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INTERDEPENDÊNCIA ENTRE CONCEITOS,
PROCEDIMENTOS E ATITUDES NA PESQUISA EM
EDUCAÇÃO
Jilvania Lima dos Santos Bazzo
61Ione de Carvalho Almeida
62Resenha da obra: ALEXANDRE, Agripa Faria. Metodologia científica e educação. 2ª edição revisada. Florianópolis/SC: Ed. da UFSC, 2014, 166p.
61 Doutora em Educação. Professora do Programa de Pós-Graduação
em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), vinculada ao Departamento de Metodologia de Ensino, área de Didática. Tutora do PET Pedagogia UFSC. Pesquisadora Associada ao Grupo de Pesquisa Didática e Formação Docente – GpDD e do Grupo de Pesquisa LITERALISE. E-mail: [email protected].
62 Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), vinculada à Linha Sujeitos, Processos Educativos e Docência (Suped). Técnica pedagógica na Secretaria Municipal de Educação de Blumenau-SC. E-mail: [email protected].
252 Concebendo ciência como conhecimento, Agripa Faria
Alexandre aborda os conceitos de método científico e de
educação como inerentes um ao outro, apontando ainda os
significados de ciências para a área da educação, explica, confronta e fundamenta algumas abordagens teóricas e metodológicas por meio da discussão em torno das principais escolas do pensamento cientifico: positivista, kuhniana, popperiana, fenomenológica, hermenêutica, marxista e anarquista. Ao atender à proposição de se configurar como um livro didático, no início de cada um dos dez capítulos há sempre uma introdução e, ao final, são oferecidos exercícios e sugestões de leitura referentes à temática estudada.
No primeiro capítulo, intitulado Metodologia científica e educação, o autor inicia seus escritos se posicionando a favor da interdependência entre os conceitos trabalhados tanto no campo da metodologia científica quanto da educação, sendo o método o meio para a construção do conhecimento. Para estabelecer essa relação, Agripa apresenta quatro abordagens: positivista,
fenomenológica, hermenêutica e marxista e esclarece que, ao
fazer essa seleção, não está desconsiderando a importância de outras escolas. Aponta a metodologia como um caminho para a ação científica, pela qualo pesquisador se filia a uma determinada abordagem e, a partir dela, passa a fazer escolhas epistemológicas coerentes, uma vez que cada corrente científica possui critérios peculiares para a avaliação da verdade sobre
qualquer assunto. Problematiza a importância de neutralidade no procedimento científico por meio da impessoalidade e do rigor
253 pesquisa científica tem compromisso com a veracidade. No entanto, o autor alerta o pesquisador de que o posicionamento
de valor e a escolha temática não são (e nem podem) ser neutros.
Da abordagem positivista, o autor afirma que se trata de uma metodologia comum das ciências naturais, também conhecida como tradicional, e se caracteriza pela aspiração da verdade, pelo raciocínio coerente e pela validação do conhecimento mediante a comprovação da empiria por meio da observação, da utilização de testes fundamentados em hipóteses e explicação de resultados. Segundo ele, há uma valorização da objetividade, da estatística e da amostragem. Esse método valida resultado como ciência a partir da comprovação do experimento. No tocante à abordagem fenomenológica, para o autor, estudam-se acontecimentos particulares, de experiências do estudam-ser, por meio do trabalho rigoroso com a subjetividade, considerando o conhecimento como processo de experimentação e resultante de vivências pessoais. Segundo Agripa, ela busca vencer o empirismo e a razão presentes no método positivo e diverge do método
kantiano ao se opor ao pensamento universal. A fenomenologia é, por ele, apontada como uma vertente do existencialismo, correlacionada à filosofia, sobretudo, porque o fundamento do
conhecimento está na experiência autêntica do ser, na bagagem
particular carregada por cada indivíduo. Ao discutir sobre a
abordagem hermenêutica, Alexandre considera ser um dos
métodos de pesquisa mais significativos para as ciências humanas
e sociais. Na sua compreensão, eis algumas das razões pelas quais
a hermenêutica é a mais significativa: porque se reconhece as práticas sociais e culturais como dispositivos para a transmissão
254 de conhecimento; porque se privilegia o saber informal resultante
de atitudes presentes na sociedade – a muitas vezes ignoradas; e porque se analisaminúcias, uma vez que as ações humanas nunca têm sentido único: toda compreensão é sempre uma nova
compreensão a considerar o tempo histórico, a cultura particular
de cada lugar. Atesta ainda que a ciência é apenas uma das formas de se chegar a um resultado de investigação e, com isso, conduz a uma verdade parcial relativa ao ser humano. Para tratar da
abordagem marxista, também conhecida como materialismo, histórico e dialético, Agripa informa que esta vertente teórica e
metodológica busca identificar as incongruências históricas que separam as classes sociais. Este método, segundo o autor, expõe a razão como instrumento de opressão e dominação e aponta o
Estado, os direitos e a educação como mecanismos pelos quais se
operam a dominação. Em sua compreensão, o marxismo admite a liberdade como possível, não como condição individual, mas como disputa política, bem como concebe o trabalho como estruturante da sociedade, uma vez que é por meio dele que o
homem cria o mundo e a si próprio. O autor considera que a lente
de análise do método dialético parte da contestação da realidade por meio de atitude política, nunca individual, num esforço de suplantar as contradições mascaradas pela ideologia de classe que estabelece as relações sociais entre opressor e oprimido como naturais, desconsiderando-as como produções culturais.
No segundo capítulo, intitulado As formas lógicas fundamentais da inferência científica, ao explicar a inferência como condutora a um resultado e independentemente do
255 discute as seguintes modalidades de raciocínio científico:
dedução como modalidade de raciocínio lógicoque parte do geral para conclusões particulares, sendo que, nas ciências humanas, a inferência dedutiva se dá por meio de hipóteses que conduz à averiguação, como exemplo, ao se fazer análise de documentos e encontrar materiais que respondem a hipótese formulada, está-se operando com a dedução; implicação, como modalidade de inferência, está condicionada a duas situações, na qual a verdade da primeira situação implica obrigatoriamente a verdade da segunda, ou seja, as situações são ligadas por conectivos condicionais como se ... então, ou se ... logo, quanto mais ... mais,
quanto menos... menos entre outros, mantendo assim essa
relação de condição da primeira com a segunda afirmação, servindo para validar ou não as hipóteses da pesquisa; e, finalmente, indução como um método de raciocínio que parte do particular para o geral, estabelecendo generalização por meio de observação de padrão comum em determinado quantitativo de situações observadas, se ancora na probabilidade, pois não é possível analisar todas as situações análogas, tendo, portanto, o limite da certeza correlacionado às situações observadas. De acordo com Agripa, o raciocínio indutivo é aplicável às ciências humanas por tratar da subjetividade e da instabilidade das
práticas sociais, no entanto, é alvo de crítica da abordagem
positivista por conter generalizações não verificadas totalmente pela experiência empírica.
No terceiro capítulo, intitulado Critérios de demarcação do conhecimento científico, o autor distingue o conhecimento
256 diferencia dos outros tipos de conhecimento por meio da
criticidade e da intersubjetividade. Criticidade entendida como
objeto de conhecimento avaliado pela racionalidade e
intersubjetividade em consonância com a concepção de
Habermas (1929), como comunicação das consciências
individuais, umas com as outras, realizada com base na reciprocidade. Nesse sentido, o conhecimento científico estará
sempre em situação de interação democrática e vinculado a incertezas. O conhecimento não científico, também importante socialmente, está categorizado pelo autor em: senso comum,
senso comum informado, conhecimento tradicional, religião, ideologia e filosofia. O senso comum é tratado pelo autor como
um falso conhecimento, aquele que não é submetido à criticidade e, apesar disso, é tomado como verdadeiro. O senso comum
informado advém da ciência, normalmente divulgado pela mídia
e refletido em mudança de comportamento da sociedade. O
conhecimento tradicional é aquele que se sustenta na tradição,
na reprodução de costume sem subordinação à análise. A religião está relacionada ao sacro, balizada apenas pela crença. As
ideologias partem de resultados da ciência, só que imbricadas de
certezas, encerram-se na ideia de acabamento contradizendo, portanto, o conceito de ciência. E a filosofia, por sua vez, é caracterizada como modalidade de pensamento pré-científico, de indagações que muitas vezes acabam por se tornar temática da pesquisa científica. Agripa ainda aborda os critérios de identidade e de procedimento que unidos definem o conceito de ciência. No entanto, tanto a identidade quanto o procedimento se modificam de acordo com o modo com que cada escola conceitua ciência.
257 Alexandre opta por sete escolas de pensamento científico, que considera como as mais importantes para, a partir delas, conceituar identidade e procedimento: positivista, kuhniana,
popperiana, fenomenológica, hermenêutica, marxista e anarquista. A escola positivista pensada por Comte tem como
principal defesa a experiência como condutora de conhecimento. Os que se filiam a essa abordagem exaltam o método quantitativo e a objetividade. Essa escola tem, como marca de identidade, a ciência como única maneira de produzir conhecimento, o conhecimento científico verídico, mensurável e imparcial. Para essa escola, ciências naturais e humanas recebem o mesmo tratamento metodológico. Em relação ao procedimento, segue o método positivista de análise a partir da observação com a finalidade de validar o resultado. Os adeptos à escola Kuhniana, mentor Thomas Kuhn, entendem ciência como ruptura de
paradigma, com base na sociologia e na psicologia, não na
epistemologia. Vislumbram a quebra de paradigma para o avanço da ciência. A linguagem não é padronizada, por isso, tanto a
identidade quanto o procedimento mudam com frequência, uma
vez que são os pesquisadores que determinam a direção da pesquisa e a referência compartilhada sobre uma determinada temática. Nessa escola, a identidade é marcada pela compreensão de que ciência é a elaboração de paradigmas que subsidiam esse modelo e o procedimento pela adoção ou pela recusa de determinado paradigma. A escola popperiana, inaugurada por Karl Popper, ancora-se no princípio da
refutabilidade da verdade como modo de solução para o problema da indução. Essa escola carrega em sua identidade a
258 noção de que tanto as ciências naturais quanto as humanas são
refutáveis. Utiliza-se de procedimentos para esclarecer
fenômenos naturais e sociais, com base em tentativas e erros (teorias falsificáveis). A Fenomenologia, sob a perspectiva de Husserl e Heidegger, é concebida como uma ciência que permite explicar situações subjetivas. Essa escola tem como marca de
identidade a intencionalidade do ser e busca estudar a experiência
da humanidade, que é o fundante do conhecimento. O pesquisador filiado a essa escola tem como procedimento o contato com o pesquisado, na busca de assimilar a essência do
ser. A escola hermenêutica, sob a ótica de Hans-George Gadamer,
é tratada como ciência da história, que busca interpretar o desenvolvimento da humanidade a partir de subjetividades. A
identidade dessa escola busca por compreensão de fenômenos histórico-sociais convencionados culturalmente. O método, a
partir de entendimento temporal, histórico, conduz a uma
verdade parcial acerca do homem. Tem a compreensão de que
não há explicação única aos fenômenos da natureza humana, portanto não há procedimento padrão. A escola marxista, baseada nas ideias de Karl Marx, tem no trabalho o princípio fundante das relações de poder e da organização da sociedade em classes. Busca compreender a realidade social por meio da metodologia dialética da história como ferramenta de ação
política. Interpreta a ideologia: consciência social que tem por finalidade legitimar a classe dominante como responsável pela ocultação de tensões reprimidas entre opressores e oprimidos. O método entende o trabalho como estruturante da humanidade, única responsável por sua constituição histórica. Essa
259 metodologia objetiva evidenciar a submissão e a violência. Como
identidade, o marxismo trabalha com fenômenos naturais e sociais, tende para a evidência de incoerências presentes no
capitalismo na busca da superação dessa submissão, por isso na adoção desse procedimento emergem contradições da condição
humana com finalidade de transformação social. Por último, na escola anarquista, tendo como representante Paul Feyerabend,
tudo é aceitável na produção de ciência. A identidade é marcada pela ausência de separação entre conhecimento científico ou não científico e o método é livre. O procedimento permite romper com teorias validadas, cabendo a decisão ao pesquisador.
No quarto capítulo, intitulado A pesquisa acadêmica e a prática educativa, o autor discorre sobre a relação entre a atividade de pesquisa e a atividade educacional vista sob a perspectiva de quatro concepções concorrentes entre si:
concepções conjunta, complementar, crítica e de risco. A concepção conjunta entende pesquisa acadêmica e prática educativa como inseparáveis. Identifica como desafio da ciência a
revelação desta como investigação; e o desafio da educação como o encorajamento dos estudantes para a pesquisa. A
concepção complementar aponta pesquisa e educação como
complementares ao reconhecer que o cientista não precisa ser educador, assim como o profissional da educação não precisa ser pesquisador. A pesquisa, nesse caso, agrega ao ensino assim como a docência instiga a pesquisa. Já a concepção crítica, que segue os preceitos do marxismo, entende tanto a pesquisa quanto a educação como fenômenos políticos, com méritos próprios, mas influenciados por fatores externos. Portanto, tanto
260 o pesquisador quanto o educador têm o compromisso de
explicitar o conhecimento problematizado. Por fim, a concepção
de risco tem como premissa que a enxurrada de informações
científicas tem orientado as práticas sociais nos diversos campos, gerando instabilidade nos padrões de referência para o
comportamento humano. Busca diferenciar a pesquisa
desenvolvida pela academia da prática educativa, haja vista o grande volume de informações produzidas pela ciência e a confusão na recepção desse conhecimento.
No quinto capítulo, intitulado O contexto da descoberta e a formulação da problemática, são discutidos três procedimentos metodológicos sequenciados que a pesquisa científica precisa seguir: a ruptura, a construção e a verificação. A
ruptura diz respeito ao rompimento com o senso comum por
meio de um olhar crítico. Alexandre esclarece que o pesquisador, para dar início à investigação, precisa formular uma questão que revele o problema a ser solucionado. A questão tem de ser
simples, clara, realista e exequível, uma vez que orientará o
objetivo da pesquisa. A partir dessa questão, o autor recomenda que o pesquisador faça leituras preliminares para solidificar, alterar ou rejeitar essa pergunta. Trata-se de estado da arte acerca da temática para saber o que já foi ou está sendo pesquisado, atualizando com isso o conhecimento do pesquisador e apontando a relevância científica da pesquisa. Além disso, o autor ainda sugere, após as leituras preliminares, a realização de entrevistas exploratórias com especialistas na área
do conhecimento para consolidar a questão formulada. A próxima
261 a metodologia científica. Nesse estágio o pesquisador buscará um método que possibilite o estudo da problemática apresentada, justificará a definição do referencial metodológico a ser utilizado,
explicitará os conceitos-chave e estruturará as suposições
levantadas a partir dessa questão problematizadora. Por fim, na
verificação se dará a análise das hipóteses pelos fatos, da
confrontação dos dados coletados de acordo com o referencial
metodológico adotado para solucionar o problema. Como nesta
obra o autor visa subsidiar o estudante-pesquisador, além dos exercícios e da sugestão de leitura, traz no final do capítulo um modelo de pré-projeto com maior detalhamento.
No sexto capítulo, intitulado A distinção metodológica entre qualidade e quantidade na prática da pesquisa, Faria Alexandre aborda a diferença entre o método qualitativo e quantitativo, do ponto de vista epistemológico e do
prático-analítico. Mas antes dessa caracterização, adverte o leitor de que
independentemente de a abrangência da pesquisa ser nas ciências naturais ou humanas, utilizamo-nos minimamente da qualidade ou quantidade, mesmo tendendo mais a um dos métodos. O pesquisador sempre vai se utilizar de amostragem, seja de uma totalidade, de uma porção significativa (quantidade suficiente para atender aos objetivos da pesquisa) ou de
componentes não estritamente representativos, mas
característicos da população (caráter qualitativo da população).
Em relação à diferença epistemológica, a pesquisa qualitativa é característica das ciências humanas e está atrelada a abordagens
marxista, fenomenológica e hermenêutica que trabalham com
262 de singularidade da realidade social. A pesquisa quantitativa se
atém, a partir da coleta de dados, à determinação de quantidade. É um método sustentado pela abordagem positivista. Essa distinção entre pesquisa qualitativa e quantitativa é feita principalmente com o objetivo de servir de fundamentação para a pesquisa. Já a distinção prático-analítica se refere ao modo de
observação do conteúdo da pesquisa, no qual o tipo de coleta de
dados já pode definir se a pesquisa será de caráter qualitativo ou quantitativo. Pesquisas qualitativas se relacionam mais comumente com as modalidades de observação direta, entrevista
aberta, entrevista semiaberta, pesquisa participante, pesquisa-ação e pesquisa documental; e as quantitativas à entrevista fechada, surveys, que normalmente recebem tratamento
estatístico.
No sétimo capítulo, intitulado Fundamentos teóricos e metodológicos da coleta e análise de dados, ele afirma que as escolhas durante a realização da pesquisa são consequência da matriz epistemológica adotada pelo pesquisador. Para tanto, o autor analisa o que são dados para cada uma das escolas
positivista, marxista, fenomenológica e hermenêutica. Na ciência positivista, os dados podem ser teóricos (provenientes de informações já existentes) e empíricos (objeto propriamente de coleta e análise de dados). Essa perspectiva só trabalha com
dados que permitem ser testados e enunciados por meio de proposições lógicas de linguagem. Na marxista, os dados da pesquisa também podem ser teóricos ou empíricos e advém de
contradições históricas e sociais inerentes à dialética de reprodução econômica de qualquer sociedade humana, tendo
263 como cerne o trabalho como estruturante das relações humanas. A coleta e análise de dados estão sempre pré-determinadas, independentemente do resultado dessa coleta, elas servirão para justificar ou legitimar a tirania nas relações econômicas. Para essa abordagem científica, o resultado não é definitivo, uma vez que a realidade não é estática. A ciência fenomenológica tem modo próprio, original, não determinado, de definir dados. O método de análise se dá mediante manifestações da existência,
pressupondo que a essência do conhecimento esteja na experiência autêntica do ser. Busca conhecer experiências físicas
e metafísicas e tem no método o cerne da argumentação. Por fim, os dados para a ciência hermenêutica são singulares, por isso cada
experiência é única e terá o seu método, que é constituído a partir
da relação contextual e dialógica entre pesquisador e pesquisado. Nessa ciência, os saberes populares e os teóricos não são hierarquizados, servem à mesma função, a de explicar a experiência humana. Para Agripa, na relação estabelecida por essa abordagem científica, por meio da autocompreensão da experiência humana, o pesquisador também é passível de transformação.
Intitulado Estratégias de pesquisa em educação, o oitavo capítulo está subdividido em duas partes: indissociabilidade do
princípio científico e educativo; possibilidades estratégicas da pesquisa - como a) metodológica, b) empírica, c) teórica e d) prática (pesquisa participante e pesquisa-ação). A pesquisa como princípio científico diz respeito àquela como meio de construção
de conhecimento a ser socializado para além dos muros da escola, como problemáticas de estudo que questionam as práticas
264 sociais. A pesquisa como princípio educativo, por sua vez, volta-se
para a ação, para a pesquisa, como ato político, usada para intervir na realidade e favorecer a transformação da sociedade. Das possibilidades estratégicas da pesquisa, Alexandre traz a
pesquisa metodológica como condição preliminar da pesquisa,
uma vez que o método adotado pelo pesquisador servirá de condutor para a pesquisa. Em relação à pesquisa empírica, esclarece ao leitor que a empiria é um tipo de pesquisa que trabalha a partir da coleta de dados e de experiência concreta da
realidade. Nessa estratégia, o pesquisador ou o grupo de pesquisa, a partir da definição do quadro teórico e metodológico de análise, com base na problemática, explora suas hipóteses para chegar a uma interpretação do problema. A pesquisa teórica se refere à revisão de literatura. A pesquisa prática pode ser
participante ou pesquisa-ação. Na pesquisa participante, o
pesquisador está envolvido no processo de investigação e todos os envolvidos (pesquisador e população) têm ação ativa nesse processo; a pesquisa-ação é um tipo de pesquisa participante, mas com vistas à intervenção. O autor ainda ressalta a aproximação entre a pesquisa participante e a pesquisa-ação e analisa os aspectos que as aproximam.
No nono capítulo, intitulado A tessitura do texto científico: coerência, consistência e objetividade, ele discute a organização do texto científico e da importância de o pesquisador apresentar a pesquisa ao leitor de modo claro, explicitando a opção metodológica adotada para responder ao problema investigado. O método e a teoria são unidos pela coerência,
265 à opção e ao emprego do referencial metodológico. A consistência se refere a uma redação que explicite o conteúdo de análise. E a
objetividade versa acerca da análise da produção científica, na
qual se esclarece ao leitor a escolha epistemológica, os dados, o recorte de pesquisa (tempo e espaço). Alexandre recomenda também, para a redação do texto científico, a linguagem
impessoal, clara e informativa, modesta e com adequação vocabular. A impessoalidade busca afastar o posicionamento pessoal do autor de uma posição de pesquisa. A clareza e a informatividade precisam estar presentes na redação do texto
científico. E a modéstia e a adequação vocabular, respectivamente, dizem respeito ao fato de o pesquisador expor sua investigação sem receio de críticas e ao uso de um vocabulário que pode ser técnico, mas redigido de modo compreensível ao leitor. Da composição do texto científico, quatro partes são fundamentais: título, subtítulo e sumário,
introdução, desenvolvimento e conclusão. O título deve
comunicar o tema central da investigação. O subtítulo, não obrigatório, tem função de demarcar o recorte tempo/espaço da pesquisa. O sumário explicita as partes detalhadas que compõem o texto. Na introdução se expõe o modelo de análise da pesquisa, por meio de sete elementos que compõem a redação, na mesma sequência que apresentados: referencial metodológico, que apresenta o conteúdo de análise sustentado no estado da arte;
questão problematizadora, que vem acompanhada da
justificativa; conceitos-chave, que são os conceitos fundamentais escolhidos a partir do referencial metodológico; hipóteses, que dão respostas à questão formulada; objetivos em consonância
266 com a problemática e as hipóteses; justificativa, que pode ser
teórica e prática: a teórica se fundamenta no referencial metodológico e a prática na experiência profissional; metodologia de coleta e análise de dados se referem aos procedimentos
adotados e à exposição dos benefícios alcançados com esses procedimentos. No desenvolvimento da escrita do texto, explicita-se o caminho percorrido para explicita-se chegar à conclusão da investigação e se avalia criticamente a metodologia de coleta e
análise de dados. Na conclusão, expõe-se a coerência e a
consistência dos resultados da pesquisa, avalia-se o referencial
metodológico, indicando-se seu emprego em novas teorias.
Já no último capítulo, intitulado Ciência e progresso científico, Faria Alexandre problematiza a origem das ideias de
ciência e das concepções que diferentes escolas possuem sobre progresso científico. A origem de ciência vem dos significados platônicos e aristotélicos que sustentaram escolas racionalista e empirista. De Platão vem à ideia de ciência como conhecimento
que não deixa dúvidas, que está ancorado na razão; de Aristóteles, conhecimento como demonstração. Acerca do
progresso científico, no século XVIII, Voltaire (1694-1778) e Kant
(1724-1804) entendem o progresso científico sustentado na razão. No século XIX, Comte (1798-1857) e Marx (1818-1883) veem no progresso científico o poder de transformação da
realidade. Agripa ainda argumenta que Charles Darwin
(1809-1882) representou uma espécie de mal-estar nesse processo por meio de sua teoria da evolução natural, acrescentando que é incabível seu emprego indiscriminado como o fizeram Herbert
267 a noção de progresso científico em termos de impacto nas relações sociais foi definida por Max Weber (1864-1920), o que de certo modo apresentou as bases de sustentação da sociedade moderna ao conceber esse progresso como um “processo incontrolável e irreversível de racionalização das práticas sociais” (ALEXANDRE, 2014, p. 151). Ele registra ainda que outros pensadores tensionaram o debate em torno do progresso científico, sob a ótica da epistemologia, da sociologia (ou também da psicologia) e da deontologia. Na vertente epistemológica, significa que o progresso da ciência se dá por meio do conhecimento empírico, do levante de hipóteses e da testagem e da elaboração de novas teorias, ou, numa abordagem popperiana, pela contestação das novas teorias. Sociologicamente, sob abordagem kuhniana, a quebra de padrões instituídos pelos próprios cientistas gera o progresso científico. Por fim, o progresso científico, em uma vertente deontológica, é relacional a um valor relativo aos sujeitos que o constrói, portanto não passível de mensuração. Diante desses entendimentos sobre a produção científica, exige-se do pesquisador uma posição de suas escolhas teóricas e metodológicas, tendo em vista que ao conceber a ciência de tal ou qual natureza haverá implicações severas no desenvolvimento de sua investigação. Por esta razão, o texto do Agripa poderá ser um exercício de pensar vigoroso de primeira aproximação acerca dessas questões. Considerando ainda que os dez capítulos que compõem este livro não exigem leitura linear, é preciso se organizar o percurso a ser trilhado, o que já poderá promover uma intensa atividade intelectual em torno da temática.
268 Em se tratando da área de educação e demais ciências
humanas, cujo objeto mantém uma relação explícita, indissociável e complexa com o sujeito que pesquisa, esse posicionamento e rigor teórico são prioritários e exigem do pesquisador uma formação densa e rigorosa pautada na filosofia da ciência, bem como um pensamento claro sobre as implicações de uma ou outra abordagem metodológica. Por trazer um breve panorama das principais correntes científico-filosóficas e tratar detalhadamente de metodologia científica, esta obra é indicada a estudantes e pesquisadores em formação inicial, tanto da graduação quanto da pós-graduação, bem como pessoas interessadas pela temática.
Agripa Faria Alexandre é professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), vinculado ao Departamento de Ciências Sociais. Possui pós-doutorado pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, de Paris (2015), desde meados da década de 1990, concentra seu interesse de pesquisa nas seguintes áreas: ação coletiva, empoderamento, democratização cultural, esfera pública, ambientalismo, ecologia política internacional, teorias da democracia, epistemologia das ciências sociais e ambientais e educação. Entre as suas publicações mais atuais, destacam-se os seguintes livros: Práticas
ambientais no Brasil: definições e trajetórias (Editora da UFSC,
2012); Democracia no Brasil: entre experiências de emancipação e golpismo (Editora da UFSC, 2016) e Écologie Politique au Brésil (L´Harmattan Éditions, Paris, 2016). Desde 2015 atua como pesquisador associado du Centre d´étude des mouvements sociaux de l´École des Hautes Études en Sciences Sociales, de Paris
269 (http://cems.ehess.fr/index.php?3617); e du Groupe Sciences et
Technologies du Institut Marcel Mauss
(http://imm.ehess.fr/index.php?466). É membro associado de l`Association des Amis de la Fondation Maison des Sciences de l´Homme (FMSH), de Paris.