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_ Que aconteceu, querido? - perguntou ela preocupada.

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Academic year: 2021

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Acordei assustado e olhei à minha volta. Estava tudo escuro, como sempre está quando durmo. Acendi o abajur ao lado da minha cama e pude então olhar todos os detalhes do quarto. Eu estava todo suado e meu coração batia aceleradamente.

Minha querida esposa dormia tranqüilamente e tudo ao meu redor estava tranqüilo, sem nenhuma anormalidade. Acabara de ter um pesadelo - pelo menos acho que era um - pois havia sonhado com coisas estranhas que não sabia decifrar do que se tratavam.

Levantei e fui até o quarto da minha única filha, de quatro anos, o maior tesouro da minha vida. Chama-se Luana e também dormia como um anjo.

Fiquei mais calmo, pois percebi que não passava realmente de um pesadelo. Então, fui até a cozinha e tomei um copo de água gelada. Olhei no relógio, que marcava quatro horas da manhã. Dali a pouco eu teria que me arrumar para o trabalho, pois sempre me levantava às cinco.

Voltei para o quarto e tentei pegar no sono, mas o tempo foi passando e o pensamento sobre o sonho não me deixava dormir, até que, de repente, ouvi o som do despertador. Amália, minha esposa, acordou e estranhou ao ver que eu estava acordado, pois era sempre ela quem desligava o despertador e me chamava docemente com beijos e carícias.

_ Que aconteceu, querido? - perguntou ela preocupada.

_ Nada, meu bem. Pode ficar tranqüila. Apenas tive um pesadelo agora a pouco e não consegui mais dormir, mas já está tudo bem.

_ Quer me contar o que sonhou?

_ Nem eu sei direito, mas foi um sonho muito estranho. É melhor deixar isso pra lá, já passou. Vou levantar e tomar um banho.

_ Não quer ficar mais cinco minutinhos aqui comigo, amor? - perguntou ela com aquele sorriso malicioso que não pude resistir.

Ficamos na cama mais uns dez minutos, que me fizeram praticamente esquecer o pesadelo. Levantamos e enquanto eu tomava um banho, Amália preparava meu café da manhã, como acontecia todos os dias - menos aos domingos e feriados, quando acordávamos mais tarde, e então eu fazia o café.

Eu saía às seis da manhã para o trabalho e só voltava à tarde para o jantar. Amália não trabalhava fora. Cuidava da casa e da nossa filha, que estudava no período da manhã em uma escola bem próxima de nossa casa. Sempre que eu saía para trabalhar, Luana ainda ficava dormindo, pois só ia pra escola às sete horas.

Éramos uma família feliz. Amália e eu nos amávamos muito e no próximo mês de dezembro completaríamos seis anos de casados.

Eu sou Ubaldo da Silva. Nasci na cidade de São Paulo em um bairro chamado Água Funda, onde ainda moram meus pais e meus dois irmãos. Ao contrário do que muita gente faz - deixam a cidade pequena para tentar a vida em uma cidade grande - eu deixei São Paulo pra vir trabalhar aqui em Salto com meu tio Durval, que tem uma imobiliária, onde trabalho como corretor de imóveis.

Não sou rico, mas ganho o razoável para manter minha família sem muito luxo, porém, sem faltar o necessário para viver tranqüilamente como uma família de classe

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média. Nossa casa é pequena e bem confortável, e moramos em um bairro de Salto chamado Jardim das Nações.

Tenho vinte e nove anos, e minha esposa, vinte e cinco. Ela é mineira e veio para Salto ainda criança, trazida pela família, que veio morar e trabalhar aqui.

Amália já e órfã de pai e mãe. Tem apenas um irmão, que já voltou para Minas. Uma vez por ano visitamos o irmão dela e, às vezes, ele vem nos visitar.

Todos os meses, nós visitamos meus pais em São Paulo. Assim vamos levando nossa vida simples, mas cheia de alegria, esperança, amor, sonhos, ideais etc. Queremos ver nossa filha crescida e formada em alguma profissão que ela goste e que seja feliz.

Sempre me vejo como uma pessoa comum, sem grandes talentos ou habilidades para grandes realizações. Não tenho ambição de ganhar muito dinheiro e nem querer ser herói ou transformar o mundo. Enfim, sou aquele homem que quer apenas paz, amor, honestidade e trabalho.

Nunca poderia imaginar que estava predestinado a realizar algo tão grande e importante e que estava para acontecer em minha vida. E tudo começou com aquele sonho que tive esta madrugada.

Durante o dia pensei várias vezes no sonho - ou pesadelo, tentando decifrar alguma coisa que pudesse entender, mas era impossível. Foi um dia cheio de visitas a casas que estavam à venda. Inclusive uma delas eu consegui vender e ganhei uma boa comissão.

Minha profissão é assim: tem dias em que se ganha um bom dinheiro, e há outros em que não se ganha nada. Tudo depende das vendas que eu consiga efetuar durante o dia.

Eu sempre almoço com meu tio Durval em um restaurante no centro de Salto. _ E então Ubaldo, vamos almoçar? - perguntou meu tio.

_ Sim, vamos, tio. Espera só eu terminar de juntar os últimos documentos pra levar ao cartório à tarde e fazer a escritura dessa casa que eu acabei de vender.

_ Fez um bom negócio hoje, Ubaldo! - disse ele, animado com a minha venda. _ É tio, estava precisando mesmo, pois este mês ainda não havia vendido nada. _ Como estão a esposa e a Luana?

_ Estão bem, graças a Deus. Semana que vem acho que vamos viajar pra Minas Gerais, pra visitar o irmão dela, mas será rapidinho. Vamos no sábado depois do almoço e voltamos no domingo à noite. Fique tranqüilo que não pretendo perder dia de serviço.

_ Eu sei, meu filho. Você é um ótimo profissional. Não é de faltar sem motivo justo. Estou feliz com você trabalhando aqui comigo - disse isto colocando a mão em meu ombro, como um abraço carinhoso.

Senti vontade de comentar com ele sobre o sonho, mas resolvi deixar para lá, afinal, eu já estava querendo envolver muita gente num simples pesadelo, que todas as pessoas têm de vez em quando.

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_ O que foi tio?

_ Lembra aquele loteamento que estava pra ser aprovado? _ Aquele da região noroeste da cidade?

_ Sim, esse mesmo. Acabou de ser assinado o alvará de liberação para vendas. _ Que bela notícia, tio! Já podemos começar a oferecer? - perguntei ansioso. _ Calma! Ainda será feita uma concorrência entre as imobiliárias aqui de Salto pra ver quem terá o direito de vender os terrenos.

_ E qual é a nossa chance?

_ Não sei ainda. Precisamos apresentar uma proposta de comissão. A mais baixa ganhará o direito de comercializar o loteamento.

_ Tenho certeza de que o senhor saberá como ganhar essa concorrência.

_ Vamos tentar, Ubaldo, vamos tentar - disse rindo satisfeito com minha confiança.

No fim do dia voltei para casa como sempre, com saudades das minhas duas princesas, Amália e Luana.

Elas sempre me esperavam no portão e quando Luana me via, largava a mão da mãe e corria ao meu encontro com os bracinhos abertos. Era a maior recompensa que eu tinha depois de um longo e cansativo dia de trabalho. Depois de beijar Amália, entrávamos e ficávamos conversando enquanto ela preparava o jantar. Ela queria saber como havia sido o meu dia no trabalho, e eu queria saber como as duas tinham passado o dia em casa. Luana sempre pegava algumas bonecas e trazia para me mostrar e contar o que cada uma de suas “filhas” havia feito durante o dia. Eu fazia uma cara de admirado com o que ela contava e ela ria feliz. Como é maravilhoso o mundo das crianças! Se os adultos procurassem ser um pouco como as crianças, o mundo seria bem melhor.

Jantamos em paz e sempre conversando sobre diversos assuntos. Contei que havia feito um bom negócio na imobiliária e Amália ficou feliz por saber que mais uma vez teríamos condições de passar o mês sem apertos financeiros. Depois do jantar ela lembrou-se de um fato interessante que ainda não havia me contado.

_ Querido, lembrei-me de uma coisa - disse ela andando em direção a estante da sala.

_ O que foi querida?

_ Olha o que eu encontrei hoje no quintal de casa, um pouco antes do almoço - e mostrou-me um objeto estranho, que pegou da estante, onde havia guardado.

Parecia uma caneta, toda prateada, mas não havia ponta, nem tampa, nada. Apenas um objeto na forma de um pequeno canudo de metal prateado, sem nenhum

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orifício e com as extremidades arredondadas. Não havia botões, sinais de roscas, nada que indicasse uma abertura ou alguma função. No mesmo instante, enquanto eu observava aquele estranho objeto, comecei a ficar pálido e com ar de espanto.

_ O que foi querido? Está sentindo alguma coisa? Você está pálido, com os olhos arregalados!

_ Meu Deus! Amália, me arruma um copo de água! - disse isto e sentei no sofá com o objeto na mão. Estava me lembrando do pesadelo.

_ Tome a Água querido e diga o que aconteceu.

Depois de tomar toda a água e ficar um pouco pensativo, olhei para Amália e comecei a contar o pesadelo que tivera.

_ Querida, lembra-se do pesadelo que tive esta manhã, um pouco antes de acordarmos?

_ Sim, lembro. Você não quis comentar nada. Mas o que este objeto tem a ver com o sonho?

_ Foi assim: eu sonhei que de repente, em nosso quarto, eu via entrar vários homens, aparentemente normais, mas não conheci nenhum deles. E cada um deles usava uma espécie de farolete ou lanterna na mão. Essa lanterna tinha uma luz verde, brilhante, bem forte, que chegava a ofuscar a visão. E este objeto é exatamente igual às lanternas que eu vi nas mãos daqueles homens.

_ Você tem certeza, querido? Às vezes o sonho nos faz confundir as imagens que vemos.

_ Tenho certeza sim, pois quando perceberam que eu estava olhando para eles, fizeram um sinal entre eles e começaram a apagar as lanternas, mas antes que a última se apagasse, deu pra ver nitidamente que a lanterna apagada tinha este formato.

_ Meu Deus! Querido, o que acha disso? - perguntou Amália assustada e admirada.

_ Não sei o que dizer. Será que não foi sonho? Será que entrou alguém aqui esta noite e quando viram que eu acordei foram embora?! - agora eu estava apavorado.

_ Mas não há sinal algum na casa, nem arrombamento, nem pisadas. Está tudo como a gente sempre deixa.

_ Então, como isto apareceu em nosso quintal, exatamente algumas horas depois que eu sonhei com pessoas que portavam lanternas iguais a este objeto?

_ Isso é muito estranho, querido. Que pensa em fazer?

_ Não sei. Seria bom levarmos isto a polícia? Quem sabe eles podem reconhecer e descobrir de quem é.

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_ É uma idéia. Mas quem poderia ter entrado em casa, em nosso quarto? Estou com medo! - disse ela segurando forte minha mão.

_ Não tenha medo, pois amanhã mesmo vou investigar isso.

E então nos beijamos e fomos dormir. Luana não havia percebido nada. Estava brincando com suas bonecas e foi dormir também, na hora em que nós fomos.

Demorei a dormir. Meus pensamentos giravam em torno daquele misterioso objeto. Que seria aquilo? Por que estava em nosso quintal? Por que era igual às lanternas que havia visto no sonho? Depois de muito pensar peguei no sono. E, graças a Deus, não sonhei com nada.

Referências

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