UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL – UNIJUÍ
GIOMAR BAGGIO
ÉTICA, PESSOA E EDUCAÇÃO EM PAUL RICOEUR
Ijuí 2016
GIOMAR BAGGIO
ÉTICA, PESSOA E EDUCAÇÃO EM PAUL RICOEUR
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação nas Ciências da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUÍ, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Educação nas Ciências.
Linha de pesquisa: Teorias pedagógicas e dimensões éticas e políticas da educação.
Orientador: Dr. Sidinei Pithan da Silva
Ijuí 2016
B144e Baggio, Giomar.
Ética, pessoa e educação em Paul Ricoeur / Giomar Baggio. – Ijuí, 2016.
73 f. ; 30 cm.
Dissertação (mestrado) – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Campus Ijuí e Santa Rosa). Educação nas Ciências.
“Orientador: Sidinei Pithan da Silva”.
1. Ética. 2. Educacão. 3. Identidade. 4. Paul Ricoeur. 5. Pessoa. I. Silva, Sidinei Pithan da. II. Título.
CDU: 17:37 Catalogação na Publicação
Gislaine Nunes dos Santos CRB10/1845
FOLHA COM A ASSINATURA DOS MEMBROS DA BANCA EXAMINADORA (SERÁ INSERIDA PELA SECRETARIA)
AGRADECIMENTOS
Aos meus pais e irmãos pelo apoio. Meu muito obrigado.
Aos funcionários e professores do Colégio La Salle Medianeiro de Cerro Largo. Muito obrigado pelo apoio e paciência.
Ao programa de Pós-Graduação em Educação nas Ciências da Unijuí. Por ter me ajudado no desenvolvimento da pesquisa.
Aos professores do curso que frequentei como mestrando, pelo apoio e incentivo na pesquisa da dissertação.
Ao orientador, professor Sidinei, pela confiança e dedicação em me ajudar a refletir os caminhos da educação, a partir da filosofia moral de Paul Ricoeur. Obrigado pela convivência e pelas intervenções.
Aos colegas do curso. Meu muito obrigado pelas partilhas, risadas, reflexões e pela amizade que construímos no percorrer do caminho.
“Nós somos hoje responsáveis pelo futuro mais longínquo da humanidade”. Paul Ricoeur
RESUMO
A dissertação procura compreender os conceitos de ética, pessoa e educação em Paul Ricoeur. Trata-se de compreender como podemos enfrentar a crise que afeta a civilização contemporânea a partir de alguns escritos deste autor. A pesquisa é de caráter bibliográfico, com enfoque hermenêutico. Trata-se de um estudo de natureza qualitativa e interpretativa acerca de conceitos referenciais do autor, os quais nos ajudam a entender o significado da ética, da moral, da sabedoria prática, da educação política e da pessoa/subjetividade para a educação. A ética de Ricoeur consiste em viver bem com e para os outros em instituições justas e isso nos desafia a pensar a educação em seu significado social, político e subjetivo/pessoal. A ética relaciona-se ao que é estimado como bom, e a moral restringe-se ao que se impõe como obrigatório. A sabedoria prática consiste precisamente em que o sujeito autônomo invente o comportamento apropriado à singularidade de cada caso. A pessoa, nestes termos, pode ser entendida como uma subjetividade autônoma, capaz de falar, de agir, de narrar e de ser responsável por si e pelo mundo (outro): uma pessoa responsável por aquilo que faz e pelo futuro. Assim, trata-se de uma educação que respeite a pessoa e que se paute pela ética e pela justiça, derivando suas implicações para uma vida civilizatória. Trata-se, portanto, de uma educação que respeite o eu, o outro e as instituições justas. Neste sentido, a tarefa do educador político para Ricoeur consiste em ajudar a pensar como combater o consumismo, e a construir um projeto para a civilização, buscando um amparo na tradição para iluminar o presente.
ABSTRACT
The dissertation looks for understand the conception of ethics, person and education in Paul Ricoeur. Take care of oneself to understand how it can deal with the crisis which affect the contemporaneous civilization through some writtings of this author. The research is bibliographic character, with hermeneutical focus. Take care of oneself of a study of qualitative and interpretative nature about referential concepts of the author, which hepls to understand the meaning of ethics, moral , practice wisdom, political education and, the person/ subjectivity to the education. The ethics of Ricoeur consists in well live with and to the others in joust institutions and that challenges to think the education in its social, politic and subjective/ personal meaning. The ethics relates what is good, and the moral restricts whats is obligatory. The practice wisdom consists exacts that the autonomus fellow invents the appropriate behavior in singularity of each case. The person, in this terms, can be understood as a autonomus subjectivity, ables to speak, act, relate and to be responsable by itselfand to the word(other): a person responsable for that it does e to the future. This way, it takes care of oneself of an education that respects the person and that it lines by the ethics and the justice, derivering its implicationsto a civilized life. An education which respects itself, and the other and the joust intitutions. The political educator task to Ricoeur is to help thinking how to fend the consumerism , help to build a project to the civilization and search to light in the tradicion to lightining the present.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 9
1ÉTICA, MORAL E SABEDORIA PRÁTICA ... 15
1.1 ÉTICA ... 15
1.1.1 Vida boa ... 16
1.1.2 Com e para os outros ... 17
1.1.3 Em instituições justas ... 19 1.2 MORAL ... 21 1.3 SABEDORIA PRÁTICA ... 26 2PESSOA E IDENTIDADE ... 33 2.1 PESSOA ... 33 2.1.1 Linguagem e pessoa ... 37 2.1.2 Ação e pessoa ... 39 2.1.3 Narrativa e pessoa ... 42 2.2 IDENTIDADE ... 43 2.2.1 Identidade - idem ... 43 2.2.2 Identidade – ipse... 44
3ÉTICA, SUBJETIVIDADE/PESSOA E EDUCAÇÃO ... 47
3.1 ANÁLISE DO FENÔMENO DA CIVILIZAÇÃO, SEGUNDO RICOEUR ... 50
3.2 TAREFA DO EDUCADOR POLÍTICO ... 54
3.3 EDUCAÇÃO E LAICIDADE ... 58
3.4 INDAGAÇÕES A PARTIR DOS CONCEITOS CHAVES DE PAUL RICOEUR ... 60
CONCLUSÃO ... 65
INTRODUÇÃO
Pensar junto com Ricoeur1é percorrer um caminho cheio de desafios
intelectuais com os olhos na realidade que nos cerca e a qual sentimos a todo momento. É pensar assuntos que nos afetam a cada momento do nosso existir. Mas cada passo dado é uma vitória sobre si mesmo e sobre a humanidade. Assuntos intimamente importantes para o crescimento pessoal e humanitário. Assuntos, na linha da identidade pessoal, da hermenêutica, da interpretação bíblica2, do mal, da
justiça, da pessoa, da ética, da moral, da educação e de muitos mais, pois Ricoeur foi um escritor que escreveu sobre o que a vida lhe pedia para ser elucidado. Essa dissertação tem como objetivo principal esclarecer os conceitos de ética, pessoa e educação em Paul Ricoeur. Demonstrar a importância e a profundidade dos escritos de Ricoeur levou-nos a abordar estes campos conceituais.
Para Ricoeur (2014, p.186), a ética é: “A visada da vida boa, com e para outrem em instituições justas”. Quem é a pessoa e a sua identidade, segundo Ricoeur? O que é educação para Ricoeur? Para ajudar nessa reflexão e no aprofundamento dos conceitos de ética, pessoa e educação na obra de Ricoeur serão utilizados os seguintes textos do autor: no primeiro capítulo sobre a ética, o livro O si-mesmo como outro, principalmente o sétimo, oitavo e nono capítulo do
1Ele foi criado pelos avós após a morte de sua mãe, pouco depois do seu nascimento, e a do pai na
primeira Guerra Mundial. Na juventude, perdeu para a tuberculose uma irmã querida. Passou cinco anos como prisioneiro dos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Nesse período, com o colega Mikel Dufrenne, ensinou filosofia a outros prisioneiros do campo – e o fez tão bem que o governo francês concordou em conceder diplomas de graduação a seus alunos ao serem libertados no fim da guerra. Sua vida foi ameaçada durante a Guerra da Argélia por causa da posição que tomou contra o conflito. Foi com efeito atacado por um estudante que despejou uma cesta de lixo na sua cabeça no rastro da rebelião estudantil de 1968 em Paris. Sofreu uma série de ataques verbais maldosos de intelectuais franceses que não gostavam do que ele dizia. Perdeu um filho por suicídio e viu morrer sua amada esposa. Em suma, viu que a vida pode ter uma dimensão trágica, pois experimentou os altos e baixos do século 20. Não tentou evitar que isso influenciasse o que buscava como filósofo, ainda que comprometido com a autonomia do seu trabalho e com o objetivo de falar a verdade a todos. As muitas traduções de sua obra, em mais de vinte línguas diferentes nos anos posteriores, assim como prêmio e diplomas honorários que recebeu, mostram que teve um largo público ainda em vida. No entanto, sempre sustentou que preferia ver as pessoas discutirem a sua obra do que falarem dele (PELLAUER, 2009, p. 14-15).
Outro livro que contém uma bibliografia pessoal de Ricoeur que se chama: A Crítica e a Convicção, Edições 70 (2009a).
2“Embora Ricoeur seja um filósofo, que sua preocupação permaneça sempre filosófica, e que ele faça
questão de distinguir com cuidado os domínios da teologia e da filosofia: “Se defendo meus escritos filosóficos contra a acusação de cripto-teologia, eu me guardo, com igual vigilância, de atribuir à fé bíblica uma função cripto-filosófica” (Soi-mêmecomme um autre, Paris, 1990, Prefácio, p 37). A Bíblia ocupa, entretanto, um grande lugar em sua vida e em suas pesquisas” (RICOEUR, 2006b, p. 13).
livro. No segundo capítulo, sobre a identidade da pessoa, explorar-se-ão os capítulos quinto e sexto do livro, O si-mesmo como outro e os textos: “Morre o personalismo, volta a pessoa”, e, “Abordagens da pessoa”, do livro, “A região dos filósofos” de Paul Ricoeur.
No terceiro capítulo explorar-se-ão os textos: “Tarefa do educador político”, do livro Em torno ao político e, o texto “Educação e Laicidade” do livro A crítica e a
Convicção. Na parte final do capítulo, desenvolver-se-á uma reflexão pessoal acerca
dos conceitos trabalhados por Ricoeur nas obras escolhidas.
Além desses textos do filósofo, foram escolhidos outros textos (de ordem secundária)do autor para a elucidação dos conceitos. Também serão utilizados textos de comentadores especialistas em Ricoeur, como Lúcia Ribeiro, Constança Marcondes Cesar, David Pellauer, Andréia Santos Souza, entre outros. A escolha desses textos tem como justificativa a possibilidade de aprofundamento nos conceitos de ética, identidade da pessoa e educação.
Para nos guiar nessa tarefa, o enfoque hermenêutico servirá de guia nas reflexões. Os problemas e as perguntas norteadoras que permitem interrogar a obra do autor são as seguintes: O que é ética, moral e sabedoria prática para Ricoeur? Como a sabedoria prática nos chama para a ação? O que é identidade? O que é pessoa, segundo Ricoeur? Qual a importância da identidade pessoal? Como fica a identidade quando o eu fica face a face com o outrem? Quem é o outro? O que são instituições justas para Ricoeur? Quem é o homem justo? Quem é o homem capaz? Qual a sua responsabilidade? Vivemos uma crise de identidade ou não reconhecemos no outro e nas instituições algo que possa contribuir na melhoria da nossa vida em sociedade? Quais as contribuições que o sujeito ético poderia oferecer para uma educação política? Qual a postura do educador perante a ética, a moral e a sabedoria prática? Como sujeito ético e educador qual sua função nas instituições? Quais as obrigações em relação à sociedade e aos educandos? Portanto, como a ética e a identidade pessoal podem contribuir para uma educação política, segundo Ricoeur? Como o educador político vai trabalhar com a construção da identidade pessoal através da ética para a construção de uma sociedade justa? Há necessidade da delimitação dos textos do autor para melhor aprofundamento dos conceitos. O tema educação não foi muito escrito por Ricoeur. Mas podemos perceber que, nos seus escritos sobre ética e identidade pessoal, a grande
preocupação é com a antropologia. Quem é o homem? Como ele se identifica com a cultura? Qual a sua identidade? Qual o seu espaço na sociedade e na civilização?
Na obra de Ricoeur, a educação encontra-se implícita no conceito de ética e no conceito de identidade da pessoa. No atual momento histórico vive-se uma crise de identidade, de valores e de reconhecimento do outro. Para o filósofo, a reconstrução desse cenário vai depender de uma nova postura, exigindo-nos que sejamos educadores políticos.
A tarefa do educador político é lutar por uma democracia econômica, isto é, contra o abuso do consumismo, uma luta para elaboração de um projeto de uma sociedade justa e universal que guarde a singularidade da pessoa, e por fim, permita uma reinterpretação da tradição para combater a sociedade do consumo.
Segundo Ricoeur, na obra Tempo e narrativa, conhecer a si-mesmo é narrar sua história. Dessa forma a pessoa sóexiste enquanto sua história se desenrola no tempo. De fato, o caráter temporal da experiência humana deixa-se narrar e a narrativa, seja histórica ou ficcional, é prefiguração, figuração e reconfiguração dessa mesma experiência. A narrativa é o melhor meio de conhecermos a nós mesmos. Entretanto, e pela mediação da própria narração, o si encontra a sua própria identidade (ipse), reconhecendo-se simultaneamente a si-mesmo através do reconhecimento da sua mesmidade ao longo das suas mutações temporais.
É também pela narração que o homem percebe a alteridade do outro. Ao reconhecer a si mesmo através da identidade ipse e idem o sujeito percebe que está envolto do outro. A minha identidade será moldada no embate com a identidade do outro, por isso que a ideia de amizade de Aristóteles aqui ganha todo valor. A construção da identidade pessoal leva em conta o si mesmo, o outro e, por fim, as instituições justas.
O sujeito só pode chegar a si mesmo através da análise das próprias obras, mediante a interpretação dos sinais de sua existência, ou ainda, pela reflexão crítica sobre seus atos e expressões. A narração permite a compreensão de nós numa dimensão temporal, isto é, histórica, mais que isso, permite a compreensão de nós na nossa historicidade, porque a linguagem é constituinte do sujeito.
Ricoeur, em seu livro O Si mesmo como um outro, entende que o sujeito reflexivo e hermenêutico, que todos somos, constitui-se como sujeito,
principalmente, a partir de uma relação reflexiva de retorno a si. Só pode chegar a essa reflexão após uma relação dialógica com o outro. Sendo assim, o indivíduo que vive insatisfeito na sociedade é porque não está tendo tempo para se conhecer e para se colocar no lugar do outro.
Para Ricoeur, o agir ético possuí três momentos, o primeiro momento é o ético; o segundo momento é o da moral e o terceiro momento é o da sabedoria prática. Conforme Ricoeur, a perspectiva ética consiste em viver bem com e para os outros em instituições justas. A ética relaciona-se ao que é estimado como bom. E a moral restringe-se ao que se impõe como obrigatório. A sabedoria prática consiste precisamente em que o sujeito autônomo invente o comportamento apropriado à singularidade de cada caso. Para Ricoeur, a ética é a articulação entre estima de si, a solicitude e a justiça. Nas palavras de Ricoeur, a noção de ética corresponde a visada em direção à vida boa, com e para os outros em instituições justas.
Na análise que realiza do conceito de justiça, considera que, sendo as instituições políticas frágeis e o ser humano limitado, o poder político deve ser vigiado por aqueles que representam o produto genuíno dessa mesma política, ou seja, os cidadãos. Dessa forma, o indivíduo é agente capaz de ser e de agir responsavelmente por seus atos.
Segundo Ricoeur, a introdução do modo narrativo de expressar as ações humanas, que estejam escritas em um texto com intenções, a causa e os acasos, ou intenções pessoais ou profissionais, fazem com que a ética cumpra a exigência hermenêutica de que as decisões se harmonizem com o espaço e a prática. Porque aqui está sendo revelada e pautada a unidade narrativa de vida de cada sujeito que vive em uma sociedade. Interpretar o texto da ação é para o agente interpretar-se a si próprio. Quer dizer: existir é ser interpretado. A identidade do sujeito estará sempre aberta à nova reinterpretação. Portanto, para Ricoeur (1995, p.162) o ideal da pessoa é “viver uma vida boa, com e para os outros, em instituições justas”, ideal simultaneamente ético e político.
O importante é realçar que no fundo do projeto filosófico e hermenêutico de Ricoeur se encontra a preocupação antropológica. Compreender o homem, quem somos e quem sou, na nossa historicidade. Assim, a hermenêutica não é só um trabalho de procura e apropriação do sentido dos textos, dos símbolos ou da ação, na dimensão temporal de uma narrativa, mas, sobretudo, um trabalho de
compreensão de nós próprios e do mundo em que vivemos sobre um agir ético. Só assim podemos exigir uma educação que possa mudar as nossas condutas. Segundo Ricoeur, essa seria a tarefa do educador político. Educar para ser ético, para se conhecer e para preservar a humanidade. O sujeito ético perpassa por uma unidade narrativa que unirá e sustentará a mesma. A construção do sujeito a partir de sua história narrada terá sucesso na sua vida social e ética. Pois, cada ser humano constrói a sua própria identidade narrativa. E essa identidade narrativa poderá levar-nos a viver e agir dentro de uma instituição justa.
Para uma melhor articulação dos temas trabalhados e para uma melhor articulação do conceito de ética com o conceito de pessoa/sujeito e educação em Paul Ricoeur, a pesquisa está dividida em três capítulos. No primeiro capítulo, será pesquisado e elucidado o conceito de ética eas suas implicações em pensá-la como sabedoria prática. Esta é uma saída para pensar os conflitos existentes entre ética e norma. Para fundamentar isso, Ricoeur postula sua ética articulando os pensamentos de Aristóteles, Agostinho e Kant. Busca em Aristóteles, a ideia de que o homem almeja o bem para si, isto é, a finalidade visada por todas as coisas é o bem, no caso do homem é a felicidade. Isso seria o elemento teleológico. Na segunda parte da pequena ética, com e para o outro, o autor busca o conceito de amizade de Aristóteles que se encontra no livro: Ética a Nicômaco. Em Santo Agostinho, Ricoeur busca entender e elaborar os conceitos de mal, as questões do tempo, e da finitude e do amor que são elementos chaves para a sua pequena ética. Em Kant, Ricoeur buscou a perspectiva deontológica da moral, as características de universalidade e de constrangimento das regras morais.
O segundo capítulo da obra é sobre a pessoa, sobre o sujeito e a sua identidade. O sujeito é capaz de agir intencionalmente, de saber o quê e como fazer. O sujeito é provido de linguagem, de ação, de narrativa e de uma vida ética. O sujeito é responsável pelas suas escolhas e isso ele não pode delegar a ninguém para fazer no seu lugar. Para Ricoeur, o sujeito tem a liberdade como condição para a formação da convicção pessoal e da sua responsabilidade moral. O sujeito é livre e responsável pelas suas escolhas, pelas suas ações, pela sua narrativa de vida, isso é a obrigação de assumir como uma vida ética, como responsabilidade para o futuro.
No terceiro capítulo, o tema é a educação, educação política, o educador político. Na primeira do capítulo é apresentada uma breve análise do fenômeno da civilização que Ricoeur faz antes de introduzir o tema e a tarefa do educador político. Na segunda parte, encontra-se a compreensão de Ricoeur sobre política e a tarefa do educador político. Neste capítulo explicita-se também o modo como Ricoeur analisa a relação entre educação e laicidade, destacando a importância do diálogo, do debate e da conservação da tradição como um elo entre o passado e o presente. Na última parte do capítulo procura-se esboçar um texto de cunho pessoal abordando os elementos trabalhados na pesquisa, buscando fazer uma releitura do significado do conceito de ética e de pessoa (sujeito) para a educação contemporânea.
Ricoeur (1995, p.162), busca na sua pequena ética “a intenção da vida boa, com e para o outro em instituições justas” uma maneira melhor de agir e viver bem nessa sociedade que é pautada pelas decisões econômicas. Através da tarefa do educador político e da educação política o autor busca dizer-nos que devemos participar cada vez mais nessas decisões econômicas. Que devemos todos nos engajar na busca por uma sociedade ética efetiva que inicie na prática educativa. Para tanto, cumpre-nos interpretar, num primeiro momento, o que o autor compreende como ética, moral e sabedoria prática.
1ÉTICA, MORAL E SABEDORIA PRÁTICA
Paul Ricoeur, em seu livro O si-mesmo como um outro, aborda a sua ética especialmente nos capítulos VII, VIII e IX da obra. Para iniciar a sua reflexão, Ricoeur (2014, p. 184) faz uma distinção entre ética e moral: “é por convenção que reservarei o termo ética para visada de uma vida plena e o termo moral para a articulação dessa visada com normas caracterizadas pela pretensão à universalidade e pelo efeito de coerção”. A ética caracteriza-se pela finalidade e pelo objetivo a ser atingido, isto é, para que se possa viver bem.
1.1 Ética
No livro, A Crítica e a Convicção, Paul Ricoeur (2009a, p. 152), escreve, “Em
Si-mesmo como um Outro, defendendo a ideia de que, antes da moral das normas,
existe a ética do desejo de viver bem”. A vida boa representa a possibilidade que cada pessoa tem de ser tanto autora quanto capaz de julgar seus próprios atos racionalmente, de auto avaliar-se, ou seja, estimar a si mesma como boa perante o outro e na sociedade.
Para o aprofundamento desses conceitos, Ricoeur utiliza as reflexões de Aristóteles e Kant sobre o uso de predicados. O predicado bom faz referência à tradição teleológica direcionando-se a Aristóteles com a exigência de uma vida virtuosa e em busca da felicidade. No segundo predicado obrigatório, Ricoeur busca conversar com Kant e a tradição deontológica em que o agir moral e a sua universalização constituem-se como as principais exigências.
Segundo Ricoeur (2014, p. 185), temos “a primazia da ética sobre a moral” num segundo momento surge “a necessidade de a visada ética passar pelo crivo da norma” e por fim uma espécie de retorno à ética em que “a legitimidade de um recurso da norma à visada, quando a conduz a impasses práticos.” Como se pode observar nas afirmações a seguir:
A articulação entre visada teleológica e momento deontológico, primeiramente percebida no nível dos predicados aplicados à ação – predicado “bom”, predicado “obrigatório”-, encontrará finalmente sua réplica no plano da autodesignação: à visada ética corresponderá o que chamaremos a partir de agora estima a si mesmo e ao momento deontológico, respeito a si mesmo. Segundo a tese proposta aqui, deveria ficar claro: 1) que a estima a si mesmo é mais fundamental que o respeito a
si mesmo; 2) que o respeito a si mesmo é o aspecto assumido pela estima a si mesmo sob o regime da norma; 3) que as aporias do dever criam situações em que a estima a si mesmo não aparece apenas como fonte, mas como recurso do respeito, quando nenhuma norma certa oferece mais guia seguro para o exercício hic et nunc do respeito. Assim, estima a si mesmo e o respeito a si mesmo representarão conjuntamente os estágios mais avançados desse crescimento que é ao mesmo tempo uma expansão da ipseidade (RICOEUR, 2014, p. 185-186).
Ricoeur associa o termo “si” ao termo “estima” no plano ético e o termo respeito para o nível da moral. Com isso, Ricoeur (2014, p. 186) formula sua “pequena ética”: “Chamarei de “visada ética” a visada da “vida boa” com e para outrem em instituições justas”. Assim, “a estima de si é o momento reflexivo da práxis: é apreciando nossas ações que apreciamos a nós mesmos como sendo o autor dela e, portanto, como sendo outra coisa que simples forças da natureza ou simples instrumentos” (RICOEUR, 1995, p. 162). Ricoeur aborda a ética na perspectiva de uma vida concluída e nessa abordagem a moral é vista como articulação, isto é, como norma.
1.1.1 Vida boa
Viver bem é o objetivo da ética de Ricoeur. A noção de Vida boa se traduz na ótica do viver bem com si mesmo, com e para os outros em instituições justas. Segundo Ricoeur (2014, p.187), “o primeiro componente da visada ética é aquilo que Aristóteles chama de “viver-bem3”, “vida boa”: “vida verdadeira”. A “vida boa” é
aquilo que deve ser nomeado em primeiro lugar porque é o próprio objeto da visada ética”. É o fim último de sua ação.
É na relação entre prática e plano de vida que reside o segredo da imbricação das finalidades; uma vez escolhida, uma vocação confere aos gestos que a põem em ação esse caráter de “fim em si mesmo”; mas não paramos de retificar nossas escolhas iniciais; às vezes invertemos inteiramente, quando a comparação se desloca do plano da execução das práticas já escolhidas para a questão da adequação entre a escolha de uma prática e nossos ideais de vida, por mais vagos que eles sejam, apesar de mais imperiosos às vezes do que a regra do jogo de um ofício que até então consideramos invariável (RICOEUR, 2014, p. 194).
3 "Retomando nossa investigação, e diante do fato de todo conhecimento, e todo propósito visarem a
algum bem, falemos daquilo que consideramos a finalidade da ciência política, e do mais alto de todos os bens a que pode levar a ação. Em palavras, o acordo quanto a este ponto é quase geral; tanto a maioria dos homens quanto as pessoas mais qualificadas dizem que este bem supremo é a felicidade, e consideram que viver bem e ir bem equivale a ser feliz; quanto ao que é realmente a felicidade, há divergências, e a maioria das pessoas não sustenta opinião idêntica à dos sábios” (ARISTÓTELES, 1992, p. 19).
A vida boa está representada na capacidade de a pessoa ser autora e capaz de julgar seus próprios atos. Segundo Cesar (2002, p. 124), “a vida boa é, pois, a vida realizada, caracterizada pela excelência no agir, de modo a tender ao bem, felicidade suprema do nosso existir”. Ser capaz de avaliar, julgar como sendo boa, isto é, sendo autônoma perante a si mesmo e tendo a capacidade de poder escolher e iniciar a sua ação boa. De acordo com Cesar (2002, p. 107), o “descobrir em que consiste a vida boa para um homem é descobrir qual é sua função (ergon) própria, ou melhor, sua tarefa ou sua obra: o homem capaz de cumprir bem esta tarefa poderia ser um homem feliz”. Somente será uma vida feliz se a vida for vivida plenamente nas suas virtudes, conforme Aristóteles.
Para Ricoeur (2014, p. 196), vivemos num “círculo hermenêutico em virtude do jogo vaivém entre ideia de vida boa e as decisões mais marcantes de nossa existência (carreira, amores, lazer, etc.)”. Isso acontece devido ao “incessante de interpretação da ação e de si mesmo que prossegue a procura de adequação entre o que nos parece o melhor para o conjunto de nossa vida e as escolhas preferenciais que governam nossas práticas” (RICOEUR, 2014, p. 196). Com isso, a ética ricoeuriana pretende ter a garantia de que as intenções pessoais e as escolhas profissionais estão conectadas entre sie a uma finalidade última.
É preciso iniciar a vida boa pelo cuidado de si, pela estima de si e pelo desenvolvimento da capacidade de escolher e de causar alterações nos sentidos dos fatos. Para Ricoeur (2014, p. 196), “no plano ético, a auto interpretação torna-se estima a si mesmo. A estima a si mesmo segue o destino da interpretação”. Estima de si mesmo é o ponto reflexivo da ação, da práxis; segundo o filósofo: é avaliando nossas ações que nós próprios poderemos nos sentir seus autores.
1.1.2 Com e para os outros
No segundo momento da intenção ética, isto é, viver bem com e para os
outros, também pode-se chamar de “solicitude”. A solicitude não está fora da estima
de si, ela ajuda a explicitar a dimensão dialogal implícita na estima. Dessa forma, uma depende da outra e vice-versa. “O outro é, assim, aquele que pode dizer eu como eu e, como eu, ser considerado um agente, autor e responsável pelos seus atos. Do contrário, nenhuma regra de reciprocidade seria possível” (RICOEUR, 1995, p.163).Para elucidar o segundo ponto da sua ética, Ricoeur busca caminhar
junto com Aristóteles no seu tratado de amizade do livro Ética a Nicômaco. Assim o filósofo escreve:
Em primeiro lugar, no próprio Aristóteles, a amizade estabelece a transição entre a visada da “vida boa”, que vimos refletir-se na estima a si mesmo, virtude solitária na aparência, e na justiça, virtude de caráter político de uma pluralidade humana. Em segundo lugar, a amizade não é primordialmente da alçada de uma psicologia dos sentimentos de afeição e apego pelos outros; mas sim de uma ética: amizade é uma virtude – uma excelência-, em ação, em deliberações escolhidas e capaz de elevar-se à categoria de habitus, sem deixar de exigir um exercício efetivo, sem o que ela deixaria de ser uma atividade. (...) e por fim “o homem feliz tem necessidade de amigos”(RICOEUR, 2014, p. 199).
Segundo Ricoeur, a amizade faz a transição entre a vida boa com e para o outro. A amizade é uma virtude humana de caráter político, a qual é necessária para a vida. Todo homem tem a necessidade de ter amigos. Em Aristóteles (1992, p. 156), “a amizade perfeita é a existente entre as pessoas boas e semelhantes em termos de excelência moral; neste caso, cada uma das pessoas quer bem à outra de maneira idêntica, porque a outra pessoa é boa, e elas são boas em si mesmas”. Nessa discussão com Aristóteles, Ricoeur percebe a necessidade de incluir a necessidade da carência. Com isso, Ricoeur busca elaborar outro conceito: o de solicitude, que se concatena com a estima de si.
A estima a si mesmo, entendida como momento reflexivo do desejo de “vida boa”, a solicitude acrescenta essencialmente a da carência, que nos faz ter necessidade de amigos; por contrachoque da solicitude sobre a estima a si, o si se apercebe como um outro entre outros (RICOEUR, 2014, p. 212).
O conceito de solicitude indica uma relação de reciprocidade, pois ele se fundamenta na troca, entre dar e receber. Segundo Ribeiro (2012, p. 63), “a solicitude está fundamentada no ato de dar e receber e tem bases numa ação que ultrapassa a simples obediência ao dever, fixando-se no que ele denomina espontaneidade complacente”.
O que a solicitude acrescenta é a dimensão de valor que faz cada pessoa ser insubstituível em nossa afeição e em nossa estima. Nesse aspecto, é na experiência do caráter irreparável da perda do outro amado que, por transferência de outrem para nós mesmos, ficamos sabendo do caráter insubstituível de nossa própria vida. Nesse sentido, a solicitude responde à estima do outro por mim (RICOEUR, 2014, p. 213).
Para Cesar (1998, p. 43), “visar à vida boa implica em visá-la com os outros; o outro é um mediador entre nós mesmos e o mundo”. Segundo Aristóteles em Ética
a Nicômaco, é preciso ser amigo de si mesmo para ser amigo do outro. O amigo
deseja que seu amigo seja o que ele é e não um Deus. Para Ricoeur (2014, p. 207), “à estima de si, a amizade acrescenta, sem nada subtrair. O que ela acrescenta é a ideia de mutabilidade no intercâmbio entre humanos, cada um dos quais estima a si mesmo”. Para Souza (2013, p. 33), “é pela amizade que se estabelece a dimensão dialogal dessa perspectiva, o reconhecimento da pessoa do outro e a realização plena da estima de si, que não pode ser entendida sem esse reconhecimento”.
A semelhança é fruto do intercâmbio entre estima a si e solicitude para com outrem. Esse intercâmbio autoriza a dizer que não posso estimar-me sem estimar outrem como a mim mesmo. Como a mim mesmo significa: tu és capaz de começar alguma coisa no mundo, de agir por razões, de hierarquizar tuas preferências, de avaliar os objetivos de tua ação e, ao fazeres isso, és capaz de estimar-te a ti mesmo assim como eu mesmo me estimo (RICOEUR, 2014, p. 214).
Segundo Souza (2013, p. 34), “é pela via da amizade que a estima de si, ou seja, o reconhecimento de nossas capacidades e da correta escolha de nossas ações, entra em contato com o outro, forma diálogo, necessário para o alcance da vida boa”. Ricoeur procura confeccionar uma teoria do reconhecimento que resgate a relação com e para o outro. Segundo as exigências da solicitude, o respeito é responsável pela articulação entre a perspectiva ética e a moralidade.
A amizade só vai acontecer no plano ético na negação das escolhas egoístas pela escolha de um bem comum em relação de respeito com o outro e com si mesmo. Isso acontecerá devido ao suporte que os amigos darão para suportar as situações de conflito e violência em que passará durante a sua vida. Esse suporte que os amigos darão acontecerá dentro das instituições justas. É através das instituições, família, tradição, grupos culturais, grupos de amigos e da própria linguagem que se dará o respeito pelo outro.
1.1.3 Em instituições justas
Para Ricoeur (2014, p. 214), viver bem, com e para o outro, em instituições
justas vai além do apenas viver bem. O viver bem não se limita às relações
ética, nas instituições justas, o filósofo elege dois pontos como cerne da visada ética, sendo um local de aplicação da justiça e a igualdade como conteúdo ético. Ele define instituição como:
[...] a estrutura do viver junto de uma comunidade histórica – povo, nação, região etc. -, estrutura irredutível às relações interpessoais, porém vinculadas a elas num sentido notável, que a noção de distribuição possibilitará esclarecer em breve. A ideia de instituição caracteriza-se fundamentalmente por usos e costumes comuns, e não por regras coercitivas (RICOEUR, 2014, p. 215).
Segundo Ricoeur (2014, p. 215), essa instituição se caracteriza, fundamentalmente, por costumes comuns e não por regras constrangedoras. Tal noção conduz ao ethos de onde a ética tira seu nome. Na vida boa ou no viver bem, surge a incorporação da ideia de pluralidade. A pluralidade incorpora o terceiro incluído. Como vivemos juntos em uma instituição, a pluralidade ganha seu espaço e tempo para o futuro. Pois, isso significa que a pluralidade se aplica à ambição de durar, de não passar e ficar como algo agregador e bom para a instituição e para o indivíduo. Segundo Ricoeur (2014, p. 223), “a instituição como regulação da distribuição dos papéis, portanto como sistema, é bem mais que os indivíduos que desempenham tais papéis e também diferentes deles”.
Para Ricoeur (2014, p. 223), “a instituição considerada como regra de distribuição só existe desde que os indivíduos participem dela. E essa participação, no sentido de tomar parte, presta-se a análises probabilistas que não têm apenas como ponto de aplicação os comportamentos individuais”.
Não deveria elevar-se um muro entre o indivíduo e a sociedade, impedindo qualquer transição do plano interpessoal para o plano social. Uma interpretação distributiva da instituição contribui para derrubar esse muro e garante a coesão entre os componentes individuais, interpessoais e sociais de nosso conceito de visada ética (RICOEUR, 2014, p.223).
Para Ricoeur (2014, p. 224), “a justiça distributiva consiste então em tornar iguais duas relações entre uma pessoa e um mérito de cada vez. Portanto, ela assenta numa relação de proporcionalidade de quatro termos: duas pessoas e duas partes”.
Os três componentes da perspectiva ética que consiste em “visar a vida boa com e para os outros nas instituições justas” nos revelam que a “estima de si” apresenta-se como reflexo da vida boa; a “solicitude”, o desdobramento dialogal da estima de si, consiste na troca entre dar e receber acrescenta a carência que faz com que tenhamos a necessidade de amigos; e “a
instituição” como meio de aplicação da justiça, expondo a igualdade como conteúdo ético da justiça e remetendo para uma nova determinação da ipseidade, a do “cada um”. Nas instituições, o plano ético da vida boa com o outro desponta como justiça peculiarizada pela phrónesis, prudência, a fim de que prevaleça o equitativo (RIBEIRO, 2012, p. 66).
A vida nas instituições justas só se dá pela noção de responsabilidade. A responsabilidade é como um princípio ético e político. Para Ricoeur, a responsabilidade constitui-se como virtude de prudência no agir e tratar o outro, prevendo e agindo contra as ameaças que colocam a existência das sociedades em risco.
Portanto, na primeira parte da pequena ética de Ricoeur, somos chamados a viver uma vida boa, com e para os outros nas instituições justas. O primeiro componente da perspectiva ética é o que Aristóteles chama ‘viver bem’, a’ vida boa’ é o que deve ser nomeado primeiro porque é o próprio objeto da perspectiva ética. Nessa primeira parte, Ricoeur usou o pensamento de Aristóteles que tem um pensamento organizado de um modo teleológico, tendo um fim (telos) como desejo realizável pelo homem que é a felicidade. Agora, a vida boa, passa pelo crivo da norma, onde encontra-se efetivamente ligada a racionalidade que se torna razão prática.
1.2 Moral
Para Ricoeur (2014, p. 227), “é necessário submeter a visada ética à prova da norma”. Aqui ocorre o momento que a visão ética passa pelo crivo da moral, da norma. Segundo Ribeiro (2012, p. 45), “a moral kantiana diferencia-se da ética aristotélica por fundamentar a ação moral no dever, na norma e não em conteúdo como a felicidade, a justiça ou o bem comum”. Consiste numa avaliação geral do imperativo categórico kantiano em que pode ser vista a importância dos conceitos de universalização, de respeito e de autonomia, bem como, o de humanidade. Kant justifica a sua ética enfatizando que o homem é portador de uma razão incondicionada, que possibilita a autonomia. Pois, a dignidade humana, com a razão que o homem tem, teria a capacidade de agir conforme a representação da lei já que muitas vezes deve obedecer às leis mesmo sendo feliz ou não.
Segundo Ricoeur (2014, p. 228),
O respeito a si, que, no plano moral, corresponde à estima a si do plano ético, só atingirá sua plena significação ao cabo da terceira etapa, quando o
respeito à norma se tiver desenvolvido como respeito a outrem e a “si mesmo como outro”, e este estiver estendido a quem quer que tenha o direito de esperar sua justa parte numa partilha equitativa. O respeito a si tem a mesma estrutura complexa que a estima a si. O respeito a si é a estima a si sob o regime da lei moral.
Assim, aparece a vida-boa como obrigação. A solicitude como norma. O respeito e a justiça como princípios de justiça. Para Kant, a vontade é a razão em seu uso prático. A intenção da vida-boa ressoa em Kant como “boa vontade”, ou seja, o bem nada mais é do que boa vontade, o bem como designação da vontade.
Ora, enquanto a ética acena para o universalismo pelos traços que acabamos de lembrar, a obrigação moral tampouco deixa de ter vínculos com a visada da “vida boa”. Essa ancoragem do momento deontológico na visada teleológica foi manifestada pelo lugar ocupado em Kant pelo conceito de boa vontade na abertura dos Fundamentos da metafísica dos costumes: De tudo o que é possível conceber no mundo e mesmo em geral fora do mundo, não há nada que possa sem restrição [ohneEinschänkung] ser considerado bom, a não ser uma vontade boa (RICOEUR, 2014, p. 229-230).
Segundo Ricoeur (2014, p. 230), “pode-se equiparar o conceito kantiano de vontade como poder de pôr um começo no curso das coisas, de decidir com base em razões, de poder que, como dissemos, é objeto da estima a si mesmo”. O conceito de autonomia da razão prática de Kant irá solucionar o impasse entre o bem e a lei. Para Ribeiro (2012, p.49), “a razão prática, como Kant a denomina, significa a capacidade de escolher a própria ação, determinando a vontade, independentemente das motivações, dos impulsos, das necessidades e das paixões...”. O agir segundo as leis que o próprio sujeito de consciência se coloca é o que permite a verdadeira vontade.
Segundo Ribeiro (2012, p. 50), isso fica claro quando o:
Homem de boa vontade age de acordo com o dever e por amor a aquele, porque o cumprimento do dever, em si é algo bom e necessário. Para cumprir o dever, o homem tem a capacidade de sair de sua ‘menoridade’, através do esclarecimento e afirmar sua maioridade pelo uso da razão, podendo assim decidir com autonomia.
Portanto, para Kant, a razão pura é imediatamente legisladora. A vontade é uma vontade pura sem ser subjugada a condições empíricas sendo apenas determinada pela forma da lei. Sendo assim, as normas devem ser claras para valerem para todos os seres racionais. Conforme Ribeiro (2012, p. 50), “como ser moral, legislador de si mesmo, capaz de obedecer à lei, o homem possui dignidade
incomparável, que o faz ser fim em si mesmo, e não um meio”. Segundo Ricoeur (2014, p. 233) “como poderia eu saber se, durante a ação a estima a uma coisa é adequada à estima absoluta à vontade boa, a não ser formulando a seguinte pergunta: a máxima de minha ação é universalizável?”.
Para o filósofo, o conceito de autonomia se iguala ao da boa vontade e sem restrição à vontade autolegisladora. Ricoeur (2014, p. 232), entende que “o estilo de uma moral da obrigação pode então ser caracterizado pela estratégia progressiva de distanciamento, depuração, exclusão, ao fim da qual a vontade boa sem restrição será igualada à vontade autolegisladora, segundo o princípio supremo de autonomia”. Sim, porque para Ricoeur (2014, p. 236), “quando a autonomia substitui a obediência ao outro pela obediência a si mesmo, a obediência perdeu qualquer caráter de dependência e de submissão. A obediência verdadeira, seria possível dizer, é a autonomia”. A autonomia é o bem maior do sujeito da ação. O respeito, ou a noção de responsabilidade é fundamental na concretização da vida nas instituições justas. Para Ribeiro (2012, p. 65),
Ricoeur interpreta a responsabilidade como princípio ético e político, relacionado com a prevenção de ameaças de ações intolerantes que possam destruir a coexistência entre os diferentes, arriscando a existências das sociedades e de seus indivíduos no agir e tratar com o outro, estabelecendo condições de paz e sobrevivência para o futuro.
Segundo Ricoeur (2014, p.242), “o respeito é a estima a si mesmo passada pelo crivo da norma universal e coercitiva, em suma, a estima a si mesmo sob o regime da lei”. Entretanto, o mal pode afetar a liberdade e o ser autônomo. Ricoeur (2014, p.244), interpreta “que a propensão ao mal afeta o uso da liberdade, a capacidade de agir por dever, em suma, a capacidade de ser efetivamente autônomo”. Esse assunto sobre o mal, o estudioso descreve muito bem em dois livros: A simbólica do mal e O Mal: um desafio à filosofia e à Teologia. Para Ricoeur (2013, p. 13) “os símbolos ‘dão que pensar’, isto é, que não só podemos interrogá-los tendo em vista o sentido que se esconde por trás deles, como nos podemos servir deles para levar mais longe a reflexão”. Assim, o mal está ligado ao enigma de um surgir, mas que se posiciona no espaço e no tempo. O mal é um símbolo que nos obriga a pararmos e pensar.
O mal é um assunto que deve ser enfrentado através da formulação de respostas úteis em relação ao sofrimento humano. É também uma resposta à sociedade de como enfrentar o mal em nossa sociedade no âmbito pessoal, do outro e das instituições. Porque o mal prejudica a nossa responsabilidade com todos? Conforme Ricoeur (2013) em “A Simbólica do Mal, temos que responder, somos
sapiens ou demens? Somos condenados a salvação ou ao mal? Primeiro surge o
mal e depois corremos atrás para saber como lidar com ele?
Para Ricoeur, (2014, p.245), “portanto, cumpre admitir, que a inclinação para o mal afeta o livre-arbítrio no próprio plano em que o respeito é a afetação específica de que falamos, a afetação da liberdade pela lei”. Por isso, para Ricoeur, o mal é um assunto que corrompe todos os fundamentos, isto é, o mal é radical e devemos nos preocupar com ele, colocando todas as forças humanas para compreendê-lo.
Para concluir esse assunto, Ricoeur (2014, p. 246), reformula um imperativo de Kant: “Visto que há mal, a visada da vida boa precisa assumir a prova da obrigação moral, que poderia ser reescrita: Age unicamente de acordo com a máxima tal que possas querer que não seja o que não deveria ser, a saber, o mal4”. Assim, já se tem características de uma reciprocidade entre ética e moral em si mesmas, de uma solicitude que tem então como equivalente a moral e o respeito. Por isso Ricoeur (2014, p. 246) escreve que,
Do mesmo modo que a solicitude não se soma a partir de fora à estima a si mesmo, também o respeito devido as pessoas não constitui um princípio moral heterogêneo em relação à autonomia do si, mas desenvolve sua estrutura dialógica implícita no plano da obrigação, da regra.
Para Ricoeur, isso se concretiza em dois momentos, sendo o primeiro “por meio de que elo a norma do respeito devido às pessoas permanece vinculado à estrutura dialogal da visada ética, ou seja, precisamente à solicitude” (2014, p. 247).
4 “Ao radicalizar o mal, ao introduzir a difícil ideia de uma máxima ruim entre todas as máximas, Kant também radicalizou a ideia do (livre) – arbítrio, pelo simples fato de fazer dele a sede da oposição real à fonte da formação das máximas. Nisso, o mal é o revelador da natureza última do (livre) – arbítrio. O (livre) – arbítrio humano aparece como portador de uma chaga originário que atinge sua capacidade de se determinar a favor da lei ou contra a lei; o enigma da origem do mal reflete-se no enigma que afeta o exercício atual da liberdade; estar essa inclinação sempre já em cada ocasião de escolher, mas apesar disso, ser uma máxima do (livre) – arbítrio, eis algo que não é menos inescrutável que a origem do mal” (RICOEUR, 2014, p. 246).
No segundo momento, “o respeito devido que as pessoas mantêm, no plano moral, a mesma relação com a autonomia que a solicitude mantém com a visada da vida boa no plano ético” (2014, p. 247). Isso fica claro quando usamos o evangelista Mateus 22,39: “Ame ao seu próximo como a si mesmo”. Aqui marca a filiação entre solicitude e a norma. A solicitude é zelo, cuidado, desvelo, é abertura para o sofrimento do outro.
A regra de ouro de toda ética é a solicitude crítica em relação aos outros, a solicitude que atravessou as provas dos conflitos morais. Trata-se de buscar, ainda, o equilíbrio entre a universalidade pretendida para as regras morais e a historicidade de sua discussão, explicitando, através do debate público, quais regras que podem ser reconhecidas por todos. Trata-se, pois, de solucionar conflitos éticos à luz da razão prática, da meditação sobre as regras do agir. A razão prática envolve as noções de ‘regra de ação’, ‘conduta submetida a regras’, ação sensata’. A ação sensata implica explicitação de motivos gerais, que a tornam inteligível (CESAR, 1998, p.45).
Na relação dialógica da solicitude e da norma, é notável observar a exigência existente na noção de reciprocidade que cada uma carrega. Tanto a solicitude como a norma devem andar juntas, sem uma se sobressair a outra, pois isso pode levar à violência. Tem que se ter o cuidado para que a reciprocidade não vire uma violência, pois a violência reside no poder exercido sobre uma vontade por uma vontade.
Ricoeur vai chamar a atenção sobre o desdobramento dessa violência nos usos dos termos “poder”, “poder sobre”, “poder fazer” e no “poder-em-comum”, pois cada um desses conceitos pode levar a uma violência brutal na relação de respeito, na reciprocidade consigo mesmo, com o outro e com a sociedade.
Segundo Ricoeur (2014, p. 258), “o principal legado da ética à moral é a própria ideia de justo”. A ideia do justo, do “bom” como “extensão da solicitude ao ‘cada um’ dos sem rosto da sociedade”. E também a ideia do justo, da justiça para combater a violência e o mal. A justiça está ligada às instituições como a virtude do cidadão justo, como excelência central e unificadora da existência pessoal e política, presente na tradição teleológica, como visto anteriormente.
Assim, a relação entre ética, narrativa e moral é uma relação complexa de mútua dependência. Podemos dizer, por exemplo, que a moral depende da narrativa comunitária, a qual, no entanto, pode ser interpretada e criticada pela ética. Esta, por sua vez, exprime-se necessariamente numa narrativa e numa moral, embora de algum modo as transcenda como horizonte de crítica que possibilita sua evolução. A narrativa abre as portas da ação ética
e motiva o leitor hermeneuta a revelar-se na sua singularidade exemplar, fazendo escolhas sem situação, interpretando-se, reinterpretando-se, avaliando e se autoavaliando (RIBEIRO, 2012, p.53-54).
Para Ribeiro (2012, p. 51), “Ricoeur descreve o raciocínio prático como segmento discursivo da phrónesis ou sabedoria prática que ‘associa um cálculo verdadeiro e um desejo justo sob uma norma – um logos...”. Isso só irá funcionar na possibilidade de escolha de querer e de um discernimento pessoal. Como já vimos, para Ricoeur, a ética tem a primazia sobre a moral, mas isso não impede que o sujeito moral precise considerar registros éticos, isto é, uma vida realizada e de igual maneira, que a ética passe pelo crivo da autonomia do sujeito moral.
Cabe lembrar que a pequena ética é “visar a vida boa, com e para o outro, em instituições justas”, revelando que a estima de si é o reflexo da vida boa. A solicitude consiste na troca entre dar e receber que nos obriga a termos amigos. A estima de si é ética. O respeito de si é a moral, podendo se realizar na vida prática, no cotidiano guiado pela prudência e responsabilidade. As instituições justas, por sua vez, são os meios em que se dá a aplicação da justiça.
1.3Sabedoria prática
Na ética ricoeuriana, podemos perceber três movimentos: o primeiro é em relação à ética; o segundo em relação a moral, e o terceiro movimento é a sabedoria prática, aquele em que os riscos e conflitos estão presentes numa abordagem restrita. Para elucidar o caminho percorrido por Ricoeur, vale ver a definição de Aristóteles:
Recordamos a definição proposta por Aristóteles no livro VI da ética a Nicômaco, onde a sabedoria prática, a prudência ou a phrónesis é contada dentre as virtudes intelectuais. Enquanto a sabedoria teórica, a Sophia, visa o eterno e o imutável, sabedoria prática toma como objeto o contingente e o variável. Dado que são as sequências da ação humana, da práxis, que revestem um caráter de contingência essencial, devido à imprevisibilidade que, mesmo no melhor dos casos, as atinge, a virtude da sabedoria prática se refere, em primeiro lugar, ao campo da ação humana (CESAR, 2002, p.93).
Segundo Ricoeur, a sabedoria prática consiste na única saída disponível às situações conflitantes. Para Cesar (2002, p.126), “a vida boa deve, assim, resultar da superação das situações de conflitos engendradas pela moral de obrigação, mediante o recurso à sabedoria prática”. Diante disso, não se trata de constituir uma
terceira instância, nem mesmo uma tentativa de redimir a moral à ética, ao contrário, trata-se agora de retornar a uma ética fortalecida e amplificada, visto que foi sujeita ao crivo da moral.
Para Ricoeur (1995, p.170), “é para fazer face a essa situação que se requer uma sabedoria prática, sabedoria ligada ao juízo moral em situação e para qual a convicção é mais decisiva do que a própria regra”. Desse modo, o que ocorre é a aplicação de um juízo em situação, a convicção acaba tendo maior importância que a regra.
Gostaria de começar a justificação da terceira tese enunciada no início, a saber, que um certo recurso da norma moral à intenção ética é sugerido pelos conflitos que nascem da própria aplicação das normas a situações concretas. A partir da tragédia grega, particularmente depois da Antígona de Sófocles, sabemos que nascem conflitos precisamente quando pessoas obstinadas e íntegras identificam-se tão completamente com umaregra particular, que se tornam cegas com relação a todas as outras: assim ocorre com Antígona, para quem o dever de sepultar um irmão se sobrepõe à classificação do irmão como inimigo pela razão de Estado; igualmente com Creonte, para quem o serviço da Cidade implica a subordinação da relação familiar à distinção entre amigos e inimigos (RICOEUR, 1995, p. 169-170).
Segundo Ricoeur, o olhar direcionado somente e excessivamente à regra particular se torna cego, pois deixa de lado as particularidades das situações. De acordo com Ricoeur, o exemplo desse fato encontra-se na tragédia grega especialmente na Antígona, de Sófocles, sobre a qual Ricoeur (2014, p. 277) afirma que “a sabedoria trágica submete a sabedoria prática apenas à prova do juízo moral em situação”. A tragédia tem por tema a ação. Na ação existe sempre a paixão de cada agente envolvido, que se enraíza nas motivações que nenhuma análise da intenção moral esgota.
No trágico encontramos o nosso poder de deliberar, porque, embebido das paixões, cada agente busca a purificação das suas escolhas. A tragédia nos ensina algo único nos conflitos para a vida moral. Ela nos orienta nos conflitos de natureza diferente daqueles previstos na moral da obrigação. A tragédia de Antígona pode nos ensinar o porquê e os motivos dos conflitos, dessa forma a “provocação humana, em que se defrontam interminavelmente homem e mulher, velhice e juventude, sociedade e indivíduo, vivos e mortos, homens e divindades” (RICOEUR, 2014, p. 279). Portanto, a sabedoria trágica pode orientar uma sabedoria prática.
Nesse aspecto, uma das funções da tragédia em relação à ética é criar uma distância entre sabedoria trágica e sabedoria prática. Recusando-se a dar ‘solução’ aos conflitos que a ficção tornou insolúveis, a tragédia, depois de ter desorientado o olhar, condena o homem da práxis a reorientar a ação, por sua própria conta e risco, o sentido de uma sabedoria trágica (RICOEUR, 2014, p. 284).
Na tragédia grega, Antígona, de Sófocles, podemos perceber um conflito entre Creonte e Antígona em relação à morte do irmão de Antígona. Para Ricoeur (2014, p.280), a “concepção de Creonte tem de seus deveres para com a cidade não só não esgota a riqueza de sentido da polis grega, como também não leva em conta a variedade e talvez a heterogeneidade das tarefas da cidade”. Por isso, a ideia chave de Creonte é “Só é ‘bem’ o que serve à cidade, ‘mal’ o que prejudica; só é ‘justo’ o bom cidadão, e a ‘justiça’ só rege a arte de governar e ser governado”. Para a personagem Antígona, o que conta é o elo familiar. Somente o parente morto é que deve ser amado, venerado e sagrado. Já as leis da cidade, não são honradas e nem sagradas dentro da visão de Antígona.
Segundo Ricoeur, Antígona nos ensina que vivemos em conflitos. Para diminuirmos os conflitos, a sabedoria prática nos ajuda e pode nos orientar para alcançar uma vida boa, pensando o justo e deliberando sobre o bem. E, para isso, Ricoeur discute a questão do conflito nos três estágios da sua ética. Em relação à instituição, com o outro e consigo mesmo.
Em relação à instituição e ao conflito, Ricoeur (2014, p. 287) escreve que, “o conflito é sempre o aguilhão desse recurso, nas três regiões trilhadas já duas vezes: o si universal, a pluralidade das pessoas e o ambiente institucional”. Nesse primeiro tópico, Ricoeur (2014) dialoga com Rawls na questão da justiça distributiva. Como poderia ser possível universalizar valores, títulos, bens? Ainda mais, o conflito se dará na questão das prioridades no que se refere aos bens sociais primários, primordiais. Para Ricoeur (2014, p. 289), “a diversidade das contribuições individuais ou coletivas que dão ensejo a um problema de distribuição”.
Outro ponto essencial nesse tópico é a tentativa de unir ética e política para fundar a democracia.
A democracia não é um regime político sem conflitos, porém um regime no qual os conflitos são abertos e negociáveis segundo regras de arbitragem conhecidas. Numa sociedade cada vez mais complexa, o número e a gravidade dos conflitos não diminuirão, mas se multiplicarão e se aprofundarão. Pela mesma razão, o pluralismo das opiniões que tem livre
acesso à expressão pública não é acidente, doença nem desgraça; é a expressão do caráter não decidível, de modo científico ou dogmático, do bem público. Não existe lugar do qual esse bem possa ser percebido e determinado de maneira tão absoluta que a discussão possa ser considerada encerrada. A discussão política é sem conclusão, embora não seja sem decisão (RICOEUR, 2014. p. 298).
Portanto, como solução da discussão, o debate. A boa deliberação recomendada pelo coro nas Odes líricas de Antígona é o juízo esclarecido que se pode esperar do debate público. No plano do debate público é que todos terão voz e vez. O exercício da sabedoria prática marca a importante ligação entre ética e política. Assim sendo, Ricoeur (2014, p. 299) aborda que, “o debate sobre o ‘bom’ governo é parte integrante da mediação política através da qual aspiramos a uma vida plena, a ‘vida boa’”. Para Cesar (1998, p. 49), “é o estado de direito que garante a liberdade e a igualdade, a equidade no plano político, mediante a educação para a liberdade, pela discussão”.
Segundo Ricoeur (2014, p. 302), “é constituindo a memória de todos os começos e recomeços, bem como de todas as tradições que se sedimentaram em suas bases, que o ‘bom conselho’ pode vencer o desafio da crise de legitimação”. Ao governo, cabe a articulação das ações racionais, que fazem da comunidade histórica uma totalidade orgânica.
Portanto, os conflitos irão continuar e aumentar devido à sociedade cada vez mais complexa. A tarefa do Estado não é eliminá-lo, mas orientar o debate público em relação às decisões que o Estado irá tomar. O Estado democrático é aquele fundado no consenso, na participação nas decisões de um número crescente de cidadãos. Para concluir esse ponto, Ricoeur (2014, p. 303) afirma que, “o debate público e a tomada de decisão resultantes constituem a única instância apta a corrigir a omissão’ que hoje chamamos de ‘crise de legitimação’”.
Em relação ao segundo ponto, respeito e conflito, Ricoeur chama a atenção para o problema da humanidade perante a alteridade das pessoas.
Contudo, surge a possibilidade de conflito a partir do momento em que a alteridade das pessoas, inerente à ideia de pluralidade humana, se mostra, em certas circunstâncias notáveis, não coordenável com a universalidade das regras subjacentes à ideia de humanidade; o respeito tende então a cindir-se em respeito à lei e respeito às pessoas. Nessas condições, a sabedoria prática pode consistir em dar prioridade ao respeito às pessoas, em nome da solicitude voltada para as pessoas em sua singularidade insubstituível (RICOEUR, 2014, p. 303-304).
O outro é realmente levado a sério na sua totalidade? O que o outro me leva a fazer? Como eu me relaciono com o outro? O outro me representa? O outro ajuda na construção de minha identidade? Sou responsável pelo outro? Para Ricoeur, o outro não é um meio. É uma pessoa que fala, que age, que é personagem narrador de sua própria história. Tratar uma pessoa como meio é já fazer violência.
No campo da linguagem, a falsa promessa é uma forma de violência para com o outro. O ato do cumprimento da promessa tem um ato de reciprocidade e lealdade com o outro. Na falta de cumprimento temos uma violência, uma falta de respeito e consideração ao outro. Foi usado como meio para uma promessa que não foi levada a sério.
Segundo Ricoeur (2014, p. 311), “não cumprir a promessa é trair a expectativa do outro e, ao mesmo tempo, a instituição que medeia a confiança mútua dos sujeitos falantes”. Dentro dessa perspectiva, Cesar (1998, p. 74) diz que, “a eticidade está vinculada à responsabilidade do ser falante, sujeito capaz de relatar a vida, (...). Tal relato visa ao reconhecimento, pois quem fala faz apelo à reciprocidade, fala com alguém, para alguém”.
Ricoeur, juntamente com Gabriel Marcel, vai dizer que a fidelidade ao cumprir o prometido dá-se o nome de disponibilidade, porque, o si mesmo levou a sério o outro, e se colocou em posição de abertura, e, disponível em relação ao outro, isto é, com e para o outro com disponibilidade e flexibilidade. “Se a fidelidade consiste em corresponder à expectativa do outro que conta comigo, é essa expectativa que devo tomar como medida da aplicação da regra (RICOEUR, 2014, p. 311)”.
Pode-se dizer para concluir que o respeito remete à solicitude, preocupada com a alteridade das pessoas, inclusive a das ‘pessoas potenciais’, nos casos em que o próprio respeito é fonte de conflitos, em especial nas situações inéditas criadas pelos poderes que a técnica confere ao homem sobre o fenômeno da vida. Mas não é a solicitude de algum modo ‘ingênua’ [...], e sim uma solicitude ‘crítica’, que passa pelas provas das condições morais do respeito e dos conflitos [...]. Essa solicitude crítica é a forma assumida pela sabedoria prática na região das relações interpessoais (RICOEUR, 2014, p. 318).
Segundo Ricoeur(2014, p. 312), “a sabedoria prática consiste em inventar as condutas que satisfarão ao máximo à exceção demandada pela solicitude, traindo o mínimo possível a regra”. Para o filósofo, nesse ponto entramos em conflito com o
prometido nas situações de uma vida terminal e em relação à vida inicial. Em relação à vida terminal, entra a questão de dizer a verdade ou não. Dizer a verdade para cumprir com a verdade ou mentir para evitar o sofrimento. Em relação à vida inicial, que momento pode ser conferido à vida? O embrião tem direito a viver? O que fazemos em cada caso? Temos uma regra para todos os casos? “O que a sabedoria prática mais precisa nesses casos ambíguos é de uma mediação sobre a relação entre a felicidade e o sofrimento (RICOEUR, 2014, p. 312)”.
Para resolver os conflitos, a sabedoria prática tem o dever de garantir o diálogo entre as posições contrárias para que seja possível chegar a um ponto de consenso. Outra alternativa diz respeito ao que Aristóteles escreve na sua ética, o uso e a busca do meio-termo. Para Ricoeur (2014, p. 317), consultar “homens e mulheres com grande reputação de competência e sabedoria, menor será a arbitrariedade do juízo moral em situação. A convicção que sela a decisão se beneficia então do caráter plural do debate”.
No terceiro ponto, Ricoeur descreve a autonomia e o conflito, ele aborda e busca uma interação entre a pretensão universalista e o reconhecimento dos valores positivos pertinentes aos contextos históricos e comunitários. Para superar a tragicidade, Ricoeur vê o mal como um empecilho para a autonomia. O conflito está sempre presente na realidade.
Somente uma discussão real, em que as convicções são convidadas a elevar-se acima das convenções, poderá dizer ao cabo de longa história ainda por vir, que pretensos universais se tornarão universais reconhecidos por todas as ‘pessoas em questão’ (Habermas), ou seja, pelas ‘pessoas representativas’ (Rawls) de todas as culturas. Nesse aspecto, um dos rostos da sabedoria prática que perseguimos ao longo de todo este estudo é essa arte da conversação em que a ética da argumentação é testada no conflito das convicções (RICOEUR, 2014, p. 338-339).
Para Ricoeur (2014, p. 336), a ética da argumentação é “extrair das posições que estão em confronto o melhor argumento que possa ser oferecido aos protagonistas da discussão.” Mas esse confronto é em relação às coisas da vida. Porque “o que se discute afinal, se não a melhor maneira de cada parceiro do grande debate a visar, para além das mediações institucionais, a uma vida plena com e para os outros, em instituições justas”. Podemos perceber essa ideia no debate do direito humano. Ricoeur entende que (2014, p. 340), “é através do debate público, do colóquio amistoso, das convicções compartilhadas, que o juízo moral em
situação se forma”. O debate público nos chama para uma atitude de respeito, uma responsabilidade perante o outro, perante a mim mesmo e perante a humanidade. Segundo Ricoeur (2014, p. 344),
a responsabilidade implica em alguém assumir as consequências de seus atos, ou seja, considera certos acontecimentos vindouros como representantes de si mesmo, ainda que não tenham sido expressamente previstos e desejados; esses acontecimentos são obra sua, mesmo à sua revelia.
Portanto, o termo responsabilidade nos chama a agir de uma forma responsável para que a humanidade futura continue existindo. Chama-nos a reconhecer a responsabilidade por aquilo que já foi feito na humanidade como nossa culpa também. “O reconhecimento é uma estrutura do si que se reflete sobre o movimento que leva a estima por si mesmo em direção à solicitude e esta em direção à justiça (RICOEUR, 2014, p. 347).”
Concluindo o primeiro capítulo, podemos perceber que Ricoeur (2015, p. 162) busca definir a ética como “intenção da vida boa, com e para os outros em instituições justas”. Dá primazia a ética sobre a moral. Busca a partir dos conflitos analisar a moral. Portanto, assume sabedoria prática como práxis de elucidação do caminhar humano. Por isso que Ricoeur (2014, p. 339) escreve que “um dos rostos da sabedoria prática que perseguimos ao longo de todo este estudo é essa arte da conversação em que a ética da argumentação é testada no conflito das convicções”. Desse modo, como seria a formação da pessoa? Como seria a construção da identidade pessoal perante a arte da conversação?