Fernando Cardoso Bertoldo
Resumo
O presente paper faz uma abordagem sobre a complexidade do fenômeno religioso dentro da perspectiva freudiana sobre religião. Assim apresentamos as críticas de Freud feitas a religião tendo em vista a importância que o pensamento de Freud teve para as pesquisas referentes a questões religiosas como também sobre a ordem psíquica. Freud sustentava o discurso da negação e da ilusão no que tange as ideias religiosas. Freud acreditava que a presença do desejo tinha um papel fundamental na formação da crença religiosa sendo que esse fato assume um papel preponderante em sua crítica à religião redefinindo-a como “crença de ilusão”. Filho da modernidade, Freud não poderia deixar de encontrar sustentação para suas críticas na Ciência como firme apoio para refletir sobre o mundo e o homem. A metodologia utilizada foi a análise crítica das obras sobre religião de Freud, em conjunto com a análise de bibliografia secundária referente ao respectivo tema. Ao longo da pesquisa, após uma breve reconstrução da crítica de Freud a religião explicamos a origem do monoteísmo judaico e cristão sob a ótica de Freud demonstrando que as motivações psíquicas da experiência religiosa seriam oriundas da reparação do sentimento originário de culpa ligado ao assassinato do pai primitivo, o qual foi transmitido ao longo da História da Humanidade, que se estende no monoteísmo judaico a figura de Moisés e no monoteísmo cristão a figura de Jesus Cristo.
Palavras-chave: Freud. Religião. Antropologia
Freud “inicia seus estudos sobre a religião com a publicação do texto Atos obsessivos e práticas religiosa (1907) e, nele, chama atenção para a analogia que existe entre os cerimoniais praticados pelas pessoas religiosas e os atos praticados pelas pessoas obsessivas.”2 Assim “existe a consciência que a negligência dos mesmos acarreta, na completa exclusão de todos os outros atos (revelada na proibição de interrupções) e na extrema consciência com que são executados em todas as minúcias.”3 Tendo em vista isso “os cerimoniais neuróticos consistem em pequenas alterações em certos atos cotidianos, em pequenos acréscimos, restrições ou arranjos que devem ser sempre realizados numa mesma ordem, ou com variações regulares.”4 Então “segundo ele, nos “erros” não encontramos a presença do desejo em seu cerne. Assim, a presença do desejo na formação de uma crença assume um papel preponderante em sua crítica à religião, redefinindo-a como “crença de ilusão””.5 Filho da modernidade, Freud não poderia deixar de encontrar sustentação para suas críticas na Ciência, como firme apoio para refletir sobre o mundo e o homem. Mas, enquanto crítico da religião, ele erra em relação ao pensamento científico, onde pensou ter encontrado sustentação para suas críticas.
1 Psicólogo. Mestrando em Teologia na PUCRS. Bolsista CAPES. Email:[email protected]
2 Rocha, Z.J.B., Karla Daniele de Sá Araújo Maciel, K.D.S.A. Dois discursos de Freud sobre a religiãoRevista
Mal-estaR e subjetividade – FoRtaleza – vol. viii – Nº 3 – p. 729-754 – set/2008. p749
3 FREUD, S. Atos obsessivos e práticas religiosas, p. 109
4 Costa. E. J. RATIO ET FIDES NO PENSAMENTO DE SIGMUND FREUD. FIDES REFORMATA XI, Nº 2
(2006). p.61
Também cabe ressaltar que “a ideologia iluminista e o fazer científico positivista tiveram uma grande influência sobre Freud, desde o início de sua formação acadêmica6.” Então “O que mais frequentemente se conhece de Freud, quando se trata de sua interpretação do fenômeno religioso, é que, para ele, a religião é uma ilusão.”7 Nessa perspectiva, o principal objetivo de Freud na obra O Futuro de uma Ilusão é retomar questões que expliquem a cultura para possibilitar um melhor entendimento sobre compreensão do que realmente interessou a Freud, o seu conceito sobre a religião. Então “esse desejo permeia não apenas a obra em questão, mas todo o seu discurso8”. Reflitamos agora sobre as explicações de Freud sobre a origem do fenômeno religioso, exposta em sua obra Totem e Tabu (1913). Podemos afirmar, a princípio, que Freud intentou, nesta obra, duas afirmações: uma delas foi a proibição do incesto e sua parcela como também seu impacto na formação da civilização humana e o outro foi a tentativa de explicar a origem do fenômeno religioso, tanto das religiões passadas, quanto da religião monoteísta judaica e cristã.
Cabe comentarmos que “em 1933, na XXXV Conferência – A questão de uma Weltanschauung – o discurso cientificista de Freud, mais uma vez, assume uma tonalidade negativa contra o pensamento religioso.”9 Então “a Weltanschauung religiosa consistiria em :saciar a sede humana pelo conhecimento; consolar os homens diante dos sofrimentos e dissabores da vida; controle das relações entre os homens, impondo-lhes proibições e restrições.”10
Portanto “as motivações psíquicas da experiência religiosa seriam oriundas da reparação do sentimento originário de culpa, ligado ao assassinato do pai primitivo, o qual foi transmitido ao longo da História da Humanidade.”11 Ele intenta com essas afirmações mostrar que a formação das ideias religiosas são repletas de suposições. Então “tal sistema nos reenvia às realizações de desejos nas quais predomina uma busca da solução dos enigmas e necessidades do homem, de tal modo que a eleição de uma saída pela vertente religiosa alivia o borbulhar desses conflitos demandas emocionais.”12 Posteriormente Freud faz alusões a sua obra “O Futuro de uma Ilusão” com respeito a esses aspectos sobre a religião
Em meu trabalho O Futuro de uma Ilusão [1927], estava muito menos interessado nas fontes mais profundas do sentimento religioso do que naquilo
6 Rocha, Z.J.B., Maciel, K.D.S.A Op. Cit, p.732 7 Id. Ibid., p. 748
8 Costa. E. J. Op. Cit., p.58
9 Rocha, Z.J.B., Maciel, K.D.S.A Op. Cit p.738 10 Id. Ibid., p.739
11 Rocha, Z.J.B., Maciel, K.D.S.A , Op. cit., p.744 12 Costa. E. J. Op. Cit. p.62
que o homem comum entende como sua religião - o sistema de doutrinas e promessas que, por um lado, lhe explicam os enigmas deste mundo com perfeição invejável, e que, por outro, lhe garantem que uma Providência cuidadosa velará por sua vida e o compensará, numa existência futura, de quaisquer frustrações que tenha experimentado aqui. O homem comum só pode imaginar essa Providência sob a figura de um pai ilimitadamente engrandecido. Apenas um ser desse tipo pode compreender as necessidades dos filhos dos homens, enternecer-se com suas preces e aplacar-se com os sinais de seu remorso. Tudo é tão patentemente infantil, tão estranho à realidade, que, para qualquer pessoa que manifeste uma atitude amistosa em relação à humanidade, é penoso pensar que a grande maioria dos mortais nunca será capaz de superar essa visão da vida. Mais humilhante ainda é descobrir como é vasto o número de pessoas de hoje que não podem deixar de perceber que essa religião é insustentável e, não obstante isso, tentam defendê-la, item por item, numa série de lamentáveis atos retrógrados.13
O Futuro de uma Ilusão é, uma das obras de Freud mais importantes sobre o fenômeno religioso. Nesta obra, “Freud, faz suas mais severas críticas à religião e as ideias religiosas, em consonância com os desejos e a insignificância humana diante dos poderes da natureza, não obstante o complexo paterno, fazem das ideias religiosas um misto de ilusão.”14
Freud não só explicou a origem da religião e da religiosidade nesta obra, como também fez afirmações sobre o definhamento da religião a partir do desenvolvimento e avanços da ciência. Então “como quer que seja, no Futuro de uma Ilusão, a razão impera como em um reinado soberano, e as produções humanas devem todas ser submetidas ao seu poderoso tribunal, principalmente a suposta verdade das ideias religiosas.”15 Ou seja “o desamparo do homem, porém, permanece e, junto com ele, seu anseio pelo pai e pelos deuses, reconciliar os homens com a crueldade do Destino, particularmente a que é demonstrada na morte, e compensá-los pelos sofrimentos e privações que uma vida civilizada em comum lhes impôs.”16 Ainda hoje, “nas religiões de origem cristã, a figura de Deus é representada como um pai, e mesmo nas religiões não cristãs, deístas, a figura do criador é de características humanas.”17 Mas há algo ainda que parece não se encaixar muito bem no posicionamento de Freud. Não “nos parece admissível que ele recorra à razão acreditando que ela fornecerá respostas aos enigmas do universo. Assim a ciência desperta o seu interesse, aguçando ainda mais a sua curiosidade.”18 Ele admite que:
13 FREUD, S. O mal-estar na civilização. p. 82 14 Souza. A. R. L. Sacrilegens. p.109
15 Rocha, Z.J.B., Maciel, K.D.S.A , Op. cit.737 16 FREUD, S. O futuro de uma ilusão, p.27-28 17 Souza. A. R. L Op. Cit. p.112
O espírito científico provoca uma atitude específica para com os assuntos do mundo; perante os assuntos religiosos, ele se detém um instante, hesita e, finalmente, cruza-lhes também o limiar. Nesse processo, não há interrupção; quanto maior é o número de homens a quem os tesouros do conhecimento se tornam acessíveis, mais difundido é o afastamento da crença religiosa, a princípio somente de seus ornamentos obsoletos e objetáveis, mas, depois, também de seus postulados fundamentais. (...) A civilização pouco tem a temer das pessoas instruídas e dos que trabalham com o cérebro. Neles, a substituição dos motivos religiosos para o comportamento civilizado por outros motivos, seculares, se daria discretamente; ademais, essas pessoas são em grande parte, elas próprias, veículos de civilização.19
Para Freud, “a primazia do intelecto representa o elemento destinado a extirpar os grandes males – a ignorância e o desamparo – presentes no discurso e na essência mesma da religião.”20Para Freud, “a Weltanschauung religiosa, em flagrante declínio, está destinada a ser substituída pela visão de mundo científica.”21 Em relação a decadência da religião cabe lembrar-nos que segundo Freud a religião tem uma função primordial no que diz respeito a existência da civilização humana, por que do contrário não seria possível a existência humana. A partir disso Freud ressalta a questão da culpa como um fator preponderante para que a humanidade não se auto destruísse. No livro Mal-estar na Civilização, ele escreve:
“Sua técnica consiste em depreciar o valor da vida e deformar o quadro do mundo real de maneira delirante. A esse preço, por fixá-las à força num estado de infantilismo psicológico e por arrastá-las a um delírio de massa, a religião consegue poupar a muitas pessoas uma neurose individual.”22
Ao longo da obra Freud também chama a atenção para o fato de até quando a religião será capaz de conter os impulsos autodestrutivos do homens, sendo que esse questionamento fica em aberto no fim dessa obra. Alguns anos após a conclusão da obra “O mal-estar na civilização” Freud publica sua última obra sobre religião e também sua última obra como escritor. No livro Moisés e o Monoteísmo: Três Ensaios (1939), Freud busca, apresentar as raízes do monoteísmo judaico e cristão, partindo de explicações de diferentes campos científicos, tais como, a Exegese Bíblica e História das Religiões. Depois, com as elucidações feitas a partir da psicanálise, ele apresenta uma análise do povo judeu e do judaísmo e também dos cristãos. As explicações psicanalíticas de Freud sobre o monoteísmo judaico e cristão, serão apresentadas a seguir. Assim “Um vez publicado o argumento completo de Freud, revelou-se que os cristãos tinham
19 FREUD,S Op. Cit., p. 48. 20 Costa. E. J. Op. Cit. p.66
21 Rocha, Z.J.B., Maciel, K.D.S.A ,Op. Cit p.739 22 Freud, S. O mal-estar na civilização, p. 92
tão boas razões quanto os judeus para considerar Moisés e o monoteísmo desagradável e mesmo escandaloso.”23 E mais adiante Gay acrescenta
A análise de Freud, exatamente por soar tão científica e dasapaixonada, é extremamente desrespeitosa para o cristianismo. Ele trata a parte central da história cristã como uma gigantesca fraude, ainda que inconciente. Mas Freud não parou por aí. Um judeu, Saulo de Tarso – Paulo -, foi o primeiro a reconhecer indistintamente a razão da depressão que pesara na civilização de sua época: “Matamos Deus pai”. Era uma verdade que ele só poderia apresentar sob “o disfarce delirante das boas-novas”. Em suma, a lenda cristã da redenção através de Jesus, sua vida e seu destino, era uma ficção autodefensiva ocultando alguns atos – ou desejos – terríveis24.
De posse das descobertas anteriores, Freud reafirma suas explicações sobre a origem do fenômeno religioso fazendo alusão a obra Totem e Tabu. Ou seja, da mesma forma que o pai da horda foi assassinado, Moisés, que representa o ‘Pai’ no monoteísmo judaico, também foi assassinado pelo povo que ele libertou. Assim, como os assassinos da horda foram invadidos pelo sentimento de culpa devido ao assassinato do pai, o mesmo também aconteceu com o povo judeu, ao verem seu libertador morto. A morte do líder do povo judeu não representa nada mais que a repetição do assassinato do Pai Primitivo. em sua última obra sobre religião e também como escritor “Moisés e o monoteísmo, que segundo Ernest Jones é a “última contribuição de Freud ao assunto da religião”, que coincidentemente foi também “seu último esforço criativo”.25 Cucci lembra que “Freud fala de Moisés nos termos de uma figura onipresente e inquietante, com a qual não consegue nunca verdadeiramente fechar as contas”26. Quando o amigo E. Jones se dirigia a Roma, ele lhe escreve uma carta nestes termos: “Invejo-te porque verás Roma tão cedo e tão jovem. Expressa a Moisés a minha mais profunda devoção e escreve-me sobre ele”. E. Jones teria respondido: “A primeira coisa que fiz na minha chegada a Roma foi levar a tua mensagem a Moisés e tive a impressão que sua ira diminuiu um pouco”.27
Jones argumenta que Freud “cuja mente não era inibida por qualquer influência desse tipo, fez essa dedução direta”28, concluiu que Moisés tinha nome egípcio pelo simples fato de que ele próprio era egípcio. Freud confere “um fragmento de verdade histórica na ressurreição de Cristo, pois ele foi o Moisés ressurreto e, por trás deste, o pai primevo retornado da horda
23 Gay, Peter Freud :Uma vida para nosso tempo p. 643 24 Id., ibid. p.644
25 JONES, E. A vida e a obra de Sigmund Freud, p. 356. 26 CUCCI. G. S. J. Freud e Moisés. In: Cultura e fé, p. 446 27 Id. Loc.cit
primitiva, transfigurado e, como o filho, colocado no lugar do pai”29. Assim “Cristo é o herdeiro de uma fantasia de desejo que permaneceu irrealizada; se houve, então ele foi seu sucessor e sua reencarnação. ” 30 O destino trouxera o grande feito e o malfeito dos dias primavero, a morte do pai, para mais perto do povo judeu, fazendo-o repetir na pessoa de Moisés, uma destacada figura paterna. Então “é plausível conjeturar que o remorso pelo assassinato de Moisés forneceu o estímulo para a fantasia de desejo do Messias, que deveria conduzir seu povo à redenção e ao prometido domínio mundial. ” 31 Segundo Freud “Os judeus, pagam caro o fato de terem matado o Deus dos cristãos, mas o que deveria ser lido nas entrelinhas desta acusação seria:” Vocês não admitem que mataram Deus (...) Fizemos a mesma coisa, é verdade, mas o admitimos, e, desde então, fomos absolvidos”.”32
Referências
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29 Cf. FREUD, S. O homem Moisés e a religião monoteísta, p.130 30 Id. Ibid , p.126
31 Cf. Id. Ibid. p. 130 32 Cf. Id. Ibid p.130
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