ELIZETE CRISTINA RIBEIRO
QUEIXAS OSTEOMUSCULARES EM AGENTES
COMUNITÁRIOS DE SAÚDE
BELO HORIZONTE
2013
QUEIXAS
OSTEOMUSCULARES EM AGENTES COMUNITÁRIOS DE
SAÚDE
Elizete Cristina Ribeiro1
Francisco de Oliveira Vieira2
Resumo
No Brasil atualmente, pode-se relatar grandes avanços no que diz respeito à saúde e ao acesso da população ao conhecimento e informações, onde estão incluídos a prevenção e o tratamento de muitas doenças. Em 1994, o ministério da saúde criou o Programa de Saúde da Família (PSF) com o propósito de reorganizar a prática de atenção através do atendimento prestado na unidade básica ou domiciliar pela equipe de saúde (médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem e agentes comunitários de saúde - ACS). Sendo o ACS responsável pelo cadastramento dos indivíduos no Programa de Saúde da Família, dentre outras atividades, seu trabalho exige certo esforço físico. Trabalhando cerca de oito horas por dia, o ACS enfrenta longas caminhadas em locais muitas vezes de difícil acesso ou terrenos irregulares, transportando material de trabalho sobre os ombros o que os expõe a fatores de riscos e a doenças ocupacionais. Sendo assim, o seu trabalho pode trazer alguns problemas para a qualidade de vida, tais como a Lesão por Esforço Repetitivo (LER) ou Doenças Osteomusculares Relacionadas ao Trabalho (DORT). Esse trabalho tem como propósito apresentar as principais queixas osteomusculares apresentadas pelos ACS no exercício de sua profissão. Foi feito uma revisão de literatura em revistas e artigos na área de fisioterapia e ortopedia. Palavra chave: Agente Comunitário de Saúde (ACS); Lesão por Esforço Repetitivo (LER); Doenças Osteomusculares Relacionadas ao Trabalho (DORT).
Abstract
1 Graduanda em Ciências Biológicas pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix, situado na
rua da Bahia, 2020, Lourdes. 30000-000. Belo Horizonte, MG. E-mail: [email protected]
2 Mestre em Biologia Celular e Molecular pela UFMG. Docente no Centro Universitário Metodista
In Brazil today, you can report great progress with regard to health and the population's access to knowledge and information, which included the prevention and treatment of many diseases. In 1994, the Ministry of Health created the Family Health Program (PSF) for the purpose of reorganizing care practice through the care provided in the basic unit or the household staff (doctors, nurses, nursing assistants and community health - ACS). Since the ACS is responsible for registration of individuals in the Family Health Program, among other activities, their work requires some physical exertion. Working about eight hours a day, ACS faces long walks in places often inaccessible or rough terrain, carrying work materials on the shoulders which exposes them to risks and illnesses. Thus, their work may bring some problems to the quality of life, such as Repetitive Strain Injury (RSI) or Work-Related Musculoskeletal disorders (MSDs). This paper aims to present the main musculoskeletal complaints presented by the ACS in the exercise of their profession. Was made to review the literature in journals and articles in the field of physiotherapy and orthopedics.
Keyword: Community Health Agent (CHA), Repetitive Strain Injury (RSI), Work-related musculoskeletal disorders (MSDs).
INTRODUÇÃO
No Brasil, atualmente, pode-se relatar grandes avanços no que se diz respeito à saúde e ao acesso da população ao conhecimento e informações voltadas para está área, onde estão incluídos a prevenção e o tratamento de muitas doenças (MARQUES et al, 2004; BRASIL, 2012).
A Constituição Federal de 1988 deu um importante passo na garantia do direito à saúde, com a criação do Sistema Único de Saúde (SUS). Seus princípios apontam para a democratização nas ações e nos serviços de saúde, que deixam de serem restritos e passam a ser universais, da mesma forma, deixam de ser centralizados e passam a nortearem-se pela descentralização, ou seja, o objetivo do SUS é capacitar os municípios a assumir suas responsabilidades, bem como desenvolver ações que dêem prioridade à prevenção e à promoção da saúde (BRASIL, 2012).
Nem sempre é possível ao município executar sozinho todos os serviços de saúde. Pequenos municípios carecem de recursos humanos, financeiros e materiais e sua população é insuficiente para manter um hospital ou serviços especializados. Por isso, a descentralização dos serviços implica também em sua regionalização.
Em um país com uma grande população como o Brasil, para evitar desperdícios e duplicações, faz-se necessário organizar os serviços, visando dar acesso a todos os tipos de atendimento (LEVY et al, 2004; BRASIL, 2012).
Em 1990, o Congresso Nacional aprovou a Lei Orgânica da Saúde, que detalha o funcionamento do SUS. Foram mudanças profundas na Saúde Pública brasileira que exigiram, para sua implantação e funcionamento, o aprimoramento do sistema de informação e saúde (MARQUES et al, 2004; LEVY et al, 2004).
Desde então, cabe ao governo zelar pela política nacional da saúde, coordenar, fiscalizar, realizar ações de promoção, proteção e recuperação individual e coletiva. Vigilância e controle sanitário de fronteiras e de pontos marítimos, fluviais e aéreos, pesquisas científicas e tecnológicas (FERNANDES, 1992).
Um dos grandes avanços dados pelo Ministério da Saúde foi a criação do Programa de Saúde da Família (PSF) composto por uma equipe básica (médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem e agentes comunitários de saúde). Criado no Brasil na década de 90, inspirado em experiências de outros países como Canadá e Inglaterra, em que o nível de saúde pública alcançou grandes patamares. Apesar de usar esses países como referência, o Brasil adquiriu suas próprias características. Hoje, o PSF existe em praticamente todo o país, sendo instituído oficialmente pelo Ministério da Saúde em 1994(BRASIL, 2012).
Para que o Programa de Saúde da Família fosse efetivamente implantado, necessário se fez a criação de um profissional que fizesse parte da equipe de saúde da comunidade onde mora. Este profissional é o ACS, responsável pelo cadastramento dos indivíduos, dentre outras atividades, como mapeamento da micro-área, vigilância junto ao domicílio, agendar consultas médicas e odontológicas, orientar as famílias para utilização adequada dos serviços, conferirem os cartões de vacinas.
O ACS é uma pessoa preparada para orientar famílias sobre cuidados com sua própria saúde e também com a saúde da comunidade. Sem dúvidas, esse profissional apresenta características especiais, pois atua na mesma comunidade onde vive (FERRAZ; AERTS, 2004).
Embora o ACS seja de suma importância para os programas do Ministério da Saúde, deve-se destacar que seu trabalho também pode trazer malefícios para sua qualidade de vida, uma vez que no exercício de sua profissão ele se depara com alguns obstáculos como nível salarial abaixo do desejado, falta de estrutura física e
de material para o desenvolvimento do trabalho, cobranças excessivas da população, falta de apoio da equipe de saúde, entre outros (SIMÕES, 2009).
Dentre os problemas apresentados pelos ACS, destacam-se as doenças de caráter osteomuscular, tais como as Lesões por Esforços Repetitivos (LER), recentemente denominadas Doenças Osteomusculares Relacionadas ao Trabalho (DORT).
Portanto, o presente trabalho tem como objetivo apresentar as principais queixas osteomusculares apresentadas pelos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) no exercício de sua profissão e a metodologia utilizada uma revisão de literatura em revistas e artigos na área de fisioterapia, ortopedia, que associam a LER/DORT com a sobrecarga no ambiente de trabalho.
DESENVOLVIMENTO
No seu cotidiano de trabalho, o ACS depara-se com grandes desafios, tais como população insatisfeita com o serviço de saúde, condições de higiene, trabalho e moradias precárias, dentre outras. Sendo o trabalho considerado a causa mais constante de estresse, também pode ser uma vítima dessa condição, devido às altas cargas físicas e emocionais que podem acumular durante o desenvolvimento de seu trabalho (SIMÕES, 2009).
Dentre as cargas físicas, podem-se destacar as escadas e as longas caminhadas que se enquadram nas cargas mecânicas, já o trabalho físico pesado e as posições incômodas se destacam nas cargas fisiológicas, ambas as cargas foram identificadas nas falas dos ACS, e a maioria oriundas das demandas do trabalho na comunidade (TRINDADE et al,2007).
Os ACS trabalham oito horas por dia a pé carregando em seus ombros bolsa contendo prancheta, lápis, caderno, impressos, caneta, borracha e utensílios importantes para o bom desempenho de suas funções (MOURA 2006).
Ainda segundo Moura (2006), os ACS estão expostos aos fatores de risco e doenças ocupacionais, pois integram a mão de obra que utiliza recursos manuais; trabalha externamente, ficando sob alta exposição aos riscos associados às condições de trabalho, como a falta de equipamentos de proteção e materiais ergonômicos padronizados; cobrem as suas áreas de abrangência a pé durante oito horas por dia, transportando materiais na bolsa sobre o ombro, o que resulta
constantemente em lesões osteomusculares com manifestações como dores musculares, tensões musculares, câimbras, lombalgias, cervicalgias, tendinites, além de uma sobrecarga física e alterações posturais.
Os ACS, como quaisquer servidores públicos ou privados, estão propícios às conseqüências físico-ocupacionais provocadas pela relação dos fatores relatados anteriormente, o que origina afastamentos médicos, aposentadorias precoces, além da redução do ritmo de trabalho, da atenção e do raciocínio, onerando assim o setor público e privado (MOURA, 2006).
Por conta de todas essas questões, tornou-se relevante e justificável a realização de um estudo para avaliar se as condições de trabalho do ACS (longas caminhadas, peso da bolsa, etc.) comprometem o alinhamento postural desses funcionários.
Nesse estudo realizado por Moura (2006), constatou-se que os ACS, que mantêm a força muscular através de contração concêntrica a fim de garantir a estabilidade dos membros superiores suspensos e sem apoio, podem sofrer tendinites e fortes dores nos músculos dorsais, dentre os quais o trapézio é o principal músculo.
Ainda segundo o estudo realizado por Moura (2006), outro fator relevante é a posição estar de pé. Estar de pé significa que todo o peso do corpo é sustentado pelo pé e que as pessoas irão trabalhar contra a ação da gravidade. Sendo assim, a bolsa produz sobre a estrutura de suporte, que são os ombros, um efeito acumulativo de sobrecarga e constante durante um período de tempo, levando o organismo a hábitos posturais compensatórios.
Em outra pesquisa que avalia os fatores de sobrecarga de trabalho e estresse dos ACS, a pesquisadora concluiu que dentre os fatores físicos e ambientais que poderiam atrapalhar ou prejudicar o trabalho estão à falta de lugar próprio para trabalhar na unidade, não possuir material adequado para realizar anotações e poder deslocar-se até as casas dos usuários, excesso de trabalho e ter que sair sob o sol forte ou na chuva para fazer as visitas domiciliares (SIMÕES, 2009).
Diante de todos esses fatores acima descritos, os ACS ficam expostos às Doenças Osteomusculares Relacionadas ao Trabalho (DORT).
Distúrbios relacionados ao trabalho surgiram no Brasil, primeiramente designados como LER, mas posteriormente através de estudos constatou-se que este termo seria insuficiente para designar as formas clínicas que começaram a
parecer por conseqüência de atividades ocupacionais por traduzir um único mecanismo de lesão. A partir da década de 90, foi adotado então o termo DORT, ampliando os mecanismos de lesão, que passaram a não ser restritos somente a movimentos repetitivos (OLIVEIRA, 2006; DELIBERATO, 2002).
As DORT podem ser citadas como problemas funcionais, lesões musculares, de fáscias, tendões, nervos ou cápsulas articulares, assim como de articulações em geral, ocasionadas pela utilização biomecanicamente incorreta de todo corpo, resultando em dor, fadiga, queda de desempenho no trabalho, incapacidade temporária e síndrome dolorosa crônica, podendo ser agravada por fatores psíquicos capazes de reduzir o limiar de sensibilidade dolorosa do individuo (FERNANDES, 2004; SILVA, 2004; GURGUEIRA et al, 2003; DELIBERATO, 2002).
O Sistema Único de Saúde (SUS) elencou algumas das situações que podem propiciar a ocorrência de LER/DORT no trabalhador. São elas:
• Obrigatoriedade para manter o ritmo acelerado de trabalho;
• Trabalho fragmentado, em que cada um exerce uma única tarefa de forma repetitiva;
• Trabalho rigidamente hierarquizado, sob pressão permanente da chefia;
• Número insuficiente de funcionários;
• Jornadas prolongadas de trabalho;
• Ausência de pausa durante a jornada de trabalho;
• Trabalhos realizados em ambientes frios, ruidosos, mal ventilados, etc. (SUS, 2008).
Diante de todas essas dificuldades enfrentadas pelos ACS, vê-se a importância de levar a eles medidas ergonômicas, visando à diminuição das lesões e acidentes (FERNANDES, 2004).
A ergonomia compreende a psicologia, fisiologia, antropometria, biomecânica e o relacionamento entre o homem e seu trabalho, equipamento utilizado, ambiente e particularmente, da aplicação de conhecimentos de anatomia e fisiologia visando solução de problemas existentes na relação homem, trabalho e doenças (DELIBERATO, 2002).
Introduzida durante a 2ª Guerra Mundial, grandes avanços entre as décadas de 1960 e 1980, em que ocorre uma maior adequação das máquinas, ferramentas e equipamentos a fim de ter segurança do trabalho (DELIBERATO, 2002).
As doenças musculoesqueléticas são as mais prevalecentes e a origem principal de enfraquecimentos agudos e crônicos nos Estados Unidos. Isso é verdade para ambos os sexos e todas as idades, incluindo os jovens e adultos médios que definem a população trabalhadora. Esses problemas são também a principal causa de ausência do trabalhador, resultando em mais de 27 milhões de dias perdidos de trabalho por ano. Além disso, uma considerável proporção de todos esses problemas pode ser atribuída origens ocupacionais. De fato, como causa da incapacidade ocupacional, os problemas osteomusculares estão em segundo lugar, perdendo somente para doenças cardiovasculares (JAMES, 1983; FERNANDES, 2004).
As implicações desse nível de doenças também são enormes no Brasil, não só na degradação da qualidade de vida daqueles que sofrem, mas também o esforço que eles exigem da sociedade e os cuidados que requerem com a saúde.
Os custos diretos anuais em termos de salários são aproximados em cinco bilhões e os custos indiretos têm sido estimados em duas vezes essa quantia. Em uma inspeção nacional, uma em 10 pessoas entrevistadas estava procurando cuidar da saúde ou limitando as atividades próprias por problemas osteomusculares, como a osteoartrite. Finalmente, essas condições são um peso nos programas compensatórios (FERNANDES, 2004; SILVA, 2004; GURGUEIRA, 2003).
CONCLUSÃO
Após todas as considerações feitas pelo presente trabalho, verifica-se que o Agente Comunitário de Saúde, embora represente grande avanço principalmente no que tange à saúde no Brasil, pode sofrer alguns problemas osteomusculares devido à sua atividade laboral.
O ACS anda a pé longas distâncias, carregando sobre os ombros bolsa contendo material necessário para desempenhar suas funções, sendo que sua carga horária é de oito horas diárias.
Em virtude de tais fatores, os ACS ficam expostos às Doenças Osteomusculares Relacionadas ao Trabalho (DORT), que são problemas funcionais que podem causar lesões musculares, dificuldades nas articulações, inflamação nos tendões e outros problemas que implicam na diminuição da qualidade laboral.
O presente trabalho tenta, de maneira bem sucinta, evidenciar os problemas causados aos ACS em virtude do seu dia a dia funcional, revelando que a falta de condições adequadas para a realização do seu trabalho pode acarretar em Doenças Osteomusculares Relacionadas ao Trabalho (DORT).
Sendo assim, necessário se faz que o trabalho prestado pelo ACS seja mais bem estruturado, dando ao mesmo melhores condições de serviço, tais como os princípios da ergonomia, afim de, pelo menos, aumentar a sua qualidade de trabalho e evitar maiores problemas físicos advindos de suas funções.
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