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(2) MARCELO LUIS CONTEÇOTE. COMUNICAR PARA MUDAR: Estudo das metodologias de desenvolvimento de comunidade e da comunicação para o desenvolvimento e para a mudança social. Dissertação apresentada em cumprimento parcial às exigências do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo, para obtenção do grau de Mestre em Comunicação Social. Orientadora: Profª Drª Cicilia M. Krohling Peruzzo. Universidade Metodista de São Paulo Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social São Bernardo do Campo – SP, 2008.
(3) FOLHA DE APROVAÇÃO A dissertação “Comunicar para mudar: relações entre metodologias de desenvolvimento de comunidade e comunicação para o desenvolvimento e para a mudança social”, elaborada por Marcelo Luis Conteçote, foi defendida no dia _____ de ________ de ______, tendo sido: ( ) Reprovada ( ) Aprovada, mas deve incorporar nos exemplares definitivos modificações sugeridas pela banca examinadora, até 60 (sessenta) dias a contar da data da defesa. ( ) Aprovada ( ) Aprovada com louvor Banca examinadora: _________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________. Área de concentração: Processos Comunicacionais Linha de pesquisa: Comunicação Massiva Projeto temático: Mídia Local e Comunitária.
(4) DEDICATÓRIA. Ouricuri madurou / é sinal que arapuá já fez mel / catingueira fulorou / lá no sertão / vai cair chuva a granel / arapuá esperando / ouricuri madurecer / caatingueira fulorando / sertanejo esperando chover. / Lá no sertão / quase ninguém tem estudo / um ou outro que lá aprendeu ler / mas tem homem capaz de fazer tudo doutor / que antecipa o que vai acontecer. / Caatingueira fulora vai chover / andorinha voou vai ter verão / gavião se cantar é estiada / vai haver boa safra no sertão. / Se o galo cantar fora de hora / é mulher dando o fora pode crer / acauã se cantar perto de casa / é agouro é alguém que vai morrer. / São segredos que o sertanejo sabe / e não teve o prazer / de aprender ler. Segredo do Sertanejo (Uricuri) João do Vale e José Cândido da Silva. [...] educar e educar-se, na prática da liberdade, é tarefa daqueles que sabem que pouco sabem – por isto sabem que sabem algo e podem assim chegar a saber mais – em diálogo com aqueles que, quase sempre, pensam que nada sabem, para que estes, transformando seu pensar que nada sabem em saber que pouco sabem, possa igualmente saber mais. Paulo Freire Comunicação ou Extensão?, p. 25. Dedico este trabalho ao povo da América Latina..
(5) AGRADECIMENTOS Agradeço a todos meus colegas de mestrado, aos professores do programa e em especial à Professora Cicilia. Professora: obrigado pelas discordâncias, pelo direcionamento e pelo alento..
(6) LISTA DE TABELAS Página 106 – Comparação das metodologias de desenvolvimento de comunidade a partir do paradigma de desenvolvimento e da modalidade de participação Página 144 – Quadro evolutivo das propostas de comunicação e de educação segundo Diaz Bordenave Página 176 – Comparação das metodologias de comunicação para o desenvolvimento a partir do paradigma de desenvolvimento e da modalidade de participação Página 181 – Quadro de agrupamento das metodologias de desenvolvimento de comunidade e das teorias e metodologias de comunicação para o desenvolvimento a partir do paradigma de desenvolvimento Página 182 - Quadro de agrupamento das metodologias de desenvolvimento de comunidade e das teorias e metodologias de comunicação para o desenvolvimento a partir das modalidades de participação Página 183 – Quadro de interseção das metodologias de desenvolvimento de comunidade e das teorias e metodologias de comunicação para o desenvolvimento a partir do paradigma de desenvolvimento e das modalidades de participação.
(7) SUMÁRIO Introdução (p. 12) I – Comunidade, desenvolvimento, pobreza e participação (p. 21) 1 – Elementos dinâmicos: mudança social e desenvolvimento (p. 22) 1.1 – Paradigma da sociedade dual e da modernização (p. 27) 1.2 – Crítica ao paradigma da sociedade dual a ao paradigma da modernização (p. 33) 1.3 – Alternativas ao desenvolvimento ou o “outro desenvolvimento” (p. 37) 1.3.1 – Desenvolvimento sustentável (p. 38) 1.3.2 – Desenvolvimento humano (p. 40) 1.3.3 – Desenvolvimento territorial endógeno (p. 42) 1.3.4 – Desenvolvimento local integrado e sustentável (DLIS) (p. 43) 2 – Elementos estáticos: comunidade e sociedade (p. 44) 3 – Contra o quê lutamos? Sobre pobreza e subdesenvolvimento (p. 50) 4 – Participação (p. 55) II – Desenvolvimento de comunidade (DC) (p. 61) 1 – Evolução histórica do desenvolvimento de comunidade (p. 62) 2 – Análise das metodologias de DC publicadas no Brasil (p. 65) A – Metodologia Rios (p. 72) B – Metodologia Ware (p. 75) C – Metodologia Agência (p. 79) D – Metodologia Reis (p. 82) E – Metodologia Hillman (p. 85) F – Metodologia Baptista (p. 89) G – Metodologia Bravo (p. 92) H – Metodologia DLIS (p. 95) I – Metodologia ABCD (p. 99) J – Metodologia Agenda 21 (p. 102) Compêndio das metodologias analisadas (p. 105).
(8) III – Comunicação para o desenvolvimento e para a mudança social (p. 108) 1 – Origem e evolução (p. 109) 1.1 – Primeiro foi a prática (p. 109) 1.2 – Os pioneiros nos estudos de comunicação para o desenvolvimento (p. 111) 2 – Em busca de novos paradigmas: teoria da dependência e a Nomic (p. 129) 3 – Comunicação popular, alternativa, participativa, comunitária: América Latina e Brasil (p. 156) 4 – Abordagens recentes: comunicação para a mudança social, comunicação e metas do milênio e comunicação e desenvolvimento sustentável (p. 164) 5 – Metodologias de comunicação para o desenvolvimento/mudança social (p. 170) 6 – Comunicação e a questão do desenvolvimento: paradigmas e vertentes (p. 176) IV – A comunicação nas metodologias de desenvolvimento de comunidade (p. 178) 1 – Agrupamento por paradigma do desenvolvimento (p. 181) 2 – Agrupamento por modalidade de participação prevista (p. 182) 3 – Intersecção desenvolvimento vs participação (p. 183) 4 - Elementos das ciências da comunicação presentes nas metodologias e processos de desenvolvimento de comunidades publicadas no Brasil: análise dos quadrantes de intersecção (p. 185) Quadrante 1 (modernização vs participação passiva) (p. 185) Quadrante 2 (dependência vs participação passiva) e Quadrante 5 (dependência vs participação controlada) (p. 188) Quadrante 3 (desenvolvimento endógeno vs participação passiva) (p. 188) Quadrante 4 (modernização vs participação controlada) (p. 188) Quadrante 6 (desenvolvimento endógeno vs participação controlada) (p. 190) Quadrante 7 (modernização vs participação-poder) (p. 192) Quadrante 8 (dependência vs participação-poder) (p. 192) Quadrante 9 (desenvolvimento endógeno vs participação-poder) (p. 192) Conclusão (p. 196) Referências (p. 201) Anexo 1 - O Jogo da Difusão de Inovações (p. 221).
(9) RESUMO Estudo sobre as metodologias de comunicação nas propostas de desenvolvimento comunitário. Com base em pesquisa bibliográfica o trabalho objetivou evidenciar os aspectos explícitos e implícitos da comunicação presentes nas metodologias de desenvolvimento de comunidade publicadas no Brasil. Para tal, foi realizada ampla revisão da literatura sobre os conceitos de comunidade, desenvolvimento, pobreza e participação, metodologias de desenvolvimento de comunidade, comunicação para o desenvolvimento e comunicação para a mudança social. Ao final, a pesquisa evidenciou que os conceitos de desenvolvimento e de participação invariavelmente constituem o fundamento a partir dos quais se erigem tanto projetos de desenvolvimento comunitário como de comunicação para o desenvolvimento/mudança social. Um modelo de desenvolvimento necessariamente leva a um modelo de participação, e viceversa, que, em projetos de melhoria das condições de vida comunitária se constituem como elementos catalisadores das demais instâncias do trabalho. Ambas propostas apresentam muitos pontos em comum e diversos espaços para contribuições recíprocas. Palavras-chave: Comunicação para o desenvolvimento. Comunicação e mudança social. Desenvolvimento de comunidade. Comunicação comunitária. Participação..
(10) RESUMEN Estudio sobre las metodologías de comunicación en propuestas de desarrollo comunitario. Con base en investigaciones bibliográficas, el trabajo tuvo por objetivo evidenciar los aspectos explícitos e implícitos de la comunicación presentes en las metodologías de desarrollo de las comunidades publicadas en Brasil. Para dicho fin, fue realizada una amplia revisión de la literatura sobre los conceptos de comunidad, desenvolvimiento, pobreza y participación,. metodologias de. desarrollo de. comunidad, comunicación para el desarrollo y comunicación para el cambio social. Al final, la investigación evidencio que los conceptos de desenvolvimiento y de participación invariablemente constituyen el fundamento a partir de los cuales se originan tanto proyectos de desarrollo comunitario como de comunicación para el desarrollo/cambio social. Un modelo de desenvolvimiento, necesariamente lleva a un modelo de participación, y viceversa, que, en proyectos de mejorías de las condiciones de vida comunitaria se constituyen como elementos catalizadores de las demás instancias del trabajo. Ambas propuestas presentan muchos puntos en común y diversos espacios para contribuciones recíprocas. Palavras-clave: Comunicación para el desarrollo. Comunicación y cambio social. Desenvolvimiento de comunidad. Comunicación comunitaria. Participación..
(11) ABSTRACT A study concerning communication methodologies for community development proposals. Based on bibliographic research, the work objective make evident the guises explicit and implicit from communication presents on the methodologies of development of community published in Brazil. About to as, we realized a deep literature review on the subject of the concepts of community, development, poverty and participation, methodologies of community development, communication for development and communication for social change. At the end, the research make evident that the conceptions of development and participation are basic elements, from what many projects of community development and communication for development/social change are erected. A model of development necessarily takes to a model of participation, and vice-versa, what, in community welfare projects acts as catalyst elements for the instances of the work. Both proposals presents many common aspects and initiatives for reciprocal contributions. Key words: Communication for development. Communication and social change. Community development. Community communication. Participation..
(12) 12. INTRODUÇÃO Este trabalho trata, em linhas gerais, sobre a problemática da comunicação para o desenvolvimento social e de propostas de inserção da comunicação em projetos de melhoria das condições de subsistência de comunidades classificadas, em geral, como pobres ou que estejam enfrentando problemas locais que comprometem seriamente a qualidade de vida de seus indivíduos, de sua sociedade ou de seu meio ambiente. Mais especificamente, esta pesquisa é uma tentativa de aproximação das ciências da comunicação (da literatura disponível sobre “comunicação para o desenvolvimento” e “comunicação para a mudança social”) com as metodologias de desenvolvimento de comunidade. A fim de cumprir a função de marco teórico inicial, que logo abaixo retomaremos quando da aproximação dos estudos da comunicação com o desenvolvimento de comunidade e lançaremos o nosso problema de pesquisa, sobre desenvolvimento de comunidade recorremos a Ander-Egg: O desenvolvimento de Comunidade é um complexo de processos progressivos, ou seja, um conjunto de fases e etapas sucessivas, com uma direção determinada, destinadas a alcançar uma série de objetivos ou uma meta prefixada. (ANDER-EGG, 1972, p. 25). Invariavelmente,. as. metodologias. estão. erigidas. sob. concepções. de. “desenvolvimento” historicamente determinadas, fruto do momento em que foram concebidas e aplicadas (cf. AMMANN, 1997), e parecem entender o processo do desenvolvimento de comunidade em três grandes momentos: (1) a comunidade antes do trabalho de desenvolvimento de comunidade; (2) a comunidade participando das atividades de desenvolvimento de comunidade específicas; e (3) a comunidade após o trabalho de desenvolvimento de comunidade1. O que podemos enxergar na passagem do momento “1” para o momento “3”? Alguns poderão dizer que, nesse processo, a comunidade recebeu novos saberes e informações, que a auxiliou de alguma forma. Outros afirmarão que o quê caracterizou principalmente esse processo foi a possibilidade de a comunidade descobrir-se: o espaço geográfico que ocupa, as pessoas que nele vivem, as próprias pessoas enxergarem a si mesmo 1. A expressão “após o trabalho de desenvolvimento de comunidade” quer único e exclusivamente significar o início do período cronológico em que a comunidade não conta mais com o auxílio direto e contínuo de agentes externos a ela, o que não quer significar que a comunidade tenha atingido um nível considerado “ideal” e todas as atividades relativas a desenvolvimento de comunidade tenham sido abandonadas, o que se constitui, evidentemente, um contra-senso..
(13) 13. de outra forma e encontrarem saberes que antes julgavam não possuir ou de nenhum valor. Para quantas mais possibilidades se apresentarem, um aspecto certamente sem manterá inalterado: houve uma mudança, uma evolução, entre o momento “ 1” e o momento “ 3” , mais especificamente se compararmos o primeiro e o último momento” . O quê mudará, em que sentido e intensidade dependerá das concepções de “ desenvolvimento” que estiverem em jogo. Essa mudança, pela qual passou a comunidade hipotética em questão, podemos denominar de “ mudança social” . Para o momento optamos por uma definição de mudança social que consideramos mais objetiva, mais adequada ao nosso propósito. (...) nós definimos a mudança social como sendo o resultado das alterações substanciais na estrutura ou no funcionamento de um determinado sistema social. Nisto, enfatizamos três coisas: 1) a magnitude da alteração, para que a mudança se torne observável e o seu impacto sobre as unidades de câmbio possa ser comensurável; 2) o tempo de duração, pois sem uma certa permanência, situações poderão regenerar-se sem deixar lastro ou impacto; e 3) seu efeito nas partes alteradas, conotando modificações na forma ou no conteúdo (...). (QUESADA, 1980, p. 66). Considerando essas duas definições, lançamos o nosso primeiro marco proposicional: A – Toda metodologia de desenvolvimento de comunidade se constitui numa estratégia contínua no tempo para a promoção – em última instância – da mudança social numa determinada comunidade historicamente situada. Porém, ao mesmo tempo em que lançamos esta asserção, nos deparamos com a seguinte dúvida: será que a mudança social numa comunidade é promovida exclusivamente em decorrência do empreendimento de ações e propostas de desenvolvimento de comunidade? Em outras palavras: por acaso são as metodologias de desenvolvimento de comunidade as únicas formas de se mudar a condição social de uma comunidade? Pesquisas e teorias das ciências da comunicação têm a contribuir nesse sentido. Comunicação para a mudança social é uma forma de pensar e agir que coloca pessoas em controle dos significados e conteúdos do processo de comunicação. Baseado no diálogo e na ação coletiva, a comunicação para a mudança social é um processo de diálogo público e privado por intermédio do qual as pessoas determinam quem elas são, do quê elas necessitam e o quê elas querem, a fim de melhorar a qualidade de suas vidas. Sua referência central é a assunção de que os “ indivíduos em situação pobreza e/ou marginalidade” 2 são capazes de compreender sua realidade melhor do que qualquer expert oriundo de fora de sua sociedade e que eles podem se tornar os agentes de sua própria mudança. [...] Na comunicação para a mudança social, o processo constitui elemento-chave: através da fluxo bilateral da comunicação, pessoas e comunidades convergem em situações de 2. No original: affected people..
(14) 14. diálogo, ouvindo e reagindo às mensagens. Os produtos da comunicação, ou a disseminação de mensagens, representam simplesmente sub-produtos do processo de comunicação. Assim como na comunicação participativa, a comunicação para a mudança social atribui grande importância à apropriação do processo de comunicação, e não somente do conteúdo. A comunicação para a mudança social se erige a partir dos conhecimentos e das tradições locais, baseando o processo da comunicação nas realidades sociais locais e em parceria com a comunidade em questão. (GUMUCIO-DAGRON; TUFTE, 2006, p. xx). Assim, a partir das definições de Ander-Egg e Gumucio-Dagron, lançamos nosso segundo marco proposicional: B – As metodologias de desenvolvimento de comunidade e os projetos de comunicação para a mudança social apresentam semelhanças teleológicas, uma vez que ambas almejam alterações substanciais na estrutura social de uma determinada comunidade, auxiliando-a a engajar-se em seu próprio curso histórico. Partindo, então, destas proposições, e considerando a afirmação de Rudio (1988, p. 75), de que a formulação de um problema de pesquisa “ consiste em dizer, de maneira explícita, clara, compreensível e operacional, qual a dificuldade, com a qual nos defrontamos e que pretendemos resolver, limitando seu campo e apresentando suas características” , o presente projeto tenciona oferecer encaminhamentos à solução do seguinte problema: Que elementos das ciências da comunicação estão presentes, de forma explícita e implícita, nas metodologias e nos processos de desenvolvimento de comunidade publicados no Brasil? O planejamento de toda pesquisa científica é estruturado de forma singular, uma vez que deve estar diretamente relacionado com seus objetivos, que são sempre específicos. (SELLTIZ et. al., 1975, p. 59) Considerando esta especificidade, temos cinco grandes conjuntos de objetivos de pesquisa: (1) familiarizar-se com o fenômeno ou conseguir nova compreensão deste, freqüentemente para poder formular um problema mais preciso de pesquisa ou criar novas hipóteses; (2) apresentar precisamente as características de uma situação, um grupo ou um indivíduo específico (com ou sem hipóteses específicas iniciais a respeito da natureza de tais características); (3) verificar a freqüência com que algo ocorre ou com que está ligado a alguma outra coisa (geralmente, mas não sempre, com uma hipóteses inicial específica); (4) verificar uma hipótese de relação causal entre variáveis. (SELLTIZ et. al., 1975, p. 59) [grifo nosso]. Pelo fato de acreditarmos que o problema a que nos propomos seja inédito (ou relativamente pouco pesquisado), almejamos empreender abrangente pesquisa bibliográfica para justamente aproximar as áreas da comunicação com a do desenvolvimento de.
(15) 15. comunidades e, nesse esforço, encontrar seus pontos de convergência, divergência e de nãorelação, consideramos que a pesquisa em questão se encaixa no primeiro conjunto apresentado por Selltiz: pesquisaremos para nos familiar com a questão e poder elaborar problemas e hipóteses mais específicas e arrojadas. Assim, entendemos este um projeto de desbravamento, do encontro ou do estabelecimento de sinapses entre áreas de estudo que – embora com alto grau de comunhão teleológica – parecem não se reconhecerem reciprocamente. Destarte, se tanto o desenvolvimento de comunidade quanto a comunicação para a mudança social se debruçam, aparentemente, sobre a mesma problemática, que é a de – de forma aproximada – auxiliar comunidades a melhorar sua qualidade de vida, pretendemos verificar a hipótese de que, de alguma maneira, ambos possuem número razoável de pontos coincidentes em seus pressupostos e pontos-de-partida, metodologias de trabalho e estratégias de ação e nos entendimentos de que fazem a respeito de comunidade, dos processos de mudança e de progresso. Corroborando esta asserção, temos como pressuposto o entendimento de que a comunicação está na base de todo e qualquer processo e atividade social (COOLEY, 1980, p. 168) (SAPIR, 1980, p. 161) (RILEY; RILEY, 1978, p. 118) (BLUMER, 1977, p. 38). E, se está presente nos processos sociais, certamente está presente em processos de mudança social numa comunidade, especificamente. Embora falemos freqüentemente da sociedade considerando-a como uma estrutura estática, definida pela tradição, ela é, quando a observamos mais de perto, algo completamente diferente: uma trama extremamente complexa de entendimentos, parciais ou completos, entre os membros das unidades organizatórias de diferentes graus de tamanho e complexidade, indo desde um casal de namorados ou uma família, à Liga das Nações; ou, ainda, essa cada vez maior porção da humanidade que pode ser atingida pela imprensa, através de todas suas ramificações internacionais. A sociedade é, portanto, apenas aparentemente uma soma estática de instituições sociais; na realidade, é ela diariamente estimulada e criadoramente renovada por atos individuais de natureza comunicativa, acarretando a participação de homens nela. (SAPIR, p. 161). O objetivo geral desta pesquisa é o de mergulhar as teorias e as metodologias de desenvolvimento de comunidade no universo das ciências da comunicação, possibilitando que enxerguemos em que espaços a comunicação está presente e naqueles em que não está presente, delineando a atuação de ambos. A seguir descrevemos os objetivos específicos da pesquisa. Acreditamos que após a sua leitura ficará mais claro ao leitor ao que o objetivo geral se propõe e a natureza da.
(16) 16. pesquisa a que nos propomos: “ (...) familiarizar-se com o fenômeno ou conseguir nova compreensão deste, freqüentemente para poder formular um problema mais preciso de pesquisa ou criar novas hipóteses” . (SELLTIZ et. al., 1975, p. 59) •. Realizar revisão bibliográfica da literatura disponível sobre desenvolvimento de comunidades, conformando seus terrenos, níveis e limites de atuação, além de situálas em escalas de aplicação do conceito de “ desenvolvimento” .. •. Realizar revisão bibliográfica de comunicação para o desenvolvimento e comunicação para a mudança social, categorizando as escolas e práticas de comunicação para o desenvolvimento e comunicação para a mudança social nesse campo.. •. Sobrepor as análises das bibliografias de desenvolvimento de comunidade e de comunicação para o desenvolvimento/comunicação para a mudança social a fim de identificar quê comunicação tem sido defendida e praticada nos projetos de desenvolvimento de comunidade.. •. A partir do cenário que construímos, desejamos oferecer às metodologias de desenvolvimento de comunidade novas formas de pensar e agir a partir das pesquisas e práticas de comunicação para o desenvolvimento/comunicação para a mudança social, contribuindo – assim – para a sua eficiência e eficácia. –x– Se o desenvolvimento pode ser considerado como o tecido resultante da atividade de milhões de pessoas, a comunicação representa o fio com que se tece a trama. (FRASER; VILLET, 1994) Afinal de contas, se o sociólogo deve justificar-se como cientista, tem que intensificar ao máximo suas investigações teóricas sobre a ecologia humana, interação e psicologias sociais, e, através das descobertas que já tenha feito em pequena escala, nessas questões mais abstratas ele poderá contribuir muito mais para a compreensão da comunidade. (WIRTH, 1973, p. 95). Na pesquisa bibliográfica. inicial,. tanto. em publicações específicas sobre. desenvolvimento de comunidade, como de comunicação para o desenvolvimento ou comunicação para a mudança social, que especificam como alvo de suas ações a melhoria da qualidade de vida ou a mudança social das comunidades, não encontramos em nenhuma delas referências recíprocas, ou seja: mesmo formulando hipóteses de ação e intervenção comunitária diversas, mas operando sobre o mesmo objeto e a mesma realidade, cada uma.
(17) 17. dessas áreas parece entender, à sua maneira, a forma ideal de se levar o desenvolvimento a comunidades ou nelas provocar a mudança social. Nesse sentido, acreditamos que a pesquisa a que nos propomos é, antes de tudo, original. Pretendemos justamente forjar um elo entre essas duas áreas, que há mais de 50 anos vêm produzindo projetos e resultados em e para comunidades no Brasil e no mundo. Se partirmos do pressuposto de que toda intervenção comunitária comporta ações de amplo espectro e que, nos dias de hoje, não se deve conceber a maioria das sociedades como à parte da presença e da influência dos meios de comunicação de massa3, então somos, de certa forma, forçados a aceitar a constatação cabal de que: •. as metodologias de desenvolvimento de comunidade devem passar a considerar em suas estratégias a articulação com meios de comunicação (nas esferas da recepção, crítica e produção);. •. e, por sua vez, as estratégias de comunicação para o desenvolvimento e comunicação para a mudança social não podem se deixar incorrer na falácia de que a apresentação e a inserção de meios de comunicação em comunidades, acompanhados de estratégias para a implementação de processos horizontais e bilaterais de comunicação (cf. DIAZ BORDENAVE; CARVALHO, 1979) são suficientes por si só para promover a melhoria da qualidade de vida em comunidades. Assim, acreditamos que é justamente nesse ponto que nesta pesquisa floresce sua. relevância social. Apesar de toda a evolução em diversas áreas da atuação humana, que nos faz saltar aos olhos as inovações da informática, das telecomunicações e da indústria do entretenimento, os seres humanos ainda se mostraram incapazes de, muitas vezes, coletivamente dar início, continuidade ou gestão competente a projetos de efetiva erradicação das condições sub-humanas às quais centenas de milhões de pessoas estão submetidas neste exato momento em todo o planeta Terra. Assim, acreditamos que qualquer projeto de pesquisa que se proponha a espontaneamente se debruçar sobre a problemática de “ tornar melhor a vida do próximo” – como é o caso deste projeto – e trabalhá-la de forma ética, tem seu esforço justificado já de saída. Ainda nesse sentido, cremos que as sinapses que este projeto pretende construir entre as. áreas. do. desenvolvimento. de. comunidade. e. da. comunicação. para. o. desenvolvimento/comunicação para a mudança social terão grande valia para aqueles 3. cf. Martín-Barbero (2003, p. 63): “ O que os processos e práticas da comunicação coletiva põem em jogo não são unicamente os deslocamentos do capital e as inovações tecnológicas, mas sim profundas transformações na cultura cotidiana das maiorias: nos modos de se estar junto e tecer laços sociais, nas identidades que plasmam tais mudanças e nos discursos que socialmente os expressam e legitimam.”.
(18) 18. profissionais envolvidos com a pesquisa e a prática do desenvolvimento e da mudança social em comunidades, demonstrando o quão próximas podem ser essas áreas em seus pressupostos e estratégias. Os programas de desenvolvimento só poderão dar todos os seus frutos se os conhecimentos e as tecnologias são de fato compartilhadas, se a população está motivada e empenhada em ter êxito. Quando a população não é a força motriz do seu próprio desenvolvimento, não se conseguem melhoras duradouras em seu nível de vida por mais que se invista em novos insumos e tecnologias. A comunicação é decisiva nesta tarefa por muitos motivos. Por exemplo, permite aos planejadores consultar a população, para entrar em contato com suas necessidades, atitudes e conhecimentos tradicionais, a fim de determinar e formular programas de desenvolvimento. É somente pela comunicação que os beneficiários de um projeto se convertem em protagonistas, assegurando o êxito aos programas de desenvolvimento. (FRASER; VILLET, 1994). Metodologia da pesquisa Para a descrição da metodologia na qual nos basearemos ao longo desta pesquisa, lançaremos mão das categorias tipológicas de pesquisas em ciências humanas que nos apresenta Abramo (1979), tendo como ponto-de-apoio o fato de que pretendemos empreender estudo de caráter formulativo, exploratório, conforme apresentamos no nosso tópico da hipótese. Empreenderemos pesquisa pura e comparativa, por meio de revisão bibliográfica em produções teóricas específicas das áreas do desenvolvimento social, da comunicação social. Sob diversos aspectos, podemos classificar nossa pesquisa: •. Segundo os campos de atividade humana ou os setores do conhecimento envolvidos, de caráter interdisciplinar, por envolver a produção científica da área das ciências da comunicação e do serviço social.. •. Segundo a utilização dos resultados, pura ou fundamental, pois nosso objeto é justamente as relações que se têm dado entre o que se encontra publicado na produção teórica sobre as metodologias de desenvolvimento de comunidade e as de comunicação para o desenvolvimento/comunicação para a mudança social.. •. Segundo os processos de estudo, será um estudo comparativo, uma vez que se debruçará na “ [...] análise de dois ou mais fatos ou organismos sociais [metodologias de desenvolvimento de comunidade vs comunicação para o desenvolvimento/comunicação para a mudança social], diferentes do espaço e.
(19) 19. no tempo, para separação de seus elementos constitutivos e verificação do que há de comum e do que há de específico entre esses fatos ou organismos” . (ABRAMO, 1979, p. 35) •. Segundo a natureza dos dados e a procedência dos dados, trabalharemos com de dados bibliográficos, coletados exclusivamente de fontes secundárias, majoritariamente manuais e livros especializados de desenvolvimento de comunidade e comunicação para o desenvolvimento/comunicação para a mudança social.. •. Segundo a extensão do campo de estudo, empreenderemos pesquisa monográfica e de profundidade, uma vez que limitaremos a pesquisa “ a um problema específico, [buscando] o exame do maior número possível de variáveis que interferem no tema ou no problema de pesquisa” . (ABRAMO, 1979, p. 39). •. Segundo os métodos de análise, para a comparação entre as metodologias de desenvolvimento. de. comunidade. e. as. de. comunicação. para. o. desenvolvimento/comunicação para a mudança social, será necessária a construção de modelos. “ Aqui, trata-se de reconstruir não um tipo que represente idealmente uma espécie social do gênero do homem, mas uma situação, um fenômeno, um evento, um organismo social, uma comunidade, uma sociedade global, etc.” (ABRAMO, 1979, p. 42) •. Por fim, segundo o nível de interpretação, esta pesquisa é eminentemente de caráter identificativo, pois a tem a missão principal de evidenciar as relações entre as metodologias de desenvolvimento de comunidade e as de comunicação para o desenvolvimento/comunicação para a mudança social, respondendo às questões “ o que é?” e “ o que existe?” . (ABRAMO, 1979, p. 42). •. Segundo o grau de generalização dos resultados, trabalharemos a partir do maior número de referências bibliográficas que encontrarmos, caracterizando amostragem por acessibilidade. (GIL, 1991, p. 97). Partes do trabalho A pesquisa está estruturada em 4 partes..
(20) 20. Na parte I, abordaremos os conceitos de comunidade, desenvolvimento, participação e pobreza, cuja elucidação e apreensão são fundamentais para os demais conteúdos apresentados a seguir. Partindo dos primeiros entendimentos a respeito de desenvolvimento (sociedade duas e modernização) até as propostas mais recentes, que têm seu ponto de equilíbrio nos recursos e dinâmicas comunitárias, abordaremos os alguns conceitos de comunidade formulados pela tradição sociológica. Em seguida, nosso foco se volta para a questão da pobreza, suas causas e alternativas de solução. Por fim, analisamos o conceito de participação popular nas suas múltiplas possibilidades em projetos comunitários. Na parte II, nosso olhar se volta para as metodologias de desenvolvimento de comunidade. Após breve introdução histórica e conceitual, nos debruçamos sobre as dez metodologias publicadas no Brasil que identificamos, analisado – uma a uma – em seus pressupostos, princípios e propostas de ação. A parte III é voltada para as relações da comunicação com o desenvolvimento de países e comunidades. Para tal, percorremos a evolução histórica desta vertente da comunicação social, partindo da comunicação para o desenvolvimento, passando pela comunicação alternativa e a Nova Ordem Mundial da Informação, e culminando na comunicação para a mudança social. Por fim, apresentamos brevemente algumas metodologias de comunicação para o desenvolvimento e mudança social de comunidades. Na última parte, o leitor encontrará o cruzamento das principais referências e vertentes identificadas nas partes II e III, em que tentamos evidenciar a intercalação existente entre as metodologias de desenvolvimento de comunidade e as teorias e metodologias de comunicação para o desenvolvimento/mudança social, mergulhando aquelas nos universo da comunicação social. Desejamos que esta proposta de pesquisa ajude a lançar nova luz em caminhos já trilhados e a apontar os que ainda temos a trilhar, neste multifacetado e enviesado universo da transformação social..
(21) 21. I – COMUNIDADE, DESENVOLVIMENTO, POBREZA E PARTICIPAÇÃO Neste capítulo apresentaremos ao leitor breve revisão bibliográfica de elementos da ciência social que acreditamos subjazem (se já não o compõem diretamente) as metodologias de desenvolvimento de comunidade e da comunicação para o desenvolvimento/mudança social: comunidade, sociedade, mudança social, desenvolvimento, subdesenvolvimento e pobreza. O estudo dos processos de mudança social e de seus elementos – um dos principais objetos das ciências econômicas e sociológicas – é apresentado por alguns autores como área incipiente, conforme nos relata Durand e outros pesquisadores: Nos últimos 20 anos multiplica-se o número de artigos e de livros sobre o assunto [o desenvolvimento] escritos por sociólogos, particularmente no exterior. É, por vezes, tão obscura sua forma de apresentação, ou tão dissimuladamente repetidos os mesmos conceitos e as mesmas teses, que o leitor acaba por não conseguir apreciar e julgar, com clareza, os tipos e o alcance da interpretação sociológica do processo do desenvolvimento. (DURAND, 1967, p. 11) [...] apesar do ritmo acelerado da mudança social, tem havido poucos esforços para explicar o processo em termos que sejam teoricamente importantes e empiricamente comprováveis. Em poucas palavras, ninguém foi capaz de elaborar uma teoria da mudança que proporcione um instrumento manejável para a investigação sistemática desta mudança. (ROGERS; SVENNING, 1973, p. 12) Se os estudiosos não identificam os objetivos do desenvolvimento social, e nem tampouco estudam os meios para a sua consecução, é necessário indagar o que eles andam fazendo. A resposta é que fazem todo tipo de coisas diferentes, poucas das quais têm qualquer ligação com uma noção analítica do incremento social. A única característica comum aos seus trabalhos é a preocupação com algum aspecto de mudança entre os povos subdesenvolvidos. Esta preocupação difunde-se em um número muito grande de direções, tratando com uma grande variedade de objetos. Constatam-se muito facilmente a variedade e a falta de relação entre as diferentes abordagens [...]. (BLUMER, 1975, p. 50). A razão de, neste capítulo, apresentarmos juntos os elementos apresentados no primeiro parágrafo é que eles, de fato, não devem ser analisados distintamente em nenhuma hipótese: se referenciam a todo instante, estão em relação recíproca. Para Etzioni e Etzioni (1968): O desenvolvimento da análise sociológica tende a seguir duas direções: 1) análise das estruturas existentes baseada no estudo de casos de unidades sociais em determinado momento, ou na comparação de unidades diferentes [...]; 2) estudos continuados que examinam a mesma variável ou série de variáveis em diferentes momentos. Se alguns estudos combinam ambos.
(22) 22. pontos de vista, até agora são a exceção e não a regra geral. (ETZIONI; ETZIONI, 1968, p. 77-78). Com base nessa afirmação, este primeiro capítulo aborda o que consideraremos como “ elementos dinâmicos” da sociedade e, no segundo, o que denominaremos de “ elementos estáticos” da análise social. No terceiro capítulo, nos propomos a refletir sobre a questão do subdesenvolvimento e da pobreza, cujas conceituações são fundamentais justamente por servirem de pontos de referencia inicial e final a projetos de mudança social e de desenvolvimento. Por último, será abordada a questão da participação popular em iniciativas de desenvolvimento. Ainda em termos de introdução ao capítulo, é importante mencionarmos que nos ateremos ao halo teórico que se aproxima mais do nível microssociológico (municipal, comunitário, grupal), evitando – mas não desconsiderando – elementos e a história da sociologia geral. 1. Elementos dinâmicos: mudança social e desenvolvimento Necessário comentar que consideramos a mudança social um processo maior do que o desenvolvimento, conforme Diaz Bordenave: Tal como eu entendo, o conceito de mudança social é muito mais amplo que o de desenvolvimento. O primeiro compreende toda e qualquer mudança significativa tanto na estrutura como no funcionamento da sociedade. A segunda inclui aquelas mudanças sociais que conduzem para o crescimento da capacidade da população de satisfazer suas necessidades materiais e não-materiais. Mais concretamente, desenvolvimento é concebido como um processo mais ou menos deliberado e planejado, nas áreas setoriais da agricultura, educação, saúde, indústria, ciência e tecnologia, etc. Por sua vez, mudança social costuma referir-se a modificações culturais e políticas, tanto estruturais como funcionais. Um exemplo: a adoção de novas tecnologias de comunicação seria considerada um ato de desenvolvimento, enquanto a democratização das comunicações na sociedade seria uma mudança social. (DIAZ BORDENAVE, 2007). Corrobora Franco: Mudança social é mudança nos componentes e nas relações entre os componentes do conjunto que constitui o que chamamos de sociedade. Se não houver mudança, dos componentes e das relações entre os camponeses desse conjunto, não há desenvolvimento. Ora, esses componentes são os seres humanos e essas relações são, em última instância, as relações que se estabelecem entre os seres humanos. (FRANCO, 2002, p. 50).
(23) 23. Assim, para a seara de reflexão a que ora nos propomos, a promoção de mudanças de qualquer ordem numa comunidade no sentido de se promover o desenvolvimento acaba por lograr – em maior ou em menor grau – em mudanças em valores e instituições de um determinado grupo, em outras palavras: mudanças sociais. Nesse sentido, trataremos muitas vezes – não só neste capítulo, mas em todo o trabalho – mudança social e desenvolvimento como expressões sinônimas, por crer que um leva ao outro necessariamente. Nos amparamos, inclusive, na dificuldade de identificação do quê é causa e do quê é conseqüência das condições de pobreza em que vivem inúmeros povos, conforme nos aponta Galbraith: Quando se procuram explicações [sobre a pobreza], são dadas numerosas respostas raramente aceitáveis. Quando examinadas, todas apresentam um traço em comum: são universalmente insatisfatórias. São sujeitas à contradição pela experiência prática, ou confundem causa com efeito, ou, embora sirvam para temas casuais de conversas, ninguém se arrisca a utilizá-las num discurso mais sério e científico. (p. 12-13). Causa e efeito são igualmente intermutáveis na asserção comum de que a pobreza é resultado de um governo ineficiente, corrupto ou, de qualquer forma, inadequado. [...] A pobreza é tanto causa como efeito do que Gunnar Myrdal chamou de soft state. 4 (GALBRAITH, 1979, p. 19). Sobre a mudança social Para apresentar sua teoria funcional da mudança (social), Parsons (1968, p. 85) parte da concepção de equilíbrio de um sistema social: [...] um sistema é estável, ou está (relativamente) em equilíbrio, quando a relação entre sua estrutura e os processos que nele ocorrem e entre ele e o seu ambiente são tais que relativamente não modificam essas propriedades e relações [...].5 Para Parsons, a mudança é entendida como desequilíbrio que, após determinado tempo, acaba gerando novo equilíbrio.. 4. Conceito que será elucidado ainda neste capítulo. Esse estado de equilíbrio assemelha-se ao que Homans aponta por “ quase-equilíbrio” : “ Uma situação de quase equilíbrio não é uma situação em que não se produza mudança alguma de comportamento. Um sociólogo que estude uma equipe de trabalho numa fábrica acha freqüentemente judicioso considerá-la como um quaseequilíbrio. Entretanto, produzem-se mudanças o tempo todo: quando os trabalhadores terminam sua ocupação para começarem outras, quando saem para o almoço ou quando voltam do almoço, ou ainda por ocasião da pausa para o café. Mas essas mudanças são regulares e periódicas: nenhuma nova espécie de mudança parece surgir. O comportamento do grupo está em quase-equilíbrio, neste sentido em que todos os dias de trabalho se parecem consideravalmente.” (HOMANS, George. Relações sociais, quase-equilíbrio e conformidade. In: BIRNBAUM, Pierre; CHAZEL, François. (Comps.). Teoria sociológica. Tradução de Gisela Stock de Souza e Hélio de Souza. São Paulo: Hucitec; Universidade de São Paulo, 1977. p. 49). Deste conceito faz uso Lewin ao afirmar que comunidades em geral se mantêm em estado de quase-equilíbrio. (LEWIN, Kurt. Dinámica de grupo y cambio social. ETZIONI, Amitai; ETZIONI, Eva. (Comp.). Los cambios sociales: fuentes, tipos y consecuencias. Tradução de Florentino M. Torner. Cidade do México: Fondo de Cultura Económica, 1968. p. 321-322). 5.
(24) 24. [...] um tipo de mudança contrastado com a estabilidade e que pressuporia, em conseqüência, a existência de um sistema ou conjunto de sistemas para os quais é importante o conceito de equilíbrio, porém que são concebidos como sofrendo processos de mudança que, como tais, são processos que transtornam o estado inicial de equilíbrio e depois “ estabelecem” um novo estado de equilíbrio. (PARSONS, 1968, p. 85). Em paralelo evidente com as idéias de Parsons, Lewin (1968, p. 323) destaca que a mudança social é resultado de um procedimento em três etapas: descongelamento, mudança e congelamento em um novo nível. Também fazendo referência a Parsons, para Rogers e Svenning: [...] a mudança social é o processo por meio do qual se produz uma alteração na estrutura e no funcionamento de um sistema social. Uma revolução nacional, a criação de um conselho de desenvolvimento de uma aldeia, de um novo ministério, a invenção de um novo processo industrial, são exemplos de mudança social. Como resultado de tais ações ocorrem alterações na estrutura e no funcionamento de um sistema social. (ROGERS; SVENNING, p. 12). Para os autores, a mudança social ocorre em três etapas: invenção, difusão e conseqüências. A invenção é o processo pelo qual se criam ou se desenvolvem novas idéias. A difusão é o processo mediante o qual se transmitem tais idéias a um dado sistema social. As conseqüências são mudanças que ocorrem no sistema como resultado da adoção ou rejeição das inovações. (ROGERS; SVENNING, 1973, p. 12). As mudanças sociais ainda podem ser classificadas de acordo com a sua origem: as imanentes e as originadas do contato. A mudança social imanente se refere à situação em que uma invenção ocorre dentro de uma comunidade, por exemplo, com pouco ou nenhuma influência externa. Já as originadas do contato podem ser classificada de duas formas: a seletiva e a dirigida. A mudança de contato seletivo ocorre como fruto do contato espontâneo de membros da comunidade com outros grupos sociais, em que a adoção ou rejeição de idéias originadas “ de fora” (exógenas) ocorre mediante processos próprios da comunidade. A mudança de contato dirigido é de natureza bastante diferente. O momento atual é certamente o do contato dirigido, gerado por agentes externos que por sua própria conta ou como representantes de mudança planejada tratam de introduzir novas idéias para alcançar metas definidas. [...] As medias de desenvolvimento econômico são uma classe de mudança social dirigida. Se introduzem novas idéias num sistema social com o objetivo de obter rendimentos per capita mais elevados e melhores níveis de vida, mediante métodos de produção mais modernos e uma melhor organização social. Os múltiplos.
(25) 25. programas de desenvolvimento patrocinados pelos governos, destinados a introduzir inovações tecnológicas na agricultura, saúde, educação e indústria são exemplos contemporâneos de mudança dirigida. (ROGERS; SVENNING, 1973, p. 15-16). Lakatos (1985) em capítulo bastante detalhado sobre mudança social, amplia o espectro de análise deste processo, afirmando que devem ser levadas em conta também as seguintes indagações: o quê muda, fonte ou causa, ritmo, como se efetua, favorabilidade das condições, agentes de promoção ou resistência, direção da mudança e seus mecanismos de controle. (p. 307) Para Lewin, a mudança social é resultado de uma estratégia de múltiplas iniciativas: Toda mudança social planejada deverá ter em conta uma multiplicidade de fatores característicos para seu caso particular. A mudança pode requerer mais ou menos única de medidas educativas e de organização; pode depender de abordagens ou ideologias, expectativas e organizações totalmente diferentes. (LEWIN, 1968, p. 321). Lewin oferece ainda dois métodos para se mudar os níveis de conduta dos indivíduos: empregando força no sentido da mudança desejada ou diminuindo as forças contrárias. Nos dois casos o equilíbrio poderia passar ao mesmo nível novo. Porém, o efeito secundário seria totalmente diferente. No primeiro caso, a passagem ao novo nível iria acompanhada de um estado de tensão relativamente alto; no segundo caso, por um estado de tensão relativamente baixa. Como é provável que os aumentos da tensão acima de determinado grau venha acompanhado de maior agressividade, maior emotividade e menos espírito construtivo, é evidente que, regra geral, o segundo método é preferível em relação à alta pressão. (LEWIN, 1968, p. 322). Sobre o desenvolvimento É irônico que, embora o próprio Ocidente tenha se desenvolvido através de inovações na ciência, na tecnologia e na organização social, fornecendo novas respostas a novos desafios, espere que o mundo não-ocidental deva apenas imitar ou adotar instituições ocidentais, sem perturbar o monopólio de criatividade do Ocidente. A imitação, porém, não liberta e não pode libertar a energia criadora do imitador. Ela apenas perpetua sua dependência do modelo. Ainda que o mundo não ocidental pudesse alcançar certo desenvolvimento material imitando o Ocidente, poderia somente resolver seus problemas pecuniários e não daria contribuição alguma à cultura universal. Isto certamente asseguraria a homogeneidade e uniformidade da cultura do mundo e satisfaria a deificada ânsia do homem ocidental de moldar a humanidade à sua própria imagem, mas não enriqueceria necessariamente a cultura da humanidade. (INAYATULLAH, 1973, p.118).
(26) 26. Com efeito, o modelo ocidental é virtualmente uma diretriz inevitável para o planejamento do desenvolvimento asiático porque não há outro modelo que possa servir a esse propósito. [...] As sociedades ocidentais ainda fornecem o modelo mais desenvolvido das características da sociedade (poder, riqueza, capacidade, mobilidade, racionalidade) que os líderes orientais defendem num ou outro vocabulário, como a meta de suas próprias sociedades. [...] Mesmo quando expressado em formais mais moderadas, o etnocentrismo das novas nações no Oriente complica seriamente o processo de modernização delas. O que desejam são instituições modernas, mas não ideologias modernas, poder moderno mas não propósitos modernos, riqueza moderna mas não sabedoria moderna, bens modernos mas não mudança moderna. (LERNER, 1973, p.132). Trazendo à tona novamente a discordância dos entendimentos acerca do quê é desenvolvimento, Blumer nos apresenta algumas das principais concepções: [...] alguns sociólogos estudam as condições sociais que eles julgam impedir ou auxiliar o desenvolvimento econômico. Outros dedicam-se a estudar as conseqüências sociais do desenvolvimento econômico. Alguns enveredam por uma direção completamente diversa e tratam o desenvolvimento social como equivalente à eliminação dos problemas sociais clássicos, como o crime, as favelas ou a dissolução da família. Ainda outros identificam o desenvolvimento social com seleções arbitrárias das assim chamadas taxas de crescimento social, como as taxas de alfabetização, de escolaridade, de consumo de calorias, ou índices de mortalidade infantil. Alguns sociólogos relacionam desenvolvimento social com industrialização e urbanização. Alguns relacionam esse conceito com o controle governamental centralizado, e outros, com um estado de liberdade pluralística. Alguns o encaram como o desenvolvimento de um tipo usual de sociedade aberta e competitiva. Há aqueles que empregam o termo como sinônimo de acontecimentos sociais que ocorrem nas áreas atrasadas como resposta à modernização. (BLUMER, 1975, p. 39-49). Independentemente da resposta a que se dê a essa questão, o autor afirma que nada garante que a adoção de qualquer uma dessas medidas de promoção do desenvolvimento não possa trazer consigo aspectos que promovam o detrimento de outros, como o crescimento das cidades que pode gerar a desintegração da vida comunitária, ou como a possibilidade de a melhoria no atendimento de saúde à população gerar problemas sérios de crescimento populacional. Assim, para avaliarmos o desenvolvimento social, não podemos nos apegar a fatos isolados como indicadores do desenvolvimento ou da falta dele: é necessário que busquemos uma referência que esteja além dos fatos. Se a concepção deve ter uma forma genérica que lhe permita ser aplicada de maneira geral a sociedades humanas ou a fatos sociais em várias culturas, provavelmente essa.
(27) 27. concepção deveria estar ligada à constituição abstrata fundamental da sociedade humana. (BLUMER, 1975, p. 43). Em seu artigo Blumer não nos oferece pistas sobre qual seria essa concepção fundamental, somente alertando que uma das razões para o quê ele considera como debilidade das ciências sociais é a falta de preocupação em se isolar os mecanismos da expansão social. "Estou tentando mostrar que, mesmo em termos práticos, os sociólogos dedicam muito pouco estudo às formas de se conseguir desenvolver valores culturais e formas sociais que eles aceitam como os objetivos do desenvolvimento." (BLUMER, 1975, p. 49) Em relação à identificação das variáveis do desenvolvimento, seus objetivos e pontosde-partida que estejam mais próximos do que uma dia se poderá talvez identificar como condições fundamentais, faz-se mister comentar especificamente sobre algumas obras, que serão pontualmente discutidas no item 1.4 (“ Alternativas ao desenvolvimento” ). Passemos às concepções de sociedade dual e à vertente do desenvolvimento como modernização, ambas de grande expressão no século 20. 1.1 – Paradigma da sociedade dual e da modernização O paradigma da sociedade dual, ou dualista, parte da constatação de que – principalmente nos países subdesenvolvidos – somente uma parte de sua população estaria apta a ingressar num processo de desenvolvimento mais veloz. Enquanto se busca o desenvolvimento, amiúde uma parte da população é engajada em um movimento rápido que transforma profundamente suas condições de existência, ao passo que a outra permanece quase totalmente à margem do movimento e conserva traços culturais que a primeira abandonou. A mesma cultura nacional comporta, assim, duas facies: uma evoluída e outra arcaica, que podem se muito diferentes e que tanto mais se diferenciam quanto a difusão do progresso técnico é mais rápida e menos geral; essa modalidade de atraso e de avanço cultural é habitualmente designada pelo nome de "sociedade dualista". (LAMBERT, 1967, p. 67). Para Lambert, a causa desse desenvolvimento desigual não está na característica específica da cultura que recebe o progresso técnico, mas na forma como esse progresso se dá. Nações que se esforçam atualmente para acelerar pela industrialização o processo de desenvolvimento há muito negligenciado, constata-se, pelo contrário, que a difusão de novos traços culturais permanece restrito por muito tempo limitada aos pontos de onde se irradia o desenvolvimento econômico. Os efeitos sociais desse processo alcançam com dificuldade outras regiões, e, como o avanço econômico não se pode estender imediatamente ao conjunto do país, a sociedade dualista emerge então com feições bastante manifestas. Com efeito, o.
(28) 28. progresso técnico não é introduzido gradualmente nesses países, assim como ocorreu nos Estados Unidos e na Europa; a nova cultura é importada em seus aspectos mais adiantados; em uma só geração a cultura sofre transformações que cinco ou seis gerações teriam sido necessárias para suportar, e outros lugares. (LAMBERT, 1976, p. 69). Especificamente sobre a realidade dos países americanos, Lambert afirma que: A diferenciação da sociedade evoluída e da sociedade arcaica tende então a efetuar-se tanto mais rapidamente quanto os esforços do desenvolvimento conhecem maior êxito nos pólos e quanto mais a natureza do povoamento e da estrutura social favoreça o isolamento. Daí se infere que os países ibero-americanos estão particularmente expostos à constituição de sociedades dualistas porque são eles que sofrem o mais rápido processo de desenvolvimento econômico, e porquê neles, com freqüência, a sobrevivência de grandes propriedades semifeudais e a existência de imensas regiões com fraca densidade demográfica retardam a difusão geral dos novos traços culturais. (LAMBERT, 1967, p. 69). Para Durand e Machado, abundam exemplos concretos de como sociedades (principalmente as latino-americanas) apresentam concretamente características de sociedades dualistas: [...] o caráter dual das sociedades subdesenvolvidas é um caráter empiricamente real, observável pelo senso-comum, sentido e vivido pelos agentes sociais. É a diferenciação profunda do modo de vida e das atividades econômicas das populações faveladas das grandes cidades e das camadas médias e altas urbanas. É a diferenciação do modo de vida das populações que vivem basicamente para sua subsistência no campo, dos assalariados rurais, dos parceiros, moradores e pequenos arrendatários em relação aos grandes arrendatários e proprietários das empresas agrícolas voltados apenas para o mercado. É a diferenciação do modo de vida rural e urbano, é a diferenciação entre a pobreza e a riqueza, entre a menor e maior possibilidade de acesso à educação, à participação política, etc., a diferenciação entre o baixo e o alto consumo, entre a baixa produtividade de algumas atividades econômicas, quer agrícolas, industriais ou de serviços e a alta produtividade de outras. É a diferenciação de regiões onde se concentram as atividades de alta produtividade e as regiões onde se concentram as atividades de baixa produtividade. (DURAND; MACHADO, 1975, p. 21-22),. A relação de assistência dos Estados Unidos para com os países Latino Americanos não é recente, datando desde a primeira metade do século passado, conforme nos relata Beatty: Antes de 1940, cerca de 65 entidades religiosas tinham 1600 projetos em operação na América Latina, compreendendo 1360 escolas, 120 hospitais e clínicas, 43 fazendas de demonstração e projetos agrícolas, bem como uns 94 projetos de vária natureza, inclusive centros de assistência social. [...] Essa experiência latino-americana precedeu a criação da Unesco e preparou os Estados Unidos para empreenderem, dentro dos princípios do Ponto IV, anunciados pelo Presidente Truman no seu discurso de posse de 1949, a extensão da cooperação técnica a todas as regiões do mundo. (BEATTY, 1965, p. 160) No caso do Brasil, já em 1942 é celebrado convênio entre seu governo e o dos Estados.
(29) 29. Unidos para incremento da produção de gêneros alimentícios em nosso país, como resposta certamente à preocupação de que “ os povos famintos têm mais receptividade à propaganda comunista” ... Mediante proposta do Vice-Presidente Executivo do Instituto de Assuntos Interamericanos – General Dunham – o Acordo é prorrogado em 1944 e o Governo americano continua a manter seu quadro de técnicos junto ao Ministério de Agricultura, para assessoria à Comissão de produção de alimentos. (AMMANN, 1997, p. 30). Especificamente sobre o Ponto IV, citamos Galbraith: No começo do seu novo período, em 1949, o Presidente Harry S. Truman empenhou os Estados Unidos no hoje famoso Ponto IV, um programa eficaz que punha à disposição dos povos menos afortunados os recursos técnicos e os empreendimentos americanos. [...] Houve uma melhoria; a assistência técnica, separada do capital, revelava-se uma esperança de progresso técnico a preço bastante baixo. [...] Nenhum dos funcionários que dela [da promessa do Presidente] se ocupavam, e dos técnicos convocados, tinha opinião segura sobre as necessidades dos países pobres ou sobre qual forma de assistência técnica devia ser aplicada. Havia muito pouca literatura a que se pudesse recorrer. Os eufemismos aceitáveis para a pobreza - países menos desenvolvidos, os LDCs (less developed countries), países em desenvolvimento, Terceiro Mundo – ainda não tinham sido criados. (GALBRAITH, 1979, p. 30-31). Além do Ponto IV, outros projetos de auxílio estavam em curso, como Os Quatorze Pontos do Presidente Wilson, introduzindo o conceito anticolonial de autodeterminação, as Quatro Liberdades de Roosevelt e o programa de ‘Empréstimos e Arrendamentos’ durante a Segunda Guerra Mundial, colocando generosamente os nossos recursos materiais a serviço de nossos aliados; o Plano Marshall para ‘prestar assistência no retorno do mundo à higidez econômica normal, sem a qual não pode haver estabilidade política nem garantias de paz... uma política... que não se dirige contra qualquer país ou doutrina, mas contra a fome, a pobreza, o desespero e o caos’, refletiam igualmente o que havia de melhor nos impulsos norte-americanos. (BEATTY, 1965, p. 159-160) 6. Nas universidades começaram a ser criadas áreas de estudos sobre o desenvolvimento econômico. "Nenhum outro assunto econômico, como salvar da pobreza o povo dos países pobres, prendeu mais rapidamente a atenção de tantos." (GALBRAITH, 1979, p. 33) Para Galbraith, mais do que uma reação de solidariedade entre países, essas ações tiveram origem em propostas notadamente de favorecimento à política norte-americana, conforme veremos no item 1.2. 6. Para Beatty, esse impulso acusa a presença de um forte idealismo do norte-americano pelo auxílio aos mais pobres menos favorecido, figurando, inclusive, na inscrição afixada ao pé da Estátua da Liberdade, em Nova York. “ Dai-me os vossos pobres, os vossos alquebrados, / vossas massas compactas ansiando por ar livre, / o triste refugo de vossas plagas fervilhantes, / e enviai a mim os sem-teto, açoitados pela tormenta: / eu ergo o meu facho junto aos portais de ouro.” BEATTY, Willard W. Progressos técnicos e científicos. In: HENRY, Nelson B. (Coord.). Educação comunitária: princípios e práticas colhidos na experiência através do mundo. Anuário da Sociedade Nacional para o Estudo da Educação. Tradução de Leonel Vallandro. Porto Alegre: Globo, 1965. p. 159..
(30) 30. Uma dessas propostas foi a “ Aliança para o Progresso” que, sob os auspícios do governo John F. Kennedy, apresentava-se claramente como uma forte resposta à Revolução Cubana. A Aliança foi formalizada em agosto 1961, em Punta Del Este (Uruguai), de cujo documento fundador, a “ Carta de Punta Del Este” , extraímos o parágrafo abaixo: A Aliança para o Progresso tem como objetivo unir todas as energias dos povos e governos das Repúblicas americanas, a fim de desenvolver um magno esforço cooperativo que acelere o desenvolvimento econômico e social dos países latino-americanos participantes, para que consigam alcançar o máximo grau de bem-estar com iguais oportunidades para todos, em sociedades democráticas adaptadas aos seus próprios desejos e necessidades. (DREIER, 1962, p. 168). –x– "A ênfase dada à diferenciação entre atitudes modernas e tradicionais levou à preocupação pela difusão dos valores modernos por populações ainda atrasadas." (MACHADO, 1975, p. 204). A partir daí, uma das correntes teóricas que mais se despontou foi a que – futuramente – se constituiu no que ficou mais conhecido como o “ paradigma da modernização” , para cujos conceitos passaremos agora. Fazendo uma breve introdução a este paradigma, podemos afirmar que os pesquisadores que a ele se aderiram tiveram principalmente a preocupação central de encontrar fórmulas para que populações e comunidade que ficaram à margem do desenvolvimento pudessem – o mais rápido possível – se tornar "modernas", o quê seria resultado de ações de promoção do desenvolvimento e de combate a resistências à adoção de novas idéias, atitudes e comportamentos. Para Rogers (1973, p. 23), "a modernização no nível individual corresponde ao desenvolvimento no nível social. A modernização é o processo pelo qual passam os indivíduos de uma forma tradicional a outra mais complexa, tecnologicamente adiantada, e altamente volúvel." Para o autor, deve-se evitar 3 falácias comumente vinculadas ao que se chama de modernização. 1) Freqüentemente se tem equiparado modernização com "europeização" e/ou "ocidentalização". [...] A modernização é uma síntese de usos antigos e novos, e por isso paria em diferentes ambientes. O elemento novo não virá necessariamente da Europa ou do Ocidente. [...] 2) Com freqüência se supõe que toda modernização é "boa". Nossa definição não contém tal juízo de valor. [...] Os representantes dos países subdesenvolvidos que participam dos programas da AID, e que se preparam para regressar ao seu lugar de origem depois de estada nos Estados Unidos, freqüentemente expressam seu temor frente à espada de dois gumes que é a modernização. [...] Em suma, a modernização significa a adoção de novas formas de vida, cujas conseqüências não conduzem necessariamente a uma vida "melhor" para todos os indivíduos envolvidos. 3) O processo de modernização não tem somente uma.
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