UNIJUI – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO – STRICTO SENSU MESTRADO EM EDUCAÇÃO NAS CIÊNCIAS
LEANI ROSANI KRÜGER
GESTÃO BUROCRÁTICA E GESTÃO PEDAGÓGICA: ENTRE O INSTITUÍDO E INSTITUINTE
Ijui, RS 2012
LEANI ROSANI KRÜGER
GESTÃO BUROCRÁTICA E GESTÃO PEDAGÓGICA: ENTRE O INSTITUÍDO E INSTITUINTE
Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Educação do Programa de Pós-Graduação Strictu Sensu em Educação da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul - UNIJUÍ, como requisito para obtenção do Título de Mestre em Educação nas Ciências.
Orientadora: Profª. Drª. Helena Copetti Callai
Ijui, RS 2012
LEANI ROSANI KRÜGER
GESTÃO BUROCRÁTICA E GESTÃO PEDAGÓGICA: ENTRE O INSTITUÍDO E INSTITUINTE
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu – Mestrado em Educação nas Ciências – Unijuí – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, como requisito para obtenção do título de Mestre em Educação.
Banca Examinadora
_________________________________________ Profª Dra. Helena Copetti Callai – Unijuí
___________________________________________ Prof Dr Otávio Aloísio Maldaner - Unijuí
___________________________________________ Prof ª Drª Anna Maria Colling - UNILASALLE
Conceito: ___________________________________________________
DEDICATÓRIA
À minha mãe Aidê por sua postura diante da vida; e ao meu pai Walter Osmar de quem aprendi valiosos ensinamentos sobre gestão. Por terem me ensinado lições de persistência e tolerância.
AGRADECIMENTOS
A Deus, pela oportunidade do acordar a cada dia com a possibilidade de aprender e muitas vezes sonhar. Pela graça de ter encontrado força e ânimo mesmo parecendo não haver motivação pessoal para tal.
Ao meu esposo e companheiro Wandir Edgar, o qual foi decisivo no seu incentivo para que eu estivesse realizando o curso de mestrado. Participou do projeto inicial, mas não mais esteve para ler a dissertação. E também ao meu filho Lucas Renan - Lukinhas - que partiu desta vida com seus 16 anos, quando realizar o mestrado era um sonho para mim e que parecia não ter mais sentido. Ficam as lembranças do apoio e carinho mescladas pela saudade dos tempos de família completa.
Ao meu filho William Eduardo, agradeço por ter juntamente com o Lucas ampliado minha compreensão da vida. A experiência da maternidade implicou a vivência de tantos outros sentimentos que integram minha constituição.
À orientadora, professora e Dra. Helena Copetti Callai por seu apoio e paciência no acompanhamento e transmissões em meio aos desafios que se constituíram na trajetória.
Ao professor e Dr. Otávio Aloisio Maldaner pelas palavras de incentivo antes do ingresso do curso e na trajetória do mesmo. Pela disponibilidade em integrar as bancas bem como pelas valiosas contribuições no estudo desenvolvido.
Ao professor e Dr. Paulo Evaldo Fensterseifer pelas contribuições através de suas explanações; da socialização de diversas produções e indicação de leituras que foram essenciais ao processo de construção do conhecimento. Por sua importante participação na banca de qualificação.
À professora e Dra. Anna Maria Colling, pela significativa leitura, à luz de seu olhar crítico, bem como pelas contribuições na banca de defesa final.
Às coordenadoras pedagógicas da escola Lisandra e Márcia que tantas vezes foram ouvintes de angústias e realizações. Participaram compreensivamente do processo da pesquisa, nas implicações de tantas “idas e vindas”, viagens e aulas durante o curso.
Às amigas Giselda, Lidiane e Marcele pelo apoio nos momentos de aflição e pelas leituras pontuais.
À Felícia pelos cuidados na formatação e a ex-colega Leonice por seu auxílio na informática.
À professora Maria Aparecida pela leitura do texto final e os cuidados com a Língua Portuguesa.
Aos colegas da Escola Cenecista de Ensino Médio Padre Anchieta com os quais convivo e que contribuíram durante esse curso.
A todos os colegas da turma de mestrado 2009, mulheres e homens que, cada um a sua maneira, foram cúmplices da construção do conhecimento materializado nesse estudo.
Professores do Mestrado em Educação nas Ciências da Unijuí que despertaram e encaminharam para leituras e reflexões na sequência dos encontros.
RESUMO
Esta Dissertação tem por objetivo buscar o conhecimento da dimensão da gestão a partir do contexto histórico e cultural, mediante as concepções dos professores. Diante disso, identifica-se como questão de estudo para alcançar os objetivos: partindo da perspectiva dos professores, o que é pedagógico e o que é burocrático na gestão escolar? Para a realização desse estudo a metodologia aplicada contou com a pesquisa documental para a contextualização da escola cenecista, sendo que a pesquisa de campo procurou compreender os fenômenos a partir da perspectiva dos sujeitos participantes da situação de estudo, através da técnica de grupo focal. Na perspectiva de analisar as concepções dos professores, apoiamo-nos em aportes teóricos que foram abordados a partir dos conceitos gerais da administração nos quais tratamos dos modelos administrativos e a teoria da burocracia. Com relação à administração no contexto escolar, trabalhamos a partir do lugar da gestão nos caminhos da educação; gestão pedagógica e gestão burocrática; concepções sobre a constituição do conhecimento a partir de Marques; a LDBEN e o que ela prevê sobre gestão. A partir das percepções dos professores sobre a burocracia, conclui-se que a mesma é reconhecida como necessária. E, é evidenciado que a burocracia está na instituição escolar. Quanto ao que é pedagógico, as manifestações mostram as relações implícitas na compreensão da burocracia no espaço escolar. Assim, a escola é uma instituição burocrática, e, para que cumpra a sua função que está para a aprendizagem dos alunos, demanda de excelência em seus serviços, o que implica na racionalidade do exercício profissional dos sujeitos diante dos objetivos. Essa forma de fazer a gestão da educação demanda burocracia, considerada a partir de suas características e reconhecendo, nas suas disfunções, o lugar da participação do sujeito através do instituinte que tem o seu espaço no que não está previsto. Palavras-chave: gestão - escola - burocracia - instituído - instituinte.
ABSTRACT
The present paper aims to seek the knowledge of the management dimension from historical and cultural context, through the conception of teachers. Given this, a matter of study arises as to achieve the objectives: from the perspective of teachers, what is pedagogical and what is bureaucratic in school management? In order to carry out this study, the methodology had a data research for the contextualization of the cenecista school, while the field research seeks to understand the phenomena from the perspective of the participants through the focal group technique. In views of analyzing the conceptions of the teachers, the work was supported by theoretical material approached from the general concepts of management, where management models and bureaucracy theory were discussed. As for management in a school context, the role of management in education was approached; pedagogical and bureaucratic management; conceptions about the creation of knowledge by Marques; LDBEN and what it foresees about management. From the perceptions of teachers on bureaucracy, it is concluded that it is recognized as necessary, and it is pointed out that the bureaucracy is present in school. As for what is pedagogical, expressions show the implicit relations in understanding bureaucracy in a school environment. Thus, the school is a bureaucratic institution, and in order for it to meet its role - the learning, it demands excellence in its service, which implies the rationality of the professionals facing its objectives. This way of managing education demands bureaucracy, considered from its features and acknowledging, in its dysfunctions, the role of the subject through the organizer who has his/her space where it is not predicted.
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1: Representa as instituições educacionais conforme sua localização até a
emancipação municipal. Este gráfico representa o período de 1941 a 1959 ... 22 Gráfico 2: Representa as instituições educacionais conforme sua localização no tempo em que a CNEC Padre Anchieta completa seu cinquentenário, ou seja, em 2010... 25 Gráfico 3: Representa a população no ano de 2010, diante do movimento de urbanização ... 26
LISTA DE QUADROS
Quadro 1: Ideias recorrentes na participação escrita dos sujeitos dos professores ...85 Quadro 2: Ideias que foram mais freqüentes no debate ...86
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ...12
1 UMA ESCOLA CENECISTA EM SANTO AUGUSTO-RS ...18
1.1 O MUNICÍPIO DE SANTO AUGUSTO: HISTÓRIA E EDUCAÇÃO ...19
1.2 A INSTITUIÇÃO CENECISTA: NO PAÍS, ESTADO E MUNICÍPIO ...28
1.2.1 Documentos da escola e práticas que integram a gestão ...37
1.2.2 O calendário escolar: a rotina dos dias de aula ...40
1.2.3 A escola: as construções e a constituição da sua história...44
1.2.4 Trabalhos identificados com estudos voltados para a rede cenecista ...49
2 ADMINISTRAÇÃO E GESTÃO NA ESCOLA ...51
2.1 A ADMINISTRAÇÃO E SEUS CONCEITOS GERAIS ...51
2.1.1 Modelos administrativos ...52
2.1.2 A teoria da burocracia ...56
2.2 A ADMINISTRAÇÃO NO CONTEXTO ESCOLAR ...59
2.2.1 O lugar da gestão escolar nos caminhos da educação ...59
2.2.2 Gestão pedagógica e gestão burocrática ...65
2.2.3 Concepções sobre a constituição do conhecimento a partir de Marques ...67
2.2.4 A LDBEN e o que ela prevê sobre gestão ...71
3 A TRAJETÓRIA DA PESQUISA ...77
3.1. ESPECIFICIDADES METODOLÓGICAS ...77
3.2 SUJEITOS DA PESQUISA ...79
3.3 PREPARAÇÃO E REALIZAÇÃO DA COLETA DOS DADOS ...80
3.3.1 Quanto à dinâmica de grupo focal ...81
3.3.2 Como a pesquisa de campo aconteceu ...83
3.3.3 O tratamento dado ao material coletado...85
4 A VOZ DOS PROFESSORES: AS CATEGORIAS DA PESQUISA ...87
4.1 BUROCRÁTICO E PEDAGÓGICO ...89 4.2 PROFESSOR GESTOR ...101 4.3 AS RELAÇÕES ...107 4.4 TEMPO E ESPAÇO...111 CONCLUSÕES...121 BIBLIOGRAFIA ...127 APÊNDICES ...131
INTRODUÇÃO
A sociedade, hoje, passa por mudanças que se desencadeiam de forma veloz e ininterrupta, gerando novas necessidades as quais interferem na vida das pessoas. São diferentes contextos, diante dos quais as pessoas precisam adaptar-se, visto que a apropriação do meio efetiva-se de maneira instável e provisória, acontecendo, assim, o descentramento das identidades. O sujeito do iluminismo1, com sua identidade fixa e estável que o acompanhava por toda a vida, deu lugar a outras concepções de sujeito, cujas identidades, que o representam, são temporárias.
Dessa forma, as tecnologias estão muito presentes no mundo moderno: os meios de comunicação ultrapassam as barreiras dos limites geográficos, encurtando distâncias; o mundo virtual ganha espaço, possibilitando um número cada vez maior de transações e
“encontros” que dispensam a presença física; os movimentos incessantes, com os quais as
pessoas são confrontadas, desencadeiam-se por sujeitos que, ao nascer, são inseridos, inicialmente, no seio de suas famílias e, na sequência de sua constituição a escola é o seu primeiro grupo de socialização ampliada. A partir daí, na interação com o outro acontece o encontro com o conhecimento sistematizado, ocorrendo a apropriação de saberes do conhecimento cientifico.
Em meio a este cenário, com tantos movimentos, na busca por possibilitar a vida ou de atender a valores que passaram a integrá-la, deparamo-nos com a necessidade de refletir as maneiras de administrar a formação das pessoas. Ao buscarmos conhecer os modelos de administração que marcam o contexto das instituições escolares, consideramos as legislações educacionais (Leis nº 4024/61, nº5692/71 e nº 7024/82), anteriores a que está em vigência,
1 “O sujeito do iluminismo estava baseado numa concepção da pessoa humana como um indivíduo totalmente centrado, unificado, dotado das capacidades de razão, de consciência e de ação, cujo “centro” consistia num centro interior, que emergia pela primeira vez quando o sujeito nascia e com ele se desenvolvia, ainda que permanecendo essencialmente o mesmo [....] ao longo da existência do indivíduo” (HALL, 2005, p.10-11).
tendo em vista que aquelas tinham sua orientação pelo princípio da padronização. A administração escolar seguia as teorias da administração geral, a partir da década de 30 é que a administração escolar se estrutura como campo de estudos acadêmicos.
A gestão burocrática é o modelo que traz as marcas da concepção de administração escolar predominante nas décadas de 50 e 60, no Brasil, apoiadas no modelo taylorista de administração. Essa concepção embasa-se, eminentemente, no modelo de administração, priorizando e fortalecendo a divisão de tarefas, separando o pensar e o fazer, gerando, assim, a fragmentação do saber e a separação entre o administrativo e o pedagógico no interior da escola. Essa concepção permaneceu enraizada na base da organização do nosso sistema educacional, e, adentrando na sala de aula, sendo ainda evidenciada nos espaços em que esta concepção administrativa for o modelo implementado. Ela caracteriza-se através do autoritarismo e dos mecanismos rígidos de controle do trabalho e das relações de ensino-aprendizagem, pela centralização e verticalização2 do poder decisório.
Já, a gestão pedagógica vem respaldada pela Constituição Brasileira de 1988, bem como pela LDBEN nº 9394, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996, as quais trouxeram em seus textos possibilidades de mudanças para a educação e sua gestão. Assim, a implementação de propostas de maior autonomia às escolas precisou da força da lei. Sendo que, a democratização e a descentralização do ensino e as mudanças de cunho pedagógico e legal contaram com o apoio de estudos das áreas da psicologia, sociologia e filosofia da educação que preconizam a necessidade da formação de sujeitos autônomos, críticos e criativos.
Os movimentos impulsionados pela força das leis citadas instituem o princípio da flexibilidade, instaurando a possibilidade de autonomia aos sujeitos. Esses movimentos demandam a construção de uma escola voltada para a cidadania participativa e solidária, aliada às exigências do mundo do trabalho do século XXI. Este contexto exige novas habilidades dos sujeitos que saíram da escola, demanda novas formas de pensar a educação interferindo, assim, no campo da gestão da educação e da escola.
2
Nas organizações onde o poder decisório é verticalizado há concentração de poder e, a informação e o conhecimento ficam concentrados nos níveis superiores. A horizontalização cria uma nova configuração, reduzindo os níveis hierárquicos, com a possibilidade de aproximação das pessoas na organização. Essa configuração do modelo de gestão as inclui no processo decisório, o que eleva o nível de confiança entre o mesmo envolvimento nos objetivos da organização. De acordo com Cury (2000), “a organização contemporânea deve ser enfocada numa perspectiva horizontal, como correm os processos, e não numa abordagem vertical, como uma hierarquia de funções, como sempre vimos fazendo, desde os primórdios da
A gestão democrática e participativa, apontada para a substituição da administração taylorista, representa novo referencial teórico que valoriza o ser humano e as formas mais democráticas de orientar ações que priorizem a realização de atividades integradas e que busquem a consecução de objetivos comuns no contexto da escola.
Entendemos a gestão burocrática como tendo os procedimentos administrativos de adesão ao modelo capitalista, enquanto a gestão pedagógica é uma proposta que busca reagir ao autoritarismo da gestão burocrática e defender a organização humana de forma democrática. Não pretendemos, neste estudo, fazer argumentação de defesa a esta ou àquela forma de gestão, mas reconhecê-las no contexto da escola estudada.
A gestão escolar tem sua origem na administração de empresas, sendo que no decorrer das décadas, esta vai se delineando a partir da compreensão pedagógica, levando em consideração os meandros do processo ensino-aprendizagem. Porém, para além de uma compreensão teórica, a gestão é definida não apenas pelos gestores, mas pelo entendimento e modo de operar do corpo docente da escola, ou seja, a perspectiva de compreensão dos professores define a gestão no ambiente escolar.
Justificamos o interesse por pesquisar a temática relacionada à gestão escolar por atuar na função de gestão escolar, durante significativo período da minha trajetória profissional. Exercendo, durante vários anos, paralelamente a função de diretora de uma escola durante o dia e de professora em outra rede, no período noturno. Além disso, experienciei, nos diferentes tempos, o trabalho desde as séries iniciais do Ensino Fundamental até as séries finais do Ensino Médio. No Ensino Médio, com o componente curricular de Biologia. As particularidades de cada realidade vivenciada interferiram na constituição pessoal e profissional, durante a atuação em escolas públicas e na rede privada de ensino. Na diversidade de cenários, identificaram-se características peculiares a cada uma das realidades. A organização escolar sempre interfere na vida das pessoas, tanto nos aspectos pessoais como profissionais. Os sujeitos mudam com as organizações que se fazem a partir da atuação daqueles, constituindo-se, dessa forma, o espaço da escola, num lugar de aprendizagens e de ressignificação de práticas.
O estudo da temática voltada para gestão da escola é revestido de aprendizagens, já que as formas de gestão escolar exercem efeitos na sala de aula e influenciam na aprendizagem as quais interferem sobre a organização escolar. Portanto, as práticas educativas realizadas na sala de aula têm íntima relação com a organização e gestão escolar.
Escolhi a CNECPA - Escola Cenecista de Ensino Médio Padre Anchieta, para a realização deste estudo de caso por ser uma instituição de educação básica que está presente na comunidade local há mais de meio século, tendo cristalizados em sua história diferentes lugares onde atuou no espaço e no tempo. Da mesma forma, a facilidade de acesso à instituição tendo em vista ser esta a escola onde atuo atualmente como diretora, justificando-se como local de estudo, além de possibilitar o contato com os documentos e informações disponíveis relevantes para a realização da pesquisa.
A escola é uma instituição tradicional que presta serviços educacionais à sociedade e sua existência tem como finalidade a aprendizagem dos alunos. Para que a escola desempenhe sua função, conta com um quadro de profissionais, formado por professores e técnicos. Além disso, é dotada de uma estrutura de espaços físicos que são os locais que abrigam as interações que se dão a partir do instituído e do instituinte3. Conforme Marques,
nas instituições escolares “costumeiramente predominam os aspectos do instituído que as mobiliza, não os do instituinte que lhe dá sentido e vida, que as impulsiona e conduz” (2006, p.90). Os interesses penetram no que está instituído e “se insere a dinâmica do instituinte de suas relações internas e externas e dos meios para a sua ação consequente”.
Para que a escola atenda às demandas que lhe são postas, é necessário que a gestão esteja alinhada ao que se acredita como sendo adequado à realização da proposta educativa
para a humanização. Conforme a Lei de ensino vigente em seu artigo 2º a escola “... tem por
finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e
sua qualificação para o trabalho” (BRASIL, 1996).
As transformações do mundo de trabalho dão lugar a comportamentos competitivos, no entanto, a proposta de gestão democrática, na qual é valorizada a interação das pessoas, está adequada para proporcionar ao sujeito oportunidades no seu desenvolvimento, considerando a necessidade de estar capacitado para viver na sociedade capitalista onde a escola está inserida. Essa forma de educação pressupõe que a escola desempenhe sua função formadora, sem, no entanto, reproduzir as relações da sociedade. Estas mudanças interferem na organização e na gestão escolar.
Na perspectiva de conhecer, analisar, interpretar e compreender a dimensão da gestão da escola CNECPA num tempo do século XXI, em que, as escolas como organizações
educativas que são, têm, segundo Libâneo “tarefas sociais e éticas peculiares com um caráter
profundamente democrático. Para atingir seus objetivos sociopolíticos, precisam dispor de
meios operacionais” (2008, p.21).
Diante do cenário de movimentos e incertezas que se achegam à educação para atender as suas demandas, quero entender sobre os estilos de gestão nos procedimentos e organização do cotidiano escolar que possibilitam o adequado funcionamento nos seus diferentes lugares e tempos, como: a sala de aula, o corredor, o recreio, a biblioteca, a reunião e os demais encontros, tendo em vista a aprendizagem dos alunos. Os sujeitos que integram a escola estão organizados em diferentes grupos e vivem numa relação de complementaridade e interdependência em que cada um tem sua função a cumprir. Diante do exposto, identifica-se como questão de estudo: partindo da perspectiva dos professores, o que é pedagógico e o que é burocrático na gestão escolar?
Partindo do problema de pesquisa, delimita-se, como objetivo geral, buscar o conhecimento da dimensão da gestão a partir do contexto histórico e cultural, mediante as concepções de gestão dos professores. Desse objetivo, descendem a possibilidade de: conhecer e compreender o significado da perspectiva dos professores sobre a gestão escolar e sua relação com a organização e gestão escolar efetivada assim como, caracterizar as concepções de gestão; verificar como é a gestão escolar da CNECPA a partir das representações dos sujeitos da escola; por fim analisar a realidade da CNECPA diante do aportes teóricos.
A partir do exposto, tomando os professores como atores importantes da gestão, o presente estudo tem como tema a gestão escolar voltada para a gestão pedagógica da escola, no contexto histórico, social e cultural, dedicando-se a escutar a narrativa dos professores sobre o tema. Em vista disso, temos como questão norteadora: partindo da perspectiva dos professores, o que é pedagógico e o que é burocrático na gestão escolar?
O estudo do presente trabalho está organizado em quatro capítulos, sendo que no primeiro apresento o município sua história e educação. A seguir, abordei a instituição com breve histórico da rede no âmbito nacional, estadual e um detalhamento maior da escola local.
No capítulo dois apresento a administração e gestão na escola, em que abordo a administração e seus conceitos gerais com os modelos administrativos implementados nas organizações, a partir da administração clássica; escola das relações humanas; e, modelo estruturalista. Aspectos da teoria da burocracia a partir dos estudos de Max Weber. E, para
tratar da gestão no contexto escolar discorro sobre os caminhos da educação identificando o lugar da gestão, trazendo os escritos de Anisio Teixeira sobre gestão no que se refere à aplicação da administração geral para o contexto escolar e as implicações quanto ao exercício da gestão no tocante à formação de professores gestores; gestão pedagógica e gestão burocrática a partir das concepções de gestão inicialmente com as posições polarizadas e a ampliação dos estilos de gestão a partir dos estudos de Libâneo; concepções sobre a constituição do conhecimento a partir de Marques e A LDBEN e o que ela prevê sobre gestão.
O capítulo três aborda a trajetória da pesquisa trazendo as especificidades metodológicas, os sujeitos da pesquisa e a preparação e realização da coleta dos dados com a apresentação da dinâmica de grupo focal, com a pesquisa de campo aconteceu e o tratamento dado ao material.
O quarto capítulo trata das categorias da pesquisa que foram propostas e das que emergiram com a participação dos professores, que são os sujeitos. As categorias abordadas são: burocrático e pedagógico, professor gestor, as relações e tempo e espaço.
As categorias constituídas a partir das narrativas foram analisadas com o apoio dos aportes teóricos, para compreender aspectos da gestão pedagógica da escola, relacionados ao contexto em que se insere. Discute-se a partir do processo educacional desenvolvido na interação dos sujeitos diante do instituído gerando o instituinte da escola, num processo que se dá com sujeitos os quais são detentores de identidades instáveis, sendo que essas são influenciadas pelo contexto cultural no qual estão inseridas.
1 UMA ESCOLA CENECISTA EM SANTO AUGUSTO-RS
Vivemos em um mundo em transformação, as mudanças ocorrem sem cessar e numa velocidade nunca antes existente. O novo cenário que ora assusta, ora encanta, apresenta avanços tecnológicos nunca ocorridos: a informação é difundida ultrapassando os limites geográficos; os processos de produção respondem às leis do mercado e as empresas do século XXI buscam cada vez mais fortalecer-se pelas parcerias e fusões; ocorrem mudanças significativas no mundo do trabalho e da vida.
Esse cenário evidencia a importância do preparo humano para atuar nesta sociedade. Um preparo não só do ponto vista técnico e científico, mas também das relações interpessoais que, em uma sociedade democrática, deve considerar o desenvolvimento humano nas diferentes áreas, desde a pessoal, econômica, intelectual. Assim, a escola se constitui em um importante espaço de humanização e de formação de sujeitos para sua inserção social.
A partir desse olhar, apresentamos, nesta seção, o contexto social em que surge a escola cenecista em Santo Augusto. Para dar uma ideia mais ampla desse contexto, delineamos um perfil das instituições de ensino públicas e privadas no município desde a sua formação.
A educação, toma, ao longo da história do município, importante papel uma vez que busca promover o ser humano com vistas ao desenvolvimento social, uma vez que:
Quando aceitamos pensar a técnica em conjunto com a política e admitimos atribuir-lhe outro uso, ficamos convencidos de que é possível acreditar em uma outra globalização e em um mundo melhor. O problema central é o de retomar o curso da história, isto é, colocar o homem no seu lugar central (SANTOS, 2007, p. 125).
O mundo globalizado por um lado tem como verdade que tudo está ao alcance de todos. Por outro, com o estímulo ao consumismo, torna-se mais distante a possibilidade de que o fenômeno da globalização seja uma forma de homogeneizar o planeta, de visualizar a cidadania universal.
No quadro das transformações a introdução da globalização com novas técnicas impõe a reorganização dos postos de trabalho, com o desaparecimento de uns e o surgimento de outros. Este deslocamento nos postos de trabalho vem acompanhado de novas demandas
nas áreas de formação. Conforme a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional em seu
artigo 1º parágrafo 2º, “A educação escolar deverá vincular-se ao mundo do trabalho e à prática social”. (BRASIL, 1996). Para que haja esta ligação da educação escolar ao mundo
do trabalho, a escola, através de suas propostas, precisa adequar-se aos desafios da contemporaneidade.
Nesta discussão, para compreendermos o que se espera de uma educação escolar na contemporaneidade, apresentaremos a história da educação no município. Trazemos dados e informações coletadas em documentos, livros e entrevistas com pessoas da comunidade. Essas fontes de informação serão explicitadas a seguir..
1.1 O MUNICÍPIO DE SANTO AUGUSTO: HISTÓRIA E EDUCAÇÃO
A pesquisa realizada que aborda “o município de Santo Augusto: história e
educação” contou como fonte de consulta com os registros existentes na escola cenecista:
“livro vermelho” - cor da capa – usada para identificação do material produzido na escola
com registros da história até 1982; pastas com documentos de funcionários; ata de criação da escola e planejamentos das edificações. Para as demais escolas do cenário municipal que estavam em funcionamento no início da história do município, realizamos pesquisa no livro
“Apontamentos de Santo Augusto” (1992)4.
Para atender aos objetivos do estudo, buscamos complementar as informações através de conversas com as diretoras e, também, em consulta às atas das escolas. Nos contatos feitos, as informações foram obtidas com as diretoras da Escola Municipal de Ensino Fundamental Antônio João, da Escola Estadual de Ensino Fundamental José Andrighetto e da Escola Estadual de Ensino Fundamental Francisco Andrighetto. Além disso, um profissional da secretaria da Escola Estadual de Ensino Médio Alberto Pasqualine disponibilizou datas a partir de registros na ata de fundação e, na prefeitura, obtivemos as informações necessárias das escolas municipais São João e Rui Barbosa.
Quanto às escolas que no início da história do município e da história da CNEC Padre Anchieta estavam em funcionamento e que não mais estão, outros dados foram coletados com as professoras que haviam exercido a função de direção nessas instituições.
4
Livro produzido por professores do município de Santo Augusto integrantes das redes de ensino municipal, estadual e privada, com formação na área de estudos sociais e pedagogia.
Cabe salientar a disponibilidade das pessoas, tanto dos profissionais das escolas como da prefeitura, para o fornecimento das informações solicitadas.
O município de Santo Augusto fora criado em 17 de fevereiro de 1959 e sua instalação foi em 30 de maio do mesmo ano. Situa-se a aproximadamente a 480 quilômetros de Porto Alegre e tem como principais rodovias de acesso: a rodovia Federal BR 468 e a rodovia estadual RS 571, que se interligam à rodovia estadual RS 155.
A história de Santo Augusto teve início a partir das missões religiosas dedicadas à catequese dos indígenas. No entanto, as missões dedicaram-se especialmente à extração da erva-mate. A colonização e o povoamento tiveram origem no ano de 1918, com a instalação de uma casa comercial à margem da estrada que ligava a Colônia Militar do Alto Uruguai a Ijuí e Catuípe. A casa comercial foi instalada pelo Sr. Pompílio Silva, contando com o apoio do fazendeiro João Batista Chagas. Com a morte de Chagas, seus sucessores resolveram colonizar parte de suas terras, mais precisamente a zona da mata. Dividiram-na em 360 colônias que foram vendidas por Pompílio Silva. A partir daí houve significativo movimento migratório, formado principalmente por descendentes italianos, germânicos, poloneses e também luso-brasileiros, que passaram a residir na localidade.
João Batista Chagas havia dado às suas terras o nome de Fazenda Augusto, como homenagem a seu filho Augusto Chagas, ferido de morte por arma de fogo que usava na cintura, a qual ao chocar-se ao solo detonou acidentalmente. Com a ideia de homenagear a família Chagas e perpetuar o nome da Fazenda, a Sra. Josefina Lucas Silva, esposa de Pompílio Silva, sugeriu então o nome de Santo Augusto, tornando-se definitiva tal nomenclatura ao local que até então fora conhecido como Rincão de São Jacob e, posteriormente, Boca da Picada.
A formação administrativa do município constitui-se da seguinte trajetória: em 28 de outubro de 1928, Santo Augusto passou a ser distrito de Palmeira das Missões e em 1945, com a emancipação de Três Passos, passou a integrar-se a esse município, na condição de Distrito. Foi elevado à categoria de município, com a denominação de Santo Augusto, pela Lei Estadual n° 3.721 de 17-02-1959, com sede na localidade de mesmo nome. Pela Resolução nº 9 de 24-02-1962, é criado o distrito de São Valério. Pela Resolução nº 10 de 01-04-1963, é criado o Distrito de Santo Antônio. Pela Lei Municipal nº 201 de 31-08-1965, é criado o Distrito de Pedro Paiva. Pela Lei Municipal nº 571 de 25-07-1980, é criado o Distrito de Coroados. Pela Lei Estadual nº 9.624 de 20-03-1992, desmembram-se do Município de Santo Augusto os distritos de São Valério e Coroados para formar um novo
Município com a denominação de São Valério do Sul. Pela Lei Municipal nº 1271 de 27-06-1996, são criados os Distritos de Rincão dos Paivas e Nossa Senhora de Fátima.
Portanto, o Município é formado de 5 distritos: Sede (Santo Augusto), Santo Antônio, Pedro Paiva, Rincão dos Paivas e Nossa Senhora de Fátima. Conta com a população de 13.968 habitantes e a área do município é de 468,11km², tendo uma média de 29,84hab/km². Tem-se um total de 11.380 pessoas que residem na cidade e 2.588 pessoas residem no meio rural. Essas informações foram obtidas a partir do censo do IBGE 2010.
Com relação à educação, em Santo Augusto, será apresentada numa organização em dois períodos. O primeiro, refere-se ao tempo anterior à existência da instituição CNEG5; o segundo, a partir de quando a CNEG, posteriormente denominada CNEC6, está entre as instituições educacionais do município. No primeiro período, serão apresentadas as escolas que atendiam a comunidade e a formação que desenvolviam, já no segundo período, teremos a fase após a emancipação municipal quando iniciaram os movimentos para ampliar o nível de formação dos sujeitos da comunidade.
Destaca-se o início dos trabalhos cenecistas com a oferta do curso ginasial com suas implicações e a implantação de outras escolas e cursos. O registro identifica as instituições localizadas no interior e na cidade em cada um dos períodos, tendo-se assim um novo tempo na história deste território.
O território não é apenas o resultado da superposição de um conjunto de sistemas naturais e um conjunto de sistemas de coisas criadas pelo homem. O território é o chão e mais a população, isto é, uma identidade, o fato e o sentimento de pertencer aquilo que nos pertence. O território é a base do trabalho, da residência, das trocas materiais e espirituais e da vida, sobre os quais ele influi (SANTOS, 2007, p. 96).
No primeiro período da educação no município de Santo Augusto em que a educação não contava com a instituição da rede cenecista, a escolarização se dava em quatro escolas no meio rural e em duas na cidade. Estavam constituídas para oportunizar a formação dos cidadãos até no máximo a 5ª série, chamado de curso primário.
O espaço de construção sistematizado do conhecimento dava-se na sede do município pela Escola Estadual Francisco Andrighetto (Grupo) e pela Escola Santa Úrsula de propriedade das irmãs do Imaculado Coração de Maria. Além do ensino até a 5ª série, eram
5
Campanha Nacional de Educandários Gratuitos 6 Campanha Nacional de Escolas da Comunidade
oferecidos na Escola Santa Úrsula o curso de Datilografia e aulas de música, conforme informação de cidadão santo-augustense que fora aluno deste curso. No meio rural, a escolarização se dava na escola José Andrighetto, na vila de São Jacob; na escola Antonio João, na localidade de Pedro Paiva; Escola Municipal Cardeal Leme, posteriormente, passando a ser a Escola Estadual de 1º Grau Incompleto Nossa Senhora de Fátima (com funcionamento de 1949 a 2004) e pela Escola Rural Isolada Bananeiras posteriormente recebendo o nome de Escola Estadual de 1º Grau Incompleto Carlos Eickhoff (em funcionamento de 1950 - 2004). A referência de datas citadas está para as escolas que estavam no cenário da educação quando do inicio das atividades da escola cenecista e que não mais estão. Sobre a Escola Santa Úrsula não se tem registro da cessação das atividades, sabendo-se apenas que fora no início da década de 60.
Gráfico Primeiro Período
67% 33%
Escolas no interior: 4 Escolas na cidade: 2
Gráfico 1: Representa as instituições educacionais conforme sua localização até a emancipação municipal. Este gráfico representa o período de 1941 a 1959.
Autor: KRÜGER, 2012
Ao observar o gráfico, identifica-se a zona rural como sendo o local com maior número de escolas, visto que esse período é anterior ao tempo em que o êxodo rural estabeleceu-se. Como a economia era essencialmente agrícola, os habitantes estabeleciam-se predominantemente no meio rural.
No segundo momento, apresentamos a educação do município no tempo em que os educandos passam a ter a proposta de ensino cenecista como uma possibilidade em sua formação escolar. Inicialmente, com o curso ginasial e, na sequência, o curso profissionalizante de contabilidade.
As lideranças percebiam como necessidade e desejavam ter no município uma instituição educacional que oferecesse continuidade aos estudos com o curso ginasial. Então mobilizaram-se e o ensino cenecista foi o caminho identificado como o mais viável para atender a demanda. Em 20 de dezembro de 1960, nas dependências da Sociedade Recreativa e Cultural Sete de Setembro foi fundado o Setor Municipal da Campanha Nacional de Educandários Gratuitos – CNEG, hoje Escola Cenecista de Ensino Médio Padre Anchieta. A instituição tinha por finalidade criar e manter um curso ginasial na cidade de Santo Augusto.
Atualmente, no período em que está sendo realizado o presente estudo, as escolas localizadas no perímetro urbano são as seguintes: 1) Escola Estadual de Ensino Fundamental Francisco Andrighetto (05/06/1941) inicialmente instalada em frente à praça Pompílio Silva, em 1963 passou as suas novas dependências onde funciona até esta data; 2) Escola Cenecista de Ensino Médio Padre Anchieta – CNEC (20/12/1960); 3) Escola Estadual de Ensino Médio Santo Augusto (Ginásio Estadual – 03/06/1964); 4)Escola Municipal de Ensino Fundamental Antonio Liberato (17/08/1967), a partir da segunda metade da década de 90 passa a funcionar no novo prédio no Bairro Santa Fé, o qual foi inaugurado em 28/12/1996; 5) Escola Municipal de Ensino Fundamental São João criada por decreto municipal nº 465 de 1º/09/1977. O mesmo decreto que criou a escola rural Rui Barbosa da localidade de São Valentim; 6) Escola Municipal de Educação Infantil Vovó Amália (11/03/1979); 7) Escola de Educação Especial Bem-Me-Quer - APAE (11/07/1987); 8) Escola Estadual de Ensino Médio Alberto Pasqualine - CIEP (08/06/1993); 9) Escola Municipal de Educação Infantil Vaga-Lume, a partir de 18/5/1999 passou a ser escola por decreto municipal, antes desta data o trabalho desenvolvido era de assistência social; 10) Escola Municipal de Ensino Fundamental Sol Nascente (29/07/2000); 11) Escola Municipal de Educação Infantil Pequeno Paraíso criada em (16/08/2000) e com funcionamento nas antigas dependências da Escola Municipal de Ensino Fundamental Antonio Liberato. Os nomes das escolas aqui utilizados são a sua designação no tempo em que está sendo realizado o estudo para este trabalho de dissertação.
A cultura local foi valorizada com a oportunidade que os estudantes tiveram de cursar o Ensino Fundamental no contexto onde suas famílias residiam. O ensino no meio rural continua, porém com redução do número de estabelecimentos devido ao êxodo rural. Apresentamos a relação das escolas em funcionamento, a numeração está na sequência das escolas da cidade, pois ambas, escolas rurais e urbanas, integram a educação do município: 12) A Escola Estadual de Ensino Fundamental José Andrighetto que tem o início de sua
história registrada na voz dos moradores do local. Conforme contato com a diretora (professora Clarice Zanoso), os moradores contam que começou a funcionar em 1926, em uma casa de madeira que fora comprada do Sr. José Andrighetto e construída no local onde decidiram que seria a escola. Pertencia à esfera municipal sendo que a partir de 30/03/1961 passou a ser estadual na classificação de escola rural isolada de São Jacó. 13) Escola Municipal de Ensino Fundamental Antonio João7 (07/9/1948) e que em 07/11/1960 fora assumida pelo Estado tornando-se estadual. Seu funcionamento era em edificação de madeira. Em 1968, o Governo do Estado construiu prédio de alvenaria para o funcionamento desta escola que passou a ser Escola Estadual Antonio João. Em 1997, passou por nova reestruturação sendo novamente municipalizada e, com ampliação do prédio e investimentos de informática, passa a ter o Ensino Fundamental completo. 14) Escola Municipal de Ensino Fundamental Rui Barbosa criada por decreto municipal nº 465 de 1º/09/1977.
No início da história do município, destaca-se a migração dos descendentes de povos europeus para a colonização da nova terra e, no último quadriênio do século XX, tem-se a alteração da paisagem do município com a urbanização que redesenha o cenário no campo e na cidade. Das 14 escolas que abrigam os alunos de Santo Augusto, apenas três estão localizadas no interior. Se tomarmos os dados do último censo do IBGE observa-se que no município 18% da população estão no meio rural e 82% na cidade. Há uma relação de proporcionalidade se comparado o número de escolas e o percentual da população tomando a referência rural e urbana. Para o gráfico a seguir não estamos considerando o número de alunos e, sim, o número de instituições escolares até a Educação Básica.
7 Escola localizada próximo à Estância dos Rodeios que é ponto turístico do município. No momento em que cito essa escola, destaco aqui, as lembranças da escola da infância que permanecem vivas na memória como de um lugar especial, onde cursei da 2ª a 5ª séries do Ensino Fundamental. A arquitetura do local onde íamos para aprender dispunha de espaço que os alunos maiores ajudavam a organizar conforme o diretor e professores orientavam. O jardim possuía as flores que sonhávamos ter em casa. A higienização do ambientefez o registro na memória com a referência da escola limpa, aliado ao jardim florido e a grama ornamentando a parte externa da escola. O plantio de árvores e o cuidado com elas, bem como o cultivo da horta, com diversidade de espécies era uma atividade implícita na prática escolar. As horas cívicas recebiam destaque, com a participação dos alunos através de versos e outras apresentações. As lembranças da escola da infância estão também nas atividades que ocorriam no interior da sala de aula, especialmente nas folhas que precisavam ser mimeografadas e nos dicionários que conhecemos e adquirimos através dos professores. A possibilidade de ajudar na tarefa docente estimulava a agilidade no desempenho de aluno. Na recuperação de dias que os professores não haviam podido vir dar aula, trazíamos a cesta de piquenique para almoçar na escola e assim ter aulas nos dois turnos. A fragilidade cristalizada para com essa instituição está na resistência ao cumprimento
dos horários, seja de início das aulas e na longa duração dos recreios. A merenda que “vinha” era de sabor
desagradável, diante dos produtos in natura que integravam a alimentação dos filhos de agricultores. A frustração de quem preparava com carinho a alimentação para quem não tinha fome, encontrava satisfação na presença de alguns alunos que se alimentavam com os produtos oferecidos na escola. Atribuo a essa escola
significativa contribuição no despertar do “gosto” pela educação que marca minha trajetória profissional e
Gráfico Segundo Período
21%
79%
Escolas no interior: 3 Escolas na cidade: 11
Gráfico 2: Representa as instituições educacionais conforme sua localização no tempo em que a CNEC Padre Anchieta completa seu cinquentenário, ou seja, em 2010.
Autor: KRÜGER, 2012
A inversão da predominância do número de instituições educacionais, inicialmente no meio rural e no tempo da realização deste estudo situando-se no meio urbano é evidência do reflexo do êxodo rural também para com a formação das pessoas.
Constata-se, conforme indicado nos gráficos 1 e 2, que num período de apenas cinco décadas, a mudança do cenário da localização das escolas foi acentuada, tendo sido influenciado pelo movimento que se instalou com as atividades econômicas que identificam a era da máquina.
Diante da presença e integração dos estabelecimentos educacionais nos cenários de mobilidade social e seu lugar, ou seja, sobre a relação da escola com o que se desencadeia no desenvolvimento nos demais setores da sociedade, tem-se a partir de Ribeiro, que:
a escola é mais consequência do que causa do progresso geral, pois este é que faz dela uma empresa grande e complexa, em que entram em jogo, com seu alto significado social e humano, numerosos contingentes de pessoal qualificado, técnicas apuradas e exigências de alto rendimento (apud MASCARO, 1968, p.86).
A partir do censo do IBGE, têm-se os dados de onde está a população e a relação é de que neste meio estão as escolas. Há relação entre o gráfico anterior e o seguinte tomando por referência a localização das escolas a partir do local das residências.
Gráfico Demonstrativo da Localização da População
18%
82%
População Rural População Urbana
Gráfico 3: Representa a população no ano de 2010, diante do movimento de urbanização, tendo como fonte para os dados que deram origem ao gráfico dados do censo do IBGE 2010. Autor: KRÜGER, 2012
O gráfico 3, a partir dos dados do censo do IBGE de 2010, mostra a localização das pessoas predominantemente na cidade, havendo aí maior densidade de população. Atribuímos a urbanização ocorrida entre outros possíveis fatores à interferência da mecanização da agricultura, à consequente reorganização dos postos de trabalho e à atração pela cidade na expectativa de vida melhor8. O contexto de globalização da economia que circunda a vida das pessoas interfere no fluxo migratório.
Conforme Santos,
Esses movimentos são paralelos a um processo de fragmentação que rouba às coletividades o comando do seu destino, enquanto os novos atores também não dispõem de instrumentos de regulação que interessem à sociedade em seu conjunto. A agricultura moderna, cientificada e mundializada, tal como a assistimos se desenvolver em países como o Brasil, constituí um exemplo dessa tendência e um dado essencial ao entendimento de que no país constituem a compartimentação e a fragmentação atuais de território. Outro fenômeno a levar em conta é o papel das finanças na reestruturação do espaço geográfico. O dinheiro usurpa em seu favor as perspectivas de fluidez do território, buscando conformar sob seu comando as outras atividades (2007, p. 80).
8A superioridade atribuída à vida escolhida como sendo melhor é a manifestação dos sujeitos que, diante do contexto que se impõe, buscam o alento de terem feito uma escolha acertada e sensata. Essa manifestação ampara-se em verdades que lhes dão o lugar de autores de sua história. No entanto, para a maioria da humanidade, a globalização se impõe com a face da perversidade, caracterizada por desemprego crescente; aumento da pobreza com perda da qualidade de vida pelas classes médias; a fome e o desabrigo presente em todos os continentes. Ainda, Santos em sua obra aborda a possibilidade de um redirecionamento do
progressos das técnicas (que tem relação com a história) “se forem postas ao serviço de outros fundamentos sociais e políticos” (2007, p.20). Esse movimento implica em cada um ser sujeito da história, não da sua, numa
Há, pois, uma alteração no cenário rural, uma vez que, há pouco mais de meio século, as famílias que se instalaram no município faziam uso de um conjunto de ferramentas como a enxada, a foice, o arado entre outros, que utilizavam para a realização das atividades agrícolas, fonte de renda importante na economia de subsistência dessas famílias. Com a interferência da ciência, surgem novas técnicas de plantio e manuseio da terra, bem como de implementos agrícolas que facilitam o trabalho humano e favorecem o cultivo das lavouras.
Por volta dos anos 70 do século XX, foram surpreendidos diante das possibilidades das técnicas que fizeram com que a maquinaria mais automatizada interferisse fortemente, como afirma Santos “roubando [...] o comando do destino”. E o dinheiro, tão desejado para a
sobrevivência ocupa o lugar de “usurpador” adentrando por um instante na vida das pessoas e
desorientando-as. A história constitui-se mudando o cenário rural. Os sujeitos que se deslocam com a alternativa de permanência na atividade agrícola têm o desafio de desbravar novos lugares; os que se direcionam para a vida urbana, por sua vez, têm o desafio de conseguir um trabalho na cidade. Passando a ser de urbanização a configuração do município.
Apresentamos o histórico do município integrando esse trabalho de dissertação voltado para o estudo da gestão pedagógica da escola, por ser no município em que a escola se localiza. A localização está para além de seu estabelecimento neste lugar. A vinculação da escola com o município está relacionada ao fato de estar num contexto em que houve mobilização dos sujeitos para a sua existência. O movimento das lideranças para ter a escola na comunidade é evidenciado por algumas passagens citadas neste estudo. Assim, o laço constituído demarca tempos e fatos que constituem a história desse lugar.
A função da escola cenecista, desde que passou a integrar a história local, caracteriza-se por decaracteriza-senvolver uma proposta diferenciada. Inicialmente, com o foco na ampliação da escolarização oferecendo o curso ginasial até que este passou a ser oferecido pela rede estadual e, na sequência, com a mesma ênfase, desenvolve o curso profissionalizante técnico em contabilidade; e, atualmente, o foco está numa proposta voltada ao desenvolvimento do ensino que integram a Educação Básica, sendo a Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio. O trabalho é desenvolvido por profissionais habilitados nas respectivas áreas de formação. A proposta cenecista desse tempo, não busca atender um nível que a comunidade não disponha na rede pública como o enfoque do período passado, mas tem seu trabalho voltado para a formação educacional a partir de uma metodologia diferenciada na qual trabalha os conceitos em espiral, ou seja, retomando-os na série seguinte.
A escola, através de sua equipe de professores, realiza atividades diferenciadas para os alunos que possuem ritmo diferenciado, os que necessitam de mais ou menos tempo para a realização das tarefas, bem como no que se refere à complexidade da proposta. Além disso, proporciona iniciação musical para os alunos da educação infantil até o 5º ano e as aulas de língua estrangeira moderna – Inglês são ministradas a partir da Educação Infantil. Realiza gincana Canimé com os alunos a partir de 6ª série, integrando estudos e lazer com o deslocamento da escola para atividades em área junto à natureza. Também o contato com autores e livros é possibilitado à comunidade escolar e municipal anualmente, através da Feira do Livro que está em sua 18ª edição. Ao longo do período letivo, anualmente, estuda-se um autor com os alunos da 6ª série a 3ª série do Ensino Médio e, durante a feira, são realizadas as apresentações de teatros a partir das produções do autor estudado. O público para o evento está entre os pais e familiares dos alunos, sendo encontro de casa cheia onde ocorrem muitas superações para cada um.
Destaca-se ainda, que, na terceira série do Ensino Médio, a escola trabalha com uma proposta revisional. Retoma, através de seu programa de ensino, os conteúdos trabalhados nos dois primeiros anos do Ensino Médio, possibilitando, assim, aos alunos a revisão e aprofundamento dos estudos realizados anteriormente. Também, os alunos têm encontros de orientação vocacional durante períodos do Ensino Médio, conforme definição da equipe diretiva.
Apresentamos, nesta seção, a produção do que integrou a pesquisa documental da história do município, da escola cenecista, e das demais escolas do contexto municipal. Na sequência, passamos à contextualização da escola na rede, com a abordagem nos âmbitos nacional, estadual e municipal.
1.2 A INSTITUIÇÃO CENECISTA: NO PAÍS, ESTADO E MUNICÍPIO
Com vistas a contextualizar a escola em estudo no cenário da rede na qual está integrada, a pesquisa contou com as fontes a partir dos dados históricos da instituição disponibilizados em estudos conforme consta na bibliografia deste trabalho e em atas da escola local.
Tendo sido exposta a forma adotada para a realização da pesquisa, passamos a apresentar dos dados da instituição nos três âmbitos que atua. No âmbito municipal
discorremos sobre os trabalhos realizados na escola em estudo, ou seja, não foram feitas considerações sobre escolas de outros municípios.
A rede cenecista presente no país, estado e município teve o início de seus trabalhos em cada uma das esferas citadas, em décadas subsequentes, seguindo do global para o local: no Brasil, os trabalhos iniciaram em 29 de julho de 1943; no Rio Grande do Sul, em 02 de julho de 1950; em Santo Augusto em 20 de dezembro de 1960.
A CNEC teve seu início no Recife, estado de Pernambuco, a partir do ideal de um grupo de estudantes universitários, liderados por Felipe Tiago Gomes. Na época de sua criação, constatando ser a escola privilégio de pessoas abastadas economicamente, o grupo de universitários buscou formas de levar o ensino a pessoas de baixa renda, de forma gratuita.
Assim, nasceu a primeira unidade do sistema, o Ginásio Castro Alves. Os ensinamentos eram ministrados por professores que desempenhavam a função voluntariamente. A satisfação do idealizador, Felipe Tiago Gomes, diante de suas ideias para com a ampliação do acesso à escola está expressa, quando declara que quando fundara a CNEC, na época Campanha do Ginasiano Pobre, não tinha ideia da “árvore” que estava plantando. Aquilo que parecia um sonho, tornou-se uma “floresta” imensa, abrigando milhares de brasileiros.
Em pouco tempo, Felipe Tiago Gomes criou uma sociedade educacional sem fins lucrativos, que denominou Campanha do Ginasiano Pobre. Os brasileiros idealistas foram despertados e, sob a orientação de Felipe, puderam oferecer às suas comunidades escolas nos moldes do Ginásio Castro Alves. A Campanha Nacional de Escolas da Comunidade (CNEC), como passou a chamar-se estava fundada, e as unidades de ensino foram sendo criadas, em muitos municípios espalhados em todo o Brasil.
Atualmente, a CNEC é mantenedora de uma rede de escolas que possui uma presença significativa na educação brasileira, oferecendo escolas da educação infantil ao ensino superior. Presta serviço à comunidade por meio de 236 escolas e 23 instituições de Ensino Superior. Congrega em seus quadros cerca de 11.200 colaboradores, dos quais, 7.193 são professores atendendo 109.861 estudantes. Conforme Silva (2001), a CNEC assume o discurso de uma via entre o público e o privado. A instituição apresenta diversas características, de acordo com vários contextos, buscando sempre atender à política educacional implementada pelo Estado brasileiro e, nos últimos anos, tem diversificado seus
cursos. Realiza modificações internas que possibilitam evidenciar elementos e atender demandas das tendências da educação e da sociedade brasileira.
A CNEC conta com Sistema de Ensino cujo material é produzido na CNEC EDIGRAF. A Gráfica e Editora Cenecista Dr. José Ferreira é um parque gráfico responsável pela elaboração, impressão e envio do material didático. Esse segmento da rede envolve uma equipe de aproximadamente 100 profissionais.
A rede realiza uma vez por ano uma sondagem de acompanhamento dos trabalhos desenvolvidos. Para tanto, utiliza como instrumento o Exame Nacional das Escolas Cenecistas – ENEC – em que os alunos da Educação Básica, conforme as séries definidas pela rede, realizam em todo Brasil, as mesmas provas, no mesmo dia e horário, desde 2006. No primeiro ano da prova, a participação foi da 4ª e 8ª séries do Ensino Fundamental e 3ª série do Ensino Médio. Desde 2009, há a participação das escolas na definição do período. Em 2010, houve participação das escolas para a definição da temática. No ano de 2010, o exame realizou-se com a participação de alunos do 2º ano do Ensino Fundamental em 9 anos; da 4ª, 6ª e 8ª séries do Ensino Fundamental em 8 anos e da 2ª e 3ª séries do Ensino Médio. Os conteúdos avaliados são os estudados no material didático da rede, para o 1º e 2º trimestres.
Como já pontuado, a CNEC, Campanha Nacional de Escolas da Comunidade no Rio Grande do Sul foi fundada a partir dos esforços de um grupo de jovens, que se uniu ao movimento liderado, em âmbito nacional. A data de 2 de julho de 1950, assinala o início da CNEC, no Estado, com a instalação do Curso Preparatório ao Ginásio, funcionando junto ao Grupo Escolar Duque de Caxias, em Porto Alegre. O primeiro Ginásio da CNEC-RS, Senador Salgado Filho, em Porto Alegre, recebeu autorização para funcionar em 1952. O primeiro prédio próprio localizou-se em São Pedro do Sul.
A CNEC-RS conta com 25 Escolas de Educação Básica e Profissional, 6 Instituições de Ensino Superior, com um total de 17.656 alunos, 1.417 professores e 539 funcionários. As escolas cenecistas do estado estão organizadas em seis microrregiões, aglutinadas por aproximação geográfica, por interesse da escola ou por facilidade de locomoção a fim de propiciar a troca de experiências entre os profissionais.
A instituição escolar em estudo, fora criada no novo município, pela iniciativa da equipe das lideranças políticas. O processo de criação contou com a representação do Ensino Superior, na pessoa do professor Mario Osorio Marques, a quem as lideranças locais procuraram, para que lhes indicasse um possível caminho para terem uma escola ginasial.
Envolvendo-se na causa, Mario Osorio Marques fora o orientador dos caminhos para a concretização do sonho dos santo-augustenses de terem a escola com o curso ginasial. O evento de solenidade de criação dera-se no clube social da cidade.
O processo de escolha do nome foi definido em reunião três dias após o cerimonial de criação da instituição. Conforme registro em apontamentos da história da escola, os nomes sugeridos foram: Padre Anchieta, Santo Agostinho, São João Batista, Padre Réus, Padre Vieira e Inhacorá. A escolha do nome foi colocada em votação e venceu com 17 votos, Padre Anchieta contra 15 votos do nome Santo Agostinho. Não temos o número total de pessoas que participaram da votação para esta definição, mas sabemos que os outros nomes tiveram menos pessoas que os preferissem.
O resgate das razões do nome escolhido para a escola deu-se no encontro jantar em homenagem ao cenecista, secretário e professor aposentado, escolhido para ser
“Personalidade cenecista 2010”9. Os convidados especiais puderam socializar fatos da história da escola e de sua história de trabalho na instituição, havendo assim, um espaço de valorização ao início da trajetória da instituição, conforme combinado por ocasião do convite para a programação.
Na sua emocionada participação, trazendo informações sobre o resgate do nome escolhido, o professor aposentado, integrante da comissão emancipacionista do município e integrante da comissão de criação da escola, relatou que, considerava ter encontrado um nome que seria o adequado para a sonhada instituição que acabara de ser criada, a partir de viagem, realizada em 1950, para visitar o monumental estabelecimento do Seminário Paulista, organização de Estudos Jesuítas.
Segundo o relato do professor,
No Pórtico daquela instituição havia um distintivo a José de Anchieta, como o apóstolo da Educação no Brasil. Um Educador Emérito. Quando nas tratativas para a escolha do nome da nova escola no novo município, em chegando a minha vez de apresentar uma sugestão o fiz, reportando-me ao conhecimento e sonho a partir de visita à capital paulista. A sugestão agradou a maioria dos presentes e votantes e o nome vencedor foi Padre Anchieta
(PROFESSOR CENECISTA APOSENTADO).
9
Personalidade Cenecista é uma ação criada pela rede em que é dado destaque a cenecistas, a partir do encaminhamento de currículo em que conste a sua atuação na causa. Tal evento, no ano de 2010, foi realizado em 28/10/10. Participaram do evento os professores da escola, diretoria do Conselho Comunitário e Conselho fiscal, além de alguns ex-professores que se integraram ao encontro.
A Escola em estudo iniciou suas atividades com o funcionamento do Curso Ginasial de Comércio, após a preparação para a realização dos exames de admissão, para a 1ª série do curso, com início das aulas no dia 16 de janeiro de 1961. O curso Ginasial encerrara suas atividades no estabelecimento a partir de 1967, sendo que a última turma de ginasianos concluiu seu 4º ano em 1966.
A extinção deste curso deu-se em função de o Estado ter assumido o ensino ginasial. A comunidade passou a contar desde 1964 com ensino gratuito para o curso ginasial. Em 1964, quando a primeira turma concluiria o Curso Ginasial de Comércio, iniciou-se o movimento para a autorização do funcionamento do Curso Técnico em Contabilidade.
“Ensino Técnico” é um dos termos utilizados para designar o segmento da educação escolar
brasileira, de nível médio, equivalente ao antigo 2º grau, destinado à qualificação para o exercício de atividades laborais nos diversos setores da economia. No caso da escola cenecista, a ênfase estava no técnico em contabilidade. O novo curso iniciou seu funcionamento em 03 de março de 1965, com uma turma de 15 alunos na 1ª série. Encerrou as atividades da última turma do curso Técnico em Contabilidade com a conclusão do ano letivo de 2001, portanto, 36 anos de funcionamento deste curso.
Enquanto o curso de Contabilidade estava em andamento, a escola encaminhou e teve aprovação de funcionamento de outros cursos profissionalizantes de nível médio: Auxiliar de Contabilidade; Processamento de Dados e Informática, além do curso pós-médio de Contabilidade. Cada um desses foi uma iniciativa na pretensão de preservar os cursos profissionalizantes que foram tão marcantes na escola, porém nenhuma das propostas foi sustentável para se manter no mercado
O acesso ao primeiro emprego, dava-se a partir da escola na interação das empresas com esta em busca de indicação de estudantes para suprir as vagas de trabalho. A escola empenhava-se na indicação de seus alunos e estes faziam sua parte para serem bons alunos para contarem com o reconhecimento à uma possível indicação para trabalho. Os empresários sentiam-se atendidos em seus pleitos, pelo desempenho dos alunos.
As mudanças culturais alteraram o cenário: a escola que preparava profissionais para as empresas passa a ter na pauta de suas reuniões a tratativa de encerramento das atividades do curso de contabilidade, pois os dados numéricos tanto da receita quanto do número de alunos das últimas turmas eram o indicativo do esvaziamento desse curso. Conforme registrado em ata de reunião em 05 de dezembro de 1990, o então presidente colocava aos presentes sua preocupação com a evasão escolar do período noturno. Este declínio foi
suportável até 2001 quando a última turma de 3ª série do curso de Contabilidade era composta de 07 alunos, dos quais nenhum atuava na área de contabilidade. Os dados sinalizavam uma realidade não aceitável aos cenecistas, professores e membros do Conselho Comunitário, dentre os quais vários haviam sido alunos do curso. Foi difícil a decisão de encerrar as atividades, já que havia laço afetivo constituído.
Os alunos que integraram a escola, no início de sua trajetória histórica, eram do local e de municípios vizinhos. Esta abrangência era favorecida pelo reduzido número de estabelecimentos de ensino e também por ser a primeira instituição com a especificidade de profissionalizante entre os municípios da redondeza.
A origem e a expansão das modalidades de ensino técnico remontam ao processo de urbanização e industrialização que se acelera no país após o golpe de outubro de 1930, quando Getúlio Vargas assumiu a presidência do Brasil. Até então, mesmo considerando a falta de uma estrutura de ensino no país organizada em um sistema nacional, já existia o curso técnico comercial, com duração de um a três anos que – junto com o curso preparatório, de três anos de duração, que o antecedia – equivalia ao curso secundário (ginasial) com duração de cinco anos e se configurava como uma opção para os concluintes do antigo primário. Com a Reforma Capanema (1942-1946), a consequente decretação das
“Leis” Orgânica do Ensino, a criação das escolas técnicas para a oferta de cursos técnicos e a
divisão do nível secundário de ensino em dois ciclos. Este ramo da educação é deslocado para o 2º ciclo do nível secundário e se constitui como parte de uma política nacional de educação. O acesso ao ensino superior para os concluintes dos cursos técnicos foi regulamentado em 1953, no entanto havia restrições.
A equivalência plena entre os cursos técnicos e os demais cursos do 2º ciclo do secundário (clássico e científico) e, portanto, o acesso indiscriminado ao Ensino Superior somente foi obtido com nossa primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional -LDB - Lei nº 4.024 de 20 de dezembro de 1961. No tempo em que a -LDB regulamentava, para o povo brasileiro, uma maior mobilidade social a partir da Lei 4024/61, no contexto da escola da CNEG eram dados os primeiros passos de um satisfatório processo que possibilitava o acesso à continuidade da escolarização na esfera municipal com o curso ginasial e, na sequência, com a formação do curso técnico.
Na história da educação nacional, com a retomada do processo de expansão capitalista, as funções econômicas atribuídas à educação, especialmente ao ensino profissionalizante, efetivaram reformas com a lei 5.692 de 11/08/1971 que implantou novas