Futuro do Presente Simples: um fenômeno gramático-lingüístico
Simple Future: a grammatical-linguistic phenomenon
Ádila Amorim Trindade Henriques
Centro de comunicação e Letras – Universidade Presbiteriana Mackenzie Rua Piauí, 143 -01241 001 – São Paulo – SP
Resumo. Este trabalho apresenta, sob o ponto de vista gramático-lingüístico, o fenômeno da substituição do uso futuro do presente simples pela locução verbal ir + infinitivo e tem como objetivo averiguar as possíveis causas dessa substituição. Conclui-se com essa pesquisa que fatores sociais externos como contexto e uso freqüente da locução na linguagem, bem como fatores internos, como o aspecto e a intencionalidade, definem a forma verbal que o falante utiliza para expressar um fato futuro.
Palavras-chave: Futuro do presente simples 1. Locução verbal 2. Fenômeno 3.
Abstract. This paper aims at a reflection under grammatical-linguistic point of view, the phenomenon of the substitution of simple future to verbal locution ir + infinitive and has an objective to investigate the possible causes of that substitution. The conclusion is the external social influences as context, the frequent use of locution in the language and internal influences as aspect and intentionally, define the verbal form that people use to express a future fact.
Keywords: Simple future 1. Verbal locution 2. Phenomenon 3.
1. Introdução
Na linguagem, a diferença entre a forma escrita e a falada se dá de maneira extremamente díspare, pois a língua que falamos não é a que estudamos nas gramáticas. Na escrita, o sujeito se organiza, o texto é planejado, pois em geral, o seu objetivo é expressar-se utilizando a forma culta. Já na fala, ocorre a chamada variação diastrática, que, diferentemente de um texto planejado, é construída com uma imensa variedade de usos populares, característicos dessa tipologia. E geral o contexto, onde o falante está inserido, é o responsável por essa variação no discurso e pode determinar uma maior ou menor preocupação da expressão discursiva.
A Sociolingüística, ramo da Lingüística, que surgiu na década de1960 nos Estados Unidos, com William Labov, estuda a língua como um fenômeno que muda com o tempo e varia no espaço, e varia, também, conforme a situação social do falante, de modo que tornou mais visível o fato de que a língua não é uniforme ou imutável.
Cristina Altman, no seu livro A pesquisa lingüística no Brasil (1998), aponta que no período de 1968-1988 os estudos lingüísticos brasileiros desenvolveram-se de maneira notável, a despeito das adversidades. A Lingüística colaborou decisivamente para a renovação das teorias de ensino da língua portuguesa que foi motivada pelos estudos da língua oral e pelas transformações socioculturais existentes no país. A divulgação das idéias sobre a variação lingüística, renovou, ou melhor, substituiu os conceitos tradicionais de certo e de errado, em que se consideravam apenas os modelos da gramática tradicional, ligados à língua escrita e ainda abriu caminhos para que uma análise mais profunda das intenções implícitas nas manifestações lingüísticas do falante fosse descrita. Essas intenções implícitas são percebidas a partir de dados coletados de uma variedade de usos e que são analisados na organização da sentença, e, por conseguinte, como essa sentença foi articulada no pensamento.
Muitos estudos têm sido realizados quanto ao ensino da língua portuguesa padrão nas escolas. A problemática dos verbos e suas categorias são comumente vistas como grandes dificuldades nas aulas de português. Com o surgimento da Lingüística, no Brasil, e com as produções das gramáticas de uso e das gramáticas descritivas, permitiu-se um grande avanço no que diz respeito à compreensão da construção do discurso do falante de língua portuguesa, pois o que se sabe é que a escrita e a fala têm sua própria maneira de se organizar; contudo e infelizmente, os estudos lingüísticos não têm chegado às escolas secundárias.
O fenômeno da substituição do FPS pela locução ir + infinitivo é evidente nos dias atuais, dificilmente alguém expressa oralmente a sua intenção futura de realizar algo, utilizando a forma simples, prescrita na gramática normativa e hoje em dia, até mesmo na escrita, é rara a sua utilização. O falante se expressa, na escrita e na fala não mais com a forma simples, como por exemplo: “Faremos as tarefas estabelecidas”, mas em forma de locução verbal: “Vamos fazer as tarefas estabelecidas”.
A relevância do estudo do fenômeno responsável pela substituição da flexão do Futuro do Presente Simples (FPS), bem como do seu quase apagamento, devido à preferência pela Locução Verbal (LV), compreende uma tentativa de explicar qual a causa ou causas do uso de uma flexão em detrimento de outra. Muitos questionamentos têm sido feitos acerca do fato. Essa substituição pode ser resultado de fatores sociais, ou causas internas do próprio sistema lingüístico? O que determina a escolha do falante? Não seria a sua escolha intuitiva? Estaria ele se servindo da forma que melhor exprime seu pensamento?
A fundamentação teórica da pesquisa é com base em gramáticas normativas, descritivas, expositivas, e estudos descritivos tais como: Nova gramática do português contemporânea (2001) de Celso Cunha & Lindley Cintra, Gramática do português falado: novos estudos descritivos (1998) de Ataliba Teixeira de Castilho, Gramática expositiva. Curso superior (1957) de Eduardo Carlos Pereira, A sobreposição modal em ir + infinitivo (2002) de Ademar da Silva, entre outros que também serviram de base para a reflexão sobre o assunto.
Algumas expressões utilizadas no decorrer da pesquisa exigem, por causa do freqüente uso, definições de natureza operacional. Entenda-se por Lingüística “a ciência que investiga a linguagem” (ORLANDI, 1988, p.5); a Gramática como a que “constitui a língua padrão ou oficial do país” (BECHARA, 1987, p.24); por Futuro do Presente Simples a “expressão de fatos ainda inexistentes” (ALI, 1964, p.76); por Locução
Verbal “o conjunto formado por um verbo auxiliar com um verbo principal” (CUNHA & CINTRA, 2001, p.394); o Aspecto designa “uma categoria gramatical que manifesta o ponto de vista do qual o locutor considera a ação expressa pelo verbo” (CUNHA & CINTRA, 2001, p.382); e por Intencionalidade “o propósito do emissor, representado de certa maneira, para perseguir e realizar suas intenções comunicativas” (KOCH, 1999, p.79).
A contribuição que se pretende oferecer com essa pesquisa é a continuidade da discussão referente à modificação, ou seja, ao fenômeno gramático-lingüistico que ocorre na representação de um fato futuro.
A problemática dos verbos e suas categorias sempre estiveram presentes nas gramáticas tradicionais desde as mais antigas até as recentes; no entanto, pode-se dizer que os conceitos nelas existentes são, muitas vezes, sintéticos e de pouco alcance, apresentam as normas e as exceções, porém não as descrevem. Os conceitos são apresentados de maneira simplificada e em geral, insuficientes para um conhecimento adequado do assunto. Por outro lado, a Lingüística tem mostrado a complexidade do conjunto dos problemas relacionados ao verbo, descrevendo, entre outros, as intenções implícitas na manifestação lingüística.
Percebe-se, então, que a gramática tradicional e os estudos lingüísticos possuem comportamentos diferentes ante o mesmo objeto. A gramática tradicional fixa uma norma, enquanto a descrição lingüística descreve as flutuações que podem ocorrer numa mesma estrutura.
2. O futuro do presente simples
O futuro do presente simples, proveniente do infinitivo impessoal, é utilizado em referência a fatos ainda não realizados; entretanto, estudos lingüísticos mostram que a mesma forma do FPS também pode ser utilizada para representar sentidos diferentes na linguagem, isso quer dizer que o FPS nem sempre expressa o sentido de um fato a ser realizado no futuro.
Said Ali (1964, p.132) aborda o futuro do presente simples do indicativo como sendo a expressão de fatos ainda inexistentes, mas que têm possibilidade de se realizar posteriormente ao momento da fala, pode ser usado com valor de imperativo categórico ou simplesmente sugestivo, que acontece quando provoca no outro apenas o sentimento da necessidade de realizar a ação. No futuro com valor indireto, isto é, com o verbo na terceira pessoa, é entendido que a ação há de ser cumprida pelo indivíduo a quem a proposição é dirigida. Para complicar um pouco mais, o futuro do presente simples pode também exprimir incerteza sobre fatos próprios em relação ao tempo atual. É o futuro problemático ou da incerteza. “Onde andará o fugitivo a estas horas?”. Nas frases interrogativas, o futuro problemático considerado como linguagem polida não obriga o interlocutor a responder. “Que casa será esta?”. Verificar os empregos do futuro do presente simples não é uma tarefa muito fácil, observados sob diversos pontos de vista, pode, às vezes, causar alguma confusão.
Conforme Ilari (1997, p.82), o FPS é empregado ainda para indicar fatos certos ou prováveis que serão realizados após o momento da fala “Viajarei em breve”; para exprimir a incerteza (probabilidade, dúvida, suposição) sobre fatos atuais “Será que ela vem?”; como forma polida de presente “Quem poderá me ajudar?”; como expressão de uma súplica, de um desejo, de uma ordem, sendo que, nesse caso, o tom de voz pode
atenuar ou reforçar o caráter imperativo “Lembrarás de mim um dia”, “Não matarás.”; nas afirmações condicionadas, quando se referem a fatos de realização provável “Se não pagares a prestação, perderás tua casa.”
E ainda, para expressar uma mesma circunstância temporal, o futuro, podem ser utilizadas formas variadas “Viaja semana que vem” (presente), “Vai viajar semana que vem” (locução) “Viajará semana que vem” (futuro simples). Para o autor, essa variedade de construções que são utilizadas para expressar o futuro exprime também outras categorias além do tempo, tais como, de modo e aspecto que mostram o ponto de vista do falante diante do que ele quer expressar, determinando assim, suas escolhas na realização lingüística.
Para Luft (1976, p.131), existe o presente e o passado. O futuro corresponde a locuções de infinitivo + haver mascarados “cantar hei, cantar hia” com aglutinação na pronúncia representada escrita “cantarei, cantaria”. Para o autor os aspectos mórficos do “chamado futuro” e o valor semântico de decisão, projeto (irei) hipótese, é “modo” e não “tempo” próprio do haver que é auxiliar “modal”; tempo só na implicação secundária de que planos, decisões se projetam no futuro.
3. Alguns substitutos do Futuro do Presente Simples
Expressar-se lingüísticamente da melhor forma que represente o seu pensamento, parece ser o desejo de todo falante. Para isso ele se utiliza dos recursos disponíveis que melhor se adequam aos seus objetivos.
O falante para exprimir a intenção de realizar um ato futuro pode recorrer à formação: presente do indicativo do verbo haver + preposição de + infinitivo do verbo principal, “Hei de comprar aquele livro”. Para indicar uma ação futura de caráter obrigatório, independente, pois, da vontade do sujeito, pode se utilizar o presente do indicativo do verbo ter + preposição de + infinitivo do verbo principal “Temos de evitar a queda da placa”, e para indicar uma ação futura imediata, recorre ao uso do presente do indicativo do verbo ir + infinitivo do verbo principal (locução) Vou comprar aquela casa”. Contudo, algumas formas não têm sido mais utilizadas, nem sequer na língua culta, atualmente a preferência tem sido pela locução verbal.
Com um recuo no tempo, é possível constatar que a utilização do FPS, nos textos escritos, era quase absoluta. Na linguagem mais antiga, eram utilizadas também as variações como as citadas acima haver + preposição + infinitivo e formações com pronome enclítico “Encontrar-me-ão após o jantar”. Esses usos estão praticamente banidos do vocabulário da atualidade.
Os verbos auxiliares são utilizados para conjugar outros, não há uniformidade de critério lingüístico para determinação dos limites da auxiliaridade. A lista de verbos auxiliares varia de gramática para gramática. Eles podem ser auxiliares temporais, que servem para formar os tempos, e auxiliares modais, que servem para formar a voz passiva, e locuções verbais. O verbo auxiliar tem a função de ampliar a significação do verbo principal, isto é, existe uma forma de complementação entre as duas formas verbais; o auxiliar toma por complemento um verbo base e perde a propriedade de atribuir significação a esse verbo com o qual combina.
4. O verbo ir como auxiliar
O verbo ir é um auxiliar de tempo, cuja construção com o infinitivo de outro verbo expressa futuridade (NEVES, 2000, p.65). Na locução, o verbo ir pode ser chamado de incoativo, do latim inchoare que quer dizer começar, indicando, assim, o princípio de uma ação.
O verbo ir como auxiliar é detematizado, isto é, não atribui papel semântico ou temático aos elementos com os quais se combina. Ao interagir com a base, perde seu sentido de deslocamento de um ponto para o outro e fornece uma interpretação temporal para o todo; funciona como auxiliar de tempo de diversos infinitivos e, de maneira análoga, age como um morfema gramatical de tempo. O verbo ir empregado no presente do indicativo juntamente com o infinitivo do verbo principal, indicam o firme propósito de executar uma ação a ser realizada por pelo falante ou por outrem (Vou sair todas as manhãs; Ele vai sair sozinho), em um futuro próximo imediato, e é dessa forma que essa locução tem substituído a forma do futuro do presente simples do indicativo, pode-se dizer que é a intenção determinando o modo da proposição. Todavia, se se levar em conta a intenção do falante, o auxiliar ir, além de ser considerado um auxiliar de tempo pode ser também um auxiliar de modo. Pesquisas realizadas têm mostrado que na língua oral o uso do FPS quase inexiste, a escolha é praticamente uma só, pela locução ir + infinitivo.
5. O futuro do presente simples na oralidade
Castilho (1996, p.405-423) em Gramática do português falado (org.) apresenta uma pesquisa informando que a preferência pelo uso do futuro do presente simples entre outros, está em oitavo lugar e o da locução verbal ir + infinitivo, em quarto lugar. Praticamente, só se registram essa forma; em 84 ocorrências do uso do tempo futuro, na língua oral, apenas duas foram formas sintéticas do futuro do presente simples, as demais foram formadas pela locução verbal com o auxiliar ir para indicar futuridade. Na linguagem oral, a freqüência dos sufixos de futuro do presente simples (ei; ás; á; emos; eis; ão) é quase nula. Os estudos lingüísticos procuram explicar a alta incidência da locução verbal como sendo o resultado da atitude assumida pelos falantes diante daquilo que será transmitido.
Já Lauand (2004, p.21), em uma pesquisa feita com a revista “Tio Patinhas”, verificou, entre outros, que alguns futuros, na forma simples (ficaremos) nas edições mais antigas, 1958, 1967, aparecem em forma composta e, a locução verbal (vamos ficar) nas histórias mais recentes. Esse é um exemplo de que as mudanças na linguagem do falante, como no caso do uso do FPS, estão relacionadas também ao referencial com o qual ele tem se deparado. O vasto uso da locução verbal em revistas, jornais, programas de televisão, etc., certamente colaboram para a cristalização dessa forma. Assim, se a intenção do falante e o seu referencial lingüístico interferem no uso ou não do FPS, pode-se dizer que a preferência pela da locução é devido a fatores internos e externos.
6. As categorias modo, tempo e aspecto
O modo indicativo exprimiria atitude de certeza do falante quanto ao que se declara e no modo como a manifestação lingüística é produzida, pode-se reconhecer o propósito que o falante deseja atingir. A categoria semântica modo se define,
caracterizando uma atitude do falante frente àquilo que está dizendo, que manifesta sua vontade, sentimentos ou julgamentos.
Podem ser encontrados no discurso: declaração, pergunta exclamação, ordem, pedido, promessa, expressão de um desejo, etc. Essa categoria pode ser vista no texto, a unidade maior de funcionamento, e não em uma frase isolada; a percepção do sentido começa a partir da estrutura da frase, juntamente, com outros fatores do contexto lingüístico e situacional; é preciso lembrar que utilização de uma frase isolada pode prejudicar seu entendimento, isso porque as escolhas dos itens que o falante faz, estão relacionadas com objetivos específicos.
Com base na categoria semântica modo, talvez seja possível caminhar para a compreensão do fato de o falante querer se expressar de uma maneira mais definida, próxima em relação ao tempo; por isso, substitui o FPS, escolhendo a locução verbal ir + infinitivo, pois o sujeito que fala, participa efetivamente da idéia verbal, desejando-a, supondo-a, enfim considerando-a possível, exatamente na perspectiva que deseja transmitir.
No que diz respeito ao tempo, há distinção entre tempo verbal (categoria morfológica, formal), do tempo semântico (categoria de significado). Veja-se o exemplo: “Amanhã faço isso para você”, o tempo presente do indicativo (faço), não se refere a um fato que ocorre no momento presente, mas exprime o tempo semântico futuro, que é reforçado pelo advérbio de tempo; o fato se realizará em algum momento por vir. A forma (faço) também pode exprimir eventos que não são futuros como em: ‘Eu faço bolo para vender’. Essa ação configura um hábito.
Com apenas esses dois exemplos se tem a noção de que a vinculação entre tempo verbal e tempo semântico é complexa. Neles, a noção semântica de tempo não se identifica e muito menos se relaciona com a categoria morfológica tempo verbal. Pode-se obPode-servar, nos casos acima, a versatilidade do prePode-sente do indicativo; já nos demais tempos, essa possibilidade é muito restrita. No caso da locução verbal, ir (no presente) + infinitivo, o tempo presente do verbo ir (vou) exprime um tempo semântico de futuro usado para expressar fatos ainda a ocorrer e não de presente.
O aspecto visto sob diferentes olhares de estudiosos encerra um conceito comum, o de que manifesta o ponto de vista do falante sobre aquilo que deseja expressar lingüisticamente. Essa é uma categoria lingüística, extremamente útil, ao estudioso da língua portuguesa, uma vez que os falantes se utilizam dele com muita freqüência para se expressarem da maneira mais adequada para atingir seus objetivos. Costa (1990), em O aspecto em português, acredita ser não só um exercício penoso, mas também gratificante aventurar-se a entender o porquê, o quando, o onde, o como é usado o aspecto? Segundo a autora, os elementos lingüísticos não são as coisas, mas a representação das coisas, que nos dão a informação sobre a maneira como os falantes encaram, vêem, interpretam as coisas que estão no mundo.
Observe as sentenças: “Dormirei para descansar.” (futuro do presente); “Vou dormir para descansar” (locução verbal). Na segunda sentença, a impressão que se tem é que o falante quer, além da referência ao tempo em que a ação ocorrerá no momento da fala, também, expressar uma maior certeza, ou concretude do fato a ser realizado, é como se o tempo estivesse centrado no fato, atualizando assim, a categoria de aspecto. A sentença “Dormirei para descansar.” expressa em menor grau a intenção do falante caso ele queira indicar uma ação futura imediata, de instantaneidade. Se pensarmos em
grau de certeza, obviamente definidas pelo contexto, o futuro com a locução verbal ir + infinitivo se avizinha da certeza, quer dizer, se apresenta com grande possibilidade de realização.
Na busca por mais aproximação, imediatização com o fato futuro, em tempos de instantaneidade, correria, etc., parece que o falante é impulsionado a despojar-se do uso do FPS que associado à superficialidade, abstração, distanciamento é cada vez menos apreciado e utilizado pela sociedade em geral - e se vale o tempo todo do uso da locução ir + infinitivo.
7. A intencionalidade
Todo falante ao produzir um enunciado quer dizer algo, porém é dito de certa maneira. O modo como o enunciado é realizado representa a si mesmo, é o chamado sentido (VOGT citado por KOCH, 1980, p.24,25).
O sujeito mais atento, provavelmente, não ignora que, quem fala, possui certas intenções ao comunicar-se; ao compreender uma enunciação, ele apreendeu sua intenção, e, portanto, no momento da interação em que se dá a enunciação, o sentido é constituído, atualiza-se assim, a intenção persuasiva, que sem dúvida, visa a um determinado fim.
A intenção do emissor se deixa representar de certa maneira, por meio de marcas lingüísticas, que serão responsáveis pela produção de sentidos, com as quais objetiva a compreensão do interlocutor e a demonstração de sua real intenção, interesse, grau de comprometimento; e dependendo da habilidade do falante, a realização do seu propósito será integral ou parcial. Ele quer produzir um texto que faça sentido, logo trabalha o seu texto em função de atingir esse objetivo e para isso, busca todas as maneiras para tornar possível a realização de suas intenções.
O modo da produção discursiva, com maior ou menor grau de formalidade / informalidade é determinado pelo objetivo do seu emissor. Ao elaborar um texto, quer oral ou escrito, ele deixará pistas lingüísticas que orientarão o interlocutor, que compartilha desse objetivo, para a busca do efeito de sentido pretendido pelo emissor. Sendo assim, não se pode negar que, na interação entre os falantes, há uma cooperação mútua.
Como já foi dito, a atividade de produção de um texto tem como objetivo a realização de determinados fins. O sujeito se organiza, planeja e constrói o seu texto com certos elementos que deverão reproduzir os sentidos que ele quer lhe dar. Para a obtenção de certos resultados, (LEONT’EV citado por KOCH, 2003, p.12), o falante lança mão de algumas atividades verbais que podem ser articuladas sob aspectos da motivação, da finalidade e o da realização. A motivação surge de uma necessidade, então, o falante planeja a atividade e ao determinar a finalidade escolhe os meios adequados à realização, depois de realizada alcança os resultados. Essas ações e operações constituem a atividade verbal, que estão inseridas em um processo social, se se considerar a linguagem enquanto atividade determinada por fatores sociais.
Um método proposto por Isenberg, (H. ISENBERG citado por KOCH, 2003, p.16,17) para descrever a geração de um texto pode ser encarado sob oito aspectos diferentes: legitimidade social; funcionalidade comunicativa; semanticidade; referência à situação; intencionalidade; boa formação; boa composição; gramaticalidade, logo, a atividade verbal, bem como a geração de um texto, dependem de condições sociais
(externas) e psicológicas (internas) e sob a influência desses fatores o falante idealiza o seu texto.
Por tudo isso, o uso da locução ir + infinitivo em substituição ao FPS pode ser considerado uma forma lingüística que possui sentidos diferentes dos da formação do FPS. O sujeito socialmente integrado e consciente de suas necessidades produzirá o seu discurso com elementos que melhor reproduzirão os sentidos que ele quer dar ao seu enunciado, conforme seus objetivos.
8. O fenômeno gramático-lingüistico na literatura: uma análise
A prática do que foi dito anteriormente, ou seja, o fenômeno ou mudança que ocorre no uso do FPS, é observada melhor na análise em dois contos de Machado de Assis, Miss Dollar e O segredo de Augusta (1870) e de uma obra completa de Ivan Ângelo contendo doze contos, O ladrão de sonhos (1994).
A escolha desses contos não se deu alheatoriamente, o objetivo é verificar a existência do fenômeno em obras do gênero conto, porém de autores diferentes, em épocas também diferentes. Machado de Assis escreveu em uma época em que a escrita, sobretudo a literária era considerada a verdadeira forma de linguagem. Nos contos machadianos, em particular os supra citados, se observa a freqüência do uso do FPS, num contexto de linguagem culta. Diferentemente de Machado de Assis, Ivan Ângelo apresenta na sua obra formas de linguagem e expressão do cotidiano que revela seu notório objetivo de produzir obras literárias que não se submetem à regra da linguagem culta, mas à regra da fala.
Por meio da observação do fenômeno, é feita uma análise com base: na modalização lingüística proposta por Koch (KOCH citada por SILVA (2002), p.482-490), ou seja, a atitude do falante em relação ao que expressar na sua fala que pode ser de necessidade e possibilidade; de certeza e probabilidade; de obrigação e permissão; de intenção, optação; com base em uma análise na teoria da atividade verbal de Leont’ev (LEONT’EV citado por KOCH, 2003, p.13), definida como “... uma atividade (...) do ser humano que se transmite até certo grau mediante os signos da língua (...), em cujo transcurso construímos uma expressão lingüística para alcançar um objetivo prefixado”; e também numa análise com base no método, dentro da teoria da atividade verbal, proposto por Isenberg (H. ISENBERG citado por KOCH, 2003, p.16,17), que descreve a geração textual sob condições sociais e psicológicas.
Depois de recolher todas as incidências verbais que se referem a um fato futuro, os dados foram distribuídos na tabela abaixo, para a comparação das diversas maneiras pelas quais as personagens se valeram para expressar lingüisticamente o estado de coisas.
No conto Miss Dollar, das 16 incidências marcadas, duas formas foram identificadas: 15 foram representadas na forma do FPS, e apenas uma vez foi utilizada a forma com pronome enclítico. Já no conto O segredo de Augusta, das 35 incidências, 12 foram marcadas com o FPS, 14 foram formadas com a locução haver + preposição + infinitivo do verbo principal, 04 com pronome enclítico, e 05 com a locução ir + infinitivo do verbo principal. Os contos da obra O ladrão de sonhos apresentaram todas as 31 ocorrências de futuro marcadas com a construção ir + infinitivo.
Com a tabela abaixo, pretende-se verificar as incidências do FPS e da locução ir + infinitivo na modalização lingüística, teoria da atividade verbal e de geração textual.
CONTOS Miss Dollar (1870) O segredo de Augusta (1870) O ladrão de sonhos (1994) - obra completa Incidências 16 35 31 certeza 8 50% 17 49% 20 65% probabilidade 4 25% 4 11% 3 10% intenção 3 19% 4 11% 5 16% conjectura 1 6% 0 0 dúvida 0 5 14% 1 3% impossibilidad e 0 1 3% 1 3% obrigação 0 1 3% 1 3% súplica 0 1 3% 0 condição 0 2 6% 0
9.
Conclusão
Conforme se observou nas análises, o produtor de um texto, seja um falante comum ou um autor literário, se expressa com um determinado objetivo, a partir de uma necessidade, de acordo com o seu ponto de vista, em face da proposição de um fato futuro. Os contos de Machado foram escritos há mais de um século, numa época em que os falantes da camada social privilegiada procuravam aplicar as regras gramaticais tanto na fala como na escrita. A linguagem nos contos contemporâneos, de Ivan Ângelo quer aproximar o leitor da obra, por isso se utiliza de formas populares, da linguagem cotidiana. Com essa análise dos dois contos machadianos, Miss Dollar, O segredo de Augusta (1870), e dos contos na obra O ladrão de sonhos de Ivan Ângelo (1994), é possível perceber duas atitudes frente a um processo de geração textual,. De um lado a submissão à regra da linguagem culta (FPS) e do outro, a utilização de uma estrutura mais espontânea, da fala (ir + infinitivo), que são escolhas lingüísticas feitas de maneira consciente, de acordo com o objetivo de cada autor.
Todos os conceitos e reflexões vistos neste trabalho conduzem o leitor a um questionamento sobre a verdadeira causa do fenômeno do quase apagamento do Futuro do Presente Simples. Não há uma palavra final e única que dê conta da complexidade de um uso em detrimento de outro; porém há fatores que são inegáveis: os sociais que são causas externas à produção lingüística, ou seja, o contexto e os modelos lingüísticos com os quais o falante se depara no seu dia-a-dia; e os fatores internos tais como o aspecto, ponto de vista e a intencionalidade que definem o modo como o falante organiza, articula sua atividade verbal.
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