Revista Eletrônica de Biologia
REB Volume 2 (3): 32 - 46, 2009ISSN 1983-7682 .
__________________________________________________________________ Comunidades de Formigas (Hymenoptera: Formicidae), em Área
Urbana e em Área Rural da cidade de Sorocaba / SP
Ant Communities in Urban and Rural areas of Sorocaba/SP
Agnes Silva Lopes.
Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC-SP, Campus Sorocaba, SP
E-mail: [email protected]
__________________________________________________________________ Resumo
O processo de urbanização acompanhada das atividades humanas tem um impacto notável sobre o meio ambiente natural. Os insetos sociais particularmente as formigas, representam um grupo modelo para estudos sobre impactos das atividades humanas sobre a estrutura e funcionamento de suas comunidades. No Brasil, o processo de urbanização acontece em ritmo acelerado e sem planejamento adequado. Diante destas informações, torna-se importante o inventário das comunidades de formigas dos ecossistemas urbanos. O objetivo geral deste trabalho foi estudar as comunidades de formigas em dois bairros da cidade de Sorocaba / SP Para isso foram realizadas coletas utilizando iscas atrativas, a cada um mês, durante 4 meses. Foram escolhidas aleatoriamente 5 casas e distribuídas 30 iscas em cada uma delas, entre banheiros, cozinhas, áreas de serviço, garagens e jardins. Foram coletados 1.705 formigas, distribuídas em 13 espécies, 13 gêneros e 4 subfamílias, sendo a subfamília Myrmicinae a mais rica (7 espécies), seguida de Formicinae (3 espécies). Espécies tais como Tapinoma melanocephalum, Pheidole sp, Solenopsis sp, Camponotus sp, Paratrechina sp e Wasmania sp, apresentaram maior freqüência e ocorrência no ambiente urbano, já que são típicas desse tipo de ambiente. No ambiente rural houve maior diversidade de espécies, em relação ao ambiente urbano, nota-se também a presença de espécies típicas de ambiente rural como: Atta sp, Crematogaster sp, Acromyrmex sp, Dorymymerx sp, Monomorium sp e Hypoponera sp.
Palavras – chave: Formigas, urbanização, diversidade. Abstract
The process of urbanization followed by human activities has a remarkable impact on the environment. The social insects, particularly the ants, represent a model group for studies on the impacts of human activities on the structure and functioning of its communities. In Brazil, the urbanization process takes place at a speeding pace and without adequate planning. Considering these information, the inventory of the ants communities present in urban ecosystems becomes quite important. The general goal of this work was to study the communities of ants in two neighborhoods of the city of Sorocaba/SP. For that, ants were collected using baits, every month, during a 4-month- period. 5 houses were chosen randomly and baits were distributed in each one of them, among bathrooms, kitchens, sculleries, garages and gardens. 1,705 ants were collected and distributed in 13 different species, 13 types and 4 subfamilies, being Myrmicinae (7 species) the biggest group, followed by Formicinae (3 species). Species such as Tapinoma melanocephalum, Pheidole sp, Solenopsis sp, Camponotus sp, Paratrechina sp and Wasmania sp, presented greater frequency and occurrence in the urban environment, since they are typically found in this type of environment. The rural environment presented a bigger diversity in relation to the urban environment. The presence of typical agricultural environment species as: Atta sp, Crematogaster sp, Acromyrmex sp, Dorymymerx sp, Monomorium sp e Hypoponera sp was also verified.
Key Words: Ants, urbanization, diversity.
1) Introdução
Muitos ecossistemas naturais têm sido, ao longo do tempo, convertidos em fragmentos degradados ou em áreas completamente modificadas pelo homem. A destruição dos hábitats nativos é a causa primária para a extinção da maioria das espécies terrestres (BAILIE & GROOMBRIDGE, 1996), como também está diretamente relacionada à perda da biodiversidade.(FLOREN et al., 2006).
O impacto causado pelo desenvolvimento da população humana pode ser a causa imediata da destruição da maioria dos hábitats (WOJCIK et al., 2002). Segundo Connor et al. (2002), os efeitos da urbanização e das atividades humanas, ou de qualquer conseqüência oriunda dessas atividades, afetam a qualidade dos hábitats remanescentes ou a probabilidade do sucesso de dispersão dos animais e vegetais entre hábitats residuais, quando cercados pela malha urbana. Em algumas cidades, no entanto, ainda podem ser encontradas
áreas com vegetação nativa que representam importantes locais de refúgio para plantas e animais não adaptados no ambiente urbano (RODRIGUES et al., 1993).
A modificação da paisagem durante o processo de urbanização, incluindo a construção de ruas, parques, áreas residenciais e comerciais (YAMAGUCHI, 2004), ocasiona várias conseqüências, como por exemplo, mudança climática, compactação do solo, introdução intencional ou não, de espécies exóticas, emissão de gases resultantes da queima de combustíveis fósseis e alteração do ciclo hidrológico (RICKIMAN & CONNOR, 2003). Essas conseqüências refletem, em parte, na modificação da estrutura, composição e densidade das comunidades de plantas e animais que precisam se adaptar com êxito às novas condições. Na grande maioria das vezes, o ambiente urbano se torna aberto a espécies que se aproveitam de algumas vantagens, como oferta de alimentos, a ausência de competidores e de predadores naturais (McGLYNN, 1999).
Os artrópodos, especialmente as formigas, têm sido considerados importantes em estudos sobre a destruição do meio ambiente, ocasionada pelo processo de urbanização (McINTYRE et al., 2001; HOLWAY et al., 2002; LÓPEZ-MORENO et al., 2003). Isto se deve, em parte, ao fato desses insetos ocorrerem em todos os ambientes terrestres, exceto nos pólos (HÖLLDOBLER & WILSON, 1990; LÓPEZ-MORENO et al., 2003).
Estima-se que existam aproximadamente 21.847 espécies de formigas em todo o mundo, dentre as quais 17.997 táxons estão descritos (AGOSTI & JOHNSON, 2003). No Brasil ocorrem cerca de 2.000 espécies, sendo que apenas algumas dezenas são consideradas pragas (BUENO & CAMPOS-FARINHA, 1999). O surgimento das chamadas pragas urbanas é uma conseqüência da ação antrópica e das modificações dos hábitats naturais, tornando-os adequados para o crescimento populacional dessas espécies (PANIZZI & PARRA, 1991; RICKLEFS, 2003).
O estudo de comunidades locais de formigas tem-se mostrado relevante na avaliação das condições ambientais de áreas degradadas, monitoramento de regeneração de áreas florestais e savanas pós-fogo, e também dos diferentes padrões de uso do solo (SILVA, 2006). Numerosos atributos fazem com que estes insetos sejam importantes nas pesquisas sobre biodiversidade, tais como: abundância local relativamente alta, riqueza de espécies local e global altas; muitos táxons especializados, facilmente amostrados e separados em morfoespécies, além de serem sensíveis às mudanças das condições ambientais. (SOARES, 2005).
Apesar da importância dos formicídeos para avaliação dos impactos ocasionados pela urbanização nos ambiente naturais, poucos estudos ainda têm sido feitos no Brasil nesse sentido. As pesquisas sobre formigas em ambientes urbanos em nosso país se iniciaram somente na década de 90, com trabalhos de Fowler et al. (1992,1993) e Bueno e Fowler (1994). Esses autores constataram grande variação de formicídeos nos hospitais e residências em relação ao Hemisfério Norte, sendo marcante a presença de espécies exóticas.
No ambiente urbano as formigas são consideradas pragas por causarem prejuízos no homem, danificando madeiras de construção e móveis, além de aparelhos de som e computadores (BUENO & CAMPOS-FARINHA, 1999). Elas também atuam como vetores mecânicos de organismos patogênicos, contaminando alimentos (IPINZA-REGLA, 1981; BUENO & CAMPOS-FARINHA, 1999), e o ambiente hospitalar, tanto no Brasil (FOWLER et al., 1993; BUENO & FOWLER, 1994; PEÇANHA, 2000), como em outros países (BEATSON, 1972; IPINZA-REGLA et al., 1981). Um exemplo é a formiga da espécie Monomorium
pharaonis (Myrmicinae), que é capaz de transportar patógenos, tanto
mecanicamente sobre o corpo das operárias, como em seu tubo digestório, pela ingestão de alimentos contaminados (ALEKSEEV et al., 1972; BEATSON, 1972). Além disso, podem atacar recém-nascidos e pessoas recém-operadas, causando lesões na pele.
2) Objetivos
O presente trabalho teve por objetivo geral estudar as comunidades de formicídeos, em dois bairros da cidade de Sorocaba (SP), sendo um bairro urbanizado – Vila Carol, e uma área de pastagem – Bairro Caguassu, avaliando a diversidade e a abundância de espécies encontradas nos diferentes tipos de ambiente.
3) Materiais e Métodos
Área de estudo
A cidade de Sorocaba está localizada na região sudoeste do Estado de São Paulo, a 96 km de distancia da Capital - São Paulo, limitando-se ao norte com Porto Feliz; ao sul com Votorantim; ao leste com Mairinque; ao nordeste com Itu; ao oeste com Araçoiaba da Serra; ao sudoeste com Salto de Pirapora e a Noroeste com Iperó (PMS, 2006).
Possui aproximadamente 565.180 habitantes (estimativa IBGE – Julho 2005). Possui uma área total de 456,0 km², sendo 249,2 km² de área urbana e 206,8 km² de área rural. Sua densidade demográfica é de 1.211 habitantes /km².
A bacia do rio Sorocaba situa-se na sub-área conhecida por Médio Tietê, da qual é a segunda maior bacia hidrográfica. Está localizada no trecho superior do Planalto Atlântico e parte na Depressão Periférica, nos afloramentos do grupo Tubarão na bacia sedimentar do Paraná.
O solo é caracterizado como podzólico vermelho-amarelo, com textura argilosa cascalhenta, muito argilosa; latossolo vermelho-escuro de textura argilosa; latossolo vermelho-amarelo com textura média argilosa. Ocorrem também litossolos, que são pouco desenvolvidos geralmente com depressões. O clima é quente, predominantemente tropical, com inverno seco, com clima
mesotérmico úmido, sem estiagem. A temperatura média é máxima de 26,6 °C e mínima de 16,7 °C (Núcleo Engenharia, 1993).
O Bairro Caguassu pertencente à cidade de Sorocaba, localiza-se na zona rural da cidade, abrigando uma grande área de pastagem, com presença de algumas residências no local, é uma área rica em espécies vegetais e animais.
O bairro de Vila Carol está situado na Zona Norte da cidade de Sorocaba, é um bairro urbano, é um local com grande fluxo de casas e muito populoso. As áreas de vegetação são muito escassas, predominado o solo impermeável.
Escolha das casas e método de coleta das formigas
No bairro de Vila Carol foram escolhidas aleatoriamente 5 casas, enquanto que no bairro Caguassu as coletas foram realizadas em toda a área. No processo se escolha das casas, a seleção foi feita sem nenhum critério especial como estado de preservação, idade das construções, ou nível social dos moradores. O trabalho a ser realizado e sua duração, foi explicado aos residentes, esclarecendo dúvidas a respeito do método da coleta. O morador foi instruído a não alterar sua rotina durante a fase de experimentação.
As coletas foram realizadas uma vez por mês, durante 4 meses, totalizando 4 coletas. Foram distribuídas 30 iscas atrativas em cada residência, estas foram colocadas na cozinha, banheiro, área de serviço, garagem e jardim, por serem os lugares onde as formigas encontram alimento mais facilmente.
O preparo desta isca baseou-se no método descrito por Piva & Campos-Farinha (1999), para possibilitar a padronização e a comparação dos resultados. Os ingredientes que compõe a isca foram misturados nas seguintes proporções: 150g de fígado de boi desidratado, 150g de mel, 150g de bolo de abacaxi e 6,75 ml de óleo de soja. O fígado de boi foi primeiramente cortado em pequenos
pedaços, batidos no liquidificador por cerca de 2 minutos. A pasta obtida foi colocada em um Becker e levada a estufa a 60o C, por 3 dias, aproximadamente.. Quando o fígado se encontrava bem seco, foi retirado da estufa, triturado num processador de alimentos e misturado com o mel, o bolo de abacaxi e o óleo de soja, conforme as proporções já citadas.A mistura obtida foi colocada em canudos de plástico com 2 cm de comprimento, os quais foram conservados na geladeira até o momento da coleta.
As coletas foram realizadas no período da tarde. As iscas eram colocadas entre 13h e 17h e retiradas 24 horas após, as formigas que estavam na isca eram colocadas em vidrinhos contendo álcool 70%, devidamente rotulados (data, coletor, local de coleta), para posterior montagem e identificação.
Identificação
Para identificação, inicialmente as formigas foram separadas em subfamílias de acordo com Bolton (2003) e, em seguida, em gêneros (BOLTON, 1994). A coleção entomológica “Adolph Hempel” do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Sanidade Vegetal do Instituto Biológico (SP), que abriga um bom acervo de formigas urbanas do Estado de São Paulo, foi consultada para identificação dos espécimes coletados. A Dra. Ana Eugênia C. Campos Farinha do Instituto Biológico (SP), também auxiliou na identificação das espécies.
4) Resultados
Durante o período de levantamento de espécies de formigas nos bairros de Vila Carol (área urbanizada), e Caguassu (área de pastagem) foram amostrados 1.705 formigas, distribuídas em 13 espécies, 13 gêneros e 4 subfamílias. A subfamília Myrmicinae foi a mais rica (7 espécies) e a mais abundante (Tabela 1).
Tabela 1. Número de gêneros, espécies e indivíduos, de acordo com a subfamília, coletados numa área de pastagem, e numa área urbanizada, em Sorocaba (SP).
Subfamília Nº de gêneros Nº de Espécies Nº de indivíduos Myrmicinae 7 7 1.002 Formicinae 3 3 500 Ponerinae 1 1 105 Dolichoderinae 2 2 98 Total 13 13 1.705
A subfamília Myrmicinae é a mais amplamente distribuída na região Neotropical apresentando 19 tribos e 55 gêneros (FERNÁDEZ, 2003) e, segundo Fowler et al. (1991), constitui um dos grupos mais diversificados em relação aos hábitos de alimentação e nidificação. Gêneros dessa subfamília tais como Atta,
Acromyrmex, Solenopsis, Monomorium, Pheidole e Wasmannia coletados nos
dois bairros estudados (Tabelas 2 e 3) são considerados pragas (CAMPOS-FARINHA et al., 2002; DELLA LUCIA, 2003)
Tabela 2. Subfamílias e espécies amostradas no Bairro Caguassu, Sorocaba (SP).
Subfamília / Espécies
Myrmicinae Dolichoderinae Ponerinae
Acromyrmex sp Dorymyrmex sp Hypoponera sp Solenopsis sp
Monomorium sp Crematogaster sp Pheidole sp Atta sp
Tabela 3. Subfamílias e espécies amostradas no Bairro Vila. Carol, Sorocaba (SP). Subfamília / Espécies
Myrmicinae Dolichoderinae Formicinae
Wasmania sp Tapinoma melnocephalum Paratrechina sp1 Solenopsis sp Paratrechina sp2 Pheidole sp Componotus sp
O Segundo táxon mais diverso foi Formicinae (3 espécies), as formigas dessa subfamília são em sua maioria generalistas, como Componotus sp,
Paratrechina sp (Tabela 3), mas apresentam forte atração por fontes de
carboidratos, tais como os encontrados em nectários extraflorais e nas secreções açucaradas produzidas por homópteros (LONGINO, 1994).
Tabela 4: Número de indivíduos encontrados no Bairro Caguassu e Vila Carol, Sorocaba (SP).
Espécie Vila Carol Caguassu
Acromyrmex sp Ausente 23 Solenopsis sp 422 134 Monomorium sp Ausente 71 Crematogaster sp Ausente 96 Pheidole sp 102 69 Atta sp Ausente 7 Dorymyrmex sp Ausente 67 Hypoponera sp Ausente 10 Wasmania sp 162 Ausente
Tapinoma melanocephalum 410 Ausente
Paratrechina sp1 53 Ausente
Paratrechina sp2 25 Ausente
5) Discussões e Conclusão
Foram observadas 13 espécies de formigas, distribuídas em 13 gêneros e 4 subfamílias, na Vila Carol e Bairro Caguassu, na cidade de Sorocaba/SPAs espécies com maior freqüência de ocorrência e de abundância, na Vila Carol, ambiente urbano, foram aquelas consideradas como formigas andarilhas.
A composição da fauna de formigas em ecossistemas urbanos relatados por DELABIE et al. (2000), SILVA & LOECK (1999), PIVA & CAMPOS-FARINHA (1999), e OLIVEIRA & CAMPOS-FARINHA (2005) praticamente é a mesma que a observada no presente trabalho. Assim, verifica-se que a maioria das espécies é aquela relacionada aos ambientes urbanos, tais como T. Melanocephalum,
Pheidole sp, Solenopsis sp, Camponotus sp, Paratrechina sp, e Wasmania sp.
As diferentes espécies que ocorrem no ambiente urbano compartilham algumas características. São elas: associação com o homem, que fornecem locais para a construção de ninhos e é responsável pela dispersão da espécie para longas distâncias; migram com grande facilidade, o que implica em ninhos pouco estruturados; as espécies são unicoloniais, isto é, são caracterizadas pela ausência de comportamento agressivo entre indivíduos de diferentes ninhos que ocorrem em uma área.
Como era esperado no bairro Caguassu (área rural), ocorreu maior diversidade de espécies, porém menor abundância em relação ao bairro Vila. Carol (área urbana). No bairro Caguassu foram observadas a presença de espécies típicas de área rural, como: Atta sp, Crematogaster sp, Acromyrmex sp,
Dorymyrmex sp, Hopoponera sp e Monomorium.
Podemos concluir depois de muito levantamento bibliográfico que a dispersão das formigas é de responsabilidade do homem, que vem devastando florestas e alterando o equilíbrio ecológico da natureza.
Revisão do Inglês: Milena B. Meiken
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