HABEAS CORPUS
Número : 364457-88.2013.8.09.0000 (201393644570) Comarca : IPAMERI
Impetrante : IARA SILVA GUERRA MARQUES Pacientes : LÁZARO DO CARMO GUIMARÃES Relator : DES. J. PAGANUCCI JR.
RELATÓRIO E VOTO
Trata-se de Habeas Corpus liberatório com pedido liminar, impetrado pela advogada IARA SILVA GUERRA MARQUES, com fundamento no artigo 5º, inciso LXVIII, da Constituição Federal, e artigo 647 e seguintes, do Código de Processo Penal, em favor de LÁZARO DO CARMO GUIMARÃES, qualificado nos autos, preso em flagrante no dia 21 de agosto de 2013, por hipotética prática do crime descrito no artigo 33, caput, da Lei 11.343/06, indicando a MMª. Juíza de Direito da Vara Criminal da Comarca de Ipameri-GO como autoridade coatora.
Sustenta a impetrante que a prisão do paciente é manifestamente ilegal, vez que o pedido de relaxamento interposto foi negado com fundamento no inconstitucional artigo 44 da Lei de Drogas que “sequer poderia ter sido inserido em nosso
ordenamento jurídico”.
Aduz que não estão presentes os requisitos da custódia preventiva, elencados no artigo 312, do Código de Processo Penal, sobretudo em razão dos predicados pessoais do paciente, o qual exerce atividade laboral lícita com carteira assinada na empresa há dez meses e possui residência fixa, comprometendo-se a comparecer a todos os atos processuais.
Ao final, requer a concessão da ordem liminar de Habeas Corpus para revogar a custódia preventiva decretada, concedendo-lhe a liberdade provisória com a expedição do respectivo alvará de soltura, com sua confirmação, na análise de mérito.
Reporta-se à lei e decisões dos Tribunais para embasamento da pretensão.
Juntou documentos (fls. 08/36). A Liminar foi indeferida (fls. 39/41).
Foram prestadas informações pela autoridade dita coatora (fls. 50/51).
A Procuradoria-Geral de Justiça, por intermédio da Dra. Analice Borges Stefan, opina no sentido de ser denegada a ordem impetrada (fls. 54/62).
É o relatório. Passo ao Voto.
1- Da Fundamentação da decisão que manteve a custódia cautelar:
Depreende-se dos autos que o paciente LÁZARO DO CARMO GUIMARÃES se encontra preso, desde o dia 21 de agosto de 2013, em virtude de flagrante delito, convertido em prisão preventiva, nos termos do art. 310, inciso II, do Código de Ritos, pela suposta prática do crime tipificado no artigo 33, da Lei nº 11.343/2006, sendo que, no Juízo de origem, postulou o relaxamento da custódia cautelar, que restou indeferido à invocação de garantia da ordem pública.
Não é ausente de fundamentação a decisão que mantém a custódia antecipada, oriunda de prisão em flagrante delito convertida em preventiva, se efetuada nos limites da lei e a condutora procedimental, ao proferir a manifestação,
baseada em circunstância fática, indica a presença de condição autorizativa para a decretação da prisão preventiva, a teor do art. 312, do Código de Processo Penal.
Segue-se trecho da decisão proferida que indeferiu o pedido de relaxamento (fls. 34/35):
“(...) O compulso dos autos revela que o requerente foi preso em flagrante pela prática do crime previsto no artigo 33, caput, da Lei nº 11.343/06. Ressalte-se que, como bem informado pelo ilustre representante do Ministério Público, com o requerente foram apreendidos mais de 04 (quatro) quilos de maconha, o que, prima facie, configura a materialidade do delito alhures (…).
Ressalte-se que os motivos que fundamentaram a prisão preventiva do acusado consistem no fato de a atividade criminosa praticada por ele se mostrar de extrema gravidade, e, além de impulsionar a violência, destrói lares e está intimamente ligada a outros delitos, como, por exemplo, homicídios, furtos, roubos e receptações, ratio pela qual se faz mister a manutenção da prisão, medida que não só dará maior credibilidade à Justiça, mas abrandará a revolta e indignação da população.
Diante dessas considerações, o indeferimento do pedido inicial é medida que se impõe.
Ante o exposto, INDEFIRO o pedido da defesa e mantenho, por consequência, o decreto de prisão preventiva do investigado LÁZARO DO CARMO GUIMARÃES tal como já decretada nos autos da ação penal (...)”.
Ademais, ressaltou a condutora procedimental, em seus informes, que:
“(...) Às fls. 57/59, foi convertida a prisão em flagrante em prisão preventiva do indigitado réu. Tal medida mostrou-se necessária e conveniente para garantia da ordem pública, sensivelmente abalada pelo comportamento criminoso do acusado, que guardava a tinha em depósito, para fins de comércio, um “tijolo” e meio de maconha, várias porções menores da mesma substância, diversos “tijolos” de maconha, totalizando aproximadamente 4,5kg (quatro quilos e meio), além de
uma porção de crack, substâncias entorpecentes capazes de causar dependência, sem autorização e em desacordo com determinação legal ou regulamentar, conforme atestam os laudos de constatação provisória, fls. 27/28 dos autos, e tal comportamento, além de impulsionar a violência, destrói lares e está intimamente ligado a outros delitos, como por exemplo, homicídios, furtos, roubos, receptações (...). (fls. 50/51).
É de se verificar que assiste razão à magistrada em manter o paciente no regime de constrição pessoal antecipada, porquanto, preso em flagrante delito, na data de 21 de agosto de 2013, mantendo em depósito, em sua residência, para fins de difusão ilícita, diversos “tijolos” da substância ilícita conhecida como “maconha”, pesando aproximadamente 4,5kg (quatro quilos e quinhentos gramas), além de uma porção de “crack”, o que revela sua perigosidade.
Como se vê, diferentemente do sustentado pela defesa, a condutora procedimental não baseou sua decisão com fundamento no artigo 44 da Lei de Drogas.
Assim, desmerece alteração a decisão que, analisando os elementos dos autos, indefere pedido de relaxamento interposto, tendo em conta os requisitos da prisão preventiva, especialmente a garantia da ordem pública, em razão da natureza e significativa quantidade da substância entorpecente apreendida em poder do paciente, indicando sua periculosidade.
Desse entender, orientação do Superior Tribunal de Justiça:
“HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE DROGAS E ASSOCIAÇÃO PARA O NARCOTRÁFICO. RESISTÊNCIA. DISPARO DE ARMA DE FOGO. PRISÃO EM FLAGRANTE CONVERTIDA EM PREVENTIVA. NATUREZA E QUANTIDADE DO ENTORPECENTE APREENDIDO. POTENCIALIDADE LESIVA DA INFRAÇÃO. GRAVIDADE CONCRETA. PERICULOSIDADE DO AGENTE. NECESSIDADE DE ACAUTELAMENTO DA ORDEM PÚBLICA. (...) 1. Demonstrada a gravidade concreta do crime em tese cometido, evidenciada pela natureza e
quantidade da droga apreendida - 22 pedras de crack -, mostra-se necessária a continuidade da segregação cautelar do paciente para a garantia da ordem pública. 2. Não há que se falar em constrangimento ilegal quando evidenciada a imprescindibilidade da segregação cautelar para a garantia da ordem pública, em razão da gravidade concreta do delito em tese praticado, bem demonstrada pelo modus operandi empregado, evidenciando a periculosidade do agente. (…)” (STJ,
HC 219959/RS, Relator(a) Ministro JORGE MUSSI, 5ª Turma, DJe 10/02/2012).
“HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE DROGAS, ASSOCIAÇÃO PARA O NARCOTRÁFICO E LAVAGEM DE DINHEIRO. (...) PRISÃO EM FLAGRANTE. LIBERDADE PROVISÓRIA. NATUREZA E ELEVADA QUANTIDADE DE DROGAS. REITERAÇÃO CRIMINOSA. GARANTIA DA ORDEM PÚBLICA. CONSTRANGIMENTO ILEGAL NÃO EVIDENCIADO. 1. Omissis. 2. Não há constrangimento ilegal quando apontados elementos idôneos dos autos ensejadores da necessidade da custódia cautelar para a garantia da ordem pública, em razão da gravidade concreta dos delitos em tese cometidos, bem evidenciada pela natureza e pela elevada quantidade de droga apreendida - 1 kg de pasta base de cocaína -, circunstâncias que demonstram a potencialidade lesiva das infrações noticiadas, a justificar a não concessão da pretendida liberdade provisória. 3. Omissis. 4. Habeas corpus parcialmente conhecido e, nessa extensão, denegada a ordem.” (STJ, HC
221230/CE, Relator(a) Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, 6ª Turma, DJe 01/02/2012).
Nesse sentido, precedentes deste Tribunal de Justiça, in verbis: “HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE DROGAS. (…). 2 - CONVERSÃO DA PRISÃO EM FLAGRANTE EM PREVENTIVA. CONSTRIÇÃO CAUTELAR JUSTIFICADA. Não se apresenta ilegal a decisão que analisando os elementos dos autos, converte a prisão em flagrante em preventiva, especialmente com base na garantia da ordem pública, mormente diante da natureza e a quantidade da droga apreendida.(...).” ORDEM DENEGADA.
AVELIRDES ALMEIDA PINHEIRO DE LEMOS, 1ª CÂMARA CRIMINAL, julgado em 26/02/2013, DJe 1263 de 14/03/2013).
“HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE DROGAS. CONVERSÃO DA PRISÃO EM FLAGRANTE EM PREVENTIVA. DECISÃO FUNDAMENTADA. PRESENÇA DOS REQUISITOS LEGAIS. AUSÊNCIA DE CONTRANGIMENTO ILEGAL. Se a prisão preventiva combatida encontra-se fundamentada de forma concreta e idônea na necessidade de garantir a ordem pública e a aplicação da lei penal, bem como por conveniência da instrução criminal (artigo 312 do CPP), não há falar-se em constrangimento ilegal, mormente quando apreendida grande quantidade de droga na residência do paciente. Ademais, as medidas cautelares diversas da prisão mostram-se insuficientes e inadequadas. ORDEM DENEGADA.” (TJGO, HABEAS
CORPUS 132385-32.2013.8.09.0000, Rel. DR(A). FABIO CRISTOVÃO DE CAMPOS FARIA, 2ª CÂMARA CRIMINAL, julgado em 21/05/2013, DJe 1317 de 07/06/2013).
HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE DROGAS. PRISÃO PREVENTIVA. LIBERDADE PROVISÓRIA. EXPRESSIVA QUANTIDADE DE DROGA. RESGUARDO DA ORDEM PÚBLICA. INDEFERIMENTO. 1- Não há se falar em decisão desfundamentada, quando consta nos autos prova da materialidade e indícios de autoria, bem como presentes o fundamento da ordem pública. 2- A grande quantidade de droga apreendida em poder do paciente impossibilita a concessão da liberdade provisória. Ordem denegada. (TJGO,
HABEAS CORPUS 431981-73.2011.8.09.0000, Rel. DR(A). EUDELCIO MACHADO FAGUNDES, 1ª CÂMARA CRIMINAL, julgado em 01/12/2011, DJe 997 de 03/02/2012).
Não bastasse, a necessidade de encarceramento cautelar do paciente também resta demonstrada à vista de seus maculados antecedentes criminais, uma vez que sua vida pregressa, de acordo com consulta via sistema SPG, demonstra sua inegável propensão à prática de malfeitos penais, pois já cumpriu pena pela prática de tráfico de drogas, sendo reincidente específico, o que justifica a manutenção da custódia preventiva, com o fim de resguardar a ordem pública.
O posicionamento dos tribunais é no sentido de que a possibilidade de reiteração criminosa serve como fundamento à imposição de prisão cautelar para se evitar a repetição do ilícito com o fim de resguardar a ordem pública e proteger a sociedade de ilícitos penais, fundamento revestido de validade, por se pautar em elementos concretos emergentes dos autos.
Vejamos o julgado do Superior Tribunal de Justiça, in verbis:
“HABEAS CORPUS. (…) VALIDADE. PRISÃO PREVENTIVA. FUNDAMENTOS. FUGA DO DISTRITO DA CULPA. CONVENIÊNCIA DA INSTRUÇÃO CRIMINAL E APLICAÇÃO DA LEI PENAL. REITERAÇÃO CRIMINOSA. RISCO CONCRETO. GARANTIA DA ORDEM PÚBLICA. MANIFESTO CONSTRANGIMENTO ILEGAL NÃO EVIDENCIADO. Omissis. A reiteração criminosa constitui motivação idônea a ensejar a prisão preventiva para o bem da ordem pública. 7. Habeas corpus não conhecido.” (6ª Turma, HC 238577/SP, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, Dje
de 18/12/2012).
Na mesma direção, jurisprudência deste Sodalício, in verbis:
“HABEAS CORPUS. LIBERDADE PROVISÓRIA. DESCUMPRIMENTO DAS CONDIÇÕES IMPOSTAS. PRISÃO PREVENTIVA. NECESSIDADE. EXCESSO DE PRAZO. INEXISTÊNCIA. 1) Omissis. 2) Ademais, a necessidade de encarceramento cautelar do paciente, como garantia da ordem pública, restou demonstrada à vista de sua periculosidade, evidenciada pela suposta reiteração de prática delituosa, posto que preso em flagrante, em comarca diversa, pela suposta prática de crime mais grave. 3) Omissis. 4) Ordem denegada. (TJ/GO, 1ª Câmara Criminal, HC
332067-02.2012.8.09.0000, Relª. Drª. Lília Mônica. C. B. Escher, DJe 1235 de 31/01/2013).
“HABEAS CORPUS. (...) A decisão que, além de fazer referência aos indícios de autoria e de materialidade, noticia recente reiteração de prática criminosa por parte do paciente, é idônea para legitimar a manutenção da custódia, porque
demonstra a necessidade de se resguardar a ordem pública sob a ótica subjetiva, em face da periculosidade do agente. ORDEM DENEGADA.” (TJGO, 1ª Câmara Criminal, HC
512857-15.2011.8.09.0000, Rel. Des. Itaney Francisco Campos, DJe 1028 de 21/03/2012).
Por conseguinte, se revela inadequada e insuficiente a aplicação do artigo 319, do Código de Processo Penal, porquanto, conforme restou consignado no pronunciamento judicial, esse foi proferido com base nos artigos 312 e 313, todos do Código de Ritos, o que inviabiliza a aplicação de medidas cautelares diversas da prisão.
2. Predicados Pessoais:
No tocante aos predicados pessoais da paciente, como primariedade, residência fixa e ocupação lícita, entende-se que, por si só, não surgem como obstáculo à manutenção da custódia cautelar, se circunstâncias outras, como a garantia da ordem pública, justificam a medida. Confira-se:
“HABEAS CORPUS. TRÁFICO ILÍCITO DE ENTORPECENTES. (...) PREDICADOS PESSOAIS. IRRELEVÂNCIA. (...) Condições pessoais favoráveis não são suficientes para garantir eficazmente a restituição da liberdade, quando a medida constritiva se mostra em estrita observância dos requisitos listados no artigo 312 do Código de Processo Penal. ORDEM DENEGADA.” (TJGO, HABEAS CORPUS
396743-56.2012.8.09.0000, Rel. DES. ITANEY FRANCISCO CAMPOS, 1ª CÂMARA CRIMINAL, julgado em 13/12/2012, DJe 1222 de 14/01/2013).
Diante do exposto, acolho o parecer da Procuradoria-Geral de Justiça, lavrado pela Dra. Analice Borges Stefan, conheço do pedido, mas denego a ordem impetrada.
É o voto.
Goiânia, 03 de dezembro de 2013.
DES. J. PAGANUCCI JR. RELATOR
HABEAS CORPUS
Número : 364457-88.2013.8.09.0000 (201393644570) Comarca : IPAMERI
Impetrante : IARA SILVA GUERRA MARQUES Pacientes : LÁZARO DO CARMO GUIMARÃES Relator : DES. J. PAGANUCCI JR.
EMENTA
HABEAS CORPUS. PRISÃO EM FLAGRANTE DELITO.
TRÁFICO ILÍCITO DE ENTORPECENTES. DECISÃO DE INDEFERIMENTO DO PEDIDO DE RELAXAMENTO. AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO. PREDICADOS PESSOAIS. 1- Desmerece alteração a decisão que, analisando os elementos dos autos, indefere pedido de relaxamento interposto, tendo em conta os requisitos da prisão preventiva, especialmente a garantia da ordem pública, em razão da natureza e significativa quantidade da substância entorpecente apreendida em poder do paciente, indicando sua periculosidade. Não bastasse, a necessidade de encarceramento cautelar do paciente também resta demonstrada à vista de seus maculados antecedentes criminais, uma vez que já cumpriu pena pela prática de tráfico de drogas, sendo reincidente específico. 2- Os predicados pessoais da paciente, como primariedade, residência fixa e ocupação lícita, por si só, não surgem como obstáculo à manutenção da custódia cautelar, se circunstâncias outras, como a garantia da ordem pública, justificam a medida. 3- Ordem denegada.
ACÓRDÃO
Vistos e relatados os presentes autos, acordam os componentes do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás, pela Primeira Câmara Criminal, por unanimidade de votos, acolhido o parecer Ministerial, em conhecer do pedido e denegar a ordem impetrada, nos termos do voto do Relator, proferido na Assentada do Julgamento.
Votaram, além do Relator, o Doutor Silvio José Rabuske, em substituição à Desembargadora Avelirdes Almeida Pinheiro de Lemos, o Desembargador Nicomedes Domingos Borges, o Desembargador Itaney Francisco Campos e o Desembargador Ivo Favaro, que presidiu a sessão.
Presente ao julgamento o Doutor Nilo Mendes Guimarães, digno Procurador de Justiça.
Goiânia, 03 de dezembro de 2013.
DES. J. PAGANUCCI JR. RELATOR