiritualmente mecanicista ou qualquer outra coisa.
Sabe a quantas somam as possibilidades?
Pelo que imagino, não são menores que todos os grãos de areia da praia levados ao cubo!
É fundamental você entender que as pessoas são realmente diferentes, de uma vez por todas. Isso não tem nada a ver com o discurso hipócrita que apregoa as diferenças para depois tratar todo o mundo como igual.
Ouça bem: mesmo as pessoas mais iguais são profundamente diferentes entre si mesmas.
Então é muito indicado que em resposta às perguntas que iniciam a clínica se use o ‘não sei; vamos trabalhar e procurar saber, precisamos averiguar, estamos pesquisando, por enquanto é cedo para afirmar isso, não temos dados mais
conclusivos sobre o que se passa etc e tal’.
Há quem goste de responder com sabedoria ao que não conhece usando obscurantismos hermenêuticos de grandes profundidades de insânia e atrevimento. Acho que casos assim são mais indicados a médicos, policiais ou bombeiros. Um filósofo que tenha intimidade com gente como Hegel sabe do que estou falando...
Pois então, a lição aqui é que sabemos pouco de início e se não tivermos cuidados e critérios corremos o perigo de, à medida que a clínica avança, sabermos menos ainda.
Não tenho o menor interesse no ranger de dentes entre escolas racionalistas e empiristas, céticas ou analíticas, a não ser que tenha uma implicação -o que às vezes p-ode ac-ontecer.
Quanto a isso, já que o movimento clínico é de relação entre o sujeito e o objeto (filósofo & pessoa: pessoa & filósofo), preocupo-me com a qualidade desta relação, que chamo de interseção (Cantor) como determinante de todo o processo em Filosofia Clínica.
Não sei se é o filósofo, a pessoa, o ambiente que os cerca, a história de um ou de outro ou da sociedade quem determinará a clínica, mas sei com certeza que a resultante disso liga-se diretamente à qualidade de relação entre ambos: a interseção (Cantor).
Em alguns casos, será essencial o atuar do filósofo, a tal ponto que se dirá ser ele o elemento de equação em clínica. Outras vezes não.
Preste toda a atenção no uso que dou aos ensinamentos do empirismo inglês após os fragmentos de Protágoras e Schopenhauer.
O que quero dizer com isso?
É simples: amamente dez crianças de um modo igual, dê a elas dez mil experiências iguais - sob qualquer enfoque que você possa imaginar - cuide ainda para que tenham exatamente as mesmas experiências durante muitos anos...e mesmo
assim, caso tal coisa seja possível, cada uma dessas crianças terá uma leitura singular do mundo!
Ou seja, cada um de nós vivencia à sua maneira o barro e o ar deste mundo, o que é lindo ou feio a um pode ser feio ou mais lindo ainda a outro. Igual, bem igualzinho, isso eu sei que não será de jeito nenhum, fora algum caso aqui e ali que servem exatamente para confirmar o que estou afirmando.
Por que é assim?
Por muitas razões, algumas determinantes e outras apenas insignificantes: do clima à comida, cada pessoa em cada circunstância encontrará coisas que lhe serão importantes ou não. O filósofo pesquisará junto à pessoa, se quiser entender mais sobre isso.
Diante do contexto no centro da Europa, após imediatamente a duas guerras que deitaram chão afora valores, termos, dados epistemológicos etc
construídos por centenas de anos, gente morta em restos de prédios históricos e outros horrores, bem... algumas pessoas lidaram com isso enlouquecendo, outras construíram
teorias mais ou menos explicativas como o existencialismo, outras usaram da música, da ecologia, da política, da psicanálise do corpo ou dos movimentos da alma...enfim. Como catalogar a plasticidade desta criatura humana?
Se você, por vivências que teve até aqui, explica o mundo por um movimento de transmigração das almas, por algum epifenômeno da corporeidade (Comte), se vive conforme alguma teoria hedonista, marxista, filatélica...por maluca e confusa que ela possa me parecer, acho que foi a sua maneira de entender e viver neste mundão de meu Deus...!No meu modo de entender as coisas, serei eu o mais maluco de todos se quiser pretender ter a verdade das coisas por você.
O mais que tenho é a minha verdade das coisas, a minha verdade para eu mesmo, e acho ainda que muitas vezes nem isso é possível.
Mas esse discurso bonitinho, tão agradável¸ hein?, em clínica nem sempre se reitera. Às vezes o filósofo se assenhora da verdade e a empresta ou determina à pessoa que, de acordo com suas disponibilidades internas, fará uma aquisição não raro fundamental ao seu modo de ser no mundo.
Outras vezes o filósofo é quem estará em tal situação.
Note bem uma coisa: cada vez mais enquanto aprofundamos os nossos estudos, você vai sendo convidado, mais e mais, a viver de fato e de direito a filosofia...de um modo que apenas vagamente lembra o discurso acadêmico, ou o faz-de-conta onde o professor finge que ensina e o aluno finge que aprende.
Acompanhe algumas razões disso.
Nós estudamos no Caderno A que a partir das experiências a pessoa vai elaborando idéias (conceitos, imagens ou verbos mentais). Ao sentir o aroma que se desprende dos cabelos de minha mulher (um dado sensorial) eu o arquivo em meu organismo em forma de conceito. Este conceito passa a interagir com outros e outros e outros. Deste modo, formo idéias complexas!
Hume, Locke, Berkeley, Bertrand Russell são os estudiosos que consideramos.
Locke, Kant e depois Wittgenstein vão longe em suas explanações. Eles nos contam e nos advertem sobre os limites da razão (na acepção Kantiana), das lonjuras com que as idéias (em Locke) podem ir em correlações entre si mesmas que nada garantem além de graves perigos existenciais, a ponto de causar no organismo movimentos existenciais, violentos como angústias, depressões e ansiedades arrebatadoras (como mencionam Hume e Berkeley). Por fim, ainda, Wittgenstein, que nos previne das complexidades dos jogos de linguagem que têm a infeliz capacidade de nos enredar em terríveis dilemas.
Como isso se traduz em clínica, na prática?
Um exemplo é o da pessoa que acredita que pode encontrar a paz e a felicidade através de um modelo religioso ou ético ou social, e que quanto mais se
embrenha e enraíza em suas considerações e vivências mais se torna o oposto do que tinha como meta ou destino por alcançar.
Uma razão para isso é que a pessoa pode ter abandonado o chão seguro das vivências mais próximas ao sensorial e talvez tenha se aventurado em direção às Idéias Complexas (Locke) mais longínquas, em derivações de derivações de pensamentos, em raciocínios contraditórios entre si mesmos e tão avessos à realidade
empírica quanto são distantes as estrelas da terra onde tocam nossos pés. Sem dúvida, um caminho infeliz para o qual muitas vezes não existe retorno.
Outras vezes, e agora me atrevo a dizer que são muitas e até a maioria dos casos, acontece que a pessoa aprendeu a se guiar por parâmetros que estão corretos, ordenados e bem estruturados sob o ponto de vista do logicismo formal.
Por exemplo: a moça tem um modelo de retidão moral e existencial que segue com prazer e que lhe dá uma boa vida (!). Até que encontra um rapaz por quem se apaixona e que afronta sua concepção tão bem estruturada. Ela entra em conflitos, pois ama o rapaz e quer viver com ele, mas é casada, tem filhos, e tal possibilidade se choca contra as idéias complexas que lhe posicionam existencialmente na vida. Por sua lógica formal interna ela acredita que pode ser feliz seguindo seu modelo moral contra o amor que chegou à revelia em sua vida, mas nada se resolve assim no caso dela. A moça começa então a viver um inferno pessoal que a confunde, uma vez que para ela nada mais está fazendo sentido.
Ou seja: às vezes ordenamos os conceitos de modo correto do ponto de vista logicista formal aristotélico Kantiano em nossas vidas...
O homem ético é feliz na maturidade
Eu sou um homem ético e estou na maturidade
Portanto eu sou um homem feliz.
Note que logicamente está correto, só que isso pode se chocar duramente contra a realidade do dia-a-dia, quando não é nada certo que um homem ético será feliz na maturidade. Só que a pessoa que se estruturou assim pode ter baseado, involuntariamente, de modo cabal, toda a própria vida neste processo. Ela pode tê-lo como um dogma de fé, sua prova de humanidade diante da vida.
Ora, imagine você o que acontece quando isso não se verifica do modo como era profetizado nela por ela mesma...!
O choque pode assumir uma importância tal que impeça a pessoa do exercício de sua existência, o que talvez cause de acidentes psicóticos, a episódios suicidas ou sabe-se lá o que mais.
Em outras ocasiões pode haver uma bagunça conceitual tal na malha intelectiva da pessoa que ela simplesmente não tem como manifestar de modo coerente ao filósofo o que se passa com ela.
E ainda há muitas outras causas para o fato de nem sempre se poder começar de um Assunto Imediato claramente definível. Não se preocupe com isso. Esta e questões mais urgentes serão consideradas com demora quando for oportuno ao nosso estudo.
Primeiro, o filósofo pedirá à pessoa para que ela reporte do modo como julgar mais adequado (veremos isso mais tarde nos dados de Semiose) um relato superficial, panorâmico de sua existência até aqui.
Pelo que venho acompanhando os filósofos clínicos em formação em meu Instituto, noto que inicialmente há dificuldades naturais que quero explicar aqui, ao
menos as principais.
Como compendiar os dados colhidos entre as cinco categorias?
Bem, de início a colheita e distribuição dos termos que a pessoa expressa são sempre apreendidos no sentido literal! Isso é fundamental!
Quando a pessoa dizer: “eu amo esta gatinha” - isso será arquivado inicialmente pelo filósofo como “eu amo esta gatinha”, e não, nunca mesmo, “eu
gosto, tenho carinho, eu me afino etc”, simplesmente porque não foi isso o que a pessoa expressou, ainda que por “amor” ela quisesse na verdade dizer “carinho”.
Durante todo o logicismo formal, a primeira parte da Filosofia Clínica, essa norma será freqüente (na Esteticidade e na Matemática Simbólica teremos opções, como a Epistemologia, para ir além do formalismo).
Compendiar, ordenar clinicamente os dados é algo fácil e simples de ser feito, mas especialmente dá ao filósofo uma compreensão íntima do modo de estar no mundo da pessoa; sempre condicionado à qualidade das interseções.
0..1..2...3..4..5...6..7..8..9..10..11...12..13...14....15...16...17...18...19...20....21.
Assunto Imediato e Último Circunstância
Lugar Tempo Relação
Pois bem, ao considerar o que apurou das categorias de um jovem de 21 anos, com atenção ao quinto ano, e depois dando atenção ao décimo sexto ano, o filósofo conhecerá a situação existencial, como o rapaz vivenciava a si mesmo, sua época, os costume, sua sociedade; enfim, quando as cinco categorias são unificadas temos uma localização existencial da pessoa!
O filósofo constatará que essas condições se modificaram em muitas coisas importantes do quinto ano em relação ao décimo sexto, e que outras tantas permaneceram como que congeladas.
Notará que os fatores responsáveis por isso vão ao infinito: vivências amorosas, sofrimentos, dados teóricos, mudança de cidade, novos hábitos, interferências educacionais ou políticas, aproximação de religiões, quebra de vínculos de amizade, novos elos de carinho etc...
Os termos que me correm para o que o filósofo experiência diante do trabalho que realizou até aqui... entendimento, sabedoria das variações existenciais da pessoa (que muitas vezes ele desconhece por ser assim que elas se mostram...), harmonia, coerência, segurança das contingências da atividade clínica.
Acho que se você está lendo isso e ainda não vivenciou o que está sendo detalhado, bem, neste caso, não acredito que minhas palavras encontrem receptividade em você que encontram em um filósofo clínico experiente. Mas, de qualquer modo, servirão para quando você estiver trabalhando.
Nesta parte dos trabalhos clínicos, ao ter bem avançados os exames categoriais, o filósofo então continua aperfeiçoando sua atividade através agora da elaboração da Estrutura de Pensamento da pessoa.
#16
O que é a Estrutura de Pensamento?
É o modo como a pessoa está existencialmente no ambiente.
Note que a pessoa é anterior à Estrutura de Pensamento, pois é somente através dela que tal Estrutura tem possibilidade de existir.
Quando o filósofo clínico considerar o outro ser que o procura, ele terá diante de si mesmo a pessoa ou Estrutura de Pensamento?
Se você quer saber o que eu acho basta reler as linhas acima.
Agora, já percebi que não há aqui, como em quase tudo o mais, um dado consensual: alguns filósofos certamente considerarão a pessoa como sendo apenas uma Estrutura de Pensamento, outros saberão distanciar uma da outra; sem contar aqueles que entenderão tudo, Pessoa & EP, como um todo. Em suma, entenda como quiser.
Elaborar a Estrutura de Pensamento da pessoa exige cuidados e critérios que passo a explicar a seguir.
Bem, você sabe que a pessoa pode estar em um mau dia, daqueles em que tudo parece dar errado, e eu pergunto então se ao fazer todos os exames categoriais e em seguida, com base neles, elaboramos a Estrutura de Pensamento da pessoa, será que não teremos em resposta apenas a Estrutura de Pensamento que a pessoa tem naquele dia, e apenas naquele dia? O que você acha?
Como já estudamos em aula, a Estrutura da pessoa não é algo fixo e imóvel como a estrutura de ferro e concreto de uma casa.
Na pessoa, a Estrutura é móvel, plástica, poética como as cores de um caleidoscópio; a cada instante vão se processando milhares de modificações à malha intelectiva da pessoa! Neste momento exato enquanto você acompanha este escrito essas e outras milhares de interseções ocorrem em você: algumas amistosas, suaves, calmas e outras nem tanto. Acompanhar a todas é algo que não se pode conceber clinicamente.
Ao filósofo importa pesquisar o que de importante está acontecendo nessas milhares de interseções.
Às vezes é o somatório delas o que é urgente a considerar, ou algumas em relação a outras, ou ainda uma confusão ou simplesmente nada há que pareça ter valor clínico...!
E então, o que fazer?
Considere primeiro a plasticidade deste processo.
É evidente que quem nos procura para a clínica vem se enfrentando em uma situação qualquer que é necessariamente circunstancial e que, de um jeito ou de outro qualquer, tem sua vida útil. Estou falando da questão a ser trabalhada em clínica.
Mas isso, por si somente ainda é pouco para uma resposta mais ampla; a resposta de fato, é que o filósofo precisa ir tão próximo quanto possível daquilo que é urgente, emergencial, fundamental e determinante na vivência da pessoa - e aí, via interseção, trabalhar no que é realmente essencial.
Por que fazer uma clínica para coisas que não terão conseqüências maiores na vida da pessoa?
Procure ser íntimo das questões fundamentais.
Você logo vai constatar que elas se apresentam com evidência na Estrutura de Pensamento da pessoa de maneiras desde simples até complexas. Por exemplo:
a. Choques diretos entre tópicos estruturais. b. Choques indiretos.
c. Associações caóticas entre tópicos.
d. Problemas na própria Estrutura e não na interseção entre os tópicos. e. Problemas na interseção entre Estruturas e não entre os tópicos.
g. Vivência contraproducente de tópicos em situações críticas.
... e podemos estender esta lista ainda por dezenas de páginas, tantos são os casos!
Também há reflexões pertinentes mais além dessas.
Por exemplo: dois filósofos que tenham interseção clínica com a mesma pessoa, em momentos distintos, com o objetivo de comparação da Estrutura de Pensamento que ambos elaboraram, vão obter a mesma Estrutura de Pensamento?
É evidente que não!
Eles constatarão uma semelhança íntima e poderão verificar que o que consideram determinante na malha intelectiva da pessoa de fato encontra eco em seus trabalhos.
Essa aparente estranha coincidência nada tem de estranha... Filósofo Clínico A em interseção com a pessoa Z
Filósofo Clínico B em interseção com a pessoa Z
Se os critérios clínicos que normatizam essas interseções são os mesmos para A e B, é natural que haja correspondência e semelhança quanto aos que é mensurado. Isso indica método, organização e sistematização de nossa clínica.
Por que então algumas vezes temos resultados tão distantes quanto a interpretação final que cada filósofo presta quanto a uma mesma Estrutura de Pensamento?
Por questões epistemológicas (como cada filósofo conhece e se dá a conhecer), éticas, axiológicas etc. Nos próximos Cadernos isso ficará notório. Estudaremos também um tópico estrutural chamado Princípios de Verdade que explana essa questão.
Por agora, fique com a consideração de que embora a linguagem seja a mesma, o uso que cada filósofo faz dela é toda a diferença entre as coisas, e que cada um vivencia as coisas à sua maneira.
Mais ainda: muitas vezes pode se estabelecer uma interseção difícil, qualitativamente péssima, entre o filósofo e a pessoa que assim impede a atividade clínica. Por que não? Por acaso prometi alguma mágica a você que promova curas miraculosas?
Pode estar certo de que mais de uma vez você não conseguirá estabelecer interseção amistosa junto à pessoa e então não haverá clínica, simplesmente porque as coisas às vezes são assim mesmo.
Acho oportuno também pedir a você que procure encontrar um equilíbrio existencial que não se alvoroce diante de qualquer chuvinha mais forte. É importante estar sereno diante da interseção clínica, ter paz para trabalhar e para coletar ordenadamente, com método, os dados categoriais que mais tarde darão forma à Estrutura de Pensamento
Você encontrará quase de tudo, de pessoas que trabalharão com você por poucas consultas, gente que irá sumir logo após o primeiro encontro e gente que ficará
até bem depois do uso dos submodos; com você estarão pessoas com quem haverá identificação aprazível, caminhadas existenciais belas, pródigas ou nenhuma caminhada.
Sabe você o que leva uma pessoa a procurar terapia?
Ela pode estar indo contra a vontade, ou à procura de amor, ou querendo se conhecer porque acredita que isso é realmente possível, pode apenas ter tempo,
dinheiro e uma vida que lhe é fútil e quer ocupar todo esse imenso nada enchendo de tédio a vida do terapeuta; há gente que tem uma questão bem definida e sabe exatamente o motivo de estar em clínica, mesmo que mais tarde tenha a surpresa de descobrir que não era nada daquilo...; portanto, procure estudar bem a criatura que está em interseção com você, antes de sair pregando enormes e prováveis bobagens. Curioso é que há terapeuta que precisa de muito estudo para dizer essas mesmas bobagens...
Acho divertido verificar como há postulados sérios, ameaças veladas, silêncios fundos e grandes perigos que se anunciam em tantas escolas terapêuticas quando se
trata da terapia da pessoa. Estou falando em termos gerais e não universais, ok? Acho muito simples e me agrada muito o trabalho em Filosofia Clínica.
Basta ter os cuidados éticos e saber empregar os procedimentos preconizados que toda a atividade se torna linda, fácil e agradável. Agora, é evidente que isso é assim para mim. Não posso afirmar que meus alunos terão a mesma experiência que tive e tenho.
Somente consigo entender a terapia desta maneira.
As perguntas que um aprendiz em Filosofia Clínica comumente faz, pelo que tenho notado, se respondem na maioria dos casos com o próprio trabalho clínico: quanto tempo dura a terapia; como lidar quando a pessoa parece que vai explodir; o que fazer em casos inesperados; quando e como terminar os trabalhos em clínica; quanto cobrar; quanto tempo pode ter uma consulta; como lidar com os familiares da pessoa; o que dizer quando não se pode falar o que se pensa; o que anotar como relevante e como irrelevante; quais os efeitos próximos e distantes de um erro grave em clínica; até onde ir existencialmente com a pessoa; ser amigo e profissional junto à pessoa ou ser somente profissional ; quais os limites da relação filósofo & pessoa; quem deve ou pode dirigir o processo; como delimitar os objetivos; como funciona a relação interdisciplinar (o atendimento simultâneo filosófico e psiquiátrico); até onde se pode ou se deve interferir na vida da pessoa; quando se sabe que a terapia está tendo resultados efetivos; como confrontar pessoas e fatos; quando procurar assessoria jurídica; quais os fatores aleatórios que podem agravar ou condicionar um tratamento clínico; o trato com pessoas encarceradas, doentes terminais, com crianças e com pessoa idosas; a interseção junto à casais; a interseção junto à famílias; o que fazer diante de interseções ruins, dolorosas, aflitivas etc; um tratado em oito volumes ainda não responderia a metade dessas questões, simplesmente porque elas necessitam da prática! A maioria se resolve facilmente na prática clínica.
Vamos então adiante.
Nós já sabemos quais as condições para que um filósofo exerça a clínica; estou me referindo aos aspectos legais da questão e não ao alcance existencial - que vai muito além.
O filósofo, segundo a constituição brasileira, não tem habilitação legal para tratar algumas questões psiquiátricas que preconizam internamento, interdição dos direitos de liberdade social da pessoa, intervenções medicamentosas, e muitos dos processos descritos no DSM - IV.
Exatamente por isso é que os exames categoriais e a posterior montagem da Estrutura de Pensamento são mais uma vez essenciais!
Ao ter precisadas as cinco categorias, duvido que um filósofo clínico atento deixe passar em esquecimento àquelas questões. Duvido sim. Quando sistematizei a
Filosofia Clínica tive todos os cuidados que me ocorreram nesse sentido. Ocupei-me muito com meus estudos para que meus alunos tivessem a segurança que no início eu não tive.
Então, deixe-me listar aqui, tendo em consideração somente o pouco que estudamos nestes dois primeiros Cadernos A e B, onde provavelmente você identificará as questões médicas psiquiátricas com as quais o filósofo não pode lidar legalmente (sob pena de incorrer em exercício ilegal de profissão e falsidade ideológica):
— Exame físico (apresentação geral da pessoa). Modo de gesticular; roupas; meios de expressão. Tudo isso durante a colheita da categoria Assunto Imediato.
— Histórico. Na categoria Circunstância, quando você e a pessoa estiverem elaborando ordenadamente o histórico, aparecerão sinais característicos do que em psiquiatria se denomina psicose, desvios esquizóides etc. Lembre aqui que teremos um
Caderno especial contendo informações que nos ajudarão a detectar tais variações. — Ao apurar os dados da categoria Lugar, que é como a pessoa está sensorialmente em cada endereço existencial, os referenciais do corpo que indicam situações de risco como esquizofrenias precoces logo se farão anunciar.
— Na categoria Tempo, confusões temporais, contradições e elaborações desestruturadas logo se prenunciam.
— Por último, na categoria Relação tudo se torna ainda mais evidente.
Ao ter como a pessoa se relaciona consigo mesma e com quem está em interseção com ela, praticamente o filósofo tem à disposição os dados que a medicina exige para sua tipologia - algo tão estranho a nós filósofos.
Esteja tranqüilo quanto a isso.
Dificilmente lhe escapará ao entendimento alguém que tenha uma Estrutura de Pensamento organizada de modo “doentio”, segundo os critérios médicos, é evidente...
Mais adiante estudaremos também outras maneiras de averiguação.
Alguns alunos já me perguntaram se é possível a um filósofo clínico trabalhar sem fazer os exames categoriais e a Estrutura de Pensamento.
Legalmente, acho difícil, uma vez que ele não saberá com que tipo de pessoa estará lidando.
Já clinicamente considero isso um atentado ético à pessoa!
Usar os submodos sem ter primeiro a Estrutura da pessoa é contraproducente, é um erro grosseiro que pode lesar a pessoa. Sou intransigente nesta questão; meus alunos sabem que repito e repito a importância dos exames categoriais.
Com a finalidade de exemplificar tornando mais acessíveis os termos, utilizo um texto selecionado de Capitães da Areia, de Jorge Amado.
Jorge Amado conta dos menores abandonados de sua terra , a Bahia, a viver em um antigo armazém. A narrativa realista relata a vida de um bando comandado pelo bondoso e corajoso Pedro Bala; a dificuldade diária para conseguir comida e
dinheiro. A interpretação de Jorge Amado (a medida de todas as coisas) é que as diferenças sociais injustas remetem à marginalização e à criminalidade. Mostra a incompreensão que as classes dominantes têm quando consideram os meninos abandonados à sorte que só possuem a rua como lar..
“Como o vestido dificultava seus movimentos e como ela queria ser totalmente um dos Capitães da Areia, o trocou por umas calças que deram a Barandão numa casa da cidade alta. As calças tinham
ficado enormes para o negrinho, ele então as ofereceu a Dora. Assim mesmo estavam grandes para ela, teve que as cortar nas pernas para que dessem. Amarrou com cordão, seguindo o exemplo de todos, o vestido servia de blusa. Se não fosse a cabeleira loira e os seios nascentes todos a poderiam tomar por um menino, um dos Capitães da Areia.
No dia em que, vestida como um garoto, ela apareceu na frente de Pedro Bala, o menino começou a rir. Chegou a se enrolar no chão de tanto rir. Por fim conseguiu dizer:
— Tu tá gozada...
Ela ficou triste, Pedro Bala parou de rir.
— Não tá direito que vocês me dê de comer todo dia. Agora eu tomo parte no que vocês fizer. O assombro dele não teve limites:
— Tu quer dizer...
Ela o olhava calma, esperando que ele concluísse a frase. — ...que vai andar com a gente pela rua batendo coisas... — Isso mesmo - sua voz estava cheia de resolução. — Tu endoidou...
— Não sei por quê.
— Tu não tá vendo que tu não pode? Que isso não é coisa pra menina. Isso é coisa para homem. — Como coisa que vocês fosse tudo uns homão. É tudo uns menino.
— Mas a gente veste calça, não é saia... — Eu também - mostrou as calças.
De momento ele não encontrou nada que dizer. Olhou para ela pensativo, já não tinha vontade de rir.
Depois de algum tempo falou:
— Se a polícia pegar a gente não tem nada. Mas se pegar tu? — É igual.
— Te metem no orfanato. Tu nem sabe o que é... — Tem nada não. Eu agora vou com vocês.
Ele encolheu os ombros num gesto de quem não tinha nada com aquilo. Havia avisado. Mas ela bem sabia que ele estava preocupado. Por isso ainda disse:
— Tu vai ver como eu vou ser igual a qualquer um...
— Tu já viu uma mulher fazer o que um homem faz? Tu não agüenta um empurrão... — Posso fazer outras coisas.
Pedro Bala se conformou. No fundo gostava da atitude dela, se bem que tivesse medo dos resultados.”
#17
Exames Categoriais - Aspectos Específicos
A primeira categoria denomina-se Assunto, o objeto de que se trata.
Posso afirmar que o Assunto refere-se ao envolvimento ativo da menina Dora no trabalho do grupo de meninos liderados por Pedro Bala. Esse é o Assunto Imediato, o que é próximo, evidente, sintomático.
O Assunto Último o que se relaciona às questões existenciais de Dora de um modo mais abrangente, desde seu histórico até a condição de ser-aí (dasein), é sempre resultante de pesquisa que o clínico faz junto à pessoa, e deve ser determinado pela pessoa, ainda que o clínico tenha suas opiniões a respeito.
Então o Assunto Último no caso de Dora poderia ser a busca de aceitação por parte do grupo; aproximação e demanda de amor em relação à Pedro Bala; sentir-se
útil; desejo de exercitar sua vivência social; engajar-se em seu ambiente harmoniosamente ou ainda várias opções.
A categoria Assunto nos informa rapidamente a questão e o jogo comunicativo em curso.
Jogo comunicativo é apenas uma ampliação dos “jogos lingüisticos” de Wittgenstein. Segundo o filósofo, nós vamos muito além da denominação em linguagem, nós empregamos de inumeráveis formas os sinais, as proposições .
“Imagine a multiplicidade dos jogos de linguagem por meio destes exemplos e outros: Comandar e agir segundo comandos.
Descrever um objeto conforme a aparência ou conforme medidas. Produzir um objeto segundo uma descrição (desenho).
Relatar um acontecimento...
É interessante comparar a multiplicidade das ferramentas da linguagem e seus modos de emprego, a multiplicidade das espécies de palavras e frases com aquilo que os lógicos disseram sobre a estrutura da linguagem.”
Em Investigações Filosóficas, Wittgenstein explana o que de fato nos interessa quando compara os jogos:
“Considere, por exemplo, os jogos de tabuleiro, com seus múltiplos parentescos.
Agora passe para os jogos de cartas... Se passarmos aos jogos de bola, muita coisa comum se conserva, mas muita se perde.
São todos recreativos? Compare o xadrez com o jogo da amarelinha.
Ou há em todos um ganhar e um perder, ou uma concorrência entre jogadores? Pense nas paciências. Nos jogos de bola há um ganhar e um perder; mas se uma criança atira a bola na parede e a apanha outra vez, este traço desapareceu.
Veja papéis que desempenham a habilidade e a sorte... E tal é o resultado desta consideração: vemos uma rede complicada de semelhanças, que se envolvem e se cruzam mutuamente. Semelhanças de conjunto e de pormenor.
Não posso caracterizar melhor essas semelhanças do que com a expressão “semelhanças de Família”... E digo: os “jogos” formam uma família.”
Para Wittgenstein a linguagem é uma soma de jogos de linguagem e o significado de uma palavra está em seu uso.
No nosso caso, quando Dora diz à Pedro Bala:
“Não tá direito que vocês me dê de comer todo dia. Agora eu tomo parte no que vocês fizer.” Dora usa um jogo de linguagem dela e dos meninos de rua. Pelo que houver de semelhante com o meu jogo de linguagem (os elementos do conjunto dela que também tiverem representação no meu conjunto) estabeleceremos a interseção. As nossas “semelhanças de família” nos permitem aumentar a área de interseção do jogo comunicativo em curso.
O jogo comunicativo envolve tudo o que os sentidos e o intelecto estabelecem dentro da interseção. Vai muito além do verbo; envolve intuição, comunicação não-verbal etc.
Como lidamos com isso em clínica inicialmente?
Isso é feito, de início, com os exames categoriais, aristotélicos e kantianos, adaptados à clínica
Quando digo adaptados, quero dizer que os direcionei às necessidades clínicas conforme a pesquisa me ensinava.
Assunto é a primeira categoria.
O filósofo procura saber o que faz a pessoa procurar por seus serviços: o que a trouxe a ele, o que a move em direção à terapia (veio por desejo próprio ou de modo coercitivo, veio, enfim, por quais caminhos?).
A pessoa que vem até nós traz um Assunto Imediato a ser tratado: um casamento que está em ruínas, um amor magoado, um abandono, uma situação existencial incômoda, inadequações sociais que para ela são importantes, medos, conflitos etc. Bom, neste primeiro contato, você cuidará de colher todas as circunstâncias relacionadas ao Assunto Imediato, poderá mesmo fazer chover perguntas sobre a pessoa.
De minha prática em clínica, quero informar a você que com muita freqüência o Assunto Imediato é algo que nos é apresentado meio solto no ar, envolto em confusões, dúvidas e incoerências; quase sempre é apenas a resultante que incomoda de algo maior.
Assim, a sensação de abandono, de medo ou solidão, de aflições, conflitos ou seja lá o que for, quase sempre isso é como a febre...assim como pode ser por si somente, pode ser a resultante de arranjos orgânicos crônicos e até irremediáveis.
O Assunto Imediato é somente um referencial de começo. Pode conter toda a resposta que se procura e pode ter muito pouco a ver com tal resposta.
O Assunto Último, então, é o que verdadeiramente deve ocupar as ocupações de nossa filosofia aplicada à clínica, embora ambos, Assunto Imediato e Assunto Último possam calmamente coincidir. Por que não?
Por analogia, se você vai a um médico com dores abdominais é contraproducente que lhe dê algum analgésico e antitérmico dando o caso por completo. De modo algum ele fará isso! Pode esta colocando a vida da pessoa em perigo.
Da mesma forma, o filósofo clínico pesquisará as variáveis associadas para ter um parecer.
Em clínica, no entanto, encontramos peculiaridades que quero mencionar. Por exemplo, muitas vezes não teremos objetividade em caracterizar o Assunto Imediato ou não saberemos exatamente qual o Assunto Último. Isso pode acontecer. Nem por isso há impedimento ao nosso trabalho, pois pode estar aí a própria questão a
ser trabalhada, ou pode estar implícito no processo que seja esta a condição para a atividade clínica.
Bem, seguindo então.
Mesmo que não haja um Assunto Imediato, o que é raro, em seguida o filósofo deve continuar o estudo que localizará existencialmente a pessoa.
Vocês ouviram bem o que eu disse: um estudo que localizará existencialmente a pessoa.