Apostilas do Cipes
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TEORIA DO SOCIALISMO
Texto 8
CATEGORIAS DE “O CAPITAL” - III
CIPES
Esta apostila foi elaborada pela Equipe de Estudos Teóricos do CIPES, responsável pelo Curso “Teoria do Socialismo”.
A edição é do Grupo de Publicações do CIPES.
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NOTA PRELIMINAR
A presente apostila é a oitava de um conjunto de 13 textos que compõem o material do curso Teoria do Socialismo.
Este texto, por sua vez, é o terceiro no qual são tratadas de modo mais particularizado, as categorias conceituais utilizadas por Marx no estudo do modo de produção burguês. Nele retoma-se o estudo da categoria força de trabalho- tratado no texto 6. Só que condicionada pelas relações capitalistas de produção. Em outras palavras, a força de trabalho como mercadoria geradora de mais valia.
ÍNDICE
I. FORÇA DE TRABALHO ... 5
II. MERCADORIA FORÇA DE TRABALHO ... 7
III. VALOR DA MERCADORIA FORÇA DE TRABALHO ... 8
IV. MAIS-VALIA ... 11
CATEGORIAS DE “O CAPITAL” – III
I
FORÇA DE TRABALHO
“Por força de trabalho ou capacidade de trabalho compreendemos o conjunto das faculdades físicas e mentais, existentes no corpo e na personalidade de um ser humano, as quais ele põe em ação, toda vez que produz valores de uso de qualquer espécie”. (O Capital, Livro I, cap. IV, p. 187)
Qualquer ato transformador da natureza, por mais simples que seja, representa utilização de faculdades humanas. Quando o homem primitivo percorria as maras para coletar frutas ele punha em ação várias faculdades; as faculdades de andar, ouvir, ver, a faculdade de, utilizando seus sentidos, reconhecer as frutas que prestavam para sua alimentação, etc. Quando construímos nossa mesa, também pusemos em ação nossos sentidos, nossos músculos, acionamos faculdades físicas e mentais sem as quais seriamos incapazes de serrar, pregar, montar, enfim, realizar as operações necessárias para transformar uma tora de madeira em uma mesa.
É claro que estas faculdades existem mesmo quando não estão sendo utilizadas. Se ao invés de construirmos a mesa tivéssemos preferido passar o dia ouvindo música ou dormindo, o “conjunto das faculdades físicas e mentais” que nos possibilita construir uma mesa não desapareceria, mas apenas não estaria sendo utilizado. Seríamos, neste caso, marceneiros em potencial marceneiros possíveis. Para que nos transformemos em marceneiros efetivos, basta colocar em ação estas faculdades, transformar energia em movimento, consumir nossa força de trabalho. Ao consumo da força de trabalho chamamos trabalho, trabalho produtivo.
Assim, quando não estamos em atividade, quando não estamos consumindo nossa força de trabalho, construindo nossas mesas, somos não-marceneiros, marceneiros em potencial e quando pomos em ação nossas faculdades físicas e mentais e nos lançamos à atividade de construir nossas mesas, nos transformamos em marceneiros efetivos, consumimos nossa força de trabalho trabalhando.
O mesmo ocorre com qualquer valor-de-uso. Nossa tora de madeira é, enquanto não iniciamos sua transformação em uma mesa, apenas matérias prima possível, só se transformando em matéria prima efetiva quando iniciamos o processo de trabalho que a transformara efetivamente em uma mesa, quando consumimos suas qualidades úteis, transformando-a em uma coisa diferente do que era originalmente.
Assim, quando consumimos nossa energia acionando nossa força de trabalho para transformar nosso objeto de trabalho, temos como resultado um produto.
Encarando o processo de trabalho dessa forma, vemos que
“O trabalho gasta seus elementos materiais, seu objeto e seus meios, consome os, é um processo de consumo. Trata-se de um consumo produtivo que se distingue do consumo individual: este gasta os produtos como meios de vida do indivíduo, enquanto aquele as consome como meio através dos quais funciona a força de trabalho posta em ação pelo indivíduo. O produto de consumo individual é, portanto, o próprio consumidor, e o resultado do consumo produtivo, um produto distinto do consumidor”. (Ibidem, p. 208)
Já vimos um produto, a mesa, por exemplo, pode ser consumido de várias maneiras. Podemos consumi-la como matéria prima para construir móveis maiores como estantes e escrivaninhas, como meio de trabalho, se a usarmos como bancada de marceneiro e como meio de vida, se a usarmos para fazer nossas refeições. Quando consumimos a mesa como matéria prima ou como meio de trabalho realizamos um tipo específico de consumo, o consumo produtivo, uma vez que o resultado deste consumo é um novo produto. Por outro lado, se usarmos a mesa para fazer nossas refeições, como meio de vida, teremos como resultado desse consumo, o consumo individual, o próprio consumidor.
A força de trabalho é portanto, um valor de uso como qualquer outro. Sua utilidade é acionar os meios de produção e o resultado de sua utilização é um produto.
CATEGORIAS DE O “O CAPITAL” – III
II
MERCADORIA FORÇA DE TRABALHO
Já vimos também, como um valor de uso, nossa segunda mesa, se transformou em mercadoria. Foi necessário que ela se transformasse para nós em um não valor de uso por não ter para nós nenhuma utilidade direta. Enquanto nossa força de trabalho tiver para nós utilidade direta, ou seja, enquanto formos possuidores dos meios de produção, ela não será para nós uma mercadoria.
Mas suponhamos que nossa marcenaria, por uma desses azares da sorte resolva se incendiar. Uma ponta de cigarro acesa, um curto circuito, ou mesmo um concorrente menos escrupuloso e pronto: estamos nós sem matéria prima, sem machado, sem serra, perdemos todos os meios de produção que dispúnhamos. De todos os elementos necessários à produção de valores de uso, restou-nos apenas nossa força de trabalho. Mas a força de trabalho, sem os meios de produção é tão útil quanto um pinheiro plantado em Marte ou uma geladeira no polo norte. Nossa força de trabalho de nada nos serve se não podemos consumi-la. Assim, ela se transforma para nós em um não valor de uso. Continua sendo, entretanto, um valor de uso para nosso concorrente inescrupuloso. Nossa força de trabalho é agora uma mercadoria. Mas não é apenas isso; é a única mercadoria que podemos vender ou trocar para conseguir os meios de vida necessários pra nossa sobrevivência.
Levamos nossa mercadoria ao mercado e lá encontramos nosso concorrente inescrupuloso, que por andar muito ocupado incendiando marcenarias, não tempo para fazer mesas. Mas como proprietário dos meios de produção, necessita de força de trabalho para pôr em marcha o processo produtivo. Estamos ambos até aqui em igualdade de condições; comprador e vendedor que se encontram para uma relação de troca. Oferecemos nossa força de trabalho e esperamos receber valor correspondente.
CATEGORIAS DE “O CAPITAL – III
III
VALOR DA MERCADORIA FORÇA DE TRABALHO
“O valor de força de trabalho, como o de qualquer outra mercadoria, se determina pelo tempo de trabalho necessário para produzi-la. Se a produção dos meios de subsistência do trabalhador, diários e médios, custa 6 horas, tem ele de trabalhar, em média 6 horas por dia para produzir cotidianamente, sua força de trabalho ou para reproduzir o valor recebido por sua venda”. (Ibidem, p. 260).
O resultado do consumo individual é o próprio consumidor. Pois bem, para produzir-se a si próprio, o trabalhador precisa comer, dormir, aprender seu ofício, realizar uma série de atos de consumo individual que tem como resultado a formação e renovação daquelas faculdades físicas e mentais a que, consideradas em seu conjunto, chamamos de força de trabalho, ou capacidade de trabalho. Além de simplesmente permanecer vivo, o trabalhador precisa ter condições físicas e mentais para trabalhar. Todos sabemos que quando trabalhamos demais, nosso trabalho rende menos, resulta em produtos de menor qualidade e em menor quantidade. Sabemos também, que quanto mais complexa a atividade produtiva, maior a necessidade de trabalho especializado e essa especialização só se consegue com a elevação do nível intelectual do trabalhador. Assim, todos estes fatores devem ser considerados na determinação do valor da mercadoria força de trabalho.
Somados os valores de todos os meios de vida que necessitamos no período de, por exemplo, um ano e dividido o resultado por 365, teremos o valor diário médio da força de trabalho. E é este o valor que esperamos receber de nosso concorrente inescrupuloso convertido em capitalista, ao vender-lhe nossa mercadoria força de trabalho.
O capitalista concorda e paga por nossa mercadoria o valor correspondente ao valor dos meios de vida que necessitamos para nossa manutenção diária, tornando-se assim proprietário dos dois fatores componentes do processo produtivo.
“O capitalista compra a força de trabalho pelo valor diário. Seu valor de uso pertence-lhe durante a jornada de trabalho. Obtém,
portanto, o direito de fazer o trabalhador trabalhar para ele durante um dia de trabalho”. (Ibidem, p. 262).
No entanto, no nosso contrato de compra e venda não ficou estabelecido o que é uma jornada de trabalho, de quantas horas se compõe. Do ponto de vista do capitalista, se ele nos pagou o valor diário da força de trabalho, tem ele o direito de consumir seu valor de uso durante todo o período de um dia.
“O tempo que o trabalhador trabalha é o tempo durante o qual o capitalista consome força de trabalho que comprou”. (Ibidem, p. 263).
Assim, quando descansamos, nos alimentamos, nos divertimos, quando ocupamos em proveito próprio uma parte do tempo que vendemos ao capitalista, este se sente roubado. Tratando de defender seus direitos, “O capitalista apoia-se na lei da troca de mercadorias. Como qualquer outro comprador procura extrair o maior proveito possível do valor de uso de sua mercadoria”. (Ibidem, p. 263).
Para isso, nos obriga a cumprir a jornada de trabalho mais longa possível. Entretanto, a argumentação do próprio capitalista nos fornece a réplica:
“A mercadoria que te vendo se distingue da multidão das outras porque seu consumo cria valor... Este foi o motivo porque a compraste...Tu e eu só conhecemos, no mercado, uma lei, a da troca de mercadorias. E o consumo da mercadoria não pertence ao vendedor que a aliena, mas ao comprador que a adquire. Pertence-te assim a utilização de minha força diária de trabalho. Mas, por meio de seu preço diário de venda, tendo a reproduzi-la diariamente para poder vendê-la de novo...preciso ter amanhã, para trabalhar, a força e a saúde e a disposição normais que possuo hoje... Só quero gastar diariamente, converter em movimento, em trabalho, a quantidade dessa força que se ajuste com sua duração normal e seu desenvolvimento sadio. Quando prolongas desmesuradamente o dia de trabalho, podes num dia gastar, de minha força de trabalho, uma quantidade maior do que a posso recuperar em três dias. O que ganhas em trabalho, perco em substância... Pagas-me a força de trabalho de um dia quando empregas a de três dias. Isto fere nosso contrato e a lei de troca de mercadorias...Exijo a jornada normal, pois exijo o valor de minha mercadoria como qualquer outro vendedor”. (Ibidem, p. 263-4).
O capitalista surpreendido, concorda e estabelece a jornada de trabalho de 6 horas diárias, ou seja, o tempo de trabalho necessário para que reponhamos o valor que recebemos por nossa força de trabalho. Terminada a jornada de trabalho, senta-se o capitalista para fazer suas contas. Ele gastou o valor de 6 horas para comprar a força de trabalho. O consumo da força de trabalho produziu mercadorias no valor de 6 horas.
RECEITA – 6 horas DESPESA – 6 horas SALDO – 0 horas
Perplexo o capitalista reflete: que vantagem Maria leva? Onde foi que eu errei?
“O capitalista afirma seu direito como comprador, quando procura prolongar o mais possível a jornada de trabalho e transformar sempre que possível, um dia de trabalho em dois. Por outro lado, a natureza específica da mercadoria vendida, impõe um limite de consumo ao comprador, e o trabalhador afirma seu direito, como vendedor, quando quer limitar a jornada de trabalho a determinada magnitude normal. Ocorre assim uma antinomia, direito contra direito, ambos baseados na lei de troca de mercadorias. Entre direitos iguais e opostos decide a força”. (Ibidem, p. 265).
CATEGORIAS DE “O CAPITAL” – III
IV MAIS-VALIA
Nosso capitalista volta atrás e, usando de todos os recursos de que dispõe, nos obriga a uma jornada de trabalho mais longa que o tempo necessário para recuperar o valor pago pela força de trabalho. Obriga-nos, portanto, a realizar um trabalho excedente.
“A jornada de trabalho não é uma grandeza constante, mas variável. Uma de suas partes é determinada pelo tempo de trabalho necessário à reprodução da força de trabalho do próprio trabalhador, mas sua magnitude total varia com a duração do trabalho excedente”. (Ibidem, p. 261)
Se vendemos nossa força de trabalho pelo valor de 6 horas, ao trabalhar menos que isso roubamos o capitalista e ao trabalhar mais que isso somo roubados por ele. Ao idealizar o trabalho excedente, geramos valor de magnitude maior que o que recebemos.
“Pois bem, este trabalho excedente, que o trabalhador executa depois de ter trabalhado o tempo necessário para repor ao patrão o salário que recebe, é a fonte que gera a mais-valia”. (F. Engels in Articulos obre el tomo primeiro de El Capital, Ed. Fondo de Cultura Economica p. 247)
É esta, pois, a vantagem que Maria, digo, o capitalista, leva, com a compra da mercadoria força de trabalho. Por este ter a propriedade de, ao ser consumida, gerar valor, após algumas horas de consumo ela gera valor correspondente à sua produção diária. A jornada de trabalho, no entanto, se compõe de dois períodos: o trabalho necessário e o trabalho excedente. É neste último que reside o segredo da acumulação do capital, a mais-valia. Quanto maior for o período durante o qual o trabalhador realiza trabalho excedente, tanto maior será a taxa de mais-valia e com ela, a acumulação de capital.
“Admitidos que a linha A______B representa a duração de trabalho necessário, digamos 6 horas. Se o trabalhado for prolongado além de A-______B em 1,3 ou 6 horas, obtemos três linhas diferentes:
A______B ___C Jornada de Trabalho I A______B ____C Jornada de Trabalho II A______B _____C Jornada de Trabalho III” (O Capital, Livro I, cap. VIII, p. 261)
Tomemos como exemplo a jornada de trabalho III A_____B _____C. Nela, o trabalho necessário representado pelo segmento AB é de 6 horas e o trabalho excedente pelo segmento BC também de 6 horas, e portanto a taxa de mais-valia determinada pela razão
Trabalho excedente/ trabalho necessário é de 100%.
Se ao invés de prolongar a jornada de trabalho o capitalista consegue reduzir o trabalho necessário por meio de um aumento da produtividade teremos A_____B__________C, sendo o segmento AB = 4 horas de trabalho necessário e o segmento BC= 8 horas de trabalho excedente. Neste caso, a taxa de mais-valia será de 8/4 = 2 ou 200%.
Vemos portanto que a duração da jornada de trabalho é uma questão crucial para o capitalista. Ela pode ser reduzida desde que a razão trabalho excedente/ trabalho necessário continue tendo como resultado pelo menos a mesma taxa de mais-valia que era obtida da jornada de trabalho mais longa. É o que aconteceria se no exemplo anterior, partindo de uma jornada de trabalho de 12 horas sendo AB = 6 horas e BC = 6 horas, e portanto uma taxa de mais valia de 100%, com o aumento da produtividade reduzindo o trabalho necessário para 4 horas, fosse reduzido também 4 horas o trabalho excedente. Teríamos então AB = 4 horas, BC = 4 horas, taxa de mais-valia 4/4 = 1 ou 100%
Nosso concorrente inescrupuloso tem a faca e o queijo, digo, os meios de produção e a força de trabalho à sua disposição. Entretanto, para chegar a esta situação não precisaria necessariamente ser inescrupuloso. Já vimos em aulas anteriores que o capitalismo surgiu como resultado do desenvolvimento das forças produtivas. Não foi a falta de escrúpulos e a ambição de alguns homens que gerou o modo de produção capitalista, apesar dessas cândidas virtudes serem encontradas tão frequentemente nos senhores capitalistas.
A exploração a que são submetidos os trabalhadores nos regimes capitalistas não é inerente ao desenvolvimento tecnológico, ao aperfeiçoamento da divisão social do trabalho, mas sim às relações de
produção e propriedade que viabilizaram e sacramentaram o desenvolvimento deste modo de produção. O trabalhador é explorado porque realiza trabalho excedente. Portanto, exploração, neste sentido, não é sinônimo de ganhar pouco, é sinônimo de produzir mais-valia.
CATEGORIAS DE “O CAPITAL” – III
IV
INDICAÇÕES DE LEITURA
1. Marx, K.: O Capital, Livro I, cap. IV
2. Engels, F.: Artigos sobre o Livro I de “O Capital” 3. Engels, F.: “O Capital, de K. Marx.