2.3 CONDIÇÃO FEMININA
2.3.1 Trabalhando em casa: mulher e trabalho doméstico
Quando se fala em trabalho feminino não raras vezes dizem que o lugar da mulher é em casa fazendo comida, lavando roupa etc.. O trabalho doméstico realizado por mulheres não é um tema atual. Ao longo da história as mulheres realizaram esta atividade, no entanto, houve épocas em que trabalhar em casa gerava satisfação a quem o fazia. Entretanto, a forma como o trabalho doméstico foi visto ao longo dos tempos se modificou, fazendo com que as mulheres tivessem que procurar novas formas de trabalho para serem valorizadas e se sentirem realizadas.
Sobre a forma como o trabalho doméstico era visto pela sociedade, Kolbenshang (1990 apud KÖRBES, 1995, p. 45)
[...] fala do quanto afigura-se irônico, quando a menina, ao tornar-se mulher, assume o mais ambicionado dos papéis – o de mãe e dona de casa – e descobre o real entendimento que a sociedade confere a este papel. A mulher torna-se a principal preservadora e transmissora dos valores desta sociedade e não recebe grande crédito por isso. Assume o papel de principal executiva e administradora da casa, mas seu trabalho não é reconhecido como digno de um salário ou de benefícios sociais.
Por muitos anos as mulheres se dedicaram integralmente ao trabalho no lar. De acordo com Almeida (2007, p. 412), “À mãe, cabia a educação dos filhos, a administração da rotina doméstica e o comando dos serviçais.” As mulheres tinham a responsabilidade de
administrar sua casa e cuidar de seus filhos, enquanto o homem trabalhava para ganhar o dinheiro necessário ao sustento familiar.
No entanto, com a mudança nos modos de produção do trabalho, o trabalho doméstico passou a não ser mais visto como uma atividade valorizada. Segundo Biehl (2004), com o capitalismo, o trabalho só era valorizado quando produzisse mais-valia, ou seja, gerasse lucro à alguém. Desta forma, a autora discorre que pelo fato de o trabalho doméstico não ser uma atividade de mão-de-obra remunerada tornou-se um trabalho visto como sem valor, pelo fato de não gerar lucro.
Juntamente com o modo de produção capitalista, outros fatores também fizeram com que mudasse a concepção de que o “lugar da mulher é em casa”. Para Biehl (2004), a situação econômica do país, devido à inflação, fez com que as famílias reduzissem suas despesas a fim de manterem o padrão econômico. Junto a isso, a indústria procurou mão-de- obra mais barata, e por sua vez, as mulheres passaram a ocupar estes postos de trabalho. Ainda conforme a autora, “A mulher, não sendo valorizada por seu trabalho doméstico, que não tinha valor na sociedade burguesa como trabalho remunerado, buscou sua emancipação no trabalho fora de casa.” (p. 19-20).
Desta forma, as mulheres de classe média que anteriormente não necessitavam trabalhar por usufruírem da renda obtida por seus maridos ou pais, tiveram que sair do lar em busca de uma oportunidade, com objetivos de terem seu próprio salário e poderem ajudar financeiramente no lar, bem como para pagarem suas despesas pessoais. De acordo com Besse (1999 apud BIEHL, 2004), foi em 1910 que as mulheres saíram de seus lares a procura de um trabalho remunerado que lhe permitisse ajudar no orçamento doméstico.
No entanto, trabalhar fora deixou de ser uma atividade opcional para ser uma atividade necessária à muitas mulheres. Segundo Besse (1999 apud BIEHL, 2004, p. 22) “[...] aos poucos, o trabalho remunerado passou a ser mais uma entre as obrigações da mulher moderna, não sendo exigido apenas como complementar a renda familiar, mas também quando sua presença não era tão exigida no lar em tempo integral.”
Conciliar vida pessoal e vida profissional não é tarefa fácil e exige das mulheres uma série de artimanhas para que possam se organizar com relação a estas atividades. Embora as mulheres estejam se inserindo cada vez mais no mercado formal de trabalho, há ainda uma visão de que lugar de mulher é em casa, cuidando da casa e dos filhos. Hoje em dia as tarefas domésticas são realizadas pelas mulheres independentemente se estas trabalham ou não fora do lar. De acordo com Probst (2003), 90% das mulheres que trabalham fora dedicam-se também aos cuidados do lar. Como forma de ilustrar os diferentes papéis desempenhados
pelas mulheres ao saírem de casa para trabalhar na vida pública, Salomon & Salomon (1984 apud OLIVEIRA, 1996) propõe a seguinte figura:
Modelo hipotético dos papéis sociais da mulher casada trabalhadora no domicílio
Figura 03: Modelo hipotético dos papéis sociais da mulher casada trabalhadora no domicílio. Fonte: Salomon & Salomon (1984 apud OLIVEIRA, 1996), s.p.
Pode-se observar que conforme a figura 03, ao trabalhar fora do lar as mulheres adicionam o papel de trabalhadora aos outros papéis sociais que desempenhavam, ou seja, agora, além de desempenhar o papel de esposa (quando casada), de mãe (quando possui filhos) e o papel de dona-de-casa, desempenha o papel de profissional. Entretanto, estes papéis não são separados, um se sobrepõe ao outro, o que torna difícil administrá-los.
Ao trabalhar fora de casa a mulher passou a ter uma dupla jornada, ou seja, trabalha em casa e fora desta. De acordo com Probst (2003), pesquisas realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostraram que ao passar dez anos o número de mulheres que são a principal fonte de renda familiar subiu de 18,1% para 24,9% conforme pesquisa sobre o perfil das mulheres responsáveis pelos domicílios no Brasil. Sobre este aspecto a autora discorre que “A mulher deixou de ser apenas uma parte da família para se tornar o comandante dela em algumas situações. [...]. Normalmente, além de cumprir suas tarefas na empresa, ela precisa cuidar dos afazeres domésticos.” (p. 05).
O trabalho doméstico ainda tem sido desempenhado pelas mulheres em geral, mas apesar de se dedicarem à este tipo de trabalho, não são valorizadas enquanto trabalhadoras, pois o trabalho doméstico é um trabalho não remunerado e que não gera mais-valia, não produz lucro para ninguém, e é um trabalho que após sua conclusão, não raras vezes, já tem- se que iniciá-lo novamente. Diante disso, ao procurarem por um trabalho que as fizessem ser reconhecidas e que lhe gerasse renda para contribuir com as despesas da família, saíram de
casa em busca de uma oportunidade. Mas como se deu a saída das mulheres ao procurarem por trabalho? Será que encontraram oportunidades iguais às oferecidas aos homens? Ao trabalhar, tem as mesmas condições que os homens ou são discriminadas?