MODERNIDADE E BARB
Á
RIE
ANDRÉ BUENO
Faculdade
de Letras-
UFRJABSTRACT
:
Hobsbawn (1995),para indicaro
perí
odoque vai de 1914,
com o começo
da Gran-de Guerra ,
o
fim da Bé
lleÉ
poquee
das ilu-s
ões
de paze
prosperidade permanentes,at
é
1991,com a
dissolução
da URSSe o
fimda
Guerra
Fria.
Por oposição
,ainda seguin -do Hobsbawn,ao
"longos
é
culo XIX",quecome
çaem
1776e
vai até
1914,per
íodovital para
a
formação de muitas das espe-ranças e
impasses que até
hojenos
afetam.
Severo,o
pensamentocr
í
ticoque se volta para
a
histó
riae
parao
cotidi-ano
,para os grandes processos histó
ricos e paraa
vida do homem comum,precisaentender
os
limites que separam civilização
e barbá
rie,humanidade realizadae
violên
-cia cega,destrutiva,que nã
o
respeitava
-lores,
convenções
,c
ó
digos de convivênciae
civilidade.
This articleuses some
elements ofCritical
Theoryto
show the relation between Modernity andsome
forms of barbarism,resulting in violence and exclusion, instead
of progress and happiness
.
Uma teoria crítica da Moder
-nidade,
em
qualquer de seus horizontes, inão pode ignorar
a
relação
entre projetoshist
ó
ricos de emancipação
,racionais e ci-vilizados, que apontem para
a
autonomiados cidadã
os e a
reprodução
continuada da violência cega,excludentee
bá
rbara.
A magnitude dos genocídios que aconteceram
no nosso sé
culoé
sinaiseguro da
extens
ão e
profundidade do pro-blema
.
Nuncase
matou tanto,tantos civise tantos inocentes,
como
nos extremos do “ curto século XX",como
o chama Eric.3g
od
a»
Severo consigo
mesmo
,o
71
pensamentocr
í
tico tampouco pode ignosua própria racionalidade e capacidade
de entender
os
processos histó
ricose so
-ciais
.
Nesse preciso sentido,a
palavracr
í
-tica significa crise continuada, movi
-mentos
abertos,sempre sujeitosa
dú
vidase
corre
ções
.
esquecem, aceitando
a
banalidade domal,
a
repetição
da violência,os massacres
que desumanizam
e
embrutecem.
Os que trabalham
com a
Edu-cação deveriam ter sempre presentes osris
-cos mais fortes
.
Primeiro,o da formação
dapersonalidade autorit
á
ria, preconceituosae
violenta, educada paraa
obediência esubmissã
o
,que abdica da autonomiae
daemancipaçã
o
para perder-
se em
coletivos autoritá
riose
fechados,onde se espera dosujeito que “cumpra ordens"
ou
“desempe-nhe funçõ
es
".
Depois de Freud,sabemos todoscomo
são frágeisos
limites que separam civilização e barbá
rie,convivência coletiva,contratos
sociais e violênciasem
limites.
Ouseja,
a
contradição posta dentro da pró
priaModernidade, dentro do projeto hist
ó
ricode emancipaçã
o e
autonomia,o
mal-
es-tar na civilizaçã
o
podendo resolver-
se pela volta violenta do reprimido,do quese
po -deria imaginar superado.
Depoisde Marx,tamb
é
msa
-
bemos queas
formações
do moderno capitalismon
ão toleram a
abundância,mas
sima es
-cassez
.
Ou seja,o
pró
prio capitalismoé
insepar
á
vel desta contradição
bá
sica:sua
promessa de felicidade só pode existir para
minorias,jamais para
o
conjunto daspopu
-lações
do planeta, Mesmo dispondo detodos os elementos materiais,t
é
cnicose
in-telectuais,para superar
a
fomee a
misé
ria,a car
ênciae as
violentas exclusões
,o
capi -htalismo nã
o
pode realizarsua
pró
pria uto-pia, que passa
a ser
vulgata ideológica,propaganda, apelos
ao consumo
,ilusões
de felicidade
.
Segundo,
os
riscos do esqueci-mento
,da destruição
damem
ó
ria histó
ricacomo
forma de aprovar,at
é
por ignorân-cias
barbá
rie esuas conse
-
qüências, Edu-car
paraa
autonomiae
emancipação
,no
caso
, significa manter fortesv
í
nculos entreo
trabalho das gerações
passadas,a
vidano
presentee seus
limites,e as
imagens deum futuro diferente,transformado
.
Dentroda l
ó
gica expansiva da modernização
docapitalismo,
é
grandeo
risco dese
tornar banala
barbá
rie,totalmentecomum a
vi-olência, pela repetiçã
o
continuada, pelaexposiçã
o
fragmentá
ria da vida social,pela imersão
cegano
mundo da mercadoria,que passa
a
funcionarcomo uma
espé
cie de espetá
culo.
^
Se
o
imaginá
rioe as
representa-çõ
es
que derivam da ló
gica expansiva do capitalismo banalizam o mal,esquecem aviolência e a barbárie,naturalizam
a
desu-manidade,
ou
dela fazem material para in -vestimentos comerciais,cabe lembrar,com
N
ão
pretendo citar nú
meros
.
É
desumano comparar massacres e ge-nocídios
.
Não
cabeao
pensamento críti-co
chocar,causar
impacto,emocionaros
bons sentimentos,que logo
se
aquietam.
E
72
1 - Sõo temas fortes da Teoria Crítica da chamada Escola de
Frankfurt,acomeçar petosestudos sobre a formação da perso
-nalidadeautoritáriaepreconceftuosa,coordenado$porlheodor
Theodor Adorno (1995),que educar signifi
-ca emancipar, tornar
aut
ónomo
, superan-do a violência
e a
barbá
rie.
Aomenos
,educando para a necessidade de
urna
sociedade transformada
e
humana, quesupere a vioiência e a barbarie
.
Com Walter Benjamin,morto pela
barb
á
rie,devemos
lembrar que osven-cedores formam um cortejo triunfal,que
vence
e não cessa
de vencer,deixando àmargem
vencidose
ruí
nas.
Isso posto,
n
ão
pode haver redenção
religiosaou revo
-luçã
o
polí
tica que não
signifique resgatar a vida,o
trabalho,as
iutas,a mem
ó
ria dosvencidos
.
Como meta,a
Interrupção docurso
da histó
ria que realizea
humanida-de, a
humanidade
que foi negadaà
s
v
íti-mas
da violência e da barbá
rie.
Ainda
com
Benjamin, cabe lem-brar que
n
ão há
um
s
ó documento
de cul-tura
quen
ão seja,ao
mesmo
tempo,um
documento
de barbá
rie,a nos lembrar o
v
ínculoentre
violênciae
civilização,Modernidade e
exclusão
.
No passado
e
no
presente,a
Mo-dernidade,
como
projeto de emancipa-çã
o
e
autonomia,nunca
existiu paraa
maior parte dos habitantes do planeta,
ex
-cluindo milhões e milhõ
es
de pessoas dosdireitos
e
benefí
cios,dosacessos
materiaise
culturaisà
vida civilizada.
Nesse sentido,muito preciso
e
concreto,a
Modernidadecapitalista é um projeto incompleto,
em
movimento
e
aberto,limitado porsuas
pró
-prias contradições
.
No contexto de crise da Moder
-nidade que vivemos neste final de século
XX, onde
se
misturam vetores díspares deGiobaiizaçõ
o
, Neo-
liberalismo e Pós-modernidade,não deixa de
ser
bá
rbaraa
aceitação,muitoextensa
e com
pretensões
hegemónicas,de um projeto que aceite
o
mercado -
e as
trocas económicascomo
indicadores de "liberdade" e "civilização",
Difícil entender
como
seria possí
vel superaras
violentas exclusões
sociaisatra
-v
és
do mercado,da "livre' competição
econ
ómica, do acirramento das desigual-dades,do favoreclmento fiscal
aos
mais ri-cos,dos cortes
nos
gastos pú
blicoscom
o
bem
-
estar dos cidadãos
e
do desemprego em expansão
, consideradosnecess
á
riospara manter
o
capitalismo "competitivo"e
a sociedade "aberta".
De quebra,
um
projeto que inves-te duramente contra as organizações dos trabalhadores,vistos
como
inimigosda
"so
-ciedade
a
bertae
competitiva",com
suas
insistentes demandas por salá
riose
formas de bem-
estar
social.
Como
sabemostodos,a
ló
gica do lucro,da competição
e
daacumulaçã
o
privada da riqueza socialn
ão
pode levarem
conta Irrelevânciascomo
a
vida,a
saú
de, a educação
,o
bem-
estar e
a
segurança
dos cidadãos
.
A rigor,projeto que prescinde de
qualquer dimensã
o é
tica,exceto
para efei-tos ret
ó
ricos e demagó
gicos,podendoaté
mesmo
prescindir de valorescomo
a
pró
-pria democraciae
emancipação dos cida -dãos
.
Já
queo
valor fundamentalé
o
fun -cionamento
"livre"da economia,em
termos de eficiênciae
de "qualidade total",essa
ficçã
o
ideoló
gica que pretende trabalha-dores funcionando mecanicamente,
sem
traço de pensamento
crí
tico.
.-soe
»
simples conexão
com
alguma rede mundi-al de computadores
.
Nunca ter
á
sido tão
fá
cil viverem
sociedade
.
Bastará
ao
cidadão
renunciar aos projetos de autonomia e emanclpa -ção
,aceitandosua
plena integração
,sem
restos
ou
contradições,funcionale
eficien-te,
à
ló
gica das trocasecon
ómicas e daacumulação privada da riqueza social
.
Como
cen
á
rio,as
maravilhas ultramodernasda tecnologia aplicadas
ao
cotidiano his-t
ó
rico^
.
O que se opuser â"livre" expansã
o
, localou
mundial, das forç
as económicasque
movem o
capitalismo,deverá ser en-tendido
como
inaceitá
vel atraso,fecha-mento da sociedade,restriçã
o
ã liberdadedos produtores e dos propriet
á
rios.
É
da ló
gica dessa expansão
irre-freada gerar desigualdades, aprofundar diferen
ças
,aumentar
as
margens de exclu-s
ão
social,sobretudoem
paí
sescomo o
Bra -sil,postos desde semprena
periferia doca
-pitalismo
.
Não
tendo havido aqui, jamais,algo parecido
com um
Estado de Bem-
es
-tar social, domandoa
purae
selvagemexpansã
o
do capitalismo,as
polí
ticas globalizadas doneo
-
liberalismotornam
-
se
ainda mais violentas.
Mas,sabemos todos,soaria
com um
Imperdoá
vel anacronismo,sinal de
atraso
e
pobreza de espí
rito,dis-cutir
é
tica,autonomiae
emancipação
,em relação ao mercado e
à
s trocas eco
-n
ómicas O).
Nã
o se
conclua, poré
m
, quea
cr
í
tica aponte paraum
mundo histó
rico eum
cotidianosem
má
quinas,sem
informá
-tica,sem
qualquer tipo de qualidadegerencial ouadministrativa,© que seria
uma
simples
e
delirante aberração
.
A
presente etapa do capitalismo globalizadoé
inse -pará
vel dasnovas
tecnologias,dasnovas
formas de organização
do trabalhoe
daprodução,quer
se trate
demercadorias
ou
de serviç
os
.
É
,com
todaa
clareza,um
mundo
em
acelerada mutação
.
No
entanto
,é
tarefa dopensa
-mento
crí
tico,e
das prá
ticas que dele pu -deram derivar, perguntar pelo sentido epela
finalidade
, humanos, das novastecnologias
e
dosnovos
processos de tra -balho e de produção.
Deve-se mesmo
cri-ticar,
com
rigor,todoo
imaginá
rio que as-socia mercados e mercadorias, trocas
e
acumulação privada de riqueza,aparatos
t
é
cnicos e administrativos, tecnologiasultramodernas
e suas
funções
,como
luga-res exclusivos da
racionalidade
,do progrès-Nas ficçõ
es
ideoló
gicas do Admi -rá
vel mundonovo
do neoliberaiismo glo-balizado,viveremos todos
em
sociedadessem
fronteirasou
hierarquias,em
cidadessem
limites fí
sicos,ilimitadase
invisí
veis,trans
-i
-parentes
e acess
í
veis.
A
vida coletiva,a
vidaconsiderada boa
e
justa, desde a Gréciadiscutida pelos fil
ó
sofose
polí
ticos,seresu
-mirá
aos
claros princípios da eficiência,dacompetição e da "qualidade total
"
,como
parâmetros de civilizaçã
o
do
e as
trocasecon
ómicas.
De quebra,todos terã
o acesso
a tudo,a toda informa -ção e a
todo conhecimento.
Bastará
uma
para
o merca
-t i i
74
3- A propósito,remeto o leitor ao 'Post-Scriptum 1992* em Bosi (1992).
2 - Como se nota, esse tópico diz respeito à globalização e aos projetosneoliberais,no cenáriomundialposterior ao fim da USRR
eda Gueraa Fria.Sãoreferências recentespara o debate críti
Nem
é
difí
cil imaginar contextosautorit
á
rios onde redes de computadores,velozes
e contendo
milhões
de informações
sobre
os cidad
õos
,sejam usadas paracon
-trolar e reprimir divergentes e opositores
.
Não apenasnas
prisões,é claro,mas tam
-b
ém
no
que deveriaser a
vida privada.
Na Educaçã
o
,saltamaos
olhosos
fetiches
tecnicistas
,que fazem das má
qui-nas e
equipamentos soluções
miracuiosaspara
os
problemas todos queatravessam
a
vida sociale o
cotidiano escolar.
Reite-rá
ndomela
via ingénua e
ideoló
gicas ilu-s
ó
ria passagem do paí
s
pobree
atrasado parao
paí
s
moderno,graças
à
tecnologiaultramoderna
.
so
, da eficiência e da qualidade.
Emre
-sumo
, trata-
se
de fazera cr
í
tica das representações
que o capitalismo moder -nizadoe
globalizado faz de simesmo
,quercomo
“fim da Histó
ria", quercomo
plenaracionalidade
.
O mito da qualidade total
é
, sobmuitos aspectos,
o
do má
ximo controle,usoe exploração do corpo,do tempo,da ima
-ginaçã
o
dotrabalhador
,que deveria estarinteiramente ligado
à
ló
gica dotrabalho e
da produção
material eficiente,resultando dissoum
má
ximo de acumulação
privadade riqueza socialmente criada
.
Sema
contrapartida^
claro,deum
má
ximo pos-s
í
vel de distribuição
da riqueza materiale
cultural socialmente criada.
Ou
seja,os
imperativosdoreino da necessidade
e
ape-nas os
fantasmas daliberdade
e
da felici -dade,para compensar ilusoriamenteas
privaçõ
es e car
ências da vida quotidiana.
Cabe
lembrar que,na l
ó
gica do trabalho e da produção nesta
etapa globalizada do capitalismo,as
redes decomputadores são,ao
mesmo
tempo, fun-çõ
es
da velocidadee
da
eficiência
,mas
tamb
ém
do controle.
i
At
é
nos
exemplosmenores
,doco
-tidiano do trabalho,
h
á
exemplos decomo
a inform
á
ticase
põe a
serviç
o
do controledos movimentos
e
fala dos que trabalhamnas
empresas mais modernas,permitindocalcular
o
tempo gastoem
cada tarefa, além de cada pausa.
Como
evidenteobjetivo de limitar
o
tempo livre,a
imagi-nação solta tudo que escape
ã
má
ximaeficiência do corpo
e
do tempo dotra
-balhador,
Isto posto,ter
í
amos uma
espé
cie de Integração
nacional graças
à
s
redes de computadores,eliminando diferenças
regi -onais,de
renda, de classe,de cultura,dereligiã
o
,tornandoo
Brashuma vasta
"
unida -decoesa
".
Ao imagin
á
rio da facilidade, doacesso
simples,da integração funcional e
ass
é
ptica,do"
moderno"como
Ilusãoe
ide-ologia, cabe contrapor, sempre
e com o
necess
á
rio rigor,a
educação como
cons-trução
cr
í
tica, difícile
contraditó
ria,quoti-diana
e constante
,insepará
vel das profun -das divisões e
diferenças que caracterizama
formação
histó
ricae
social do Brasil.
Por-tanto
,jamaisa
Educação como
panacé
iauniversal,tecnol
ó
gicaou
não
.
Aqui,cabe lembrar
a
figura crí
ticado
fracasso
programado,usada pelos edu-cadores brasileirospara indicar osexclu
í
dos,os repetentes,
os
pobres,os "burros"
e os
"in-capazes",cujo "fracasso" está previsto pela
33S »
l
ó
gica do sistema.
Já
que se destinam ao trabalho manuale aos cursos
té
cnicosJa
-mais à Universidade,ao
trabalho intelectu-al,às posições de mando
e
de poder.
Indicação clara de formas estrutu
-rais de violênciae
de exclusão,marcandoas
margens do Brasil Colóniae
do Brasil moderno: analfabetos, repetentes, eva-didos das escolas
no
contexto do trabalho infantil,dos salá
rios vis,da pobreza materi-aUimites
evidentesà
criação
deuma
socie -dade justa e emancipada.
imposs
í
vel esquecero
tributo,pe-sado
e
violento,quemilh
ões
de crianças e
adolescentes
pagamao
trabalho Ilegal,e
a
conseqüente injusta acumulação
daí re
-sultante
.
Uma vez mais,não vou citar nú
-meros
,listarestat
í
sticas,comparar tabelas,quantificar
os massacres
,expor grá
ficos daviolência estrutural
e
sistemá
tica da socie -dade brasileira.
Masvou
enfatizar queen
-dossar
os
mitos fá
ceis da modernização
, funcional e técnica,limpae
eficiente,é
si-nónimo de endossar a pr
ó
pria barbá
rie,tornando ausente
/
neutra",a violência his -tórica e social.
rindo ao existente,
nem
repitaos erros
dopassado
.
Ou seja,o
socialismocomo
pro -jeto que incorporee
realizeos
mais altosvalores democr
á
ticos devese
dissociar dos rescaldo das burocracias estatais, do pla -nejamento centrale
da ineficiência, dos partidosú
nicose
autoritá
rios.
Sen
ão, ficaf
á
cil contrapor "centralismo burocrá
tico",autorit
á
rio e ineficiente,às
maravilhas daempresa
e
do mercado capitalistas<
4>
.
A
crí
tica enfá
ticaao pensamento
autoritá
rio e burocrático,assimcomo
à
vio-l
ência histó
rica dos processos de moder -nização
do capitalismo,à
vasta
barbá
rieque
atravessa
o s
é
culoXX
n
ão
precisa de -sembocarnuma recusa
radical do pensa -mento racional,da herança
do lluminismoe
das tradições cr
í
ticasconstruí
das nos sé
-culos
XVIII
, XIXe
XX.
É mesmo
difí
cil percebercomo o
pensamento racional
e cr
í
tico pode sersubstitu
í
do,com
proveito paraas
lutas desuperaçã
o da barb
érlee
da vlolência.
pelopensamento das diferenças abstratas,dos
fragmentos soltos da vida social,pelas deri
-vas
do desejo,pela aceitação rom
ântica,ou mesmo
aristocrá
tica,de valores ligadosã potência vital,apontando para
uma
tam -bém
abstrata"
transvaloração
de todosos
valores".
Como
cr
ítica radica! da culturai
-capitalista
,
cabe sempre enfatizar que amercadoria
e os
simulacros demassa
damercadoria, que todo
o
imaginá
rio ligadoao consumo
de mercadorias,não
podeser
mais que
um
empobrecimento,uma
páli -da e vergonhosa caricatura da felicidade,da vida boa, da justi
ça e
da liberdade.
Por via de conseqüência,
é
enfá
-tica
a
necessidade de um pensamento crí-tico que nã
o
abandone suas tarefas,ade-É ainda mais difícil entender
como
o pensamento abstrato, que separa
a
lin-guagem,
os textos e os
discursos,o
imaginá-rio
e suas
representações
,deseus
contextossociais
e
materiaisdeprodução erecepção
,poderá dar
conta
da tarefa crítica decons
-truir o caminho que supere a barb
á
rie histó
-76
É
importantemanter
vivaa
memó -ria da verdadeira virtudecí
vica,pú
blicae
necess
á
riaa
todaa
humanidade,em
contraposiçã
o aos
medí
ocres e
oportunis-tas
quese
apresentamcomo
"homenspú
bli-cos
"
,mas
n
ão
fazem mais que viverà
som
-bra de algum poder,ciosose
zelosos deseus
grandes ou pequenos interesses
.
Penso nos militantes
an
ónimos dasmelhores
causas
,quecorreram
riscos ese
mantiveram
coerentes
e permaneceram
an
ónimos,sendo de todo Inú
til buscarseus
nomes nos
livros de Histó
ria.
Resistiramà
barb
á
riea
partir do cotidiano,do ângulodo cidadã
o comum
,quese
comprometee
busca construira
humanidade: livre,adul-ta
,aut
ónoma,emancipada,educada pararesistir à violência
e
à
barbá
rie, Admirá
veis,e
an
ónimos,s
ão os
exemplosconcretos
de quea
humanidade podeser
criada.
Penso agora
no
admirá
vel Galileu,Galileide Bertold Breeht,exemplo
marcante
de
uma
continuada lutacontra
o
dogma -tismoe a
intolerância.
Penso,sobretudo,nomomento
em que o velho Galileu Isolado econtroladopela Inquisiçã
o
,vivendo fora doscentros
urbanos importantes,recebe a visi-ta de
seus
discípulo,Andrea Del Sarto,quefora por Galileu educado desde a infância,
no
sentido de buscar a verdade,Na
cena
,quando tudo faria suporque Galileu fora derrotado,
e com
ele toda uma luta pela emancipação
humana epela busca da verdade,quando tudo pa
-recia indicar
a
justeza da decepção do
dis-c
í
pulo diante do mestre derrotado pela vi-olência obscurantista da Inquisiçã
o
,nesse
momento Galileu passa ao disc
í
puloum
rica e as situações concretas de
coer
ção e violência que limitam,na
prá
tica,a autono
-mia
e a
emancipação
dos sujeitos.
Posto à deriva,
o
pensamentocr
í
ti-co se
enfraquece,ou mesmo
desaparece, dando lugara
variadas ilusões
: das diferen -ças
abstratas, jamais referidasa
qualquertotalidade; de fragmentos à deriva,jamais relacionáveis a sistemas; de situações ide
-ais de fala,onde se possa executar açõescomunicativas,angelicais
e
livres decoer
-çã
o e
violência;de paixões e
desejoserran
-tes
,sempre derivando,o
tempo todo supe-riores
à
aridez daraz
ão crí
tica; designificantes
sem
significados sociais.
Oumesmo
,no extremo
oposto,de fetiches daciência, fechados e dogmáticos,que ten
-tam tornar
"cientí
fico"
o
conhecimento so-bre
o
homem vivendoem
sociedade.
Diante da crise
e
das posições
que derivam parao
desencantoe o
ceticismo,à
s vezes
parao
cinismoou a
franca ade-sã
o,outras
parauma
aceitação acr
í
tica dosaparatos t
é
cnicose
administrativos
,cabelembrar que o legado filos
ó
fico,político,cultural e cient
í
fico,que forma a melhor tra-diçã
o
do mundo moderno,foio
mais dasvezes
construídoem
condições
difíceis,deperseguiçã
o e censura
, prisão e tortura
,exílio e morte
.
Sempre foram formas de resistir,de
pensamento e ação que correram riscos,
buscando
a
autonomiae a
emancipação humanas diante das forças
da heteronomia,do controle,do dogma
e
da ignorância,daviolência física
e
simbó
lica,do medocomo
parteiro do conformismo
e
da submissão
.
f
|
vã
02
manuscrito,mais
um
resultado desua
bus-ca
pela verdade do conhecimento, quedepois circulará por toda
a
Europa.
Penso
em
seguida,com
todoo res
-peito e admiraçã
o
,em Antonio Gramsci esuas
Cartas do Cá
rcere
.
Preso pelos fascis-tas para nã
o
pensar,para ficar caladoe
reduzido
à
impotência,Gramsci
constró
i,nocá
rcere
e em condições
duríssimas,um
pre-cioso legado crítico,pol
í
tico e cultural,ú
tilpara toda
a humanidade
.
Cito,
como
exemplo de rigor egrandeza
c
í
vica,um
dosmomentos em
queGramsci (1966:
143
), via Romain Rolland,contrapõ
e o desencanto e o
ceticismo
daraz
ãoao
otimismo da atividade prá
tica:“ O homem não deveria desespe
-rar nunca,nem cair naqueles estados
de espírito vulgares que se chamam otimismo e pessimismo
.
Meu estado de espírito sintetiza estes dois senti -mentos e os supera: sou pessimistacom a inteligência mas otimista pela
vontade”
.
A
partir da geografia limitada das prisõ
es
,Antonio Gramsci continua criandoo projeto político educativo de emanci
-pação e autonomia da humanidade.
Como fez,um pouco
antes
e també
mem
condições multo dif
í
ceis,com
rigor e deli-cadeza,Rosa Luxemburgo
.
Ao leitor afoito,que porventura
a
í
percebesse
o
elogio do 'martí
rio" e do "heroísmo",quase cristãos,quase um elogiodo sofrimento e da dor
,
vazios e derivandologo para
o
sentimentalismoe
a retó
rica,indico logo
o
equí
voco.
Trata
-
se
do elogio da virtude cívi-78
ca
do homemcomum
, que trabalha, seeduca,luta,constrói o caminho da autono
-mia
e
da emancipação como
possibilida-de humanas
.
É o contexto em que durezae ternura se juntam,
com
rigor,e o homemaponta para aiém da violência
e
da barbá
rie.
Depois de todas
as
crises e fracas-sos
da Modernidade,é
certo que aindave
-remos
muito desencantoe
muito ceticismo,mesmo
isentos de qualquer oportunismo.
É
o
momentoem
quese
pergunta,a fundo,se
a
Histó
ria podeser
mais que sucessivos banhos de sangue,um
infindá
vel desfile deatrocidades,violência
e
atos bá
rbaros,sem
qualquer chance de superaçã
o
.
A prop
ó
sito,permitam-
me
citar Italo Calino (1990: 149 el50).
No final do li-vro Ascidades invis
í
veis,uma
vez
mais dialo-gam Marco Poio
e
Dublai Khan.
Perguntampelas cidades invis
í
veis,queos
mapas ain -dan
ão registram,Serão elas cidades ideais,
como
a
Nova Atlântida
,
Utopia,
Cidade do Sol,Oceana,Tamo
é
,Harmonia,New Lanark?Ou
ser
ão
as
"ameaç
adoras cidades quesur
-gem
nos
pesadelos e maldições
: Enoch,Babilónia,Yahoo,Butí
ra
,Brave New World?".
Diz Kublai Khan:
*É tudo inútil,se o último porto só
pode ser a cidade infernal, que está
lá no fundo e que nos suga num vór -tice cada vez mais estreito”
.
E Marco Polo:
"O inferno dos vivos não é algo
que será: se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos
todos os dias, que formamos estan -do juntos. Existem duas maneiras de
não sofrer. A primeira é fácit para a
maioria das pessoas: aceitar o
infer-no e tornar-se parte até o ponto de deixar de percebê-lo
.
A segunda é arriscada e exige
atenção e aprendizagem contínuas:
tentar saber reconhecer quem e o
que, no meio do inferno, não é infer -no, e preservá-lo, e abrir espaço*
Sem deuses, a humanidade pre
-cisa inventar
a
simesma
.
Precisa inventar sua liberdade,sua
autonomiae sua eman
-cipação
.
É
,sem
dú
vida, a mais difícil edemorada das tarefas
.
Renunciara
ela,no
entanto
,é
aceitar a barbárie,é
tornar-separte do inferno,
é
conformar-se até o
totalesquecimento
.
Com todaa
clareza,a ta
-refa
é
reconhecerem
meioao
inferno aqui-lo que nã
o é
Inferno.
Para abrir espaço.
Para superar
a
violênciae a
barbá
rie.
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