marianasilvasouzapinto
Texto
(2) MARIANA SILVA SOUZA PINTO. UM OLHAR SOBRE A CRIMINALIZAÇÃO FEMININA E SUA REPRODUÇÃO NO TEMPO. Monografia apresentada à Faculdade de Direito da Universidade Federal de Juiz de Fora, como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel. Na área de concentração Direito sob orientação da Profª. Drª Éllen Cristina Carmo Rodrigues Brandão.. Juiz de Fora 2018.
(3) FOLHA DE APROVAÇÃO. MARIANA SILVA SOUZA PINTO. UM OLHAR SOBRE A CRIMINALIZAÇÃO FEMININA E SUA REPRODUÇÃO NO TEMPO. Monografia apresentada à Faculdade de Direito da Universidade Federal de Juiz de Fora, como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel na área de concentração Direito, submetida à Banca Examinadora composta pelos membros:. Orientador: Profª. Drª. Éllen Cristina Carmo Rodrigues Brandão Universidade Federal de Juiz de Fora. Profª. Ms. Leandro Oliveira Silva Universidade Federal de Juiz de Fora. Prof. Ms. João Beccon de Almeida Neto Universidade Federal de Juiz de Fora. PARECER DA BANCA. ( ) APROVADO ( ) REPROVADO. Juiz de Fora, 20 de junho de 2018..
(4) DEDICATÓRIA. Dedico este trabalho às reclusas da PPACP e à memória de Marielle Franco, sempre presente..
(5) AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus, por me agraciar com o sopro da vida e me conceder o dom do raciocínio e da sensibilidade. À minha orientadora, Prof. Dra. Éllen Rodrigues, por todo conhecimento compartilhado, profissionalismo, carinho e atenção. Sou muito grata pelas experiências e aprendizados que tive ao seu lado e uma eterna admiradora da sua competência, dedicação e força. Aos meus pais, Sandoval e Angela, que se fazem a mais genuína personificação do amor em minha vida, e que não mediram esforços para que eu chegasse até aqui. Ao meu irmão, Luiz Paulo, pela parceira, motivação constante e bom humor contagiante. Ao meu avô, Sandoval, que em seus quase cem anos de experiência nunca deixou de ter fé na vida e de me incluir em suas poderosas orações. Ao meu amor, Gevalmir, por ter cruzado o meu caminho durante a faculdade e escolhido ser tão companheiro, incentivador e, sobretudo, meu melhor amigo. Às detentas da PPACP e aos estagiários do projeto “Mulheres, apesar do cárcere”, que me acolheram com tanto afeto e sinceridade, transformando a minha visão de mundo e mostrando, na prática, o que realmente importa na vida. Aos meus amigos e familiares que durante o curso torceram por mim e acreditaram na minha vitória..
(6) RESUMO O presente trabalho propõe uma análise acerca do processo de criminalização feminina ao longo de tempo, com ênfase nos modelos de dominação masculina intensificados nas sociedades ocidentais a partir do século XIII, tendo como principal referencial teórico as obras “História do medo no Ocidente”, de Delumeau (1989) e “A questão criminal”, de Zaffaroni (2013), demonstrando-se que a inferiorização da mulher é inerente aos discursos punitivos, que, por sua vez, se propõem à manutenção das estruturas hierárquicas de poder, marcadamente machistas e patriarcais. Dado o panorama histórico, foi feita uma relação entre os processos de assujeitamento das mulheres e o aumento vertiginoso do encarceramento feminino no Brasil nas últimas décadas, que se deu principalmente por delitos relacionados ao tráfico de drogas. Para tanto, foram analisadas, sob a perspectiva da Criminologia Crítica, as políticas criminais bem como as disposições legislativas atualmente destinadas ao combate de delitos dessa natureza e seus reflexos. Além disso, foram expostas as deficiências estruturais e assistenciais das penitenciárias brasileiras, que notadamente não estão preparadas para receber as mulheres e atender as suas necessidades, uma vez que foram feitas por e para homens. Posteriormente foi traçado o perfil das mulheres encarceradas no Brasil, demonstrando-se que os grupos mais estigmatizados socialmente são também os mais vulneráveis à aplicação seletiva do direito penal. Por fim, a presente pesquisadora, utilizando-se do método da observação participante, se inseriu no projeto de extensão acadêmica “Mulheres, apesar do cárcere”, promovido pela Universidade Federal de Juiz de Fora, para conhecer a realidade das mulheres presas na comarca de Juiz de Fora, sendo relatados, neste trabalho, os aspectos mais relevantes acerca das condições existenciais das mulheres privadas de liberdade na Penitenciária Professor Ariosvaldo Campos Pires, localizada na cidade de Juiz de Fora/MG.. Palavras-chave: dominação masculina; encarceramento feminino; seletividade penal; Criminologia; Juiz de Fora..
(7) ABSTRACT The present work proposes an analysis regarding the process of female criminalization over time, with emphasis on models of male domination intensified in Western societies from the XIII century, adopting as main theoretical reference the works "Sin and Fear: The Emergence of the Western Guilt Culture, 13Th-18th Centuries", from Delumeau (1989) and “The Criminal Question” from Zaffaroni (2013) demonstrating that the inferiority of women is inherent in punitive discourses, which, in turn, are aimed at maintaining the hierarchical structures of power, markedly machismo and patriarchalism. Given the historical panorama, a relationship was made between the processes of settlement of women and the vertiginous increase of female incarceration in Brazil in the last decades, which was mainly due to crimes related to narcotic trade. Therefore, criminal policies as well as the legislative dispositions currently aimed at combating crimes of this nature were analyzed under the perspective of criminal policies. In addition, the structural deficiencies of the Brazilian penitentiaries have been exposed, which are notably not prepared to receive the women and to meet their needs, since they were made by and for men. Afterwards, the profile of women incarcerated in Brazil was drawn, demonstrating that the most socially stigmatized groups are also the most vulnerable to the selective application of criminal law. Finally, the present researcher, using the method of participant observation, was inserted in the project of academic extension "Women, despite the jail", promoted by the Federal University of Juiz de Fora, to better understand the reality of women prisoners in the region of Juiz de Fora, and the most relevant aspects of the existential conditions of women deprived of their freedom in Professor Ariosvaldo Campos Pires Penitentiary, located in the city of Juiz de Fora/MG.. Keywords: female criminalization; male domination; female incarceration; criminology; criminal selectivity; Juiz de Fora..
(8) LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS CERESP – Centro de Remanejamento do Sistema Prisional CNJ – Conselho Nacional de Justiça CNPCP – Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária CRFB – Constituição da República Federativa do Brasil IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística INFOPEN – Informações Penitenciárias LEP – Lei de Execuções Penais LGBTTI – Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros, Travestis e Intersexuais NEPCrim – Núcleo de Extensão e Pesquisa em Ciências Criminais OBID – Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas PJEC – Penitenciária José Edson Cavalieri PPACP – Penitenciária Professor Ariosvaldo Campos Pires SEDS – Secretaria de Estado de Defesa Social TJMG – Tribunal de Justiça de Minas Gerais UFJF – Universidade Federal de Juiz de Fora VEP – Vara de Execuções Penais.
(9) SUMÁRIO INTRODUÇÃO...............................................................................................................10 1. A CRIMINALIZAÇÃO DA MULHER NO OCIDENTE..........................................12 1.1. Os movimentos feministas........................................................................................18 1.2. O aumento do encarceramento feminino e a política criminal de repressão ao tráfico de drogas a partir dos anos 1990.....................................................................................21 2. O ENCARCERAMENTO FEMININO NO BRASIL................................................25 2.1. Deficiências estruturais e assistenciais do sistema carcerário conforme a perspectiva de gênero..........................................................................................................................28 2.2. O perfil das mulheres encarceradas no Brasil..........................................................34 3. A REALIDADE DAS MULHERES PRESAS NA COMARCA DE JUIZ DE FORA – MG: experiências a partir do projeto de extensão acadêmica “Mulheres, apesar do cárcere”............................................................................................................................39 3.1. O primeiro encontro (03/05/2018)............................................................................41 3.2. O segundo encontro (08/05/2018)............................................................................46 3.3. O terceiro encontro (15/05/2018).............................................................................49 3.4. O quarto encontro (22/05/2018)...............................................................................50 CONSIDERAÇÕES FINAIS..........................................................................................55 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS............................................................................57 REFERÊNCIAS LEGISLATIVAS.................................................................................61.
(10) 10. INTRODUÇÃO O presente trabalho pretende analisar o processo de criminalização feminina, bem como a reação e atuação da sociedade frente a esse fenômeno. Partindo de uma perspectiva histórica que remonta ao século XXI, será abordada a intensificação da criminalização feminina no ocidente, com base nas obras “História do medo no Ocidente”, de Delumeau (1989) e “A questão criminal”, de Zaffaroni (2013). Caminhando na história, ficará nítida a reprodução cíclica da velha construção social de subordinação feminina, que ainda pode ser percebida nos mecanismos de violência de gênero adotados atualmente, bem como seus impactos na realidade vivenciada pelas mulheres encarceradas no Brasil, e mais especificamente, nas condições existenciais das mulheres presas na Comarca de Juiz de Fora, em Minas Gerais. Assim, no Capítulo 1 serão investigados os aspectos históricos das assimetrias de gênero que, da modernidade em diante, criaram e aumentaram os processos de subordinação das mulheres, contribuindo para a manutenção e fortalecimento das estruturas hierárquicas de poder que são inerentes aos modelos de sociedade verticalizados e estratificados em classes. Tal processo de inferiorização é perpetuado por meio de diferentes mecanismos, sendo um deles o sistema punitivo, que atua seletivamente sobre os grupos “socialmente indesejáveis”, nos quais as mulheres foram sendo incluídas a partir de uma série de opressões de gênero por elas suportadas. A análise histórica do tratamento que as mulheres recebem desde o século XIII permitirá a avaliação de quais aspectos das condições de assujeitamento perduram até os dias atuais, sobretudo nas questões relacionadas ao encarceramento feminino no Brasil, que teve um aumento sem precedentes em razão da prática de tráfico de drogas nas últimas décadas. Em seguida, já no Capítulo 2, será feita uma análise detida dos aspectos do encarceramento feminino no Brasil, partindo de uma análise de dados gerais sobre o aumento no encarceramento no país a partir da década de 1990, que, a partir da visão da Criminologia Crítica, decorre da adoção de políticas criminais extremamente punitivistas no que se refere ao combate de crimes relacionados ao tráfico de drogas. Ademais, serão debatidas as deficiências estruturais e assistenciais do sistema carcerário brasileiro conforme a perspectiva de gênero, que revelam um total despreparo das prisões para receber as mulheres, de modo que suas necessidades mínimas e a garantia.
(11) 11 fundamental à dignidade humana sejam propositalmente deixadas à margem por um sistema que foi criado a partir da lógica masculina. Ainda, será traçado o perfil das mulheres que são o alvo mais fácil da criminalização seletiva empreendida contra os grupos mais estigmatizados, notadamente compostos por mulheres jovens, negras, pobres, de baixa escolaridade, mães e solteiras. A partir da combinação de todos os dados analisados neste capítulo, restarão claros os efeitos deletérios produzidos pelo hiperencarceramento feminino existente no Brasil. Outrossim, o Capítulo 3, escrito sob a metodologia da observação participante, traz as experiências vividas e dados colhidos pela autora deste trabalho a partir de sua inserção no projeto de extensão “Mulheres, apesar do cárcere”, iniciativa do Núcleo de Extensão e Pesquisa em Ciências Criminais (NEPCrim), da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Juiz de Fora, que realiza atividades educacionais sob o viés restaurativo junto às mulheres presas na Penitenciária Professor Ariosvaldo Campos Pires (PPACP), localizada em Juiz de Fora – MG. A experiência de campo permitiu a avaliação das reais condições de existência das mulheres no sistema carcerário, bem como a confirmação da hipótese levantada a partir da revisão bibliográfica feita nos capítulos anteriores, qual seja, os antigos modelos de opressão feminina construídos socialmente continuam a ser reproduzidos hodiernamente, sobretudo nas poucas unidades prisionais brasileiras destinadas às mulheres. Por fim, serão apresentados caminhos para o aprimoramento das atuais políticas de atenção às mulheres, em especial aquelas que tocam o sistema carcerário brasileiro, sem a pretensão de se esgotar a análise do tema, que certamente ainda carece de muitos estudos aprofundados e olhares das instâncias de poder para que as mulheres conquistem a tão distante igualdade de gênero e tenham as garantias indispensáveis à existência digna asseguradas para além do texto constitucional..
(12) 12 1. A CRIMINALIZAÇÃO DA MULHER NO OCIDENTE A relação das mulheres com o poder punitivo passou a ter grande expressividade a partir da Baixa Idade Média, como esclarece Zaffaroni (2013), momento em que o discurso legitimador deste poder passou a ganhar força em virtude do ressurgimento dos modelos de sociedade hierarquicamente verticalizadas, que ficaram amplamente conhecidos como Estados Absolutistas por terem mantido uma organização política na qual o soberano concentrava todos os poderes do Estado em suas mãos. Para que os Estados Absolutos se mantivessem inabaláveis, ocorreu o fortalecimento do poder punitivo, que se legitimou pela constante criação de emergências. Estas seriam ameaças detectadas – em melhor termo, criadas – pelo próprio Estado, a serem radicalmente combatidas por ele e toda a população, para que a vida da humanidade se mantivesse segura. Com o intuito de melhor exemplificar a instalação dessa estrutura inquisitorial, Zaffaroni (2013) recorda-nos de parte do extenso rol inimigos da sociedade, que foram eleitos como emergências a serem exterminadas pelo Estado o mais breve quanto fosse possível: hereges, em particular os que tentavam introduzir a desordem com ideias das Igrejas reformadas nacionais de outros países; judeus; anarquistas; delinquentes; deficientes; imigrantes; ciganos; ateus; bruxas; prostitutas, e tantos outros ao longo da história. É enorme a heterogeneidade dos inimigos em diferentes épocas da evolução humana. Não é tarefa fácil detectar alguma característica comum entre todos eles, a despeito de alguns terem sido vitimizados de modo reiterado ao longo do massacre conduzido pelas estruturas verticalizadas de poder, objetivando o controle e higiene social. Diante disso, o medo que os cidadãos tinham dos males que podiam ser causados pelas falsas emergências foi utilizado para exterminar toda limitação imposta ao poder punitivo, que se mostrava como única possibilidade para neutralização dos seres perigosos e subversivos acima mencionados. Portanto, a criação de emergências nada mais foi do que instrumento discursivo que possibilitou a formação de um estado de pânico coletivo, sensação esta que era imprescindível ao exercício do poder punitivo sem qualquer limitação e contra quem viesse a questioná-lo. Nesse sentido, Zaffaroni leciona que.
(13) 13 tudo o que se quer opor ou objetar a esse poder é também um inimigo, um cúmplice ou um idiota útil. Por conseguinte, vende-se como necessária não somente a eliminação da ameaça, mas também a de todos os que objetam ou obstaculizam o poder punitivo, em sua pretensa tarefa salvadora. É evidente que o poder punitivo não se dedica a eliminar o perigo da emergência, e sim a verticalizar mais ainda o poder social; a emergência é apenas o elemento discursivo legitimador de sua falta de contenção. Isso se verifica ao longo de cerca de 800 anos de sucessivas emergências, algumas das quais implicavam certo perigo real, mas o poder punitivo nunca eliminou nenhum desses perigos (ZAFFARONI, 2013, p. 23).. Nesse panorama, o poder estatal, predominantemente eclesiástico, criou a necessidade de perseguir tudo que a ele não se submetia. Foi assim, segundo Zaffaroni (2013), que a Inquisição elegeu uma grande emergência para legitimar suas atrocidades: o extermínio de Satã. No entanto, Satã não possuía forma física, de modo que era preciso lhe eleger alguns seguidores humanos para que a necessidade de persegui-lo fosse visível, palpável e legítima. Como Satã não poderia atuar sozinho, foi criada a teoria do pacto satânico, por meio do qual humanos supostamente celebravam laços com tal criatura, que era tida como inimigo a ser fortemente combatido. Este contrato era proibido pelo poder estatal/eclesiástico, de modo que somente humanos menos inteligentes, desobedientes, genética e biologicamente inferiores o celebravam, estando dentre estes um subgrupo bastante numeroso: as mulheres. Mulheres eram tidas como crianças débeis, sem maturidade, merecendo, por isso, penas mais brandas. No entanto o seu reduzido grau de culpabilidade não era levado em consideração quando comparado ao grande risco que as ditas bruxas, discípulas de Satã, ofereciam à sociedade. Sobre as mulheres, o historiador Delumeau afirma: Mal magnífico, prazer funesto, venenosa e enganadora, a mulher foi acusada pelo outro sexo de ter introduzido na terra o pecado, a desgraça e a morte. Pandora grega ou Eva judaica, ela cometeu a falta original ao abrir a urna que continha todos os males ou ao comer o fruto proibido. O homem procurou uma responsável para o sofrimento, para o malogro, para o desaparecimento do paraíso terrestre, e encontrou a mulher. Como não temer um ser que nunca é tão perigoso como quando sorri? A caverna sexual tornou-se a fossa viscosa do inferno (DELUMEAU, 2011, p. 468).. Assim, a submissão e discriminação da mulher em relação ao homem eram imprescindíveis ao apogeu da sociedade machista e patriarcal, e também para a legitimação do discurso punitivo, de modo que sua marginalização foi e ainda é socialmente construída..
(14) 14 O reforço do comportamento desviante da mulher levou à fogueira milhares delas por toda Europa ocidental, sob a justificativa de se eliminar o perigo e o pecado, tão presentes nas bruxarias a elas atribuídas. Foi assim, como leciona Faur, que A alma coletiva feminina ficou para sempre marcada com o pavor de revelar conhecimento mágico e poder espiritual, pavor que explica os séculos de retraimento, em que as mulheres se deixaram anular, aceitando e se conformando, em silêncio e sem reagir, com a dominação, a exploração dos seus corpos e trabalho, abusos e as violências perpetradas pelos homens (FAUR, 2011, p. 40).. Compilando a maioria das atrocidades que levariam as mulheres a serem vítimas da Inquisição, Heinrich Kramer e James Sprenger elaboraram em 1484 a obra intitulada “O Martelo das Feiticeiras” (Malleus Maleficarum), considerada uma expressiva sistematização do poder punitivo, que, segundo Batista e Zaffaroni: O Malleus é a obra teórica fundamental do discurso legitimador do poder punitivo na etapa de sua consolidação definitiva, pois constitui o primeiro modelo integrado de criminologia e criminalística com direito penal e processual penal. Pode-se afirmar que é a primeira grande obra sistemática de direito penal integrado em um complexo interdisciplinar de enciclopédia ou ciência total do direito penal. A esse respeito, adverte-se tanto a) para o esquecimento em que caiu e a escassa atenção que os juristas e historiadores do direito penal lhe dispensaram quanto b) para sua extremada misoginia e antifeminismo (BATISTAa; ZAFFARONI; 2006, p. 511).. Desse modo, “O Martelo das Feiticeiras” detalhou o comportamento feminino criminoso, bem como as providências a serem tomadas para combatê-lo, sob uma perspectiva dualista da mulher, que ora figurava como virgem, livre do pecado, amorosa e benevolente, ora como ser carnal, impuro, perverso, traiçoeiro, sendo todas essas características essencialmente femininas. Portanto, “pela simples razão de serem mulheres, os discursos demonológicos consideravam-nas perigosas e legitimavam a sua punição e eliminação do espaço político e social” (ISHIY, 2014, p. 49). Somente no século XVIII, mais precisamente em 1784, a caça às bruxas, as torturas e fogueiras foram abolidas, como leciona Faur (2011). Ocorreram grandes mudanças no poder estatal, nos seus discursos legitimadores e também na condição feminina. A respeito dessas transformações, Ishy discorre que Enquanto as teorias demonológicas surgiram primordialmente com a finalidade de legitimar a instituição do poder punitivo do Estado e consolidar a dominação da doutrina católica, as teorias criminológicas positivistas foram criadas no contexto em que o jus puniendi já estava legitimamente estabelecido, mas se questionavam os seus fundamentos científicos, instrumentos de atuação e finalidade. O desenvolvimento humanista do Iluminismo no contexto de uma sociedade industrial propiciou a reformulação da ciência jurídica com base na cientificidade e no progresso, substituindo-se os critérios da religiosidade pelos da humanidade e.
(15) 15 concebendo o método experimental como o único legítimo na produção científica. Partindo da realidade física, e não mais da metafísica, o positivismo do século XIX deslocou o campo do conhecimento para a análise e estudo das leis naturais, a fim de estabelecer relações constantes entre os fenômenos observáveis. No campo da criminologia, nascem as correntes de pensamento da Escola Clássica e da Positivista (ISHIY, 2014, p. 51).. O discurso científico apresentado pelo pensamento clássico e positivista revisitou a separação entre seres humanos, colocando, de um lado, os homens como superiores, e de outro, as mulheres como inferiores, agora em virtude da genética que lhes desfavorecia. O comportamento feminino socialmente problemático decorria do desvio de caráter, típico da sua essência da mulher, que foi traduzido como fruto de patologias. O médico italiano Césare Lombroso desenvolveu no século XIX pesquisas a respeito dos aspectos psicológicos e antropológicos do criminoso, tendo publicado em 1876 a obra denominada “O homem delinquente” (L´uomo delinquente) e em 1895 a obra “A mulher delinquente” (La Donna Delinquente), que representaram o início dos estudos do pensamento criminológico positivista em relação ao comportamento transgressor. Em “A mulher delinquente”, Lombroso descreveu minuciosamente as características psicológicas e físicas das mulheres, dividindo-as em normais, prostitutas e criminosas, sendo estas últimas subdivididas em criminosas natas, ocasionais, histéricas, passionais, suicidas, loucas e epiléticas. É possível observar que a teoria criminológica do médico vinculou-se ao determinismo biológico, segundo o qual, o comportamento do ser humano é pré-determinado por seus traços físicos, biológicos e psíquicos, analisados individualmente, não importando as condições do contexto social. Na teoria de Lombroso, as mulheres prostitutas e as criminosas fugiam aos padrões de normalidade, apresentando características masculinas, atitudes vingativas, sexualidade exacerbada e nenhuma afeição maternal, sendo a maternidade um papel de gênero que dela se esperava. Nesse raciocínio, há um processo de criminalização que considera a mulher perigosa independentemente da prática de crimes, mas sim em razão de certos atributos e condições pessoais que possui. Assim, a prática delitiva em si não era necessária para ser considerada criminosa, bastava apenas ser mulher. Conclui Batista que a própria descrição/classificação biológica do sujeito criminalizável será a explicação do seu crime e de sua “tendência” à “criminalidade”. Passa a reinar uma racionalidade falsamente autonomizada do político que produzirá um recuo do iluminismo, que se imaginava haver superado o absolutismo punitivo. Na criminologia, o positivismo transfere o objeto do delito.
(16) 16 demarcado juridicamente para a pessoa do deliquente. Contra os perigos revolucionários da ideia de igualdade, nada melhor do que uma legitimação “científica” da desigualdade. O criminoso, agora biologicamente ontológico, vai demandar mais pena, mais poder punitivo indeterminado: corrigir a natureza demanda tempo. (BATISTAb, 2011, p. 26-27).. As graves falhas metodológicas e desacertos das pesquisas de Lombroso fizeram com que as suas teorias e outras semelhantes fossem refutadas ao longo do tempo, de modo que a perspectiva positivista passou a ser combatida com mais força a partir do início do século XX, quando a cultura ocidental enfrentou grandes rupturas na ordem vigente, transformando seus valores e padrões sociais. Para Ishy, esse período assistiu uma virada importante da história da criminologia, que representou uma verdadeira revolução – a começar da natureza radicalmente nova das questões formuladas, que deixaram de reportar-se ao delinquente ou mesmo ao crime para dirigirem-se, sobretudo, ao próprio sistema de controle (DIAS; ANDRADE; 1997 apud ISHY, 2014, p.62).. A despeito de outras perspectivas criminológicas também terem contribuído para a desconstrução da visão lombrosiana, a Criminologia Crítica, que tem como marco inicial a segunda metade do século XX, teve importante papel na retirada do enfoque da pessoa do criminoso para estudar o processo de criminalização em si. Houve, assim, uma inversão do paradigma do autor para o delito, à luz de abordagens sociológicas. Batista assevera que Baratta nos ensina os dois movimentos fundamentais que a criminologia crítica (e a crítica do direito penal) produziram: primeiro, o deslocamento do autor para as condições objetivas, estruturais e funcionais, e o segundo, o deslocamento das causas para os mecanismos de construção da realidade social (BATISTAb, 2011, p. 89).. A socióloga ainda discorre que todas as definições da Criminologia elaboradas ao longo do tempo são atos discursivos, atos de poder com efeitos concretos, não são neutros: dos objetivos aos métodos, dos paradigmas às políticas criminais. Aqui reside o enigma central da questão criminal. Talvez seja essa lição principal do inspirador livro de Pavarini: para entender o objeto da criminologia, temos de entender a demanda por ordem da nossa formação econômica e social. A criminologia se releciona com a luta pelo poder e pela necessidade de ordem. A marcha do capital e a construção do grande Ocidente colonizador do mundo e empreendedor da barbárie precisaram da operacionalização do poder punitivo para assegurar uma densa necessidade de ordem (BATISTAb, 2011, p. 19).. Isto posto, chegou-se à conclusão de que a criminalização sempre atuaria em prol da manutenção do poder de classes sociais abastadas e privilegiadas, de modo que a política criminal se torna um meio eficiente de racionalização, estando a serviço da acumulação de capital. Para Baratta (2002), a concepção liberal burguesa da questão.
(17) 17 criminal colocou em primeiro lugar os interesses das classes dominantes, imunizou seus comportamentos socialmente danosos e dirigiu o processo de criminalização para as classes subalternas. Diante disso, a Criminologia Crítica trouxe a importante conclusão de que o sistema penal é aplicado de maneira diferente quando direcionado a grupos sociais diversos, restando nítida a sua seletividade e rigidez quanto aos mais estigmatizados, como por exemplo, os pobres, negros, periféricos, as mulheres, e outros grupos vulneráveis. Batista (2011, p. 24) pontua que, ao longo da história, “se a Criminologia corre o risco de ser ‘saber e arte de despejar discursos perigosistas', conhecer o eixo dos medos é traçar o caminho das criminalizações e identificar criminalizáveis”. Desse modo, a Criminologia Crítica trouxe à luz que apontar estrategicamente os grupos a serem criminalizados apenas demonstra que a seletividade do poder punitivo é inerente às estruturas de poder sociopolítico e econômico e imprescindível à manutenção do status quo, qual seja, de dominação masculina, inerente ao patriarcado. No entanto, apesar dos grandes avanços, as principais teorias e pesquisas criminológicas formuladas até meados do século XX não incluíam as mulheres como objeto de estudo, já que foram escritas por homens e para homens, como pontua Ishy: Segundo Meda Chesney-Lind e Lisa Pasko, as principais teorias criminológicas formuladas até então, justificaram a exclusão da mulher pelo baixo índice de encarceramento feminino, pela facilidade de obter-se informações sobre homens presos ou, simplesmente, silenciaram sobre o assunto por admitir tacitamente a irrelevância das especificidades das mulheres e a neutralidade associada ao gênero masculino (CHESNEY-LIND; PASKO, 2013 apud ISHIY, 2014, p. 61).. O processo de criminalização feminino foi, até meados do século XX, um problema social irrelevante no que tange à elaboração de políticas públicas específicas, mantendo-se também na marginalidade das pesquisas e produções científicas. As raras tentativas de aplicação das teorias criminológicas à situação da mulher delinquente foram injustas e equivocadas, uma vez que as mesmas eram generalistas e construídas conforme a realidade masculina. Contudo, como se verá logo à frente, o surgimento dos movimentos feministas impulsionou a inserção da perspectiva de gênero na produção dos estudos criminológicos, questionando e desconstruindo o suposto caráter universal e neutro das teorias científicas misóginas até então existentes..
(18) 18 1.1. Os movimentos feministas De modo mais detalhado, apesar de não haver um posicionamento único, é comum que se fale em três ondas do movimento feminista, sendo que uma parte da academia já menciona uma quarta, em virtude das principais reivindicações dos movimentos femininos em cada momento da história, como esclarece Franchini (2018). Segundo a autora, a primeira onda, que ocorreu do final do século XIX até meados do século XX, foi marcada pela reivindicação feminina por direitos que já estavam sendo conquistados por homens de seu tempo. Este período contempla as lutas por direitos como voto – que fez que com esta primeira onda feminista ficasse popularmente conhecida como sufragista – e também participação na vida pública e política. Historicamente, a sociedade do século XIX e da virada para o século XX era urbana, industrial, positivista, cientificista, acadêmica, política e economicamente liberal. Foi no século XIX que surgiu o socialismo, o questionamento da ideia de lucro a qualquer preço, a luta por direitos trabalhistas, a luta por participação política, mas nada disso, obviamente, incluía as mulheres, como pontua Franchini (2018). Portanto, nesse momento da história, as primeiras e principais reivindicações feministas foram por esses direitos que eram tidos como básicos. Ressalte-se que o papel da mulher, principalmente na sociedade inglesa vitoriana, era de cuidadora do lar, devendo ser recatada, submissa e angelical. As feministas da primeira onda questionavam a imposição desses papéis dotados de passividade às mulheres. Na transição da primeira onda feminista para a segunda, a escritora e filósofa francesa Simone de Beauvoir publicou, em 1949, seu livro chamado “O segundo sexo” (Le Deuxième Sexe), no qual apresenta reflexões basilares sobre as construções sociais produzidas em torno da figura feminina, sob a premissa de que a mulher não é o “segundo sexo” ou o “outro” por razões naturais e imutáveis, mas sim por uma série de circunstâncias sociais e históricas que produziram este cenário. A obra de Beauvoir foi e ainda é uma das mais importantes contribuições ao movimento feminista, tratando no universo feminino abertamente, abordando temas como o aparelho reprodutor feminino, a menstruação, o prazer feminino e outros assuntos em linguagem direta, o que foi revolucionário para a época. Em sequência, a segunda onda iniciou-se em meados dos anos 50, se estendendo até meados dos anos 1990 do século XX. Contudo, quando se refere ao feminismo de.
(19) 19 segunda onda, de maneira geral, quer-se abordar, mais especificamente, o feminismo radical, que teve seu início e maior atividade nas décadas de 60 e de 70. A segunda onda do feminismo foi momento da luta pelos direitos reprodutivos e das discussões acerca da sexualidade. É nessa fase que começa a ser debatida a diferença entre sexo e gênero, sendo o primeiro interpretado como uma característica biológica, e o segundo como uma construção social, isto é, um conjunto de particularidades e papéis impostos à pessoa, a depender de seu sexo. Na segunda onda buscou-se identificar a origem da condição de inferioridade e opressão a que as mulheres, coletivamente, estavam submetidas quando comparadas aos homens. Chegou-se à conclusão que o cerne da questão está no próprio sexo feminino, na capacidade reprodutiva das mulheres, que sempre foi exaustivamente explorada pelo patriarcado, sendo este inerente à sociedade burguesa. Desse modo, como bem esclarecido por Franchini (2018), "as feministas de segunda onda foram as primeiras a apontar que, apesar de todas as diferenças entre todas as mulheres do mundo, ainda há algo que nos une a todas, indiscriminadamente: a opressão com base no sexo”. A. produção. de. conteúdo. acadêmico. foi. intensificada,. propiciando. questionamentos a respeito das próprias ciências e da formação do conhecimento. A segunda onda feminista despertou para a criação da epistemologia feminista, construída sob o ponto de vista e experiência da mulher, em oposição à grande maioria do conhecimento produzido até então a partir da ótica masculina. Entretanto, como a maioria das autoras e militantes feministas eram brancas, inseridas na academia e pertencentes a classes mais altas, as mulheres de diferentes grupos, principalmente as negras, pobres e lésbicas não sentiam suas particularidades contempladas pelos resultados dos estudos produzidos, nem pelas pautas das reivindicações feministas da época. Assim, esses grupos esquecidos em suas mais variadas especificidades deram início ao que se chamou de feminismo identitário. O feminismo identitário defendia que as diferenças existentes entre mulheres, seja pela classe social, raça/etnia e sexualidade são determinantes na formação de suas identidades, experiências e das opressões sofridas. Nesse raciocínio, associa-se o surgimento da terceira onda do feminismo, no início da década de 1990, a uma tentativa de superação das supostas falhas das ondas.
(20) 20 anteriores, evitando as definições e generalizações que colocaram ênfase nas experiências das mulheres brancas pertencentes a classes mais altas. Pode-se dizer que a terceira onda fez uma interpretação pós-estruturalista, dispensando significados definitivos e intrínsecos das palavras, símbolos ou instituições, buscando, antes, estudar variações conforme os diversos contextos e peculiaridades da realidade das mulheres, individualmente consideradas. Franchini (2018) menciona, ainda, o surgimento do transversalismo na terceira onda feminista, em oposição ao universalismo e ao particularismo, que são, respectivamente, características marcantes da segunda e da primeira onda. A ideia de políticas transversais trata da possibilidade de diálogo entre todas as condições e realidades enfrentadas por mulheres no mundo, exercitando a empatia para compreender melhor suas necessidades e pontos de vista no momento de traçar estratégias e políticas. Ressalta-se que a constante evolução das teorias feministas possibilitou o início do estudo sobre a problemática da criminalidade feminina, como esclarece Ishy (2014, p. 64) “incluindo nas discussões o papel social e o status socioeconômico da mulher, a realidade de opressão das sociedades patriarcais e as múltiplas faces da marginalização das mulheres presas”. Todavia, como se verá no próximo tópico, apesar dos avanços e conquistas cada vez mais significativas para as mulheres, os movimentos feministas não modificaram o seu perfil socioeconômico e nem os crimes pelos quais elas são massivamente presas, de maneira que Clarice Feinman afirma categoricamente que nem o perfil socioeconômico das mulheres encarceradas, nem a natureza e o modus operandi dos crimes pelos quais foram presas, sofreram profundas alterações a partir dos movimentos feministas. Na realidade, considera que a pobreza e as drogas continuam sendo os principais determinantes do aprisionamento de mulheres, o que revela que a realidade de marginalização econômica é fator preponderante para a criminalização. Os diferentes índices criminais apontam que a maioria das mulheres foi presa por crimes relacionados ao desemprego, e não às atividades de altos cargos profissionais, o que sugere que é a feminização da pobreza, e não a liberação das mulheres, a tendência social mais relevante para o estudo do encarceramento feminino. (ISHIY, 2014, p. 78).. Diante disso, é possível obervar que a relação forjada entre os movimentos feministas e o crescente índice de criminalidade feminina advém de uma visão tradicionalista do papel social atribuído às mulheres, a partir da crença de que a quebra dos papéis tradicionalmente impostos pela sociedade machista e patriarcal pode gerar comportamentos desviantes. Nesse raciocínio, as mulheres que questionam o modelo de.
(21) 21 assujeitamento ao qual vêm sendo submetidas ao longo da história, e que lutam por oportunidades de escolher os papéis sociais que querem desempenhar, automaticamente transformam-se em um risco à estabilidade social, visão esta que apenas reforça os padrões de dominação masculina. 1.2. O aumento do encarceramento feminino e a política criminal de repressão ao tráfico de drogas a partir dos anos 1990 Paralelamente à terceira onda do feminismo e à emancipação feminina que avançava e possibilitava a ocupação cada vez maior de espaços tradicionalmente masculinos por mulheres, mais especificamente em meados dos anos 1990, observa-se um aumento sem precedentes do encarceramento no Brasil, em razão do recrudescimento das políticas de repressão às drogas, inspirado nos modelos de controle internacionais. Como elucida Rodrigues, “para além do comprometimento oficial com o sistema internacional de controle de drogas, as estreitas ligações diplomáticas e comerciais entre o Brasil e os Estados Unidos levaram à adoção de um proibicionismo fortemente influenciado pelo modelo norte-americano de combate às drogas”. (RODRIGUESa, 2014, p. 83).. Ocorre que o aumento da repressão ao narcotráfico se baseou na incorporação de práticas e valores da doutrina militar nas estruturas estatais e na própria sociedade, evidenciando a lógica maniqueísta inerente ao sistema punitivo, que coloca os “bons” em guerra com aqueles que são seletivamente considerados “maus”, retratando, portanto, a perpetuação da ideia de criação de emergências e inimigos a serem combatidos pelo direito penal para manutenção das estruturas de controle, o que remonta os discursos de criminalização do século XIII. As modificações da legislação de drogas no Brasil ao longo do século XX tiveram importante papel nesse cenário, podendo-se destacar algumas como mais significativas, a saber: a edição da “Lei de Tóxicos” no ano de 1976, momento em que a pena mínima do crime de tráfico foi aumentada de um para três anos; a promulgação da Constituição Federal da República Brasileira em 1988; e a posterior entrada em vigor da Lei nº 7.072 de 1990, que, por sua vez, teve o condão de restringir a aplicação de benefícios aos condenados por tráfico de drogas, passando a equipará-lo a crime hediondo, de modo que foi vedada a progressão de regime aos condenados por este tipo penal e aumentado o prazo para obtenção do livramento condicional..
(22) 22 A partir desse momento começa a se elevar o contingente de pessoas encarceradas, uma vez que as penas foram elevadas e a concessão de benefícios de progressão de regime obstacularizada, levando os apenados a permanecerem mais tempo nas prisões. Mas as inovações legislativas não pararam por aí. Em 2006, a nova Lei de Drogas avultou, mais uma vez, a pena a ser aplicada àqueles que praticavam tráfico de drogas, sendo fixado o patamar mínimo em cinco e o máximo em quinze anos de reclusão, conforme redação do art. 33 da Lei nº 11.343 de 2006. Os dados nada animadores que serão expostos no capítulo seguinte demonstram a ineficácia da guerra às drogas instalada no sistema punitivo, já que mesmo com penas agravadas e o consequente inchaço prisional, o consumo de drogas ilícitas não reduziu, tendo caminhado em sentido inverso, já que a população geral brasileira que já consumiu algum tipo de droga (com exceção do álcool e tabaco) saltou de 19,4% para 22,8%, entre os anos de 2001 e 2005, conforme o Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas (OBID)1. Em que pese a Lei nº 11.343 de 2006 ter um viés positivo em razão da descriminalização do uso de drogas, ela não fez uma distinção clara entre o consumo pessoal e o tráfico, que, conforme as disposições do art. 28, §2º, deve se dar avaliandose, a natureza e à quantidade da substância apreendida, ao local e às condições em que se desenvolveu a ação, às circunstâncias sociais e pessoais, bem como à conduta e aos antecedentes do agente. Sendo os critérios de diferenciação muito vagos e de difícil aplicação em cada caso concreto, torna-se questionável a atribuição desta tarefa às autoridades policiais, sem qualquer distinção legal anterior que tenha condições de assegurar a defesa da pessoa acusada, abrindo margem para a visão extremamente subjetiva dos agentes estatais, que tem ampla discricionariedade na avaliação acerca da ocorrência ou não do tipo penal em comento. Diante disso, a inovação legislativa apenas aparentou traçar um caminho menos punitivista, pois a liberdade de atuação das autoridades se encarrega de perpetuar a seletividade penal, contribuindo para o hiperencarceramento dos grupos mais estigmatizados socialmente, ou seja, a legislação de drogas brasileira apenas repete e reforça o grande abismo na resposta penal para as camadas mais altas e mais baixas da população. Para os traficantes, mesmo os de pequeno porte ou viciados, pertencentes aos estratos mais desfavorecidos da sociedade, a resposta penal é sempre a prisão 1. SENAD. Relatório Brasileiro Sobre Drogas, 2009, p. 22..
(23) 23 fechada, agravando ainda mais as terríveis condições das superlotadas e infectas prisões brasileiras. Aos usuários de drogas sem antecedentes, nãoviciados, que possuem condições de comprar droga sem traficar, houve a redução da resposta penal. (RODRIGUESa, 2010, p. 14).. Portanto, a guerra às drogas e o encarceramento em massa revelam a insistente tentativa do Estado de criar políticas ineficientes, já destinadas a falharem em seus objetivos declarados, ou, então, do sucesso destas com relação a objetivos ocultos, ou não declarados, de ampliação do controle social repressivo sobre as camadas mais pobres da população, que são submetidas a violações de direitos e tratamentos degradantes nos cárceres brasileiros e latino-americanos. Se o objetivo da política de drogas tiver sido aumentar o número de presos pode-se dizer que tal meta foi alcançada, sem que, no entanto, se tenha conseguido controlar ou reduzir o consumo ou a venda de drogas ilícitas. (RODRIGUESa, 2010, p. 22).. Quando se analisa a situação pela perspectiva de gênero, o problema é ainda mais aprofundado. A desigualdade de gênero solidificada ao longo dos tempos, que tenta limitar a atuação das mulheres ao espaço privado, faz com que elas sejam automaticamente incluídas nos estratos mais desfavorecidos e penalizados da sociedade quando incorrem em práticas delitivas e/ou ocupam espaços e posições precipuamente imaginadas para os homens, como por exemplo, o tráfico de drogas. Nesse contexto, a mulher é punida para além da condenação penal, sofrendo também pela violência simbólica decorrente da traição da função que as estruturas de poder e o patriarcado tradicionalmente lhe impõe, qual seja, a de conformação aos papéis subservientes (de mãe, esposa, dona de casa). Tendo em vista que a maioria dos crimes cometidos por mulheres – sujeitos da presente pesquisa – tem relação com o tráfico de drogas e que salta aos olhos o aumento expressivo do número de presas nos últimos vinte anos, conclusões estas que serão esclarecidas no capítulo seguinte a partir da apresentação de dados sobre o encarceramento feminino no Brasil, é fundamental a reflexão acerca da reprodução das estruturas de dominação e assujeitamentos femininos, que alimentam a crescente rede de violência e silenciosamente colocam as mulheres à margem no que se refere à criação e aplicação de políticas criminais que, por óbvio, não contemplam suas necessidades e anseios. Ressalte-se, porém, mesmo que inseridas em práticas habitualmente vistas como masculinas, as mulheres, na maioria esmagadora das vezes estão em postos de baixo prestígio dentro da estrutura do tráfico, o que reproduz uma situação de subalternização feminina também dentro do próprio universo da criminalidade, além de que boa parte das mulheres presas entram nesse meio por terem algum tipo de relacionamento afetivo.
(24) 24 anterior com homens já envolvidos com o narcotráfico, como discorre Martins (2016), embasada em Ramos (2012). Portanto, a tentativa de invisibilidade feminina na esfera pública torna-se um grande problema no que tange à elaboração das políticas criminais, o que é perceptível mediante simples análise dos estabelecimentos e demais estruturas destinadas ao cumprimento de pena por mulheres no Brasil, que, sem qualquer surpresa, se mostram absolutamente despreparados para acolhê-las e muito aquém no desempenho de sua utópica função ressocializadora, sendo, antagonicamente, espaços onde acontecem múltiplas violações de garantias. No Capítulo 2 será abordada com maior especificidade a atual realidade estrutural do cárcere e o perfil das mulheres presas no Brasil, fazendo-se uma contextualização do modelo social de dominação e inferiorização da mulher ora apresentado com a situação concreta do encarceramento feminino, demonstrando-se que ao longo da história tais modelos e discursos infelizmente continuam a se repetir, sendo, portanto, protraídos no tempo..
(25) 25 2. O ENCARCERAMENTO FEMININO NO BRASIL Segundo o mais recente Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias publicado em 2017 (INFOPEN)2, com dados referentes a dezembro de 2015 e atualizados em junho de 2016, a população prisional brasileira ultrapassou, pela primeira vez na história, a marca de 700 mil pessoas privadas de liberdade, o que representa um aumento da ordem de 707% em relação ao total registrado no início da década de 1990.. Gráfico 1. Evolução das pessoas privadas de liberdade (em mil) entre 1990 e 2016.. Fonte: Ministério da Justiça. A partir de 2005, dados do Infopen.. Mais especificamente, de acordo com o novo Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias sobre Mulheres publicado em 2018 (INFOPEN Mulheres)3, com dados relativos a dezembro de 2015 e atualizados em junho de 2016, a população prisional feminina atingiu a marca de 42 mil mulheres privadas de liberdade, o que representa um aumento de 656% em relação ao total registrado no início dos anos 2000, quando menos de 6 mil mulheres se encontravam no sistema prisional, ao passo que, no mesmo período, a população prisional masculina cresceu 293%, passando de 169 mil homens encarcerados em 2000 para 665 mil homens em 2016.. 2 3. DEPEN. Relatório INFOPEN, 2017, p. 09. DEPEN. Relatório INFOPEN Mulheres, 2018, p. 14..
(26) 26 Gráfico 2. Evolução das mulheres privadas de liberdade (em mil) entre 2000 e 2016.. Fonte: Ministério da Justiça. A partir de 2005, dados do Infopen. Dados consolidados para a série histórica.. Além disso, os levantamentos concluíram que os crimes relacionados ao tráfico de drogas correspondem a 62% das incidências penais pelas quais as mulheres privadas de liberdade foram condenadas ou aguardam julgamento em 2016, o que significa dizer que 3 em cada 5 mulheres que se encontram no sistema prisional respondem por crimes ligados ao tráfico. Entre as tipificações relacionadas ao tráfico de drogas, o crime de associação para o tráfico corresponde a 16% das incidências e o crime de tráfico internacional de drogas responde por 2%, sendo que as demais incidências referem-se à tipificação de tráfico de drogas propriamente dita4. Já em relação aos homens, os crimes ligados ao tráfico representam 26% dos registros. Os crimes de roubo e furto representam 38% dos crimes pelos quais os homens privados de liberdade foram condenados ou aguardam julgamento e 20% dos crimes são relacionados às mulheres5.. 4 5. Idem, p. 53. DEPEN. Relatório INFOPEN, 2017, p. 43..
(27) 27 Gráfico 3. Distribuição por gênero dos crimes tentados/consumados entre os registros das pessoas privadas de liberdade, por tipo penal.. Fonte: Levantamento de Informações Penitenciárias – INFOPEN, Junho/2016.. Diante desse panorama resta evidente o fenômeno do encarceramento em massa no Brasil, que, curiosamente, vem ocorrendo desde o enrijecimento gradativo e intencional da resposta penal ao comércio de drogas, aliado à distorção midiática que propositalmente incute no ethos social a falsa sensação de impunidade, apresentando a adoção de penas mais severas como a melhor, única e salvadora alternativa para o alcance da paz social, de modo que a criminalidade seja equivocadamente considerada natural a certos grupos mais vulneráveis, e não derivada de processos estruturais de criminalização e apartação social como discorre Rodrigues (2017), com fundamento na obra de Batista (2011). Observa-se, a situação alarmante da quantidade de mulheres encarceradas, que, proporcionalmente, aumentou muito mais em relação à quantidade de homens. No entanto este fato é tratado com descaso pelo sistema punitivo, haja vista que, para além do número de mulheres presas ser expressivamente menor ao do contingente carcerário masculino, os homens ocupam a posição central também nesse universo, que é pensado e construído a partir da lógica e necessidades masculinas. Isso se reflete em mais poder, voz e visibilidade aos homens, que, a despeito de estarem restritos ao desumano cárcere brasileiro assim como as mulheres, são mais contemplados com oportunidades de trabalho, de uso das estruturas, de visitas íntimas, de tratamento, etc, como se verá adiante. Ainda, segundo Martins (2016), baseada em Diniz (2014), “a magnitude de diferença entre homens e mulheres encarcerados fez com que a classificação homem,.
(28) 28 jovem, negro, pouco escolarizado e trabalhador informal resumisse o sujeito típico controlado pelas políticas punitivas”.. Além disso, não se pode olvidar o fato exposto acerca dos crimes praticados por mulheres serem ligados ao tráfico de drogas em 62% dos casos, o que releva a íntima relação entre o grande aumento do encarceramento feminino e as alterações legislativas que vêm ocorrendo desde o século XX, tornando mais severas as punições para a prática de delitos desta natureza, como já explicado no capítulo anterior. 2.1. Deficiências estruturais e assistenciais do sistema carcerário conforme a perspectiva de gênero A Lei de Execução Penal (LEP), nº 7.210 de 1984, prevê a separação dos estabelecimentos prisionais masculinos dos femininos, atentando-se, ainda que formalmente, às particularidades de gênero. Entretanto, o que se observa na prática, conforme resultados do INFOPEN Mulheres de 2018, é que 74% das unidades prisionais brasileiras se destinam aos homens, apenas 7% são privativas do público feminino e 16% são mistas, ou seja, estabelecimentos originalmente masculinos que contam com anexos/celas destinadas às mulheres6.. Gráfico 4. Destinação dos estabelecimentos penais de acordo com o gênero.. Fonte: Levantamento de Informações Penitenciárias – INFOPEN, Junho/2016.. 6. DEPEN. Relatório INFOPEN Mulheres, 2018, p. 22..
(29) 29 Essa é a primeira grande deficiência quanto à estrutura física destinada ao encarceramento feminino, uma vez que o número de unidades específicas para mulheres é insuficiente, ao ponto de se fazer necessária a adaptação de espaços nas unidades masculinas para suprir a crescente demanda por vagas. Ocorre que as poucas adaptações feitas nas estruturas desenhadas para o público masculino para que as mulheres possam ocupá-las não se traduzem em investimentos suficientes ao atendimento das particularidades dessa população (como espaços de atenção à saúde da gestante e lactante, por exemplo), sendo apenas um grupo esquecido em anexos geográficos dos presídios masculinos, “tolhidas do direito de deslocarem-se livremente e manifestarem suas habilidades, poderes reservados ao homem, mesmo em situação de aprisionamento e em condições precárias, reforçando a ideia de manutenção das molduras sociais anteriores ao cárcere” (RODRIGUESb, 2017, p. 20). Assim, em razão da carência de olhares específicos para as mulheres egressas no sistema carcerário, a realidade prática também se encontra distante do cumprimento das disposições do artigo 5º, inciso L, da CRFB de 1988, que assegura às presidiárias condições para que possam permanecer durante o período de amamentação com seus filhos. A maternidade, que é um dos mais importantes papéis que a sociedade espera que a mulher despenhe, se revela como um verdadeiro desafio no ambiente carcerário, tendo em vista o baixo número de celas específicas para gestantes, berçários, creches e centros de referência materno-infantil nas unidades prisionais. O INFOPEN Mulheres de 2018 aponta que dos estabelecimentos prisionais femininos ou mistos apenas 16% contam com cela/dormitório adequado para gestantes7; 14% possuem berçários e/ou centros de referência materno-infantil, que abarcam os espaços para bebês com até dois anos de idade, oferecendo espaço para até 467 bebês8; e tão somente 3% declararam contar com creches para crianças acima de dois anos, com a capacidade total de receber até 72 crianças9, enquanto o número de gestantes e lactantes privadas de liberdade no Brasil chega ao total de 886 mulheres 10, o que. 7. DEPEN. Relatório INFOPEN Mulheres, 2018, p. 30. Idem, p. 32. 9 Idem, p. 33. 10 Idem, p. 31. 8.
(30) 30 cristaliza o altíssimo déficit na garantia dos direitos legalmente assegurados à mulher presa, especialmente aqueles previstos nos artigos 14, § 3º; 83, § 2º e 89 da LEP11. Algumas unidades do país, na tentativa de minimizar a supressão de direitos, encaminham as presas gestantes e também as mães de crianças pequenas que precisam de assistência para unidades que possuem estrutura para atendê-las. Todavia, a melhor intenção de transferi-las para outra penitenciária cai por terra, já que estas mulheres ficarão longe de seus familiares e pessoas próximas, figuras tão importantes na maternidade, já que se trata de um momento de fragilidades e aprendizados que tornam natural a necessidade de laços de apoio e afeto, gerando, portanto, outra restrição de garantias, como o direito a receber visita do cônjuge/companheiro(a), de parentes e de amigos. Ademais, frente à insuficiência de vagas e estruturas que supram as necessidades das mulheres e seus filhos, as crianças são, na maioria das vezes, afastadas de suas mães e direcionadas a abrigos ou entregues a familiares, sem que a vontade das genitoras seja levada em consideração na tomada de decisão. Desse modo, as mulheres são silenciadas em mais uma das práticas corriqueiras do sistema punitivo, colocando à prova até mesmo o princípio da intranscendência penal, previsto no artigo 5º, inciso XLV da Constituição Federal12, já que inúmeras crianças também são penalizadas quando afastadas do convívio de suas mães que padecem nas prisões brasileiras, sendo o distanciamento familiar e afetivo muito prejudicial por acarretar na perda da referência materna pelos filhos de mães presas, visto que muitas vezes não há o referencial paterno, bem como a piora da situação financeira, tendo em vista que muitas são “chefe de família”, sendo a preocupação com a manutenção e cuidado com os filhos uma das principais causas de agravamento do sofrimento das mulheres presas. (MARTINS, 2016, p. 55).. Não suficiente tudo que foi dito até agora, frisa-se a recente inclusão do parágrafo único ao artigo 192 do Código de Processo Penal por meio da Lei nº 13.434, sancionada em abril de 2017. O dispositivo em comento vedou o uso de algemas em 11. Art 14, §3º - Será assegurado acompanhamento médico à mulher, principalmente no pré-natal e no pósparto, extensivo ao recém-nascido. (Incluído pela Lei nº 11.942, de 2009). Art. 83, § 2o - Os estabelecimentos penais destinados a mulheres serão dotados de berçário, onde as condenadas possam cuidar de seus filhos, inclusive amamentá-los, no mínimo, até 6 (seis) meses de idade. (Redação dada pela Lei nº 11.942, de 2009). Art. 89. Além dos requisitos referidos no art. 88, a penitenciária de mulheres será dotada de seção para gestante e parturiente e de creche para abrigar crianças maiores de 6 (seis) meses e menores de 7 (sete) anos, com a finalidade de assistir a criança desamparada cuja responsável estiver presa. (Redação dada pela Lei nº 11.942, de 2009). 12 Art5º, XLV - nenhuma pena passará da pessoa do condenado, podendo a obrigação de reparar o dano e a decretação do perdimento de bens ser, nos termos da lei, estendidas aos sucessores e contra eles executadas, até o limite do valor do patrimônio transferido;.
(31) 31 mulheres grávidas durante os atos médico-hospitalares preparatórios para a realização do parto e durante o trabalho de parto, bem como em mulheres durante o período de puerpério imediato. Logo, faz-se a interpretação de que ocorria essa prática nos estabelecimentos prisionais femininos, informação já revelada anteriormente pela pesquisa coordenada por Luciana Boiteux e Maíra Fernandes no ano de 201513, a despeito de haver proibição desta conduta, inclusive no âmbito internacional, em razão do Brasil ser signatário das Regras de Bankok (2010), que direcionam o tratamento de mulheres presas e aplicação de medidas não privativas de liberdade para mulheres infratoras sempre à luz dos princípios da razoabilidade e dignidade da pessoa humana. No que toca ao direito de receber visitas, seja do cônjuge/companheiro(a), de parentes e/ou de amigos, que está positivado no artigo 41, inciso X, da LEP, é possível detectar mais falhas estruturais no sistema prisional, pois entre as unidades prisionais constata-se que 49% das unidades exclusivamente femininas contam com espaço para o recebimento de visitas, e, no caso dos presídios mistos, apenas 33% possuem infraestrutura adequada ao exercício desse direito. Nos estabelecimentos destinados a acolher apenas homens, a média nacional é de que 34% contem com esse espaço14. Adentrando mais especificamente no direito à visita íntima, ou seja, direitos sexuais e reprodutivos, identifica-se mais um ponto de assimetria me tratamento dado às pessoas encarceradas sob a perspectiva de gênero, tendo em vista a ausência de legislação expressa que regulamente a visita íntima às detentas. Mesmo que a LEP não retire esse direito das mulheres, a efetivação é realizada de modo distinto para elas e para os homens em razão do seu texto demasiadamente vago, que acaba por conceder aos agentes estatais discricionariedades inadequadas ao princípio da igualdade previsto no artigo 5º, inciso I da Magna Carta15. Diante da omissão do legislador, o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP) editou, em 1999, a Resolução nº 01, recomendando aos estabelecimentos prisionais que fosse assegurado o direito à visita íntima aos presos de ambos os sexos. Todavia a mesma foi revogada pela Resolução nº 417 de 2001, que 13. Boiteux e Fernandes (Coord.) 2015. Mulheres e crianças encarceradas: um estudo jurídico-social sobre a experiência da maternidade no sistema prisional do Rio de Janeiro. Disponível em: http://migre.me/vlA6W. Acesso em: 15 abril 2018. 14 DEPEN. Relatório INFOPEN Mulheres, 2018, p. 24. 15 Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição; [...].
(32) 32 estendeu o direito à visita íntima às pessoas presas casadas entre si, em união estável ou em relação homoafetiva, contemplando assim a população LGBTTI (lésbicas, gays,. bissexuais, transgêneros, travestis e intersexuais). Mas, como recomendações não têm força de lei, a ausência desta última acaba acarretando na arbitrariedade dos diretores das unidades e na burocratização ao acesso, que muitas vezes desestimula tanto a vida sexual da mulher como a lutar pela concessão de tal direito, temendo o julgamento que sofrerão em razão da manifestação do desejo, tendo em vista a predominância da educação patriarcal enraizada tanto nos funcionários como nas próprias colegas. (RODRIGUESb, 2017, p. 21).. Outrossim, extrai-se do INFOPEN Mulheres de 2018, que as mulheres recebem menos visitas que os homens, posto que foram realizadas, em média 7,8 visitas por pessoa privada de liberdade ao longo do primeiro semestre de 2016 nos estabelecimentos masculinos, enquanto que esse valor cai para 5,9 nas unidades femininas e mistas16. Essa informação traz à tona que as mulheres estão mais suscetíveis do que os homens ao abandono familiar quando estão presas, encontrando dificuldades na manutenção dos laços afetivos externos ao cárcere, o que torna a permanência nesse ambiente mais triste e solitária. Por outro lado, os homens presos não costumam perder a atenção de seus familiares, principalmente das figuras femininas como esposa, companheira, namorada, mãe, irmã, filha, tia, etc; que “ficam horas em filas e enfrentam revistas vexatórias para visitá-los, e uma das razões que explicam isso é a assimilação de que é papel da mulher cuidar e manter a família unida” (MARTINS, 2016, p. 55). No tocante ao ensino profissional dentro das estruturas destinadas ao cumprimento de pena, a própria LEP traz, no artigo 19, que este será ministrado em nível de iniciação ou de aperfeiçoamento técnico, acrescendo, no parágrafo único, que a mulher condenada terá ensino profissional adequado à sua condição. Com isso, questiona-se o que é considerado um ensino adequado conforme a condição mulher, bem como qual seria a sua condição, constatando-se que certas disposições legislativas fazem, abertamente, distinções de tratamento a partir do gênero da pessoa apenada, dando a entender que certas profissões não são para mulheres. Segundo Castilho (2007), tal maneira de escrita da legislação clarifica a desigualdade material vivenciada pelas mulheres, estejam elas encarceradas ou não.. 16. DEPEN. Relatório INFOPEN Mulheres, 2018, p. 28..
Documentos relacionados
Todo ser humano é único e, por isso, toda sala de aula é um berço de diversidade. O que os sistemas educacionais fizeram ao longo dos tempos foi homogeneizar o sistema educacional
O mar profundo é uma vasta região que recobre aproximadamente 70% da superfície da terra, sendo considerado ainda uma vastidão a ser explorada e estudada pelo homem. A coleção
Compreender a importância do domínio das técnicas da escrita para a produção de uma informação de qualidade e saber aplica-las às especificidades dos diferentes géneros
Em seu último levantamento, o Departamento Penitenciário Nacional, por meio da publicação do INFOPEN (Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias) em junho de 2014,
Este trabalho se justifica pelo fato de possíveis aportes de mercúrio oriundos desses materiais particulados utilizados no tratamento de água, resultando no lodo
Produtos conservantes igualmente não são utilizados para prolongar a durabilidade das folhagens de corte nas lojas pesquisadas (Figura 5).. Apenas uma empresa costuma fazer uso
Aperte Program select até que a tela de tempo mostre P2 depois aperte Enter.. Selecione a frequência cardíaca máxima %: A tela de tempo mostra
A figura 5 demonstra o fato de que a fase lí- quida ganha energia ao longo do tubo indutor, ao passar do ponto 4 para o ponto 5 na subida, con- forme se observa