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Estudos Mínimos [Versão provisória]

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Academic year: 2021

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ESTUDOS MÍNIMOS SOBRE A LÍNGUA, O DIREITO E A LEGÍSTICA

[VERSÃO PROVISÓRIA]

RAUL GUICHARD

Vor dem Gesetz steht ein Türhüter. Zu diesem Türhüter kommt ein Mann vom Lande und bittet um Eintritt in das Gesetz. Aber der Türhüter sagt, daß er ihm jetzt den Eintritt nicht gewähren könne. Der Mann überlegt und fragt dann, ob er also später werde eintreten dürfen. ‘Es ist möglich, sagt der Türhüter, jetzt aber nicht’. Da das Tor zum Gesetz offen steht wie immer und der Türhüter beiseite tritt, bückt sich der Mann, um durch das Tor in das Innere zu sehn. Als der Türhüter das merkt, lacht er und sagt: ‘Wenn es dich so lockt, versuche es doch, trotz meines Verbotes hineinzugehen. Merke aber: Ich bin mächtig. Und ich bin nur der unterste Türhüter. Von Saal zu Saal stehen aber Türhüter, einer mächtiger als der andere. Schon den Anblick des dritten kann nicht einmal ich mehr ertragen’. Solche Schwierigkeiten hat der Mann vom Lande nicht erwartet; das Gesetz soll doch jedem und immer zugänglich sein, denkt er, aber als er jetzt den Türhüter in seinem Pelzmantel genauer ansieht, seine große Spitznase, den langen, dünnen, schwarzen tatarischen Bart, entschließt er sich, doch lieber zu warten, bis er die Erlaubnis zum Eintritt bekommt. Der Türhüter gibt ihm einen Schemel und läßt ihn seitwärts von der Tür sich niedersetzen. Dort sitzt er Tage und Jahre. Er macht viele Versuche, eingelassen zu werden, und ermüdet den Türhüter durch seine Bitten. Der Türhüter stellt öfters kleine Verhöre mit ihm an, fragt ihn über seine Heimat aus und nach vielem andern, es sind aber teilnahmslose Fragen, wie sie große Herren stellen, und zum Schlusse sagt er ihm immer wieder, daß er ihn noch nicht einlassen könne. Der Mann, der sich für seine Reise mit vielem ausgerüstet hat, verwendet alles, und sei es noch so wertvoll, um den Türhüter zu bestechen. Dieser nimmt zwar alles an, aber sagt dabei: ‘Ich nehme es nur an, damit du nicht glaubst, etwas versäumt zu haben’. Während der vielen Jahre beobachtet der Mann den Türhüter fast ununterbrochen. Er vergißt die andern Türhüter und dieser erste scheint ihm das einzige Hindernis für den Eintritt in das Gesetz.

Er verflucht den unglücklichen Zufall, in den ersten Jahren rücksichtslos und laut, später, als er alt wird, brummt er nur noch vor sich hin. Er wird kindisch, und, da er in dem jahrelangen Studium des Türhüters auch die Flöhe in seinem Pelzkragen erkannt hat, bittet er auch die Flöhe, ihm zu helfen und den Türhüter umzustimmen. Schließlich wird sein Augenlicht schwach, und er weiß nicht, ob es um ihn wirklich dunkler wird, oder ob ihn nur seine Augen täuschen. Wohl aber erkennt er jetzt im Dunkel einen Glanz, der unverlöschlich aus der Türe des Gesetzes bricht. Nun lebt er nicht mehr lange. Vor seinem Tode sammeln sich in seinem Kopfe alle Erfahrungen der ganzen Zeit zu einer Frage, die er bisher an den Türhüter noch nicht gestellt hat. Er winkt ihm zu, da er seinen erstarrenden Körper nicht mehr aufrichten kann. Der Türhüter muß sich tief zu ihm hinunterneigen, denn der Größenunterschied hat sich sehr zu ungunsten des Mannes verändert. ‘Was willst du denn jetzt noch wissen?’ fragt der Türhüter, ‘du bist unersättlich’.

‘Alle streben doch nach dem Gesetz’, sagt der Mann, ‘wieso kommt es, daß in den vielen Jahren niemand außer mir Einlaß verlangt hat?’. Der Türhüter erkennt, daß der Mann schon an seinem Ende ist, und, um sein vergehendes Gehör noch zu erreichen, brüllt er ihn an: ‘Hier konnte niemand sonst Einlaß erhalten, denn dieser Eingang war nur für dich bestimmt. Ich gehe jetzt und schließe ihn’.

F. Kafka

[Em frente da Lei está um guarda, junto do qual chega um homem vindo do campo que lhe pede que o deixe entrar. Mas o guarda diz-lhe que de momento não lhe pode franquear a entrada. O homem reflecte e pergunta se poderá entrar mais tarde. ‘É possível’, responde o guarda, ‘mas neste momento não’. Como a porta que conduz à Lei está aberta, como de costume, e o guarda se afasta para o lado, o homem inclina-se para espreitar através da entrada. Quando o guarda se apercebe disso, ri-se e diz: ‘Se está tão tentado a entrar, apesar da minha proibição, experimente. Mas repare que sou muito forte e, mesmo assim, sou apenas o guarda menos importante. De sala para sala, encontrará um guarda em cada porta, sendo cada um deles mais possante do que o anterior. E o aspecto do terceiro é já, mesmo para mim, insuportável’. Com tais dificuldades não esperava deparar o homem vindo do campo, devendo a Lei, na sua opinião, ser acessível a todos em qualquer altura. Contudo, ao olhar mais de perto o guarda, envolto na sua capa de peles, com o seu enorme nariz pontiagudo e uma barba fina à tártaro, decide ser preferível esperar até obter autorização para entrar. O porteiro dá-lhe um banco e deixa-o ficar sentado ao lado da porta. Ele ali permanece à espera durante dias e anos. Faz muitas tentativas para que o

(2)

2

deixem entrar e fatiga o guarda de tanto o importunar. Este interroga-o frequentemente, questionando-o acerca da sua casa e de muitos outros assuntos. Essas perguntas são, porém, feitas num tom bastante indiferente, tal como procedem os grandes senhores, e acabam sempre com a afirmação de que a entrada não é permitida. O homem, que se provera de toda a espécie de coisas para a sua viagem, desfaz-se de tudo o que possui, valioso ou não, na esperança de subornar o guarda. Este aceita as ofertas, dizendo no entanto quando as arrecada: ‘Aceito isto apenas para evitar que pense que descurou algo’. Durante todos esses longos anos, o homem observa o guarda quase incessantemente. Esquece-se dos outros guardas, e aquele parece-lhe o único impedimento entre ele próprio e a Lei.

Nos primeiros tempos, amaldiçoa em voz alta a sua má sina; mais tarde, à medida que vai envelhecendo, apenas resmunga para consigo. Cai outra vez na meninice e, desde que no demorado estudo que fez do guarda aprendeu a conhecer até as pulgas pousadas na sua gola de pele, pede a estas ajuda para o persuadir a mudar de ideias. Finalmente, já mal vê e não sabe se está realmente escuro ou se são os seus olhos que o enganam. Todavia, mesmo no meio da escuridão, consegue distinguir um clarão de luz brilhando inextinguível através da porta da Lei. Mas a sua vida aproxima-se agora do término. Antes de morrer, tudo o que suportou durante todo o tempo em que permaneceu à espera emerge no seu espírito numa única pergunta que nunca pusera ao porteiro. Chama-o com um gesto, visto já não poder erguer o seu corpo entorpecido. O guarda tem de se curvar bastante para o ouvir, dado a diferença de estatura entre eles se haver acentuado muito. ‘O que é que deseja ainda saber?’, pergunta. ‘Você é insaciável.’ ‘Todos procuram alcançar a Lei’, diz o homem; ‘como se explica, portanto, que, ao longo destes anos, ninguém a não ser eu tenha buscado o acesso a ela?’ O porteiro sente que o homem está próximo do fim e que tem dificuldade em ouvir, pelo que brada ao ouvido: ‘Ninguém excepto você pode entrar por esta porta, pois ela foi-lhe destinada. Vou agora fechá-la.’ (tradução nossa)]

I. AS AFINIDADES ENTRE O DIREITO E A LÍNGUA

1. Partamos de um truísmo, de uma platitude, avancemos da

constatação de que o direito (ius) e a língua (sermo) estão – na sua

natureza, estrutura, função e desenvolvimento – próximos e apresentam

abundantes similitudes (e conexões)

1

.

Conforme observa Paolo di Luca, a afinidade entre a linguagem e o

direito (e o dinheiro, que se adirá à comparação, partindo da função

compartilhada com aqueles, de “instrumento de permuta ou intermediação

intersubjectiva” – assim para um paralelo entre a língua e o dinheiro já

Ovídio e Quintiliano) é tríplice: na terminologia aristotélica serão afins pela

causa efficiens, consistindo num desenrolar histórico, não voluntarístico ou

contratual, pela causa materialis, no seu quid ou conteúdo normativo, e

pela causa finalis, enquanto preenchem a função, necessária ou automática,

de tornar possível as relações entre pessoas.

2. Mais em pormenor, diz-se ou disse-se que os dois constituem um

produto do pensamento humano. E partilham uma base convencional, são

instituições sociais e culturais, forjadas num processo de estratificação

histórica de uma tradição própria (no interior de uma determinada

comunidade). Espelham o “carácter de um povo” e as suas idiossincrasias.

1

Nas palavras de Vassilis G. Koutsivitis: “Langue e droit partagent la même historicité et le même caractère éminemment social: il y a une formidable analogie entre les origines, le dévelopement et la structure du droit et de la langue”.

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ESTUDOS MÍNIMOS SOBRE A LÍNGUA, O DIREITO E A LEGÍSTICA [VERSÃO PROVISÓRIA]

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Em boa medida, não são fruto voluntarístico da razão humana, nem uma

sua invenção ou criação. Escreveu o renomado linguista e jurista Jacob L.

K. Grimm que “[s]o unsinnig es wäre, eine Sprache […] erfinden zu

wollen, ebensowenig kann der Mensch mit seiner einseitigen Vernunft ein

Recht finden”. Não obstante a sua diversidade, mostram-se universais e

necessários. Têm uma aptidão pervasiva e neles reentra toda a nossa

experiência (embora nelas estejamos tão emersos que bem nos podem

passar despercebidos – “o peixe é sempre o último a descobrir a água”).

Representam vínculos sociais, como já Cícero havia posto a claro,

indicando tratar-se dos elementos mais importantes da cidadania e da

identidade social. E permitem estabelecer relações intersubjectivas – o

“comércio”, nos dois sentidos originários da palavra, ou seja, relação de

troca e relação social. Traduzem fenómenos normativos (embora,

provavelmente, os filólogos prefiram falar de regras e não de normas),

“estruturas ordenadoras” da realidade. Tem, acaso, na sua origem processos

consuetudinários. Estando sujeitos ambos a evolução – pars translatitia,

pars nova, pars caduca. Neles se reflectindo o antiquíssimo conflito entre

praesciptum e receptum, conforme lembra R. Haas. Em ambos se pode

ainda observar o diálogo entre a subjectividade e a objectividade (social), o

colóquio entre o impulso e a acção individual (dado o seu carácter não

exaustivo), por um lado, e a coercibilidade e a convenção ou regra (ainda

que esta porventura emirja supervenientemente), por outro.

Continuando com J. Grimm: “Entre o direito e a língua reina uma

profunda analogia. A sua essência comum reside, a meu ver, na sua igual

ancianidade, e na sua igual juventude. Ambos assentam num impenetrável

e antigo fundamento, e numa tendência a se regenerarem sem cessar. Este

elemento inovador está porém estreitamente ligado ao outro… A língua e

direito têm uma história, há neles um laço que reúne o passado e o

presente, a necessidade e a liberdade”. Acentua ainda o autor o carácter

forçosamente autóctone do direito (exaltando a superioridade do antigo

direito teutónico e opondo-se à recepção do direito romano). E perscruta,

em particular no seu estudo Von der Poesie im Recht, as formas poéticas

2

e

simbólicas em que foram ricos o direito e a sua linguagem nos

ordenamentos antigos, com o seu acentuado simbolismo gestual e

ritualismo, fazendo mesmo adivinhar uma forte identificação; teríamos aí

bons e abundantes exemplos de elementos poéticos: metáforas, ampliações,

2

A relação entre a poesia e o direito está decidida e profundamente ancorada na mitologia: Odin (do nórdico antigo Óðinn), o deus principal da mitologia nórdica (Wōden em anglo-saxónico, Wodan em saxónico antigo dos Países-Baixos, Wotan ou

Gaut em alto-alemão antigo, Wōdanaz em proto-germânico), era, como corresponde ao

seu étimo, o deus da poesia, do furor e do direito; Apolo, o deus das Musas, do canto, da música e da poesia, foi o criador das leis, os nomoi (nomos, deus e direito masculinos, ao contrário da nemesis, dike e dikaiosyne).

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4

aliterações, tautologias, ritmos prosódicos (e, acaso, quase hipnóticos) e

rimas

3

.

3. A analogia debuxada (com formulações algo datadas, é certo, que

adiante temperaremos) entre o direito e a língua pode ser prolongada num

rápido cotejo das normas jurídicas com as gramaticais. Seja o direito, seja a

língua, ordenam ou pretendem reger a realidade. Conforme assinala S.

Pugliatti, seja à gramática, seja ao direito, tem sido atribuído carácter

normativo – e as disciplinas que os tomam como objecto dir-se-ão ambas

ciências nomográficas, de acordo com a raiz do termo (na verdade, traços

ideográficos são também facilmente identificáveis nas duas). E também no

cenário linguístico encontra curso a teoria da Anerkennung, proposta para

explicar a vigência e validade do direito. Além disso, as normas legais e

gramaticais comungam de uma similar circunspecção ou discrição: da sua

existência damo-nos conta quando transgredidas, ou seja, em situações

patológicas. Quer o direito (as normas) quer a linguagem (as palavras e a

gramática) “is taken for grant, a basic datum” (S. Chase). O “legislador da

língua” será porém, notou-o Platão, aquele que mais raramente se

pronuncia. E o desenvolvimento ou evolução da língua

4

raramente (se

alguma vez isso aconteceu) conhece soluções de continuidade, mutações

súbitas e desordenadas, menos ainda revoluções. A contraposição entre a

“realidade vigente” e a “norma ideal” sempre se manifestou também em

ambos (tal como a contraposição entre a unicidade ou a unificação, e a

multiplicidade ou diversidade). Por outro lado, para ambos, a violação das

respectivas normas não põe em causa a sua obrigatoriedade (pelo menos

dentro de certos limites; embora se possa perguntar se aqui não reside uma

diferença). Costuma-se igualmente salientar o carácter “alógico” de ambos

os tipos de normas.

4. Consabidamente, a historische Rechtsschule – os seus fundadores

e autores mais representativos, como Friedrich Carl von Savigny

5

, Jacob

3

Refira-se, para ilustrar este último ponto com um exemplo não muito distante, a formulação quase poética do § 164 II do BGB: “Tritt der Wille in fremdem Namen zu handeln hervor, so kommt der Mangel der Willens, im eigenem Namen zu handeln, nicht in Betracht”. Todavia, nessa sua redacção, o preceito levanta fartas dúvidas interpretativas e de compreensão, particularmente para um leigo. Por isso, têm sido propostas redacções alternativas – mais prosaicas mas, simultaneamente, mais claras e explícitas, conquanto sem alteração do conteúdo. Nomeadamente: “Wer nicht erkennbar als Vertreter handelt, handelt für sich selbst – auch wenn dies nicht wollte”.

4

Sobre o tema, introdutoriamente, Peter von Polenz, Deutsche Sprachgeschichte vom

Sptätmittelalter bis zur Gegenwart, I, Einführung; Grundbegriffe; Deutsch in der frühbürgerlichen Zeit, Berlin, 1991, págs. 24 e ss.

5

Influenciado por Schelling e Hegel. Mormente em Vom Beruf unserer Zeit zu

Gesetzgebung und Rechtswissenschaft (título que, significativamente, W. Flume haveria

de retomar a propósito da alteração do BGB pela Fernabsatzgesetz de 2000), tido como o manifesto da Escola Histórica e contendo uma resposta ao escrito de J. Thibaut, Über

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ESTUDOS MÍNIMOS SOBRE A LÍNGUA, O DIREITO E A LEGÍSTICA [VERSÃO PROVISÓRIA]

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Grimm e, pioneiramente, Gustav von Hugo – tendia a aproximar o direito

da língua, vendo nesta um modelo para aquele, afirmando um estreito

paralelismo no concernente às origens, desenvolvimentos, estruturas e

funções de ambos.

Isso sucedeu quer por razões de fundo quer por razões retóricas ou

estratégicas. Quanto a estas últimas motivações, ao estabelecer-se uma

equiparação entre a língua e o direito pretendia-se consciente ou

inconscientemente convocar a tese, então em voga devido à grande difusão

do pensamento de Herder e Fichter, da raiz popular ou indígena da língua,

para dessarte se contrariarem os propósitos codificadores e as propostas de

transposição das soluções doutros direitos. Ou seja, fazia-se ecoar a

rejeição de um “esperanto linguístico” a fim de afastar um “esperanto

jurídico”; politicamente, estava latente um indisfarçável conservadorismo.

Sustentava-se que o direito

6

seria, talqualmente a língua, não produto

de um acto (nomotético) de criação ou invenção, obra de um rasgo

individual de vontade ou do arbítrio, nomeadamente da iniciativa de um

legislador, mas o resultado sistemático (o “ordenamento” ou “instituição”,

como dirão depois alguns) de um trâmite (nomogénico) formativo,

espontâneo e paulatino. Processo histórico e colectivo, que se desenrolaria

na comum consciência do povo (“gemeinsames Bewusstsein des Volkes”),

na convicção popular (“Volksüberzeugung”), nas forças silenciosamente

activas da comunidade (“innere stillwirkende Kräfte des Volkes”),

emanção da Volksseele, expressão afinal do Volksgeist, energia viva e

universal operante em todos os indivíduos. Idêntica índole cultural

(“valorativa” e até “metafísica”) e nacional revestiriam, desse modo, o

direito e a língua

7

. E o carácter mutável, o devir permanente de ambos é

explicado, logo por Savigny, com recurso a uma concepção organicista (de

desenvolvimento orgânico). Por outro lado, nos dois casos, à fase de

formação espontânea seguir-se-ia uma de elaboração teorética. Tal estádio

ulterior de progresso será, para o primeiro, a do “direito dos juristas” ou do

“direito científico” (“Juristenrecht” ou “wissenschaftliches Recht”) e, para

a segunda, a dos gramáticos. Um símile entendimento foi aliás estendida à

die Notwendigkeit eines allgemeinen bürgerlichen Rechts in Deutschland, apelando à

codificação do direito civil germânico. 6

E está em causa o direito positivo, embora de base consuetudinária, e não o direito natural. Como se diz, a concepção savigniana representa não uma doutrina do “direito de natureza”, do Naturrecht, mas uma doutrina da “naturalidade do direito”, do “natürliches Recht”. À distinção entre “natürliches Recht” e “Naturrecht” faz Grimm corresponder a oposição entre “poesia da natureza” e “poesia da arte”.

7

Para uma análise critico-metodológica da língua e do direito como expressão da identidade nacional, cfr. Pergiuseppe Monateri, “Cunning Passages”: Comparison and

Ideology in the Law and Language Story, in Ordinary language and legal language (a

(6)

6

cultura em geral (de que são componentes fundamentais o direito e a

língua).

Também G. Putcha, o sucessor do autor do System des heutigen

römischen Rechts em Berlim e o grande sistematizador da corrente

romanística da Escola histórica, se moveu por sendas próximas, acentuando

(no seu Lehrbuch der Pandekten e em Das Gewohnheitsrecht) que todo o

sistema de direito, à semelhança de qualquer língua, promana directamente

de uma comunidade à qual está inextricavelmente amarrado. O “carácter do

povo” (Volkscharakter) mostrar-se-ia no direito, na língua e nos costumes

próprios (de resto, certos “provincianismos”, em cada nação, dariam

também lugar a “direitos particulares” e a dialectos). Uma consciência

jurídica, uma língua e uma religião comuns (em parte, aliás, confundidas: o

cunho religioso e mágico do direito – e mesmo da língua, vertido por

exemplo “na linguagem como talismã e fetiche”, aspecto parcialmente

recuperado pelo surrealismo literário – persistiu durante muito tempo e

continua oculto nos recessos de certos juramentos, fórmulas e ritos

8

), eis os

8

Assim, ainda nos nossos dias, especialmente a common law. A esse propósito, nas palavras de Heikki E. S. Mattila, da sua excelente obra Comparative Legal Linguistic, Burlington, 2006: “Continuity is a special feature of the history of English law. For this reason, English legal language contains some traits typical of the Middle Ages or early modern times. This concerns the ritual character of the language and the meticulous respect for legal forms. These features largely stem from archaic verbal magic.

[…] The medieval law of England was marked by magical rites: the parties had to recite the words necessary for the course of the trial with absolute accuracy, under penalty of forfeiting their rights. This is clearly demonstrated by a mid 17th century trial: the claimant lost the case because the sheriff had written the word praecipimus [‘we order’] in the incorrect form of praecipipimus in the writ. This historical background, the fastidious approach of judges with regard to language – language as a fetish – is reflected in the common law culture of today: English and American lawyers still scrupulously respect the language forms in legal acts (at the same time, the ritual character of English legal language reflects common-law lawyers’ concrete thinking). This especially concerns the law of obligations. For greater certainty, today’s common-law common-lawyers repeat all the phrases and expressions traditionally used in contracts and other documents that they draw up. They are unwilling to move away from the phrases and expressions whose content has been fixed by the work of law courts over time. By way of precaution, American or English lawyers formulate their documents in exactly the same way as beforehand: why take risks? Their caution is well-founded. According to one author, the patent authorities in the United States require that a patent application be presented in the form of a single sentence. If not, the application is rejected. However, mechanical copying sometimes appears in a document without proper basis. An expressive example is formed by the letters ss, forming a separate note in the document, that lawyers use in affi davits. Nobody now knows what these two letters once meant. Several theories exist. Some believe that the letters ss stem from the word scilicet; others consider that they are merely a medieval mark to signpost a new paragraph in the text. These two letters appeared in forms for American legal documents until recently – provided, it is true, with a note explaining that their omission is not fatal.

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ESTUDOS MÍNIMOS SOBRE A LÍNGUA, O DIREITO E A LEGÍSTICA [VERSÃO PROVISÓRIA]

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elementos da unidade e integridade de um povo. Além disso, à imagem da

língua, o direito teria um carácter “orgânico” e normativo; e modificar-se-ia

(a componente histórica do direito e do seu conhecimento tenderá, no

entanto, a extraviar-se ou mesmo perder-se na Begriffsjurisprudenz,

similarmente ao que sucederá no estruturalismo com a acentuação da

dimensão sincrónica da linguística), embora sem extraviar a sua identidade,

reflexo ou projecção da do povo que o exprime.

5. Contudo, o paralelismo entre direito e língua, conforme observa

igualmente S. Pugliatti, está limitado por uma heterogeneidade

insusceptível de ser escamoteada, reflexo do antagonismo (de princípio)

entre, por um lado, valor ou deontologia e, por outro, facto ou ontologia.

E, num nível distinto, podem referir-se outras feições distintivas.

Enquanto sistemas normativos, se o direito contém tipicamente “normas”,

ou seja, valores exprimíveis em proposições aludindo a uma necessidade

incondicional (categórica), a língua compreende antes “convenções”,

“regras (técnicas)”, proposições exprimindo uma necessidade condicionada

(hipotética) ou instrumental, por referência a fins não vinculativos, isto é,

que o sujeito é livre de perseguir ou não. Como sistemas factuais, as

normas jurídicas são individualizáveis e qualificáveis sob o pressuposto de

uma organização “real” de poder, ao passo que as regras linguísticas estão

sustentadas por difusas relações estruturais e funcionais. E, no que respeita

à violação das respectivas normas, as consequências revelam-se igualmente

diferentes (embora quer a situação de completa anarquia linguística – se

figuráveis – quer a integral negação dos valores ou normas de um certo

ordenamento jurídico sejam capazes de engendrar estados de paralisia

social não dissemelhantes); mais pesadas no direito, ou seja, indo bem para

além da (mera) desaprovação ou incompreensão, e apresentando natureza

Language rituals are also in evidence in the language of the courts: this often contains obsolete phrases and structures. This is notably the case in procedural matters. For example, the cry Hear ye! (ye is the old nominative plural form, and you is the oblique plural form) and the standard phrase in the minutes Further affiant sayeth not = The affi ant has nothing else to say. The archaic character of legal language can also appear in word order: Comes now plaintiff ”.

A este propósito não se deixará de referir que, tendo Barack Obama cometido um lapso (induzido pelo Chief Justice, John Roberts, ao tentar ajudá-lo) quando pronunciou a fórmula do juramento na tomada de posse como Presidente (em vez de “I do solemnly swear that I will faithfully execute the office of President of the United States and will to best of my ability preserve, protect, and defend the Constitution of the United States” – segundo o Art. II, 1, § 8, da Constituição dos Estados-Unidos –, terá dito “I do

solemnly swear that I will faithfully execute the office of President of the United States and will to best of my ability preserve, protect, and defend the Constitution of the United States”; as imagens e o som do juramento estão disponíveis em

http://www.noquarterusa.net/blog/11706/barack-momentarily-forgets-the-oath-his-first-you-tube-moment-a-president/.), se apressou a repetir a cerimónia no dia seguinte, dadas as dúvidas que logo surgiram sobre a validade da sua investidura.

(8)

8

diversa e formas tipificadas (contudo, no domínio da infirmação dos efeitos

pretendidos, certas sanções jurídicas, designadamente a ineficácia e a

invalidade, assemelham-se aos “actos linguísticos falhados”).

Além disso, o contributo voluntarístico à modificação do direito e a

“disponibilidade” deste são bem maiores (a despeito do conservadorismo

de muitos juristas). Com efeito, a língua apresenta uma resistência notável

a alterações e reformas, sobretudo drásticas ou abruptas, nunca conhece

verdadeiras revoluções. Opõem-se a isso a sua complexidade e vastidão, a

inércia colectiva dos seus utilizadores e a sua “arbitrariedade”. F. Saussure

ia ao ponto de indicar, mas em termos que merecem reservas, que o

carácter arbitrário (e convencional, e a complexidade) da língua a separava

radicalmente de qualquer outra instituição

9

.

9

Apenas em jeito de precaução, junte-se que a arbitrariedade característica da língua deve ser tomada não propriamente como aleatoriedade, mas sim como inexistência de semelhança ou homologia, ausência de uma relação “natural” ou “interna” entre a língua e a realidade, entre o signo e a realidade ou coisa representada; ou, mais em pormenor e completamente, abarcando diferentes terminologias, nem entre os sons, as palavras, os símbolos, sinais e os conceitos, o sentido ou pensamento, a referência (lembre-se ainda a distinção operada por Peirce entre três níveis ou naturezas da relação signo-interpretante: rhema, correspondendo a termo, dicent, correspondendo a proposição, e argumento); nem, e isso é o que agora mais nos interessa, entre os primeiros e o objecto designado, o significado, o referente (e aliás nem sempre tal referência existe, conquanto se preserve o sentido, como o sustentou Frege – numa possível interpretação a significação em si, interna ou intrinsecamente, conterá o seu objecto, será uma forma sui generis de relação; ou poderá fazer-se decorrer a representação da função que o utilizador do signo lhe atribui para indicar a coisa em causa, conquanto haja então que explicar a intencionalidade “primitiva” das representações mentais). Quanto à relação entre signo ou significante e o objecto ou coisa referido, isso torna-se claro ao atender-se a que entre ambos se interpõe um elemento de mediação de natureza abstracta. O que precisamente é expresso na relação triádica com que se costuma explicar ou descrever a significação, sendo o intérprete absolutamente primacial quando a relação entre signo e objecto não seja de natureza icónica ou indexal, mas simbólica, como é muitas vezes o caso.

Ferdinanda Saussure (1857-1913, nascido na Suiça e professor em Genève, o pensador mais influente no desenvolvimento da teoria linguística e da semiologia da primeria metade do séc. XX, cuja obra fundamental só foi publicada postumamente, uma compilação pelos seus alunos das lições proferidas na universidade, o Cours de

Linguistique Générale, 1916), como se sabe, elegeu os termos signifié, para o conceito

ou representação mental de algo, e signifiant, para a imagem acústica de uma palavra, estando ambos numa relação arbitrária e convencional (aprendida aproximadamente do mesmo modo por todos os membros de uma comunidade linguística), formando o signe. As relações (posições relativas) entre signos, e não no “interior” destes, seriam fundamentais para a compreensão da língua, quer no seu todo, como sistema – depois dir-se-á como estrutura, falando-se em estruturalismo –, quer quanto às suas unidades, aos próprios signos.

Advirta-se também – pô-lo ainda em evidência Saussure – que, em contraste, a relação entre palavras ou expressões dentro de uma língua não é arbitrária mas grandemente

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ESTUDOS MÍNIMOS SOBRE A LÍNGUA, O DIREITO E A LEGÍSTICA [VERSÃO PROVISÓRIA]

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Pelas mesmas ordens de razões, a língua é política ou

ideologicamente menos enfeudada. Em termos ideológicos neutra pretende

mesmo S. Timpanaro, autor que, ainda neste contexto, menciona que

“lingua e diritto vadano progressivamente divergendo: il diritto diviene più

‘illuministico’, la lingua rimane ‘romantica’ ”. Porém, basta a constatação

histórica de que os dicionários se transformam por efeito das revoluções

para temperar tal entendimento

10

. E, segundo nota ainda Carbonnier, será

organizada, sendo tais estruturas a componente fundamental da língua (a qual temos de de aprender antes de podermos verdadeiramente desenvolver os nossos pensamentos, determinando ela por isso o modo como as nossas ideias, por sua vez, se estruturam). 10

Traga-se aqui, na exposição de Heikki Mattila, a experiência, para a linguagem jurídica, da Rússia soviética: “During periods of upheaval and revolution, the typical conservatism of legal language has sometimes given way temporarily to a radicalism requiring its total reform. This was the case during the French Revolution, when legal terminology dating from the feudal era was replaced by a terminology expressing bourgeois values. Another example that illustrates this notion particularly well, is the October Revolution in Russia.

The first years of Soviet power constituted a generally radical period. That was also evident in legal language. The former style of Russian chancelleries was abandoned and legal terminology was reconstituted. Terms considered to be expressions fromautocratic structures of the tsarist regime (for example gubernator, губернатор, ‘governor’) or as symbols of injustice and oppression (for example, politseiskii, полицейс кий, ‘police‘, or ekzekutor, экзекут ор, ‘executor of a punishment’) were abandoned. The same applied to expressions considered abasing to human dignity (for example, poddannyi, поддан ный, ‘subordinate’; also ‘subject’, or prosheni e, проше ние, ‘entreaty’), or as deriving from the archaic and solemn language of the Church. Naturally, other terms eliminated also included those expressing rejected social relationships (for example, akts ionernaia kompaniia, акционер ная компа-ния, ‘limited liability company’, or torgovyi kapital, торго вый капитал, ‘business capital’). As a counterweight, terms were created reflecting the socialist character of the new law (for example, sovet, совет, ‘[revolutionary] council’ or prodrazverstka, продразвёр стка, ‘obligation to hand over foodstuffs’).

The most radical reformers considered that the former terminology was entirely unsuited to the needs of the new society. It did not correspond at all to the revolutionary spirit of the times. In consequence, the term ‘offence’ [crime] (prestuplenie, преступле-ние), for example, was replaced by the expression ‘anti-social behaviour’ (‘socially dangerous act’) (sotsial’no opasnoe deistvie, социально опас ное дейс твие) and the term “punishment” (nakazanie, наказание) by the expression ‘measure of social protection’ (mera sotsial′noizashchity, мера социаль ной за щиты). As to the Civil Code of Soviet Russia (1922), the traditional terms ‘property’ (sobstvennost’, собствен ность), ‘rent’ or ‘lease’” (arenda, аренда) and ‘sale’ (kuplia-prodazha, купля-про дажа) were severely criticised. The latter term is a literal translation of the term emptio-venditio, deriving from classical Roman law.

The radical change of legal terminology was accentuated by the fact that the first decrees of Soviet power were not drawn up by professional lawyers but by ordinary citizens elected to decide common affairs. Account should also be taken of the revolutionaries’ general mistrust of lawyers – a typical phenomenon of societies

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10

lícito crer numa certa reversibilidade do efeito, e que as reformas, na falta

de revoluções, seriam auxiliadas por uma renovação do léxico.

6. Voltemo-nos mais exclusivamente para a língua. A qual constitui a

instituição primacial da sociedade humana – esta, se concebível de algum

modo sem direito (conquanto este também constitua uma instituição capital

de uma sociedade minimamente desenvolvida, sendo até dito a “linguagem

das instituições”), não o é seguramente sem a linguagem.

Com efeito, representa esta o precípuo instrumento de

relacionamente intersubjectivo. A nossa (desenvolvida) capacidade de “ler”

e compreender as intenções e estados mentais dos outros não seria sem ela

possível, representando nessa medida uma pré-condição da nossa vida

colectiva. Tão-pouco, claro, seria viável a comunicação e partilha de

experiências.

Em especial na fase de socialização, a linguagem, a língua exerce um

pertinaz e pervasivo domínio e influência sobre todos nós (mas é preciso

prevenir contra a solicitação de um certo “idealismo linguístico”,

reafirmando-se pois a interdependência da língua com as demais

instituições). Com ela nos confrontamos primeiramente. Mostrando-se

decisiva para a nossa identidade e personalidade (na sua dimensão social e

pública mas também individual ou privada, na nossa voz exterior mas

também interior – se os dois aspectos se podem distinguir na “narrativa

undergoing drastic transformation. All of this contributed to the fact that the first decrees of Soviet power contained very few legal terms in the strict sense.

Later, from the 1930s, the thought occurred in the Soviet Union that terminological radicalism had gone too far; it was a case of “childhood illness”. Indeed, the Soviet legislator abandoned the terms introduced during the revolutionary fervour and returned to the terms of former times. Illustrations of terms re-introduced include: ‘minister’ (ministr, ми нистр), ‘embassy’ (posol’stvo, посольст во), ‘prison’ (tiur’ma, тюрьма) and – a term already mentioned above – ‘offence’. The admission was made that the language of socialist law and that of bourgeois law were broadly the same, despite the fact that – according to socialist beliefs – both types of law were essentially different. This is why it was thought that the language traditions of the feudal and bourgeois periods could usefully benefit socialist society. In consequence, legal language once again became conservative under conditions of ‘established socialism’. In the 1980s, Soviet lawyer-linguists underlined that legal language ought to have a stable character: in legislative texts, especially, it was impossible to allow language experiments”.

Não se deixará também de referir as transformações da linguagem jurídica introduzidas e os termos forjados, em atenção ao carácter “nacional” e “popular” que o direito deveria revestir, na Alemanha nazi. Assim – a mero título de exemplo, e a par de um estilo pomposo, roçando até o ridículo –, os juristas passaram a ser designados por Rechtswahrer, os cidadãos por Volksgenossen, o direito civil por Volksgenössisches Recht. Mais em geral, cunham-se e usam-se repetidamente expressões como Volksgeist, Volksseele, Volksgemeinschaft, gesundes Volksempfinden, nationalsozialistische Volksanschauung, Rassenseele, Führerprinzip, Blut and Boden, Gemeinnutz, belange der Volksgemeinschaft, etc. Sobre isto, as concepções jurídicas nazis e o

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ESTUDOS MÍNIMOS SOBRE A LÍNGUA, O DIREITO E A LEGÍSTICA [VERSÃO PROVISÓRIA]

11

autobiográfica” de um sujeito). Quer a realidade imediata da criança quer a

que transcende o seu círculo mais estreito são assim estruturadas. O fluxo

intérmito dos acontecimentos e fenómenos, a torrente contínua dos factos,

ou o turbilhão da experiência (das nossas incontáveis vivências) firma-se,

(coagula-se, é “objectivado”) através da linguagem em conceitos e

categorias

11

(e dados discretos e identificáveis, cujas relações se

11

Adiante voltaremos a este assunto. Mas registem-se desde já alguns pontos com ajuda da exposição de A. G. Amsterdam / J. Bruner, no capítulo introdutório de Minding the

Law, Cambridge, 2000. Começam estes por observar que “[c]ategories are ubiquitous

and inescapable in the use of mind”. Dando depois a seguinte definição (provisória e aproximada) de categoria: “is a set of things or creatures or events or actions (or whatever) treated as if they were, for the purpose at hand, similar or equivalente or somehow substitutable for each other”.

Ainda, segundo os autores, a categorização tem sobretudo as seguintes funções: (i)

economia mental; (ii) utilidade pragmática; (iii) relevância para o grupo de referência

(dentro de certos histórias, sistemas, teorias e narrativas); (iv) poder comunal (criação e promoção da identidade e da solidariedade comunais); (v) gratificação pessoal; e (vi)

regulação do risco.

O jogo da categorização, de que todos são partícipes, suscita algumas perplexidades.

Primero, a capacidade humana para categorizar parece inexaurível, irredutível, e

frequentemente imprevisível, tanto e tão bem que é bastante difícil identificar um modus

operandi comum. Segundo, os seres humanos têm estranhamente pouca consciência – e

por vezes nenhuma – das categorias mais comuns com as quais operam na sua actividade cognitiva: “We experience the world as categorized and simply take this experience for granted, as given”. Terceiro, as nossas categorias derivam de noções mais abrangentes sobre o modo como o mundo realmente é, noções que, também por sua vez, tomamos por garantidas, de tal modo que perdemos a consciência ou a visão delas. “We want to take the world as processed through our comprehension of it as though it were simply there, unaltered and unalterable by our own conceptions about its nature”.

Há, por isso, que salientar algumas regras ou princípios capazes de nos guiarem através do complexo mundo e jogo do uso das categorias. (I) As categorias são feitas ou

fabricadas não descobertas ou encontradas. “For the most part, our categories do not

derive from the shape of the world but create it”. Além disso, os sistemas de categorias seriam difíceis de alterar. (II) Categorização é um acto de criação de sentido (“meaning making”). “To put something in a category is to assign it a meaning, to place it in a particular context of ideas”. “In the philosopher’s perspective, categorization is not only an act of reference, specifying what he thing in question is, but also an act of sense mak- ting, specifying how the category that includes this thing fits into our larger picture of the Shape of Things. Meaning making, as Frege long ago pointed out, includes both”. (III) As categorias implicam um mundo que as contém. “We remarked earlier that categories are usually derived or abstracted from either theories or stories – atoms being an example of the first, heroes and villains of the second. This, of course, is an oversimplification, though a useful one. Theories and stories are themselves a multiplicity of things, various and compound. It would be pointless to go into the particularities of how human thought or knowledge is organized under these two large headings. Our object is simply to note that whenever we categorize something, our choice of category implies (often unintentionally) some conception about where and

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12

estabelecem por via daquela; a língua intende, de resto, para a

hipostasiação ou reificação).

Mais do que isso (arranhando apenas a superfície das coisas, pois não

podemos, por espaço e incompetência, aqui desenvolver minimamente tais

pontos

12

): uma vez adquirida e desenvolvida na sua multiplicidade e

complexidade, a língua ou a linguagem (com palavras

13

) permite-nos

how that something fits into a broader vision of the world”. (IV) As categorias servem

funcções particulars (individuais e culturais). “In general, we can say that category

systems serve two major cultural functions, often simultaneously. One is to promote cohesiveness within cultural groups: to enable in-group members to sort out the world in the same or in complementary ways. […] But almost by virtue of that function, category systems can also serve to dominate other groups: to impose your system on

them”. “The basic point of our Fourth Rule of Categorization is that category systems

are, in the main, under human control. They are for something, and it matters greatly what they are for. Their consequences are serious, whether in holding a community together or establishing its hegemony over another. Category systems are rarely innocent. They impose larger-scale ideological structures not only on the workings of courts and legislatures – and the interpretations of them by their observers – but on the conduct of everyday life”. (V) As categorias impregnam, permeiam a prática. “Ways of categorizing get entrenched in institutions, in habits of life, in the very language we speak. Cultural historians take this process for granted. Even physics is subject to the process, as we know from Kuhn’s classic work on the resistance of scientific paradigms to disproof. And it is explicit in the law. The familiar legal canon that courts are ‘never to anticipate a question of constitutional law in advance of the necessity of deciding it’ expresses the notion that entrenched categories are privileged not only against precipitous amendment but against presumptuous inquiry”. (VI) As categorias nunca

são defintivas ou finais. “Our last maxim is intended to reminder that both minds and

cultures change under conducive conditions. When this conditions come about, categories crumble […]”.

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Uma introdução sintética, mas muito rica, aos aspectos em causa pode encontrar-se em Felice Cimatti, La scimmia che si parla. Linguaggio, autocoscienza e libertà nell'animale umano, Torino, 2000.

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Como se sabe, o que distingue essencialmente os animais superiores, os antropoides do homem é a linguagem com palavras, aqueles carecem da área de Broca como centro motor da linguagem. O que permitiu, afinal, o gradual desenvolvimento da linguagem, de uma tradição transmitida de geração em geração, e a evolução da escrita e a emergência de uma cultura (superior).

Assim descreve Bernhard Rensch, em Homo Sapiens. Vom Tier zum Halbgott, Göttingen, 1970, págs. 109 e ss., tal processo, no passado e na actualidade, nas suas potencialidades e riscos:

“Die wichtigste Hirnverbesserung, die sich bei der Vorderhirnvergrößerung herausbildete, war aber sicherlich die Entstehung der motorischen Sprachregion, die nun eine Verständigung innerhalb der Familie und der Horde, ein viel abstrakteres Denken und eine kulturelle Fortentwicklung durch Tradition möglich machte. So entstand der Homo sapiens. […] ‘Nur die Sprache hat den Menschen menschlich gemache … ‘ ‘Alle kommen wir zur Vernunft nur durch Sprache, und durch Sprache zur Tradition … ‘: So schrieb schon J. G. Herder im 2. Teil seiner ‘Ideen zur Philosophie der Geschichte der Menschheit‘ (1785). Und ebenso richtig beurteilte dieser

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13 aufgeklärte Theologe die Bedeutung der Schrift, von der er sagte: ‘Alle Nationen, die außer dem Wege dieser künstlichen Tradition lagen, sind nach unseren Begriffen unkultiviert geblieben.‘

Über die Entstehung der menschlichen Sprache können wir nur Vermutungen äußern. Es ist wenig wahrscheinlich, daß die Australopithecinen schon individuelle Erlebnisse mit Wörtern wiedergeben und anderen Hordengenossen mitteilen konnten. Wäre dies der Fall gewesen, so wäre die Verbesserung primitiver Steinwerkzeuge während einer Million Jahre nicht derart geringfügig gewesen. Vermutlich genügte das Zusehen bei der Herstellung und Benutzung, um die Tradition aufrecht zu erhalten und zu geringfügigen Verbesserungen zu kommen. Wir wissen auch nicht, ob die Menschen der Homo erectus- (Pithecanthropus-)Stufe schon eine eigentliche Sprache besaßen. E. Haeckel hatte ja diese von ihm zunächst rein theoretisch konstruierte Vorstufe des heutigen Menschen mit dem Artnamen ‘alalus‘, ‘sprachlos‘, gekennzeichnet. Vielleicht war das nicht ganz unzutreffend, denn zumindest muß sich eine mögliche Sprache dieser Frühmenschen wohl auf wenige Wörter bzw. Laute beschränkt haben, denn andernfalls, wäre auch in diesem Falle die Kulturentwicklung nicht mehrere hunderttausend Jahre lang so langsam erfolgt. Gerade daß erst mit der späten Altsteinzeit (Aurignacien) der schnelle und stetig beschleunigte Fortschritt der Kultur einsetzte, läßt vermuten, daß in dieser Periode erst ,eine eigentliche Sprache entstand, indem bestimmte Laute und Lautfolgen als Symbole benützt wurden, um nicht nur Stimmungen und manche Gegenstände, sondern auch Eigens;chaften, Vorgänge, sowie einige kausale oder logische Beziehungen zu bezeichnen. Das Denken in vorstellungsmäßigen Wortklängen erhielt vor allem deshalb eine so große Bedeutung, weil es weitgehend ungestört von gleichzeitigen visuellen Sinneseindrücken ablaufen kann, die bei uns Menschen stets vorherrschen. Bei Affen und ändern höheren Tieren können dagegen Vorstellungsfolgen über früher Gesehenes immer wieder überdeckt und unterbrochen werden durch die erregungsmäßig viel stärkeren visuellen Empfindungen (Enge des Bewußtseins). Denken vorzugsweise in Wortklangvorstellungen kann vornehmlich nur durch -starke Klangerlebnisse gestört werden. Bei Lärm können wir kaum nachdenken, was schon Schopenhauer betonte. Die Anzahl derartiger Wörter ist dabei wahrscheinlich lange Zeit sehr beschränkt und arm an weitgehenden Abstraktionen geblieben. Auch heutige Völker auf primitiven Kulturstufen haben meist einen unverhältnismäßig kleinen Wortschatz. […]

Ein wesentlicher Fortschritt in der Sprachentwicklung lief wohl zumeist der Entstehung von Hochkulturen parallel. Das kompliziertere und stärker zentralisierte Leben in den nun wesentlich größeren Gemeinschaften machte die Verwendung zahlreicherer und viel abstrakterer Begriffe notwendig. Zudem erforderte das einsichtige Handeln und Denken und das wachsende Erkennen der Naturgesetzlichkeiten eine stärkere Grammatisierung der Sprache, die es erlaubte, alle kausalen und logischen Bezüge zwischen den einzelnen Wörtern möglichst genau auszudrücken. Vor allem mußte der Begriffsumfang der einzelnen Wörter allmählich genauer präzisiert werden.

Dieser Fortschritt wurde erleichtert durch die Erfindung einer – Schrift, die von verschiedenen Völkern unabhängig voneinander gemacht wurde und die meist mehr oder minder kenntlich mit dem Zeitpunkte des Beginns einer Hochkultur zusammenfiel. So behaupteten schon die Sumerer, daß ihre Kultur mit der Erfindung der Schrift eingesetzt habe. Soweit wir dies heute beurteilen können, entstand diese auf Tontafeln eingedrückte, älteste bekannte Schrift im 4. Jahrtausend v. Chr. (Uruk-Periode). Es war zunächst eine Bilderschrift, die Erinnerungen an bestimmte Gegenstände oder Tätigkeiten wachrufen sollte. Bei den Sumerern und Akkadern (Babyloniern) wurde

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14 daraus dann allmählich die Keilschrift. Die ältesten Dokumente sind lediglich Listen von Gegenständen. Erst nach Ablauf von mehreren Jahrhunderten ermöglichte eine Grammatisierung der Schriftzeichen, auch Sätze zu bilden. Die Hieroglyphen der Ägypter, die ursprünglich gleichfalls eine reine Bilderschrift waren, entstanden schon vor Beginn der 1. Dynastie, etwa 3000 v. Chr. Die chinesische Schrift, die gleichfalls ihre Herkunft von Bildsymbolen erkennen läßt, kann bis in das 2. Jahrtausend v. Chr. Zurückverfolgt werden.

Durch die schriftliche Fixierung der Sprache wurde die Traditionsbildung natürlich sehr erleichtert. In Stein gemeißelte, in Lehm eingedrückte und dann erhärtete, auf Papyri oder Holz gemalte Schriftzeichen überdauerten viele Generationen. Und diese Schriften konnten zudem immer wieder kopiert werden, wie das in Ägypten schon im ‘Alten Reich‘ (etwa 2700-2200 v. Chr.) üblich war. Das führte zugleich auch dazu, daß eine historische Überlieferung, und damit überhaupt ein historisches Denken entstand. Da das Schreiben und der Bedeutungsumfang der Symbole erlernt werden mußten, wurde mit der Erfindung der Schrift zugleich auch die Einführung von schulmäßigem Unterricht notwendig, wodurch die Überlieferung und die Festigung der geistigen Traditionen sehr gefördert wurden.

Von der speziellen Art der Schriftentwicklung wurde in starkem Maße auch die Denkweise und damit die Art und die Bedeutung der jeweiligen Tradition bestimmt. Die ägyptischen Hieroglyphen Z. B. stellten ursprünglich nur Symbole für Gegenstände, Tiere und Menschen und für menschliche Tätigkeiten dar. Sehr bald aber (schon im ‘Alten Reich‘) wurden diese Symbole benützt, um vom Gegenstand selbst unabhängige Laute bzw. Lautgruppen zu kenn- zeichnen und so eine Buchstabenschrift vorzubereiten, die nun viel differenziertere Begriffe und Zusammenhänge mitzuteilen und zu fixieren gestattete. Aber erst die ‘Phönizier‘ entwickelten, möglicherweise um etwa 1500 v. Chr., eine Buchstabenschrift, die über Griechenland und Rom zum heute gültigen Alphabet europäischer Sprachen führte. Sie ermöglichte die Kennzeichnung einer fast unendlichen Mannigfaltigkeit von Begriffen ohne Konstruktion neuer Symbole und war zugleich auch viel leichter zu erlernen. Bei der chinesischen Schrift bedeuteten dagegen die Schriftsymbole immer ganze Wörter, und es wurden daher allmählich Tausende derartiger ‘Zeichen‘ notwendig, was die Kenntnis der Schrift auf wenige ‘Gelehrte‘ einschränkte. Trotz der hohen Zahl von Symbolen – insgesamt über 40000, von denen aber meist nur 3-4000 gleichzeitig verwendet wurden – haftete aber dieser reinen Wortschrift der weitere Nachteil an, zunächst kaum grammatisierbar zu sein. So konnten viele logische und kausale Beziehungen nicht eindeutig ausgedrückt werden. Das ist vermutlich die Ursache dafür, daß sich in China bis in das 19. Jahrhundert hinein Philosophie wie exakte Wissenschaften vornehmlich. Nur in ihren praktisch gerichteten Teil- gebieten (Ethik; Baukunst; Medizin) entwickelten.

Einen weiteren entscheidenden Fortschritt in der menschlichen Kulturentwicklung bedeutete die Erfindung des Druckens. Nun war aber China das erste Land, in dem diese Kunst geübt wurde. Schon im 2. Jh. n. Chr. Wurde hier auf einzelne Blätter, seit dem 10. Jh. auch in Buchform gedruckt. Die Erfindung der europäischen Buchdruckerkunst im 15. Jh. führte in noch viel stärkerem Maße zur schnellen Verbreitung von zahlreichen wichtigen, theoretischen Schriften. Da viele Bücher zudem über Jahrzehnte und Jahrhunderte hinweg aufbewahrt und gelesen wurden, und da in Büchern entscheidende Abschnitte immer wieder nachgelesen, zum Unterricht der Jugend verwendet, aber auch verbessert werden konnten, wurde nun die Speicherung alten Wissens, die Hinzufügung neue Erfahrungen und Erkenntnisse stetig intensiver. Zugleich vergrößerte sich der Kreis der an dieser Traditionsanreicherung

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ESTUDOS MÍNIMOS SOBRE A LÍNGUA, O DIREITO E A LEGÍSTICA [VERSÃO PROVISÓRIA]

15 Mitarbeitenden immer mehr. In jüngster Vergangenheit wurde schließlich diese Wissensüberlieferung noch weiter gesteigert durch die Möglichkeit, Gegenstände und Ablaufphasen einfarbig oder farbig zu reproduzieren, sowie Vorträge, Musikwerke usw. auf Schallplatt en oder Tonbändern und bewegte Abläufe in Filmen zu konservieren und zu verbreiten oder als Radio- oder Fernsehsendunger über weite Gebiete auszustrahlen. Biologisch gesehen bedeutet diese Speicherung des Wissens in Schrift, Rollen oder Büchern etwas prinzipiell Neuartiges: mit seiner Literatur, mit seinen Bibliotheken

schuf sich die Menschheit gewisser maßen ein soziales Übergehirn. In langen Schul-

und Ausbildungsjahren stopfen wir unser Hirn, oft bis zur oberen Grenze der Aufnahmefähigkeit, mit zahlreichen Erkenntnissen und Erfahrungen früherer Generationen voll. Im praktischen Leben wie bei der Suche nach weiteren neuen Erkenntnissen benützen wir dann aber außer dem noch unzählige Gedankenreihen, für die unser Gedächtnis bei weitem nicht mehr ausreichen würde, die wir aber jederzeit zur Verfügung haben können, wenn wir in Büchern lesen. Ob es sich um Kursbücher, Kochbücher oder Anweisungen zum Bau komplizierter Apparate, um wissenschaftliche Werke, Lexica oder farbig illustrierte Monographien bildender Kunst handelt, immer können wir Lesen an die Gedankenreihen der Autoren dieser Bücher anschalten und so Erfahrungen verwenden, die unser Hirn nicht mehr in die Lage wäre selbst zu speichern. Die Literatur bereichert also unsere Denkfähigkeit in unvorstellbarem Ausmaß mit ‘extrazerebralen Assoziationsketten‘, wie ich dies 1947 einmal formulierte.

Mit den elektronischen Rechenmaschinen schuf die Wissenschaft dann sogar Apparate, die tatsächlich mehr leisten können als die Menschen selbst, da sie in Minuten komplizierte Rechnungen durchführen, für die ein Mensch viele Jahre brauchten würde. Da nun aber die Resultate mancher derartiger komplizierter Rechnungen nur dann eine praktische Bedeutung haben, wenn sie immer wieder rechtzeitig zur Steuerung eines schnell ablaufenden Vorganges benützt werden, wie dies z. B. bei der steten Steuerung von fliegenden Raketen und Raumschiffen der Fall ist, bei denen es auf ein Eingreifen in Bruchteilen von Sekunden ankommt, so liegt hier im eigentlichen Sinne eine

übermenschliche Leistung vor. Computer können auch insofern mehr leisten als

Menschenhirne, als sie bei geeigneter Programmierung unter unzähligen, vom Menschen nicht in der dafür verfügbaren Zeit durchzutestender Kombinationsmöglichkeiten zahlreicher, variierbarer Einzeldaten diejenigen auszuwählen vermögen, die für eine bestimmte Zielsetzung allein sinnvoll sind.

Wir dürfen nun aber nicht vergessen, daß die stete Anreicherung von Wissen und Erfahrung durch Schrift, Druckt und andere Reproduktionsmittel nur möglich war, weil sich parallel damit im Laufe der Menschheitsentwicklung immer größere Gemeinschaften entwickelt hatten, die es ermöglichten, daß eine zunehmende Arbeitsteilung stattfand und daß dabei die besondere Begabung mancher Individuen für bestimmte Funktionen viel intensiver ausgenützt werden konnte. Solange die Vormenschen und Frühmenschen nur in Familienverbänden und kleinen Horden lebten, zusammengehalten durch gemeinsame Wohnplätze, wie z. B. Höhlen, oder Feuerstätten, mußten alle erwachsenen Individuen gleichen Geschlechts noch mehr oder minder die gleichen Funktionen ausüben. Erst das Seßhaftwerden des Homo sapiens führte dann zu größeren Gemeinschaften, bei denen aber anfänglich auch nur eine so beschränkte Arbeitsteilung anzunehmen ist wie etwa bei heutigen primitiv lebenden Völkern (Papuas, Kongopygmäen, brasilianischen Indianern u. a.). Das Gehirn des Homo

sapiens war jedoch in der jüngeren Alt-Steinzeit offenbar nicht anders als das von

heutigen Menschenrassen. Jedenfalls gibt der Schädelbau keinerlei Hinweis auf irgendwelche Unterschiede. Das bedeutet also: auch vor 20-50000 Jahren gab es

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16 wahrscheinlich schon Sonderbegabungen für Mathematik, Physik, Sprachen, Musik usw. Aber die damaligen kleinen Gemeinschaften hatten zunächst keine Möglichkeit, dies zu erkennen, oder davon Gebrauch zu machen. Die erste Arbeitsteilung fand dann wahrscheinlich zumeist in der Weise statt, daß zunächst die technisch Begabten als Spezialisten tätig wurden (z. B. bei der Verfertigung von Geräten aus Stein und Knochen) und daß die geistig überragenden Führerrollen übernahmen. Erst mit der Herausbildung von Hochkulturen setzte dann jeweils eine sehr weitgehende Arbeitsteilung und damit eine zunehmende Ausnützung der Sonderbegabungen ein, die schließlich auch durch eine den spezifischen“ Fähigkeiten angepaßte Sonderausbildung während der Jugendzeit gefördert wurde.

Heute sind nun die menschlichen Verbände unendlich viel größer geworden und eine sehr weitgehende Spezialisierung hat zu einer Arbeitsteilung geführt, die ein sehr wesentlich rationelleres Schaffen der kleineren oder größeren Gemeinschaften verursachte. Zugleich hat sich aber auch mit der Erfindung immer schnellerer und bequemerer Verkehrs- und Verständigungsmittel eine international Zusammenarbeit

auf fast allen Gebieten der Kultur entwickelt. Durch persönlichen Kontakt, durch

Verbreitung von Büchern, Funksendungen usw. und durch den steten Austausch von materiellen wie ideellen Kulturgütern ist es bereits weitgehend zu einem globalen Kulturausgleich gekommen, der sich immer mehr vervollkommnet. Fast alle wichtigen Erfindungen wie Eisenbahn, Auto, Telephon, Radio, Kühlschrank, Photoapparat, wissenschaftliche Werke, aber auch Romane, Dramen, musikalische Werke oder Erzeugnisse der bildenden Kunst gehören praktisch allen Bewohnern dieser Erde. Am vollkommensten ist dabei der Austausch der Erkenntnisse auf dem Gebiete der Wissenschaften, speziell der Naturwissenschaften entwickelt, wie dies jede wissenschaftliche Veröffentlichung mit ihrem Literaturverzeichnis lehrt, in dem fast stets Veröffentlichungen aus vielen Nationen zitiert werden. Gerade die wissenschaftlichen Büchereien stellen heute bereits globale Obergehirn dar. Es hat sich entsprechend auch eine globale Erkenntnis entwickelt, den sich allerdings selbst die besten menschlichen Gehirne nicht mehr vollständig zu eigen machen können. Und die klügsten Menschen können sich auch nicht einmal mehr nach Belieben an alle extazerebralen Assoziationsketten‘, d. h. an die Gedankengänge aller Wissenschaftszweige anschalten, weit in vielen wichtigen Spezial gebieten eine sehr komplizierte Symbol- und Fachsprache entwickelt werden mußte, um die Probleme klar darzustellen und zu meistern (so z. B: besonders in Mathematik, Physik, Chemie und vielen Zweigen der Biologie).

Die durch Sprache, Schrift, Druck und andere Reproduktionsmittel ermöglichte Kulturentwicklung führte zugleich unverhältnismäßig schnell zu einer stetig waschenden Beherrschung der Natur und andererseits zu zunehmenden Autonomie der

einzelnen Menschen wie ganzer Völker gegenüber ihrer Umwelt. Sobald sich

Hochskulturen herausgebildet hatten, wurde der Lebensablauf immer weniger von den elementaren Lebensbedürfnissen (Nahrungserwerb, Schutz vor klimatischen Unbilden) und immer mehr von komplexeren Vorstellungsgruppen, von Werten, von Idealen und

von überindividuellen Zielen bestimmt. Es bildeten sich vor allem ethische und

nationalistische Ideale, religiöse Werte und wissenschaftliche Ziele heraus, die nundas Denken und Handeln weitgehend bestimmten.

Vergessen wir dabei nicht, wie entscheidend die ganze Kulturentwicklung vor allem durch die anwachsende Technik bestimmt wurde. […] Der technische Fortschritt ist indes, wie wir im nächsten Kapitel sehen werden, eine zwangsläufige Entwicklung, die nicht aufzuhalten ist. Aber leider verläuft diese Entwicklung so beschleunigt, daß die

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ESTUDOS MÍNIMOS SOBRE A LÍNGUA, O DIREITO E A LEGÍSTICA [VERSÃO PROVISÓRIA]

17 Menschen sich nicht schnell genug mit ihren ethischen Vorstellungen und Bräuchen und mit ihren sozialen und politischen Struktur darauf einstellen können. Für die ethischen und sozialen Grundlagen ist aber gerade eine gewisse Stabilität der Tradition notwendig, um Zusammenbrüche zu vermeiden, die gefährliche Anlagen des Menschen‚ wieder zur Entfaltung bringen können. Der Mensch hat sich ja hinsichtlich seiner erblichen Struktur, d. h. auch hinsichtlich seiner guten oder schlechten Charakteranlagen in den letzten Jahrtausenden nur noch unwesentlich geändert, weil für die dafür in Frage kommenden Erbanlagen die natürliche Auslese stark vermindert war. Wie die letzten Jahrzehnte erwiesen haben, ist auch der europäische Mensch noch derselben Grausamkeiten fähig, die er zur Zeit der römischen Schaukämpfe, der mittelalterlichen Folterungen, der Inquisition oder während des Dreißigjährigen beging. Es gilt also, die Fesseln der ethischen Tradition nicht leichtfertig abzustreifen, sondern sie nur derart lockern und abzuändern, daß sie sich der technisch stetig und schnell ändernden Umwelt anpassen, vor allem durch Ausschaltung von Kriegen, die früher als ethisch zu rechtfertigende Mittel der Politik galten.

Da alle kulturellen Eigenheiten des Menschen nicht im biologischen Sinne müssen sie von jedem Individuum im Laufe seines Lebens wieder neu erworben werden. Dabei läuft die Entwicklung beim Kinde bis zum gewisse Grade der geschichtlichen der Kultur parallel: in den ersten Lebensjahren lernen wir vornehmlich die Gebräuche und Sitten, die mit der elementaren Bedürfnis der Lebensbedürfnisse und der Einfügung in die kleinen Gemeinschaften der Familie und der Nachbarschaft verknüpft sind (Eßsitten, Kleidungsgebräuche, Respektieren der Älteren, Reden und andere elementare ‘Wissenschaften‘, elementare religiöse Vorstellungen und Bräuche usw.), und erst allmählich übernehmen wir die Kulturwerte höherer Ordnung (Technik, Wissenschaft, ethische Ideale, ästhetische Prinzipien usw.), wobei die höchsten und wertvollsten Kulturgüter meist erst im erwachsenen Zustande und von vielen gar nicht erreicht werden.

Eine ähnliche Wiederholung von Stufen stammesgeschichtlicher Entwicklung in der individuellen Entwicklung (Ontogenese) kennen wir auch bei den biologisch vererbten Eigenheiten (= ‘biogenetische Regel‘). Aber in diesem Falle ist die Herausbildung der Merkmale durch die Erbanlagen, die meist durch Zehntausende von Generationen konstant bleibenden Gene, gesichert. Das ist bei den kulturellen Eigenheiten des Menschen nicht der Fall. Mit dem Abreißen der Tradition, mit dem Ausbleiben der

kulturellen Unterrichtung der Nachkommen können alle Kulturwerte wieder verloren gehen, und wir können auf frühe Kulturstufen zurückfallen. Die Menschheitsgeschichte

liefert uns viele Beispiele dafür, daß mit dem Niedergang eines Volkes auch zahllose, oft wertvolle Traditionen vernichtet wurden. Man denke an den Untergang der ägyptischen, babylonischen, griechischen oder römischen Kulturen. Erst in der Renaissance-Zeit hat man viele wertvolle Erkenntnisse und Traditionen des klassischen Altertums wieder aufgegriffen. Aber auch schon ein Wechsel politischer Systeme oder wissenschaftlicher oder religiöser Ansichten bringt oft wichtige Kulturgüter zum Erliegen. Das lehrte z. B. der Rückgang und die gewaltsame Hemmung naturwissenschaftlicher Erkenntnisse durch das Vorherrschen orthodoxer christlicher Vorstellungen in den ersten anderthalb Jahrtausenden nach Christi Geburt, der Zusammenbruch der Geschichtswissenschaft und der bildenden Kunst in der Nazizeit und umgekehrt das Schwinden religiöser Überzeugungen und Bräuche in kommunistischen, aber zum Teil auch in kapitalistischen Ländern. Die Kultur ist ein Schatz, der jederzeit gemehrt, gemindert oder verändert werden kann und der auch – etwa nach einem Weltkrieg mit Atomwaffen – völlig wieder verschwinden kann. Nur

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