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MODERNIDADE E BARBÁRIE

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(1)

MODERNIDADE E BARB

Á

RIE

ANDRÉ BUENO

Faculdade

de Letras

-

UFRJ

ABSTRACT

:

Hobsbawn (1995),para indicar

o

per

í

odo

que vai de 1914,

com o começo

da Gran

-de Guerra ,

o

fim da B

é

lle

É

poque

e

das ilu

-s

õ

es

de paz

e

prosperidade permanentes,

at

é

1991,

com a

dissoluçã

o

da URSS

e o

fim

da

Guerra

Fria

.

Por oposiçã

o

,ainda seguin

-do Hobsbawn,

ao

"longo

s

é

culo XIX",que

come

ça

em

1776

e

vai at

é

1914,

per

íodo

vital para

a

formação de muitas das espe

-ranças e

impasses que at

é

hoje

nos

afetam

.

Severo,

o

pensamento

cr

í

tico

que se volta para

a

hist

ó

ria

e

para

o

cotidi

-ano

,para os grandes processos hist

ó

ricos e para

a

vida do homem comum,precisa

entender

os

limites que separam civilizaçã

o

e barb

á

rie,humanidade realizada

e

violê

n

-cia cega,destrutiva,que nã

o

respeita

va

-lores,

convenções

,

c

ó

digos de convivência

e

civilidade

.

This article

uses some

elements of

Critical

Theory

to

show the relation between Modernity and

some

forms of barbarism,

resulting in violence and exclusion, instead

of progress and happiness

.

Uma teoria crítica da Moder

-nidade,

em

qualquer de seus horizontes, i

não pode ignorar

a

relaçã

o

entre projetos

hist

ó

ricos de emancipaçã

o

,racionais e ci

-vilizados, que apontem para

a

autonomia

dos cidadã

os e a

reproduçã

o

continuada da violência cega,excludente

e

b

á

rbara

.

A magnitude dos genocídios que aconteceram

no nosso sé

culo

é

sinai

seguro da

extens

ã

o e

profundidade do pro

-blema

.

Nunca

se

matou tanto,tantos civis

e tantos inocentes,

como

nos extremos docurto século XX",

como

o chama Eric

.3g

od

Severo consigo

mesmo

,

o

71

pensamento

cr

í

tico tampouco pode igno

(2)

sua própria racionalidade e capacidade

de entender

os

processos hist

ó

ricos

e so

-ciais

.

Nesse preciso sentido,

a

palavra

cr

í

-tica significa crise continuada, movi

-mentos

abertos,sempre sujeitos

a

d

ú

vidas

e

corre

çõ

es

.

esquecem, aceitando

a

banalidade do

mal,

a

repetiçã

o

da violência,

os massacres

que desumanizam

e

embrutecem

.

Os que trabalham

com a

Edu

-cação deveriam ter sempre presentes osris

-cos mais fortes

.

Primeiro,o da formaçã

o

da

personalidade autorit

á

ria, preconceituosa

e

violenta, educada para

a

obediência e

submissã

o

,que abdica da autonomia

e

da

emancipaçã

o

para perder

-

se em

coletivos autorit

á

rios

e

fechados,onde se espera do

sujeito que “cumpra ordens"

ou

desempe

-nhe funçõ

es

"

.

Depois de Freud,sabemos todos

como

são frágeis

os

limites que separam civilização e barb

á

rie,convivência coletiva,

contratos

sociais e violência

sem

limites

.

Ou

seja,

a

contradição posta dentro da pr

ó

pria

Modernidade, dentro do projeto hist

ó

rico

de emancipaçã

o e

autonomia,

o

mal

-

es

-tar na civilizaçã

o

podendo resolver

-

se pela volta violenta do reprimido,do que

se

po

-deria imaginar superado

.

Depoisde Marx,tamb

é

m

sa

-

bemos que

as

formaçõ

es

do moderno capitalismo

n

ã

o toleram a

abundância,

mas

sim

a es

-cassez

.

Ou seja,

o

pr

ó

prio capitalismo

é

insepar

á

vel desta contradiçã

o

b

á

sica:

sua

promessa de felicidade só pode existir para

minorias,jamais para

o

conjunto das

popu

-laçõ

es

do planeta, Mesmo dispondo de

todos os elementos materiais,t

é

cnicos

e

in

-telectuais,para superar

a

fome

e a

mis

é

ria,

a car

ência

e as

violentas exclusõ

es

,

o

capi

-h

talismo nã

o

pode realizar

sua

pr

ó

pria uto

-pia, que passa

a ser

vulgata ideológica,

propaganda, apelos

ao consumo

,ilusõ

es

de felicidade

.

Segundo,

os

riscos do esqueci

-mento

,da destruiçã

o

da

mem

ó

ria hist

ó

rica

como

forma de aprovar,

at

é

por ignorân

-cias

barb

á

rie e

suas conse

-

qüências, Edu

-car

para

a

autonomia

e

emancipaçã

o

,

no

caso

, significa manter fortes

v

í

nculos entre

o

trabalho das geraçõ

es

passadas,

a

vida

no

presente

e seus

limites,

e as

imagens de

um futuro diferente,transformado

.

Dentro

da l

ó

gica expansiva da modernizaçã

o

do

capitalismo,

é

grande

o

risco de

se

tornar banal

a

barb

á

rie,totalmente

comum a

vi

-olência, pela repetiçã

o

continuada, pela

exposiçã

o

fragment

á

ria da vida social,pela imersã

o

cega

no

mundo da mercadoria,

que passa

a

funcionar

como uma

esp

é

cie de espet

á

culo

.

^

Se

o

imagin

á

rio

e as

representa

-çõ

es

que derivam da l

ó

gica expansiva do capitalismo banalizam o mal,esquecem a

violência e a barbárie,naturalizam

a

desu

-manidade,

ou

dela fazem material para in

-vestimentos comerciais,cabe lembrar,

com

N

ã

o

pretendo citar n

ú

meros

.

É

desumano comparar massacres e ge

-nocídios

.

o

cabe

ao

pensamento críti

-co

chocar,

causar

impacto,emocionar

os

bons sentimentos,que logo

se

aquietam

.

E

72

1 - Sõo temas fortes da Teoria Crítica da chamada Escola de

Frankfurt,acomeçar petosestudos sobre a formação da perso

-nalidadeautoritáriaepreconceftuosa,coordenado$porlheodor

(3)

Theodor Adorno (1995),que educar signifi

-ca emancipar, tornar

aut

ó

nomo

, superan

-do a violência

e a

barb

á

rie

.

Ao

menos

,

educando para a necessidade de

urna

sociedade transformada

e

humana, que

supere a vioiência e a barbarie

.

Com Walter Benjamin,morto pela

barb

á

rie,

devemos

lembrar que os

ven-cedores formam um cortejo triunfal,que

vence

e nã

o cessa

de vencer,deixando à

margem

vencidos

e

ru

í

nas

.

Isso posto

,

n

ã

o

pode haver redençã

o

religiosa

ou revo

-luçã

o

pol

í

tica que nã

o

signifique resgatar a vida,

o

trabalho,

as

iutas,

a mem

ó

ria dos

vencidos

.

Como meta,

a

Interrupção do

curso

da hist

ó

ria que realize

a

humanida

-de, a

humanidade

que foi negada

à

s

v

íti

-mas

da violência e da barb

á

rie

.

Ainda

com

Benjamin, cabe lem

-brar que

n

ão h

á

um

s

ó documento

de cul

-tura

que

n

ão seja,

ao

mesmo

tempo,

um

documento

de barb

á

rie,

a nos lembrar o

v

ínculo

entre

violência

e

civilização,

Modernidade e

exclusã

o

.

No passado

e

no

presente,

a

Mo

-dernidade,

como

projeto de emancipa

-çã

o

e

autonomia,

nunca

existiu para

a

maior parte dos habitantes do planeta,

ex

-cluindo milhões e milhõ

es

de pessoas dos

direitos

e

benef

í

cios,dos

acessos

materiais

e

culturais

à

vida civilizada

.

Nesse sentido,

muito preciso

e

concreto,

a

Modernidade

capitalista é um projeto incompleto,

em

movimento

e

aberto,limitado por

suas

pr

ó

-prias contradiçõ

es

.

No contexto de crise da Moder

-nidade que vivemos neste final de século

XX, onde

se

misturam vetores díspares de

Giobaiizaçõ

o

, Neo

-

liberalismo e Pós

-modernidade,não deixa de

ser

b

á

rbara

a

aceitação,muitoextensa

e com

pretensõ

es

hegemónicas,de um projeto que aceite

o

mercado -

e as

trocas económicas

como

indicadores de "liberdade" e "civilização",

Difícil entender

como

seria poss

í

vel superar

as

violentas exclusõ

es

sociais

atra

-v

és

do mercado,da "livre' competiçã

o

econ

ómica, do acirramento das desigual

-dades,do favoreclmento fiscal

aos

mais ri

-cos,dos cortes

nos

gastos p

ú

blicos

com

o

bem

-

estar dos cidadã

os

e

do desemprego em expansã

o

, considerados

necess

á

rios

para manter

o

capitalismo "competitivo"

e

a sociedade "aberta"

.

De quebra,

um

projeto que inves

-te duramente contra as organizações dos trabalhadores,vistos

como

inimigos

da

"

so

-ciedade

a

berta

e

competitiva",

com

suas

insistentes demandas por sal

á

rios

e

formas de bem

-

estar

social

.

Como

sabemostodos,

a

l

ó

gica do lucro,da competiçã

o

e

da

acumulaçã

o

privada da riqueza social

n

ã

o

pode levar

em

conta Irrelevâncias

como

a

vida,

a

sa

ú

de, a educaçã

o

,

o

bem

-

estar e

a

segurança

dos cidadã

os

.

A rigor,projeto que prescinde de

qualquer dimensã

o é

tica,

exceto

para efei

-tos ret

ó

ricos e demag

ó

gicos,podendo

até

mesmo

prescindir de valores

como

a

pr

ó

-pria democracia

e

emancipação dos cida

-dã

os

.

que

o

valor fundamental

é

o

fun -ciona

mento

"livre"da economia,

em

termos de eficiência

e

de "qualidade total",

essa

ficçã

o

ideol

ó

gica que pretende trabalha

-dores funcionando mecanicamente,

sem

traço de pensamento

crí

tico

.

.-soe

»

(4)

simples conexão

com

alguma rede mundi

-al de computadores

.

Nunca ter

á

sido tã

o

f

á

cil viver

em

sociedade

.

Bastar

á

ao

cidadã

o

renunciar aos projetos de autonomia e emanclpa

-çã

o

,aceitando

sua

plena integraçã

o

,

sem

restos

ou

contradições,funcional

e

eficien

-te,

à

l

ó

gica das trocas

econ

ómicas e da

acumulação privada da riqueza social

.

Como

cen

á

rio,

as

maravilhas ultramodernas

da tecnologia aplicadas

ao

cotidiano his

-t

ó

rico

^

.

O que se opuser â"livre" expansã

o

, local

ou

mundial, das for

ç

as económicas

que

movem o

capitalismo,deverá ser en

-tendido

como

inaceit

á

vel atraso,fecha

-mento da sociedade,restriçã

o

ã liberdade

dos produtores e dos propriet

á

rios

.

É

da l

ó

gica dessa expansã

o

irre

-freada gerar desigualdades, aprofundar diferen

ças

,

aumentar

as

margens de exclu

-s

ã

o

social,sobretudo

em

pa

í

ses

como o

Bra

-sil,postos desde sempre

na

periferia do

ca

-pitalismo

.

o

tendo havido aqui, jamais,

algo parecido

com um

Estado de Bem

-

es

-tar social, domando

a

pura

e

selvagem

expansã

o

do capitalismo,

as

pol

í

ticas globalizadas do

neo

-

liberalismo

tornam

-

se

ainda mais violentas

.

Mas,sabemos todos,

soaria

com um

Imperdo

á

vel anacronismo,

sinal de

atraso

e

pobreza de esp

í

rito,dis

-cutir

é

tica,autonomia

e

emancipaçã

o

,

em relação ao mercado e

à

s trocas eco

-n

ómicas O)

.

o se

conclua, por

é

m

, que

a

cr

í

tica aponte para

um

mundo hist

ó

rico e

um

cotidiano

sem

quinas,

sem

inform

á

-tica,

sem

qualquer tipo de qualidade

gerencial ouadministrativa,© que seria

uma

simples

e

delirante aberraçã

o

.

A

presente etapa do capitalismo globalizado

é

inse

-par

á

vel das

novas

tecnologias,das

novas

formas de organizaçã

o

do trabalho

e

da

produção,quer

se trate

de

mercadorias

ou

de serviç

os

.

É

,

com

toda

a

clareza,

um

mundo

em

acelerada mutaçã

o

.

No

entanto

,

é

tarefa do

pensa

-mento

crí

tico,

e

das pr

á

ticas que dele pu

-deram derivar, perguntar pelo sentido e

pela

finalidade

, humanos, das novas

tecnologias

e

dos

novos

processos de tra

-balho e de produção

.

Deve-

se mesmo

cri

-ticar,

com

rigor,todo

o

imagin

á

rio que as

-socia mercados e mercadorias, trocas

e

acumulação privada de riqueza,aparatos

t

é

cnicos e administrativos, tecnologias

ultramodernas

e suas

funçõ

es

,

como

luga

-res exclusivos da

racionalidade

,do progrès

-Nas ficçõ

es

ideol

ó

gicas do Admi

-r

á

vel mundo

novo

do neoliberaiismo glo

-balizado,viveremos todos

em

sociedades

sem

fronteiras

ou

hierarquias,

em

cidades

sem

limites f

í

sicos,ilimitadas

e

invis

í

veis,

trans

-i

-parentes

e acess

í

veis

.

A

vida coletiva,

a

vida

considerada boa

e

justa, desde a Grécia

discutida pelos fil

ó

sofos

e

pol

í

ticos,se

resu

-mirá

aos

claros princípios da eficiência,da

competição e da "qualidade total

"

,

como

parâmetros de civilizaçã

o

do

e as

trocas

econ

ómicas

.

De quebra,

todos terã

o acesso

a tudo,a toda informa

-çã

o e a

todo conhecimento

.

Bastar

á

uma

para

o merca

-t i i

74

3- A propósito,remeto o leitor ao 'Post-Scriptum 1992* em Bosi (1992).

2 - Como se nota, esse tópico diz respeito à globalização e aos projetosneoliberais,no cenáriomundialposterior ao fim da USRR

eda Gueraa Fria.Sãoreferências recentespara o debate críti

(5)

Nem

é

dif

í

cil imaginar contextos

autorit

á

rios onde redes de computadores,

velozes

e contendo

milhõ

es

de informaçõ

es

sobre

os cidad

õ

os

,sejam usadas para

con

-trolar e reprimir divergentes e opositores

.

Não apenas

nas

prisões,é claro,

mas tam

-b

ém

no

que deveria

ser a

vida privada

.

Na Educaçã

o

,saltam

aos

olhos

os

fetiches

tecnicistas

,que fazem das m

á

qui

-nas e

equipamentos soluçõ

es

miracuiosas

para

os

problemas todos que

atravessam

a

vida social

e o

cotidiano escolar

.

Reite

-rá

ndomela

via ingé

nua e

ideol

ó

gicas ilu

-s

ó

ria passagem do pa

í

s

pobre

e

atrasado para

o

pa

í

s

moderno,gra

ças

à

tecnologia

ultramoderna

.

so

, da eficiência e da qualidade

.

Em

re

-sumo

, trata

-

se

de fazer

a cr

í

tica das representaçõ

es

que o capitalismo moder

-nizado

e

globalizado faz de si

mesmo

,quer

como

“fim da Hist

ó

ria", quer

como

plena

racionalidade

.

O mito da qualidade total

é

, sob

muitos aspectos,

o

do m

á

ximo controle,uso

e exploração do corpo,do tempo,da ima

-ginaçã

o

do

trabalhador

,que deveria estar

inteiramente ligado

à

l

ó

gica do

trabalho e

da produçã

o

material eficiente,resultando disso

um

ximo de acumulaçã

o

privada

de riqueza socialmente criada

.

Sem

a

contrapartida

^

claro,de

um

ximo pos

-s

í

vel de distribuiçã

o

da riqueza material

e

cultural socialmente criada

.

Ou

seja,

os

imperativosdoreino da necessidade

e

ape

-nas os

fantasmas da

liberdade

e

da felici

-dade,para compensar ilusoriamente

as

privaçõ

es e car

ências da vida quotidiana

.

Cabe

lembrar que,

na l

ó

gica do trabalho e da produçã

o nesta

etapa globalizada do capitalismo,

as

redes de

computadores são,ao

mesmo

tempo, fun

-çõ

es

da velocidade

e

da

eficiê

ncia

,

mas

tamb

ém

do controle

.

i

At

é

nos

exemplos

menores

,do

co

-tidiano do trabalho,

h

á

exemplos de

como

a inform

á

tica

se

põ

e a

servi

ç

o

do controle

dos movimentos

e

fala dos que trabalham

nas

empresas mais modernas,permitindo

calcular

o

tempo gasto

em

cada tarefa, além de cada pausa

.

Com

o

evidente

objetivo de limitar

o

tempo livre,

a

imagi

-nação solta tudo que escape

ã

m

á

xima

eficiência do corpo

e

do tempo do

tra

-balhador,

Isto posto,ter

í

amos uma

esp

é

cie de Integraçã

o

nacional gra

ças

à

s

redes de computadores,eliminando diferen

ças

regi

-onais,

de

renda, de classe,de cultura,de

religiã

o

,tornando

o

Brash

uma vasta

"

unida

-de

coesa

"

.

Ao imagin

á

rio da facilidade, do

acesso

simples,da integraçã

o funcional e

ass

é

ptica,do

"

moderno"

como

Ilusão

e

ide

-ologia, cabe contrapor, sempre

e com o

necess

á

rio rigor,

a

educa

ção como

cons-trução

cr

í

tica, difícil

e

contraditó

ria,quoti

-diana

e constante

,insepar

á

vel das profun

-das divisõ

es e

diferenças que caracterizam

a

formaçã

o

hist

ó

rica

e

social do Brasil

.

Por

-tanto

,jamais

a

Educaçã

o como

panac

é

ia

universal,tecnol

ó

gica

ou

nã

o

.

Aqui,cabe lembrar

a

figura cr

í

tica

do

fracasso

programado,usada pelos edu

-cadores brasileirospara indicar osexclu

í

dos,

os repetentes,

os

pobres,os "burros

"

e os

"in

-capazes",cujo "fracasso" está previsto pela

33S »

(6)

l

ó

gica do sistema

.

J

á

que se destinam ao trabalho manual

e aos cursos

t

é

cnicos

Ja

-mais à Universidade,

ao

trabalho intelectu

-al,às posições de mando

e

de poder

.

Indicação clara de formas estrutu

-rais de violência

e

de exclusão,marcando

as

margens do Brasil Colónia

e

do Brasil moderno: analfabetos, repetentes, eva

-didos das escolas

no

contexto do trabalho infantil,dos sal

á

rios vis,da pobreza materi

-aUimites

evidentes

à

criaçã

o

de

uma

socie

-dade justa e emancipada

.

imposs

í

vel esquecer

o

tributo,pe

-sado

e

violento,que

milh

õ

es

de crian

ças e

adolescentes

pagam

ao

trabalho Ilegal,

e

a

conseqüente injusta acumulaçã

o

da

í re

-sultante

.

Uma vez mais,não vou citar n

ú

-meros

,listar

estat

í

sticas,comparar tabelas,

quantificar

os massacres

,expor gr

á

ficos da

violência estrutural

e

sistem

á

tica da socie

-dade brasileira

.

Mas

vou

enfatizar que

en

-dossar

os

mitos f

á

ceis da modernizaçã

o

, funcional e técnica,limpa

e

eficiente,

é

si

-nónimo de endossar a pr

ó

pria barb

á

rie,

tornando ausente

/

neutra",a violência his

-tórica e social

.

rindo ao existente,

nem

repita

os erros

do

passado

.

Ou seja,

o

socialismo

como

pro

-jeto que incorpore

e

realize

os

mais altos

valores democr

á

ticos deve

se

dissociar dos rescaldo das burocracias estatais, do pla

-nejamento central

e

da ineficiência, dos partidos

ú

nicos

e

autorit

á

rios

.

Sen

ão, fica

f

á

cil contrapor "centralismo burocr

á

tico",

autorit

á

rio e ineficiente,à

s

maravilhas da

empresa

e

do mercado capitalistas

<

4

>

.

A

crí

tica enf

á

tica

ao pensamento

autorit

á

rio e burocrático,assim

como

à

vio

-l

ência hist

ó

rica dos processos de moder

-nizaçã

o

do capitalismo,

à

vasta

barb

á

rie

que

atravessa

o s

é

culo

XX

n

ã

o

precisa de

-sembocar

numa recusa

radical do pensa

-mento racional,da heran

ça

do lluminismo

e

das tradiçõ

es cr

í

ticas

construí

das nos s

é

-culos

XVIII

, XIX

e

XX

.

É mesmo

dif

í

cil perceber

como o

pensamento racional

e cr

í

tico pode ser

substitu

í

do,

com

proveito para

as

lutas de

superaçã

o da barb

érle

e

da vlolência

.

pelo

pensamento das diferenças abstratas,dos

fragmentos soltos da vida social,pelas deri

-vas

do desejo,pela aceitaçã

o rom

ântica,

ou mesmo

aristocr

á

tica,de valores ligados

ã potência vital,apontando para

uma

tam

-b

ém

abstrata

"

transvaloraçã

o

de todos

os

valores"

.

Como

cr

ítica radica! da cultura

i

-capitalista

,

cabe sempre enfatizar que a

mercadoria

e os

simulacros de

massa

da

mercadoria, que todo

o

imagin

á

rio ligado

ao consumo

de mercadorias,nã

o

pode

ser

mais que

um

empobrecimento,

uma

páli

-da e vergonhosa caricatura da felicidade,

da vida boa, da justi

ça e

da liberdade

.

Por via de conseqüência,

é

enf

á

-tica

a

necessidade de um pensamento crí

-tico que nã

o

abandone suas tarefas,ade

-É ainda mais difícil entender

como

o pensamento abstrato, que separa

a

lin

-guagem,

os textos e os

discursos,

o

imaginá

-rio

e suas

representaçõ

es

,de

seus

contextos

sociais

e

materiaisdeprodução erecepçã

o

,

poderá dar

conta

da tarefa crítica de

cons

-truir o caminho que supere a barb

á

rie hist

ó

-76

(7)

É

importante

manter

viva

a

memó

-ria da verdadeira virtude

vica,p

ú

blica

e

necess

á

ria

a

toda

a

humanidade,

em

contraposiçã

o aos

med

í

ocres e

oportunis

-tas

que

se

apresentam

como

"homensp

ú

bli

-cos

"

,

mas

n

ã

o

fazem mais que viver

à

som

-bra de algum poder,ciosos

e

zelosos de

seus

grandes ou pequenos interesses

.

Penso nos militantes

an

ónimos das

melhores

causas

,que

correram

riscos e

se

mantiveram

coerentes

e permaneceram

an

ónimos,sendo de todo In

ú

til buscar

seus

nomes nos

livros de Hist

ó

ria

.

Resistiram

à

barb

á

rie

a

partir do cotidiano,do ângulo

do cidadã

o comum

,que

se

compromete

e

busca construir

a

humanidade: livre,adul

-ta

,

aut

ónoma,emancipada,educada para

resistir à violência

e

à

barb

á

rie, Admir

á

veis,

e

an

ónimos,

s

ã

o os

exemplos

concretos

de que

a

humanidade pode

ser

criada

.

Penso agora

no

admir

á

vel Galileu,

Galileide Bertold Breeht,exemplo

marcante

de

uma

continuada luta

contra

o

dogma

-tismo

e a

intolerância

.

Penso,sobretudo,no

momento

em que o velho Galileu Isolado e

controladopela Inquisiçã

o

,vivendo fora dos

centros

urbanos importantes,recebe a visi

-ta de

seus

discípulo,Andrea Del Sarto,que

fora por Galileu educado desde a infância,

no

sentido de buscar a verdade,

Na

cena

,quando tudo faria supor

que Galileu fora derrotado,

e com

ele toda uma luta pela emancipaçã

o

humana e

pela busca da verdade,quando tudo pa

-recia indicar

a

justeza da decepçã

o do

dis

-c

í

pulo diante do mestre derrotado pela vi

-olência obscurantista da Inquisiçã

o

,

nesse

momento Galileu passa ao disc

í

pulo

um

rica e as situações concretas de

coer

ção e violência que limitam,

na

pr

á

tica,

a autono

-mia

e a

emancipaçã

o

dos sujeitos

.

Posto à deriva,

o

pensamento

cr

í

ti

-co se

enfraquece,

ou mesmo

desaparece, dando lugar

a

variadas ilusõ

es

: das diferen

as

abstratas, jamais referidas

a

qualquer

totalidade; de fragmentos à deriva,jamais relacionáveis a sistemas; de situações ide

-ais de fala,onde se possa executar ações

comunicativas,angelicais

e

livres de

coer

-çã

o e

violência;de paixõ

es e

desejos

erran

-tes

,sempre derivando,

o

tempo todo supe

-riores

à

aridez da

raz

ã

o crí

tica; de

significantes

sem

significados sociais

.

Ou

mesmo

,

no extremo

oposto,de fetiches da

ciência, fechados e dogmáticos,que ten

-tam tornar

"cient

í

fico

"

o

conhecimento so

-bre

o

homem vivendo

em

sociedade

.

Diante da crise

e

das posiçõ

es

que derivam para

o

desencanto

e o

ceticismo,

à

s vezes

para

o

cinismo

ou a

franca ade

-sã

o,

outras

para

uma

aceitaçã

o acr

í

tica dos

aparatos t

é

cnicos

e

administrativos

,cabe

lembrar que o legado filos

ó

fico,político,

cultural e cient

í

fico,que forma a melhor tra

-diçã

o

do mundo moderno,foi

o

mais das

vezes

construído

em

condiçõ

es

difíceis,de

perseguiçã

o e censura

, prisã

o e tortura

,

exílio e morte

.

Sempre foram formas de resistir,de

pensamento e ação que correram riscos,

buscando

a

autonomia

e a

emancipação humanas diante das for

ças

da heteronomia,

do controle,do dogma

e

da ignorância,da

violência física

e

simb

ó

lica,do medo

como

parteiro do conformismo

e

da submissã

o

.

f

|

02

(8)

manuscrito,mais

um

resultado de

sua

bus

-ca

pela verdade do conhecimento, que

depois circulará por toda

a

Europa

.

Penso

em

seguida,

com

todo

o res

-peito e admiraçã

o

,em Antonio Gramsci e

suas

Cartas do C

á

rcere

.

Preso pelos fascis

-tas para nã

o

pensar,para ficar calado

e

reduzido

à

impotência,

Gramsci

constr

ó

i,no

rcere

e em condiçõ

es

duríssimas,

um

pre

-cioso legado crítico,pol

í

tico e cultural,

ú

til

para toda

a humanidade

.

Cito,

como

exemplo de rigor e

grandeza

c

í

vica,

um

dos

momentos em

que

Gramsci (1966:

143

), via Romain Rolland,

contrapõ

e o desencanto e o

ceticismo

da

raz

ão

ao

otimismo da atividade pr

á

tica:

O homem não deveria desespe

-rar nunca,nem cair naqueles estados

de espírito vulgares que se chamam otimismo e pessimismo

.

Meu estado de espírito sintetiza estes dois senti -mentos e os supera: sou pessimista

com a inteligência mas otimista pela

vontade”

.

A

partir da geografia limitada das pris

õ

es

,Antonio Gramsci continua criando

o projeto político educativo de emanci

-pação e autonomia da humanidade

.

Como fez,um pouco

antes

e també

m

em

condições multo dif

í

ceis,

com

rigor e deli

-cadeza,Rosa Luxemburgo

.

Ao leitor afoito,que porventura

a

í

percebesse

o

elogio do 'mart

í

rio" e do "heroísmo",quase cristãos,quase um elogio

do sofrimento e da dor

,

vazios e derivando

logo para

o

sentimentalismo

e

a ret

ó

rica,

indico logo

o

equ

í

voco

.

Trata

-

se

do elogio da virtude cívi

-78

ca

do homem

comum

, que trabalha, se

educa,luta,constrói o caminho da autono

-mia

e

da emancipaçã

o como

possibilida

-de humanas

.

É o contexto em que dureza

e ternura se juntam,

com

rigor,e o homem

aponta para aiém da violência

e

da barb

á

rie

.

Depois de todas

as

crises e fracas

-sos

da Modernidade,

é

certo que ainda

ve

-remos

muito desencanto

e

muito ceticismo,

mesmo

isentos de qualquer oportunismo

.

É

o

momento

em

que

se

pergunta,a fundo,

se

a

Hist

ó

ria pode

ser

mais que sucessivos banhos de sangue,

um

infind

á

vel desfile de

atrocidades,violência

e

atos b

á

rbaros,

sem

qualquer chance de superaçã

o

.

A prop

ó

sito,permitam

-

me

citar Italo Calino (1990: 149 el50)

.

No final do li

-vro Ascidades invis

í

veis,

uma

vez

mais dialo

-gam Marco Poio

e

Dublai Khan

.

Perguntam

pelas cidades invis

í

veis,que

os

mapas ain

-da

n

ão registram,

Serão elas cidades ideais,

como

a

Nova Atlântida

,

Utopia

,

Cidade do Sol,

Oceana,Tamo

é

,Harmonia,New Lanark?

Ou

ser

ã

o

as

"

ameaç

adoras cidades que

sur

-gem

nos

pesadelos e maldiçõ

es

: Enoch,

Babilónia,Yahoo,Butí

ra

,Brave New World?"

.

Diz Kublai Khan:

*É tudo inútil,se o último porto só

pode ser a cidade infernal, que está

no fundo e que nos suga num vór -tice cada vez mais estreito”

.

E Marco Polo:

"O inferno dos vivos não é algo

que será: se existe, é aquele que está aqui, o inferno no qual vivemos

todos os dias, que formamos estan -do juntos. Existem duas maneiras de

não sofrer. A primeira é fácit para a

maioria das pessoas: aceitar o

infer-no e tornar-se parte até o ponto de deixar de percebê-lo

.

(9)

A segunda é arriscada e exige

atenção e aprendizagem contínuas:

tentar saber reconhecer quem e o

que, no meio do inferno, não é infer -no, e preservá-lo, e abrir espaço*

Sem deuses, a humanidade pre

-cisa inventar

a

si

mesma

.

Precisa inventar sua liberdade,

sua

autonomia

e sua eman

-cipação

.

É

,

sem

d

ú

vida, a mais difícil e

demorada das tarefas

.

Renunciar

a

ela,

no

entanto

,

é

aceitar a barbárie,

é

tornar-se

parte do inferno,

é

conformar-

se até o

total

esquecimento

.

Com toda

a

clareza,

a ta

-refa

é

reconhecer

em

meio

ao

inferno aqui

-lo que

o é

Inferno

.

Para abrir espa

ço.

Para superar

a

violência

e a

barb

á

rie

.

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Referências

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