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O agravo de instrumento no Código De Processo Civil de 2015

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UNIJUÍ - UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

SHEILA DIAS AMORIM

O AGRAVO DE INSTRUMENTO NO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL DE 2015

Santa Rosa (RS) 2019

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SHEILA DIAS AMORIM

O AGRAVO DE INSTRUMENTO NO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL DE 2015

Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Trabalho de Conclusão de Curso – TCC.

UNIJUÍ – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.

DCJS – Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais.

Orientadora: MSc. Francieli Formentini

Santa Rosa (RS) 2019

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Dedico este trabalho aos meus pais Dilene Dias Amorim e Gilberto Amorim; e aos meus irmãos Bruna Amorim e Dieison Amorim pelo incentivo, apoio e confiança em mim depositados durante toda a minha jornada.

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AGRADECIMENTOS

Primeiramente a Deus que permitiu que tudo isso acontecesse, que me guiou por todo esse percurso e nunca me faltou, ao longo da minha vida, e não somente nestes anos como universitária, mas que em todos os momentos é o maior mestre que alguém pode conhecer.

A minha mãe Dilene Dias e meu pai Gilberto Amorim, pessoas de caráter impecável, que me ensinaram a encarar com a cabeça erguida todas as adversidades que surgiram ao longo do caminho, que sempre estiveram presentes e me incentivaram com apoio e confiança nas batalhas da vida. Minha eterna gratidão por terem me amado e educado.

Aos meus irmãos Bruna Amorim e Dieison Amorim, por acreditarem em mim e me apoiarem nessa escolha, que nos momentos da minha ausência dedicada ao estudo superior, sempre entenderam que o futuro é feito a partir da constante dedicação no presente! Ainda, agradecimento especial à minha irmã por me dar o maior presente da vida, minha sobrinha Valentina Amorim Bottega, que me transformou em um ser humano melhor.

As minhas grandes amigas de longa data, Tainara Ely, Ita Gabriela Brum, Maiara Moura e Andressa Dias, por se fazerem presente nesta trajetória; eternas companheiras, confidentes, mulheres dedicadas e fortes, por quem tenho amor e respeito máximo.

Por fim, à minha orientadora Francieli Formentini, com quem eu tive o privilégio de conviver e contar com sua dedicação, paciência e disponibilidade, bem como pela colaboração para o melhor desenvolvimento do estudo me guiando pelos caminhos do conhecimento.

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“Onde Não houver respeito pela vida e pela integridade física e moral do ser humano, onde as condições mínimas para uma existência digna não forem asseguradas, onde não houver limitação de

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poder, enfim, onde a liberdade e a autonomia, a igualdade e os direitos fundamentais não forem reconhecidos e minimamente assegurados, não haverá espaço para dignidade humana e a pessoa não passará de mero objeto de arbítrio e injustiças.” (Ingo Sarlet – Juiz e Jurista brasileiro)

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RESUMO

O presente trabalho tem como principal objetivo discorrer acerca das mudanças trazidas pelo Código de Processo Civil de 2015 ao recurso de Agravo de Instrumento. O interesse da acadêmica na escolha do tema justifica-se, em razão da polêmica que o rol do artigo 1.015 do CPC trouxe ao tornar taxativas as hipóteses de cabimento do recurso. O método adotado para consolidar o estudo foram as pesquisas bibliográficas, doutrinárias, jurisprudenciais e de legislação, reunindo dois capítulos. O primeiro capítulo, trata-se dos aspectos históricos do Agravo de Instrumento, da legislação vigente a respeito do recurso, bem como das hipóteses de cabimento, do procedimento do recurso e dos impactos da decisão nele proferida para o processo. Já no segundo, contextualiza-se o agravo de instrumento, examinando o rol do artigo 1.015. Ademais, o segundo capítulo demonstra o posicionamento doutrinário e jurisprudencial no que tange a recorribilidade da decisão que declina da competência, através de análises jurisprudenciais e doutrinárias, concluindo com o julgamento do Superior Tribunal de Justiça, a respeito do Recurso Especial de n. 1.704.520/MT.

Palavras-Chave: Agravo de Instrumento. Artigo 1.015. Código de Processo Civil 2015. Recorribilidade. Taxatividade.

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ABSTRACT

The objective of this study is to discuss the changes brought by the Code of Civil proceding course of conduct of 2015 to the appeal of document. The interest of the academic in the choice of the theme is justified, by the controversy that the list of article 1.015 of the CPC brought by making the hypotheses of capacity of the appeal. The method adopted to consolidate the study was search by bibliographical, doctrinal, case law and legislation research, exemplified together in two chapters. The first chapter deals with the historical aspects of the Appeal, the current legislation regarding the appeal, as well as the hypotheses of propriety, the appeal course of conduct and the impacts of the decision handed down in the case. In the second chapter, the appeal document was contextualized, examining the role of Article 1.015. Apart from, the second chapter evidence the doctrinal and jurisprudential positioning to resort the appeal of the decision declining jurisdiction, through cases law and doctrinal analysis, concluding with the judgment of the Superior Court of Justice, regarding the Special Appeal of n. 1,704,520 / MT.

Keyword: The Appeal of Document. Article 1.015. Code of Civil proceding course of conduct of 2015. To Resort the Appeal. Making the Hypotheses.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 9

1 A RECORRIBILIDADE DAS DECISÕES INTERLOCUTÓRIAS POR MEIO DE AGRAVO DE INSTRUMENTO ... 11

1.1 Aspectos históricos do recurso de Agravo ... 11

1.2 Legislação vigente sobre o recurso de Agravo de Instrumento e hipóteses de cabimento ... 17

1.3 Procedimento do recurso e impactos da decisão nele proferida para o processo ... 22

2 HIPÓTESES DE CABIMENTO DO AGRAVO DE INSTRUMENTO: INTERPRETAÇÕES COM RELAÇÃO A TAXATIVIDADE DO ROL DO ARTIGO 1.015 DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL ... 25

2.1 Contextualização do Código de Processo Civil de 2015 quanto aos recursos, em especial ao recurso de Agravo de Instrumento ... 25

2.2 Ampliação do rol do artigo 1.015: taxatividade e interpretação extensiva ... 30

2.3 Posicionamento dos Tribunais ... 34

CONCLUSÃO ... 43

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INTRODUÇÃO

O presente trabalho de conclusão de curso apresenta um estudo acerca do agravo de instrumento e da problemática da natureza do rol do artigo 1.015, trazida pela Lei 13.105/2015, a qual regula o Código de Processo Civil.

O tema escolhido decorre da relevância do recurso de agravo de instrumento como meio de impugnação das decisões interlocutórias e das alterações inseridas no Código de Processo Civil de 2015. Além disso, a temática destaca-se em razão da divergência quanto a taxatividade ou não do rol do artigo 1.015 do Código de Processo Civil, especialmente entre os Ministros do Superior Tribunal de Justiça, em Recurso nº 1.704.520, afetado pelo rito dos Recursos Especiais repetitivos contra decisões interlocutórias não previstas expressamente no rol do artigo acima mencionado.

Para a realização deste trabalho foram efetuadas pesquisas bibliográficas, doutrinárias, jurisprudenciais e de legislação, a fim de enriquecer a coleta de informações e permitir um aprofundamento no estudo, de maneira a consolidar as conclusões por meio da presente monografia, a qual reúne dois capítulos.

Inicialmente, no primeiro capítulo, aborda-se os aspectos históricos do recurso de agravo de instrumento. Em outras palavras, discorre-se sobre a origem da palavra agravo, por quem foi criado o recurso de agravo, bem como o decorrer do seu desenvolvimento até os dias atuais.

No segundo e último capítulo se analisa mais profundamente a natureza do rol do artigo 1.015 do Código de Processo Civil, aludindo o Recurso Especial 1.704.520/MT, ante relatoria da ministra Nancy Andrighi, o qual foi usado como uma das fundamentações para

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iniciar a discussão. Por fim, o debate consistirá em tratar da taxatividade ou não taxatividade, haja vista que se for reconhecido o cabimento de recurso de agravo de instrumento em circunstâncias não adotadas de maneira expressa no artigo 1.015, este será considerado passível de interpretação extensiva.

A partir desse estudo, a pesquisa defenderá principalmente a taxatividade extensiva do rol do artigo 1.015 do Código de Processo Civil, baseando-se nos posicionamentos dos tribunais.

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1 A RECORRIBILIDADE DAS DECISÕES INTERLOCUTÓRIAS POR MEIO DE AGRAVO DE INSTRUMENTO

O presente estudo, de modo geral, objetiva analisar os reflexos causados ao recurso de agravo de instrumento com a entrada em vigor do Código de Processo Civil de 2015, principalmente, no que tange a taxatividade prevista no rol do artigo 1.015.

Feitas as primeiras colocações, insta esclarecer que, no presente capítulo, será abordado os aspectos históricos do recurso de agravo, a legislação vigente sobre o recurso, bem como o procedimento e os impactos da decisão nele proferida para o processo, a fim de possibilitar entendimento amplo sobre a matéria.

1.1 Aspectos históricos do recurso de Agravo

Inicialmente, importa conceituar a palavra recurso, a qual, na linguagem jurídica, é muito utilizada para denominar “[...] “todo meio empregado pela parte litigante a fim de defender o seu direito”. Nessa perspectiva, no direito processual, o recurso compreende um meio ou remédio impugnativo capaz de provocar em uma relação processual ainda em curso, o reexame de decisão judicial, “[...] pela mesma autoridade judiciária, ou por outra hierarquicamente superior, visando a obter-lhe a reforma, invalidação, esclarecimento ou integração”, segundo Humberto Theodoro Júnior (2016, p. 941).

Para definir a palavra recurso, Daniel Amorim Assumpção Neves (2016) aduz que se faz necessário observar cinco características essenciais a esse meio de impugnação, sendo elas: voluntariedade, expressa previsão em lei federal, desenvolvimento no próprio processo no qual a decisão impugnada foi proferida, manejável pelas partes, terceiros prejudicados e Ministério Público e, com o objetivo de reformar, anular ou esclarecer decisão judicial.

Ainda, como conceituam Luiz Guilherme Marinoni, Sérgio Cruz Arenhart e Daniel Mitidiero (2017, p. 1.066), “[...] Recurso. É um meio voluntário de impugnação de decisões judiciais, interno ao processo, que visa à reforma, à anulação ou ao aprimoramento da decisão atacada.”

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dispõe de uma compreensão tanto técnica quanto restrita, suportando ser definido como o meio ou remédio impugnativo, capaz de causar o reexame de uma decisão judicial dentro do processo em que foi proferida, antes de haver coisa julgada, ora pela mesma autoridade judiciária, ora por outra hierarquicamente superior, desejando que seja reformada, integrada, esclarecida ou invalidada.

De acordo com Araken de Assis (2016, p. 47), o inconformismo do homem faz com que o Estado tenha que intervir na vida em sociedade para a resolução dos conflitos. O maior descontentamento, cumulado ao assombro de desperdício de tempo valioso, estende-se nos pronunciamentos contrários ao interesse das partes e de terceiros desprendido neste plano. A sociedade pós-moderna acostumou-se com a rapidez dos modernos meios de comunicação, assim, reagem muito mal, seja qual for, na demora e na solução que não atendam plena e integral aos seus interesses. “[...] A própria origem já revela que os meios de impugnação às resoluções judiciais tutelam relevante interesse público [...]”.

[...] O recurso mostra a todos “que os juízes e tribunais são destinados a regrar com justiça as demandas e aplicar com exatidão o direito objetivo”. Em alguns meios de impugnação, o objetivo fundamental é o único que importa: o remédio promove, concretamente, a supremacia da Constituição ou controla a exata aplicação das leis. A maioria das impugnações sobreleva o interesse em reavaliar a justiça do provimento, sem prejuízo, no entanto, da finalidade pública há pouco reconhecida ao instituto (ASSIS, 2016, p. 48).

Diante do exposto, por influência dos direitos germânico e canônico surgiu a oportunidade de uma decisão interlocutória ser questionada por recurso próprio. Entretanto, mesmo já havendo conhecimento acerca da decisão interlocutória no processo civil romano, esses foram influenciados apenas depois quando do surgimento do recurso como meio de impugnação de interlocutória, conforme leciona José Carlos Teixeira Giorgis (1996).

O agravo de instrumento nasceu, sem dúvida, em Portugal, no momento em que o rei D. Afonso III, no ano de 1261, indica a supliciação ou sopriciação, as quais permitiam ao vencido protestar contra atos da hierarquia judiciária. No Brasil, com a independência, vieram as Ordenações Filipinas e a legislação extravagante, sem contrariar a revolução emergente, sendo aplicados os agravos existentes em Portugal, nas palavras de José Carlos Teixeira Giorgis (1996, p. 1).

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Como lembra Valentina Jungmann Cintra Alla (1996, p. 3/4), as Ordenações e as leis extravagantes vigoraram no direito brasileiro pela lei de 20 de outubro de 1823. Através desse regime havia os consecutivos tipos de agravo: de petição, de instrumento, no auto do processo, de ordenação não guardada e o ordinário. O artigo 14 da lei de 29 de novembro de 1832 reduziu os agravos de petição e o de instrumento a agravo no auto do processo. Com o advento do Código de Processo Civil de 1973 o recurso de agravo de instrumento passou a ser admitido contra todas as decisões proferidas no procedimento de primeiro grau, que não lhe pusessem termo.

O Código de Processo Civil de 2015, aprovado pela Câmara dos Deputados, trouxe consigo mudanças no tocante ao recurso cabível contra decisões interlocutórias proferidas pelos juízos de primeira instância. Primordialmente a maior das novidades fomentada pelo novo código, é que nem todas as decisões interlocutórias serão agraváveis neste novo sistema processual, uma vez que o CPC prevê um rol exaustivo de decisões interlocutórias que poderá caber agravo, sendo que no caso da decisão proferida não ser encontrada no rol, esta será irrecorrível em separado, sustenta o autor Câmara (2015, p. 9).

Aos ensinamentos de Assis (2016), o agravo teve sua origem no direito português. Com o reinado de D. Afonso IV, a apelação em separado contra decisões interlocutórias foi proibida, ressalvado se dotadas de caráter terminativo do feito ou quando produzisse dano irreparável. Para o autor, o recurso de agravo nasceu na segunda edição das Ordenações Manuelinas, pois classificava as sentenças em definitivas, interlocutórias mistas e interlocutórias simples. Dessa forma, eram previstos os seguintes agravos: o agravo ordinário (supplicatio) contra as sentenças definitivas emanadas dos “Sobre-Juízes”, o agravo de instrumento e o agravo de petição, sendo os últimos interpostos contra as sentenças interlocutórias e consoante o critério geográfico, isto é, quando o ato proferido fosse de processo que tramitasse no lugar de situação do órgão ad quem, caberia agravo de petição.

Teresa Celina Arruda Alvim Pinto (1990), compreende que a verdadeira raiz do agravo no direito Português surgiu nas “querimas”. Segundo a autora, as “querimas” tiveram início ante a habitualidade dos monarcas em percorrer o reino e, aqueles que exerciam a função de julgar eram considerados delegados do rei. Essa prática consistia na queixa apresentada pela parte ao soberano, por conta de uma determinação de algum magistrado, a qual o rei dava aos queixosos uma carta de justiça que deveria ser apresentada ao juiz para uma possível

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modificação da decisão.

Em continuidade, sobreveio o agravo ordinário, o qual insurgia pela reparação da injustiça ou para reduzir os rigores da condenação, dirigindo-se a “súplica”, ou seja, ao responsável pela Casa da Suplicação. Entendendo do que se tratavam as súplicas, o rei autorizou os escrivães a fornecer cópias dos autos, as quais eram chamadas de “cartas de

justiça”, sendo essas analisadas pelas autoridades. Com o passar do tempo, as “cartas de justiça” foram proibidas no reino de D. Duarte, conforme Carlos Silveira Noronha (1995).

As Ordenações Afonsinas criaram o agravo de ordenação não guardada, consistindo em um remédio colocado ao alcance da parte, em virtude de forçar os juízes a indenizá-la pelos prejuízos sofridos, em decorrência de desrespeito ou inobservância das normas processuais na decisão. Por sua vez, as Ordenações Manuelinas, compreendidas como outro tipo de impugnação denominada “agravo nos autos”, mostrou-se como uma espécie de agravo de instrumento tornando-se aplicada em casos em que o juiz indefere o recebimento da apelação. Posteriormente, foi instituída, no reinado de D. João III a criação do agravo no auto do processo como recurso autônomo, na Carta Régia de 05 de julho de 1526, nas palavras de Noronha (1995, p. 21):

[...] Esta disposição reinícola, além de confirmar a apelabilidade ou a impugnabilidade das sentenças definitivas por agravo ordinário, procurou particularizar os casos de cabimento de agravos de instrumento e de petição, terminando por identificar o agravo no auto do processo como espécie recursal autônoma, cujo sopro de vida se manifestara embrionariamente nas ordenações manuelinas (NORONHA, 1995, p. 21).

Em setembro de 1822, vigia, ainda, em Portugal as Ordenações Filipinas, tendo como previsão cinco espécies de agravos, quais sejam: no auto do processo, de instrumento, ordinário, de petição e de ordenação não guardada. Com a proclamação da Independência do Brasil em 07 de setembro de 1822, estabeleceu-se a imprescindibilidade de um corpo de leis próprias no país. No entanto, passou-se a viger no Brasil, por um tempo, as leis portuguesas, adentrando as cinco espécies de recursos de agravo previstos nas Ordenações Filipinas (NORONHA, 1995).

Ainda, explica Noronha (1995), que somente no ano de 1832, mais precisamente no dia 29 de novembro, foi promulgado o Código de Processo Criminal do Império, de modo que

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levou consigo a “Disposição Provisória Acerca da Administração da Justiça Civil”, revogando a legislação portuguesa, ao passo que se iniciou o primeiro período do direito processual civil brasileiro. Essa Disposição Provisória eliminou o agravo ordinário, de instrumento e de petição, achando-se os dois últimos reduzidos a agravo no auto do processo.

Com o passar dos anos, foi reestabelecido o agravo de instrumento e o de petição, mantendo-se o agravo no auto do processo, bem como excluindo o agravo de ordenação não guardada. Em 25 de Novembro de 1850 foi promulgado o Regulamento n° 737, o qual historicamente apresenta uma descrição acerca da intensa instabilidade do agravo. Com a promulgação desse regulamento, o agravo de instrumento passou a ter presença no sistema processual brasileiro, tanto no juízo cível quanto no juízo do comércio. (NORONHA, 1995).

No Código de Processo Civil de 1939 era previsto três diferentes tipos de agravos, sendo o agravo de petição, o agravo de instrumento e o agravo no auto do processo. O recurso de agravo de petição cabia contra as sentenças, as quais extinguiam o processo sem resolução do mérito e, no caso de o processo ser extinto com resolução do mérito, cabia, contra a sentença, apelação. Agora, o recurso de agravo de instrumento cabia contra decisões interlocutórias, porém apenas contra decisões indicadas expressamente pelo art. 8421 do Código de Processo Civil de 1939 ou em lei extravagante. Já o recurso de agravo no auto do processo dispunha a evitar a preclusão de algumas decisões, como por exemplo, as que

1 Art. 842. Além dos casos em que a lei expressamente o permite, dar-se-á agravo de instrumento das

decisões:

I, que não admitirem a intervenção de terceiro na causa; II, que julgarem a exceção de incompetência;

III, que denegarem ou concederem medidas requeridas como preparatórias da ação; IV - que receberem ou rejeitarem “in limine” os embargos de terceiro.

V, que denegarem ou revogarem o benefício de gratuidade, VI, que ordenarem a prisão;

VII, que nomearem ou destituírem inventariante, tutor, curador, testamenteiro ou liquidante; VIII, que arbitrarem, ou deixarem de arbitrar a remuneração dos liquidantes ou a vintena dos testamenteiros;

IX, que denegarem a apelação, inclusive de terceiro prejudicado, a julgarem deserta, ou a relevarem da deserção;

X, que decidirem a respeito de erro de conta ou de cálculo; XI, que concederem, ou não, a adjudicação, ou a remissão de bens;

XII, que anularem a arrematação, adjudicação, ou remissão cujos efeitos legais já se tenham produzido; XIII, que admitirem, ou não, o concurso de credores, ou ordenarem a inclusão ou exclusão de créditos XIV, que julgarem, ou não, prestadas as contas;

XV, que julgarem os processos de que tratam os Títulos XV a XXII do Livro V, ou os respectivos incidentes, ressalvadas as exceções expressas;

XVI, que negarem alimentos provisionais;

XVII, que, sem caução idônea, ou independentemente de sentença anterior, autorizarem a entrega de dinheiro ou quaisquer outros bens, ou a alienação, hipoteca, permuta, subrogação ou arrendamento de bens.

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rejeitassem as “exceções” de litispendência ou de coisa julgada, ensinam Fredie Didier Jr. e Leonardo Carneiro da Cunha (2018).

Já com o advento do Código de Processo Civil de 1973, o recurso de agravo de instrumento passou a ser cabível contra qualquer decisão interlocutória, porém, também abrangia o agravo retido, nessa linha entende Henrique de Moraes Fleury da Rocha (2018).

O CPC-1973, em sua sistemática originária, passou a prever o agravo de instrumento, como recurso cabível contra qualquer decisão interlocutória. Na verdade, o recurso era o de agravo de instrumento, que teria uma modalidade: o agravo retido. Ao agravante era conferida a opção de escolha entre interpor o agravo de instrumento e o agravo retido. (DIDIER Jr.; CUNHA, 2018, p. 241).

Ainda, segundo Didier Jr. e Cunha (2018), no ano de 1995, por intermédio da Lei n° 9.139, foi alterado dispositivos relacionados ao recurso de agravo. Nesta senda, o recurso que antes era chamado de agravo de instrumento recebeu a denominação genérica de agravo, sendo assim, subentendeu-se que o recurso era o de agravo, podendo ser interposto sob as modalidades de agravo retido ou agravo de instrumento. Ademais, essa reforma processual trouxe uma novidade que foi estabelecer a interposição de recurso de agravo de instrumento diretamente ao tribunal competente para julgá-lo.

Em 2001, com o objetivo de baixar o número de julgamentos de agravos de instrumento, foi editada a Lei n° 10.352, a qual determinou as hipóteses obrigatórias do recurso de agravo retido. Desse modo, caberia agravo retido “[...] quando interposta das decisões proferidas em audiência de instrução e julgamento e das posteriores à sentença, salvo nos casos de dano de difícil e de incerta reparação, nos de inadmissão da apelação e nos relativos aos efeitos em que a apelação fosse recebida”, consoante Didier Jr. e Cunha (2018, p. 243).

Nesse sentido dispõe o art. 523, § 4°, o qual estabeleceu que:

Art. 523, § 4°. Será retido o agravo das decisões proferidas na audiência de instrução e julgamento e das posteriores à sentença, salvo nos casos de dano de difícil e de incerta reparação, nos de inadmissão da apelação e nos relativos aos efeitos em que a apelação é recebida. (NR). (BRASIL, 2001, p. 2).

Nessas premissas, considerando o insucesso da alteração, entrou em vigor a Lei n° 11.187/2005, que conferiu nova disciplina ao cabimento do agravo retido e de instrumento,

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estabelecendo como regra o agravo retido. O recurso de agravo de instrumento somente caberia nas seguintes hipóteses:

[...] Somente caberia agravo de instrumento em hipóteses expressamente indicadas: (a) quando se tratasse de decisão suscetível de causar à parte lesão grave e de difícil reparação; (b) nos casos de inadmissão da apelação; e, (c) nos relativos aos efeitos em que a apelação fosse recebida [...] (DIDIER Jr.; CUNHA, 2018, p. 243).

Diante disso, ao relator era permitido converter o agravo de instrumento em agravo retido, no caso de ter sido este interposto fora daquelas hipóteses. A interposição do agravo de instrumento cabia quando a decisão fosse causar a parte, lesão grave e de difícil reparação. Destarte, o agravo de instrumento era cabível da decisão que indeferisse interposição de terceiros, da que concedesse provimento de urgência, da que indeferisse parcialmente a petição inicial, da que versasse sobre competência do juízo, da que resolvesse parcialmente o mérito, entre outras consideradas pela jurisprudência. (DIDIER Jr.; CUNHA, 2018, p. 243).

Portanto, nas condições acima mencionadas, não cabia a figura do agravo retido, por inadequação, sendo cabível o agravo de instrumento. O agravo retido foi eliminado do Código de Processo Civil de 2015 e, estabeleceu um rol taxativo de decisões possíveis ao recurso de agravo de instrumento, consoante Didier Jr. e Cunha (2018, p. 243).

1.2 Legislação vigente sobre o recurso de Agravo de Instrumento e hipóteses de cabimento

O agravo, provavelmente, tenha sido o recurso que mais sofreu alterações no decorrer da história processual brasileira, sobretudo após 1985, porquanto foram feitas consideráveis alterações quanto sua competência para interposição, regime, hipóteses de cabimento de pressupostos de admissibilidade e poderes ao relator. Um dos motivos de ocorrer diversas alterações é pelo fato de o recurso de agravo ser o mais frequente na realidade dos operadores do processo, pois ataca decisões interlocutórias prolatadas ao longo do processo, enquanto tramita em 1° grau, de acordo com Renato Montans de Sá (2016, p. 1.085).

Insta frisar que o agravo (contra decisões de primeiro grau) cabia contra toda e qualquer decisão interlocutória no processo, em razão disso foi o recurso que sofreu maiores modificações com a reforma do Código de Processo Civil de 2015. No Código de Processo Civil de 1973 havia quatro modalidades de agravo, passíveis de interposição contra decisões

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de primeiro grau, sendo eles: (a) o agravo de instrumento; (b) o agravo retido; interpostos contra decisões de segundo grau: (c) o agravo que tinha por finalidade destrancar os recursos de estrito direito; (d) e o agravo interno (SÁ, 2016, p. 1.085-1.086).

Ademais, a reforma também alterou outros aspectos recursais: ficou expressas as modalidades de agravo em recurso especial ou extraordinário e não exclusivamente mantendo sob a rubrica genérica do “agravo”, bem como eliminou-se o agravo retido do ordenamento, estabelecendo-se um rol de decisões interlocutórias passíveis de serem impugnadas por agravo de instrumento. (SÁ, 2016, p. 1.086).

Nesse sentido, importante esclarecer que:

No CPC-2015, a definição de decisão interlocutória passou a ser residual: o que não for sentença é decisão interlocutória. Se o pronunciamento judicial tem conteúdo decisório e não se encaixa na definição do § 1° do art. 203, é, então, uma decisão interlocutória.

Ainda que tenha por fundamento uma das hipóteses do art. 485 ou do art. 487, o pronunciamento do juiz não será sentença se não puser termo a uma fase procedimental; será, então, decisão interlocutória. É decisão interlocutória o ato do juiz que exclui um litisconsorte, ou que reconhece a prescrição ou decadência de apenas um dos pedidos, prosseguindo o procedimento quanto ao mais. A decisão parcial de mérito (CPC, art. 356) é também uma decisão interlocutória. Tal pronunciamento, por não extinguir o processo, é uma decisão interlocutória, que pode já acarretar uma execução imediata, independentemente de caução (CPC, art. 356, § 2°). (DIDIER Jr.; CUNHA, 2018, p. 244-245).

Nesse sentido, Sá (2016, p. 1.086) explica que, com a eliminação da figura do agravo retido o Código de Processo Civil de 2015 trouxe uma importante classificação dos pronunciamentos do juiz para a definição do recurso cabível, sendo essas, decisões interlocutórias recorríveis e decisões interlocutórias irrecorríveis. Segundo o autor, o conceito de interlocutória faz-se por exclusão, pois sempre que não for sentença e compreender carga decisória estará se falando em interlocutória. As decisões irrecorríveis não ofendem o duplo grau de jurisdição por duas razões:

i) duplo grau, sendo princípio ligado à segurança jurídica, pode ser relativizado por

normas que prestigiem outros valores igualmente importantes como a efetividade;

ii) não se trata propriamente de irrecorribilidade, mas de diferimento da impugnação

para outro recurso em outra oportunidade (efeito devolutivo diferido).

Contudo, é possível, para evitar maiores prejuízos, que o inciso I (tutelas provisórias) seja interpretado de maneira ampla para abarcar, igualmente, as decisões que possam resultar lesão grave e de difícil reparação (já que as tutelas provisórias abrangem apenas os pedidos requeridos em tutela cautelar, antecipada e de evidência). Dessa forma reduziria o impacto que a “taxatividade” do art. 1.015 possa causa. Nessas situações (como acontecia no regime anterior) competirá ao

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tribunal verificar se a situação levada ao tribunal por agravo se enquadra de fato em caso de lesão grave e de difícil reparação. (SÁ, 2016, p. 1.086).

As decisões interlocutórias recorríveis de primeiro grau, permitem a interposição do recurso de agravo de instrumento, os quais serão processados diretamente no Tribunal, hipóteses previstas no art. 1.015 (caput e §§°) e outras ao decorrer do CPC de 2015, sendo que a não interposição do recurso acarreta preclusão. Entretanto, as decisões interlocutórias irrecorríveis são aquelas em que nas demais hipóteses não cabe agravo de instrumento, competindo à doutrina e jurisprudência analisar se o rol do agravo é exaustivo ou possível de ser ampliado. Todavia, as decisões irrecorríveis não serão preclusas e a matéria poderá ser devolvida ao Tribunal através da apelação ou de contrarrazões ao recurso de apelação. (SÁ, 2016, p. 1.086).

Já, no que compete às interlocutórias recorríveis o CPC/2015 estabeleceu um rol de mais de dez hipóteses de cabimento do recurso de agravo de instrumento, sendo aquelas ali mencionadas e outras previstas na legislação extravagante, bem como todas as decisões interlocutórias proferidas na fase de liquidação de sentença ou de cumprimento de sentença, no processo de execução e de inventário, conforme parágrafo único do artigo 1.015. (SÁ, 2016, p. 1.087).

Theodoro Jr. (2016, p. 1.042-1.043) observa que o Código de Processo Civil de 2015 orientou de maneira diversa a forma em que se admitirá o recurso de agravo de instrumento, enumerando um rol taxativo de decisões que poderão ser impugnadas. Segundo o autor, as decisões que não constam neste rol ou de outros dispositivos do Código, deverão ser questionadas em preliminar de apelação ou contrarrazões de apelação. Ainda, o autor esclarece que o agravo de instrumento é admitido, em qualquer hipótese, contra decisões que são proferidas na fase de liquidação de sentença ou de cumprimento de sentença, no processo de execução e no processo de inventário. “[...] Isso porque esses procedimentos terminam por decisões que não comportam apelação. Assim, as interlocutórias ali proferidas não poderão ser impugnadas por meio de preliminar do apelo ou de suas contrarrazões.”

Nesse viés, o agravo de instrumento será cabível apenas contra decisões que versem sobre:

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versarem sobre: I - tutelas provisórias; II - mérito do processo;

III - rejeição da alegação de convenção de arbitragem; IV - incidente de desconsideração da personalidade jurídica;

V - rejeição do pedido de gratuidade da justiça ou acolhimento do pedido de sua revogação;

VI - exibição ou posse de documento ou coisa; VII - exclusão de litisconsorte;

VIII - rejeição do pedido de limitação do litisconsórcio; IX - admissão ou inadmissão de intervenção de terceiros;

X - concessão, modificação ou revogação do efeito suspensivo aos embargos à execução;

XI - redistribuição do ônus da prova nos termos do art. 373, § 1º ; XII - (VETADO);

XIII - outros casos expressamente referidos em lei.

Parágrafo único. Também caberá agravo de instrumento contra decisões interlocutórias proferidas na fase de liquidação de sentença ou de cumprimento de sentença, no processo de execução e no processo de inventário. (BRASIL, 2015).

A respeito da decisão que decreta falência e acerca da decisão que julga a fase de liquidação de sentença, lecionam os doutrinadores Fredie Didier Jr. e Leonardo Carneiro da Cunha (2018, p. 246 e 247):

[…] O agravo de instrumento é, via de regra, o recurso interposto contra decisões interlocutórias. Nada impede, porém, que o legislador eleja hipóteses de sentenças agraváveis e decisões interlocutórias apeláveis. No caso específico da falência, há uma sentença agravável.

[…] Ao acolher ou rejeitar o pedido, o juiz profere sentença, encerrando a fase de conhecimento. Ainda que seja ilíquida a decisão, esta será uma sentença. Não é sem razão, aliás, que o art. 354 do CPC dispõe que, “ocorrendo qualquer das hipóteses previstas nos arts. 485 e 487, incisos II e III, o juiz proferirá sentença”. E seu art. 509 afirma que haverá liquidação quando a sentença condenar ao pagamento de quantia ilíquida. A iliquidez não transforma a sentença em decisão interlocutória. Será, de um jeito ou de outro, uma sentença.

Importa frisar que, o que não consta no rol do art. 1.015 do Código de Processo Civil de 2015 (eventuais decisões interlocutórias proferidas no processo), somente serão suscetíveis de impugnação após a prolação da sentença, nos termos do art. 1.009, § 1°, do CPC de 2015, conforme Henrique de Moraes Fleury da Rocha (2018, p. 2):

[...] em algumas situações, a ausência de recorribilidade imediata da decisão interlocutória acaba por tornar inútil a sua impugnação em preliminar de apelação ou nas contrarrazões. Para tentar solucionar o problema, a doutrina propõe duas principais alternativas: (i) a possibilidade de impetração de mandado de segurança; e (ii) a interpretação extensiva das hipóteses de cabimento do agravo de instrumento previstas no art. 1.015 do CPC/2015.

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No dizer de Ferreira (2017, p. 03) “[...] O agravo de instrumento não é mais um recurso cabível contra todas as interlocutórias, salvo hipóteses previstas em lei.” Ainda, está ocorrendo um equívoco quanto a criação de, pelo menos, duas correntes:

[...] uma defendendo que a enumeração legal indica taxatividade e não cabendo agravo somente há que se falar em apelação e se houver urgência deve ser admitida a impetração de mandado de segurança, enquanto outra corrente vem apresentando o que parte da doutrina denomina de “analogia”, procurando diante de situações de inutilidade da apelação “similitudes” indutoras ampliativa das hipóteses legais de cabimento, como, exemplo, rejeição de preliminar de incompetência ser analogicamente identificada à hipótese de rejeição da alegação de convenção de arbitragem (art. 1.015, III).

Segundo Assis (2016, p. 614-615), é importante estabelecer três observações complementares. A primeira é que não cabe agravo de despachos, de acordo com o disposto no artigo 203, § 3°. Para o autor, o art 1.001 é supérfluo em relação ao agravo de instrumento, isto porque somente são agraváveis as hipóteses enumeradas no art. 1.015. Explica Assis que, se algum despacho designado de forma errada traz conteúdo decisório, então deixou de ser despacho e passou a ser decisão interlocutória. Ademais, a irrelevância do nomen juris2 apresentado pelo órgão judiciário aos seus pronunciamentos. Como exemplo, tem-se a autoridade judiciária quando ignora o título da seção IV – Do Saneamento e da Organização do Processo – do Capítulo X do Título I da Parte Especial do CPC de 2015, e posterga a prescrição na etapa de saneamento, tornando o despacho saneador, podendo assim ser decisão agravável. Outrossim, finalizando as três nomenclaturas, o autor fala acerca da dificuldade em enumerar as hipóteses que não cabe agravo de instrumentos. Nas palavras do autor:

[...] Em linhas gerais, no processo de conhecimento não desafiam agravo as decisões: (a) na atividade de instrução, exceto quanto à exibição de documento ou de coisa (art. 1.015, VI) e ao ônus da prova (art. 1.015, XI), abrangendo essa restrição a essência da atividade instrutória – a definição do tema da prova e o deferimento, ou não, dos meios de prova propostos pelas partes, ou ordenados ex ofício, e os incidentes da produção da prova (v.g., a designação do perito, a limitação do número de testemunhas, a contradita das testemunhas, e assim por diante); (b) na condução do processo, incluindo a maior parte das preliminares do art. 337, exceto nos casos do art. 1.015, III, IV, V, VII, VIII, e IX), rejeitadas na decisão de saneamento e de organização do processo (art. 357, I), e , principalmente, a aplicação de multas processuais no curso do processo (art. 77, § 2°). Ao invés, as decisões interlocutórias proferidas na liquidação da sentença, no cumprimento da sentença, no processo de execução e no processo de inventário são plenamente agraváveis (art. 1.015, parágrafo único). O quadro se complica no âmbito das leis extravagantes. Por exemplo, há de se entender abrangidos no art. 1.015, parágrafo único, as decisões interlocutórias na falência e na recuperação judicial. (ASSIS, 2016, p. 615).

2 Nomen Juris: o nome da lei; Nome de direito. Título do crime.; denominação legal definindo um ato,

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Portanto, conclui-se que, desde a entrada em vigor do Código de Processo Civil de 2015, não há falar em necessidade de comprovação de risco de lesão grave e de difícil reparação para interposição do agravo de instrumento, porquanto será cabível o recurso, se configurar alguma das hipóteses elencadas no rol do art. 1.015, do § 1° do mesmo dispositivo legal ou previsto em outros lugares.

1.3 Procedimento do recurso e impactos da decisão nele proferida para o processo

O Código de Processo Civil de 2015, traz em seu art. 1.019 um “roteiro” que deve ser seguido para o processamento do recurso de agravo de instrumento, o qual é interposto diretamente no tribunal, conforme é predito no § 2° do art. 1.017, do CPC e terá de ser distribuído imediatamente, direcionando-se os autos conclusos ao relator (DIDIER; CUNHA, 2018, p. 283/284).

Outrossim, Sá (2016, p. 1.089) enuncia sobre o procedimento do agravo de instrumento, que este recurso retém característica que o torna diferente de todos os demais recursos do ordenamento: “[...] é o único recurso em que o órgão do Poder Judiciário que procederá a sua apreciação não terá à sua disposição todo o processo para análise em confronto com as razões recursais.” Nesse sentido, quer dizer que as razões recursais do agravo de instrumento serão levadas ao Tribunal, porém o processo continuará em primeira instância.

Evidente que para que o Tribunal tenha conhecimento da causa a fim de proceder ao julgamento, a lei determina o translado de cópia de determinadas peças do processo para que se forme, juntamente com as razões recursais, um instrumento, que será remetido diretamente ao Tribunal. Algumas peças são obrigatórias; outras facultativas, [...]. (SÁ, 2016, p. 1.089).

De acordo com Fredie Didier Jr. e Leonardo Carneiro da Cunha (2018, p. 284) segue:

Recebidos os autos pelo relator, este deverá verificar se é caso de aplicar ou não o inciso III do art. 932. Se houver alguma inadmissibilidade ou faltar alguma cópia obrigatória, deverá intimar o agravante para que este regularize o defeito (art. 932, par. ún., CPC). Não regularizado, irá inadmitir o recurso, dele não conhecendo. Regularizado que seja o vício, deve dar-lhe processamento regular. É possível, ainda, que o relator aplique o inciso IV do art. 932, já lhe negando provimento se o recurso for contrário a súmula vinculante ou a precedente obrigatório.

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Além disso, na petição do recurso de agravo de instrumento é imprescindível conter o nome e o endereço dos advogados do agravante e do agravo, porém, no caso de o agravo ser interposto contra decisões de cunho liminar, dispensa-se o nome do advogado do agravado, se o réu ainda não tiver sido citado. “O preparo dependerá da organização judiciária de cada Estado. [...] É controverso na doutrina o início do prazo para a interposição do agravo de instrumento da decisão que concede liminar no processo [...]”. (SÁ, 2016, p. 1.089).

Ainda, Sá (2016, p. 1.089) refere que:

Nesses casos, o réu ainda não está integrando o polo passivo da demanda. O STJ vem decidindo (corretamente) que o prazo não começa da intimação da liminar, mas sim do mandado de intimação cumprido juntado aos autos, consoante dispõe o art. 231, I e II, do CPC. O § 2° do art. 1.003 expressamente determina que se aplique a regra do art. 231, pondo fim à controvérsia.

Segundo Didier Jr. e Cunha (2018, p. 284) se não for condição de inadmissão ou de negativa imediata de provimento, o pedido de efeito suspensivo ou de tutela antecipada recursal, será examinado pelo relator, oportunizando, assim, o contraditório ao agravado, através da determinação de intimação para responder ao recurso. “[...] O relator pode conceder a tutela antecipada recursal, fundando-se na urgência ou só na evidência. [...]”. Nas palavras de Didier Jr. e Cunha (2018, p. 284), insta frisar que:

[...] o agravo de instrumento não tem efeito suspensivo automático. Cabe ao recorrente pedir que o relator atribua esse efeito. O efeito suspensivo que se atribua ao agravo de instrumento impede a produção de efeitos pela decisão agravada, mas não impede o prosseguimento do processo em primeira instância. Não se trata de suspensão do processo: é suspensão dos efeitos da decisão.

A interposição o recurso de agravo de instrumento tem dois efeitos, quais sejam,

devolutivo e suspensivo. De acordo com Theodoro Jr. (2016, p. 1.047), o agravo de

instrumento é um recurso que, geralmente, se limita ao efeito devolutivo, contudo o efeito suspensivo poderá ser concedido pelo relator em alguns casos. “[...] O regime atual parece confiar ao relator a prudente averiguação de maior ou menor risco no caso concreto, sem limitá-lo ao casuísmo de um rol taxativo.”

[...] Dois são os requisitos da lei, a serem cumpridos cumulativamente, para a obtenção desse benefício: (i) a imediata produção de efeitos da decisão recorrida deverá gerar risco de dano grave, de difícil ou impossível reparação; e (ii) a demonstração da probabilidade de provimento do recurso (arts. 995, parágrafo único, e 1.019, I).

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Os impactos da decisão proferida no julgamento do agravo de instrumento para o processo, variam consoante o teor da decisão. “[...] Uma vez provido o recurso, desaparece a decisão agravada por força do efeito substitutivo (retro, 26), e, por conseguinte, o efeito suspensivo porventura outorgado ao agravo de instrumento, [...]”. A sustentação do efeito suspensivo do agravo de instrumento vai até o julgamento. O nome efeito expansivo, origina-se das repercussões do provimento do agravo nos provimentos emitidos no processo subsequente a decisão impugnada.

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2 HIPÓTESES DE CABIMENTO DO AGRAVO DE INSTRUMENTO: INTERPRETAÇÕES COM RELAÇÃO A TAXATIVIDADE DO ROL DO ARTIGO 1.015 DO CPC

Nesse ponto penso que é possível abordar a grande discussão existente na doutrina e na jurisprudência, anterior a entrada em vigor do Código de Processo Civil de 2015, acerca da taxatividade, as hipóteses de cabimento do recurso de agravo de instrumento contra decisões interlocutórias de primeiro grau, a qual foi contemplado no rol do art. 1.015 do CPC, que optou pela delimitação das matérias.

Essa limitação contemplada pelo atual Código, assemelha-se ao Código de Processo Civil de 1939, posto que delimitou o cabimento deste recurso, fundando-se nos princípios processuais da economia e celeridade, uma vez que as decisões não compreendidas pelo artigo 1.015 possam permanecer desprendidas da preclusão, “[...] sendo possível que as próprias partes a suscitem posteriormente ao oferecimento da apelação ou de contrarrazões [...]”, no dizer de Alexandre Freitas Câmara (2015, p. 10).

Em razão dessa controvérsia, o segundo capítulo do presente estudo abordará a contextualização do CPC de 2015 no que compete aos recursos, em especial ao agravo de instrumento, a ampliação do rol do art. 1.015, bem como o posicionamento dos tribunais.

2.1 Contextualização do Código de Processo Civil de 2015 quanto aos recursos, em especial ao recurso de Agravo de Instrumento

Nelson Nery Junior e Rosa Maria de Andrade Nery (2016, p. 2234/2235) pensam que ao indicar hipóteses de interposição do agravo de instrumento, o legislador considerou ser essas as únicas capazes de trazer prejuízo as partes, caso não fossem apreciadas imediatamente em segundo grau de jurisdição. Dessa forma, outras questões suportariam aguardar a análise de recurso de apelação, visto que aparentemente são de menor importância.

Nelson Nery Junior e Rosa Maria de Andrade Nery (2016, p. 2235), frisam:

[...] Vale ressaltar, em favor do nosso argumento, a dificuldade havida na fixação das hipóteses de cabimento do agravo durante o trâmite do projeto do novo CPC no Congresso Nacional. O substitutivo da Câmara elencava vinte (!) possibilidades, o

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que contrasta com as treze que a redação final do CPC contempla, em favor da “clareza e da duração razoável do processo” (RFS-Senado, p. 81), sem argumentar com a lógica processual ou outras situações de ordem prática que podem sofrer algum tipo de prejuízo em razão do critério legalista do CPC 1.015. [...].

Para os autores Didier, Lucas Buril de Macêdo, Ravi Peixoto e Alexandre Freire (2015, p. 1332/1333) o legislador procurou antever os casos que explicariam a recorribilidade imediata da decisão interlocutória, porém “A riqueza das situações que podem surgir no dia a dia do foro, [...], escapam da inventividade do legislador. Nesses casos, à falta de recurso que possa ser usado imediatamente contra a decisão, poderá ser o caso de se fazer uso do mandado de segurança [...]”.

Penso que o novo sistema gera um grande risco de divergência acerca daquelas decisões interlocutórias que, não sendo impugnáveis por agravo de instrumento, versam sobre matérias a cujo respeito não se opera a preclusão (como são, por exemplo, a legitimidade das partes e o interesse de agir). Proferida a decisão de saneamento do processo, e expressamente afirmada a existência de legitimidade e interesse, não se admitirá agravo de instrumento. Será, então, de se questionar se, nesse caso, não sendo aquela matéria coberta pela preclusão. E se a resposta for positiva, alcançaria essa preclusão só as partes? Ou também o órgão jurisdicional? (CÂMARA, 2015, p. 9-10).

Câmara (2015, p. 10), acredita que, nessa hipótese, não há preclusão, visto que forte no dispositivo art. 482, § 3°, do CPC, essas matérias podem ser conhecidas ex officio “em qualquer tempo e grau de jurisdição, enquanto não ocorrer o trânsito em julgado” e, nesse sentido não estão sujeitas à preclusão. Ocorre que essa inovação trazida pelo CPC não é a única, já que houve muitas mudanças para o recurso de agravo de instrumento.

Neste caso, entende Nery Junior e Nery (2015, p. 2233), que o sistema incorpora o

princípio da irrecorribilidade em separado das interlocutórias como regra, não se tratando de

irrecorribilidade da interlocutória que não está no rol do CPC 2015, mas de recorribilidade

diferida, trabalhada em futura e eventual apelação (razões ou contrarrazões). Conquanto, no

caso de a decisão interlocutória causar gravame de difícil ou impossível reparação, poderá ser submetida a análise do tribunal competente para conhecer da apelação, pelo emprego do mandado de segurança e da correição parcial. Ademais, o Código de Processo Civil de 2015 poderia ser interpretado de forma mais flexível, sendo o rol de situações do artigo exemplificativo e não exauriente.

Ademais, referente as decisões interlocutórias irrecorríveis por agravo de instrumento não há preclusão, ou seja, as que não se enquadram no artigo 1.015 do CPC podem ser

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impugnadas nas razões ou contrarrazões de apelação, conforme disposto no art. 1.009, § 1°, do CPC. Já as decisões interlocutórias recorríveis por recurso de agravo de instrumento, destarte, nas hipóteses enquadradas no rol do artigo 1.015, estão sujeitas a preclusão, sendo que se não forem impugnadas pelo agravo de instrumento “[...] a parte ou interessado perde o direito de as impugnar posteriormente, o que significa dizer que, por exemplo, não poderão ser impugnadas nas razões ou contrarrazões de apelação.” (NERY JUNIOR; NERY, 2016, p. 2233).

Como já mencionado no decorrer do trabalho, o Código de Processo Civil de 2015 prevê em seu art. 1.015, um rol de decisões interlocutórias contra as quais se admitirá agravo de instrumento. Sendo elas:

Art. 1.015. Cabe agravo de instrumento contra as decisões interlocutórias que versarem sobre:

I - tutelas provisórias; II - mérito do processo;

III - rejeição da alegação de convenção de arbitragem; IV - incidente de desconsideração da personalidade jurídica;

V - rejeição do pedido de gratuidade da justiça ou acolhimento do pedido de sua revogação;

VI - exibição ou posse de documento ou coisa; VII - exclusão de litisconsorte;

VIII - rejeição do pedido de limitação do litisconsórcio; IX - admissão ou inadmissão de intervenção de terceiros;

X - concessão, modificação ou revogação do efeito suspensivo aos embargos à execução;

XI - redistribuição do ônus da prova nos termos do art. 373, § 1°; XII - (VETADO);

XIII - outros casos expressamente referidos em lei. (BRASIL, 2015).

O recurso de agravo de instrumento será interposto por petição, devendo esta ser instruída com peças que permitirão a formação do instrumento, tendo que constar da petição os nomes das partes, a exposição do fato e do direito, as razões do pedido de reforma ou invalidação da decisão e o próprio pedido e, enfim os nomes e endereços completos dos advogados que constam no processo. Além disso, “são peças obrigatórias (art. 1.014, I) cópias da petição inicial, da contestação, da petição que ensejou a decisão agravada, da própria decisão recorrida, da certidão da respectiva intimação ou de outro documento oficial que comprove a tempestividade do recurso e, por fim, das procurações outorgadas aos advogados do agravante e do agravado [...]”. Faltando qualquer destas peças, competirá ao advogado declarar o fato, em virtude da sua responsabilização pessoal. Importa frisar que no caso dos

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autos serem eletrônicos, dispensa-se as peças obrigatórias, sendo permitida a juntada de peças facultativas, art. 1.014, § 5°. (CÂMARA, 2015, p. 11).

Assis (2016, p. 630) leciona que o prazo para interpor o recurso de agravo de instrumento é de quinze dias, art. 1.003, § 5°, do CPC, “[...] Vale observar que, não tendo decorrido quinze dias entre a data da emissão do ato e a data do protocolo do agravo, dispensa-se a juntada da certidão de intimação, porque a tempestividade é evidente.” Ainda, cabe ao agravante juntar no juízo de primeiro grau, comprovante da interposição do agravo de instrumento, qual seja o protocolo ou o recibo expedido pelo correio, bem como a relação dos documentos que instruíram o recurso.

Diante de tal cenário, cumpre adentrar na discussão ocorrida na doutrina e na jurisprudência, as quais vêm se perguntado se o rol do art. 1.015 é taxativo ou não e qual a possibilidade e a maneira de interpretar este dispositivo pressupondo outras hipóteses não previstas de forma expressa pelo CPC de 2015. Nesse sentido ainda continua Cassio Scarpinella Bueno (2018, p. 811) assevera:

[...] entendo que o rol – longe dos rótulos a ele atribuíveis e em geral atribuídos -, não é impeditivo para que se dê máximo rendimento às hipóteses nele previstas, como forma adequada de atingir o duplo objetivo que já anunciava: verificar de que maneira as escolhas feitas atendem, ou não, as necessidades do dia a dia do foro e evitar a generalização do mandado de segurança contra ato judicial, medida que, na década de 1980 até meados da década de 1990, consagrou-se como sucedâneo recursal para fazer as vezes do que, naquela época, o regime do agravo de instrumento permitia. [...].

Theodoro Junior, Dierle Nunes, Alexandre Melo Franco Bahia e Flávio Quinaud Pedron (2015, p. 283/284) tratam a respeito das demandas repetitivas, esclarecendo que a estruturação de técnicas de julgamentos em larga escala, não pode negligenciar a aplicabilidade conexa dos direitos fundamentais dos cidadãos sob argumentos econômicos e funcionais. Para isso, elucidam que na atualidade a ciência processual precisa lidar com três tipos de litigiosidade: individual ou “de varejo”; a litigiosidade coletiva; e em massa ou de alta intensidade. Os autores entendem que o Código de Processo Civil de 2015, criou um modelo incoerente quando restringiu a recorribilidade das interlocutórias através do agravo de instrumento.

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A taxatividade, ou não, do rol de cabimento do agravo de instrumento, previsto no artigo 1.015 do CPC, gerou discussão no Superior Tribunal de Justiça, afetado pelo rito dos recursos especiais repetitivos, dito isso, a corte Especial do STJ pronunciará se o recurso poderá ou não ser interposto em face de decisões interlocutórias que não fazem parte das hipóteses previstas no artigo. O Recurso Especial 1.704.520/MT, de relatoria da Ministra Nancy Andrighi, deu início a discussão por conta de um caso em que houve decisão de acolhimento de exceção de incompetência relativa territorial, sendo impugnada por agravo de instrumento não conhecido monocrática e colegiadamente pelo Tribunal de Justiça do Mato Grosso, conforme descreve Carlos Augusto Cezar Filho (2018, p. 01).

Nessa contenda, Lenio Luiz Streck e Diego Crevelin de Sousa (2018, p. 01) esclarecem que a Ministra Nancy Andrighi, do Superior Tribunal de Justiça defende a ideia de

taxatividade mitigada, vejamos:

[...] Vamos ao voto da ministra Nancy Andrighi, valendo-nos do escorreito e fidedigno relato feito por Natalia Peppi Cavalcanti e Luiza Mendonça[2]. A relatora: ressaltou que o direito processual deve ser interpretado de acordo com a Constituição e que as normas fundamentais prescritas no CPC deve orientar a sua interpretação; registrou uma espécie de fracasso histórico das tentativas de estabelecer róis taxativos na legislação processual brasileira; sistematizou as principais correntes doutrinárias acerca da espécie do rol do art. 1.015, CPC, e do tipo de interpretação admissível acerca dele; observou ser comum a ocorrência de situações urgentes, capazes de causar prejuízo às partes, não serem contempladas nos róis legais; avaliou que essa última circunstância gera a impetração de mandados de segurança contra decisões judiciais, o que reputa uma anomalia; sustentou que nos casos de urgência não previstos no rol do art. 1.015, CPC, deve ser repelido o manejo do mandado de segurança e admitido o recurso de agravo de instrumento com base nas normas fundamentais do CPC, excluída a interpretação extensiva e a analogia por não haver parâmetro minimamente seguro quanto aos limites que deverão ser observados em cada conceito, texto ou palavra, além de não serem suficientes para abarcar todas as questões que devem ser reanalisadas de imediato; sugeriu que, acolhida a tese por ela proposta, não haverá preclusão temporal (a parte poderá interpor agravo de instrumento, imediatamente, ou apelação, mediatamente) nem preclusão consumativa caso o juízo ad quem não reconheça a presença da urgência, quando poderá impugnar novamente a decisão interlocutória, via apelação; propôs que, acolhida a sua tese, a decisão produza efeitos apenas após a publicação do acórdão; concluiu que o art. 1.015, CPC, encerra um rol de taxatividade mitigada, deve ser admitido agravo de instrumento nos casos de urgência com base nas normas fundamentais do CPC, não de interpretação extensiva ou analogia.

Para os autores, o voto da Ministra Nancy diverge da doutrina majoritária, isto porque a doutrina sustenta que o rol é taxativo, dado que o Código de Processo Civil contempla hipóteses de decisões interlocutórias impugnáveis pelo recurso de agravo de instrumento, sendo exceção a recorribilidade imediata das decisões (STRECK; SOUSA, 2018, p. 02).

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Além disso, o tema já possui divergência doutrinária, a qual na primeira corrente há quem defenda que o rol não é taxativo, mas exemplificativo. No caso da taxatividade do rol do art. 1.015 trazer inúmeros tormentos, é provável que nos anos seguintes parte da doutrina entenda que a relação é exemplificativa. Esse posicionamento parte do pressuposto de que “[...] acolhe-se a interposição do agravo de instrumento em situações distintas daquelas positivadas, o que, certamente, ofende flagrantemente a regra legislativa, bem como o objetivo do legislador, [...] dificilmente a mens legis é um mero arrolamento de exemplos”, conforme Pablo Freire Romão (2016, p. 03).

Já a segunda corrente defende que é taxativo permitindo interpretação extensiva, devido a perspectiva que amplia o sentido da norma para além do contido em sua letra. “[...] Assim, “se a mensagem normativa contém denotações e conotações limitadas, o trabalho do intérprete será o de torná-las vagas e ambíguas (ou mais vagas e ambíguas do que são em geral, em face da imprecisão da língua natural de que se vale o legislador).” (DIDIER; CUNHA, 2018, p. 248/249).

Por fim, como referido no decorrer do estudo, a terceira corrente (STRECK; SOUSA, 2018, p. 3) defende que o rol é taxativo, não compreendendo interpretações fora das hipóteses previstas em lei. Essa corrente acredita que o rol é taxativo em razão das hipóteses enumeradas pelo Código de Processo Civil de 2015 ao recurso de agravo de instrumento disposto no art. 1.015.

2.2 Ampliação do rol do artigo 1.015: taxatividade e interpretação extensiva

A datar da vigência do Código de Processo Civil de 1973, observou-se a imprescindibilidade em reformar as lacunas presentes naquele livro, do mesmo modo buscar possibilidades para tudo o que foi feito no decorrer dos anos. Além disso, como forma de dar enfoque a transformação do processo em um meio efetivo e célere, fez-se necessária a criação de um novo Código de Processo Civil sob o nº. 13.105/2015.

O rol do art. 1.015 do Código de Processo Civil é taxativo e, em consequência disso, vem criando uma série de controvérsias na doutrina e na jurisprudência, uma vez que excluiu

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quantidade significativa de decisões possíveis de serem recorridas através do agravo de instrumento que, no Código de 1973, eram permitidas.

Somente são impugnadas por agravo de instrumento as decisões interlocutórias relacionadas no referido dispositivo. Para que determinada decisão seja enquadrada como agravável, é preciso que integre o catálogo de decisões passíveis de agravo de instrumento. Somente a lei pode criar hipóteses de decisões agraváveis na fase de conhecimento – não cabe, por exemplo, convenção processual, lastreada no art. 190 do CPC/2015, que crie modalidade de decisão interlocutória agravável. (CUNHA; DIDIER Jr., 2015, p. 2).

Sobrevém algumas situações que, a falta de recorribilidade imediata das interlocutórias, torna inútil a impugnação em preliminar de apelação ou nas contrarrazões e, diante disso, objetivando achar saídas para o problema, é sugerido pela doutrina duas opções: a possibilidade de impetração de mandado de segurança e a interpretação extensiva das hipóteses de cabimento do agravo de instrumento dispostos no artigo 1.015 do CPC. (ROCHA, 2018, p. 2).

Nesse viés, explicam Didier e Cunha (2018, p. 248) que, “Tradicionalmente, a interpretação pode ser literal, mas há, de igual modo, as interpretações corretivas e outras formas de reinterpretação substitutiva. [...]”. Para os autores, a interpretação literal equivale a uma fase da interpretação sistemática, a qual será interpretada em seu sentido literal para posteriormente ser avaliada de forma crítica e sistemática, de modo que haverá análise sobre a adequação com o sistema inserido.

No caso de haver divergência entre o sentido literal e o genérico, teleológico ou sistemático, adotar-se-á uma das interpretações corretivas, destacando-se a extensiva, “[...] que é um modo de interpretação que amplia o sentido da norma para além do contido em sua letra [...]”. (DIDIER Jr.; CUNHA, 2018, p. 249).

Assim, “se a mensagem normativa contém denotações e conotações limitativas, o trabalho do intérprete será o de torná-las vagas e ambíguas (ou mais vagas e ambíguas do que são em geral, em face da imprecisão da língua natural de que se vale o legislador)”. (DIDDIER Jr.; CUNHA, 2018, p. 249).

Já Rocha (2018, p. 2), aponta que parte da doutrina afirma ser possível conceder mandado de segurança, com base no artigo 5º, II, da Lei 12.016/2009, nos casos de decisões interlocutórias que não permitirem agravo de instrumento, porém violarem direito líquido e certo. Entende o autor, que admitir impetração de mandado de segurança contra todas as

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decisões não elencadas no rol do artigo 1.015 do CPC está em desacordo com a opção legislativa de limitar a possibilidade de imediata impugnação das interlocutórias, tornando-se desnecessário o novo regramento. O artigo 5º, II, da Lei 12.016/2009, que dispõe sobre o mandado de segurança, disciplina in verbis “Art. 5º Não se concederá mandado de segurança quando se tratar: (...) II - de decisão judicial da qual caiba recurso com efeito suspensivo;”. (BRASIL, 2009).

De outro lado, parte da doutrina defende a necessidade de interpretação extensiva do art. 1.015 do CPC, visando possibilitar a interposição do recurso de agravo de instrumento em hipóteses não enquadradas no rol do dispositivo. Entretanto, a própria doutrina tem dúvidas acerca da interpretação extensiva dos incisos do dispositivo acima mencionado, motivo pelo qual “[...] além de se tratar de rol taxativo – o que para alguns, inviabilizaria a interpretação extensiva –, não há, a rigor, qualquer lacuna a ser preenchida – a tornar desnecessário, na visão de certos estudiosos, o uso de um método de integração do Direito [...]”, visto que o artigo 1.009, § 1º, do CPC de 2015, apresenta solução a todas decisões interlocutórias não elencadas no artigo 1.015. (ROCHA, 2018, p. 2). Vejamos:

Art. 1.009. Da sentença cabe apelação.

§ 1º As questões resolvidas na fase de conhecimento, se a decisão a seu respeito não comportar agravo de instrumento, não são cobertas pela preclusão e devem ser suscitadas em preliminar de apelação, eventualmente interposta contra a decisão final, ou nas contrarrazões. (BRASIL, 2015).

Didier Jr. e Cunha (2018, p. 250), compreendem que a interpretação extensiva funciona por comparações e isonomizações e, não por encaixes e subsunções, em virtude da taxatividade das hipóteses do art. 1.015 do CPC. Diante dessas circunstâncias, é necessário adotar a interpretação extensiva porquanto “[...] corre-se o risco de se ressuscitar o uso anômalo e excessivo do mandado de segurança contra ato judicial, o que é muito pior, inclusive em termos de política judiciária.”

Rocha (2018, p. 2) compreende a interpretação extensiva como instrumento de hermenêutica, ou seja, permitir a aplicação aos incisos do artigo 1.015 do Código de Processo Civil com relação a previsão contida no art. 1.009, § 1º. Outrossim, concorda com a tese referente a taxatividade do rol do 1.015 admitir intepretação extensiva sempre de acordo com as demais técnicas de interpretação. Ao ver do autor, somente alguns casos seriam possível a

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