ESHC019-17 - História do Pensamento Econômico
Quadrimestre: 3º. 2017 - Carga Horária: 48h
Recomendação: Pensamento Econômico e
Introdução à Economia
Prof. Maurício Martinelli Luperi –
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Aula 13 – Consumação, Consagração e Destruição da “Mão Invisível”: A Economia Neoclássica do Bem-estar
- No primeiro meio século após a publicação dos livros de Jevons, Menger e Walras, o capitalismo passou por uma rápida mudança e por um período extraordinariamente turbulento.
- A primeira e mais óbvia mudança foi o movimento que levou à concentração industrial e à constituição de corporações gigantescas, com trustes e cartéis em escala mundial.
- A segunda mudança foi o frenesi imperialista dos principais países capitalistas.
- A terceira mudança foi meramente uma questão de intensidade: embora o capitalismo tivesse sido sempre um sistema econômico instável, passando constantemente por períodos de prosperidade e de depressão que se alternavam, a duração e a gravidade dessas depressões aumentaram, culminando com a Grande Depressão Mundial dos anos 30.
- Juntamente com essas mudanças e com o caos e a inquietação social que resultaram da instabilidade cada vez maior do capitalismo, havia a turbulência social do mundo, que se manifestou na grande convulsão da Primeira Guerra Mundial, na Revolução Soviética e no apaceimento do fascismo na Itália e na Alemanha
- No entanto, se examinarmos os escritos dos economistas que seguiam estritamente a tradição utilitarista e neoclássica daquela época, verificaremos que raramente eles reconheciam que o capitalismo estava passando por u período de mudanças turbulentas. Say, Senior e Bastiat tinham depurado as teorias de Smith e Ricardo, rejeitando todos os elementos da perspectiva da teoria do valor-trabalho na economia clássica.
- Tinham se concentrado inteiramente na perspectiva utilitarista, enfatizando a troca no mercado; o comportamento calculista, racional e maximizador; a semelhança essencial entre todos os tipos de renda (e, portanto, a inexistência de diferentes classes no capitalismo); a harmonia universalmente benéfica criada pela “mão invisível” da troca no livre mercado.
- Bastiat dissera que “a Economia Política é troca”. Com a descoberta do método de análise marginalista, por Jevons, Menger e Walras, o lema de Bastiat passou a descrever quase toda a teoria neoclássica ortodoxa.
Maximização da Utilidade e Maximização do Lucro (p. 358)
- A teoria microeconômica neoclássica serve de base para teoria neoclássica do bem-estar e é, em geral, dividida em duas partes separadas (mas análogas e simétricas): a teoria da maximização da utilidade pelo consumidor e a teoria da maximização do lucro pela firma. Ambas as “teorias” são simples demonstrações da lógica da maximização sujeita a restrições.
- Existem algumas conclusões acerca dessas teorias microeconômicas que são importantes. São as conclusões que formam as bases da economia neoclássica do bem-estar, e sua importância é puramente ideológica.
- O uso das curvas de indiferença permite que as análises sobre utilidade marginal da maximização da utilidade pelo consumidor deixem de lado a hipótese de que a utilidade possa ser quantificada.
- Basta que o consumidor seja capaz de listar, segundo um escalonamento das preferências, as diferentes mercadorias. Isso representa apenas uma quantificação ordinal (ou escalonamento) da utilidade dispensa comparações interpessoais de utilidade, que, são conceitualmente impossíveis. - As únicas exigências necessárias para se chegar aos resultados neoclássicos implicam que as curvas
de indiferença tenham a configuração da figura 14.1 , p. 360, e que o consumidor aja coerentemente dentro de preferências transitivas, se preferir X a Y e Y a Z, terá de preferir X a Z.
- As curvas de indiferença permitem que o economista neoclássico ilustre graficamente o modo como o consumidor máxima a utilidade, quando existem apenas duas mercadorias para ele comprar e consumir. As mesmas conclusões podem ser tiradas para muitas mercadorias, mas o caso de duas mercadorias é muito mais simples, sendo suficiente para ilustrar esse ponto.
- Os eixos do gráfico medem quantidades das mercadorias A e B. Presume-se que o indivíduo seja capaz de escalonar todas as possíveis combinações A e B que possa consumir. Se o indivíduo obtiver maior quantidade de A e menor de B (ou vice-versa), supõe-se que ele sempre possa determinar quando a utilidade adicional de A compensa exatamente a utilidade perdida com a diminuição de B.
- As três curvas de figura 14.1 são curvas de indiferença. Em cada curva, existem pontos que representam “cestas” de A e B que têm o mesmo grau de utilidade.
- À medida que passamos para outro ponto da mesma curva, a utilidade conseguida com uma quantidade maior de mercadoria é exatamente compensada pela utilidade que se perde.
- Portanto, o consumidor é indiferente em relação a ter qualquer das cestas A e B representada pelos vários pontos em uma curva de indiferença.
- O gráfico de um indivíduo poderia representar um número indeterminado de curvas de indiferenças.
- No gráfico 14. 1 , a curva 1 representa o nível mais baixo de indiferença; a urva 3 representa um nível mais alto de utilidade.
- A linha reta da figura é a linha de “restrição orçamentária do consumidor, que mostra as combinações de A e B que o indivíduo pode comprar com a renda recebida por meio da venda de seus fatores de produção.
- A distância entre a linha de restrição orçamentária e a origem do gráfico indica o valor ou poder aquisitivo da renda do indivíduo. A inclinação da linha da linha de restrição orçamentária é Pa/Pb, ou preço de A dividido pelo preço de B.
- Está claro que o consumidor maximiza sua utilidade comprando e consumindo quantidades A e B na curva de indiferença 2. Nenhuma curva de indiferença mais alta pode ser atingida, dada a restrição orçamentária do consumidor. Qualquer outro ponto atingível dentro desta restrição fica em uma curva de indiferença abaixo da curva 2.
- Portanto, o ponto K maximiza a utilidade do indivíduo e este, de acordo com a teoria econômica neoclássica, sempre escolherá este ponto.
- A inclinação de uma curva de indiferença, em qualquer ponto , mede a razão entre a utilidade marginal de A e a utilidade marginal de B (UMa/UMb) naquele ponto.
- A inclinação da linha de restrição orçamentária mede a razão Pa/Pb. No ponto K , a curva de indiferença 2 é exatamente tangente à linha de restrição orçamentária. Portanto no ponto k, para esse consumidor, a relação (UMa/UMb) = (Pa/Pb) tem de ser verdadeira, ou, o que equivale a mesma coisa (UMa/Pa) = (UMb/Pb).
- Vemos, então, que o ponto K satisfaz a condição de maximização da utilidade formulada por Jevons e Walras.
- Portanto, os preços de equilíbrio de mercado de A e B, tal como determinado pelo mercado em concorrência, refletem perfeitamente a avaliação psíquica marginal de A e B para cada consumidor, que dizer, se o preço de equilíbrio de A, por exempl,o, for o dobro do preço de equilíbrio de B, todo indivíduo achará, em termos físicos, que A trará o dobro de utilidade marginal de B, após ter aatingido seu nível ótimo de consumo.
- Desse modo, os preços refletem perfeitamente a utilidade marginal de todo o consumidor – e a observação desse resultado, em uma mercadoria, é exatamente o que os economistas neoclássicos querem dizer com a expressão “soberania do consumidor”.
- A demonstração da maximização de lucro por uma firma é quase idêntica a demonstração da utilidade por um indivíduo. Veja figura 14.2
Teoria Microeconômica, Economia Neoclássica e Economia do Bem-estar p. 364
- A economia utilitarista do bem-estar está presente em quase todas as análises neoclássicas de todos os assuntos teóricos e práticos, e as domina.
- A economia neoclássica tem cada vez mais assumido a forma de matemáticas esotéricas, a ponto de um estudante de Economia poder passar anos, simplesmente, aprendendo os instrumentos e as técnicas de análise, sem conseguir perceber os valores filosóficos e sociais subjacentes à análise.
- Essa é uma das razões pelas quais é muitissimo útil e importante examinar as ideias dos autores citados, pois a “cortina de fumaça” da matemática esotérica não oculta esses valores. Esses valores filosóficos, sociais e morais, eu são obscurecidos pelas ideias dos economistas neoclássicos contemporâneos, embora sejam a elas incorporados, continuam essencialmente idênticos aos valores refletidos sem qualquer ambiguidade nos escritos de Malthus, Say, Senior e Bastiat.
Bases Hedonistas da Economia do Bem-estar
- A economia neoclássica do bem-estar baseia-se pura e simplesmente em preconceitos hedonistas. Encerra tanto um hedonismo psicológico quanto um hedonismo ético. O hedonismo psicológico era, em fins do ´século XIX, uma teoria bastante grosseira de comportamento humano.
- A utilidade era concebida como uma relação cardinalmente mensurável entre pessoas e os objetos externos de consumo. Essa relação era tratada como se fosse metafisicamente fixa e determinada e não como um assunto que merecesse uma investigação mais profunda.
- Todo o comportamento humano era reduzido à tentativas de maximização de utilidade por meio do uso ou da troca das mercadorias e dos recursos de produção de que o indivíduo dispusesse (a fonte e a propriedade desses recursos, assim como a relação de utilidade, não eram consideradas na análise).
- Entretanto, o hedonismo psicológico já caíra em total descrédito em fins do século XIX. O desenvolvimento e o refinamento das premissas comportamentais da economia do bem-estar, na última metade do século, representam tentativas de remediar as objeções ao hedonismo psicológico e, ao mesmo tempo, continuar tirando conclusões idênticas às que a tinha chegado por meio da teoria que cairá em descrédito.
- As curvas de indiferença permitem a substituição da quantificação cardinal pela quantificação ordinal da utilidade. Além disso, a palavra utilidade é quase sempre omitida em favor da palavra preferência.
- As preferências, argumentam os economistas neoclássicos, podem ser observadas empiricamente desde que suponha que as escolhas feitas pelos indivíduos sejam coerentes.
- No entanto, essa coerência é meramente a premissa de que as escolhas refletem um “ordenamento de preferências” preexistente e metafísico (é claro que o bom senso deveria ter mostrado a esses economistas – que as escolhas não têm este tipo de coerência.
- A utilidade cardinalmente quantificável ou as preferências ordinalmente quantificáveis têm a mesma natureza psicológica e ética, e a economia do bem-estar continua sendo uma teoria hedonista de maximização do homem econômico comportando-se de modo totalmente predeterminado ou programado por duas entidades metafisicamente dadas e, em consequência, imutáveis: seu ordenamento de preferências e sua dotação inicial de ativos.
- Em cada caso, o indivíduo isolado, atomizado, é o único juiz com capacidade de avaliar o prazer, a utilidade ou a preferência de um objeto, porque se presume que esses níveis de bem-estar dependem apenas da relação entre o indivíduo e o objeto de consumo.
- Sempre que a utilidade para uma pessoa seja afetada pelo consumo de outras pessoas (ou pela produção das firmas), esses efeitos interpessoais são chamados de externalidades. As externalidades causada por interdependências de ordenamentos de preferência (quer dizer, o consumo considerado uma atividade social) apenas podem ser tratadas como exceções isoladas.
- A economia do bem-estar ignora o fato de que os desejos dos indivíduos são produto de um processo social específico e do lugar que o indivíduo ocupa neste processo. Se os economistas neoclássicos não ignorassem isso, teriam que reconhecer o fato de que se podem fazer avaliações normativas de sistemas sociais e econômicos totalmente diferentes, bem como padrões de desejos individuais resultantes.
- A economia do bem-estar descende diretamente das doutrinas que Marx chamava de “economia vulgar”, um ponto de vista que “se restringe à sistematização, de forma pedante, , e à proclamação, como verdades eternas, de ideias vulgares da burguesia autocomplacente sobre seu próprio mundo, para ela o melhor mundo possível”.
Natureza Essencial da Norma do Ótimo, de Pareto
- A regra fundamental do ótimo de Pareto afirma que a situação econômica é ótima quando nenhuma mudança pode melhorar a posição de um indivíduo (avaliada por ele próprio) sem prejudicar ou piorar a posição de outro indivíduo (avaliada por esse outro).
- Uma melhora, segundo Pareto, é uma mudança que tira a sociedade de uma posição não ótima e mais se aproxima de uma posição ótima. “Qualquer mudança que não prejudique quem quer que seja e que melhore a situação de alguém (avaliada por estas pessoas) tem que ser considerada uma melhora”.
- Um aspecto significativo na regra de Pareto é seu caráter consensual e conservador. Todas as situações de conflito são, por definição, deixadas de lado. - Em um mundo de conflitos de classes, de imperialismo, exploração, alienação,
racismo, preconceito sexual e diversos outros conflitos humanos, onde estão as mudanças que poderiam melhorar a situação de alguns, sem piorar a de outros? - A melhora da situação dos oprimidos significava a piora da situação dos
opressores (tal como percebida pelos opressores, é claro!). Situações sociais, políticas e econômica importantes, em que a melhora da situação de uma unidade social não sofre a oposição de unidades sócias naturalmente antagônicas, são, de fato, raras.
Valores Sociais Subjacentes à Economia do Bem-estar
- O significado das noções neoclássicas de eficiência e racionalidade está inevitavelmente ligado ao ótimo de Pareto.
- A aceitação da eficiência ou da racionalidade da solução do livre-mercado para o problema da alocação de recursos exige que se aceitem os valores sociais e as premissas empíricas e comportamentais subjacentes a essa análise neoclássica.
- Os únicos valores que contam na análise de Pareto são as preferências de cada indivíduo isolado, ponderadas por seu poder de compra.
- O axioma das preferências individuais é muito restritivo. Como na análise neoclássica, não temos como avaliar os méritos relativos das preferências de diferentes pessoas, também não temos critério para a avaliação das mudanças das preferências de determinado indivíduo. Para podermos fazer isso, teríamos de poder avaliar aqueles méritos.
- No nível de abstração em que essa teoria foi formulada, os indivíduos apenas diferem em seus ordenamentos de preferências, não existe diferença alguma, de uma lado, entre uma mudança no ordenamento de preferências de um indivíduo e, de outro, a completa retirada de um indivíduo da sociedade e sua substituição por outro indivíduo.
- Por essa razão, a teoria não pode considerar a evolução histórica dos valores individuais e sociais, nem tampouco suas flutuações de um dia para outro. Fazê-lo seria admitir a impossibilidade de uma comparação normativa de dois eventos ou situações que estão afastados no tempo, quer dizer, admitir a necessidade de excluir quase todos os fenômenos da vida real do domínio ao qual se aplica a teoria. Inversamente, permitir tais comparações normativas seria voltar às conclusões igualitárias de radicais utilitaristas e de socialistas, enfraquecendo, com isso, seriamente, a economia neoclássica como um suporte intelectual do status quo.
- Fica, portanto, óbvio que todo indivíduo, inclusive os fanáticos, os lunáticos, os sádicos, os masoquistas e os mentalmente incapazes, as crianças e até os recém nascidos sempre são os melhores juízes do seu próprio bem-estar. (É possível acrescentar também que todas as decisões teriam de ser tomadas individualmente e nunca simplesmente por chefes de família ou líderes de outros agrupamentos sociais.)
- Toda pessoa tem de ter um conhecimento perfeito de todas as alternativas possíveis, sem qualquer incerteza quanto ao futuro. A menos que essas condições se verifiquem, as pessoas concluirão que a utilidade que elas esperam antes de agir não terá, necessariamente, relação alguma com a utilidade obtida depois da ação, e as escolhas ou preferências dos indivíduos não terão qualquer ligação demonstrável com o bem-estar do indivíduo.
- Esse individualismo extremo também se anula quando admitimos a existência da inveja e da autocomiseração, que fazem com que a percepção do indivíduo quanto ao próprio bem-estar dependa da percepção do indivíduo quanto ao bem-estar dos outros (é claro que isso é um caso especial do problema geral das externalidades.
- O fato de qualquer ponto ótimo de Pareto só poder ser defendido em relação a uma distribuição específica de riqueza e de renda talvez seja o ponto fraco, em termos normativos, mais decisivo da teoria.
- Embora os economistas neoclássicos admitam a relatividade extremamente restritiva do ponto ótimo de Pareto, tendem a ignorar essa restrição, apressando-se em tratar de questões mais apressando-seguras.
- Partindo-se das premissas normativas da análise de Pareto, pode-se mostrar que, a menos que as distribuições de riqueza e de renda existentes sejam socialmente ótimas, uma situação ótima de Pareto pode ser socialmente inferior a muitas situações que não são ótimas, segundo Pareto, mas que apresentam distribuições preferíveis da renda e da riqueza.
- Os economistas neoclássicos contra argumentaram essa questão introduzindo uma frase estereotipada: “Suponhamos que a distribuição da riqueza e da renda seja ideal ou que o governo tenha um sistema de impostos e subsídios para torná-la ideal”.
- Após essa advertência, o economista neoclássico prossegue em sua análise da política empregando técnicas de custos e benefícios que pressupõem a adequação normativa e empírica da análise-padrão, feita por Pareto. O fato de o governo nunca ter usado seus poderes de tributação nem fazer gastos para obter uma distribuição justa da riqueza e do poder nunca é admitido.
- Essa omissão não é de admirar, pois isso obrigaria os economistas ortodoxos a discutir a natureza do poder social, econômico e político.
- A razão pela qual, até hoje, não se faz um esforço sério para conseguir uma distribuição mais justa da riqueza e da renda – e essa razão parece penosamente óbvia – é que os meios sociais, legais e políticos comuns de fazer essa distribuição são, eles próprios, parte integrante da distribuição de renda existente. Possuir riqueza é ter poder político em um sistema capitalista.
- Para os economistas neoclássicos que não concordam com a distribuição desigual da riqueza, a esperança de que os que hoje possuem poder político acertem as desigualdades econômicas existentes talvez seja seu ponto cego mais notório.
- Na prática, a maioria dos economistas neoclássicos meramente aceita, sem questionar, a distribuição da riqueza existente.
- Só raramente admitem que a aceitação da distribuição da riqueza existente implica a aceitação do sistema vigente de regras legais e morais (inclusive as leis da propriedade privada) e, de um modo mais geral, na aceitação de todo o sistema de poder social, de todos os papéis de superioridade e subordinação, bem como das instituições e instrumentos de coação através dos quais esse poder é assegurado e perpetuado.
- Assim, a maioria das questões importantes que interessam os economistas orientados para uma abordagem que considere os conflitos de classes é eliminada das análises dos economistas neoclássicos pelas premissas iniciais da abordagem de Pareto.
Premissas Analíticas e Empíricas da Economia do Bem-estar
- Além das premissas de individualismo e de justiça com relação à distribuição, a teoria neoclássica do bem-estar requer muitas outras premissas empíricas e analíticas.
- Incluem as premissas de que, em uma economia capitalista, existem: (1) um grande número de compradores e vendedores que não têm poder para afetar de modo significativo o mercado; (2) facilidade de qualquer firma entrar em qualquer setor ou dele sair; (3) insumos e produtos homogêneos, cada um dos quais podendo ser dividido em unidades de qualquer tamanho desejado; (4) nenhuma incerteza quanto ao futuro; (5) conhecimento perfeito de todas as alternativas possíveis de produção e consumo; (6) funções de produção com as “condições apropriadas de optimalidade de segunda ordem” (quer dizer, com uma curva pouco acentuada, sem rendimentos crescentes de escala e com taxas marginais de substituição decrescentes ao longo de qualquer curva de isoquanta); (7) funções de utilidade analogamente apropriadas e estáveis no tempo; (8) produtividade geralmente insensível à distribuição de riqueza, renda e poder; (9) apenas as economias e deseconomias externas (ou “externalidades”) que possam ser corrigidas ou anuladas com impostos, subsídios ou com a criação de novos direitos de propriedade; (10) mercados sempre em equilíbrio, com toda mudança representando mudanças instantâneas de uma situação de equilíbrio estático para outro.
- Essas premissas vão além de limitar o domínio da aplicabilidade das análises neoclássicas do equilíbrio em concorrência; dominam toda a análise.
- As premissas 1 e 2 são os fundamentos do conceito ortodoxo de concorrência, embora, no desenvolvimento histórico do capitalismo, elas tenham sido as primeiras vítimas da concorrência.
- A verdadeira concorrência capitalista, diversamente do tipo apresentado nos livros didáticos neoclássicos, é uma guerra – uma luta mortal para eliminar rivais e para conseguir o monopólio.
- O equilíbrio neoclássico em concorrência é, muitas vezes, chamado de “equilíbrio no longo prazo”, mas o verdadeiro desenvolvimento capitalista caminha inexoravelmente na direção oposta da existência mais generalizada do monopólio e do oligopólio.
- A premissa 10, relativa à continuidade da existência do equilíbrio, é um sinal da incapacidade geral da economia neoclássica em tratar do desenvolvimento histórico dos fenômenos econômicos. Apesar das inúmeras tentativas de formular teorias do crescimento econômico, os economistas neoclássicos não têm sido capazes de integrar, coerentemente, a análise do bem-estar e do desenvolvimento.
- Cada critério possível para julgar o bem-estar, em uma economia em crescimento, não tem, necessariamente, qualquer ligação com a economia neoclássica do bem-estar, nem é coerente com as premissas da teoria estática. 14 O critério neoclássico de Pareto simplesmente não pode resolver esses problemas. Ele constitui, por sua própria natureza, uma teoria estática, que não pode ser ampliada de modo a descrever uma economia em crescimento ou em modificação.
- As outras premissas (3 a 9) também envolvem dificuldades semelhantes. As premissas 4 e 5, sobre certeza e conhecimento perfeito, abstraem-se de duas consequências inevitáveis do capitalismo de livre-mercado, que são de importância singular para o entendimento dos custos humanos da instabilidade e da má alocação de recursos do sistema.
- A premissa 3, sobre homogeneidade de insumos (particularmente de capital), e a premissa 6, sobre “funções de produção com comportamento apropriado”, foram, comprovadamente, consideradas insustentáveis em trabalho teórico de Piero Sraffa (ver Capítulo 16).
- Finalmente, a premissa 9, sobre externalidades, talvez seja a parte mais indefensável de toda a análise.
A Economia Neoclássica do Bem-estar como Guia para Formulação de Políticas
- Poucos economistas neoclássicos argumentariam que as premissas em que se baseia a teoria do equilíbrio em concorrência são realistas, mas quase todos aceitariam os fundamentos sociais, morais e filosóficos do critério de bem-estar de Pareto. Essa falta de realismo, porém, não impede que os economistas neoclássicos advoguem o modelo teórico como base para a formulação de políticas por representantes dos governos.
- Argumentam eles que a análise não deve ser considerada uma descrição da realidade, mas um modelo normativo que possa ser usado para guiar as intervenções do governo no mercado, sempre que não se verifique qualquer das premissas citadas, necessárias para o equilíbrio em concorrência. Devem-se fazer duas críticas com relação a essa ideia de intervencionismo do governo em uma economia capitalista.
- Em primeiro lugar, a visão neoclássica confere ao governo uma existência precária. Desde que exista o ótimo, de Pareto, o governo nunca é mencionado.
- Quando ocorre uma imperfeição (que, em geral, é considerada uma ocorrência isolada num mundo sob outros aspectos perfeito), o governo se transforma em um deus ex machina que restabelece o estado de satisfação do sistema.
- É um árbitro afastado, imparcial, que entra em cena e baixa um imposto sobre o consumo supérfluo ou dá um subsídio para restabelecer o ótimo de Pareto.
- Se os economistas neoclássicos forem indagados a respeito de interesses investidos, corrupção (que, afinal de contas, é simplesmente outro aspecto do funcionamento do mercado), poder econômico e político ou controle dos processos governamentais por uma classe, responderão, com desdém, que esses assuntos interessam aos sociólogos e aos cientistas políticos (embora se busquem em vão tais preocupações em quase toda a Ciência Social conservadora e ortodoxa).
- Onde fica, então, a teoria normativa do ótimo, de Pareto, em que se baseiam as noções neoclássicas de eficiência de mercado e de preços racionais (isto sem falar no argumento clássico liberal do capitalismo laissez-faire)?
- A resposta é óbvia: é um ideal normativo, construído sobre bases extremamente implausíveis e irrealistas, cujos adeptos não conseguem mostrar (nem em teoria) se uma dada decisão política aproximará ou afastará a economia desse ideal; está cheio de contradições, mais agudas ainda que a realidade econômica de onde provém, que procura ocultar e defender ideologicamente.
Economia do Bem-estar e Externalidades
- A externalidade analisada não é realmente concebida como o único desvio real d o ótimo de Pareto. Pelo contrário, afirma-se que esse método é apenas uma aproximação tolerável da realidade.
- Então, quando encontramos uma externalidade, recorremos ao governo bem intencionado e imparcial, dessa vez para tributar ou subsidiar, de maneira a anular ou neutralizar a externalidade isolada. O ótimo de Pareto é restabelecido, mas a análise de custo-benefício que serve de base para a abordagem de tributos-subsídios das externalidades é tão irrealista quanto a afirmação simples de que não existe externalidade alguma, porque se baseia no pressuposto de preços ótimos, de Pareto, em todos os mercados, exceto no mercado em questão.
- Uma crítica mais destrutiva ainda pode ser feita quando percebemos que as externalidades afetam tudo. Quando se faz referência às externalidades, um exemplo típico é uma fábrica que emite grandes quantidades de óxido de enxofre e materiais particulados que possam provocar doenças respiratórias nos residentes das proximidades ou uma atividade de mineração que deixe uma cicatriz irreparável e antiestética no campo. O fato é que a maioria dos milhões de atos de produção e consumo que praticamos todos os dias envolvem externalidades. A falta de realismo da economia do bem-estar é tão-somente uma manifestação do hedonismo individualista do utilitarismo.
- Todos os atos humanos, inclusive o consumo, são sociais. O bem-estar de todo indivíduo é afetado de inúmeras maneiras pelos padrões sociais e pelas instituições que determinam quem, o que e de que forma consome. Os seres humanos são predominantemente criaturas sociais e não átomos isolados e sem relação uns com os outros.
- Com o reconhecimento da presença das externalidades em toda parte, a solução do tipo imposto-subsídio é claramente percebida como uma fantasia. Essa solução exigiria, literalmente, centenas de milhões de impostos e subsídios (somente nos Estados Unidos). Além do mais, a cobrança de um único imposto ou a concessão de um subsídio, sem dúvida alguma, criaria externalidades inteiramente novas, porque criaria novos padrões de inveja e simpatia.
A Crítica Normativa da Análise de Pareto
- A plausibilidade dos critérios normativos da teoria utilitarista advém da repugnância moral generalizada diante da noção de um governo central onipotente que dite, arbitrária e caprichosamente, as escolhas e os padrões de comportamento dos indivíduos.
- A natureza humana não produz naturalmente o autômato sedento de consumo e maximizador, tão necessário para o funcionamento sem sobressaltos e lucrativo de nosso sistema econômico. O homem capitalista e quase todos os seus desejos são criados por um sistema sofisticado de controle social, manipulação, logro e poluição verbal generalizada.
- Nesse sistema econômico e político, baseado na corrupção e no dolo, cada indivíduo solitário e isolado enfrenta todos os outros indivíduos, numa concorrência impiedosa.
- Será surpresa constatar que o resultado seja a apatia, a desorientação e o desespero quase que universais? - A base sobre a qual os executivos de propaganda criam os desejos do homem capitalista é um senso onipresente de vazio e futilidade da vida. Esse homem vê anúncios onde gente radiante, feliz e esperta compra carros novos, casas novas e aparelhos de som novos. Luta, então, para vencer sua própria infelicidade e suas ansiedades, comprando-os.
- Comprar, comprar cada vez mais torna-se seu lema e os lucros dos capitalistas. Mas isso não lhe dá alívio algum, de modo que ele passa a querer um carro maior, uma casa mais cara e assim por diante, numa roda-viva de consumismo, como Alice no País das Maravilhas.
- São esses os desejos do homem capitalista solitário, egoísta, alienado e manipulado, criado pelo sistema social capitalista. Esses desejos formam a base moral na qual se assenta a economia neoclássica do bem-estar. E o valor moral atribuído aos desejos de cada pessoa é, obviamente, determinado apenas pela riqueza e pela renda dessa pessoa.
- A moderna economia neoclássica do bem-estar descende diretamente das ideias de Senior e Bastiat. Como aqueles dois pensadores do século XIX, os economistas neoclássicos veem o sistema capitalista como um sistema de harmonia natural e vantagens universais. O preço dessa ideia sempre foi deixar de lado ou negar todos os problemas sociais e todos os conflitos sociais importantes. A recompensa dessa ideia é, obviamente, poder sentar-se e descansar, esquecer todos os aspectos desagradáveis do mundo e aproveitar os sonhos da visão beatífica e da felicidade eterna.