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JORGE AMADO: a margem que faltava
1Sérgio Luiz de Souza Costa2
Resumo: Este texto analisa a obra Jubiabá, de Jorge Amado, com a intenção de mostrar a influência permanente do autor baiano, reconstruindo um imaginário africano pouco conhecido por nós, brasileiros.
Palavras chave: Jorge Amado; narrativa literária; imaginário africano.
Resumen: Este texto analiza la obra Jubiabá, Jorge Amado, con la intención de mostrar la influencia perdurable del autor, la reconstrucción de un imaginario africano poco conocido para nosotros los brasileños.
Palabras clave: Jorge Amado; narración literaria; imaginario africano.
A princípio, escrever/falar de Jorge Amado parece redundância, porém deparamo-nos constantemente com realidades discursivas fascinantes. Desse modo, o meu texto-fala pretende discorrer a respeito do escritor que consegue, com sua solidariedade literária, transpor-se para a outra margem do rio chamado Atlântico. As fronteiras culturais do Brasil vão se alargar de tal forma que proporcionarão uma dimensão identitária relevante no contexto, por exemplo, de Moçambique.
A comunicação proferida em 2008, em São Paulo, pelo escritor moçambicano Mia Couto revela e desvela os ambientes particulares de um outro Brasil, não este geograficamente marcado no mapa da América Latina, mas o que está na outra margem do Atlântico negro: o Brasil africano:
Eu venho de muito longe e trago aquilo que acredito ser uma mensagem partilhada pelos meus colegas escritores de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. A mensagem é a seguinte: Jorge Amado não foi apenas o mais lido dos escritores estrangeiros. Ele foi o escritor que maior influência teve na gênese da literatura dos países africanos que falam português (COUTO, 2011, p.61).
É este Jorge Amado que me interessa no momento. Se não bastasse o legado deixado para os brasileiros, o escritor baiano reconstrói o imaginário dos habitantes de uma África
1 Texto apresentado no III Encontro de Cultura da Universidade Veiga de Almeida, 2011.
2 Doutor em Literatura Comparada pela UFF. Professor do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso
Suckow da Fonseca – CEFET-RJ na Educação Básica e no Programa de Pós-Graduação em Relações Étnico-raciais (PPRER).
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79 ainda pouco conhecida por nós3. Segundo Mia Couto, com a chegada dos romances brasileiros nas décadas de 1950, 1960 e 1970, houve contato com os livros de Jorge Amado, os quais causaram um impacto extraordinário no imaginário coletivo dos africanos.
Diante do fascínio relatado pelo escritor moçambicano, traço a minha cartografia imaginada. Há uma África que, desdobrada do texto de Jorge, se reconhece: uma grande Bahia de todos nós, brasileiros e africanos.
Com efeito, a produção inicial do escritor baiano já demarcava o nosso entre lugar, a experiência da colonização, da opressão vivenciada aqui e lá.
Jorge Amado é sobretudo o inconformado observador do poder autoritário no Brasil profundo, e da exclusão no Brasil urbano e pré-urbano. Mesmo assim a sua narrativa consegue reconstruir, com vigor poético disseminado por todas as partes, a façanha da gestação das cidades, e a qualidade humana das relações interpessoais (PORTELA, 2011, p. 77).
A pertinente observação de Eduardo Portela coloca o romance realista de Jorge em determinado lugar estratégico de nossa construção social. O escritor baiano começa, com apenas dezoito anos, a publicar nos anos duros de 30. Desde cedo, preocupa-se em interpretar a nossa sociedade, optando em elaborar tal leitura a partir da criação literária. Convivência profícua com vários intelectuais, o diálogo com Édison Carneiro e Arthur Ramos proporciona ao escritor uma avaliação contundente a respeito da posição dos negros no contexto em que se encontravam.
Desde mocinho, rapazola cursando a vida popular baiana, inclusive nas casas-de-santo, nos terreiros de candomblé, com Édison Carneiro, Arthur Ramos, Aydano do Couto Ferraz, foi-me dado testemunhar a violência desmedida com que os poderes do Estado e da Igreja tentaram aniquilar os valores culturais provenientes da África[...] (AMADO, 1992).
Alinhava-se desde já a temática que percorrerá grande parte de seus romances: a preocupação com a realidade vivenciada pelos negros. Como tem o pensamento centrado na questão social, o escritor apresentará o negro vivenciando outra escravidão, agora a do
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80 capitalismo. A criação do personagem Antonio Balduíno, em Jubiabá (1935), traz a marca das lacunas intransponíveis de um discurso especialmente brasileiro. Para representar a realidade em questão, opta em contar a história pelo olhar do negro Baldo, mas esse confere autenticidade a narrativa somente em situação de confronto cultural. Não cabe aqui o herói tradicional-branco-europeu, é necessário deslocar categorias ficcionais e reinventar outro herói. Para isso, o jovem escritor estrategicamente inicia de chofre o seu romance com uma cena do personagem Balduíno enfrentando, no boxe, o alemão Ergin. Desconstruindo o crítico Antonio Dimas4: Não se enganem Jubiabá é o centro de Jubiabá. Talvez aqui Dimas tenha sido levado pelo jogo de Amado. Jubiabá é a força da tradição ancestral, está em outro espaço, da representatividade ficcional, é a energia pura que não pode ser dita, não pode ser revelada, não cabe no discurso.
Da casa do pai-de-santo Jubiabá vinham sons de atabaque, agogô, chocalho, cabaça, sons misteriosos da macumba que se perdiam no pisca-pisca das estrelas, na noite silenciosa da cidade. Na porta, negras vendiam acarajé e abará.
E Exu, como tinham feito o seu despacho, foi perturbar outras festas mais longe, nos algodoais da Virgínia ou nos candomblés do morro da Favela (AMADO, 2008, [1935]).
Jubiabá encena a cultura trazida na diáspora africana, forma de reconhecimento de lugares desocupados à força, espaços vazios impossíveis de serem preenchidos, a não ser em forma de dança. A cartografia imaginada pelo narrador, através Exu, incorpora outros espaços representativos da diáspora negra: os algodoais da Virgínia e as favelas do Rio de Janeiro.
A representa de um espaço real, concreto, é uma tarefa de difícil execução, que funda toda uma técnica para a sua elaboração. A cartografia, misto de ciência e arte, busca transformar em equipamento material o conhecimento geográfico acumulado; porém,
4 “Não se enganem: Jubiabá não é o centro de Jubiabá!” In: “Da Praça ao palanque”, posfácio de Jubiabá,
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81 quando se trata de espaços imaginários, fantasias de totalidades efêmeras, deparamo-nos com a dificuldade de desenhar a representação do desejo. Tal dificuldade se concretiza em função do caráter transitório do desejo. Na teoria psicanalítica, o desejo é a instância fundadora do humano, caracterizando-se, sobretudo, pela falta:
O objeto do desejo não é uma coisa concreta que se oferece ao sujeito, ele não é da ordem do simbólico. O desejo desliza por contiguidade numa série interminável na qual cada objeto funciona como significante para um significado que, ao ser atingido, transforma-se em novo significante e assim sucessivamente, numa procura que nunca terá fim porque o objeto última a ser encontrado é um objeto perdido para sempre. Toda satisfação obtida coloca imediatamente uma insatisfação que mantém o deslizamento constante do desejo nessa rede sem fim de significantes (GARCIA-ROZA, 2005, p. 145).
Pode-se mesmo afirmar que ausência de deslizamento de objeto em objeto é próprio do desejo, visto que a necessidade de desejar, característica do humano, é incessante. Sendo assim, em termos psicanalíticos, os desejos fazem parte do reino da fantasia e do irrealizável, não devendo, pois, serem concretizados no âmbito do Real, sob pena de se esvaziarem enquanto desejo.
Desse modo, os espaços imaginados também pertencem a uma determinada cartografia muito especial. Estamos acostumados a perceber o espaço com o apelo de concreto, sem nos darmos conta que existe um espaço imaginário, no qual cada um de nós experimenta e vivencia as suas relações com o mundo. Sendo assim, o espaço imaginado, que diz respeito às fantasias e desejos de cada ser humano, é parte constitutiva do inconsciente e, desta forma, não pode ser transcrito com a mesma matéria e a mesma técnica, misto de ciência e arte, que os espaços geográficos.
O texto literário é, de tal forma, um testemunho privilegiado de tudo aquilo que é característico do humano, a saber: fantasias, construções imaginárias e simbólicas e desejos, que convivem no universo do inconsciente. A análise textual permite um acesso privilegiado a este universo de difícil acesso, quando nas dobras do texto buscamos interditos que desenham mapas imaginários, fronteiras superpostas, limites esmaecidos. Com efeito,
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82 perceber cartografias desejadas não é tarefa das mais simples, pois requer outra matéria e outra técnica que não dizem respeito à representação material, tal como os cartógrafos elaboram com a ciência geográfica.
Assim, fronteiras de margens deslizantes ecoam em textos africanos do poeta Mário Antonio e o cantor Ruy Mingas, citados por Mia couto:
Quando li Jubiabá
me acreditei Antônio Balduíno. Meu primo, que nunca o leu ficou Zeca Camarão.
Segundo Couto,
era esse o sentimento: Antônio Balduíno já morava em Maputo e em Luanda antes de viver como personagem literária. O mesmo sucedia com Vadinho, com Guma, com Pedro Bala, com Tieta, com Dona Flor e Gabriela e com tantas outras personagens fantásticas (COUTO, p. 64).
Jorge Amado reinventa a Bahia, reinventa o Brasil e retorna à África, numa cartografia imaginada e deslizante, devolvendo a habilidade de fabular e sonhar com a liberdade. No plano da linguagem, o idioma que era do colonizador português a serviço da dominação retorna com Jorge Amado com outra função e passa a ser usado como instrumento de liberdade e reconhecimento. Não por acaso os textos de Jorge Amado foram censurados pelos governos autoritários nos movimentos de independência das colônias portuguesas em África. Jorge Amado devolve a esperança de um Brasil na África. Segundo Mia Couto, Jorge Amado e os brasileiros devolviam aos africanos “a fala, num outro português, mais açucarado, mais dançável, mais a jeito de ser nosso” (COUTO, 2011, p. 66).
De tal forma, Jorge Amado localiza no imaginário o espaço da comunhão, o lugar da utopia do encontro entre África e Brasil, e assim não se sabe mais onde começa um e termina o outro. “O Brasil – tão cheio de África, tão cheio da nossa língua e da nossa religiosidade – nos entregava essa margem que nos faltava para sermos rio” (COUTO, p. 65). Rio que se completa em Jubiabá e tantos outros Balduínos.
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83 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AMADO, Jorge. Jubiabá. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
COUTO, Mia. E se Obama fosse Africano?: e outras intervenções (ensaios). São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
DUARTE, Eduardo de Assis. Jorge Amado: romance em tempo de utopia. Rio de Janeiro: Record; Natal, RN: UFRN, 1996.
GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Freud e o inconsciente. 21.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.
PORTELLA, Eduardo. Jorge Amado: a sabedoria da fábula. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2011.