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Academic year: 2021

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Biodireito, um novo desafio

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Palavras-Chave

resumo

O biodireito surge como um desafio ético para o mundo contemporâneo. O estudo apresenta a gênese da bioética, seu desenvolvimento e estágio atual, realizando uma abordagem dos prin-cípios bioéticos. Revela uma crise do conhecimento científico e, conseqüen-temente uma crise do direito. Aponta a possibilidade de um caminho a partir do resgate de uma ética humana, dentro de uma perspectiva integradora. Para tanto propõe a utilização do pensamento com-plexo, cujo principal teórico é o francês Edgar Morin, como alternativa viável para a atual situação. Enfoca o biodirei-to como uma nova era do direibiodirei-to e como possível caminho de saída da crise.

Biodireito - Bioética - Ética.

Neste início de século e de milênio, a velocidade das transformações causa no ser humano um grande desconforto. Nas últimas décadas, o mundo tem passado por rápidas mudanças que nem sempre conseguem ser assimiladas. Sente-se uma espécie de vazio como se se estivesse à beira de um precipício. A ciência com seus inacreditáveis avanços está no centro de todas as discussões pelo que tem trazido de novo e de as-sustador ao mundo. Inseminação artificial, clonagem, terapia genética, transplante de órgãos, prolongamento artificial da vida humana, pesquisa com células-tronco, congelamento de embriões, há uma lista infindável de novidades biotecnocientíficas que despertam os mais diferentes senti-mentos: surpresa, horror, esperança... O ser humano começa a perceber que muitas de suas concepções sedimentadas ao longo da história estão sendo colocadas em xeque. E, possivelmente, por se sentir à beira do precipício, tenta buscar respostas para o turbilhão de novas perguntas que surgem a cada instante.

O que se pode identificar no cerne deste contexto é a existência de uma crise que atinge o conhecimento humano. Crise gerada a partir do impasse provocado pelo paradigma imposto pelo Racionalismo Car-tesiano. O saber compartimentado, que transforma tudo em peças de

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uma engrenagem, está sendo francamente desafiado, alvo de radical revisão. Nesse sentido, o rolo compressor da biotecnociência tem levado à formulação de novos princípios éticos, ou melhor dizendo, ao resgate de princípios há muito esquecidos. Resultado disso é a gênese de uma nova ética, a bioética. Esta tem caráter multidisciplinar, ultrapassa a fronteira das ciências biotecnológicas, passando a ser discutida em todo o espectro do conhecimento. Sua preocupação está voltada não apenas para a solução das questões já colocadas na ordem do dia, mas, sobretudo, para a responsabilidade em relação à humanidade do futuro. Trata em essência da sobrevivência da humanidade e, conseqüentemente, inscreve-se como fonte de direitos humanos.

BIOÉTICA

É no contexto de crise que se pode situar a gênese da bioética. Bio representa a ciência dos sistemas vigentes, e ethike, o conhecimento dos sistemas de valores humanos. Valor entendido como medida, peso que se atribui ao que é apresentado (ABBAGNANO, 1970, p. 954). As raízes etimológicas estão no grego bios – vida – e ethos – modo de ser (HOGEMANN, 2003, p. 1). A reflexão bioética propõe a união dos valores éticos e dos fatores biológicos, um encontro das ciências experimentais com as ciências humanas. As novas situações criadas pelo avanço da biotecnociência abalaram as convicções científicas antes inquestionáveis. A reflexão bioética surge no âmago de um verdadeiro furacão que tem varrido as certezas absolutas, levando o homem a voltar-se para si em busca de respostas, percebendo que a ciência positivista não é capaz sozinha de dar conta dos novos questionamentos.

Segundo definição da primeira edição de 1978 da Encyclopedia of

Bioethics, bioética é o “estudo sistemático do comportamento humano

na área das ciências da vida e dos cuidados da saúde, quando se exa-mina esse comportamento à luz dos valores e dos princípios morais” (BELLINO, 1997, p. 21). De cunho essencialmente principialista, a bioé-tica, nesse primeiro momento, é resultado de um mundo onde ocorreu um processo de profunda transformação do paradigma mental. Os valores do místico e do sagrado deram lugar aos valores do secular e do profano; a concepção de um Universo submetido à vontade divina foi substituída pela idéia de um Homem capaz de subjugar as forças da Natureza. Assistiu-se à imposição de uma nova cultura influenciada pelo

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Liberalismo cuja máxima preponderante é o respeito ao individual. A forte presença da ideologia liberal na cultura ocidental, em especial, na cultura americana, trouxe como conseqüência uma ética voltada para o respeito aos direitos do indivíduo em primeiro lugar. E a bioética, fruto do pragmatismo norte-americano, não fugiu a esta regra. Ela, em um primeiro momento, trouxe em seu bojo o respeito à autonomia da vontade da escolha.

Pode-se falar em uma protobioética surgida a partir da descoberta pela opinião pública mundial das experiências realizadas pelos nazistas em cobaias humanas, nos campos de concentração, ao longo da Segunda Guerra Mundial. O código de Nuremberg trouxe uma tomada de cons-ciência por parte dos cientistas e de toda a sociedade em geral. Apesar do horror e perplexidade provocados, o mundo científico, ao invés de se nortear pela prudência, tomou um rumo extremamente veloz em seu desenvolvimento. Os anos 60, marcados por uma revolução cultural, assistem a uma série de fatos nos EUA que suscitam inquietantes questões e que tomam maiores proporções. O célebre episódio da Talidomida foi marcante. Em 1961, o mal decorrente do uso desse medicamento causou uma grande repercussão, não só no meio médico e científico, como em toda a opinião pública mundial pela ocorrência de tragédias pessoais, conseqüência de experimentações insuficientes e informações manipuladas. Posteriormente, em 1966, começam a ser publicadas de-núncias de pesquisas contrárias à ética. Vêm à tona experimentos com enfermos social e mentalmente fragilizados (portadores da Síndrome de Down, pacientes de diálise, minoria negra, idosos) usados como cobaias sem dar seu consentimento. É no contexto de luta por igualdade entre brancos e negros, luta contra a guerra do Vietnã, luta pelos direitos hu-manos que a sociedade americana reage a estas experiências realizadas em humanos e que se tornam públicas graças a uma imprensa atuante. Resultado disso, em 1969: é fundado o Institute of Society, Ethics and the Life Sciences, hoje conhecido como Hastings Center, importante centro de investigação em bioética. Ali se desenvolveram, a partir de uma preocu-pação educativa, estudos sobre a regulamentação das experimentações, envolvendo humanos. Essa fase inicial vai durar até os anos 70 e ficou marcada por importantes debates surgidos a partir de fatos concretos. O ritmo acelerado do desenvolvimento científico no século XX provoca uma desarmonia alarmante entre as novas tecnologias e os verdadeiros interesses do homem em situação de vulnerabilidade. É uma fase ainda fortemente influenciada pela religião e pela teologia nas questões en-volvendo o papel dos profissionais da medicina e a necessidade de uma educação médica voltada para os valores humanistas. O surgimento da bioética está estreitamente vinculado a uma reação contra a

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insensibi-lidade tecnocientífica.

Na década de 70 tem início uma segunda fase de desenvolvimento da bioética. É o chamado estágio ético, no qual a ética assume papel preponderante. O ano de 1971 assinala o uso inicial do termo bioética. O biólogo e oncologista americano Van Reusselaer Potter da Universidade de Wisconsin, escreve o livro Bioethics: bridge to the future, e dá ao termo bioética o sentido de ética, representando o conhecimento dos sistemas de valores humanos, com a finalidade de promover um novo diálogo entre a ciência e a humanidade. É apontada como ponte para o futuro, ligação entre os saberes. A sobrevivência da espécie humana e mesmo a sobrevivência das nações e culturas é questão que se coloca na ordem do dia. No rastro dos escândalos provocados pela descoberta do uso de cobaias humanas na pesquisa de doenças como sífilis, o Congresso Americano, pressionado pela opinião pública, constitui, em 1974, a National Comission for the Protection of Human Subjects of Biomedical and Behavioral Research para identificar princípios éticos básicos que deveriam nortear a pesquisa com seres humanos nas ciências do com-portamento e na biomedicina. Em 1976, nova polêmica abala o mundo ético-científico: o caso karen Ann Quinlan. Os pais da jovem karen, em coma decorrente de acidente, solicitam à Suprema Corte Americana o desligamento dos aparelhos que a mantinham viva. A questão da euta-násia, da manutenção da vida artificialmente por tempo indeterminado, o sofrimento para aqueles que assistem, o dilema de interromper uma vida, todas são questões que, à época, causaram forte comoção na opinião pública mundial frente ao caso concreto. Em 1978, ao final de quatro anos de trabalho, a National Comission elabora e publica o Bel-mont Report ou Relatório BelBel-mont. Marco dessa nova fase da bioética, o Relatório tornou-se a declaração principialista da reflexão bioética. Em 1979, T.L.Beauchamps, membro da Comissão, e J.F.Childress, publicam a marcante obra Principles of Biomedical Ethics, estendendo o sistema de princípios à área clínico-assistencial, buscando superar o enfoque fechado dos códigos profissionais.

O Relatório Belmont, estabeleceu três princípios basilares sobre os quais ela se estruturou nesta fase: o princípio da autonomia, o princípio da beneficência e o princípio da justiça.

O princípio da autonomia está estruturado sobre duas convicções éticas, quais sejam: os indivíduos devem ser tratados como entes autô-nomos; e os indivíduos que estão com a autonomia diminuída devem ser protegidos. Refere-se ao princípio da autodeterminação humana, base-ando a relação terapêutica em uma relação bilateral em que o paciente tem o direito de opinar sobre os tratamentos disponíveis. No dizer de

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Barreto (apud RIOS et al., 1999), o princípio da autonomia estabelece a ligação com o valor mais abrangente da dignidade da pessoa humana, representando a afirmação moral de que a liberdade de cada ser humano deve ser resguardada. Esse princípio estabelece o respeito pela liberdade do outro e das decisões do paciente e legitima a obrigatoriedade do con-senso livre e informado, para evitar que o enfermo se torne um objeto. Importante contrapor a autonomia ao paternalismo presente na relação médico-paciente. Todas as informações possíveis devem ser repassadas ao paciente para que este possa, conscientemente, escolher, em conjunto com o médico, a melhor forma de tratamento. O saber médico não está em questão. O que se coloca é o uso inadequado desse saber. O princípio da autonomia busca horizontalizar a relação médico-paciente sempre marcada por uma desigualdade, dado o domínio técnico do médico. Necessária a superação do paternalismo na busca de uma autonomia e de uma subjetividade em equilíbrio, na relação.

O segundo princípio, da beneficência, também incorpora duas convicções: a necessidade de não provocar danos e a maximização dos benefícios e minimização dos riscos possíveis. É a busca do bem-estar dos enfermos. Este princípio está relacionado à proposição hipocrática do século V a.C. que aconselhava o médico a auxiliar ou não prejudicar o paciente. Está introjetado, de maneira profunda, na formação do profis-sional da área médica. Aqui, novamente, o paternalismo corre o risco de se impor na medida em que o médico, sendo detentor do conhecimento técnico, pensa poder decidir unilateralmente o melhor tratamento a seguir. É aí que o princípio da autonomia tem de estar presente para que a relação tão desigual assuma um mínimo de equilíbrio. Cabe ao médico, que dispõe do arcabouço técnico, informar o paciente sobre as alternativas a serem seguidas, para que este, consciente das opções, possa em conjunto tomar uma decisão. Fazer o bem, respeitar o princípio da beneficência implica em troca de informações. A beneficência obriga a busca do bem terapêutico e envolve não apenas o bem estar físico, como também o bem estar psíquico e espiritual. O paciente, fragilizado na condição de enfermo, tem de ser visto como ser humano global com história, experiência e desejos próprios. Não pode ser infantilizado, mas tem de ser respeitado como o outro de uma relação. A busca do bem não pode ser redutivista, pois corre o risco de se tornar desrespeitosa. O médico, ou o pesquisador, deve sempre buscar o equilíbrio nessa relação que nasce desigual, respeitando os princípios da autonomia e beneficência de forma complementar.

O terceiro e último princípio definido pelo Relatório Belmont é o princípio da justiça. Requer a repartição equilibrada dos benefícios

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e dos ônus, para evitar discriminações e injustiças nas políticas e nas intervenções sanitárias. É o princípio que sai da esfera individual para se projetar na esfera social. Relaciona-se com o destino das verbas de saúde, a implementação de políticas públicas de saneamento básico para a prevenção de doenças, a distribuição dos benefícios das novas tecnologias. Busca uma igualdade entre todas as pessoas. Não se trata mais da relação médico-paciente, mas da relação instituições públicas e cidadão. Em uma cultura que privilegia o individual, o princípio da autonomia tem prevalecido sobre o princípio da justiça. Isso se revela claramente na privatização dos serviços de saúde e até mesmo da as-sistência sanitária o que traz conseqüências nefastas à grande massa empobrecida da população dos países periféricos. Priorizar o princípio da justiça nas sociedades em a desigualdade socioeconômica é abissal pode frear o individualismo, criando condições para que as populações que vivem à margem do desenvolvimento tenham alguma chance de viver dignamente. Esse princípio busca afirmar a necessidade de assegurar a todos o acesso à saúde e a serviços sanitários básicos, independente de condição econômico-social. Exige decisão e disposição política sem o que qualquer tentativa de igualdade torna-se inútil.

A partir do Relatório Belmont, os princípios bioéticos passaram a ser aplicados a todo o campo da biomedicina, sendo a bioética consubs-tanciada como disciplina.

Diferente da visão americana, o enfoque europeu é coletivista, e se destaca a idéia de virtude e de caráter. O cenário americano, dominado pelo pragmatismo e por uma concepção instrumental da ciência, inclina-se no inclina-sentido de estabelecer normas de conduta moral, concebendo a bioética como área de conhecimento e de ação específica. Oposta está a visão européia continental, herdeira de uma filosofia da consciência e do espírito, enraizada em uma tradição de uma ordem ética nacional e deontológica que se pretende universal, e que compreende a bioética como uma nova disciplina filosófica de dimensão trans e multidisciplinar. Ganha corpo a investigação filosófica sobre o agir humano.

Na América Latina, aí incluído o Brasil, a reflexão bioética assume um rosto próprio. Os enormes contrastes sociais presentes na região fazem com que o continente se defronte com problemas no mesmo nível de países ricos, mas também enfrente as questões básicas de medicina sanitária, erradicação de moléstias como tuberculose, malária, dengue, tifo. O enfrentamento de questões que dizem respeito a uma alimenta-ção adequada, moradia digna, saneamento básico, trabalho, renda deve ser meta prioritária nos países marcados por profundas desigualdades econômico-sociais. Há enormes distorções a serem encaradas que

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levantam o questionamento da discriminação na assistência pública à saúde. A discussão sobre o acesso ao uso das novas tecnologias, car-reamento de recursos públicos, justa distribuição de serviços de saúde para uma população carente de quase tudo, tem de estar na ordem do dia. Tanto como a vertente americana e a européia, a latino-americana é fruto de uma realidade. Uma realidade excludente que precisa ser urgentemente transformada. No dizer de Hogemann (2003, p. 27): “na América Latina, a bioética tem um encontro marcado com a pobreza e a exclusão. [...] Por isso tem de saber lidar com questões macroéticas do contexto socioeconômico, pois aí reside a causa principal dos problemas de saúde do nosso continente”. A definição das prioridades passa necessariamente pelo enfrentamento dessas questões básicas sob pena de perda de sentido de todo o arcabouço bioético. O desafio da bioética latino-americana é superar uma influência cultural herdada do catolicismo e criar uma expressão verdadeiramente alternativa que possa enriquecer o diálogo multicultural. Os valores de eqüidade, comunidade, justiça e solidariedade têm de estar no centro das discussões para que o enfrentamento das questões cruciais se dê de forma realista.

A fase atual, iniciada em meados da década de 80, é marcada pela constatação dos eticistas em considerar a multidisciplinariedade dos assuntos abordados e a buscar socorrer-se em disciplinas além de suas especialidades, situando a bioética num cenário global e plural. Importa ter claro que a reflexão bioética é interdisciplinar. Envolve diferentes saberes e não pode ser isolada sob pena de perder sua riqueza e a complexidade das questões suscitadas. Refletindo problemas relativos à vida humana tem, necessariamente, de abrir o leque, ampliando ao máximo as possibilidades de solução. Na bioética têm de estar presentes a biologia, a medicina, mas também a filosofia, a sociologia, a política, a economia, o direito. É saber aberto a todos os outros saberes, uns se confrontando com os outros, uns complementando os outros. Por isso diálogo e tolerância são fundamentais na construção desse novo saber. Há de haver equilíbrio entre ousadia e prudência. A bioética principialista não é capaz de enfrentar todas as questões. Nos anos 80 houve um cres-cimento e uma sofisticação das tecnologias que levou a um crescres-cimento do movimento da bioética. A complexidade humana está para muito além de um esquema principialista, exige flexibilidade de pensamento. Outros paradigmas devem ser utilizados para lidar com as mudanças de muitos significados no mundo atual: vida e morte, família, doença, quem é pai ou mãe, são apenas alguns que se pode elencar.

A nova definição da segunda edição da Encyclopedia of Bioethics, publicada em 1995, traz um conceito mais inserido no atual contexto:

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“Bioética é o estudo sistemático das dimensões morais – incluindo visão, decisão, conduta e normas morais – das ciências da vida e da saúde, utilizando uma variedade de metodologias éticas num contexto inter-disciplinar” (JUNGES, 1999, p. 21). Supera o enfoque principialista, pois, como bem coloca Hogemann, além dos princípios éticos, outros tipos de fontes de conhecimento moral têm de ser considerados: convicções, atitudes, virtudes, emoções (HOGEMANN, 2003, p. 19).

A análise bioética, como toda e qualquer outra, está inserida em um contexto e sofre influência de uma mentalidade. É preciso compreender o contexto e a mentalidade na qual ela se insere, destacando-se a visão sócio-cultural. Assim se estará buscando uma visão bioética integral, voltada para uma visão do ser humano como um ontos, pessoa real ou potencial. Por isso, a valorização da vida humana é a pedra de toque e o ponto de referência primordial da bioética, vida humana entendida como evento pessoal. Esse é o objeto da bioética – a vida – entendida em seu sentido lato – homem, animais, meio-ambiente. Está diretamente rela-cionado com o nascer, viver, morrer. Ao tocar em temas tão sensíveis à humanidade, desperta interesses variados. Por isso é necessário utilizar a racionalização teórica para enfrentar situações moralmente polêmicas. Essa contextualização na qual se insere a bioética é fundamental para compreender o necessário passo adiante: o biodireito.

PARA ALÉM DA BIOÉTICA: O BIODIREITO

Como ciência social, o direito faz parte deste processo. E, portan-to, encontra-se em crise. Como o direito tem se comportado frente ao desafio de formular normas ou encontrar soluções na mesma velocidade com que os problemas gerados pela sociedade biotecnológica se apre-sentam, eis a grande questão.

Diante de tantos conflitos éticos suscitados pelo avanço biotecno-científico, o homem se vê, a todo instante, frente a encruzilhadas sem saber ao certo que rumo tomar. Novas questões surgem a cada momento e a angústia que as perspassa traz à tona sentimentos contraditórios e incertezas. O biodireito nasce na esteira da bioética, como necessário passo adiante para a prevenção e solução dos conflitos suscitados nessa área. O termo biodireito surgiu na década de 90 do século XX, mas ainda hoje não é reconhecido por todos os autores. Ele se inscreve no que se pode denominar de uma nova era do direito.

No final do século XX, se esboça uma preocupação em tutelar os efeitos da revolução biotecnológica sobre a sociedade em geral. As

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descobertas de cada instante têm mobilizado as sociedades para uma retomada da discussão sobre direitos humanos. Sente-se a urgente ne-cessidade de um entendimento entre todos para que se possa encontrar caminhos, saídas para os impasses. A discussão envolve filósofos, cientis-tas, médicos, juriscientis-tas, educadores, teólogos, artiscientis-tas, historiadores, enfim, todos os que, conscientes dos desafios, possam dar sua contribuição. O que está em jogo é a própria continuidade da espécie humana e de toda a vida no planeta. Se, por um lado, o homem chegou a um ponto em que criou máquinas de destruição tão potentes que num simples apertar de botão podem varrer toda a vida da Terra, por outro, empre-endeu e empreende pesquisas genéticas que poderão trazer a cura para diversos males. É o paradoxo da humanidade. Diante desse quadro, o direito tem a difícil tarefa de buscar impedir que os avanços causem a destruição e impor limites para que a humanidade não se lance em um abismo sem volta.

O direito, como ciência e resultado de um contexto histórico, se encontra em crise. Fruto da compartimentalização de todas as áreas do conhecimento humano, sua estrutura, idealizada há séculos atrás, não dá conta de pensar e responder à complexidade das questões que estão na ordem do dia. Da forma como está posto hoje, o direito é velho, e a sociedade se renova a cada dia. Como ciência do dever-ser, o direito se traduz em normas cujos comandos devem ser reconhecidos como regu-ladores do comportamento humano aceitável em sociedade. Enquanto fenômeno social que retrata determinado contexto, o direito busca a realização da justiça, mas, na maior parte do tempo, imprime regras que já nascem defasadas da realidade. Pode-se enumerar algumas ins-tituições tuteladas pelo direito moderno e que hoje assumem uma nova feição, feição esta que o direito, pensado de forma fragmentada, ainda não conseguiu absorver. Exemplo disso é o direito de família, o direito sucessório, o direito da pessoa. A estrutura atual do direito não fornece condições para se repensar essas instituições à luz das transformações ocorridas nos últimos anos. Em face das transformações sociais e dos avanços da biotecnologia, os paradigmas da sociedade liberal burguesa estão francamente em crise e a saída para ela tem de ser pensada a partir de uma nova percepção.

O que se propõe é uma revolução no pensamento. O caminho pode estar no chamado pensamento complexo. O maior teórico do pensamento complexo, o francês Edgar Morin, diz que não se trata de abandonar a velha lógica, mas, ao contrário, integrá-la em um jogo complexo. Segundo ele, a grande questão é combinar o simples e o complexo. A palavra complexidade vem do latim “complexus” que

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significa o que é tecido junto (PENA-VEGA; NASCIMENTO, 2002, p. 33). O pensamento complexo é aquele que se esforça para unir, não na con-fusão, mas operando diferenciações. A proposta é diferenciar e juntar. É ter a capacidade de buscar na simplicidade a complexidade. É utilizar os métodos científicos aliados à concepção de complexidade para tentar dar conta da multiplicidade de fenômenos que se apresentam.

Importa ter em vista que o saber não tem apenas compromisso com a produção do conhecimento, mas também com a felicidade do homem, com a justiça social. Morin tem denunciado a inadequação cada vez maior, profunda e grave entre os conhecimentos disjuntos, partidos, compartimentados entre as disciplinas e, de outra parte, realidades ou problemas cada vez mais polidisciplinares, transversais, multidimen-sionais, transnacionais, globais, planetários, enfim. Nesta situação, tornam-se invisíveis os conjuntos complexos, as interrelações e retroações entre as partes e o todo, as entidades multidimensionais, os problemas essenciais. Faz-se necessário buscar um princípio de explicação mais rico do que o princípio da simplificação. O princípio da complexidade, além de distinguir e analisar, procura estabelecer a comunicação entre aquilo que é distinguido: o objeto e o ambiente, a coisa observada e o seu observador. Busca não sacrificar o todo à parte, mas compreender que um não é conhecível sem o outro. A complexidade busca abrir e desenvolver amplamente o diálogo entre ordem, desordem e organização , para conceber os diversos fenômenos. Há que se insistir na utilidade de um conhecimento que possa servir à reflexão, meditação, discussão, incorporação por todos, cada um no seu saber, na sua experiência. A ciência precisa adquirir consciência de si mesma para que não avance no caminho da autodestruição. O pensamento científico é ainda incapaz de se pensar, pensar sua própria ambivalência e sua própria natureza. É necessário reatar o laço entre ciência e filosofia, entre ciência e cons-ciência política e ética.

No caminho que tem trilhado, a ciência tem causado graves proble-mas que se referem ao conhecimento que produz, à ação que determina, à sociedade que transforma. A ciência hoje se tornou poderosa e ma-ciça instituição no centro da sociedade, alimentada e controlada pelos poderes econômicos e estatais. Assim, a ciência adquiriu proporções agigantadoras no século XX. A ciência impregnada de tecnologia passou a dominar a vida humana, tendo poder de vida e morte. A tecnologia é o Leviatã da modernidade. Quem dirige e encomenda a pesquisa científica é a tecnologia. Ao mesmo tempo em que subjuga a sociedade com sua capacidade de permanecer hermética e distante, a ciência é subjugada pelo poder do Estado. Por isso constitui também uma ameaça, pois

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como progresso produz potencialidades mortais. Os poderes criados pela atividade científica escapam totalmente aos próprios cientistas. A tecnologia lança a sociedade moderna na grande aventura de domina-ção da natureza. Se, por um lado, trouxe inúmeros benefícios para a humanidade, por outro, trouxe os recursos que espalham o sofrimento e a destruição, venenos que matam, explosivos que pulverizam.

Enquanto os excluídos desse processo sofrem as mazelas da fome e da desnutrição, os que usufruem a modernidade descobrem os males da civilização. Doenças como câncer, enfermidades cardíacas, derrames, tornaram-se crônicas nos países industrializados. Multiplicaram-se as formas de depressão e de distúrbios do comportamento, o consumo de álcool e drogas tornou-se um grave problema. Além disso, o recru-descimento da violência, seja sob a forma doméstica, seja sob a forma de terrorismo, tem alarmado as populações e as autoridades, atingindo indiscriminadamente todos os segmentos sociais. São sinais de uma desintegração social, fruto de um distanciamento do homem da natu-reza. É o domínio do domínio da natureza que hoje causa problemas. A questão do controle da atividade científica tornou-se crucial e supõe o controle dos cidadãos sobre o Estado que os controla.

A crise ética se revela profunda. Ética entendida aqui como di-recionamento de vida, seja individual, seja coletivo. O sujeito ético se constrói ao longo de sua existência. “Sujeito ético é aquele indivíduo que pode reconhecer os conflitos que representam o significado de estar no mundo, sendo que é a resolução destes que o permitirá autodeterminar se” (SEGRE; COHEN, 1999, p. 39). O indivíduo, no seu atuar dia-a-dia, se depara com conflitos frente aos quais tem de se posicionar, e esse posicionamento deve ser regido por um conjunto de regras e valores orientados por um senso de justiça. “Viver eticamente é viver conforme a justiça” (PEGORARO, 2002, p. 11). A ética serve, então, como uma estrela guia na conduta humana. O homem, ao mesmo tempo em que tem o arbítrio para se dirigir no sentido do bem, pode se voltar para o sentido do mal e da destruição. É livre tanto para construir, como para destruir. Cabe à ética administrar essa encruzilhada, apontando cami-nhos de construção pessoal e coletiva e advertindo contra as ameaças da autodestruição.

O progresso da ciência tem colocado em xeque os limites do que é aceitável ou não. O homem, em sua trajetória nos últimos trezentos anos, afastou-se de sua essência na busca por uma perfeição e até mesmo, pela imortalidade. A fome de poder, poder ser mais, sempre mais, o tem conduzido ao limite. A não aceitação dos limites a que está submetido enquanto ser humano o levou a ultrapassar perigosas

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fronteiras, correndo risco de perder a própria dimensão do humano. Esse é o perigo que hoje se corre. E dentro dessa perspectiva se vislumbra a questão da bioética e do biodireito.

Necessário resgatar uma visão integradora, que englobe a perspec-tiva fragmentada e a perspecperspec-tiva integral. A crise que abala o direito vislumbra como saída a transdisciplinaridade. As diversas deontologias ligadas à área de saúde não são capazes de dar conta de tantos proble-mas. É necessário ampliar o espectro deontológico na busca de uma normatização que oriente o cientista ou o profissional médico diante dos conflitos. O juramento de Hipócrates, que informa alguns dos princípios bioéticos tem de ser ampliado e mesmo ultrapassado. É o biodireito, por sua característica de saber aberto, o terreno fértil para que o direito caminhe no sentido de superar a atual crise de percepção e de identidade na qual se encontra mergulhado.

Os desafios que se colocam são muitos. E para enfrentá-los, o bio-direito tem de ser um saber aberto, em contato com os outros saberes. Não pode estar alicerçado nas velhas estruturas. Tem de necessariamente buscar o novo através de uma visão complexa da realidade. Tem de ser um direito pluralista que se aproxime da justiça real. Diante do impacto das mudanças biotecnológicas, o direito tem de buscar manter um equilíbrio na vida do grupo social para que este não se desestabilize.

Nesse momento de crise geral, há uma tendência à perda de refe-renciais valorativos e essa ambigüidade momentânea deve ser superada tendo em vista duas afirmações: a normatização é sempre social; não se pode reduzir o social ao biológico. Ocorre que as descobertas biotecnológicas e as mudanças que provocam são de uma rapidez sem igual. Isso gera um natural impasse entre a necessidade de produção de normas e o ritmo acelerado das descobertas. O processo legislativo por sua natureza é lento e não tem condições de acompanhar esse rit-mo. Oriundo de uma estrutura arcaica, encontra-se ultrapassado. Esse impasse só pode ser superado pela consciência de que é necessário um amplo debate de todos os segmentos da sociedade para que as normas jurídicas respondam efetivamente aos anseios sociais. Elaborar normas no vazio só poderá gerar mais impasses difíceis de serem transpostos. A adesão pura e simples ao positivismo é uma cilada da qual todo operador-pensador do direito tem de escapar. Apenas se ocupar das leis é cômodo e afasta o direito da realidade cotidiana. A justiça formal positivada está, na maioria das vezes, longe da justiça vital, longe da ética humana. E estabelecer o justo depende de muitos fatores, não somente da norma jurídica vigente. Imaginar que o simples domínio das técnicas jurídicas é suficiente para fazer justiça, como se o direito fosse uma máquina a

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ser operada, é simplificar uma problemática extremamente complexa. O operador do direito não pode acreditar que basta a aplicação da teoria à prática. Ele precisa ser um ser crítico, questionador da realidade, um pensador do direito.

Legislar ou não legislar, qualquer que seja a alternativa escolhida, importa ter claro que a situação atual é grave; que os problemas se avolumam gerando impasses de difícil solução; que muitas vezes não existem casos semelhantes que sirvam como parâmetro de comparação para a solução via analogia e que não existem soluções definitivas para tantos problemas.

A CAMINhO DO CAMINhO

A primeira preocupação que se deve ter em mente ao tratar de questões ligadas ao biodireito é pensar em que base de valores pode se estruturar essa nova geração de direitos. Isso constitui o nó górdio de toda a discussão. A crise que hoje se enfrenta traz em seu bojo uma crise de valores. O paradigma racional-positivista está sendo profundamente questionado e, com isso, toda uma estrutura mental. O reducionismo não é capaz de dar conta das novas situações. A consciência de que o ser humano é um ser complexo, uma unidade que faz parte de um todo, e que esse todo não pode ser perdido de vista, traz à tona a necessária transformação de mentalidade. Não se trata de abandonar o modelo analítico reducionista, mas incorporá-lo a um conjunto que lhe dê um sentido mais abrangente. O homem em sua caminhada cientificista se afastou de sua própria essência. Buscar resgatar essa essência é tarefa primeira do biodireito. A busca pelos valores e princípios que estejam pautados numa ética de consciência humana é a chave para enfrentar os novos problemas.

Valor aqui entendido como o que vale, aquilo que merece ser dese-jado, enquanto dignidade que a coisa possui. “Valorizar não é dar valor, mas reconhecer o valor que a coisa tem” (MARíAS, 1971, p. 404). E ética “é a ciência ou filosofia que fará a eleição das melhores ações, tendo como horizonte o interesse coletivo, universal” (ALMEIDA; CHRISTIMAN, 2002, p. 14). Importa em benefício de toda a coletividade, e não no benefício individual ou de pequeno grupo.

Tendo em vista estes dois aspectos, valor e ética, o que se propõe é o resgate da essência humana. Este resgate passa necessariamente pela redescoberta de todas as formas de saber, que não apenas o saber

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científico. Em um exercício de abertura da visão reducionista, o operador-pensador do biodireito tem de ampliar seu pensamento, percebendo que a realidade é integral e complexa. Aplicar a concepção de complexidade de Morin pode auxiliar na solução da multiplicidade que os problemas apresentam. Como já mencionado anteriormente, o princípio da com-plexidade tem sempre em vista a comunicação entre a coisa observada e o observador. Essa é uma premissa básica para pensar o biodireito. Não é possível dissociar o objeto e o ambiente no qual ele está inserido. Tudo faz parte de um todo.

O processo que aqui se propõe tem como ponto de partida uma mudança de mentalidade. A nova mentalidade tem de incorporar valo-res femininos, até o momento, tidos como secundários em um mundo pensado pelo masculino. Os valores femininos são integrativos. São os valores da cooperação, conservação, parceria. A ética, do ponto de vista feminino, tem conexão com o emocional, o sentido da solidariedade. Propõe uma superação da imparcialidade objetiva por uma solicitude subjetiva. Ao individualismo exacerbado do mundo de hoje, deve-se contrapor a solidariedade.

Nesse sentido, entende-se que está plantada a semente da trans-formação.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos expressa a máxima kantiana que exige o respeito ao outro como um outro, como um fim, não como um meio. É o respeito à alteridade, reconhecendo no outro um centro de dignidade. Reconhecer o outro como um outro é reconhecer a liberdade de cada indivíduo, é reconhecer que cada um tem de ser efetivamente tratado como pessoa, sujeito, não como coisa, objeto. É reconhecer que toda pessoa é um valor sui generis que não tem equivalente.

Em um mundo dominado pelo mecanicismo, o ser humano passou a ser encarado como uma máquina ou peça de uma máquina. A partir dessa idéia tornou-se admissível pela ciência o uso do material huma-no como algo, e não como alguém. O desrespeito à pessoa humana tornou-se corriqueiro, seja nas práticas do dia-a-dia, em que a miséria e a violência contra os oprimidos passaram a ser vistas dentro de uma normalidade, seja nas grandes experiências que assim se intitulam, pois se acreditam capazes de mudar os rumos da humanidade. A importância básica da Declaração Universal é a transformação dos direitos humanos numa base axiológica. A preocupação com a dignidade da pessoa hu-mana tem de nortear a prevenção de conflitos e a solução dos mesmos na área do biodireito. Pessoa humana é muito mais que uma máquina.

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É um ser dotado de complexidade que o torna único, indivisível e não intercambiável.

Expoente de uma nova geração de direitos, o biodireito não pode perder de vista a integralidade. Tendo como norte uma ética humana que integre o masculino e o feminino, estará em condições de apresentar respostas que apontem possíveis soluções. Questões como a possibili-dade da clonagem humana e da criação de embrião a partir de células femininas suscitam polêmicas pelo que de novo e assustador apresen-tam. O biodireito, resgatando a essência humana em comunhão com a ética e valores que alçam o humano e a vida em geral à condição de prioridade, tem a responsabilidade de enfrentar o problema. Sabendo que, para além do saber científico, existem outros saberes como o saber do mito, do senso comum, da fé, da filosofia e que todos eles podem auxiliar na busca de soluções, o operador-pensador do direito de hoje poderá lançar mão de um instrumental em sintonia com uma ética da essência da vida, respeitando uma axiologia pautada na comunhão do universo masculino e do universo feminino em um exercício de inserção na integralidade.

Trazer de volta ao direito a complexidade é tarefa para o biodireito. A prática do operador-pensador do direito restou extremamente simplifi-cada a partir da fragmentação e do reducionismo. Sua própria formação tem de ser revista, abrindo caminho para a mentalidade integradora. Não é possível mais pensar em uma formação do operador-pensador do direito fechado em si mesmo. O diálogo com as outras áreas do conheci-mento, o diálogo com os outros saberes é fundamental. O saber jurídico só, não basta. É preciso trocar experiências, buscar novos interesses, conhecer a realidade, ter flexibilidade de opinião, aceitar as diferenças como possibilidades do humano. O biodireito nasce naturalmente com essa vocação. A complexidade dos problemas causados pelo avanço biotecnológico, objeto do biodireito, leva necessariamente ao diálogo. O biodireito se apresenta como passagem de uma visão reducionista para uma visão integradora. É o nascimento de uma nova mentalidade, fruto de uma nova percepção da realidade. O biodireito é o campo fértil para que se desenvolva a hermenêutica de um novo tempo. Alicerçado nos valores de uma ética humana, pautada no respeito à dignidade da pessoa humana, ética comprometida com a vida, tem o biodireito a oportunidade de resgatar o direito de seu atual estado crítico, estado de morte. O estreitamento de laços com a ética é a retomada de um caminho do qual o direito se divorciou nos últimos tempos. Resgatar esses laços e levar o direito de volta ao rumo da justiça vital é a possibi-lidade maior do biodireito.

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O operador-pensador do biodireito, pautado pela ética da vida, de-verá ser mais solidário, dede-verá ter a consciência de que cada ser humano tem um papel importante a cumprir, que cada um é parte do todo. A justiça só existe quando voltada para a realidade, quando se preocupa com as enormes distorções existentes na sociedade. Esse é o direito de um novo tempo. Tempo que começa aqui e agora. Tempo em que o biodireito tem importância fundamental como caminho possível para aqueles que têm um compromisso com a verdadeira justiça. A sugestão de uma base axiológica para o biodireito fundada numa ética de vida e de ser humano certamente contribui para que se veja uma luz no fim do túnel da crise na qual o direito hoje se encontra. Buscar soluções para essa crise é tarefa à qual deve se propor todo operador-pensador do direito realmente comprometido com a mudança.

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Maria Cristina Couto Scofano

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ABSTRACT

Biolaw emerges as an ethical challenge to the contemporary world. This study presents the genesis, growth, and current stage of develop-ment of bioethics, approaching its principles. It reveals a crisis of scientific knowledge and, consequently, a crisis of law. It also points a possible way to restore a human ethics from an integrating perspective. For such, it proposes to use complex thinking, whose main theoretician is the French Edgar Morin, as a viable alternative for the present situation. It focuses on biolaw as a new era in law and as a possible exit from the crisis.

Referências

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