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A reconstrução do mito de Medéia em O Anticristo,

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Academic year: 2021

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reconstrução do mito de Medéia em O Anticristo,

de Lars Von Trier

Carlos André Araújo Menezes∗

Resumo: O presente trabalho tem por finalidade principal observar na narrativa fílmica Anticristo, do dinamarquês Lars Von Trier, a reconstrução do mito de Medéia, bem como a presença dos aspectos da vegetação, seus símbolos e ritos de renovação na reconstrução do referido mito, analisados a partir do texto O Sagrado e O Profano, de Mircea Eliade, associados a outros textos da mitocrítica atual .

Palavras-chave: Mito; Anticristo; Medéia.

Desde os tempos mais remotos o homem tem procurado dar sentido à sua existência, quando não, encontrar respostas para algumas questões que nos parecem obscuras. Especialmente nos dias atuais, onde a desordem, a fragmentação e a insegurança parecem adquirir dimensões maiores. Nesse caminho em busca de satisfações, a representatividade e a simbologia tem papéis fundamentais, “O mito é a chave para a reconciliação do homem moderno consigo mesmo” (CAMPBELL, 1988).

Em relação a mitologia grega e seu imenso legado literário e filosófico, podemos dizer que continua a superar tempo e espaço, conseguiu sobreviver ao domínio do logos, surgiu do caos para explicar o caos. Segundo Balandier , 1997, “o mito é capaz de criar sucessivas gêneses”, exemplo limite dessa capacidade é o mito de Medéia, cuja fantasia nos permite penetrar na

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fragilidade e obscuridade da alma humana, seu arquétipo clássico se refez em Anticristo, narrativa fílmica do dinamarquês Lars Von Trier, e reforça o papel do mito e do rito nas diversas sociedades, o de permitir ao homem a interpretação de alguns fatos históricos e a interpretar suas ações, ao mesmo tempo em que dá abertura à tradição, espaço onde a humanidade acumula os mais diversos conhecimentos:

Diante do mito original, aparece o mito dos novos começos, que almeja a ruptura com a história vigente no sentido de provocar a chegada da história desejada.

[...]

O mito trabalha na esteira da ação, passa por cima dos homens para se realizar, estabelece sua relação com as potências simbólicas nas quais eles pensam ter algum apoio, ele alimenta a palavra “quente”, que dá a certeza que o mundo pode e vai mudar. (BALANDIER, 1997: 26)

Ainda sobre o mito de Medéia podemos afirmar que foi e continua sendo uma das tragédias gregas de grande impacto, uma vez que traz em seu texto a figura de uma heroína que transita entre o que é ser humano e desumano, a mulher que ama e desama em intensidades muito bem acentuadas por ações que ainda nos dias atuais transgridem os padrões sociais entre elas podemos citar: filicídio, práticas pagãs de rituais primitivos, vingança, assassinato, abandono à família, entre outras, todavia para entendermos a Medéia de Eurípedes, temos que retornar a uma outra lenda grega, O Velocino de Ouro ou Jasão e os Argonautas , contadas aqui à luz de Bulfinch.

A lenda do Velocino de Ouro começa a partir do medo da rainha Nefele em deixar que seus filhos, um menino e uma menina, fiquem sob os cuidados de uma madrasta, ajudada por Mercúrio recebeu um velocino de ouro no qual pôs suas crianças para que fossem levadas a um lugar seguro, todavia enquanto transportados a menina cai no mar e o menino chega seguro ao reino de Cólquida, na costa oriental do Mar Negro. Após isso, o velocino de ouro foi posto em uma gruta sagrada sob a guarda de um dragão que não dormia. Muito tempo depois, Jasão, filho de Pélias da Tessália recebe do seu tio Esão a tarefa aventurosa de recuperar o tal objeto, que se sabia estar no reino de

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Cólquida. Jasão incube Argos de construir um barco que coubesse cinqüenta homens, após construída a gigantesca embarcação, para os padrões da época, ela recebeu o nome do seu construtor e sua tripulação recebeu o nome de argonautas.

Ao desembarcar em Cólquida, Jasão submete-se a uma série de provas até a posse do objeto. Concordou com o rei em arar a terra com dois touros de patas de bronze que soltavam fogo pela boca e pelas narinas, e semear os dentes do dragão que Cadmo matara e dos quais sairia, uma safra de guerrreiros, que voltariam suas armas contra o semeador. Antes porém de ir ao campo de provas, Jasão pleiteou sua causa junto a Medéia, filha do rei e conhecedora da magia, a quem prometeu casamento, invocando, por juramento, o testemunho de Hécate. Medéia cedeu, e graças a sua ajuda ele conseguiu um encantamento para se livrar da respiração de fogo dos touros e das armas de fogo dos guerreiros. Após a vitória, Medéia foge com Jasão de Cólquida, levando como refém Apsirto, seu irmão e filho do rei Eetes, esquarteja-o para despistar os que viriam em busca dos dois.

Após abandonar o pai e sua pátria Medéia se entrega ao amor de Jasão, dá-lhe dois filhos varões e submete-se às condições de expatriação, perda de identidade cultural, passa da tutela do pai para a do marido (como simples objeto de posse), vê-se obrigada a abandonar suas práticas pagãs, herança de, a depender da versão histórica, sua tia, irmã ou filha a feiticeira Circe. Ressalte-se, ainda, que na epopéia grega, mesmo post homerum, a posição de destaque e as grandes decisões eram garantia absoluta do macho dominador, que impunha à mulher sua condição de inferioridade, como podemos observar:

Á mulher era vetada a participação na vida política e social da cidade. Ficava circunscrita ao gineceu (lugar da casa destinado as mulheres e as suas escravas) e aparecia raramente em público, em solenidades como festas religiosas, casamentos e cerimônias fúnebres. O direito à educação era-lhe negado e suas atividades ficavam restritas aos trabalhos manuais (Cf. COULANGES, 1987: 43-58).

Além de todos os sacrifícios já mencionados, Jasão e Medéia vêem-se obrigados a se refugiarem em Corinto, na corte do rei Creonte. Durante certo

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tempo desfrutaram de paz no casamento, até que Creonte resolveu casar sua filha Creúsa (ou Glauce) com o herói da Tessália. Repudiada pelo marido e expulsa da cidade, Medéia resolve vingar-se friamente entregando como presente de casamento à noiva vestimentas e uma coroa envenenada, que a mataria e juntamente ao rei Creonte, que em tentativa de salvar a filha se envenenasse também, além de ter incendiado o palácio real. Tudo conseguido às custas de seus poderes como feiticeira e domínio sobre as ervas e elementos da natureza. Como se não fosse suficiente, resolve matar seus filhos, na versão de Trier para a TV dinamarquesa no ano de 1988, há sugestão de um ritual macabro, onde o próprio filho mais velho diz à mãe saber o que está prestes a acontecer, inclusive ajuda a mãe na execução do irmão caçula, como se o diretor em livre adaptação sugerisse a ritualística morte do patriarcado. Para o estudioso alemão Jaeger (1986) o confronto entre Medéia e Jasão representa a tragédia matrimonial burguesa observadas por ele desse modo:

São essencialmente burguesas as disputas, os impropérios e os arrazoados de ambas as partes. Jasão ostenta prudência e generosidade. Medéia faz reflexões filosóficas sobre a posição social da mulher (JAEGER, 1986: 276).

Desde sua primeira encenação em 431 a. C., Eurípedes reforçou a sua tendência em marcar a singularidade da alma feminina. Medéia é o grito raivoso da esposa que não aceita a traição passivamente, nem o abuso do poder, representados aqui pelo desejo do rei Creonte. “Aproxima-se o dia em que a mulher será reverenciada e uma injuriosa reputação já não pesará sobre ela”. (EURÍPEDES, 1980, p. 178), o grito de Medéia é o de um grupo social marginalizado, o das mulheres, como podemos observar em suas palavras dirigidas ao coro:

De todos os seres que respiram e pensam, nós outras, as mulheres, somos as mais miseráveis. Precisamos primeiro comprar muito caro um marido, para depois termos nele um senhor absoluto da nossa pessoa, segundo flagelo ainda pior que o primeiro [...] para uma mulher abandonar o marido é escandaloso, repudiá-lo impossível... O homem, dono do lar, sai para distrair-se de seu tédio junto de algum

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amigo ou de pessoas de sua idade; mas nós, é preciso não termos olhos a não ser para eles (EURÍPEDES, 1980: 171).

A partir do que temos traçado até aqui sobre a Medéia de Eurípedes, esboçaremos a reconstituída por Lars Von Trier, que ao longo de sua construiu em seus filmes personagens femininas rodeadas de tragicidade. Revisando sua filmografia poderemos observar as principais delas: Em Ondas do Destino Emily Watson é a jovem Bess cujo marido paraplérgico não pode mais prazer sexual e a submete a aventuras sexuais extraconjugais, das quais ele com voyerismo extrai o seu prazer; em Dançando no Escuro, Bjork é Selma a mulher que mata em desefa do seu filho que caminha em direção à cegueira congênita, em Dogville Nicole Kidman interpreta Grace a fugitiva que seduz e ao mesmo tempo coloca em perigo a população da isolada cidade de Dogville, em sua versão para televisão dinamarquesa de Medéia, assinada como Medéia de Lars Von Trier, ele preserva o tom teatral da original, e a natureza entra nesta adaptação como uma das personagens principais, coisa que ele viria a fazer mais tarde em Anticristo, discutido ao longo deste ensaio.

A natureza da feiticeira Medéia e da personagem principal de Anticristo, nomeada nos créditos finais como ELA, ao longo do filme será explorada a partir da inserção da personagem em meio a vegetação e analisada a luz do texto “O Sagrado e o Profano”, capítulo VIII, de Mircea Eliade, observaremos partes dos aspectos simbólicos do filme ligados à natureza e à vegetação presente constantemente na obra “Se a natureza é má, então isso também vale para a natureza de todas as irmãs”. (Ela, personagem de Anticristo).

A estrutura dessa narrativa fílmica está dividida em capítulos e entre um prólogo e epílogo, o que nos leva a concluir que é uma tese. E que esta é tomada no presente ensaio como a de que todas as mulheres pertencem a uma mesma irmandade, da qual fez parte Medéia.

O prólogo é a cena onde o referido diretor nos convida elegantemente em preto e branco e ao som de “Lascia ch’io Pianga” da ópera “Reinaldo” de Hendel a apresentação de sua tragédia. Nela, vemos um casal

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que instintivamente faz amor, e à medida que ambos estão em direção ao ápice sexual, seu filho, um bebê prestes a cair da janela, se aproxima da morte, motivo que levará a mãe a dor e ao desespero (visto até então como a dor de uma mãe pela perda do filho e que ao longo da narrativa outros elementos nos levarão a concluir que, na verdade, se trata de uma dor histórica, impregnada em uma mulher com sede de vingança), ELE (o pai) lutará pela cura de sua esposa. Torna-se necessário dizer que até o final desta cena temos diversas pistas e elementos simbólicos da mórbida história que será contada, entre eles: três esculturas de pedintes (inscrito em suas bases luto, dor e desespero), água sendo derramada, sapatos trocados e elementos que caem arrastados pelo vento (elementos que indicam um mundo em queda), e a pista sutil da reconstituição do mito de Medéia, em uma cena rápida percebemos que a babá eletrônica está em mute, dando-nos a pista de que a mãe sabia dos riscos que corria seu filho próximo a uma janela em casa de andar, morte que aos olhos da personagem necessária aos seus desígnios.

Após o prólogo, temos o primeiro capítulo chamado de Grief (o sofrimento ou luto), ele é iniciado por uma cena praticamente muda é em tom lúgubre cujo som incidental é de um caixão sendo conduzido em cortejo pelo cemitério, nas sequências seguintes teremos a presença em cena de um vaso de flores “enterradas” na água, cuja imagem é em zoom e puxada em plano fechado e surreal, vemos até as micropartículas do vegetal dissolverem-se, elemento comparativo com a personagem que se encontra na cama depressiva por conta da recente perda. O tom depressivo é acentuado pela matiz da cor das flores, uma variação de tons entre o azul e o acinzentado, segue-se a cena com demonstrações do interior da personagem comparado a vegetais distorcidos: galhos, folhas, gramíneos e troncos. Quanto mais entramos em contato com o luto dela mais elementos vegetativos nos são mostrados. Interessante observar que em algumas dessas imagens o plano cinematográfico é mostrado de baixo para cima, como se estivéssemos também submersos as camadas inferiores do vegetal ou em meio a uma floresta de horrores.

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ELE, cujo nome também não nós é revelado, é psiquiatra e na tentativa da busca de cura para depressão de sua esposa sugere exercícios de relaxamento onde a mata e seus desdobramentos (desconhecimento, fertilidade, selvageirismo...) aparece como representação do feminino na tentativa de superação do medo. Em contínuo exercício terapêutico, ela adentra a mata, deita na grama e é envolta pela natureza, temos exatamente nesse ponto a clareza de que o feminino e a vegetação são parte do mesmo cosmos, a personagem encontra próxima as raízes de um carvalho o local ideal para conseguir consolo, e o faz em posição fetal, ela que perdeu o filho torna-se nesse momento filha da natureza e é por ela acalentada.

Passemos ao capítulo dois, nomeado de Pain – (chaos reigns) / Dor (o caos reina), nele continuamos a explorar com as personagens toda a exuberância da vegetação no exercício de vencer limites e enfrentar o medo, aqui representados por imagens caóticas de galhos, raízes expostas, folhas secas e névoa. Há também uma grande árvore seca no centro de tudo, um velho carvalho que assim como ela está seco, infecundo, sem seiva. Esse espaço vegetal é batizado de Éden, assim como na história de Adão e Eva, é nele que esse casal provará do fruto proibido da árvore do conhecimento. Nesse ponto, retornamos mais diretamente ao texto do Mircea Eliade:

Será o homem semelhante a Deus só por conhecer o bem e o mal, ou porque tornando-se onisciente, poderá “ver” onde se encontra a Árvore da Vida e saber como se adquire a mortalidade? O texto bíblico é suficientemente claro: “E o Senhor Deus disse: “Eis que Adão se tornou semelhante a nós pelo conhecimento do bem e do mal (1992: 232).

Nesse capítulo há diversos elementos figurativos, desde determinadas tomadas em tom sépia (que lembram a mudança da cor das folhas na chegada do outono), até bolotas (sementes) de carvalhos que explodem à noite no telhado como símbolo de agouro. Em diálogos com o esposo ELA chega a falar em linguagem figurativa da idade dos carvalhos “que podem chegar a ter até cem anos” e de sua necessidade em reproduzir-se apenas uma única vez. Até esse momento temos diversos surtos de

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esquizofrenia e compulsão sexual. Estaria a personagem tentando uma outra reprodução ou nos dando pistas de sua natureza selvagem? Ela que chegou a afirmar que a natureza é a igreja de Satã, o vento sua respiração. Na sequência de cenas temos visão agora das coisas a partir das copas das árvores, de cima delas parece que a personagem trama seu plano de vingança para afastar alguma dor, pensada pelo telespectador como a dor da perda do filho. A última imagem desse capítulo é enigmática, em meio a vegetação uma raposa fala em tom apocalíptico: O caos reina e o vento sopra neste momento entre as folhas.

No terceiro capítulo Despair (gynocide)/feminicídio temos a maior parte da revelação da tese desenvolvida pelo filme, a vingança de uma mulher diante do masculino, e sua relação com o culto da vegetação aqui observados. A presença da chuva na cena anuncia o agouro e é seguida de uma sequência de descobertas sobre a personagem. Na última vez em que a personagem esteve no Éden foi para escrever sobre o feminicídio ocorrido no século XVI, não obstante envenenada por suas pesquisas começa a arquitetar um plano contra o mundo masculino, ai temos a maior semelhança da personagem com a Medéia. Ainda neste capítulo temos a continuidade de exercícios terapêuticos em que ELE se propõe a ser como a natureza e ELA o pensamento racional. Quando ele sugere sufocá-la e matá-la com a sua Natureza, ELA afirma com plena convicção que a Natureza não pode matá-la. É assumido nesse ponto da narrativa um tom misógino e pessimista em relação a natureza das mulheres, uma vez que se a Natureza (vegetação) é má e selvagem, assim como são também todas as mulheres, pois uma se completa na outra. as mulheres não controlam o seu próprio corpo a natureza faz isso..., cabe-nos aqui mais uma verificação do Mircea Eliade sobre a grande Deusa – Árvore da vida , sexualidade e Vegetação:

As árvores representam o universo em permanente regeneração; mas no cento do Universo encontra-se sempre uma árvore – a da vida eterna ou da ciência. A Grande Deusa é a personificação da fonte inesgotável da criação, deste último fundamento da realidade.

[...]

A vida revela-se como unidade; os níveis de vida cósmica correspondem uns aos outros (Lua-mulher-Terra; Céu-chuva-homem, etc.) e interferem mesmo em centros determinados (todos os atributos cosmológicos da Lua, da moite, das águas, da terra, das sementes, do nascimento, da regeneração, etc. se acham presentes, mesmo

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virtualmente, na mulher e podem ser atualizados e aumentados por rituais femininos ou hierogamias). (1992)

Nas últimas cenas deste capítulo instalam-se as representações de loucura, selvageria e vingança, o casal faz sexo como bichos em meio às raízes retorcidas de um carvalho negro, a imagem enigmática e negra é contrastada por suas peles brancas e dezenas de mãos femininas que simbolicamente começam a brotar de todas as raízes, revelando a existência de um mundo subterrâneo. Seriam mãos de diversas mulheres queimadas em outras eras? Seriam mãos de mulheres que praticaram os rituais pagãos nas florestas? As bacantes? O que se sabe ao certo é que brotaram das raízes de um vegetal e que nos rituais míticos sob a copa de árvores as mulheres revelavam a sua natureza.

Por que eles se refugiam na natureza? As doutrinas descrevem a natureza como irracional , algumas vezes até má. Talvez porque ela possua tudo aquilo que subsiste, seja a fonte inesgotável de vida (bios) , ou mesmo presente os instintos, a indiferença quase que total à padronização. A natureza tem como organização própria e não se sujeita ao transcendente; é primitiva, não cultivada. É neste espaço que Eles buscam encontrar a força da qual necessitam para resistir à tortura a que foram submetidos. É na natureza que Eles tentam buscar o equilíbrio, tentam recuperar – alcançando aquele estágio primitivo apontado anteriormente – as forças. (IVONILDA, 2010)

No último capítulo The three beggars (Os três pedintes), após o ato sexual selvagem, ele se encontra como presa, acuado nas entranhas de uma árvore, ela em acesso de loucura procura-o na tentativa de arrancar o seu sexo, de vingar-se em nome de todas as irmãs (todas as vítimas de feminicídio). A floresta agora é toda escura, iluminada pela luz difusa da lua. A morte é anunciada pela justaposição dos três pedintes (constelação) e representados pelo aparecimento personificado de um cervo, uma raposa e um corvo (seres das florestas silvestres). Encerra-se o estranho e misterioso capítulo de vingança com ELE sufocando-a , assim como o regime do patriarcado fez ao culto da Grande deusa, matando diversas mulheres ironicamente com o fogo adquirido de caules vegetais, é assim que morre também uma de nossas protagonistas, a outra, a natureza vive!

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No epílogo, mais uma vez temos a ausência de cores na cena, vemos o sobreviente se alimentando de frutos silvestres (ouve-se de novo Hëndel), e enigmaticamente toda a cena é tomada por centenas de mulheres que saem de dentro da mata selvagem em direção a um só lugar, mulheres de diferentes épocas , todas caminhando em uma mesma direção e entre a mesma vegetação. Para onde vão? Talvez um outro texto responda.

Referências bibliográficas

ANTICRISTO. Produção de Lars Von Trier. California filmes, Suspense, 103 minutos, EUA, 12/2009.

BALANDIER, Georges. A desordem: elogio do movimento. Tradução: Suzana Martins. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.

BULFINCH, Thomas. O livro de Ouro da Mitologia: história de deuses e heróis. Tradução David Jardim Junior. 9 ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2000.

CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. 23ª ed. Rio de Janeiro: José Olimpio, 2009.

DOGVILLE. Produção de Lars Von Trier. California filmes, drama, 171 minutos, EUA.

ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano, a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

GREIMAS, A. J. Elementos para uma teoria da Interpretação da Mítica, In: Análise estrutural da narrativa, pesquisas semiológicas. Petrópolis: Vozes Limitada, 1971.

IVONILDA, Maria. O trágico espetáculo da vida em O Anticristo de Lars Von Trier. Fortaleza, 2010.

MEDÉIA. Produção de Lars Von Trier. Artesanato Digital (internet), drama, 75 minutos, Dinamarca, 1988.

METZ, Christian. A Grande Sintagmática do filme Narrativo. In: Análise estrutural da narrativa, pesquisas semiológica. Petrópolis: Vozes Limitada, 1971. ONDAS do Destino. Produção de Lars Von Trier. Artesanato Digital (internet), drama, 152 minutos, Dinamarca.

VERNANT, Jean Pierre. O universo, os deuses, os homens: mitos gregos contados por Jean Pierre Vernat. São Paulo: Ediouro, 2008.

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