UFRRJ
INSTITUTO DE AGRONOMIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUÇÃO EM EDUCAÇÃO
AGRÍCOLA
DISSERTAÇÃO
JECA TATU, TATUZINHO E ZÉ BRASIL:
UMA REPRESENTAÇÃO DA REALIDADE BRASILEIRA NAS
DÉCADAS DE 1910 A 1950
VICTOR HUGO NEITZKE MÜLLER
UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO
INSTITUTO DE AGRONOMIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUÇÃO EM EDUCAÇÃO AGRÍCOLA
JECA TATU, TATUZINHO E ZÉ BRASIL:
UMA REPRESENTAÇÃO DA REALIDADE BRASILEIRA NAS
DÉCADAS DE 1910 A 1950
VICTOR HUGO NEITZKE MÜLLER
Sob a Orientação do Professor
Dr. Ramofly Bicalho dos Santos
e Co-orientação da Professora
Drª Marília Campos
Dissertação submetida como requisito
parcial para obtenção do grau de
Mestre em Ciências, no Programa de
Pós-Graduação em Educação Agrícola,
Área de Concentração em Educação
Agrícola.
Seropédica, RJ
Março de 2014
UFRRJ / Biblioteca Central / Divisão de Processamentos Técnicos
630.7 M958j T
Müller, Victor Hugo Neitzke, 1981-
Jeca Tatu, Tatuzinho e Zé Brasil: uma representação da realidade brasileira nas décadas de 1910 a 1950 / Victor Hugo Neitzke Müller – 2014.
83 f. : il.
Orientador: Ramofly Bicalho dos Santos. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Curso de Pós-Graduação em Educação Agrícola.
Bibliografia: f. 66-72.
1. Ensino agrícola – Teses. 2. Lobato, Monteiro, 1882-1948 – Biografia – Teses.
3. Lobato, Monteiro, 1882-1948 –
Personagens fictícios – História e crítica – Teses. 4. Literatura infantojuvenil - História e crítica – Teses. 5. Literatura brasileira - História e crítica – Teses. I. Santos, Ramofly Bicalho dos, 1970-. II. Universidade Federal Rural do Rio de
Janeiro. Curso de Pós-Graduação em
Educação Agrícola. III. Título.
A realidade ideológica é uma superestrutura situada imediatamente acima da base econômica. A consciência individual não é o arquiteto dessa superestrutura ideológica, mas apenas um inquilino do edifício social dos signos ideológicos (BAKHTIN, 2006, p. 26).
DEDICATÓRIA
Dedico este trabalho a todos os jecas, meeiros, contingentes imensos expulsos do campo, que hoje engrossam as favelas e são chamados de vagabundos. Esta dissertação visa, sobretudo, a defendê-los dessas acusações, dando voz aos meeiros, pequenos agricultores e seus descendentes, lançando luz à questão agrária e às diferentes visões de Monteiro Lobato sobre o Jeca, personagem vital para a compreensão não só do passado, mas do presente e futuro do País.
AGRADEÇO:
- a Deus, em primeiro lugar, pelo dom da vida; - à Professora Yeda Porto, que deu a semente para a construção deste trabalho e com seus conselhos tem me auxiliado muito, desde o ano de 2008;
- ao Instituto Humanidades, em especial à amiga Adriane Porto da Silva;
- aos professores Dr. Ramofly Bicalho dos Santos e Drª Marília Campos que acreditaram neste projeto;
- ao Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia e à Universidade
Federal Rural do Rio de Janeiro que me possibilitaram ampliar horizontes e
conhecimentos pedagógicos, contribuindo para que possa me tornar um professor melhor capacitado no desempenho docente;
- à minha família e à minha esposa, Eliciane Moura de Souza, que tem me apoiado ao longo dos anos e me acompanhado, tanto no Rio Grande do Sul como em Rondônia;
- a todos que me apoiaram nesta Dissertação, contribuindo com seus depoimentos.
RESUMO
MÜLLER, Victor Hugo Neitzke. Projeto Jeca Tatu, Tatuzinho e Zé Brasil: uma
representação da realidade brasileira nas décadas de 1910 a 1950. 83 p. Dissertação
(Mestrado em Educação Agrícola). Instituto de Agronomia, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, RJ. 2014.
Muitas são as fontes e as formas de analisar a multidimensionalidade da realidade brasileira. Nesta Dissertação, a escolha recaiu na produção literária de Monteiro Lobato, analisando-se tanto sua literatura adulta quanto sua literatura infantil. Para isso, dois pressupostos deram suporte à proposta de pesquisa: o primeiro relaciona-se ao entendimento de que a literatura é importante mecanismo de propagação de ideologias; o segundo afirma-se na ideia de que a literatura, muitas vezes, vale-se de personagens fictícios para disseminar crenças, valores e propósitos. A pesquisa pretendeu configurar a realidade brasileira, nas décadas de 1910 a 1950, a partir dos personagens Jeca Tatu, Jeca Tatuzinho e Zé Brasil, frutos da criatividade de Monteiro Lobato. A investigação resultou do interesse do pesquisador pela literatura de Lobato e de sua vivência familiar junto a meeiros, os quais apresentam depoimentos sobre a realidade da vida no campo. A pesquisa, caracterizada como bibliográfica, utilizou fontes de consulta primária e secundária, o que permitiu a construção de relevante revisão de literatura, orientada para o problema e os objetivos da investigação. Mantém-se, ao longo do texto dissertativo, a preocupação em associar a produção literária analisada aos elementos históricos do contexto nacional e internacional, procurando-se destacar os movimentos político-ideológicos vigentes em cada década. Esses movimentos serviram, também, para caracterizar o pensamento de Monteiro Lobato e suas implicações na produção de sua obra e na criação de seus personagens. A análise realizada permitiu, ainda, perceber a transformação desse pensamento, identificando Lobato, primeiramente, como um ser preconceituoso e racista, capaz de ironizar seus agregados, criando o Jeca Tatu, mostrando-o como um caipira preguiçoso, um parasita responsável pelo atraso socioeconômico do Brasil. Ao tornar-se um latifundiário, assumiu a identidade de um “coronel”, envolvendo-se com a política partidária, decepcionando-se de pronto. Viveu experiências de tensão com figuras do movimento modernista, tendo sua obra sido ignorada por adeptos desse movimento. Exerceu atividade empresarial, inovando em relação ao mercado editorial. Acredita-se que foi influenciado pelas ideias de Anísio Teixeira e Henry George, motivos que o levaram a uma grande transformação de seu pensamento político-social, chegando, então, à publicação de Zé Brasil, obra considerada como o coroamento de suas reflexões a respeito do caipira e da realidade brasileira. Essas são abordagens de maior relevância nesta Dissertação, tendo permitido o aprofundamento do tema proposto no projeto de pesquisa. Ressalta-se que o pressuposto de que literatura e ideologia se aproximam constituiu-se, nesta Dissertação, como fio condutor da caminhada empreendida. Entende-se que a pesquisa possibilitou, também, o desvelamento de processos que engendraram/engendram as relações entre proprietários e não proprietários de terra, encaminhando para a inarredável Reforma Agrária. Esta Dissertação abriu horizontes para novas pesquisas concernentes à realidade do Brasil.
Palavras-chave: Vida e obra de Monteiro Lobato, Personagens Jeca Tatu, Jeca Tatuzinho e
ABSTRACT
MÜLLER, Victor Hugo Neitzke. Project Jeca Tatu, Tatuzinho and Ze Brazil: a representation of the Brazilian reality in the decades from 1910 to 1950. 83 p. Dissertation (Master Science in Agricultural Education). Instituto de Agronomia, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, RJ. 2014.
Many are the sources and ways of analyzing the multiple dimensions of the Brazilian reality. In this dissertation, Monteiro Lobato's literary production was chosen to be one of this sources, taking as material for analysis both adult's and children's literature. For this purpose, two main assumptions supported the research's proposal: the first one relates to the understanding that literature works as a mechanism of propagation of ideologies; and the second one stands on the idea that literature, many times, uses fictional characters to disseminate beliefs, values and purposes. The research intended to configure Brazilian reality, in the 1910 to 1950 decades, using as parameters the characters Jeca Tatu, Jeca Tatuzinho and Zé brasil, which are products of Monteiro Lobato's creativity. The investigation resulted from the interest of the researcher in Lobato's literature, and from the familiarity that he had with sharecroppers, who presented testimonials about the reality on the countryside. Characterized as bibliographical, this research used primary and secondary sources, which allowed a relevant literary revision, directed to the questions and objectives of the investigation. The concern of associating the literary production analyzed to the historical elements of the national and international context is kept, looking forward to highlight the political and ideological movements of each decade. This movements were also good to characterize Monteiro Lobato's thoughts and its implications on the production of his works and on the creation of his characters. The analysis performed allowed to perceive the transformation of this thought, indentifying Lobato as a racist and prejudiced being in first place, capable of mocking his aggregates, and that created the character Jeca Tatu, showing him as a lazy hick, a parasite who was responsible for the Brazilian social and economical delay. When he becomes a landowner, he assumes the identity of the "coronel" (the authoritarian landlord), getting involved with partisan politics and getting immediately disappointed. He lived tense experiences with figures of the modernist movement, his works being ignored by the members of this movement. He also dedicated to business activities, innovating the editorial market. It is believed that he was influenced by Anísio Teixeira's and Henry George's ideas, reasons that took to a huge transformation of his social and political thought, leading to the publication of Zé Brasil, a work considered as the most emblematic of Lobato's reflections around the countryside men and the Brazilian reality. This are the most relevant approaches in this Dissertation, which work as guidelines of the investigation's path. It is understood that the research also enabled the revealing of a processes that engendered/engender the relations between landowners and the ones who don't have any land, leading to the unwavering Agrarian Reform. This dissertation also opened horizons to further research concerning Brazilian reality.
Keywords: Monteiro Lobato's live and works, Characters Jeca Tatu, Jeca Tatuzinho, Zé
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 1
1 CAPITULO I A VIDA DE LOBATO: HISTÓRIAS E LUTAS PELA TERRA . 5 1.1 Monteiro Lobato: Vida e Obra ... 5
1.2 Lobato versus Modernistas, ou Lobato Modernista? ... 11
1.3 Lobato, Modernista Literário ... 15
1.4 Morte de Lobato e Perseguição aos Comunistas ... 18
2 CAPITULO II A VIOLÊNCIA SIMBÓLICA NO CAMPO ... 19
2.1 Lobato, “Coronel”? ... 19
2.2 Violência, Racismo e Preconceito contra o Jeca e Negros nas Obras Infantis de Lobato: sua Transformação ... 27
2.3 A Coerência de Lobato em Velha Praga e Urupês ... 29
2.4 Hipótese sobre o Começo da Mudança de Postura de Lobato em Relação ao Caipira ... 42
2.5 Jeca Tatuzinho ... 45
3 CAPÍTULO III LOBATO E A QUESTÃO AGRÁRIA: O PERSONAGEM ZÉ BRASIL ... 48
3.1 Revolução no Pensamento de Lobato ... 48
3.2 A Irmandade da Inteligência: Monteiro Lobato e Anísio Teixeira ... 51
3.3 Influência da Obra de Henry George no Pensamento de Lobato ... 52
3.4 Zé Brasil: Coroamento das Reflexões de Lobato ... 53
3.5 Renda da Terra ... 55
3.6 Possíveis Razões para os Mínimos Vitais ... 56
3.7 Restos Feudais ou Escravistas? ... 58
3.8 Terra e Poder Político ... 60
3.9 O Partido Comunista e a Reforma Agrária ... 61
3.10 Uma Relação Marcada pela Luta de Classes: Meeiros versus Patrões... 61
CONCLUSÕES ... 64
REFERÊNCIAS ... 66
ANEXOS ... 73
Anexo A – Uma Visão Elitista Sobre o Jeca ... 73
Anexo B – Depoimento de Terezinha ... 74
Anexo C – Éramos Doze ... 77
Anexo D – Depoimento de Luíza ... 79
Anexo E – Depoimento de Santa Fé ... 81
Anexo F – História de Divino, por Grego ... 82
INTRODUÇÃO
Os primeiros registros desta Dissertação assumem a forma pessoal, o que se justifica em razão da retomada das lembranças do autor, as quais dão sustentação à sua formação acadêmica e ao seu interesse pela pesquisa, resultando na elaboração deste trabalho dissertativo.
São Paulo, 1914.
As matas ardem e uma voz dos sertões levanta-se contra os queimadores das florestas. Indignada, a voz dos sertões acusa os caboclos, insulta-os, criando pejorativamente a figura do Jeca Tatu, que se transforma em sinônimo de caipira, o qual causa, segundo Lobato, o atraso e o subdesenvolvimento do Brasil.
Pelotas, 1988. Ala Infantil da Biblioteca Pública Pelotense.
Com seis anos de idade, entro em contato com a obra de Monteiro Lobato, com o mundo maravilhoso e encantado do “Sítio do Picapau Amarelo”. Entro em contato, também, com o universo Disney, as “Mil e Uma Noites”, dentre tantos outros livros.
Era minha iniciação no mundo fantástico da Literatura Infantil.
Pelotas, 2002. Biblioteca Pública Pelotense.
Catorze anos após minha iniciação na Literatura Infantil de Lobato, acabo encontrando, quase por acaso, a obra de ficção científica, “O Presidente Negro”, primeira obra adulta da literatura de Lobato com a qual tive contato. Descubro um escritor bem diferente do que conheci na minha infância. Acabei encontrando um escritor elitista e, de certa forma, racista, para meu espanto e decepção.
Em vias de concluir o Curso de Graduação, pesquisei, na mesma Biblioteca, no jornal “A Opinião Pública”, sobre a Ação Integralista Brasileira, concluindo, assim, minha monografia.
Pelotas, 2008.
No Curso de Especialização, escrevi um artigo sobre Zé Carioca, resultante da pesquisa sobre as histórias em quadrinhos daquele personagem, no período entre a década de 1950 até o fim da década de 1980. Começava a ter um entendimento maior sobre as ideologias propagadas pelas supostas inocentes histórias infantis.
Cuiabá, 2010.
As matas ardem devido às queimadas. Pessoas no campo e na cidade incendeiam o que encontram, revivendo hábitos milenares. Como resultado, os hospitais estão lotados com pessoas sofrendo com problemas respiratórios; mal se consegue enxergar o sol.
Brasil, dias atuais.
Percebo, pelos dados divulgados, que o Brasil ainda sofre com inúmeras doenças, que poderiam ser prevenidas. Lobato também escreveu sobre o sofrimento que as doenças provocavam nos brasileiros de ontem, vulnerabilidade ainda presente nos tempos atuais.
Descubro, aos poucos, que Lobato, além de ter inventado um mundo à parte – “O Sítio do Picapau Amarelo”, com inúmeros livros, também criou uma literatura adulta ou geral. Reunindo-se a Literatura Infantil com a Literatura Geral, chega-se a mais de dez mil páginas publicadas da obra de Monteiro Lobato.
E com tantas obras publicadas de Literatura Adulta, sua produção me era desconhecida, ignorada – mesmo para mim, assíduo frequentador de bibliotecas.
Localizei, em seguida, um artigo que fazia referência à falta de moradia para grande parcela da população brasileira. Relacionei tal situação à problemática do campo, o que despertou meu interesse em aprofundar o conhecimento sobre o personagem que representou a imagem distorcida e injusta do campesino – o Jeca Tatu. Associei-o, de imediato, à minha
2 vivência em uma família de meeiros, homens e mulheres que labutavam, de modo sofrido, na terra que não lhes pertencia (ANEXO A).
Percebi, então, que era o momento de iniciar uma pesquisa sobre a obra de Lobato, para tentar entender a realidade rural brasileira, compreendê-la em profundidade, em essência, superando entendimentos superficiais baseados no senso comum.
Inicio, no ano de 2009, a pesquisa sobre a obra de Lobato, livro a livro, na tentativa de compreender esse escritor e o Brasil de seu tempo em profundidade. No começo da pesquisa, percebi que estava iniciando um mergulho profundo na obra desse grande escritor, um recuo no tempo. Para tanto, precisei fazer um recorte em sua volumosa obra. Ao ler “Cidades Mortas”, “Urupês”, “Problema Vital” e “Zé Brasil”, dentre outras, senti como se tivesse aberto uma trilha no Brasil selvagem e rural do início do século XX.
Na pesquisa sobre o que mestres e doutores analisam a respeito desse grande escritor, acabei percebendo que Lobato, apesar de sua grande obra, é ignorado, devido, talvez à rixa entre modernistas e esse escritor, que foi considerado pelos modernistas apenas um pintor, sendo sua obra literária geral, ignorada e silenciada.
E, por meio de noticiários, jornais, internet, observei que outros pesquisadores teriam encontrado provas concretas de que Lobato era racista. Isso suscitou fervorosas discussões no meio acadêmico, com pesquisadores, de um lado, defendendo o criador de Emília, e, de outro, pesquisadores acusando-o de racismo. Como punição, opinavam estes, suas obras deveriam ser censuradas, proibindo sua venda para o governo brasileiro. Lobato literalmente deveria ir para o banco dos réus, sendo considerado uma espécie de Hitler para muitos.
Com todas essas polêmicas e, sobretudo, por causa delas a respeito do criador de Jeca Tatu, Emília, Jeca Tatuzinho, Zé Brasil, mesmo transcorridas mais de seis décadas de sua morte, lancei-me à pesquisa e análise relativa à sua produção literária, para que, entendendo o
passado, possa tentar compreender melhor o presente, a realidade brasileira.
Iniciei, pois, a partir daí, meu trabalho.
Ressalta-se que os registros efetivados, a seguir, assumem a forma impessoal da comunicação.
A intenção da pesquisa alicerçou-se nos seguintes pressupostos:
- toda realidade precisa ser desvelada e interpretada em razão de sua complexidade (MARX, 1987);
- o período demarcado para a pesquisa foi constituído por importantes acontecimentos, dentre os quais a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, implicando significativas transformações político-sociais no Brasil e no Mundo;
- a trajetória humana, em suas diferentes fases, foi marcada por ideologias que serviram para configurar posicionamentos e relações entre grupos étnicos, raciais e classes sociais;
- a literatura é importante mecanismo de propagação de ideologias;
- a literatura vale-se, muitas vezes, de personagens fictícios para disseminar crenças, valores e propósitos;
- o século XX foi pródigo em ocorrências que buscaram controlar, dirigir e até produzir literatura sob a égide da ideologia (CALIL, 2012);
- a literatura pressupõe a articulação livre dos sentimento e pensamentos dos seres humanos; quando os literatos seguem uma tendência ideológica para o seu pensar, perdem sua independência de pensamento (CALIL, 2012);
- a ideologia requer uma estrutura conceitual filosófica a respeito do mundo e de seus valores correspondentes, servindo como base orientadora ao Estado e às estruturas sociais;
- literatura e ideologia aproximam-se, porque ambas se movimentam no campo da experiência subjetiva; entretanto, os modos de conceber e de formalizar essa experiência são distintos: a literatura singulariza os objetos da percepção, combinando as fantasias do sujeito,
3 enquanto a ideologia reduz, uniformiza os segmentos, oculta diferenças, os momentos descontínuos ou contraditórios da subjetividade; a literatura dissemina, a ideologia fixa cada signo e cada ideia em um determinado lugar, reduzindo o universo do sentido (BOSI, 2012);
- as diferenças entre literatura e ideologia no modo de conceber a experiência do sujeito devem conduzir a um movimento de dialetização, permitindo a coexistência dos opostos, reconhecendo que “[...] a ideologia, enquanto costura de representações e de valores, integra a escrita, queiramos ou não acolher a sua presença” (BOSI, 2012, p. 3); assim, a ideologia não deve fechar os horizontes das leituras possíveis de um texto literário;
Reafirma-se que as ideologias se fazem presentes nas obras literárias e que nessa direção se ressaltam três personagens de Monteiro Lobato – Jeca Tatu, Jeca Tatuzinho e Zé Brasil.
Por um lado, apoiado nesses pressupostos e, por outro, atendendo ao interesse do pesquisador pelo tema, uma vez que já desenvolvera pesquisa sobre Zé Carioca, personagem de história em quadrinhos, tendo sido possível desvelar a ideologia subjacente aos seus procedimentos e identificar aspectos significativos da realidade brasileira, foi elaborado o projeto de pesquisa.
Definido o problema de pesquisa, delineou-se o objetivo geral da investigação, pretendendo-se compreender a realidade brasileira, no período de 1910 a 1950, estabelecendo relações com o contexto econômico, político e ideológico vigente.
Para tanto, foram selecionados os objetivos específicos:
1) identificar as ideologias propagadas pelos personagens Jeca Tatu, Jeca Tatuzinho e Zé Brasil, estabelecendo comparação entre Jeca Tatu e sua reencarnação com espírito mais crítico em Zé Brasil.
2) diferenciar posições e ideais progressistas de Lobato como contradição a posições consideradas reacionárias, por ele assumidas, como o preconceito contra os caipiras, os negros e os mulatos.
3) analisar criticamente a realidade político-social brasileira, principalmente aquela relacionada à questão agrária, desvelada pelos personagens criados por Monteiro Lobato.
Esta Dissertação decorre de pesquisa bibliográfica e utilizou fontes primárias e secundárias, a fim de construir o referencial teórico. Encontra-se estruturada da seguinte maneira:
a) introdução, na qual se busca situar o leitor quanto ao tema, problema e objetivos do trabalho, destacando pressupostos que deram sustentação à escolha teórico-metodológica, justificando a realização da pesquisa;
b) desenvolvimento, organizado em três capítulos, contendo revisão teórica e análise de fontes informativas acerca do tema em estudo: no primeiro capítulo – A vida de Lobato: histórias de lutas pela terra – são abordados aspectos relacionados à vida e obra do escritor; sua relação com os modernistas; sua constituição como modernista literário; a morte de Lobato e a perseguição aos comunistas; no segundo capítulo – A violência simbólica no campo – são destacadas abordagens que caracterizam Lobato como preconceituoso em relação ao Jeca Tatu e aos negros, assim como sua mudança de postura relativamente ao caipira; no terceiro capítulo – Lobato e a questão agrária: o personagem Zé Brasil – são contempladas abordagens relativas à irmandade entre Anísio Teixeira e Monteiro Lobato; a influência de Henry George na transformação do pensamento do “coronel Lobato”; Zé Brasil como coroamento das reflexões de Lobato sobre o caipira e a realidade brasileira, com destaque para questões político-econômicas ; o Partido Comunista e a Reforma Agrária;
c) conclusões, reafirmam os pressupostos considerados de maior relevância no desenvolvimento do trabalho, ressaltando a importância da análise da literatura de Monteiro Lobato, através de personagens por ele criados, para a representação da realidade brasileira nas décadas de 1910 a 1950.
4 Os depoimentos, em anexo, trazem a voz e o sentimento de meeiros, personagens reais da vida no campo, seres humanos que fazem parte da constelação familiar do pesquisador.
Constam desta Dissertação, ainda, as referências que serviram de fontes à construção teórica da pesquisa, o que permitiu inferir que existem vastos e importantes estudos sobre a obra de Monteiro Lobato, cuja consulta e análise permitiu configurar a realidade brasileira nas décadas estabelecidas para a pesquisa.
5
1
CAPITULO I
A VIDA DE LOBATO:
HISTÓRIAS E LUTAS PELA TERRA
RESUMO
Neste Capítulo, procura-se relacionar alguns episódios da vida e da obra de Monteiro Lobato com episódios da História Nacional e Internacional, mostrando como a História e a condição de classe influenciam os indivíduos nas suas decisões político-sociais. Importante ressaltar-se que até os seis anos de idade, de 1882 a 1888, Lobato vivera num Brasil Imperial e Escravocrata, o que talvez ajude a compreender o contexto que criou um Monteiro Lobato preconceituoso em relação aos caipiras e negros. Mostra-se a constituição político-ideológica do homem e do escritor Monteiro Lobato.
Palavras-chave: Monteiro Lobato, Vida e obra, Caipiras e negros.
1.1 Monteiro Lobato: Vida e Obra
Noite de 18 de abril de 1882: nasceu, em Taubaté, Estado de São Paulo, o primogênito dos proprietários das fazendas Paraíso e Santa Maria, casal José Bento Marcondes Lobato e Olímpia Augusta Monteiro Lobato. Era neto, pelo lado materno, de José Francisco Monteiro, Visconde de Tremenbé. Recebeu o nome de José Renato (GOMES, 2013).
Segundo informa Lajolo (2000, p. 13), era tratado, entre os familiares, pelo apelido de Juca,
[...] e Juca será para eles pela vida afora, mesmo depois que, por volta dos onze anos, decide mudar de nome: prefere José Bento, cujas iniciais coincidem com as letras encastoadas em ouro numa bengala de seu pai. Juca cobiça a bengala, naquele tempo complemento indispensável à elegância masculina. A situação é emblemática da força de vontade, do senso prático e da garra do menino que viria a ser o famoso escritor Monteiro Lobato.
A infância de Monteiro Lobato decorreu no aconchego doméstico, em uma família medianamente abastada do interior paulista, no fim do século XIX. Entremeava a vida na roça, em Ribeirão das Almas, com longas temporadas na casa que a família possuía em Taubaté, bem como em demoradas visitas à casa do avô Visconde, em uma chácara.
Esse intercâmbio entre a cidade e a roça marcou a vida e obra de Monteiro Lobato. Cavalheiro (1956, p. 25) aponta que Lobato em sua juventude, quando podia,
6
[...] esgueirava-se para a biblioteca do avô, e ali punha-se a folhear as revistas ilustradas. A abolição fora declarada quando ele tinha seis anos, mas os escravos estavam forros antes do decreto da Princesa Isabel, pois homem de alguma leitura, o Visconde, embora apegado ao princípio de autoridade quase ilimitada de um típico patriarca da monarquia, não era refratário às novas ideias; alforriara todos os escravos, e os que – a maioria deles –permaneceram na fazenda, transformando-se em assalariados livres. Das senzalas e dos troncos só restavam reminiscências. Não se falava no assunto. A preocupação geral era o preço do café e as safras, que ora eram esplêndidas, ora péssimas.
Uma vida sem preocupações, desfrutada entre um campo idealizado, sem luta de classes e injustiças sociais e a cidade, com todos seus confortos modernos. Assim vivia o jovem Monteiro Lobato com um avô que poderia ser considerado progressista, já que ele se antecipara à Princesa Isabel e libertara os escravos. Essa vida tranquila é mudada a partir do ano de 1896, quando Lobato, com catorze anos de idade, convive com jovens muito mais ricos do que ele e, segundo Cavalheiro (1956, p. 41),
[...] ouve contar essas e outras loucuras dos milionários de São Paulo, e seus comentários à mãe, se não traduzem revolta, não ocultam o pasmo. Terá, com certeza, perguntado muitas vezes a si mesmo, o porquê de tanta diferença, quando ele anda sempre tão curto de dinheiro, tão curto que pede à mãe que não lhe mande mais frutas porque tem de pagar 2$000 a um carregador e “cada vez mais que despendo essa quantia é com muito dó de coração”. É neto de um Visconde, homem possuidor de muitas terras e propriedades, mas leva na Paulicéia vida de estudante pobre. Seus pais andam doentes, é com enormes sacrifícios que puderam mandá-lo para a capital.
Apesar de saber que é de origem rica e latifundiária, a convivência com jovens mais ricos e esbanjadores fará com que Lobato, de certa maneira, entre em contato com as desigualdades sociais, o que talvez se reflita em sua simp atia pelos ideais socialistas. E como resultado dessa simpatia, em 11 de agosto de 1903, num artigo intitulado “A Fuga dos Ideais”, Lobato (2008, p.106) afirmava que “[...] atualmente só vemos um ideal bastante generoso, bastante amplo para acolher em seu seio tudo quanto a mocidade tiver de mais superiormente generoso, de mais finamente intelectual, de mais grandiosamente altruísta – o socialismo”.
Enquanto Monteiro Lobato “sofria” no ano de 1896 pelo fato de ter piores condições econômicas do que seus colegas mais ricos, o governo brasileiro “sofria” para derrotar os valentes sertanejos na Guerra de Canudos, na Bahia, entre 1893 -1897.
Aproximadamente vinte e cinco mil camponeses se sacrificaram nessa luta por terra. Canudos foi arrasada e seus habitantes degolados pelo exército brasileiro a mando de uma “elite que se considerava progressista”, mas, parafraseando Euclides da Cunha (2002), o povo humilde “não se rendeu” e inspirou e inspira, até hoje, militantes de movimentos sociais que cantam os feitos dos heróis da luta popular em Canções da Terra (SÁ, 2014, p. 20), como pode ser observado na música Adelante Companeros: “Che, Zumbi, Antônio Conselheiro, na luta por justiça, somos companheiros”.
Esse e outros conflitos demonstravam que o Brasil estava em guerra, não contra um país estrangeiro, mas contra seu próprio povo, camponeses simples e trabalhadores.
Se, aos vinte e um anos de idade, Lobato já demonstrara simpatia pelo socialismo, como se explica o fato de não se dispor de outros escritos sobre o tema, nesse período de sua vida? O que poderia explicar isso, conforme observa Cavalheiro
7 (1956), seria a leitura de Gustave Le Bon1, pelo jovem Monteiro Lobato, fato que teria efeito arrasador sobre suas crenças, não só católicas, como socialistas. Para o me smo autor (1956, p. 64), “[...] o drama espiritual que está vivendo é ainda mais de ordem literária e filosófica do que propriamente política, ou social”.
Em 1904, Lobato formou-se em Direito na Faculdade do Largo de São Francisco, em São Paulo. Durante a Graduação, participou de vários jornais da Faculdade, colaborando com suas produções literárias.
Apenas anos mais tarde é que o drama de Lobato passou da ordem literária para a ordem política e social. Acredita-se que isso ocorreu com a descoberta do drama das doenças vividas pelos homens e mulheres do campo. Em “Problema Vital”, que reúne uma série de artigos publicados no Estado de São Paulo, em 1918, é que Lobato cita novamente Gustave Le Bon, mas no sentido de não acreditar mais em suas ideias.
E, na obra “A Barca de Gleyre” (LOBATO, 1944), encontra-se a informação de que Lobato leu o livro de Gustave Le Bon, “Psicologia do Socialismo”, datado de 1904. Ainda assim, não se sabe quem o influenciou quanto às ideias socialistas. Fato importante em sua construção ideológica refere-se à carta de dois de junho de 1904 (LOBATO, 1944, p. 59), na qual o escritor muda de opinião em relação ao socialismo:
São Paulo , 2, 6, 1904.
Todos nós, Lino, Albino e Tito, andamos agora rebelados contra o socialismo de Ricardo – e ele em vez de refutar-nos, sofre, vê nisso hipotenusas, atacando um perfume. A mim o que está me fazendo vacilar nas velhas ideias é um livro de Le Bon: Psicologia do Socialismo.
No ano de 1904, ocorria a Guerra da Vacina, episódio acontecido no Rio de Janeiro, em que a “elite” intelectual tomara a decisão de vacinar, de forma obrigatória, a população, sem ter sido feita suficiente conscientização. De acordo com a mentalidade dessa “elite” latifundiária, ainda com característica escravocrata, certamente não seria necessário diálogo com a população: o que a “elite” decidisse seria o melhor. Lobato, como parte dessa “elite”, ainda estava impregnado da ideologia dos latifundiários e escravocratas. Essa ideologia manifestava-se nas suas cartas e em manifestava-seus livros, revelando sua posição em relação aos negros e aos caipiras.
Em 1906, Monteiro Lobato foi nomeado Promotor Público Interino em Taubaté e, em 1907, assumiu como Promotor Público em Areias, cidade na divisa de São Paulo com Rio de Janeiro.
Na pesquisa desenvolvida, foram identificados diferentes posicionamentos de Lobato em relação aos caipiras, aos negros e mulatos2.
1
Gustave Le Bon (1841-1931): psicólogo, físico amador e sociólogo francês; considerado um dos nomes mais
importantes da área da Psicologia; abordou temas de relevância no século XX: Psicologia das Massas, Comportamento de Manada, Superioridade de Raça; suas teorias mereceram estudos por parte de pesquisadores da comunicação midiática (ARAÚJO, 2014).
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A simpatia de Lobato em relação aos caipiras manifestou-se, sobretudo, em sua obra artística como pintor. No período entre 1913 e 1916, observou-se que Lobato desenvolveu grande antipatia pelo caipira, o que se refletiu tanto nos contos, como nos artigos “Velha Praga” e “Urupês”. Logo após a morte de Ricardo Gonçalves, Monteiro Lobato voltou a ter simpatia pelos jecas, o que se refletiu em carta a Godofredo Rangel, e, sobretudo, no livro “Problema Vital”, em que Lobato mostrou grande preocupação com a saúde dos camponeses. Em relação ao preconceito contra os negros, este se manifestou tanto em contos, como nas cartas contra Tia Nastácia e, até mesmo, ações relatadas pelo próprio Lobato, conforme é possível observar-se ao longo desta dissertação. Entretanto, no decorrer de sua trajetória, Lobato modificou sua posição racista contra os negros, o que é evidenciado em sua produção literária (LOBATO, 1957, 2009, 2010).
8 Em 1908, casou-se com Maria Pureza Natividade de Souza Castro. Nesse mesmo período, Lobato traduziu artigos (O Estado de São Paulo), escreveu para a “A Tribuna” (Santos), além de fazer caricaturas para a “Revista Fon-Fon” (Rio de Janeiro).
Em 1911, Monteiro Lobato herdou a fazenda Buquira, na qual passou a viver. Dedicou-se, então, à modernização da lavoura e da criação. Começou ali, efetivamente, seu contato com os homens e mulheres do campo, realidade que conhecera, até então, em aparência, não em essência.
No ano de 1914, “apagaram-se as luzes na Europa” com o início da Primeira Guerra Mundial. Nesse mesmo ano, no dia 12 de novembro, Lobato publicou, pelo Jornal Estado de São Paulo, o artigo “Velha Praga”, que inaugurava “[...] a figura do anti-herói, o Jeca Tatu, em um texto no qual Monteiro Lobato descarrega toda a sua indignação com as práticas incendiárias e ociosas do caipira” (FERNANDES E OUTROS, 2014, p. 1).
Este artigo funcionou como uma denúncia, fato que
[...] levou o editor do jornal a insistir para que Lobato lhe enviasse mais artigos. Nascia, assim, uma carreira de longa colaboração jornalística. A carta foi importante também por outra razão: é nela que o escritor cita pela primeira vez o nome do personagem a que ele ficará associado para sempre: Jeca Tatu (AULER E OUTROS, 2013, p. 2).
Em 23 de dezembro de 1914, o mesmo jornal publicou “Urupês”. Esses artigos, supõe-se, seriam anti-povo, anticamponês e anti-jeca, já que Lobato estava impregnado da ideologia latifundiária e das dificuldades em controlar seus agregados. Nesses artigos, era encontrada a síntese de uma ideologia latifundiária, burguesa, até escravocrata, apoiada numa análise simplista da realidade (em aparência), em que Lobato bancava o etnógrafo e acreditava ter descoberto o verdadeiro parasita do Brasil: o Jeca.
No ano de 1916, Lobato passou a ter envolvimento com a política, quando tentou representar um papel como coronel, sendo chefe político da oposição. Como muitos brasileiros, desiludiu-se da política. Enquanto isso, no interior de Santa Catarina, o governo brasileiro estava em guerra total contra os camponeses, no triste episódio da Guerra do Contestado, utilizando-se de aviões para massacrá-los. Este episódio, como tristemente comprova a história de Canudos, mostrou, mais uma vez, como a “elite” brasileira tratava os camponeses e os mais pobres – a ferro e fogo.
Em 1917, ano da Revolução Russa, Lobato vendeu a fazenda na qual vivia, encerrando sua carreira de seis anos como fazendeiro.
Em maio de 1918, comprou a editora que publicava a Revista do Brasil, transferindo-se com sua família para São Paulo. Trocou o nome da editora para Monteiro Lobato & Companhia. Conforme Angelotti (2013, p. 2), Monteiro Lobato revolucionou o mercado de livros “[...] com relação à distribuição dos mesmos, pois vendia seus livros de porta em porta, em mercearias, pelo correio, em todo o País. Foi um dos primeiros editores a colorir capas de livros, de torná-las atraentes, além de ilustrá-los. Definitivamente, Lobato inovou o mercado literário”.
Em novembro de 1918, terminou a Primeira Guerra Mundial com a vitória do bloco aliado (Inglaterra, Estados Unidos, Itália, Po rtugal, França e Rússia, esta até 1917). Um mês após o término do conflito, Lobato adquiriu a Companhia Editora Nacional, tendo revolucionado o mercado de livros no Brasil, transformando o livro em mercadoria, vendido em farmácias, comércios e armazéns, co ntribuindo, desse modo, com a cultura nacional. Na campanha eleitoral de 1919, Rui Barbosa fez bela análise
9 crítica sobre Jeca Tatu, aumentando as vendas de “Urupês” e projetando ainda mais a figura de Monteiro Lobato.
No ano de 1920, Lobato publicou “A Menina do Narizinho Arrebitado”, iniciando, aos trinta e oito anos de idade, a literatura infantil brasileira. Este conto introduziu a personagem título – Lúcia, e sua boneca de pano – Emília. No ano seguinte, publicou “Reinações de Narizinho”, livro que iniciou a série “Sítio do Picapau Amarelo”, introduzindo personagens como Pedrinho e Visconde de Sabugosa, valendo -se, para configurar o Sítio, de lembranças de sua própria infância.
Sua editora faliu em 1925, tendo sido considerada, durante muito tempo, a maior do Brasil (ANGELOTTI, 2014).
Em sua trajetória como literato, Monteiro teve relação difícil com a Academia Brasileira de Letras- ABL, marcada, essencialmente, por três episódios.
Em 1925, o escritor tentou uma vaga na Academia Brasileira de Letras, nã o obtendo a unanimidade exigida entre os acadêmicos. Posteriormente, inscreveu -se mais uma vez, mas retirou sua candidatura antes do pleito, não mais pretendendo uma vaga entre os “imortais”. Todavia, estes o indicaram, em 1944, para ocupar a vaga de Alcid es Maya, falecido naquele ano. A fim de cumprir ritual previsto no Regimento da ABL, Lobato deveria enviar ao Presidente da Academia “[...] carta em que declararia aceitar sua indicação e estar concorrendo efetivamente à vaga” (MAGALHÃES, 2014, p. 1). Em lugar dessa carta, enviou uma missiva, datada de onze de outubro de 1944, cujos excertos são transcritos a seguir:
[...] o Regimento impõe a declaração do meu desejo de concorrer à vaga, e isso me embaraça. Já concorri às eleições acadêmicas no bom tempo em que alguma vaidade subsistia dentro de mim. O perpassar dos anos curou -me e hoje só desejo o esquecimento de minha insignificante pessoa. Submeter -me, pois, ao Regimento seria infidelidade para comigo mesmo – duplicidade a que não me atrevo. De forma alguma esta recusa significa desapreço à Academia, pequenino que sou para menosprezar tão alta instituição (MAGALHÃES, 2014, p. 2).
Lobato continuou apresentando suas justificativas, declarando que sua recusa representava tão somente coerência consigo mesmo, “[...] reconhecimento público de que rebelde nasci e rebelde pretendo morrer” (MAGALHÃES, 2014, p. 2). Conclui a mensagem da seguinte maneira:
Mal comportado que sou, reconheço o meu lugar. O bom comportamento lá de dentro me dá aflição... Peço, senhor presidente, que transmita aos dez signatários os protestos da minha mais profunda gratidão e um afetuoso abraço deste admirador e amigo, Monteiro Lobato (MAGALHÃES, 2014, p. 3).
Em 1927, foi nomeado adido comercial brasileiro em Nova Iorque, para onde se mudou. Lá se entusiasmou com o progresso e a pujança do capitalismo norte-americano (LAJOLO, 2000).
Em 1929, ocorreu a crise da Bolsa de Valores, sendo que perdeu quase todo o seu patrimônio, resultado da oscilação cíclica do capitalismo. Mesmo assim, Lobato manteve a fé no capitalismo e na livre iniciativa.
Em 1931, depois de retornar ao Brasil, começou a campanha pelo petróleo, com o objetivo de desenvolver o Brasil. Os recursos foram garantidos pela publicação de histórias infantis e tradução de livros (LAJOLO, 2000).
10 Em 1934, ano em que o Fascismo, o Nazismo e o Varguismo se encontravam em ascensão, inclusive com o Integralismo no Brasil, seu livro “História do Mundo para Crianças” começou a sofrer críticas e censuras da Igreja Católica (LAJOLO, 2000).
Em 1936, diante dos obstáculos impostos por Getúlio Vargas à exploração de petróleo no Brasil, Monteiro Lobato lançou o livro “O Escândalo de Petróleo”, censurado em 1937. Neste mesmo ano, Lobato lançou “O Poço do Visconde”, enquanto o Integralismo e o Varguismo continuavam a crescer no Brasil. O nazi-fascismo expandia-se pela Europa e pelo mundo, seja por movimentos políticos, seja pela força militar, como o ataque de Mussolini a Abissínia. Importante ressaltar-se que no livro “O Escândalo de Petróleo”, Lobato já demonstrava simpatia pelo comunismo, relatando toda sua luta pelo petróleo e contra o capitalismo internacional, representado pelas Companhias de Petróleo estrangeiras, empenhadas em não deixar que o Brasil explorasse o petróleo e se desenvolvesse, segundo os conceitos do escritor (LOBATO, 2011).
No Brasil, a luta entre fascismo e comunismo evidenciava-se em violentos confrontos entre Integralistas e Comunistas, membros, respectivamente, da Ação Integralista Brasileira (AIB) e Ação Nacional Libertadora (ANL).
A AIB, entidade política de caráter nazi-fascista, atuou no Brasil entre outubro de 1932 – data da sua fundação – e março de 1938, quando se extinguiu diante do fracasso de um golpe ao Palácio do Catete, meses após a implantação do Estado Novo. Plínio Salgado, seu principal líder, a partir daquele momento, foi exilado para Portugal, retornando ao Brasil apenas em 1945, após o término da Segunda Guerra Mundial, iniciada em 1939, e a consequente redemocratização do País (FAUSTO, 1994).
O Integralismo estava inserido no contexto internacional de crise do capitalismo e recuo das democracias liberais, após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e o avanço das ideologias e regimes totalitários, representados pelo fascismo na Itália, sob a direção de Benito Mussolini (1922-1944), o nazismo na Alemanha, sob a liderança de Adolf Hitler (1933-1945), a ditadura de Franco na Espanha (1936-1976) e a ditadura de Salazar em Portugal (1932-1968). A Ação Integralista Brasileira tinha, como programa, valores burgueses como a defesa da família, da propriedade privada (latifúndio), das tradições do País e da Igreja Católica.
Já a Ação Nacional Libertadora contrapunha-se radicalmente ao Integralismo, uma vez que este tinha um programa revolucionário que defendia a reforma agrária, a luta de classes e criticava as religiões e os preconceitos. Tinha como lema “Pão, terra e liberdade”. A ANL teve vida curta perante seu adversário político – março1934 a abril de1935, o Integralismo. Isso ocorreu devido à repressão dos órgãos do governo e dos confrontos com os integralistas. Os comunistas liderados por Prestes foram perseguidos por Vargas, em 1935, com a proibição da Ação Nacional Libertadora, num ensaio do que seria a ditadura do Estado Novo, no período de 1937 a 1945 (FAUSTO, 1994).
Ao tempo dessa perseguição, ainda faltavam quatro anos para um novo conflito mundial, que, assim como a Primeira Guerra Mundial, teve origem nas disputas imperialistas. O mundo lentamente caminhava para o grande conflito. Lobato se mostrava favorável aos membros da ANL, em especial ao seu grande líder, Luiz Carlos Prestes, que foi por ele homenageado no livro “Mister Slang e o Brasil” (1927).
Novamente, “as luzes se apagaram na Europa”, com o início da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Carta de Monteiro Lobato ao ministro da Agricultura precipitou a abertura de um inquérito sobre o petróleo (LOBATO, 2011).
Em fevereiro de 1939, morreu Guilherme, filho de Monteiro Lobato.
Em 1940, houve uma tentativa de cooptação por parte da Ditadura do Estado Novo, liderada por Vargas, que convidou Lobato para o Ministério da Propaganda (CAVALHEIRO, 1956).
Em 1940, foi assinado, em Berlim, o tratado Roma-Berlim-Tóquio, formando o Eixo, composto por Itália, Alemanha e Japão, que tinha por objetivo derrotar os aliados, em especial, os
11 Estados Unidos e a União Soviética, que entraram no conflito no ano de 1941. Em vinte e dois de junho de 1941, a Alemanha invadiu a União Soviética e, em oito de dezembro de 1941, os japoneses atacaram a base de Pearl Harbor, provocando a entrada dos Estados Unidos no conflito.
Os soviéticos tiveram papel fundamental na vitória dos aliados, tendo em vista que as forças do nazi-fascismo sofreram perdas imensas no território soviético, ao contrário do mito construído por Hollywood que propagava que os norte-americanos, sozinhos, teriam conseguido derrotar o eixo.
Na Europa, em 1941, ocorreu a operação Barba Rossa, quando Hitler invadiu a União Soviética, enquanto que, no Brasil, fracassou a tentativa de cooptação, por parte de Getúlio Vargas, para que Lobato participasse da Ditadura. Além disso, Lobato enviara carta para Vargas, tida como subversiva, em 1941, acabando por ser preso pelo período de três meses. Esses acontecimentos contribuíram para aumentar o pessimismo do escritor em relação ao Brasil e ao mundo, agravado pela morte do filho Edgar, em treze de fevereiro de 1943 (CAVALHEIRO, 1956).
E em 1944, graças à força da indústria norte-americana e ao sacrifício de milhões de soviéticos (ao final do conflito, os soviéticos tiveram vinte milhões de mortos) o Eixo, já estava quebrado, tendo sofrido derrotas na África, Europa e Ásia.
Vargas apoiava os Aliados e as Democracias, enquanto que, internamente, o Brasil vivia os horrores do Estado Novo. Lobato foi indicado como “imortal” pela Academia Brasileira de Letras, título recusado como já referido, pois a Academia havia consagrado Vargas como “imortal”. E Lobato já tinha se transformado em inimigo mortal da Ditadura Varguista.
Em 1945, as luzes começaram a se acender na Europa e no mundo. Chegara ao fim a Segunda Guerra Mundial. No Brasil, encerrara-se o Estado Novo. Lobato recebeu convite para integrar a bancada de candidatos do Partido Comunista Brasileiro. Enviou saudação a Luís Carlos Prestes, a ser lida no comício do Pacaembu. Mesmo mostrando sua admiração pelos comunistas, Lobato recusou participar como Deputado. Uma hipótese aceitável para o não ingresso como Deputado pode ser explicada pela aliança que os comunistas fizeram com Vargas. Além disso, se acrescentaria o desencanto de Lobato pela política, quando participou como chefe da oposição municipal, no distante ano de 1916 (LOBATO, 1957).
Em 1946, mudou-se para a Argentina, Foi contrário à fundação de um Museu de Arte Moderna em São Paulo. A Guerra Fria entre capitalistas e comunistas estava apenas começando. E a guerra contra os modernistas e seus herdeiros segue até hoje, sem armistício no campo literário, conforme se analisa no subcapítulo a seguir.
Monteiro Lobato morreu em 1948, com sessenta e seis anos de idade, vítima de espasmo cerebral, tendo sido velado na Biblioteca Municipal de São Paulo (AULER E OUTROS, 2013, p. 2).
1.2 Lobato versus Modernistas, ou Lobato Modernista?
Analisa-se, aqui, as tensas relações de Lobato com os “modernistas”3, abordagem incluída nesta Dissertação como consequência do fato de, no decorrer da pesquisa, ter sido identificado que autores consagrados da literatura brasileira ignoraram a obra de Monteiro Lobato.
3
Modernistas: artistas que, no início do século XX, defendiam um novo conceito de arte; os modernistas brasileiros desejavam mostrar a realidade brasileira, com suas favelas, seu povo marginalizado, sem idealismos românticos; o movimento modernista abrangia literatura, arquitetura, design, pintura, escultura, teatro, música, organização social; pretendia a ruptura estética com padrões acadêmicos vigentes (PAVAN, 2014).
12 Essa análise contempla enfoques relativos às relações de poder, suas causas, o conflito em si, as tentativas de ignorar a obra de Monteiro Lobato e o modo como os lobatianos têm reagido ao vazio acerca desse escritor na crítica literária.
Um registro de Ortiz (1994, p. 45), referindo-se a Roland Corbisier (1959), revela o tom acalorado dos modernistas quanto a seus posicionamentos: “[...] costumava dizer que antes do movimento modernista o que tínhamos no Brasil era simplesmente pré-história”, entendida esta como insignificante, que o Brasil seria ágrafo e que simplesmente não houve literatura no Brasil, o que, com certeza, não corresponde à realidade dos fatos.
Nesse sentido, Ortiz (1994, p. 8) afirma: “Na verdade, falar em cultura brasileira é falar em relações de poder. Quando os intelectuais do ISEB4 afirmam, por exemplo, que não existe um pensamento brasileiro anterior ao modernismo, o que de fato eles estão fazendo é introduzir um corte arbitrário na história”.
Alguns indícios de divergências de Lobato com os modernistas já se encontravam anunciadas em 1916, referidas assim por ele: “Pelo Correio o Oswald de Andrade me combateu as ideias „anti-litoralistas‟(LOBATO, 1944, p. 67)”. Ainda não era o início do conflito aberto, mas, dentro do próprio modernismo, identificavam-se dois grupos: os que defendiam o litoral como a melhor representação do brasileiro e o grupo dos verde-amarelos, defensores dos sertões, que “[...] identificariam o interior com a brasilidade e autenticidade, em contraposição ao litoral, visto como cosmopolita e artificial” (VELLOSO, 2010, p. 93).
Com esses indícios, é possível formular a hipótese de que Lobato tinha maior simpatia pelo grupo verde-amarelo, cuja confirmação fica na dependência de novas pesquisas.
Encontra-se outra crítica de Lobato a Oswald de Andrade, em carta de 1916, encaminhada a Rangel5, na qual expressa: “E depois publicaremos o nosso livro conjunto, por amizade, não por cabotinismo, como o Oswald e o Guilherme de Almeida” (LOBATO, 1944, p. 107).
É possível situar o início oficial das hostilidades a partir da arrasadora cr ítica de Monteiro Lobato à Exposição Malfatti, com a publicação do artigo “Paranoia ou Mistificação”, em 20 de dezembro de 1917, que provocou a reação dos „modernistas‟ que aguardaram o momento próprio, para dar o troco, enterrando Lobato literariamente, com a publicação do poema necrológio a Lobato, de Mario de Andrade, em 1926, momento em que Lobato saía do grande centro de São Paulo devido à falência de sua editora.
A historiografia modernista utilizou o episódio da publicação do artigo “Paranoia ou Mistificação” como marco das hostilidades: Lobato seria o vilão, enquanto que Anita Malfatti seria a primeira mártir do movimento.
Ênio Passiani (2001) informa que os modernistas tentaram arregimentar Lobato para o movimento, por haver uma proximidade temática e formal entre eles. Como não foi possível a cooptação, os modernistas passaram a taxar Lobato de “pintor frustrado” e desautorizaram-no como crítico de arte, culpando Lobato pelo declínio artístico de Anita Malfatti. A disputa
4
ISEB: Instituto Superior de Estudos Brasileiros foi criado pelo Decreto nº 37.608 de julho de 1955 como órgão do Ministério da Educação e Cultura com o objetivo de promover o estudo, o ensino e a divulgação das Ciências Sociais, “[...] cujos dados e categorias seriam aplicados à análise e à compreensão crítica da realidade brasileira e deveriam permitir o incentivo e a promoção do desenvolvimento nacional” (ABREU, 2014, p. 1); não conseguiu sensibilizar os grupos mais representativos das Ciências Sociais no Brasil; foi extinto em 13 de abril de 1964 (ABREU, 2014).
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Godofredo Rangel (1884-1951): escritor e tradutor brasileiro; nasceu em Três Corações, Minas Gerais;
conheceu Monteiro Lobato em uma república de estudantes; em 1903, iniciou correspondência com Lobato, o que constituiu a primeira edição do livro “A Barca de Gleyre”, reunindo correspondência do período de 1903 a 1948 (LOPES, 2013).
13 entre modernistas e Lobato estendeu-se ao campo editorial, já que Lobato comandara a Revista do Brasil nos anos de 1920 e perdera o comando para os modernistas.
A respeito desse fato, Lobato afirmou que o modernismo estaria aprovado, se a Revista conseguisse boas vendas.Veja-se sua afirmação: “Entreguei a Revista do Brasil ao Paulo Prado e ao Sergio Milliet e não mexo mais naquilo. Eles são modernistas e vão ultramodernizá-la. Vejamos o que sai – e se não houver baixa no câmbio das assinaturas, o modernismo está aprovado” (LOBATO, 1957, p. 264).
Conforme Lobato (1970, p. 296), em carta enviada a Jaime Adour da Câmara, a crítica a ele dirigida pelos modernistas seria fruto da “[...] inveja de minha vitória comercial nas letras”, já que, como informava o próprio Lobato, tinha ultrapassado “[...] mais de dois milhões de tiragens”. Acrescentava, ainda, que os modernistas poderiam ser “[...] uns gênios - mas não vendem”.
À crítica dos modernistas de que Lobato seria um escritor regionalista e não universal, pode contrapor-se uma interessante discussão de Said (2011, p. 425) sobre a não aceitação da universalidade de autores africanos e, para que esses autores africanos fossem aceitos, poderiam ter nomes ocidentais, a fim de agradar aos críticos literários e, dessa forma, atingir a tão almejada universalidade literária.
Assim como Said discute esse projeto como uma brincadeira, Lobato (1944, p. 298) também pensa em refazer seus livros, transformando Jeca Tatu em Conde do Papa, não em busca da universalidade e, sim, com a intenção de cooptar mais leitores, que “comprariam para ver”. Para Lobato, o sucesso estaria em agradar seu público consumidor, não críticos de uma determinada escola ou ao „M‟ (Comando Secreto Modernista).
Também é interessante observar que, tanto Said como Lobato, pensavam na transformação de personagens literários regionais em personagens da metrópole. Se Lobato pensava em transformar Jeca Tatu num Conde do Papa, numa época em que a Europa ainda tinha força para comandar e disputar o comando do mundo, tendo colônias em África e Ásia, Said pensava na hipótese de transformar os nomes africanos em nomes norte-americanos, uma vez que esses seriam relacionados ao maior poder político e militar do planeta.
Lobato não chegou a transformar Jeca num Conde do Papa, entretanto publicou um livro, visando ao público norte-americano, um livro polêmico intitulado “O Presidente Negro”, ignorado pela crítica e pelo público, não despertando muita atenção.
Lobato também fez uma interessante analogia, ou seja, vestiu seu Jeca Tatu conforme a moda da nobreza, intencionando agradar aos críticos. Sendo vestido à moda nobre, poderia ser „moderno‟ ou cosmopolita.
Após a morte de Lobato, sua obra passou a ser sistematicamente ignorada pelos críticos modernistas.
Antonio Candido (2006), em “Literatura e Sociedade de 1900 a 1945”, critica os contos sertanejos, entendendo-os como artificiais e pretensiosos e considerando que, no período de 1900 a 1920, o caboclo passara por um processo de idealização. Esse crítico literário deixou de mencionar a obra “Urupês”, na qual Lobato fez arrasadora crítica aos gêneros sertanejos, ainda que injusta para com o caipira. Isso faz supor que Antonio Candido desconhecia a obra de Monteiro Lobato ou agiria de modo intencional, ao ignorar sua produção. Uma possível explicação para esse modo de proceder de Antonio Candido poderia ser, também, o fato de esse crítico literário pertencer ao Comando Secreto Modernista, que enaltecia o próprio grupo e criticava e ignorava os seus adversários.
Posteriormente, na obra “Parceiros do Rio Bonito”, Antonio Candido (2010, p. 96) fez um estudo sobre o caipira e criticou a visão de Monteiro Lobato a respeito desse tipo brasileiro:
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Tendo conseguido elaborar formas de equilíbrio ecológico e social, o caipira se apegou a elas como expressão da sua própria razão de ser, enquanto tipo de cultura e sociabilidade. Daí o atraso que feriu a atenção de Saint Hilaire e criou tantos estereótipos, fixados sinteticamente de maneira injusta, brilhante e caricatural, já no século XX, no Jeca Tatu de Monteiro Lobato.
Considera-se que a referência a Lobato foi restrita e que Antonio Candido, como crítico literário, poderia ter dialogado e mesmo criticado, de forma mais profunda, o personagem Jeca Tatu de Monteiro Lobato. Mais ainda: deveria reconhecer o mérito de Monteiro Lobato em criticar o gênero de contos sertanejos, ao invés de reafirmar a ideia de que apenas no ano de 1922 ocorrera a crítica aos gêneros sertanejos.
Antonio Candido fez, também, diversas críticas ao regionalismo, entretanto não cita “Velha Praga” e ignora também o livro de contos “Urupês”, de 1918, considerado por Oswald de Andrade, o marco zero do modernismo.
Considera-se um grande equívoco dos modernistas o fato de ignorarem, de forma tão escancarada, a obra de Monteiro Lobato, fazendo apenas críticas indiretas ao regionalismo. Acredita-se que os modernistas agiam de forma intencional, enaltecendo os seus pares e ignorando propositalmente os seus adversários. Quando a tática não era a de ignorar, passavam ao ataque puro e simples, assim como ocorreu em relação à obra de Lobato.
Em análise literária, espera-se neutralidade, imparcialidade, características do espírito cientifico. Entretanto, conforme apontado, existia um movimento organizado com o objetivo de apagar a memória de Lobato, ignorando a análise de suas obras, como fez Antonio Candido (2006), que citou diversos pré-modernistas, como Euclides da Cunha, João Ribeiro, Lima Barreto, Graça Aranha que teriam o papel de apenas preparar o terreno para os modernistas. Candido considera que nem mesmo para preparar o terreno aos modernistas, Lobato teria serventia. Quando não era possível simplesmente ignorar a obra de Lobato, partia-se para a crítica, como a de Alfredo Bosi que afirmava que a literatura de Lobato era um “[...] exemplo da contradição moderno/antimoderno, símbolo de uma literatura arcaica e de um regionalismo pobre” (MOTA, 2010, pp. 32-33).
Apesar de todas as acusações de que o escritor não seria moderno, de todas as tentativas deliberadas em ignorar a obra de Lobato, não se pode acusar o escritor taubateano de ser arcaico ou ter uma literatura pobre, já que, até mesmo o pretexto para o início das rivalidades entre Lobato e os modernistas, ou seja, as críticas de Lobato a Anita Malfatti podem ser vistas como expressão do mais puro espírito do modernismo, uma vez que os modernistas defendiam que a arte não deveria ser uma cópia do francês. É por isso que Lobato pode ser enquadrado como modernista devido ao seu nacionalismo radical e à defesa das coisas da terra.
Defender a cultura nacional, buscar a criação de um estilo artístico novo, e não mera imitação do francês ou norte-americano, era o que buscava Lobato com a crítica a Anita Malfatti, pintora que já vinha recuando em relação às propostas estéticas da arte modernista, conforme pesquisa de Chiarelli (1995).
Ressalta-se que, nesse movimento tensional, enquanto Lobato atuava ao longo de sua carreira como escritor, desenvolvendo um projeto que visava a “educar as crianças” rumo a um País moderno e desenvolvido, de acordo com as ideias lobatianas de modernidade e, sem apoio do Estado e, muitas vezes, contra o Estado, seu principal adversário no campo literário, Mario de Andrade, por sua vez, recebia “[...] total apoio dos mais elevados escalões da administração municipal e estadual para levar adiante o projeto cultural de „abrasileiramento‟ da população urbana de origem imigrante” (MELLO, 2006, p.152).
Ou seja, enquanto os modernistas recebiam recursos do Estado, Lobato, por sua vez, não recebia nenhum apoio e, quando houve a tentativa de cooptação por parte de Vargas,
15 Lobato recusou, resultando em uma dolorosa prisão no ano de 1941. Ambos atuavam em campos diferentes, um na esfera privada, o outro na esfera pública, mas ambos com ideais de modernização e modernismo.
Apesar de tanta proximidade da obra de Lobato com os modernistas, convém perguntar: por que Lobato continua, apesar de sua imensa obra, de certa forma, a ser ignorado pela academia? A resposta é dada pelo próprio Lobato, que escreveu sobre a construção da história eurocêntrica da descoberta da América, mas que poderia, perfeitamente, responder também acerca da história dos modernistas, contada por eles próprios:
Por uma razão muito simples: porque a história é escrita por eles. Um pirata quando escreve sua vida está claro que se embeleza de maneira a dar a impressão de que é um magnânimo herói. Há uma fábula a este respeito. À entrada de certa cidade erguia-se um grupo de mármore que representava um homem vencendo na luta ao leão. Passa um leão, contempla aquilo e diz: muito diferente seria essa estátua, se os leões fossem escultores (LOBATO, 1988, p. 135).
Os modernistas, por conseguirem matar o leão Lobato, segundo sua versão da História, por terem melhor organização, por estarem mais próximos do poder, tiveram sua versão como vencedora ou prevalente. Caberá, então, aos historiadores e aos novos críticos literários o compromisso de reverem os fatos que ocorreram na segunda década do século XX, no distante episódio Malfatti, o que, de forma sucinta, se buscará fazer logo a seguir.
1.3 Lobato, Modernista Literário
Como já referido, a rivalidade entre Lobato e os modernistas era grande e segue tendo seus reflexos até os dias de hoje, sobretudo nos silêncios em relação ao escritor taubeteano.
Aqui, serão abordadas as diferentes e equivocadas interpretações sobre a obra de Lobato, o que este e os modernistas tinham em comum quanto aos termos literários, aspectos que poderão trazer uma perspectiva diferente para a interpretação de Lobato nos dias atuais.
Para Costa (2012), a interpretação dos grupos que interpretam Lobato são inúmeras. No primeiro grupo, destacam-se renomados membros da academia, como Bosi e Werneck que dariam ênfase ao episódio Anita Malfatti. Formula-se a hipótese de que, apesar da Universidade ter por fim a construção do conhecimento, acabou tendo sua finalidade desviada por elementos pró-modernistas, construindo uma narrativa sobre modernismo que colocou Lobato como vilão e Anita Malfatti como mártir. Consequentemente, Mario de Andrade, como líder, excluiria da análise o conjunto da obra de Lobato. Como diriam Marx e Weber (1977), as ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes.
Como um exame mais aprofundado da obra de Lobato não agradasse ao status quo, provavelmente este teria sido o motivo para sua obra ser boicotada até os dias de hoje.
Para os membros desse grupo, Lobato seria apenas um “[...] atrasado homem do século XIX que visitou uma bela e moderna exposição de arte e em virtude de sua incapacidade de se relacionar com o moderno, escreveu um artigo preconceituoso” (COSTA, 2012).
Um segundo grupo exaltaria Lobato como a “figura de um homem moderníssimo” devido às suas inúmeras atividades profissionais e posições políticas. Entretanto, este grupo também não situa Lobato na modernidade literária.
16 Para um terceiro grupo, Lobato seria o inventor da literatura infantil brasileira. Todavia, Costa (2012, p.14) questiona a razão pela qual esse grupo não veria a quebra de paradigmas de Lobato como uma “[...] continuidade das discussões sobre o fazer artístico que cercavam os eventos liderados pelo grupo modernista de São Paulo, de quem o escritor foi próximo”.
Costa (2012) identificou um quarto grupo, baseado na obra de Costa Lima “O Fingidor e o Censor: no Ancien Régime, no Iluminismo e Hoje”, que analisaria a obra de Lobato sob a ótica da “teoria do controle do imaginário” e que viria [...] “orientando a história, a leitura e a literatura” (COSTA LIMA, 1988, p. 187).
Para um quinto grupo, Lobato estaria “[...] situado ora num regionalismo novecentista, ora na categoria límbica pré-modernista. Em alguns curiosos e esdrúxulos casos, há quem o aponte como um prosador simbolista” (COSTA, 2012, p. 15).
Entende-se, a partir dessa visão fragmentada, de que a obra de Lobato não pode ser analisada sob critérios rígidos, colocada em “gavetas” (COSTA, 2012).
A mesma autora (2012), analisando a obra infantil de Lobato, no período de 1920 e 1930, encontra um Lobato bem afinado com a proposta modernista, que teria boas relações com alguns membros desse grupo.
A pesquisadora Franco (2007, p. 44), ao deter-se na obra de Lobato, afirma que este utilizou “[...] do ponto de vista estético, a linguagem coloquial e popular, bem ao gosto dos modernistas”. Denise Bertoluci (2008) também encontrou três características que aproximariam Lobato dos modernistas: o coloquialismo, a aproximação entre escrita e fala e o experimentalismo formal.
Aponta-se que Lobato, assim como os modernistas, defendia a criação de uma língua nova, liberta, uma língua genuinamente brasileira, oriunda dos jecas, livre de amarras gramaticais, assim como o inglês, que teve sua origem no homem das ruas e que graças a isso obteve imenso sucesso na difusão de sua cultura.
Assim como os modernistas, Lobato também buscava o resgate de costumes e das lendas nacionais, como, por exemplo, no inquérito do Saci-Pererê, semelhante aos estudos realizados por Mario de Andrade na área de folclore. Lobato voltou-se para o passado, procurando “reler” os elementos de formação do que ele considerava como as fontes de um mito brasileiro como o Saci em “Saci-Pererê: resultado de um inquérito”.
Dentre as convergências de Monteiro Lobato com os modernistas, estariam, portanto, a utilização da linguagem coloquial, que seria a corr eta de acordo com o entendimento de Lobato; a não utilização de acentos; o desprezo pelas regras gramaticais; a exaltação às maravilhas da modernidade, como o sorvete e o automóvel; a aproximação de Lobato com a esquerda em suas obras; a não submissão do a utor ao governo getulista, (muitos modernistas foram cooptados pelo Estado Novo). A obra do “Sítio do Picapau Amarelo” pode também ser considerada moderna, ou até antropofágica, uma vez que absorveu as grandes obras da literatura europeia e até personagens infantis norte-americanos, traduzindo-os para a linguagem brasileira e aproximando-os da gente do País. Suas obras falavam sobre coisas modernas para as crianças da época, como o avião, o cinema, as sardinhas enlatadas.
Para Mota (2010, p. 33), muito mais importante, nessa questão, seria considerar a “[...] modernidade como meio de adequação e acompanhamento das transformações ocorridas no contexto em que Lobato se encontra.” Mota (2010), assim como outros lobatianos, sentem a dificuldade de enquadrar Lobato em uma definição rígida. Isso em decorrência do tamanho da obra de Lobato, que supera dez mil páginas, além de milhares de páginas de discussão sobre o escritor. Portanto, enquadrá-lo em caixinhas, levaria a “[...] encarcerar a obra de Lobato a um contexto único” (MOTA, 2010, p. 33). Ainda para Mota (2010, p. 35), a “[...] ideia de transformação é um dos fios condutores de sua obra”, basicamente transformação social, que