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'A folga que eu achei que ia ter, não existe!'

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Academic year: 2021

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(1)UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA FABIANE ARAUJO CHAVES. “A FOLGA QUE EU ACHEI QUE IA TER, NÃO EXISTE!”: UM ESTUDO SOBRE TELETRABALHADORAS NO DOMICÍLIO. Palhoça 2009.

(2) 1. UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA FABIANE ARAUJO CHAVES. “A FOLGA QUE EU ACHEI QUE IA TER, NÃO EXISTE!”: UM ESTUDO SOBRE TELETRABALHADORAS NO DOMICÍLIO. Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de graduação em Psicologia, da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial à obtenção do título de Psicólogo.. Orientador: Prof. Vanderlei Brasil, Esp.. Palhoça 2009.

(3) 2. FABIANE ARAUJO CHAVES. “A FOLGA QUE EU ACHEI QUE IA TER, NÃO EXISTE!”: UM ESTUDO SOBRE TELETRABALHADORAS NO DOMICÍLIO Este Trabalho de Conclusão de Curso foi julgado adequado à obtenção do título de Bacharel em Psicologia e aprovado em sua forma final pelo Curso de Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina.. Palhoça, 23 de junho de 2009.. _________________________________________ Prof. e Orientador Esp. Vanderlei Brasil Universidade do Sul de Santa Catarina _________________________________________ Prof. Msc. Regina Ingrid Bragagnolo Universidade do Sul de Santa Catarina _________________________________________ Prof. Msc. Simone Vieira de Souza Universidade do Sul de Santa Catarina.

(4) 3. AGRADECIMENTOS. Parece que foi ontem... O vestibular como a primeira etapa da concretização do meu objetivo. O início da minha busca pela independência e pela minha formação profissional... Gostaria de agradecer às pessoas que fizeram parte desta minha trajetória... Meu agradecimento especial é para os meus pais. Por respeitarem minhas escolhas, compreenderem minha busca pela independência e por uma formação profissional de qualidade. Por acreditarem em mim e “abrirem mão” de algumas vontades pessoais para poder me proporcionar educação e uma boa vida. Também agradeço ao Rafa, meu companheiro nesta busca constante. Por estar sempre ao meu lado, me incentivando e comemorando comigo minhas conquistas. Pela compreensão nos momentos de ausência e atenção nos momentos de angústias. Meu agradecimento também vai para todas aquelas pessoas que transformaram esta trajetória em mais leve, seja com um sorriso, com um abraço, conversas, incentivo, enfim, partilharam comigo meu dia-a-dia nestes longos anos de universidade. As amizades conquistadas ao longo deste período foram fundamentais para que eu seguisse em frente. Bethy, Gio, Jô e Paula, amizades conquistadas na ULBRA e que permanecem até hoje. Kátia, agradeço os incentivos constantes e tardes de bate papo na clínica de Psicologia. Dani F., Dani G., Lê e Mari, amigonas que conquistei em Santa Catarina, nossos momentos juntas nunca serão esquecidos. Luciane, Marinês, Débora, Gilvana, pelas longas conversas, incentivos e compreensão nos momentos de angústia. Kati e Rô, amigas especiais e parceiras nesta reta final, companheiras de TCC, nossas conversas pessoalmente e pelo msn me ajudaram a encerrar este ciclo. Alguns profissionais também contribuíram muito com a minha formação e me oportunizaram possibilidades de colocar em prática meus conhecimentos: Jacqueline, Ilma, Nádia, Alessandra, Iúri e Juliane. Ao professor Flávio Costa, pelo auxílio na primeira etapa deste trabalho. Um agradecimento especial ao professor Vanderlei Brasil, pela sua tranqüilidade nas orientações e pelos ensinamentos compartilhados ao longo da construção deste trabalho. Agradeço às professoras Regina Bragagnolo e Simone de Souza, por compartilharem comigo este momento. Admiro vocês, mulheres trabalhadoras. Agradeço também às participantes desta pesquisa. Obrigado pela confiança em me contarem um pouco de suas vidas, vocês contribuíram para que este trabalho se tornasse possível..

(5) 4. [...] E aí eu pensei, ah, coordenadora, perfeito né. Vou trabalhar dentro de casa, vou poder controlar meu filho [...] não que eu não faça tudo isso, eu faço. Mas toda a folga que eu achei que ia ter, não existe! É uma correria, é uma loucura, mas deu certo, [...]. Tudo que eu tenho na minha casa é meu! Tá pago, eu comprei, né, e tô me mantendo. (Flor).

(6) 5. RESUMO. O trabalho realizado por mulheres em âmbito mundial vem crescendo nos últimos anos, além disso, o final do século XX se caracteriza como transformador no que se refere ao surgimento de novas tecnologias de comunicação e informação (TICs). Nesse contexto, o teletrabalho no domicílio surge como uma possibilidade para a realização de determinados trabalhos, sendo possível trabalhar na própria residência, utilizando-se de equipamentos tecnológicos, tais como: computador em rede e telefone celular, tendo vínculo empregatício com a empresa de origem. Esta pesquisa sobre teletrabalho no domicílio teve como principal objetivo compreender as relações entre a identidade profissional de mulheres teletrabalhadoras no domicílio com os outros papéis sociais que desempenham. Para tanto, dialoga-se principalmente com referenciais sobre a perspectiva do teletrabalho e de gênero. O método utilizado nesta pesquisa foi estudo de caso. Como critérios de escolha das participantes definiu-se que seriam mulheres, que realizam teletrabalho no domicílio, são casadas e/ou tem filho(s). Foram entrevistadas duas teletrabalhadoras no domicílio, ambas desenvolvem seu trabalho como coordenadoras de vendas e grande parte deste é realizado em sua própria residência. O instrumento de coleta de dados utilizado foi a entrevista com base em um roteiro semi-estruturado, com questões referentes à trajetória profissional, teletrabalho, papéis sociais, vida pessoal e identidade profissional. A partir da transcrição das entrevistas foram estabelecidas categorias de análises a posteriori, e o material foi analisado com base na análise de conteúdo. A pesquisa apresenta como resultados, que ambas as mulheres escolheram realizar teletrabalho no domicílio para poder conciliar o papel social de mãe e de trabalhadora em um mesmo ambiente, além de terem uma garantia de renda proveniente do contrato de trabalho. No entanto, o papel social de trabalhadora se sobrepõe ao papel social de mãe, pois dedicam mais tempo ao trabalho do que à família. O papel social de esposa é desempenhado por uma teletrabalhadora, a outra participante é solteira, e considera não ter tempo devido ao trabalho, para se dedicar à este papel. Apesar de trabalharem em casa, a cobrança por parte da empresa é percebida em ambos os casos, sendo realizada de forma freqüente. O horário flexível de trabalho também foi destaque, pois as teletrabalhadoras costumam trabalhar mais horas semanais do que o previsto em seu contrato de trabalho. Uma das teletrabalhadoras não se identifica com o trabalho que realiza, pensa em seu trabalho como um outro qualquer, a outra relata não se imaginar trabalhando em outra profissão. Podese concluir que ao escolher realizar este tipo de trabalho, há um desconhecimento em relação.

(7) 6. às decorrências deste. Na prática, o que pode ser verificado foi o acúmulo de atividades profissionais, o excedimento do tempo de trabalho e uma menor dedicação ao convívio familiar. Entretanto, apesar de apresentar aspectos contraditórios, estas mulheres tendem a perceber o lado positivo do trabalho que fazem, não priorizando os aspectos negativos, devido aos seus objetivos enquanto teletrabalhadoras. Palavras-chave: Teletrabalho. Trabalho feminino. Identidade profissional..

(8) 7. LISTA DE TABELAS. Tabela 1 – Carga diária de trabalho dos teletrabalhadores e trabalhadores tradicionais na empresa Lux atacadista ................................................................................................. 37. Tabela 2 – Relacionamento  sociedade e família .......................................................... 38. Tabela 3 – Caracterização das participantes da pesquisa .................................................. 51. Tabela 4 - Trajetória profissional da Maitê ....................................................................... 58. Tabela 5 – Escolha de Maitê pelo teletrabalho .................................................................. 60. Tabela 6 – Atividades de trabalho realizadas por Maitê .................................................... 64. Tabela 7 – Contrato de trabalho da Maitê .......................................................................... 75. Tabela 8 – Equipamentos de trabalho que Maitê utiliza .................................................... 78. Tabela 9 – Teletrabalho no domicílio, para Maitê ............................................................. 82. Tabela 10 – Horário de trabalho da Maitê ......................................................................... 87. Tabela 11 – Relacionamento interpessoal da Maitê .......................................................... 91. Tabela 12 – Identidade profissional da Maitê .................................................................... 95. Tabela 13 – Vida pessoal da Maitê .................................................................................... 100. Tabela 14 – Trajetória profissional da Flor ....................................................................... 108. Tabela 15 – Escolha de Flor pelo teletrabalho ................................................................... 111. Tabela 16 – Atividades de trabalho realizadas por Flor .................................................... 114. Tabela 17 – Contrato de trabalho da Flor .......................................................................... 117. Tabela 18 – Equipamentos de trabalho que Flor utiliza .................................................... 119. Tabela 19 – Teletrabalho no domicílio, para Flor ............................................................. 122. Tabela 20 – Horário de trabalho da Flor ............................................................................ 126. Tabela 21 – Relacionamento interpessoal da Flor ............................................................. 130. Tabela 22 – Identidade profissional da Flor ...................................................................... 135. Tabela 23 – Vida pessoal da Flor ....................................................................................... 137.

(9) 8. SUMÁRIO. 1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................. 10. 1.1 PROBLEMÁTICA ...................................................................................................... 10. 1.2 OBJETIVOS ................................................................................................................ 14. 1.2.1 Objetivo geral .......................................................................................................... 14. 1.2.2 Objetivos específicos ............................................................................................... 14. 1.3 JUSTIFICATIVA ........................................................................................................ 15. 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ............................................................................... 21. 2.1 CONTEXTUALIZAÇÃO DO TRABALHO .............................................................. 21. 2.1.1 Entendendo o processo de trabalho ...................................................................... 22. 2.1.2 Do trabalho ao teletrabalho ................................................................................... 27. 2.2 UM TRABALHO SEM FRONTEIRAS ..................................................................... 30. 2.2.1 Eliminando fronteiras ............................................................................................. 31. 2.2.2 Um trabalho em qualquer hora e a qualquer lugar ............................................ 33. 2.2.3 Saindo do escritório: teletrabalho no domicílio ................................................... 35. 2.3 CONDIÇÃO FEMININA ............................................................................................ 39. 2.3.1 Trabalhando em casa: mulher e trabalho doméstico .......................................... 39. 2.3.2 Saindo para trabalhar: mulher e trabalho remunerado ..................................... 42. 2.3.3 Retornando ao lar: trabalho no domicílio ............................................................ 44. 2.3.4 Tornando-se trabalhadora: a construção da identidade profissional ................ 47. 3MÉTODO ....................................................................................................................... 50. 3.1 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA ...................................................................... 50. 3.1.1 Quanto aos objetivos ............................................................................................... 50. 3.1.2 Quanto ao delineamento ......................................................................................... 50. 3.2 PARTICIPANTES ....................................................................................................... 51. 3.3 EQUIPAMENTOS E MATERIAIS ............................................................................ 52. 3.4 SITUAÇÃO E AMBIENTE ........................................................................................ 52. 3.5 INSTRUMENTO DE COLETA DE DADOS ............................................................. 52. 3.6 PROCEDIMENTOS .................................................................................................... 53. 3.6.1 Procedimento de seleção dos participantes .......................................................... 53. 3.6.2 Procedimento de contato com os participantes .................................................... 53.

(10) 9. 3.6.3 Procedimento de coleta dos dados e registro das informações ........................... 54. 3.6.4 Procedimento para organização, tratamento e análise dos dados ...................... 54. 4 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS ......................................................... 56. 4.1 MAITÊ ......................................................................................................................... 56. 4.1.1 Trajetória profissional ............................................................................................ 57. 4.1.2 Escolha pelo teletrabalho ....................................................................................... 59. 4.1.3 Atividades de trabalho ............................................................................................ 63. 4.1.4 Contrato de trabalho .............................................................................................. 74. 4.1.5 Equipamentos de trabalho ..................................................................................... 77. 4.1.6 Teletrabalho no domicílio ...................................................................................... 82. 4.1.7 Horário de trabalho ................................................................................................ 86. 4.1.8 Relacionamento interpessoal ................................................................................. 90. 4.1.9 Identidade profissional ........................................................................................... 94. 4.1.10 Vida pessoal ........................................................................................................... 100. 4.2 FLOR ........................................................................................................................... 107. 4.2.1 Trajetória profissional ............................................................................................ 108. 4.2.2 Escolha pelo teletrabalho ....................................................................................... 110. 4.2.3 Atividades de trabalho ............................................................................................ 113. 4.2.4 Contrato de trabalho .............................................................................................. 116. 4.2.5 Equipamentos de trabalho ..................................................................................... 119. 4.2.6 Teletrabalho no domicílio ...................................................................................... 121. 4.2.7 Horário de trabalho ................................................................................................ 125. 4.2.8 Relacionamento interpessoal ................................................................................. 130. 4.2.9 Identidade profissional ........................................................................................... 134. 4.2.10 Vida pessoal ........................................................................................................... 137. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................................... 143. REFERÊNCIAS ............................................................................................................... 149. APÊNDICES .................................................................................................................... 152. APÊNDICE A – INSTRUMENTO DE COLETA DE DADOS .................................. 153. APÊNDICE B – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE ESCLARECIDO ........ 158.

(11) 10. 1 INTRODUÇÃO. Esta pesquisa apresenta-se como Trabalho de Conclusão de Curso realizado durante o último ano do Curso de Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina, UNISUL. Tem como principal objetivo compreender as relações entre a identidade profissional de mulheres teletrabalhadoras no domicílio com os outros papéis sociais que desempenham, e está articulada ao Estágio Específico obrigatório do Núcleo Orientado Psicologia e Trabalho Humano, no programa de estágio de Identidade Profissional. Neste projeto discutimos aspectos relacionados ao trabalho, o qual possibilitou a escolha deste tema de pesquisa. Para que a compreensão sobre o teletrabalho no domicílio realizado por mulheres seja possível, este trabalho está dividido da seguinte maneira: Capítulo 1) apresentação da problemática, objetivos geral e específicos e justificativa da pesquisa; capítulo 2) fundamentação teórica no qual a análise dos dados se baseia, apresentando questões referentes ao trabalho, teletrabalho, teletrabalho no domicílio e mulher no mercado de trabalho; capítulo 3) método utilizado na realização da pesquisa; capítulo 4) apresentação e análise dos resultados obtidos na pesquisa, e por fim, capítulo 5) considerações finais da pesquisa, respondendo ao objetivo geral proposto por esta.. 1.1. PROBLEMÁTICA. O trabalho realizado por mulheres em âmbito mundial vem crescendo nos últimos anos. A consolidação do sistema capitalista ocorrida no século XIX fez com que ocorressem modificações no modo de produção e organização do trabalho realizado por estas (PROBST, 2003). De acordo com a autora, o trabalho feminino da População Economicamente Ativa (PEA), em 1973, somava 30,9% em relação ao masculino, crescendo para 41,4% em 1999, quase que em igual quantidade à PEA de trabalhadores do sexo masculino. Além disso, “[...] a expectativa é de que neste século, pela primeira vez na história, as mulheres superem em número os homens nos postos de trabalho.” (PROBST, 2003, p. 6), demonstrando que é grande a inserção das mulheres no mercado de trabalho nos dias atuais..

(12) 11. O sentido atribuído ao trabalho pelas mulheres de camadas populares1 se diferencia do sentido atribuído por mulheres de camadas médias2. De acordo com a autora, nas camadas populares o trabalho feminino é realizado como uma forma de beneficiar as famílias (SARTI, 2003 apud ALMEIDA, 2007) com intenção de melhorar de vida, trabalham para ajudar no sustento familiar, e nas camadas médias o trabalho é visto como parte constituinte da identidade, com objetivo de satisfação pessoal, possibilitando status e crescimento individual (BIASOLI-ALVES, 2000 apud ALMEIDA, 2007). Apesar da grande inserção de mulheres de camadas média no mercado de trabalho, verifica-se que o trabalho doméstico permanece como sendo uma atividade realizada por elas. De acordo com Bruschini (1990 apud BRUSCHINI, 1990), elas costumam utilizar de sete a nove horas diárias na realização de tarefas domésticas, corroborando com o que Probst (2003) concluiu em sua pesquisa ao afirmar que “Hoje o perfil das mulheres é muito diferente daquele do começo do século. Além de trabalhar e ocupar cargos de responsabilidade assim como os homens, ela aglutina as tarefas tradicionais: ser mãe, esposa e dona de casa.” (p.7). As mulheres de camadas médias tiveram que se adequar às mudanças e com o passar dos anos perceberam como sendo cada vez mais necessário trabalhar para se satisfazer pessoalmente. Pelo fato do trabalho doméstico não ser valorizado, por não se caracterizar como atividade remunerada que gerasse renda, foi necessário ingressar no mercado de trabalho para se mostrarem úteis e ajudarem financeiramente no lar. Trabalhar fora, conforme Probst (2003, p. 07) “[...] é uma conquista relativamente recente das mulheres. Ganhar seu próprio dinheiro, ser independente e ainda ter competência reconhecida é motivo de orgulho para todas.” Desta forma, a inserção das mulheres no mercado de trabalho pode ser considerada como uma conquista, porém, deve-se atentar ao fato de que realizando trabalhos fora do lar a mulher acaba por acumular o trabalho formal ao trabalho doméstico. O fato de trabalhar fora não exclui as tarefas domésticas que realiza, reduzindo “[...] o tempo livre das mulheres, que adicionam o tempo econômico3 ao da reprodução social4.” (BRUSCHINI, 1990, p. 337). A autora afirma que as mulheres costumam utilizar 66% do tempo realizando atividades não remuneradas e somente 34% de seu tempo realizando atividades remuneradas, 1. Expressão utilizada por Almeida (2007). Expressão utilizada por Almeida (2007). 3 Cumpre esclarecer que tempo econômico foi descrito por Dedecca (2004) como sendo o tempo “[...] destinado ao trabalho remunerado e o gasto com deslocamento para sua realização” (p. 21). 4 Cabe explicitar que tempo da reprodução social, de acordo com Dedecca (2004) é o tempo “[...] incorpora, basicamente, as atividades de organização domiciliar, de lazer e de sono” (p. 21). 2.

(13) 12. mostrando que as mulheres costumam gastar quase o dobro do seu tempo realizando atividades não remuneradas, como o trabalho doméstico, por exemplo, do que realizando atividades que gerem renda. Além da maior inserção das mulheres no mercado de trabalho, o final do século XX se caracteriza como transformador também no que se refere ao surgimento de novas tecnologias de comunicação e informação (TICs). Amem (2006, p. 172) salienta que:. [...] temos hoje as informações em tempo real. Estamos vivendo numa era de transformações, uma era de interdependência global com a internacionalização da economia, [...]. Os recursos tecnológicos de comunicação e informação estão presentes na vida cotidiana dos cidadãos e não podem ser ignorados, embora sua difusão ocorra de forma desigual.. Nesse contexto de crescente aumento das TICs, cresce também as possibilidades de novas formas para a realização de determinados trabalhos. Jackson (1999 apud BOONEN, 2003, p. 115), confirma que “[...] o avanço dos sistemas de informação provoca mudanças no mundo do trabalho, permitindo conexões entre a organização e as pessoas, mesmo estando fora dos espaços organizacionais [...]”. Desta forma, o teletrabalho5 surge como uma possibilidade de trabalho em que é possível levar o trabalho aos trabalhadores por meio de equipamentos tecnológicos, como computadores em rede6 e telefone celular, em um ou mais dias da semana, ao invés de levar os funcionários ao trabalho, diminuindo tempo e gastos com deslocamento, pois o teletrabalho pode ser realizado na própria residência (NILLES, 1997). A oportunidade de trabalho que alia a tecnologia em favor do trabalhador permite que este mantenha o vínculo empregatício com a empresa em que trabalha e, no entanto, não precise sair de sua residência diariamente para trabalhar. Esta forma de trabalho foi descrita por Nilles (1997) como teletrabalho no domicílio. Sabendo que 54,04% da população da camada média pesquisada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGIB) (2007) afirmam possuir computador em sua residência, sendo que destes 31,12% com acesso à internet, e que 57% afirmam possuir telefone celular, pode-se dizer que devido às condições de possibilidade, o teletrabalho no domicílio está se 5. Termo derivado de telecommuting. De acordo com Nilles (1997), “As redes de telecomunicação são as rodovias do teletrabalho. Atualmente, há dois tipos básicos: redes locais (LANs) e redes de longa distância (WANs)” (p. 86). As redes de longa distância referem-se à tecnologias digitais que tem por objetivo a troca de mensagens, por meio de computador equipado por modem e linha telefônica. As redes locais dizem respeito à “[...] principal forma de telecomunicação em alta velocidade entre escritórios. [...] Elas permitem a comunicação entre micros a taxas de vários milhões de bits por segundo” (p. 88). 6.

(14) 13. tornando cada vez mais uma alternativa viável de trabalho para ser realizado também por mulheres de camadas médias, pois pressupõe-se que grande parte delas tem os recursos tecnológicos necessários para a realização deste tipo de trabalho. O teletrabalho realizado por mulheres de camadas médias pode ter o propósito de conciliar os outros papéis sociais que desempenham, como o papel de mãe, esposa, filha, com o papel de trabalhadora. No que se refere às mulheres teletrabalhadoras no domicílio, Oliveira (1996) salienta que há de se levar em consideração a possível confusão entre os demais papéis sociais que desempenhados por estas, o que não é tratado na literatura. Segundo Vendramin e Valenduc (1989 apud OLIVEIRA, 1996):. A idéia de que o trabalho no domicílio oferece às mulheres a possibilidade de conciliar suas responsabilidades familiares à uma atividade profissional pode não ser o que se constata na prática. Na realidade, o que existe é uma sobrecarga de trabalho causada pelo acúmulo das tarefas domésticas, do cuidado com os filhos e das atividades profissionais. (s.p.). As mulheres teletrabalhadoras possivelmente têm mais tempo para cuidarem de seus lares, filhos(as), companheiros ou pais, pelo fato de terem flexibilidade no que se refere aos horários de trabalho, podendo cumprir sua carga horária de trabalho da maneira que consideram conveniente. No entanto, Boonen (2003, p. 112) salienta que além de o indivíduo ter que se adequar ao novo modelo de trabalho, diferenciando espaço privado e espaço profissional, “A estrutura familiar é afetada pela instalação do teletrabalho. Não só o ambiente físico é alterado pelo uso do espaço doméstico para fins profissionais, como a apropriação do mesmo para fins divergentes: trabalho e/ou descanso.” Sobre este aspecto Salomon & Salomon (1984 apud PINTO, 2003, p. 21) alertam que:. [...] o fato de não ocorrer o deslocamento do trabalhador de casa para o local de trabalho pode não ser favorável para o indivíduo, pois o deslocamento entre trabalho e a casa apresenta-se psicologicamente salutar no trajeto, tem-se tempo para se desligar de uma situação (trabalho) e se concentrar em outra situação (casa), ou viceversa, correspondendo, portanto a uma quebra de possíveis tensões enfrentadas em um local ou em outro.. Sobre o teletrabalho no domicílio fala-se sobre uma série de vantagens, mas não leva em consideração as decorrências da realização deste trabalho para a vida pessoal e outros.

(15) 14. papéis sociais do indivíduo, principalmente em se tratando de mulheres teletrabalhadoras. Desta forma, algumas questões se fazem presentes, tais como: quais as reais vantagens da realização do teletrabalho no domicílio, segundo mulheres que realizam este tipo de trabalho? O que faz com que uma mulher realize o teletrabalho no domicílio? Quais as condições de trabalho da teletrabalhadora no domicílio? Como as mulheres que realizam teletrabalho no domicílio percebem sua identidade profissional? Percebem-se realizando um trabalho com menor valor? E como o teletrabalho no domicílio afeta os demais papéis sociais desempenhados por estas mulheres? Diante do exposto, faz-se necessário compreender as relações entre a identidade profissional de mulheres teletrabalhadoras no domicílio com os outros papéis sociais que desempenham.. 1.2. OBJETIVOS. 1.2.1 Objetivo geral. Compreender as relações entre a identidade profissional de mulheres teletrabalhadoras no domicílio com os outros papéis sociais que desempenham.. 1.2.2 Objetivos específicos. . Identificar a trajetória profissional das teletrabalhadoras no domicílio.. . Identificar os fatores que influenciaram as mulheres na realização do teletrabalho no. domicílio. . Identificar as condições de trabalho das teletrabalhadoras no domicílio.. . Caracterizar a identidade profissional das teletrabalhadoras no domicílio.. . Identificar a percepção das teletrabalhadoras no domicílio acerca dos outros papéis sociais. que desempenham..

(16) 15. 1.3. JUSTIFICATIVA. Estamos vivendo em uma época em que as tecnologias de informação e comunicação (TICs) evoluem rapidamente e o acesso a estas tem se tornado viável à população em geral. Em pesquisa sobre TICs no domicílio, o Comitê Gestor da Internet no Brasil (2007, p. 07) mostra que “Já somos 45 milhões de usuários na rede, quase 10 milhões a mais do que no ano passado.” Os dados obtidos demonstram que dos dezessete mil domicílios visitados em área urbana, 24% tinham um ou mais computadores sendo destes, 17% com acesso à internet e revelam que o acesso a computadores e à internet têm sido possível às pessoas de todas as camadas sociais. As camadas altas têm sido mais privilegiadas, devido a maior possibilidade de arcar com os custos destes recursos, no entanto, as camadas populares também têm tido acesso à esta tecnologia, seja através de computador em casa, ou por utilizar acesso à internet em locais públicos. Evidentemente ainda há muito trabalho para se implementar uma inclusão digital plena. Acessando a internet é possível ler jornais, escutar rádio, comprar aparelhos eletrônicos, livros, imóveis, realizar compras em supermercado além de poder se comunicar em tempo real com pessoas em qualquer lugar do mundo sem sair de casa. Desta forma tem sido cada vez menos necessário que as pessoas estejam em um mesmo ambiente para que determinadas atividades sejam realizadas. É possível realizar reuniões, cursos e palestras por meio de teleconferência, onde cada participante equipado de um computador em rede ou com acesso à internet poderá participar do evento em tempo real. Esta tecnologia tem diminuído as distâncias entre as pessoas, fazendo com que possam usufruir dos avanços tecnológicos sem sair do lugar, seja em casa, na rua ou no trabalho. No contexto organizacional o avanço tecnológico parece ter trazido benefícios tanto para as organizações quanto para os trabalhadores. Com a utilização das TICs não há necessidade de que o trabalhador esteja presente diariamente no local de trabalho. As transações, vendas e demais atividades podem ser realizadas de qualquer lugar, basta que o funcionário esteja munido de um computador com acesso à internet conectado com a rede da empresa para que possam ser enviadas tais informações à empresa de origem. Desta forma, em determinados casos o funcionário pode ter a oportunidade de escolher o local que gostaria de trabalhar, podendo ser o ambiente familiar o local escolhido para a realização de suas atividades profissionais..

(17) 16. As atividades profissionais que anteriormente tinham que ser realizadas em um ambiente de trabalho junto com os demais colegas, com a supervisão e orientação direta da chefia deixaram de ser fundamental diante do desenvolvimento tecnológico. Surge desta forma, o que Nilles (1997) chamou de teletrabalho, ou seja, a possibilidade de trabalhar em qualquer local fazendo uso de TICs, como por exemplo, computador em rede, telefone celular, correio eletrônico, linha telefônica, fax etc. Segundo Cruz (2001, p. 188), “No teletrabalho, a transmissão de dados substitui os meios de comunicação e o trabalhador consegue trabalhar em uma instituição ou empresa sem sair de casa.” Diante disto, alguns questionamentos faz-se necessário, dentre eles: como é a vida social de pessoas que realizam teletrabalho? Há um isolamento social pelo fato de trabalharem sozinhas? No caso de mulheres, como conciliam o trabalho com os outros papéis sociais que desempenham? E a identidade profissional de mulheres teletrabalhadoras, como se configura? Sendo o teletrabalho uma forma de trabalhar sem necessariamente o funcionário ter que ir até o escritório da empresa, há algumas maneiras em que ele pode teletrabalhar, seja deslocando-se até um escritório mais próximo de sua residência ou até mesmo sem sair da própria residência. Dentre os locais possíveis de realizar teletrabalho, tais como, escritório em casa, negócios em casa, centro satélite, escritório virtual, centro local etc., o escritório em casa (home office) na visão de Mello (1999, p. 06), “É um dos locais de trabalho mais comuns, particularmente nos Estados Unidos. Os Escritórios em Casa variam desde um computador e telefone na mesa da cozinha, a quarto com móveis e equipamentos adaptados ao exercício de atividades profissionais.” O trabalho quando realizado no domicílio mediante vínculo empregatício com a empresa foi chamado de teletrabalho no domicílio, que se diferencia do escritório em casa, onde o trabalhador pode trabalhar em sua residência sendo dono de seu próprio negócio. Trabalhar em casa tem sido cada vez mais desejado principalmente por mulheres, que podem aliar suas tarefas profissionais com as pessoais em um só ambiente. Conforme Mello (1999, p. 12), “De acordo com o Wall Street Journal, cada vez mais mulheres norteamericanas estão deixando empregos bem remunerados para trabalhar por conta própria, tocando negócios com renda menor, mas com mais tempo para a família, principalmente para os filhos.” No entanto, trabalhar em casa pode ser mais complicado do que parece se levarmos em consideração as conseqüências tanto para a saúde física quanto para a saúde mental dos trabalhadores, já que ao trabalharem em casa tem que conciliar família e trabalho em um mesmo ambiente. No caso de mulheres, podem acabar por se dedicarem mais aos filhos ou a.

(18) 17. casa, sobrando pouco tempo para o trabalho, tendo que trabalhar durante a noite para compensarem o tempo que não trabalharam durante o dia, sobrecarregando-se desta forma. Trabalhar em casa pode trazer benefícios ao trabalhador, como por exemplo, o horário flexível, no caso em que ele próprio poderá organizar seus horários de trabalho diário ou semanal conforme considerar conveniente. Entretanto, se este não souber administrar o tempo de trabalho com o tempo destinado à família e/ou lazer pode se sobrecarregar realizando tarefas profissionais na maior parte do tempo, restando pouco tempo para as questões pessoais ou vice-versa. Em pesquisas com teletrabalhadores de uma empresa atacadista distribuidora7, Boonen (2003) identificou que a quase totalidade dos teletrabalhadores pesquisados trabalham um número maior do que oito horas diárias (97,6%), sendo que 44% deles trabalham acima de treze horas diárias, o que não ocorre com os trabalhadores tradicionais8. De acordo com a pesquisa de Boonen (2003), nenhum trabalhador tradicional trabalha acima de treze horas diárias. Sobre este aspecto, o autor destaca que:. Os dados revelam um dos paradoxos do teletrabalho: a maior disponibilidade potencial para a conciliação família versus trabalho é afetada pela maior sobrecarga de trabalho, visto que os meios eletrônicos não distinguem “tempo de trabalho” e “tempo de lazer”, obrigando o profissional a acessar continuamente o fluxo de mensagens e informações que chegam à sua máquina e que obrigam a dar respostas quase que imediatas. (p. 116, grifo do autor). No caso das mulheres, como seria sua organização do tempo profissional e familiar trabalhando em média de treze horas diárias? A pesquisa realizada por Boonen (2003) não distinguiu em seus resultados informações referentes a teletrabalhadores e teletrabalhadoras, o que nos faz questionar como seria a organização de tempos entre trabalho e casa quando se trata de mulheres teletrabalhadoras. Caso a teletrabalhadora seja casada e/ou tenha filhos, como ela concilia estes papéis sociais que desempenha com o fato de trabalhar durante a maioria de seu tempo diário? Considerando que uma pessoa passe em média oito horas do dia dormindo, no caso dos teletrabalhadores(as) que trabalham acima de treze horas diárias, sobraria apenas três horas para realizarem atividades de lazer, surgindo o questionamento de como é a vida social de teletrabalhadores(as)?. 7. Na qual participaram da pesquisa 125 teletrabalhadores que ocupavam cargos de gerentes regionais, sendo que estes “[...] formam o maior quadro de gerentes de um único departamento.” (BOONEN, 2003, p. 114), e 35 trabalhadores tradicionais que ocupavam cargos de gerentes, analistas e assistentes, “[...] que prestam serviços de suporte a todos os gerentes da Categoria A [teletrabalhadores]” (BOONEN, 2003, p. 114). 8 Descrito por Boonen (2003) como sendo aqueles que trabalham dentro da organização..

(19) 18. O isolamento social também é um fator importante a ser destacado quando se fala em teletrabalho (BOONEN, 2003). Pelo fato de o indivíduo trabalhar em casa, abdica de sua vida social para se dedicar às atividades profissionais? Os que trabalham em casa por mais de treze horas diárias, como é sua estética durante o dia? Costumam ser vaidosos? Preferem trabalhar durante o dia ou durante a noite? Sentam à mesa para almoçar e/ou jantar com a família? Que repercussões esses trabalhadores podem ter no que se refere à sua saúde? Estes são alguns questionamentos advindos dos dados obtidos na pesquisa de Boonen (2003). A ampliação dos papéis sociais desempenhados pela mulher teletrabalhadora é evidente desde o momento em que se assume como trabalhadora. No entanto, como ela concilia este papel social com os outros papéis em um mesmo ambiente? Trabalhar em casa é mais vantajoso para estas mulheres ou acarreta rótulos de que sejam mulheres donas-de-casa? É possível organizar o tempo em que desempenhará cada papel, como por exemplo, no horário comercial será trabalhadora e nos demais horários dona-de-casa e mãe/filha ou esposa? Como conciliar trabalho doméstico e trabalho remunerado quando exercido em um mesmo local? As conseqüências que a teletrabalhadora tem que assumir ao realizar teletrabalho no domicílio, no que se refere aos papéis sociais não têm sido estudado. De acordo com Oliveira (1996, s.p.), “[...] a literatura [...] não trata dos problemas de confusão de papéis sociais, de forma explícita, porém, esses problemas são reais e bastante freqüentes merecendo, portanto, maior atenção.” Esta possível confusão entre os papéis sociais, como por exemplo, os papéis de filha, mãe, esposa e trabalhadora, é apenas citada nas pesquisas como possível de ocorrer, de acordo com os autores Boonen (2003), Jardim (2003 apud GUEDERT, 2005), Mello (1999), Nilles (1997), Oliveira (1996) e Quishida e Takaoka (2001). Entretanto, as repercussões para a vida da teletrabalhadora decorrentes desta confusão de papéis não é evidenciada. Tendo em vista o número de horas trabalhadas, o possível isolamento social decorrente disso e a ampliação dos papéis sociais desenvolvidos em um mesmo local, é importante questionar: qual é a identidade profissional do teletrabalhador? Mais especificamente no caso da mulher, a identidade profissional pode ser influenciada em decorrência de o trabalho ser realizado em casa, pois os outros (vizinhos, amigos, familiares) podem percebê-la como sendo alguém que não trabalha, neste caso, pode ser percebida como sendo dona-de-casa, papel este que possivelmente pretendeu não mais desempenhar ao se inserir no mercado de trabalho. A identidade do teletrabalhador (a) não foi levada em.

(20) 19. consideração em estudos sobre o teletrabalho9, contudo, foi apontada por Boonen (2003) como uma questão possível de surgir neste contexto em que o trabalho é realizado. O teletrabalho tem sido visto como positivo tanto para as empresas quanto para os funcionários. Pesquisas sobre o assunto10 apenas identificam as vantagens e desvantagens do teletrabalhador, não mostrando as possíveis conseqüências para a vida destes, como por exemplo, implicações de ordem psicológica e familiar decorrentes deste tipo de trabalho. Desta forma além de identificar os aspectos citados, torna-se necessário relacioná-los com o fato de mulheres estarem realizando este tipo de trabalho, e identificar as reais conseqüências para vida pessoal e profissional destas. Sobre o teletrabalho não foram encontrados registros referentes a estudos realizados na área de psicologia. Há pesquisas disponíveis realizadas por administradores (BOONEN, 2003; GUEDERT, 2005; MELLO, 1999; QUISHIDA; TAKAOKA, 2001), engenheiros de produção (OLIVEIRA, 1996) e físicos (NILLES, 1997), tornando evidente a importância de se realizar pesquisas por psicólogos, possibilitando estudar não só os motivos para a adoção do teletrabalho ou as vantagens que se percebem decorrentes da realização deste, mas identificar em que medida a saúde física e psicológica da teletrabalhadora pode estar sendo afetada ao realizar este tipo de atividade. O trabalho realizado por mulheres é bastante discutido. Há uma variedade de pesquisas que contemplam a inserção das mulheres no mercado de trabalho11. No entanto, não foi encontrada pesquisa sobre o teletrabalho no domicílio realizado por mulheres de acordo com artigos e teses disponíveis em bases de dados online12 e literatura. Tornar o teletrabalho no domicílio mais evidente à população pode ser uma maneira de mostrar as condições de trabalho das mulheres que realizam esta atividade profissional em sua residência, conciliando os papéis sociais que desempenham sem serem consideradas como donas de casa. Entretanto, estudar as decorrências adotadas quando ocorre a realização deste tipo de trabalho é fundamental, para que se possa ter mais critérios ao optar por trabalhar em casa. Com base neste conhecimento pode-se pensar em melhorar a questão da fiscalização sobre as condições de trabalho a serem realizadas por profissionais da saúde às pessoas que realizam este tipo de trabalho, fornecendo subsídios que amparem as práticas 9. Refere-se às pesquisas encontradas na literatura (MELLO, 1999 e NILLES, 1997) e às pesquisas disponíveis em bases de dados online: Boonen (2003), Guedert (2005), Oliveira (1996) e Quishida e Takaoka (2001). 10 Ver nota explicativa 9. 11 Pode-se citar alguns exemplos de autores que foram utilizados neste trabalho, tais como: Almeida (2007), Bruschini (1990), Körbes (1995) e Probst (2003). 12 De acordo com pesquisas nos sites de artigos científicos: Scielo, Google acadêmico, BVS (Biblioteca Virtual em Saúde), Pepsi (Periódicos Eletrônicos em Psicologia), Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP (Universidade de São Pulo) realizadas nos últimos três meses..

(21) 20. relacionadas à saúde do trabalhador nas organizações que adotam o teletrabalho. Além disso, viabiliza informações necessárias para que possa ser estabelecida uma legislação que ampare os trabalhadores em suas residências, bem como que estabeleça critérios para a adoção do teletrabalho no domicílio..

(22) 21. 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA. A fundamentação teórica deste trabalho está organizada de forma a desenvolver os assuntos pertinentes a esta pesquisa de acordo com diferentes autores, tendo como principal objetivo que possa servir como base para as discussões e análises dos dados coletados na pesquisa. Sendo assim, este capítulo divide-se em três partes: a primeira parte intitulada “Contextualização do trabalho” onde será discutida a questão do trabalho ao longo dos tempos; a segunda parte denominada “Eliminando fronteiras”, onde será abordado o teletrabalho e aspectos relacionados a esta nova forma de trabalhar e; a terceira parte intitulada “Condição feminina”, mostrando de que forma se deu a inserção das mulheres no mercado de trabalho, papéis sociais desempenhados por estas e sua identidade enquanto trabalhadoras.. 2.1. CONTEXTUALIZAÇÃO DO TRABALHO. O que é trabalho? Será que ao executar esta atividade os seres humanos realmente se diferenciam dos animais pela possibilidade que têm de refletir acerca do que realizam? Esta reflexão de fato ocorre? Para compreendermos estas questões faremos uma breve conceituação do que é trabalho bem como uma contextualização a respeito dos diferentes contextos e modo de produção em que o trabalho tem sido realizado ao longo dos tempos, para então poder pensar nas formas atuais de realizar trabalho. O trabalho é parte constituinte da vida humana, no entanto, seu significado literal trás uma conotação negativa. Segundo Aranha (1997), a palavra trabalho deriva do termo “latim tripalium, que significa ‘torturar por meio de tripalium’13 [...]. Igualmente a palavra labor é sinônimo de trabalho, mas também lembra sofrimento, dor, fadiga [...]” (p. 21, grifo da autora). Sendo o trabalho algo que causa sofrimento às pessoas, por que estas continuam trabalhando? Será que todas as formas de trabalhar são igualmente geradoras de sentimentos negativos? Como o modo de produção do trabalho se modificou ao longo dos tempos e qual a. 13. “[...] instrumento formado por três paus, próprio para atar os condenados ou para manter presos os animais difíceis de ferrar [...]” (ARANHA, 1997, p. 21)..

(23) 22. tendência atual? Será que hoje em dia as pessoas têm mais possibilidades de trabalhar e, desta forma, sentem-se mais satisfeitas pelo trabalho que realizam? É o que veremos a seguir.. 2.1.1 Entendendo o processo de trabalho:. Qual é a sua profissão? Em que empresa você trabalha? Você está estudando para trabalhar com o quê? São perguntas que as pessoas geralmente fazem ao conhecer alguém, pois o trabalho é uma atividade que faz parte da vida destas, ocupa em média um terço do diaa-dia das que trabalham enquanto que as pessoas que por algum motivo não estão trabalhando, geralmente pensam em artimanhas para que possam realizar esta atividade. Mas o que faz com que o trabalho torne-se tão importante em nossas vidas? Nas palavras de Aranha (1997, p.22), “[...] o homem se faz pelo trabalho.” (grifo da autora), pois ao executar esta atividade precisa dispor de uma série de recursos que constituem sua subjetividade, tornando-se humano desta forma, pois ao contrário dos animais o homem pensa seu trabalho antes de realizá-lo. Sobre isto a autora argumenta que: “[...] o trabalho humano supõe um fazer antecedido pelo pensar: ou seja, o homem é o único ser que concebe com antecedência o que produz. E ao produzir, modifica as idéias que, por sua vez, alteram sua forma de agir e assim por diante, indefinidamente.” (ARANHA, 1997, p. 23, grifo da autora). Desta forma, na medida em que o homem põe em prática o seu trabalho, pode modificar o que considerar necessário, pois tem a capacidade de refletir sobre o que fez e pensar sobre possíveis melhoras para isto. No entanto, não são todos os homens que têm a possibilidade de pensar ou executar as ações que planejaram. De acordo com Aranha (1997), em grande parte das vezes há uma divisão entre concepção e execução, de forma com que grande parcela dos trabalhadores sejam impedidos de “[...] pensar criticamente o seu fazer.” (p. 24), ou seja, trabalham cumprindo ordens sem ter a possibilidade de refletir sobre o que fazem, ou mesmo pensar outro modo de realizar a mesma atividade. Mas por que isto acontece? Será que o homem sempre se relacionou com o trabalho desta forma? O processo no qual o homem realiza o trabalho vem se modificando ao longo dos tempos. De acordo com Ferretti (1992, p. 85), “[...] as relações de produção não são naturais, mas sim históricas. [...] não foram assim no passado e muito provavelmente não serão assim no futuro”, pelo fato das relações de produção estarem condicionadas às condições da.

(24) 23. existência do ser humano, se as condições de produção se modificam os modos de produção modificam-se também. De acordo com o autor,. [...] as relações de produção são constituídas pelo conjunto de relações que se estabelecem entre os homens em uma sociedade determinada, no processo de produção das condições materiais e espirituais de sua existência. [...] as relações de produção orientam e são orientadas pelas condições materiais e espirituais da existência humana. Ou seja, a ação que modifica a natureza não se limita estrita e exclusivamente à produção de bens materiais, mas à produção de condições que permitam aos homens viverem relacionando-se entre si e com a natureza (p. 84-85, grifo do autor).. Desta forma, a condição em que o trabalho é realizado é influenciada pela sociedade em que o sujeito vive. Têm-se uma modificação dos meios de produção (instrumentos e objetos de trabalho) e também da força de trabalho ao longo dos tempos, oportunizando o surgimento de novos modelos de produção na medida em que o anterior não satisfaz totalmente às necessidades do trabalho da época. Veremos então que mudanças são estas. Nos primórdios, o homem tinha o conhecimento completo a respeito dos produtos que fabricava. De acordo com Guedert (2005, p. 21), era o homem que fabricava suas ferramentas e armas para se defender de possíveis inimigos, “[...] utilizava para trabalhar utensílios que o ajudavam a garantir seu meio de subsistência.” Já no período denominado feudalismo, o homem também planejava e executava seu trabalho, ou seja, ele criava tanto os instrumentos de trabalho quanto o produto final. No entanto, de acordo com Ferretti (1992), neste período o homem não era livre para utilizar sua força de trabalho, pois “[...] existia uma relação de dependência que obrigava o servo e o senhor: em troca da terra para morar e cultivar de forma a satisfazer as necessidades básicas de subsistência, o servo era obrigado a realizar uma determinada quantidade de trabalho para o seu senhor” (p. 94). A economia era baseada na troca do excedente, ou seja, se produzia o que era necessário para a sobrevivência. Aos poucos o homem que tinha conhecimento tanto com relação ao planejamento de determinados objetos ou materiais, quanto de como proceder para a execução deste, passa a transmitir seus conhecimentos à outras pessoas em troca de seu próprio trabalho, ou seja, “vende” seus conhecimentos devido à necessidade de moradia, alimentação etc. Deste modo, ao longo do tempo a forma como o trabalho é executado começa a se modificar, iniciando.

(25) 24. uma divisão entre o trabalho realizado pelas pessoas que planejam o que irão produzir e as que executam o trabalho que foi planejado por outra pessoa. O homem que anteriormente planejava e executava seu trabalho perde espaço, pois transferiu seu conhecimento à outras pessoas. O homem que inicialmente tinha domínio e autonomia sobre o seu trabalho teve que trabalhar para outras pessoas para satisfação de suas necessidades básicas. Tendo mão-deobra disponível, “[...] o investidor (artesão, comerciante, manufatureiro) reuniu no mesmo local, sob suas ordens, um certo número de trabalhadores que deveriam atuar simultaneamente para produzir a mesma espécie de mercadoria [...]” (FERRETTI, 1992, p. 99), dando origem ao trabalho realizado em manufaturas, caracterizado, segundo o autor, como o início do capitalismo. Sobre este aspecto, Aranha (1997) discorre que:. Até a Idade Média, a riqueza se restringia à posse de terras, [...]. Nos séculos XVI e XVII, as atividades mercantis e manufatureiras desenvolveram-se a tal ponto que a riqueza passou a significar também a posse do dinheiro e do capital, o que exigiu o desenvolvimento da ciência e da técnica para a ampliação das indústrias, [...]. A Revolução Industrial, no século XVIII, é fruto dessas transformações (p. 28-28).. A Revolução Industrial, de acordo com Guedert (2005), deu-se devido à criação das máquinas a vapor, que causaram transformações nas pequenas oficinas da época, transformando-se em grandes fábricas. Conforme Ferretti (1992) esta revolução ocorreu devido aos limites apresentados pelos trabalhadores, que ficavam cansados ao trabalhar, introduzindo as máquinas como ferramentas na produção. A introdução de máquinas para a realização do trabalho não alterou a relação entre o pensar e fazer do trabalhador. De acordo com Aranha (1997), o homem neste período continua privado da reflexão do trabalho sobre o produto que fabrica. Este, que anteriormente trabalhava como escravo ou servo torna-se “[...] operário assalariado ou proletários que, privados dos meios de produção próprios, são obrigados a vender sua força de trabalho para sobreviver.” (ARANHA, 1997, p. 29). Com o modo de produção capitalista o trabalho realizado pelos artesãos que fabricavam seus próprios instrumentos não se percebe mais, surgindo então os operários de fábricas. Diante disso, conforme Guedert (2005), os operários passaram a deixar o campo para procurarem trabalhos nas cidades, desaparecendo a fase artesanal, dando espaço ao trabalho em equipe. Sobre este aspecto Aranha (1997, p. 30), argumenta que:.

(26) 25. Quando fabricamos o que é necessário para a existência humana (casas, roupas, livros), o produto do nosso trabalho tem utilidade vital, tem valor de uso. Na economia capitalista que resulta das revoluções comerciais e industriais, prevalece, no entanto, a lógica do mercado, em que tudo tem um preço no mercado, ou seja, adquire um valor de troca. Neste contexto, ao vender a sua força de trabalho mediante salário, o operário também se transforma em mercadoria (grifo da autora).. Além de venderem sua força de trabalho, os operários tiveram que se adequar ao modelo de produção capitalista, que tem como intuito a maior produtividade com o menor custo. Segundo Ferretti (1992, p. 92), “[...] o objetivo principal do capitalista não é o de produzir bens para satisfazer as necessidades, mas para gerar mais riquezas. O valor de uso14 passa a ser apenas o veículo para a forma principal do produto: o valor de troca15.”. Neste sentido os operários trabalham não porque gostam, mas porque precisam do dinheiro para comprar as coisas que necessitam, desta forma, trabalham para gerar renda para satisfazeremse no mundo do capital. Na lógica capitalista de maior produtividade em menos tempo, surge, no início do século XX a teoria elaborada pelo norte-americano Frederick Taylor, conhecida como taylorismo, que conforme Aranha (1997), parte do pressuposto de que o tempo de trabalho poderia ser utilizado de forma mais econômica, estabelecendo “[...] um ‘controle científico’, por meio de medição por cronômetros, a fim de tornar o processo de produção fabril cada vez mais simples e rápido.” (p. 32, grifo da autora). Neste sentido, os operários eram controlados enquanto trabalhavam, com objetivo de que não perdessem tempo no expediente, pois quanto mais produzissem, maiores seriam os lucros do dono da produção, ou seja, do capitalista. Ainda com intuito de aumentar a produtividade, o norte-americano Henry Ford introduz, de acordo com a autora, o modelo de produção denominado posteriormente de fordista, que se caracteriza pela:. [...] esteira da “linha de montagem” e o processo de padronização ou estandardização da produção em série [...], ainda no início do século XX, O parcelamento das tarefas reduz a atividade de cada um a gestos mínimos, o que aumenta a produção de maneira incrível, mas também transforma o trabalho em 14. Refere-se ao “[...] valor que associamos ao produto porque ele satisfaz algumas de nossas necessidades” (FERRETTI, 1992, p. 88). 15 Quando os produtos, além de terem o valor de uso “[...] têm também um valor de troca, isto é, possuem um determinado valor que nos permite trocá-los por outros, ou trocá-los por dinheiro” (FERRETTI, 1992, p. 88, grifo do autor)..

(27) 26. “migalhas”, impedindo que o operário tenha acesso ao produto como um todo (p. 32, grifo da autora).. De acordo com o modo de produção fordista, o operário além de não ter tempo de descanso, pois era controlado pelos cronômetros do taylorismo, para aumentar o ritmo do trabalho tinha que operar máquinas que realizavam parte do processo de produção e desta forma, não tinha uma noção do trabalho total, pois realizava apenas a parte do trabalho final. Nos modelos de produção taylorista e fordista, a ênfase era dada à força física do operário, ou seja, o pensar sobre o produto que estava sendo produzido era desconsiderado, interessando somente a produção final, que era realizada em massa e em série, de forma a produzir mais em um período curto de tempo. Apesar de anteriormente já existir máquinas que dessem conta do trabalho fabril, foi na década de setenta que se iniciou o processo de informatização do trabalho. Diante deste avanço, “[...] surge a tecnologia de ponta através da Revolução Tecnológica, onde as máquinas são muito mais sofisticadas, facilitando, entre outras coisas, a comunicação à distância, ou seja, reduzindo virtualmente as fronteiras.” (GUEDERT, 2005, p. 22). De acordo com Heikki (2004 apud Guedert, 2005), desde a Revolução Industrial o ambiente de trabalho foi planejado de forma com que os funcionários se deslocassem até a organização, trabalhando com controle e supervisão imediata da chefia. Desta forma o trabalhador tinha um local específico dentro da organização para executar o seu trabalho. Sobre este aspecto, Aranha (1997, p. 34), discorre que:. [...] com a revolução da informática, é possível ocorrer brevemente um movimento de “retorno ao lar”, em que as pessoas poderão trabalhar sem sair de casa, com o uso de computador pessoal, fax, modem, recursos que possibilitam o contato não só com a empresa, mas com qualquer parte do mundo (grifo da autora).. Identificando as mudanças ocorridas com relação ao modo com que o trabalho vem sendo realizado, entendendo que o capitalismo é a tendência atual e que a partir da Revolução Industrial e posteriormente com revolução tecnológica o retorno ao lar é visto como uma possibilidade de o trabalhador executar seu trabalho por meio da tecnologia disponível no mercado, atuando com maior autonomia com relação ao controle da gerência e também no que diz respeito ao tempo em que trabalha, pode-se perguntar: trabalhar em casa.

(28) 27. seria uma tendência atual de trabalho no mundo capitalista? Que benefícios teriam para o empregador e para o empregado? Será que a possibilidade de trabalhar em casa trata-se de mais uma maneira de o capitalista tirar vantagem do trabalhador fazendo com que este trabalhe utilizando seus próprios equipamentos, diminuindo custos para a empresa? Ou seria uma possibilidade de retorno ao lar devido à real necessidade do trabalhador moderno?. 2.1.2 Do trabalho ao teletrabalho. Com a revolução tecnológica foi visto que é possível executar o trabalho de uma forma diferente da tradicionalmente conhecida, ou seja, em um local onde estejam todos os funcionários trabalhando ao mesmo tempo e em um mesmo local. Percebe-se a possibilidade de que o trabalhador possa trabalhar em casa e esta opção pode se dar por diferentes propósitos: diminuir os custos pessoais com deslocamento, custos da empresa com o local de trabalho, autonomia do trabalhador com relação ao planejamento de tempo etc. Mas de que forma o trabalhador poderia realizar seu trabalho em casa? Que equipamentos teria que utilizar para realizar tais atividades? Como teria supervisão da tarefa que anteriormente era realizada quase que imediatamente enquanto trabalhava? Sobre esta nova possibilidade de trabalhar, Aranha (1997, p. 34-35) argumenta que:. Devido ao enorme salto tecnológico da automação, da robótica, da microeletrônica, que exigem outros padrões de produtividade, começa a prevalecer a tendência de quebrar a rigidez do fordismo (linha de montagem e produção em série) e do taylorismo (grande volume de produção). [...]. Tudo isso determina uma mudança fundamental na maneira de trabalhar, com maior flexibilização e polivalência da mão-de-obra, já que o trabalhador precisa aprender a controlar várias máquinas ao mesmo tempo e também ser capaz de atuar em equipe, adquirindo maior capacidade de participação e decisão.. Trabalhando em casa o funcionário além de não ter que se adequar aos modos de produção rígidos do fordismo e toyotismo, tem a possibilidade de flexibilizar o seu trabalho. No entanto, precisa operar as máquinas que serão neste caso, seu instrumento de trabalho primordial. O avanço das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) tem corroborado para que os trabalhadores realizem suas atividades profissionais de formas diferenciadas do modelo tradicionalmente conhecido como trabalho. De acordo com Quishida e Takaoka.

(29) 28. (2001, p. 01), “O paradigma de que só se podia fazer negócios localmente e apenas trabalhar lado a lado com seus parceiros perdeu significado face ao avanço tecnológico.” Sobre este aspecto, Boonen (2003, p. 107) argumenta que. O trabalho a distância apresenta-se como uma alternativa de flexibilizar o trabalho, pois além de reduzir os custos decorrentes do enxugamento da infra-estrutura empresarial (o que responde aos imperativos da competitividade), contribui para o enfrentamento das mazelas sociais.. Diante de novas possibilidades em que as pessoas tem para realizar o trabalho o avanço das TICs é parte importante para que isto se tornasse possível. Por meio de computadores conectados em rede, correio eletrônico, fax, telefone fixo ou celular, pelo envio e recebimento rápido de informações necessárias para a realização das atividades de trabalho é possível exercer a atividade em qualquer lugar. Desta forma, de acordo com Quishida e Takaoka (2001, p. 02) “[...] tornou-se possível ter acesso aos meios de produção sem necessariamente, ter de amontoá-los no local de trabalho, mantendo mentes interligadas e os corpos separados”, permitindo com que as tarefas que antes teriam que ser realizadas na empresa pudessem ser feitas em outro local. Cada vez mais os trabalhadores utilizam equipamentos eletrônicos e de informática como, por exemplo, computadores e telefones em seu trabalho, para descentralizar a força de trabalho, demonstrando a viabilidade da realização de novas formas de trabalho decorrentes do aumento e acessibilidade das TICs. Segundo Nilles (1997, p. 22), “[...] a maior parte do trabalho hoje e em um futuro próximo estará ligada à informação.” Trabalhar por meio de TICs é uma das opções de trabalho consideradas como sendo descentralizadas, pois o funcionário não necessita estar no ambiente da empresa enquanto trabalha. A descentralização, conforme Nilles (1997) aconteceu devido ao fato do declínio de empregos no setor industrial ocorrido desde meados da década de cinqüenta do século XX. Em estudos com a população norte-americana, conforme a figura 01, é possível perceber que no ano de 2000 (dois mil) a força de trabalho que se utiliza dos sistemas de informação é realizada por mais de 50% dos norte-americanos, ainda de acordo com a pesquisa, estima-se que no ano de 2020 (dois mil e vinte) em torno de 60% dos trabalhadores norte-americanos realizarão suas atividades utilizando-se dos sistemas de informação. De acordo com Nilles (1997, p. 22), “Esses profissionais da informação usam cada vez mais.

(30) 29. telefones, computadores (conectados a redes ou não) em seu trabalho. Estão fazendo com que o trabalho venha até eles.”, o que leva a pensar que o trabalho realizado em casa com o uso destes equipamentos é possível.. Figura 01: composição histórica e futura da força de trabalho Fonte: Nilles, 1997. p. 22.. O trabalho realizado por meio de equipamentos eletrônicos e de informática tem sido realizado por muitas pessoas. No Brasil também tem crescido a utilização de equipamentos eletrônicos no trabalho, como por exemplo, computadores, em empresas de pequeno, médio e grande porte. Em pesquisa sobre o uso de TICs no Brasil, o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGIB) (2007) mostra que 95% das empresas visitadas16 utilizam um ou mais computadores para trabalhar, sendo destas, 92% com acesso à internet. O crescente avanço das TICs possibilitou que as pessoas se comunicassem em longa distância através de redes telefônicas digitais que estão a cada dia mais sofisticadas e acessíveis à população em geral, bem como os computadores pessoais que são utilizados pelo trabalhador ao realizar a maioria dos serviços do dia-a-dia (NILLES, 1997). O trabalho descentralizado que alia as TICs a favor do trabalhador e possibilita que este realize suas atividades profissionais em outros locais que não somente o ambiente da empresa foi descrito 16. Dentre as empresas visitadas, 94% das empresas com até 49 funcionários utilizam computadores no trabalho, e 100% tanto de empresas com até 250 funcionários quanto acima desse número utilizam computadores..

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