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O sujeito surdo e a construção de saberes emancipatórios / The deaf subject and the construction of emancipatory knowledge

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Academic year: 2020

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Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n. 7, p. 51462-51470, jul. 2020. ISSN 2525-8761

O sujeito surdo e a construção de saberes emancipatórios

The deaf subject and the construction of emancipatory knowledge

DOI:10.34117/bjdv6n7-696

Recebimento dos originais: 03/06/2020 Aceitação para publicação: 27/07/2020

Regina de Maria Wanzeler Miranda Pompeu

Pós-graduanda em LIBRAS e Metodologias de Ensino para Alunos Surdos pela Universidade Federal do Pará

Instituição: Universidade Federal do Pará

Endereço: Rua Padre Antônio Franco, n° 2617, Bairro da Matinha, Cametá – PA, Brasil E-mail: [email protected]

Francisca de Paula de Sousa Pinto

Pós-graduanda em LIBRAS e Metodologias de Ensino para Alunos Surdos pela Universidade Federal do Pará

Instituição: Universidade Federal do Pará

Endereço: Rua Padre Antônio Franco, n° 2617, Bairro da Matinha, Cametá – PA, Brasil E-mail: [email protected]

Adriene Lorena Gomes de Sá

Pós-graduanda em LIBRAS e Metodologias de Ensino para Alunos Surdos pela Universidade Federal do Pará

Instituição: Universidade Federal do Pará

Endereço: Rua Padre Antônio Franco, n° 2617, Bairro da Matinha, Cametá – PA, Brasil E-mail: [email protected]

Kelri Vinagre Ferreira

Especialista em LIBRAS e Metodologias de Ensino para Alunos Surdos pela Universidade Federal do Pará

Instituição: Universidade Federal do Pará.

Endereço: Rua Padre Antônio Franco, n° 2617, Bairro da Matinha, Cametá – PA, Brasil E-mail:[email protected]

Elzilene Valente Cavalcante

Pós-graduanda em LIBRAS e Metodologias de Ensino para Alunos Surdos pela Universidade Federal do Pará.

Instituição: Universidade Federal do Pará.

Endereço: Rua Padre Antônio Franco, n° 2617, Bairro da Matinha, Cametá – PA, Brasil. E-mail: [email protected]

RESUMO

A valorização dos saberes emancipatórios dos sujeitos surdos é um tema estreante, que se estudado de forma regressa, nos permite ouvir o árduo grito que imperava em meio ao silêncio, de quem tinha seus saberes privados, visto que, se adentrarmos neste estudo, evidencia-se que algumas vezes, as ações direcionadas para o sujeito surdo, tratam este com certo estigma, como se este fosse “um ser vazio” de saberes e conhecimentos. Desse modo, o presente trabalho visa promover uma breve análise

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Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n. 7, p. 51462-51470, jul. 2020. ISSN 2525-8761 sobre como o sujeito surdo constrói seus conhecimentos autônomos, diante de uma sociedade marcada pelas lacunas presentes nas ações e realizações das políticas públicas. Dessa forma, partimos da reflexão sobre os saberes adquiridos por este durante a vivência em sociedade, sua vida estudantil e familiar, almejando compreender como se dá a relação de saberes desse, e como este, usa o saber para interagir em sociedade, compreendendo e fazendo-se compreender pelos que o rodeiam, mesmo diante de uma sociedade pouco preparada para entendê-lo. Assim a pesquisa foi realizada a partir de uma entrevista semiestruturada com uma surda concluinte do ensino médio da cidade de Mocajuba-PA e foi analisada a luz de teóricos que discutem a temática. Como resultado a partir das narrativas da surda compreende-se o saber como a construção de valores, atitudes e ações, que os sujeitos surdos tomam para manifestar sua opinião no mundo, reivindicar seu espaço na sociedade, demonstrar seus anseios e suas necessidades.

Palavras-chave: Sujeito surdo, Saberes emancipatórios, Autonomia surda. ABSTRACT

The valorization of the emancipatory knowledge of deaf subjects is a new topic, which if studied in a return way, allows us to hear the hard cry that reigned in the midst of silence, from those who had their private knowledge, since, if we enter this study, it is evident that sometimes, the actions directed to the deaf subject, treat him with a certain stigma, as if he were “an empty being” of knowledge and knowledge. Thus, the present work aims to promote a brief analysis of how the deaf subject builds his autonomous knowledge, in the face of a society marked by the gaps present in the actions and achievements of public policies. In this way, we start from the reflection on the knowledge acquired by him during his experience in society, his student and family life, aiming to understand how the relation of knowledge takes place, and how he uses knowledge to interact in society, understanding and doing - to understand oneself by those around him, even in the face of a society not well prepared to understand him. Thus, the research was carried out from a semi-structured interview with a deaf person who finished high school in the city of Mocajuba-PA and was analyzed in the light of theorists who discuss the theme. As a result, from the narratives of the deaf, it is understood how to build values, attitudes and actions that deaf subjects take to express their opinion in the world, claim their space in society, demonstrate their desires and needs.

Keywords: Deaf subject, emancipatory knowledge, deaf autonomy. 1 INTRODUÇÃO

A valorização dos saberes autônomos dos sujeitos surdos é um tema estreante, que se estudado de forma regressa, nos permite ouvir o árduo grito que imperava em meio ao silêncio, de quem tinha seus saberes privados, visto que, se adentrarmos neste estudo, evidencia-se que algumas vezes, as ações direcionadas para o sujeito surdo, tratam este com certo estigma, como se este fosse “um ser vazio” de saberes e conhecimentos.

A Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) foi reconhecida como Língua, uma forma de comunicação com sistema linguístico de natureza visual-motora, dona de uma estrutura gramatical própria, no entanto, muitos surdos ainda não possuem familiaridade com sua própria língua e os que a conhecem, quase sempre relatam ter aprendido com amigos, ou pela internet.

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Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n. 7, p. 51462-51470, jul. 2020. ISSN 2525-8761 No entanto, o Art. 2º da lei 10.436 nos diz que o acesso e a difusão dessa Língua devem ser garantidos pelo poder público em geral e empresas concessionárias de serviços públicos, então, por que muitos surdos ainda não têm acesso ao ensino de LIBRAS? Por que a LIBRAS ainda não está incluída na grade curricular da educação infantil e básica?

Por que incluí-la apenas como parte integrante dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) nos cursos de formação de Educação Especial, de Fonoaudiologia e de Magistério, uma vez que, quanto mais cedo o ser surdo entrar em contato com a sua Língua materna -LIBRAS- mais cedo ele construirá sua identidade, terá aquisição linguística e maiores serão suas chances de interagir com o outro, visto que, os surdos não são seres vazios, eles têm muito a oferecer para a sociedade, possuem vários saberes e conhecimentos. A resposta é simples: porque apesar de já existirem leis, as lacunas não deixaram de existir.

De modo geral, observa-se atualmente um lento avanço em nosso país, acerca da busca do reconhecimento e do cumprimento das leis que regem os direitos do ser surdo. Prometendo a conquista de seus direitos, espaços na sociedade, direito a educação qualificada, educação superior, vagas no mercado de trabalho, dentre outras manifestações de cidadania. Há uma grande preocupação por parte de alguns professores, diretores, coordenadores em aprender LIBRAS, porém se esquece que o surdo é um ser social, que participa de outras interações extraescolares, sendo assim, essa preocupação em permitir uma inclusão a este sujeito deveria se expandir à sociedade em geral.

2 BREVE CONTEXTO HISTÓRICO DA DESVALORIZAÇÃO DOS SABERES EMANCIPATÓRIOS DOS SURDOS

Segundo Skiliar (2005, p.7):

Foram mais de cem anos de práticas esquecidas pela tentativa de correção, normatização e pela violência institucional; instituições especiais que foram reguladas tanto pela caridade e pela beneficência, quanto pela cultura social vigente que requeria uma capacidade para controlar, separar, e negar a existência da comunidade surda, da língua de sinais, das identidades surdas e das experiências visuais, que determinam o conjunto de diferenças dos surdos em relação a qualquer outro grupo de sujeitos (SKILIAR, 2005, p. 7).

Apenas no século XVI os sujeitos surdos foram submetidos a um aprendizado escolar com auxílio de intervenções pedagógicas. Contudo, o objetivo dessa intervenção não era promover aos surdos a aquisição do conhecimento, pensamento reflexivo, ou mesmo a comunicação com os sujeitos ouvintes. Tais propostas pareciam buscar mais a “cura” da surdez. Para tanto, percebemos que a luta por um espaço na sociedade, por uma educação digna e própria, o reconhecimento e liberdade de linguagem, expressão e compreensão marcam a história das comunidades surdas mundiais.

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Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n. 7, p. 51462-51470, jul. 2020. ISSN 2525-8761 Durante muito tempo acreditou-se que os surdos eram sujeitos inválidos e por este motivo condenados à morte e ao isolamento. Pouco, foi o interesse em se buscar compreender os saberes e conhecimentos construídos por estes ao longo dos anos, demonstrando uma desvalorização desses saberes constituídos por estes, mediante a necessidade de compreenderem a sociedade na qual estavam inseridos e se fazerem compreender pela mesma. Uma vez que, de acordo com Araújo (2012):

O surdo não é pior que o ouvinte, é cognitivamente igual, tem as mesmas capacidades e inteligência, porém é um sujeito que tem uma forma única, peculiar de aprender, pois compartilha duas culturas e precisa apropriar-se de ambas. A língua de sinais constitui esta ponte, portanto, importante na educação dos surdos nas classes regulares (ARAÚJO, 2012).

Deste modo, observamos que o sujeito surdo viveu muitos anos à margem da sociedade, pois se acreditava que os surdos eram cognitivamente diferentes dos ouvintes, no entanto, na verdade, ambos possuem a mesma capacidade e inteligência, porém, a maneira de aprender, e se comunicar com o mundo é diversificada, no caso dos surdos, por meio da linguagem visual, através do uso dos sinais. Partindo desse pressuposto, temos o sujeito surdo como um ser social apto e criativo, capaz de construir saberes para suprir as suas necessidades, sejam elas no plano: físico, comunicativo, educacional, pessoal, dentre outros.

3 OS SABERES ADQUIRIDOS PELO SUJEITO SURDO

O ponto de partida deste artigo deu-se por meio de algumas indagações a respeito dos saberes adquiridos por este sujeito surdo, durante a vivência em sociedade, sua vida estudantil e familiar. E o leque de saberes emancipatórios construídos durante sua vivencia em sociedade, mediante a presença de lacunas nas políticas públicas voltadas para o empoderamento dos direitos dos surdos, obtenção da cidadania e liberdade de comunicação e compreensão. De acordo com o Charlot (2000, p.80 apud Viana, 2003, p. 178):

A relação com o saber é a relação com o mundo, com o outro e com ele mesmo, de um sujeito confrontado com a necessidade de aprender [...] é um conjunto (organizado) das relações que um sujeito mantém com tudo quanto estiver relacionado com ‘o aprender’ e o saber. (CHARLOT, 2000, p.80 apud Viana, 2003, p.178).

Para tanto, buscamos compreender quais os saberes foram necessários para que esse sujeito compreendesse e se fizesse compreender pela sociedade, de igual modo, entender como esse sujeito adquiriu esses saberes e qual a sua “real” relação com a sociedade que a cerca, levando em consideração a vivencia da Jovem de 36 anos, denominada nesta pesquisa com o pseudônimo, Estrela, a mesma nasceu com ausência total de audição, moradora da cidade de Mocajuba- Pará e concluinte

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Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n. 7, p. 51462-51470, jul. 2020. ISSN 2525-8761 do terceiro ano do Ensino Médio. Para tais desígnios, realizou-se com a jovem uma troca comunicativa de caráter espontâneo, nos dois primeiros encontros, e por fim, uma entrevista. Vale ressaltar que, apesar de Maria ter concluído o Ensino Médio, possui apenas um pouco de conhecimentos em L2 (Língua Portuguesa Escrita) e assim ocorre com a L1 (LIBRAS). Promove a interação com o outro utilizando-se de gestos, mímicas, escrita de palavras simples, sinais caseiros e raros sinais em Libras

De modo geral, para compreendermos a relação do sujeito com o saber, precisa-se tomar a noção de relação como constituição desse ser surdo com o mundo, uma vez que este faz parte do mundo, mas infelizmente, por vezes, encontra-se, à parte, do mesmo, ou seja, separado, excluído. Estrela narra durante a entrevista que “o mais difícil até hoje é a rejeição da sociedade, pois ela não consegue conversar com as pessoas, arrumar trabalho, uma vez que, quando percebem que a mesma é surda, simplesmente a ignoram e a despacham”, outro fator, difícil para a mesma é arrumar namorado, segundo ela, “há um tempo, ela e um rapaz se gostaram, mas a mãe dele não foi de acordo com o namoro, pelo fato dela ser surda”. É perceptível em sua fala uma frustração com parte da sociedade que a cerca.

Estrela começou a estudar, ou melhor, a ocupar uma cadeira dentro da escola, aos 07 anos de idade, esta assertiva se faz possível, após relatar durante as conversas que no “Ensino Fundamental tudo parecia muito confuso”, que “as crianças não a chamavam para brincar” e “nem com ela conversavam, de igual modo, agiam os professores”. Segundo a mesma, ela simplesmente, ficava no canto da sala, sem falar com ninguém, sem entender o que eles tanto falavam, faziam e de igual modo, sem entender o conteúdo trabalhado pela docente. Percebe-se nesses relatos, que por mais que Estrela deseja-se construir saberes para interagir com seus amigos e professores na escola, havia certa recusa e afastamento partindo deles.

O que nos leva ao contexto atual das escolas regulares, que apesar de se dizerem inclusivas ainda se mostram despreparadas para lidar com o processo educacional de surdos, que hoje lutam por uma educação bilíngue que atenda às suas especificidades culturais. Contudo a prática de silênciamento imposta a esses sujeitos, observadas nas ações políticas, Segundo Schubert, Silva e Coelho (2019) considera que a solicitação por uma educação específica e mais acolhedora, é considerada segregadora e de guetização.

Considerando também o fato proposto por Vigotski (2010) de que as interações sociais são fundamentais para que a criança desenvolva estruturas humanas, como o pensamento e a linguagem. No relato proposto pela jovem surda, observa-se que o sujeito surdo ainda encontra dificuldades para se constituir como um ser social, pois suas interações sociais ainda se restringem a um grupo seleto de sujeitos, em sua maioria, composto por familiares. Fator este que inibe o desenvolvimento social

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Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n. 7, p. 51462-51470, jul. 2020. ISSN 2525-8761 do mesmo, causando um retardo no aperfeiçoamento de suas estruturas humanas como a manifestação do pensamento e da linguagem em L1 e L2.

Para tanto, não é a ausência de audição que promove tal retardo no desenvolvimento desse sujeito surdo, e sim, a falta de interação com o meio social e cultural em que este vive, uma vez que, o sujeito surdo deve relacionar-se com sujeitos surdos e ouvintes, pois, estas interações promovem a compreensão de mundo, estimula as funções psicológicas, o desenvolvimento social, o que permitirá a este a manifestação de seus saberes.

No Ensino Fundamental, Estrela, relata “não participar dos processos comunicativos em sala de aula”, ou seja, era fadada a segregação e isolamento o que desfavoreceu seu desenvolvimento escolar. Já em seu âmbito familiar, estabelecia uma comunicação mais gestual com a família, deste modo, por meio de sua necessidade de se comunicar e interagir dentro de casa adquiriu uma linguagem caseira, ou seja, um saber emancipatório, que a ajudava a interagir com o auxílio de gestos, muitas vezes icônicos. Ao ser indagada a respeito da ajuda recebida por sua família, a mesma relata, que “foi pouca a ajuda recebida, principalmente, pela falta de preparo e conhecimento de seus pais e familiares na área da surdez”, uma vez que, os familiares de Estrela não tinham o mínimo de conhecimento em Libras, segundo a mesma, “eles nunca tinham ouvido nem falar sobre a LIBRAS”, o que dificultava muito a comunicação da mesma com a família, por este motivo, a comunicação entre eles era feita por meio de gestos.

Vemos então, que os gestos, se constituíram ações e atitudes tomadas por esta, afim de, suprir uma necessidade- necessidade comunicativa-, visto que era necessário manter uma comunicação com seus familiares, ou seja, saberes emancipatórios foram investidos por este sujeito, com o intuído de suprir uma necessidade comunicativa com o meio familiar em que estava inserida.

Assim enquanto a entrevista com Estrela fluía, onde a mesma pode com seu pouco conhecimento em LIBRAS responder nossas indagações. Era perceptível o seu esforço para se fazer compreender, já que a LIBRAS como foi relatado pela jovem na entrevista, “foi introduzida tardiamente em sua vida por meio, de uma amiga que ia à sua residência ensiná-la”. Dessa maneira, ela começou a adquirir alguns saberes sobre LIBRAS, logo depois o seu saber passa a ser complementado através de um livro que lhe foi emprestado por uma profissional de educação do município, ressalta-se que esta referida professora, é mestranda em Libras e de maneira especial, influência as pessoas ao seu redor a aprender a Língua de sinais.

Enfatiza-se que a aquisição da linguagem para o ouvinte começa desde o balbuciar quando bebê, para o sujeito surdo não é diferente. Pois a linguagem é um instrumento abstrato, que permite ao ser humano se comunicar através de cores, imagens, expressões, sons, palavras, etc. Com isso, mais do que nunca se faz necessário inserir a libras, que é a língua do surdo, onde ele é capaz de

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Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n. 7, p. 51462-51470, jul. 2020. ISSN 2525-8761 adquiri-la de forma natural e espontânea utilizando o meio espaço visual. Nesse sentido, Didó (2013, p.16) afirma que:

O processo de aquisição da linguagem tem início no meio familiar, a família desempenha um papel fundamental no desenvolvimento da criança. A criança surda filha de pais surdos, tem o desenvolvimento linguístico semelhante da criança ouvinte filha de pais ouvintes. Porém, a maioria das crianças surdas são oriundas de famílias ouvintes, o que soma as responsabilidades da família aprender e inserir a criança no aprendizado da Libras (DIDÓ, 2013, p.16).

Sendo LIBRAS a primeira língua do surdo, o português escrito passa a ser a sua segunda língua. Contrapondo essa informação, relatos antigos deixam claros que os surdos sentem dificuldades em escrever, pois a escrita para eles é uma tarefa árdua e muito das vezes escrevem sem entender e de certa forma fora dos patrões propostos pela língua padrão. Estrela acha “muito difícil” a Língua Portuguesa, os saberes repassados em sala de aula não foram suficientes, pois assim como a LIBRAS que tem seu sinal e para ele um significado, o português tem seus signos, significados e significantes. Devido essa lacuna entre essas duas línguas, a educação do ser surdo fica comprometida, visto que, a diferença de cultura existente dentro da sala de aula entre professor ouvinte, aluno surdo e alunos ouvintes aumenta mais as dificuldades para esse ser surdo, cujo mesmo precisa superar. De acordo, como afirma Giordani (2003, p.58)

Na educação de surdos, além do deslocamento cultural entre professor e aluno, ainda se intensifica a distância por não se compartilhar o mesmo código linguístico, incluindo aquelas escolas que consideram a língua de sinais, mas que, no entanto, não a vivem de forma efetiva (GIORDANE, 2003, p.58).

Contudo, apesar das dificuldades que Estrela relata na sua entrevista, sobre não ter domínio na L2 (português escrito) e por ter sofrido preconceitos dos colegas, no ensino infantil e fundamental onde os mesmos a excluíam por não a compreender, pelo fato da mesma não saber como se comunicar e interagir com eles. Assim, com o passar dos anos, devido sua maturidade e os saberes emancipatórios construídos em todo o processo de sua aprendizagem na escola e fora dela, Estrela em seu ensino médio passa a se comunicar e interagir com os colegas, por meio do português escrito, via bilhetes, o que facilitou, em parte, a comunicação permitindo que alguns colegas de classe a ajudassem a realizar os trabalhos que eram pedidos pelos professores.

O gênero textual Bilhete, dessa maneira, fez com que Maria se sentisse aceita pelos colegas, pois, como a mesma não sabia libras, o gênero bilhete, foi um dos meios utilizados para se comunicar, depois dos sinais icônicos. Segundo Souza e Silvestre (2007, p.93):

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A língua escrita representa uma via privilegiada de acesso a ciência e a cultura. Para as pessoas surdas, é um meio importante para eliminar barreiras de comunicação em determinados contextos públicos (televisão, cinema, conferencias, teatros...) ou particulares (e-mail, uso da língua escrita para repassar incompreensões em situação de conversação etc.). É importante, portanto, que todas as pessoas surdas alcancem uma boa competência em linguagem escrita (SOUZA; SILVESTRE, 2007, p.93).

Observou-se por meio dos relatos que Estrela sentiu-se inclusa na escola, pela primeira vez, apenas no Ensino Médio, ao quebrar a barreira comunicativa e construir processos que promoveram a interação da mesma com os sujeitos ouvintes em sala de aula, proporcionando tanto a ela como aos ouvintes novos saberes por meio da interação social, “grande parte dos conhecimentos são adquiridos em interação social, não apenas com os professores, e sim com os colegas da mesma idade, que são também uma fonte importante de construção de conhecimento” ressalta (SOUZA; SILVESTRE, 2007).

No entanto, ainda havia muitas barreiras, que a impossibilitavam de se desenvolver em meio à sociedade. Uma vez que, ao indagarmos sobre quais as dificuldades que a mesma enfrenta para interagir com o meio em que vive, Estrela relatou que “ainda é muito difícil interagir, conversar com os ouvintes, com alguns surdos”, pois, segundo ela, “eles na maioria das vezes, não conseguem compreendê-la”. No entanto, esta busca encontrar formas para conseguir expressar-se em meio a sociedade, vez por outra, consegue essa comunicação, porém é preciso percorrer vários caminhos ou recorrer a escolhas, como por exemplo, quando a pessoa não conhece nada de Libras ela procura se comunicar, por meio de gestos, sinais caseiros, entretanto, quando a mesma percebe que a pessoa ainda não está conseguindo entendê-la com o auxílio desses recursos citados anteriormente, a mesma, busca promover a comunicação por meio de bilhetes, usando palavras chaves, dentre outros recursos, como a mímica ou o desenho.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Portanto, entende-se neste trabalho, o saber como a construção de valores, atitudes e ações, que os sujeitos surdos tomam para manifestar sua opinião no mundo, reivindicar seu espaço na sociedade, demonstrar seus anseios e suas necessidades, para tanto, buscamos identificar quais saberes, atitudes, ações, esse sujeito adquiriu, a fim de, se sentir parte da sociedade, se comunicar, se relacionar com o outro, seja este surdo ou ouvinte, ou seja, conseguir suprir algumas necessidades sejam estas: físicas, emocionais, cognitivas, intelectuais e assim por diante. Partindo de relatos da vivencia da surda, Estrela, de 36 anos, identificou-se que os gestos, se constituíram ações e atitudes tomadas por esta, afim de, suprir uma necessidade comunicativa, visto que era preciso manter uma comunicação com seus familiares, ou seja, saberes emancipatórios foram investidos por este sujeito,

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Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n. 7, p. 51462-51470, jul. 2020. ISSN 2525-8761 com o intuído de suprir uma necessidade comunicativa com o meio familiar em que estava inserida, de igual modo, observou-se que o português escrito, via o gênero bilhete, constituiu-se uma ferramenta importante para o processo de interação da mesma com os colegas em sala de aula, visto que Estrela, seus amigos e professores ainda não tinham conhecimentos em Libras, para tanto, a mesma investiu seus saberes emancipatórios de escrita em L2, afim de, suprir uma lacuna comunicativa existente em sala de aula, usando a escrita de bilhetes como uma técnica capaz de proporcionar a comunicação desta com o meio social em que se inseria, e por fim, usou diversos sinais icônicos, desenhos, mímicas com o mesmo propósito – interagir com o outro- em sociedade.

REFERÊNCIAS

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https://egov.ufsc.br/portal/conteudo/inclus%C3%A3o-social-do- surdo-reflex%C3%B5es-sobre-contribui%C3%A7%C3%B5es-da-lei-10436-%C3%A1-educa%C3%A7%C3%A3o-aos-profissi>. Acesso em: 26 de março de 2019.

BRASIL. Lei Federal 10.436, de 24 de abril de 2002.

Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras e dá outras providências, 2002. Disponível em: <http: //WWW. Planalto.gov. br/ccivil_03/LEIS/2002/L10436.htm>. Acesso em: 20 de março de 2019.

CAMPELO, A. R. S. Deficiência auditiva e Libras. Indaial: Uniasselvi, 2009.

DIDÓ, A. G. Práticas sociais de leitura e de escrita em Libras. Indaial: Uniasselvi, 2013.

GIORDANI, L. F. Quero escrever o que está escrito nas ruas: representações culturais da escrita de jovens e adultos surdos. 2003. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2003.

SCHUBERT, S. E. M.; SILVA, R. Q.; COELHO, L. A. B. Os desafios da inclusão do surdo.

Brazilian Journal of Development, Curitiba, v. 5, n. 9, p. 13891-13909, sep. 2019.

SKLIAR, Carlos. A surdez: um olhar sobre as diferenças. Porto Alegre: Mediação, 2005.

SOUZA, R. M.; SILVESTRE, N.; ARANTES, V. A. (Orgs.). Educação de surdos: pontos e contrapontos, São Paulo: Summus, 2007.

VIANA, M. J. B. A relação com o saber, com o aprender e com a escola: uma abordagem em termos de Processos Epistêmicos. Paidéia, Ribeirão Preto. v. 12, n. 24, jan. 2002.

VIGOTSKI, L.S. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores, São Paulo: Martins Fontes, 2010.

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