Atenção farmacêutica especial para
pacientes com hipotireoidismo: por
que a levotiroxina não deve ser
substituída?
Dr. Rodolfo B. Serafim
Graduado em Farmácia-Bioquímica pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), mestre em Biociências e Biotecnologia Aplicadas à Farmácia pela Unesp, doutor em Biologia Celular e Molecular pela Universidade de São Paulo (USP). Realizou pós-doutorado em Genética na USP e atualmente desenvolve atividade de pesquisa como Research Fellow na Harvard
CONFLITO DE INTERESSES
De acordo com a Norma nº 1.595/2000 do Conselho Federal de Medicina e a Resolução RDC nº 96/2008 da
Agência de Vigilância Sanitária, declaro não ter conflito de interesses.
TIREOIDE
A glândula tireoide regula o crescimento e o metabolismo de diversos tecidos por meio da liberação dos hormônios T3
(tri
-
iodotironina) e T4 (tiroxina).
21. Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Tireoide. 2008. 2. Nunes MT. Arq Bras Endocrinol Metab. 2003 Dez;47(6):639-43.
• Glândula única, formada por 2 lobos
1• Localizada na porção anterior do pescoço
1Hormônios tireoidianos
T3: tri
-
iodotironina
T4: tiroxina
Função: regular o metabolismo e o crescimento
2O iodo é essencial para o funcionamento da tireoide.
32. Nunes MT. Arq Bras Endocrinol Metab. 2003 Dez;47(6):639-43. 3. Brasil. Ministério da Saúde. 2012.
Como agem os hormônios da
tireoide?
Mecanismo de ação:
2,4- Os hormônios tireoidianos são transportados para
o interior celular;
- Interagem com o receptor tireoidiano;
- Ativam a transcrição de genes essenciais ao
metabolismo;
- Atuam também na calorigênese dentro das
mitocôndrias.
2. Nunes MT. Arq Bras Endocrinol Metab. 2003 Dez;47(6):639-43. 4. Liu YY, et al. Chapter 21 - Thyroid Hormones. Academic Press; 2020. p. 487-506.
Funções dos hormônios
tireoidianos
Sistema nervoso central
5Essencial para o desenvolvimento da gestação.
Essencial para o equilíbrio das funções cognitivas durante toda a vida.
Termogênese
4Crescimento ósseo e estatura
44. Liu YY, et al. Chapter 21 - Thyroid Hormones. Academic Press; 2020. p. 487-506. 5. Batistuzzo A, Ribeiro MO. Arch Endocrinol Metab. 2020 Feb;64(1):89-95.
Funções dos hormônios
tireoidianos
Efeitos metabólicos
2,4–
Carboidratos:
•
↑ transporte de glicose muscular
•↓ síntese de glicogênio no fígado
–
Lípides: estimulam a síntese, a mobilização e o metabolismo
–Proteínas: síntese de proteínas, enzimas e hormônios
Efeitos cardíacos
2,4•
Contratilidade
•
Frequência cardíaca
2. Nunes MT. Arq Bras Endocrinol Metab. 2003 Dez;47(6):639-43. 4. Liu YY, et al. Chapter 21 - Thyroid Hormones. Academic Press; 2020. p. 487-506.
Eixo hipotálamo-hipófise-tireoide
TSH: 0,4 a 4,5 mUI/L
6T4: 0,7 a 1,8 ng/dL
66. Carvalho GA, et al. Arq Bras Endocrinol Metabol. 2013 Apr;57(3):193-204. Imagem adaptada de: Kurian ME, Kapoor N. Curr Med Issues. 2018;16(12):34-8.7
Eixo hipotálamo-hipófise-tireoide
Primário
Secundário
Terciário
Hipotálamo
TRH
Hipotálamo
TRH
Hipotálamo
TRH
Hipófise
TSH
Hipófise
TSH
Hipófise
TSH
Tireoide
T3/T4
Tireoide
T3/T4
Tireoide
T3/T4
Hipotireoidismo clínico x
hipotireoidismo subclínico
Anos
LIMITES
NORMAIS
TSH
Hipotireoidismo
clínico
Hipotireoidismo
subclínico
T
4Função normal
da tireoide
0,4-4,5
mUI/L
60,7-1,8
ng/dL
66. Carvalho GA, et al. Arq Bras Endocrinol Metabol. 2013 Apr;57(3):193-204. Imagem adaptada de: Cooper DS, Biondi B. Lancet. 2012 Mar 24;379(9821):1142-54.9
Epidemiologia
Epidemiologia global do hipotireoidismo
10Dados de prevalência
Estudos
Mulheres
Homens
Whickham (1977)
117,5%
3%
Colorado (2000)
124%-21%
3%-16%
Rotterdam (1993)
1312%
N/D
Rio de Janeiro (2004)
1412,3%
N/D
11. Tunbridge WM, et al. Clin Endocrinol (Oxf). 1977 Dec;7(6):481-93. 12. Canaris GJ, et al. Arch Intern Med. 2000 Feb 28;160(4):526-34. 13. Hak AE, et al. Ann Intern Med. 2000 Feb 15;132(4):270-8. 14. Sichieri R, et al. Clin Endocrinol (Oxf). 2007 Jun;66(6):803-7.
No Brasil:
- Prevalência de 1,5% na população geral;
15- Cerca de 10 vezes mais prevalente em mulheres;
10- Principal forma de apresentação: decorrente de alterações na glândula tireoide (hipotireoidismo primário –
tireoidite de Hashimoto).
15Deficiência de iodo:
- Estima-se que 1571 milhões de pessoas em 118 países estejam em carência de iodo → captação de iodo é
necessária na síntese dos hormônios tireoidianos;
16- A adição do iodo no sal destinado ao consumo humano foi adotada na década de 1950 do século passado;
17- Após cerca de seis décadas de intervenção: redução na prevalência de distúrbio por deficiência de iodo (DDI) no
Brasil;
17-
20,7% em 1955, 14,1% em 1974, 1,3% em 1994 e 1,4% em 2000.
17Dados de prevalência
10. Taylor PN, et al. Nat Rev Endocrinol. 2018 May;14(5):301-16. 15. Brenta G, et al. Arq Bras Endocrinol Metab. 2013;57(4):265-99. 16. Knobel M et al. Arq Bras Endocrinol Metabol. 2004 Fev;48(1):53-61. 17. Ministério da Saúde. Prevenção e Controle de Agravos Nutricionais.
Deficiência de iodo: deficiência de iodo e doença autoimune (tireoidite de Hashimoto) são responsáveis pela
maioria dos casos de hipotireoidismo.
18Idade: indivíduos mais velhos são mais propensos a desenvolver hipotireoidismo.
19Sexo: o hipotireoidismo é mais prevalente em mulheres do que em homens.
10Variações de etnia: prevalência global de cerca de 4,6%, sem diferenças entre brancos e hispânicos, mas
marcadamente menor em indivíduos de ascendência afro-caribenha (1,7%).
10Gravidez: prevalência de hipotireoidismo na gravidez é de aproximadamente 2%.
10Fatores que influenciam a
epidemiologia do hipotireoidismo
10. Taylor PN, et al. Nat Rev Endocrinol. 2018 May;14(5):301-16. 18. Chiovato L, et al. Adv Ther. 2019 Sep;36(Suppl 2):47-58.
Sinais e
sintomas
Tratamento
Levotiroxina: hormônio sintético
21. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria nº 1.161, de 18 de novembro de 2015.
22. Sgarbi JA, et al. Arq Bras Endocrinol Metabol. 2013 Apr;57(3):166-83.
Posologia
•
Diária, com o estômago vazio (1 hora antes ou 2 horas após o café da manhã
ou com ingestão de alimento)
24As doses administradas variam de acordo com o grau do hipotireoidismo, a idade do
paciente e a tolerabilidade individual.
24Relação segurança – índice
terapêutico estreito
O que são fármacos de
índice terapêutico estreito?
•
Medicamentos de índice terapêutico estreito (ITE) são aqueles cuja
concentração tóxica mínima difere em menos de duas vezes da
concentração eficaz mínima.
25
TOXICIDADE/MALEFÍCIO
INTERVALO TERAPÊUTICO
BAIXA CONCENTRAÇÃO/ SEM EFICÁCIA Concentração Eficaz Mínima (CEM) Concentração Tóxica Mínima (CTM)ITE
CTM/CEM <2x
Relação segurança – índice
terapêutico estreito
O que são fármacos de
índice terapêutico estreito?
•
Medicamentos de índice terapêutico estreito (ITE) são aqueles cuja
concentração tóxica mínima difere em menos de duas vezes da
concentração eficaz mínima.
25
•
Exemplos: digoxina, teofilina, alguns antiarrítmicos e
anticonvulsivantes
25
A levotiroxina é um ITE, segundo o FDA.
2625. Ward LS. Arq Bras Endocrinol Metabol. 2011 Oct;55(7):429-34. 26. FDA. 1997 Docket number 97N-0314: 43535-43538.
Qual o principal RISCO DE
SEGURANÇA com esses fármacos?
A TROCA/SUBSTITUIÇÃO ENTRE MEDICAMENTOS DE DIFERENTES MARCAS NA
FARMÁCIA QUANDO O PACIENTE JÁ ESTÁ ESTABILIZADO EM SEU TRATAMENTO!!!
Motivo?
ATENÇÃO: biodisponibilidades diferentes são observadas
entre as diversas apresentações comerciais de
levotiroxina sódica. Assim, alcançada a estabilização do
paciente, a prescrição NÃO deve ser, a priori, alterada.
27Fármacos de
índice terapêutico estreito
“[...] ajustada a dose, é desaconselhável trocar o produto em uso, seja medicamento de
referência ou genérico. Fazem parte deste grupo medicamentos para reposição hormonal e
anticoncepcionais.”
28“Nesses casos, a troca de medicamentos de mesmo princípio ativo após ajuste da dose pode
colocar o paciente em risco de sub ou superdosagem.”
28Levotiroxina
Bioequivalência de fármacos de ITE
mas
•
Dois produtos são considerados bioequivalentes quando esses parâmetros
estão dentro de um intervalo de 80% a 125%
25
Esse critério é controverso para medicamentos de índice
terapêutico estreito.
25
Bioequivalência de fármacos de ITE
Esses fármacos de ITE deveriam ter desenhos de estudo
específicos e intervalos aceitos entre 95% e 105%.
29Bioequivalência de fármacos de ITE
EAs em pacientes tratados com LT4
•
Resultados de uma força
-
tarefa de farmacovigilância da:
–
American Thyroid Association;
–
American Association of Clinical Endocrinologists;
–
The Endocrine Society.
•
198 relatos de casos com eventos adversos analisados.
25O fator mais associado à ocorrência de efeitos clínicos indesejados foi a troca da
levotiroxina por genéricos aprovados sem o conhecimento do médico.
25
Efeitos do hipotireoidismo
•
Aumento no risco de doenças cardíacas.
20•
Hipotireoidismo é uma causa de infertilidade na mulher.
20 •Maior risco de aborto na gestante.
30•
O hipotireoidismo está comumente associado à depressão no idoso.
31 •64,3% dos homens podem apresentar disfunção sexual.
32•
QI menor em crianças de mães com hipotireoidismo não tratado.
3320.Alzahrani AS, et al. Adv Ther. 2020 Jul;37(7):3097-111. 30. Gahlawat P, et al. Biomed Biotechnol Res J. 2017;1(1):81-4. 31. Chueire VB, et al. Arch Gerontol Geriatr. 2007 Jan-Feb;44(1):21-8 32. Carani C, et al. J Clin Endocrinol Metab. 2005 Dec;90(12):6472-9. 33. Haddow JE, et al. N Engl J Med. 1999 Aug 19;341(8):549-55.
Efeitos da dosagem excessiva de LT4
•
Fibrilação atrial (arritmia)
34 •Perda de massa óssea
34•
Sintomas de hipertireoidismo
35 –Taquicardia
–Dor de cabeça
–Irritabilidade
–Fogachos/intolerância ao calor
–Insônia
34. Nogueira CR, et al. Diretrizes Clínicas na Saúde Suplementar. Projeto Diretrizes, 2011. 35. Eghtedari B, Correa R. Levothyroxine. [Updated 2020 Oct 12]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2021 Jan.
Mudança de marca
A mudança de marca de levotiroxina deve ser criteriosamente
avaliada, pois doses adequadas de levotiroxina é fundamental para
assegurar a eficácia do tratamento. Doses inapropriadamente baixas
ou altas de levotiroxina podem apresentar sérias consequências para
os pacientes
25
Mudança de marca
No caso de o profissional prescritor decidir pela não intercambialidade de sua prescrição, a
manifestação deverá ser efetuada por item prescrito, de forma clara, legível e inequívoca,
devendo ser feita de próprio punho, não sendo permitidas outras formas de impressão.
36Papel do farmacêutico e sugestão
de conduta
Chegada do paciente à farmácia com prescrição de
levotiroxina Novo tratamento? Sim Apresentar opções e seguir a preferência do paciente
Não Buscar saber a marca que o
paciente já utiliza e explicar a importância de não realizar a
troca (caso esteja estabilizado)
Paciente insiste na troca
Avaliar possível
consulta ao médico
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Tireoide. 2008. Disponível em: https://www.endocrino.org.br/tireoide/. Acesso em: 13 maio 2021.
2. Nunes MT. Hormônios tiroideanos: mecanismo de ação e importância biológica. Arq Bras Endocrinol Metab. 2003 Dez;47(6):639-43. 3. Brasil. Ministério da Saúde. Iodo é indispensável para o funcionamento do organismo. 2012. Disponível em:
http://www.blog.saude.gov.br/promocao-da-saude/31550-iodo-e-indispensavel-para-o-funcionamento-do-organismo#:~:text=Essencial%20para%20o%20homem%2C%20o,%2C%20f%C3%ADgado%2C%20rins%20e%20ov%C3%A1rios. Acesso em:
13 maio 2021.
4. Liu YY. Chapter 21 - Thyroid Hormones. Academic Press; 2020. p. 487-506.
5. Batistuzzo A, Ribeiro MO. Clinical and subclinical maternal hypothyroidism and their effects on neurodevelopment, behavior and cognition. Arch Endocrinol Metab. 2020 Feb;64(1):89-95.
6. Carvalho GA, Perez CL, Ward LS. The clinical use of thyroid function tests. Arq Bras Endocrinol Metabol. 2013 Apr;57(3):193-204. 7. Kurian ME, Kapoor N. Interpretation of thyroid function tests. Curr Med Issues. 2018;16(12):34-8.
8. Gupta V, Lee M. Central hypothyroidism. Indian J Endocrinol Metab. 2011 Jul; 15(Suppl2): S99–S106. 9. Cooper DS, Biondi B. Subclinical thyroid disease. Lancet. 2012 Mar 24;379(9821):1142-54.
10. Taylor PN, Albrecht D, Scholz A, Gutierrez-Buey G, Lazarus JH, Dayan CM, et al. Global epidemiology of hyperthyroidism and hypothyroidism. Nature Reviews. Nat Rev Endocrinol. 2018 May;14(5):301-16.
11. Tunbridge WM, Evered DC, Hall R, Appleton D, Brewis M, Clark F, et al. The spectrum of thyroid disease in a community: the Whickham survey. Clin Endocrinol (Oxf). 1977 Dec;7(6):481-93.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
12. Canaris GJ, Manowitz NR, Mayor G, Ridgway EC. The Colorado thyroid disease prevalence study. Arch Intern Med. 2000 Feb 28;160(4):526-34.
13. Hak AE, Pols HA, Visser TJ, Drexhage HA, Hofman A, Witteman JC. Subclinical hypothyroidism is an independent risk factor for atherosclerosis and myocardial infarction in elderly women: the Rotterdam Study. Ann Intern Med. 2000 Feb 15;132(4):270-8.
14. Sichieri R, Baima J, Marante T, de Vasconcellos MT, Moura AS, Vaisman M. Low prevalence of hypothyroidism among black and Mulatto people in a population-based study of Brazilian women. Clin Endocrinol (Oxf). 2007 Jun;66(6):803-7.
15. Brenta G, Vaisman M, Sgarbi JA, Bergoglio LM, Andrada NC, Bravo PP, et al.; Força Tarefa em Hipotiroidismo da Sociedade Latino-Americana de Tiroide (LATS). Diretrizes clínicas práticas para o manejo do hipotiroidismo. Arq Bras Endocrinol Metab. 2013;57(4):265-99. 16. Knobel M et al. Disorders associated to chronic iodine deficiency. Arq Bras Endocrinol Metabol. 2004 Fev;48(1):53-61
17. Ministério da Saude. Disponível em: aps.saude.gov.br/ape/pcan/iodo. Acesso em: 21 mai. 2021.
18. Chiovato L, Magri F, Carlé A. Hypothyroidism in Context: Where We've Been and Where We're Going. Adv Ther. 2019 Sep;36(Suppl 2):47-58.
19. Kim MI. Hypothyroidism in Older Adults. [Updated 2020 Jul 14]. In: Feingold KR, Anawalt B, Boyce A, et al. editors. Endotext [Internet]. South Dartmouth (MA): MDText.com, Inc.; 2000. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK279005/. Acesso em: 13 maio 2021.
20. Alzahrani AS, Al Mourad M, Hafez K, Almaghamsy AM, Alamri FA, Al Juhani NR, et al. Diagnosis and Management of Hypothyroidism in Gulf Cooperation Council (GCC) Countries. Adv Ther. 2020 Jul;37(7):3097-111.