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Fatos Diversos e a Crônica Policial nos jornais Correio Paulistano e A Gazeta: construindo a memória do crime

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Academic year: 2021

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Fatos Diversos e a Crônica Policial nos jornais Correio Paulistano e A

Gazeta: construindo a memória do crime

MÔNICA DINIZ*1

O texto busca refletir sobre a produção de crônicas de crimes na cidade de São Paulo no início do XX, produzidas pelos jornais O Correio Paulistano e A Gazeta. Nossa intenção é mostrar o modo como jornais distintos construíam suas crônicas policiais e refletir a respeito do crescimento dessas notícias nos jornais de grande circulação, demonstrando o modo como tratavam a criminalidade e perceber a relação da imagem de cidade construída pela imprensa.

Foi durante a passagem do XIX para o XX, que uma grande quantidade de periódicos surgiu na cidade de São Paulo e o que se viu foi não apenas a concorrência entre eles, mas a variedade de informações que traziam sobre os eventos do país, novidades a respeito do que se passava nas capitais mundiais e principalmente sobre acontecimentos da cidade. Esse foi um período de crescimento demográfico e mudanças urbanas intensos na cidade de São Paulo, além de uma transformação política e cultural que mudou o viver e as relações no espaço urbano. O abolicionismo, a luta republicana, a imigração, movimento operário, assim como novas formas de pensar fundamentadas pela concepção científica de mundo e, novos projetos sociais que surgiam não passaram em vão nas páginas dos periódicos da época. Muito do que se via, ouvia e propagava na cidade estava nas páginas dos jornais.

Não diferente de outras grandes capitais, São Paulo apresentava nas primeiras décadas do XX várias transformações, e tinha por parte de seus administradores, um projeto de modernização para a cidade. As reformas urbanísticas realizadas no início do XX visavam sobretudo inserir São Paulo nos trilhos do progresso e mudaram as características da cidade. Em nome desse progresso e da racionalização urbana, motivando a melhoria de circulação e higienização, o espaço público foi redefinido, botando abaixo muito do passado colonial da cidade, não apenas nos aspectos arquitetônicos, urbanos, mas cultural, de vivência e experiências.

*Doutoranda em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, bolsista CAPES, professora da rede

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O processo de industrialização e urbanização modificou não apenas a geografia da cidade, como também o modo de agir, pensar, trabalhar, se relacionar e noticiar a cidade e os sujeitos. Inúmeras transformações tecnológicas já apontavam para as novas realizações dos campos científico e industrial. As invenções relativas aos transportes e aos meios de comunicação tiveram utilização rápida e seus impactos foram sentidos na vida e no cotidiano dos indivíduos de forma significativa. Mudaram-se hábitos e costumes e a grande quantidade de descobertas científicas e inovações desde o final do XIX transformaram o modo de ver, viver e noticiar a realidade.

As autoridades, elites dirigentes e econômicas em sintonia com os países europeus expressavam o gosto e o apreço pela ideologia da sociedade industrial e, nesta conjuntura, manifestava-se um modo novo de olhar a cidade. Ela, agora, pode ser mediada, ampliada, modificada de acordo com suas necessidades. A ampliação geográfica, as demolições e construções serão constantes. Para intensificar o comércio, a cidade se constituirá numa verdadeira vitrine propagando ideais da vida urbana. O espaço urbano sofre remodelações em determinadas áreas, principalmente na região central, onde se localizam magazines, lojas de importados, sedes de jornais e bancos. O discurso que predomina é o da higienização com a necessidade de se combater doenças, dessa forma, a cidade será saneada e higienizada.

Estes ideais da época eram propagados por muitos jornais e podemos observar não apenas em seus editoriais, como na constituição do seu próprio projeto gráfico, refletindo princípios e intencionalidades e produzindo a construção de memórias acerca da cidade, dos sujeitos, do trabalho, de civilização, de progresso, e, de crimes e criminosos. Em suas colunas e na sequência em seus subtítulos, os jornais constroem uma relação com o público leitor utilizando esses elementos em sua narrativa, defendendo uma cidade “civilizada” que se fazia por meios de novos hábitos, valores e condutas dos sujeitos que a habitam.

Juntamente com a classe burguesa, que vinha desde meados do XIX em crescimento, a ideologia liberal propunha mudanças na esfera política e era expressão do desejo de liberdade e mudança nos hábitos e pensamentos, bem como a crença no progresso, acreditando que a humanidade avançava continuamente em direção a um futuro promissor e evoluído, que lhe garantisse conforto. Nesse novo cenário burguês, a valorização da liberdade individual e do sujeito empreendedor que vence pelos seus esforços ganha espaço na sociedade. O gosto pela

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descrição e privacidade separa a vida privada da pública, e um novo modo de viver se instaura. Essas mudanças são percebidas no cotidiano, nos novos hábitos, nas formas de vestimentas, locais que se frequenta, na família, no que se consome, como se diverte, na forma como se trabalha.

A propagação dessas mudanças promovidas pela chamada Bela Época foi favorecida em parte, pelo grande desenvolvimento dos meios de comunicação, que as expressava das mais variadas formas. Veiculando grande parte desse novo modo de vida por meio de notícias e propagandas, os jornais seus anúncios publicitários, abarcavam um universo de possibilidades, hábitos e sociabilidades promovendo um “ideal” tanto de cidade quanto de indivíduo. Progresso e desenvolvimento, civilização, modernização e trabalho. Esses termos permeavam os jornais e o discurso de uma elite que buscava marcar os caminhos da cidade e dos sujeitos nela.

Essa transformação urbana e cultural é percebida pelo Correio Paulistano, que já em fins do século XIX, em uma de suas notícias, deixava explícito sua concepção de modernidade,

E a Paulicéia, como que vexada de seu vestuário, originalmente combinada, por unir os elegantíssimos adornos modernos, peças vetustas e feias está transformando-se rapidamente. Dentro em breve tempo do Antigo São Paulo pouco mais restará além da posição geográfica, pois mesmo a topografia, e ainda mais a superfície do solo vai-se modificando à vista d´olhos. Os velhos prédios caem por terra, demolidos pela picareta civilizadora. No lugar deles erguem-se da noite para o dia vestidas e confortáveis edificações.

Há pouco tempo, acentuava-se esse progresso pelo desenvolvimento de novos bairros. A cidade crescia em perímetros, porém, a parte central pouco se modificou. Hoje não. O centro oferece o mesmo movimento de construção ou antes de reconstrução. Entretanto, novos bairros, verdadeiras vilas novas estão se formando [...]. (Correio Paulistano, 19/dez/1890, p.1).

Por essas mudanças que a cidade de São Paulo passava e pela proposta de ‘modernidade’ defendida por grande parte de engenheiros, arquitetos e políticos, a criminalidade e os atos criminosos não tinham espaço. Almejava-se uma cidade que representasse além do trabalho, sempre engrandecido, ordem e ‘civilidade’. Nesse período tem-se um aumento das notícias relacionadas à criminalidade na imprensa. Por meio das observações e leitura dos periódicos trabalhados, percebemos que as notícias referentes à criminalidade foram gradativamente aumentando, bem como sobre a prisão de sujeitos considerados infratores. Também ganhavam as páginas dos jornais, notícias e opiniões sobre a polícia e seus feitos. Ainda no Correio

Paulistano, no ano de 1908 na primeira página a notícia chamava a atenção para o elogio saído

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A POLÍCIA DE SÃO PAULO

Necessidade de instructores extrangeiros

Subordinado a esta epigraphe publicou a “Imprensa”, de ante-hontem, o seguinte artigo da lavra de um distincto official do exército que se occulta sob as iniciaes “O. S.”, e ainda há pouco esteve na nossa capital:

“Acabamos de voltar da adeantada capital paulistana, onde nos levou o desejo ardente de examinar, com os próprios olhos, o tão apregoado progresso da força policial, há alguns annos nos cuidados de uma Missão Franceza de instrucção.

Sobre esta força, militares e civis faziam, convencidos, as mais lisonjeiras referencias, affirmando uns e outros que mais parecia ella parte componente de exército extrangeiro muito adeantado que milícia de um de nossos Estados. Julgavamos optimistas as informações, ultimamente repetidas de um modo systematico, por toda a imprensa quasi. E attribuimos o facto ao desejo de se pôr, quanto antes, em pratica a idea aventada por um dos nossos collaboradores, a de se entregar a instrucção prática do exercito a instructores extrangeiros. (...) (O Correio Paulistano, 22/07/1908, p.1)

Não apenas das influências na moda, no teatro e em alguns hábitos a presença francesa se fazia sentir no Brasil, mas também na polícia. Desde fins do XIX até as primeiras décadas do XX, grande parte das técnicas da polícia francesa serviam como modelo de atuação. Serviços de identificação de criminosos, descrições, organização de fichas criminais até as estatísticas, compunham não apenas um instrumental da polícia, mas um conjunto de medidas políticas que forneciam sustentação científica. Segundo Cancelli, com o crescimento rápido da cidade de São Paulo nas primeiras décadas do XX, todo o discurso protetor e alarmista da lei e da polícia, sustentado em dados estatísticos justificavam a vigilância e o controle sobre a população (2001, p.54).

O crime sempre existiu e esteve presente na cidade desde o período colonial e imperial. Os periódicos em questão, até os primeiros anos do século XX pouco exploravam essa temática e muito dos assuntos relativos a crimes e criminosos eram escassos e soltos pelas páginas, em notícias esparsas envolvendo pequenos delitos, roubos e vadiagem. A imprensa, inserida na nova conjuntura vai traduzir e promover parte da concepção moderna de cidade e terá um papel fundamental na divulgação e propagação de novos valores e ideais. À medida que delitos, crimes, roubos e assassinatos passaram a ocupar as páginas dos jornais, a narrativa sobre eles buscava também encaminhar o público para atitudes e comportamentos “civilizatórios” afastando de condutas não desejadas.

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O jornal A Gazeta, também foco de nossa reflexão, se pronunciava sobre as reformas urbanas. Em sua edição de 21 de fevereiro de 1911 escrevia em sua primeira página sobre a importância das melhorias da cidade.

A CAPITAL DO AMANHÃ A remodelação da “urbs”

Vão entrar em execução, dentro de poucos dias, os falados melhoramentos da cidade. São absolutamente necessárias as transformações que se projectam, para desbastar o grotesco que as heranças coloniaes nos deixaram, como uma reminiscência. (...) o homem de hoje morre de tedio e anceia por sensações novas (...) a nossa urbs exige muitos reparos, cuja execução não deve e não pode ser adiada, em virtude da progressiva importância que vamos tendo no mundo e do interesse crescente com que os extrangeiros nos observam. Felismente a ideia vai corposirar-se. O sr. Dr. Albuquerque Lins, presidente do Estado, teve hontem uma demorada conferência em palácio com o barão Duprat, prefeito do município, as resoluções foram definitivas. (...) (A Gazeta, 21/02/1911, p.1)

O movimento de crescimento e circulação dos materiais impressos em São Paulo, principalmente, da imprensa periódica, acompanhou o próprio ritmo de desenvolvimento da cidade. A imprensa diversifica-se, chegando ao público por meio de muitas publicações das mais variadas modalidades. A imprensa diária vivencia um momento importante de seu processo de afirmação. (CRUZ, 2000:77)

Com a modernização e intensificação das comunicações a partir desse período, a circulação das ideias e as notícias chegavam com maior rapidez a lugares distantes. As novas tecnologias, o fonógrafo, gramofone, daguerreótipo, introduziram grandes transformações no universo urbano e na imprensa que circulava na cidade desde fins do XIX. A entrada em cena desses modernos aparelhos produziu significativa alteração no comportamento e na percepção dos que passam a conviver cotidianamente com eles e na imprensa multiplicam-se as descrições estupefatas com as transformações que a tecnologia coloca em cena. (BARBOSA, 2000:22)

Nessa conjuntura, inúmeras transformações figuraram na imprensa. Com o final da escravidão e o período republicano, demandas políticas e sociais ganharam maior destaque, logo a imprensa participa dessas questões e é parte desse processo que envolve interesses. O crescimento dos centros urbanos e toda a gama de serviços que se iniciou favoreceram e propiciaram uma circulação de informações e um novo modo de divulgá-las. Nesse cenário tem-se alguns periódicos cuja produção já não era mais artesanal, e possuíam especialização de mão de obra e divisão do trabalho no seu interior, com funções separadas com proprietários, redatores, gerentes, editores e que trabalhavam com maquinário moderno, máquinas rotativas,

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mais velozes, todas na época importadas. Ademais, não apenas as questões técnicas, mas a própria expansão de alguns periódicos com sucursais no interior e em outros estados expõem o maior alcance das notícias entre os leitores.

Esse período trouxe um ‘fenômeno editorial’ na imprensa diária, como costuma-se dizer. Eram as Notícias Diversas. Trazendo assuntos do cotidiano, publicados em seções com vários temas, essa fórmula se tornou tendência em quase todos os jornais da época. Segundo Dion (2007, p.123), no sentido mais comum um fait divers é a seção de um jornal na qual estão reunidos os incidentes do dia, geralmente as mortes, os acidentes, suicídios, qualquer acontecimento marcante, a crônica do fait divers se interessa por catástrofes, curiosidades (...) é uma narração de transgressão qualquer, afastamento de uma norma.

O termo ‘fatos diversos’ nos chega por meio da via francesa e, em nossa imprensa assume um caráter que, podemos dizer, ser de crônicas da cidade, da rua, dos sujeitos. Em suas colunas os jornais escrevem crônicas sociais, policiais, mundanas e utilizam o gênero para falar da cidade, das transformações e das pessoas. A introdução e a expansão de maior variedade desses conteúdos nos jornais ocorreram por variados fatores como o crescimento demográfico, a quantidade de periódicos transformados em empresas comerciais, o aparato técnico utilizado pela imprensa. Essas crônicas possibilitavam a leitura rápida, concisa, divulgando acontecimentos de um dia para o outro, ou no mesmo dia quando se tratava de edições vespertinas, promovendo no leitor o hábito de acompanhar as notícias. Pequenas notícias aparentemente ‘banais’, superficiais, foram ganhando lugar nas colunas. Destacando sujeitos comuns em personagens sensacionais. Essa narrativa construída pela imprensa sobre o crime, liga-se ao território e à transformação urbana, e é também parte constitutiva da cidade.

O jornal O Correio Paulistano com linguagem formal, ligada a assuntos políticos e econômicos e com um tom mais austero, passou a apresentar em meados da primeira década do XX, colunas que abordavam crônicas da cidade, notícias a respeito dos crimes, narrando o dia a dia de forma objetiva, mas com maior ênfase para assuntos da vida particular dos sujeitos. Em sua coluna Vida Diária e, posteriormente, Fatos Diversos e Pequenos Factos trazia os crimes ocorridos na cidade, trazendo certa dramaticidade aos conflitos, agressões e delitos, destacados em letras maiores e subtítulos meticulosos. Aos poucos o jornal foi produzindo o ‘gosto’ pelos fatos inusitados, crônicas da cidade e da criminalidade, sem afastar-se das notícias

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‘grandiosas’, econômicas e políticas, indicando que defendia o progresso e a ciência, baseados em seu posicionamento e valores mais conservadores.

Assim como o Correio Paulistano, o jornal A Gazeta também possuía em suas seções, protocolos narrativos diferentes, o que nos permite uma reflexão de como esses jornais abordam, concebem e elaboram o assunto. A Gazeta, vespertino que iniciou suas atividades na cidade paulista em 1906, apresenta um tom mais sensacional, ou, digamos, extraordinário, inusitado. Suas notícias criminais aparecem nas seções Chronica das ruas, Dramas do Amor,

O Inferno do ciúme, Crimes bárbaros, Casos Sensacionaes. Os recursos utilizados como o título

da notícia em caixa alta ou negrito, os subtítulos detalhistas e uma imagem fotográfica ao lado da descrição possivelmente despertavam a curiosidade e poderiam estimular a leitura sobre as tragédias cotidianas. O leitor que conhecia o periódico e o lia frequentemente identificava o conteúdo, e aquele que não conhecesse, porventura se sentiria atraído e estimulado a lê-lo, devido aos recursos utilizados como um chamariz.

Esses periódicos apresentam em suas páginas iniciais assim como em seu interior, colunas com informações ao leitor sobre os acontecimentos gerais da cidade. Essas colunas trazem uma quantidade volumosa de notícias sobre todo tipo de assunto, e, em pequenas notas compõem um panorama do cotidiano e das ruas da capital paulista. Notícias versando sobre os crimes na cidade aparecem cercadas de profusas informações. Entre as falas dos fundadores dos periódicos, suas ambições, promessas e desejos de um lado e, do outro os registros, as crônicas sociais e políticas há uma série de considerações e caminhos a observar no jornal. Alguns iniciam com um discurso progressista, mas no caminhar apresentam-se conservadores, ligados muitas vezes a lideranças políticas, se adaptaram às determinações do mercado, se tornaram mais noticiosos, acompanhando as transformações dos espaços públicos, à modernização política e cultural de instituições.

Com a urbanização intensa, a formação de novos agentes sociais como a classe operária, os ricos industriais, a riqueza e pobreza intensificando as diferenças, o progresso técnico e as transformações na área da impressão, observamos a ampliação dos temas relacionados ao cotidiano, os dramas da cidade, crimes, tragédias, suicídios, excentricidades, e, relatos em tom do exagero, do extraordinário, do dramático e do romântico. Essas crônicas que estão diariamente nas páginas destes jornais, ofereciam e permitam aos leitores, informações sobre o andamento de julgamentos de crimes, ou de captura de criminosos, mantendo-os em suspense

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e seguindo os métodos e as técnicas dos romances em folhetim. Era necessário esperar até a nova edição sair para ‘acompanhar’ o final da pequena notícia.

A grande novidade que temos nesse período é uma narrativa que dialoga com o cotidiano se afastando da linguagem de parâmetros mais filosóficos e científicos, da ciência política como nos moldes do XIX, e caminha para uma narrativa de reportagem, de crônica que mistura um pouco de folhetim e romance. Em inúmeros episódios narrados pelos jornais que envolvem crime de sangue e honra, identificamos o universo da vida privada. Por meio da notícia as narrativas trazem a vida privada para a esfera pública e sua discussão, em temas que abordam a normatização de sujeitos como a mulher, seus comportamentos, a dinâmica de família e da casa, aspectos como traição, ciúmes, em que os relacionamentos ficam expostos e, mais do que estarem visíveis ao olhar do público, chegam ao leitor pelo filtro dos jornais. Assim como as notícias de crimes de contravenções, transgressões de ordem, que buscam validar certos comportamentos dos sujeitos ao mesmo tempo em que conduzem para um modelo de cidade, visando o controle e a disciplinarização das camadas pobres e dos próprios espaços da rua, da cidade.

Essa reflexão visa apresentar um pouco desse universo do crime exposto nas páginas dos jornais aqui citados e, de como por meio da crônica que construíram, divulgavam e propagavam valores e ideais sociais.

Em 06 de abril de 1911 no jornal A Gazeta, em sua coluna ‘As últimas’, temos uma crônica narrando um crime de sangue que envolve ciúme e traição.

DRAMAS DO ADULTÉRIO

No bairro do Braz – Assassinato de um ‘D. Juan’

Cerca de dez horas da manhã começou a propalar-se pela cidade a notícia de que no bairro do Braz, no barracão da Light, se havia desenrolado uma scena de sangue, em que um homem foi morto, varado por três balas de revólver. Effectivamente. Aquele bairro, cujo socego era, ultimamente, causa de muita surpresa, foi hoje theatro de um assassinato, agitando todos os seus moradores. Manuel dos Santos 31 annos de edade, feitor da Light, casado, morador da rua Belo Horizonte n.30, no dia quatro do corrente, dirigiu-se ao largo do Thesouro, afim de tomar um bonde que o levasse á rua Oriente, onde estava destacado nesse dia. Esperou o bonde por muitos minutos e como não apparecesse e lhe fosse amolante esperal-o mais, parado, resolveu descer a rua João Alfredo, tanto mais que preciava fazer compras no Mercado de mercadorias em que sua casa faltavam.

No Mercado fez as compras e incumbiu um carroceiro de as levar para casa. Em seguida tomou o bonde de São Caetano, via Gazometro, que no momento passava. No momento lembrou-se, de que, não tendo tomado nota do número da carroça e não conhecendo o carroceiro, se este pretendesse enganal-o na qualidade e quantidade de mercadoria comprada, não poderia assim agir para garantir os seus interesses. Lembrando-se disso, quando o bonde chegou a rua do Gazometro, esquina da rua Monsenhor Andrade, desceu e tomou o bonde a sua residência [...] chegando a casa, não encontrou sua mulher

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Maria José. Manuel dirigiu-se a casa do cunhado, [...] e encontrou portas e janelas fechadas. Maria, casada com o irmão de sua mulher, sahiu a janela e de sobressalto correu para dentro da casa batendo-lhe a janella a cara. Maria Jose, a esposa appareceu e Manuel pediu-lhe que fossem para casa, para receber as compras. Foram. Manoel muito calmo e Maria Jose extraordinariamente inquieta. Convém revelar que nesse tempo e desde muitos dias antes Manuel suspeitava da fidelidade da mulher.

Suspeitava desde a mais ou menos quinze dias, quando Maria Jose, sem motivos razoáveis, tentou suicidar-se ingerindo certa quantidade de láudano. Chegando a casa, Manuel foi para o serviço voltando só a noite. No dia seguinte, hontem, intrigado com o recebimento que teve na casa de Maria, para lá se dirigiu, na intenção de interrogar sua cunhada.

- Que houve hontem aqui? Porque fizeram toda aquela scena quando bati ao portão? Não lhe responderam, como não responderam outras perguntas. Manuel se retirou, e voltando a tarde, teve suas respostas: no dia quatro estava sua esposa na casa da cunhada quando chegou o portuguez José Marques de 33 annos, solteiro, também feitor da Light e compadre de Manuel, cuja filha menor batisou [...] na casa, Maria José e José Marques trocaram palavras e recolheram-se a um dos quartos onde a dona da casa os viu beijando-se. Envergonhadas as mulheres se retiraram para o quintal. Foi isso que Manuel soube hontem. Ficou allucinado como era natural, e voltou para casa, [...] pegou o revólver Smith Wesson carregou-o e guardou-o.

No dia seguinte a´s horas do costume, 9 da manhã, foi para o serviço no barracão n.14 da rua Celso Garcia, onde a Light fez o depósito de seus materiais. No barracão foi José Marques a primeira pessoa que Manuel viu. Logo elle! Perdeu a cabeça e com as mãos tremulas desfechou cinco tiros seguidos sobre o amante de sua mulher. Em seguida se apresentou a polícia sem saber se havia morto ou não a victima. No local a polícia fez comparecer o dr. Barros, medico legista, que encontrou morto José Marques, [...] na quinta delegacia o dr. Franklin Pisa delegado, abriu inquérito. (A Gazeta,06/04/1911 p.6).

Nessa crônica criminal podemos destacar vários elementos que inserem o leitor em um espaço da cidade e o coloca em contato com determinados sentimentos. A localização do episódio é um deles, destacado pelo jornal como o bairro do Brás, local sem sossego, com a impressão de que crimes e desavenças são costumeiros. O bairro do Brás abrigava uma extensa população trabalhadora, nacionais e imigrantes e é citado na crônica como o palco do crime onde os sujeitos se envolveram. O adultério foi protagonizado pela mulher Maria José, e figura como a causadora do drama, percebido pelo próprio título.

Exatos um mês a seguir, no mesmo jornal, temos a notícia da costureira Maria Venuto e seu marido, o barbeiro Giuseppe Barletta, envolvidos em um crime, a exemplo de mais uma crônica policial,

CIUME TRÁGICO

Hysterismo e Homicidio na rua onze de junho

Historia de um amor accidentado e infeliz - Marido caften - Pormenores de um encontro sanguinolento – O alarme da visinhança – Reportagem Photographica Desenrolou-se hoje pela madrugada, uma scena de sangue, resultante da explosão terrível do ciumes de uma mulher.

Não quiz a protagonista, que é certamente uma criatura infeliz, apesar de não ser uma mendiga, consolar-se com a commiseração que o abandono de que estava ameaçado o seu coração corrompido pudésse inspirar do mundo.

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As grandes crises que a sociedade tem atravessado, como um fogo violento, seccaram a fonte as lágrimas ás mulheres de uma certa classe e ressequiram o seu coração. Essas criaturas não choram já; não vivem das recordações de um amor que deixou de ser correspondido, vingam-se como a serpente, que o incauto caminhante calcou á beira da entrada.

A PROTAGONISTA

Maria Venuto, de 33 annos de edade, natural da Catania, aqui residente há muitos annos, occupava-se de costura.

Não é um poço de virtudes, nem mesmo o que se poderia chamar – uma hypocrita que, todavia, respeitasse a sociedade. É de costumes livres, absolutamente desembaraçada de preconceitos, sem liames de moralidade.

Seu marido, Giuseppe Barletta, barbeiro, pelas fraquezas indecorosas e infames de seu caráter, concorreu certamente para a degradação da alma da esposa com cuja honra não trepidou em mercadejar.

Tinha mesmo rusgas continuadas com a mulher, no intuito de extorquir-lhe o estipendio do adultério permitido e mesmo insuflado. Não poucas vezes, queixara-se a desditosa Maria Venuto dos maus tratos que lhe infligia o vil consorte.

Sabia muito bem Giuseppe Barletta que sua mulher entretinha relações ilícitas com Ambrosio D´Alessio, italiano, viúvo, pedreiro, pae de três filhos, residente a rua Marcos Arruda, n.32. Sabia-o e não dissimulava, nem isso jamais lhe acelerou o isochronismo das pulsasões... Ao contrário, tendo conhecimento dos recursos de d´Alessio, não de certo mais ciumento, porém mais exigente, para com a escrava, de quem reclamava mais dinheiro.

Cançada Maria, por uma parte, de aturar o marido asqueroso, e por outra, apaixonada pelo amante, denunciou Giuseppe Barletta, que, por se dar ao lenoccídio, foi deportado.

Passou então a heroína sombria a viver tranquilamente ao lado de d´Alessio, com os filhos do casal desditoso, que são seis, estando, porém, três na Itália, internados num collegio.

OS CIUMES

Pintavam os antigos o amor sob a figura de uma criança, porque – diz um dextro manejador do estylo – o amor não chega a envelhecer.

Esse setimento, que sacode tão violentamente a alma humana, produzindo muitas vezes verdadeiras conflagrações, queima como a palha reduzindo-se a cinzas em poucos momentos.

Assim é o amor de toda a gente, foi assim o amor do pedreiro, que se mostrou enfarado das ardentes carícias da amante, tomada agora constante na sua mesma volubilidade. Maria Venuto perde as flores da mocidade, envelhece...(A GAZETA, 06/05/1911, p.1, AESP)

Notícias assim, se tornaram uma prática conhecida em grande parte dos jornais, que começaram a trazer a público aspectos do cotidiano, carregados de uma carga emotiva. Na sua grande maioria, as crônicas policiais que tratam de crimes apresentam homogeneidade na estrutura e na narrativa, podendo até nos levar a falsa conclusão de que, ‘quem leu uma, leu todas’. A Gazeta possuía uma estrutura de título e subtítulos em negrito, com letras das mais

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variadas formas, numa tentativa de chamar a atenção do leitor. Suas páginas se estruturavam em sete colunas, um tanto espremidas entre si, sempre com muita imagem sejam fotos, charges ou ilustrações. Para cada tipo de notícia um subtítulo espalhafatoso, principalmente se versasse sobre crime, como no exemplo envolvendo a costureira Maria Venuto,

E viciada com os galanteios sempre accessíveis á sua alma polyandra, começa a sentir o vácuo em torno de si.

Os modos frios de d´Alessio fizeram-na suspeitar de que tinha uma trival; e, com effeito, entrando a indagar, soube que o inconstante estava ligado a Angelina Delizia, rapariga de vinte e seis annos.

Cartas, perversamente officiosas, desvendaram todo o segredo aos olhos da desdenhada.

O coração custa muito a envelhecer; não cança aos golpes do tempo que abrem a ruga a face, nem ao sopro hibernal, que cobre de neve a cabeça.

Maria, ultimamente, depois de desprezada, mudara-se com seus filhos e sua criadinha Thereza, da rua General Osorio para a rua Onze de Junho, n.58, e alli se entregou as lágrimas, talvez procurando com o esse balsamo curar a ferida de seu coração. EXPLICAÇÕES E AMEAÇAS

Hontem, depois das seis horas da tarde, após uma ausência injuriosa de muitos dias, appareceu o amante, sendo recebido asperadamente pela dona da casa, e estabelecendo-se uma discussão a que, com ameaças, pôs termo d´Alessio.

Este, em seguida, tratou de pacificar os ânimos. A´s 8 horas entraram elle e Maria, reconciliados, para a alcova.

O CRIME – LUCTA TERRÍVEL – PUNHALADA NO CORAÇÃO

A´ 1 hora da manhã dormiam todos na casa e na visinhança, visto como de ninguém foi percebido o que se passou naquele quarto.

É, pois, a homicida que tem a palavra e, verdadeira ou falsa essa palavra, é a única que podemos transplantar para estas columnas.

A´quella hora despertou d´Alessio e chamou Maria, recomeçando desde logo a discussão mais azeda entre elles.

O pedreiro sacou de um punhal para obrigar a costureira a calar-se e, esta, enchendo-se de medo, mas resolvendo-enchendo-se ao mesmo tempo a vender cara a vida, tirou da gaveta uma navalha.

Estabeleceu-se uma lucta terrível perdendo Maria a navalha, mas arrancando o punhal ao aggressor, em cujo coração embebeu a lamina, bem como no pescoço e nas costas. D´Alessio arrastou-se até a sala de jantar e alli cahiu redondamente.

Maria limpou o sangue, de que estava manchada, em um lençol da cama, e, chegando á porta, gritou por socorro.

Compareceram dois rapazes e o dr. Antonio Nacarato, segundo delegado, que passava na occasião, sendo então presa a criminosa e levada para a Central.

A POLÍCIA – DECLARAÇÕES DA CRIMINOSA

O dr. João Baptista de Souza, quarto delegado, acompanhado do dr. Honorio Libero, medico legista, compareceu ao local do crime e procedeu-se o exame do cadáver, que foi em seguida transportado para o necrotério da Central, onde será autopsiado hoje. Nas roupas de d´Alessio foi encontrado, entre outros objectos, 1:805$000.

O dr. João Baptista tomou as declarações de Maria Venuto, que ao terminar disse possuir, no London Bank, a quantia de 23:000$000, e pediu para falar com o dr. Capote Valente.

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Nas Ultimas daremos notícias das diligencias policiaes realisadas hoje. (A GAZETA, 06/maio/1911 p.4).

A notícia de crime envolvendo Maria Venuto é anunciada no periódico sob o título de “Ciúme trágico – hysterismo e homicidio”, o que já nos evidencia a maneira de chamar a atenção do leitor e conduzir a alguns juízos de valor, relacionando o crime ao ciúme e ao histerismo. Mais uma vez, marcando a figura feminina como centro do crime. Buscando seduzir o leitor, o jornal A Gazeta narra inúmeras cenas de infortúnio do cotidiano se utilizando de tantas outras expressões que variavam entre “Tragédia amorosa”, “Amor Fatal”, “O Inferno do ciúme”, “Manhã de Sangue”, “Crime Mysterioso”, “Alcool e sangue”.

Tais denominações tinham como objetivo, além de atrair, mobilizar e constituir esse leitor dentro de uma perspectiva do jornal. Segundo Michele Perrot, (2010, p.200) podemos pensar na postura da mulher popular no espaço da cidade. Segundo a autora, a mulher popular é mais livre, tem maior independência nos gestos, seu corpo a mantém livre, sem espartilhos, de gestos e revide rápidos, é explosiva, numa alusão às mulheres da classe popular, em contraposição às burguesas, que criadas para serem boas esposas e donas de casa, deveriam desenvolver a paciência, submissão e obediência. Inserimos Maria Venuto enquanto a mulher popular, que “de costumes livres”, era categorizada pelo jornal enquanto histérica e violenta.

O público leitor estaria atraído pela notícia crime, por um lado, pelo desenvolvimento deste gosto por meio do periódico e, por outro, pela construção de artigos e textos no próprio jornal, que difundiam ideais e valores fundamentados no progresso, na civilidade, na ordem, o que levava a formar uma compreensão de que os crimes, assim como outras anormalidades da ordem, devessem ser combatidos. Não queremos com isso afirmar que o leitor não possuísse um posicionamento diante de tais questões, ou mesmo que gostasse das notas criminais, já que o inusitado e o dramático atraem a atenção, mas buscamos entender como o jornal tratou de seduzir esse leitor ou mesmo de desenvolver o gosto por esse tipo de notícia.

Na seção ‘As últimas’ do jornal A Gazeta, encontrava-se os acontecimentos apurados durante o dia, e o leitor poderia lê-los em tempo, já que se tratava de um vespertino. As crônicas envolvendo o drama de sangue podiam vir na primeira página ou nas ‘Últimas’, sendo que estas traziam informações mais atualizadas.

No dia 03 de janeiro de 1914, na página 8 na seção As Últimas, o jornal trazia mais uma crônica de crime na cidade, este, envolvendo honra e vingança.

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UM DESFECHO TRAGICO NUM CASO DE SEDUCÇÃO Na rua Santa Rosa – um tiro de revólver – Fuga do aggressor

Com esse título o jornal inicia a narrativa do italiano Thomaz Lupo, carroceiro que foi alvejado por três tiros de revólver. Quando a polícia chegou ao local levando o médico que prestou os primeiros socorros, interrogou Lupo, que disse ser o seu agressor o também italiano Saverio Vigliotti. Contou também que há tempos que “não viviam às boas por questão de família”.

O filho de Thomaz, Vicente Lupo, há meses havia seduzido e desonrado a irmã de Saverio, Ripalda Vigliotti. Esse fato foi largamente apresentado pelos jornais, já que Vicente se recusou a casar com a jovem em questão, indo parar no Tribunal do Júri.

Pelo mapa das ruas de São Paulo percebemos que tanto o agressor quanto a vítima eram vizinhos. Italianos, viviam no bairro do Bexiga e a vítima, Thomaz Lupo era carroceiro, profissão muito comum e necessária na São Paulo do início do XX.

A vítima, Thomaz, segundo o jornal, estava se dirigindo a estação do Pari para realizar um trabalho de transporte com sua carroça, quando foi surpreendida por Saverio, o agressor, irmão de uma moça vítima de desonra. Inconformado com o fato de sua irmã ser desonrada pelo filho de Thomaz, Saverio, por vingança, atirou em Thomaz. O jornal traz a informação que o filho de Thomaz, Vicente, já havia sido julgado e condenado pelo Tribunal do Júri, estando nesta ocasião preso pelo crime de defloramento e cumpria sentença na Cadeia pública. Porém, a justiça legal, no âmbito da lei, que julgava e punia os crimes nem sempre sanava questões de ordem moral e honras familiares. Neste caso, o irmão da moça desonrada não via na prisão do agressor, o reparo moral para a família e para a jovem.

A princípio, um trabalhador que ia logo pela manhã realizar sua tarefa foi vítima do crime. Primeiro elemento que o jornal ressalta aqui é iniciar a notícia com o fato de que a vítima era um trabalhador. Em seguida, o desenrolar da história vai apontando para uma questão principal relacionada à moral familiar. A definição do crime de defloramento sucita valores de representação sobre a mulher, muito veiculado nesse período sob o signo de “mulher honesta”, “mulher de vida ilícita”, “mulher de vida fácil”. A temática da honra era cara às famílias no início do século XX, fossem elas burguesas ou mesmo pobres. Essa questão se apresentava de forma diferente para homens e mulheres no início do século e acarretava resultados distintos também. Para a mulher, a honra estava relacionada a ser recatada, pura, inocente, reservada e

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isso colaboraria para uma família saudável. No universo da vida privada, percebemos a honra com uma importância maior do que a própria lei, a justiça. Nesse caso apresentado pelo jornal, a moça seduzida e desonrada é vingada pelo irmão.

Assim como A Gazeta, o jornal O Correio Paulistano embora com perfil diferente,

trazia em suas seções de Fatos Diversos, crônicas envolvendo temáticas semelhantes. Nem por isso estas eram menos sensacionais ou dramáticas. Em 15 de agosto de 1914 ele destacava em sua coluna ‘Scena de Sangue’, o envolvimento do português Manoel Maria de Azevedo e do espanhol José Rodriguez, que terminou em assassinato.

Um assassínio na rua 21 de abril – o fim de um desordeiro incorrigível – as providências da polícia – O inquérito

Em uma casa de commodos a rua 21 de abril n. 368 de propriedade do português Manoel Maria de Azevedo, entre outros inquilinos, residia o hespanhol José Rodriguez, carregador, casado com Dolores Gonzales Fernandez, engomadeira, empregada a rua santo amaro n.20.

Em um quarto visinho occupado pelo casal habita Mathilde dos Anjos de 39 annos, casada com Firmino Augusto.

Rodriguez, desordeiro e provocador, raro era o dia em que não tinha uma rixa com os visinhos. Hontem, cerca das 16 horas e meia, Manoel Azevedo o proprietário do prédio ouviu uma discussão entre Mathilde e Rodriguez. Habituado a essa brigas, Azevedo não deu importância. Certa hora porem appareceu a sua esposa e disse-lhe que Rodriguez estava gravemente ferido. Azevedo comunicou o facto ao posto policial do Belenzinho que por sua vez avisou a central. Immediatamente o delegado dr Antonio Nacarato acompanhado do médico legista Olavo de Castilho dirigiu-se para o local. Alli chegando encontraram no quarto o hespanhol Jose Rodriguez, em decúbito dorsal, extendido. Apresentava quatro ferimentos no tórax. A causa mortis foi attribuida a uma hemorragia interna.Compareceu ao local o 5º delegado dr. Mascarenhas Neves e seu escrivão. (CORREIO PAULISTANO, 15/08/1914, p.3)

O Correio Paulistano ainda detalha que o delegado ouviu as testemunhas dentre elas o proprietário do prédio e Mathilde que se achava em seu quarto quando Rodriguez apareceu e insultou-a, mas que não poderia contribuir com a polícia pois teve naquele momento uma ‘syncope’. A mulher do proprietário, Josephina de Jesus disse se encontrar no portão e viu surgir em um dos quartos Manoel Reis, antigo inquilino, que saiu em defesa de Mathilde com uma faca. No meio da confusão o filho da vítima, um garoto de 12 anos disse ao delegado que Reis havia ferido seu pai. Uma outra testemunha de nome Maria correu a porta do quarto e pediu a dois homens – ‘um preto e um branco’ que colocassem Rodriguez na cama. Disseram que foi nesse momento que perceberam que Rodriguez estava morto. A narrativa se encerra dando o autor do crime como foragido e o delegado abrindo o inquérito policial.

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É muito comum encontrarmos nos periódicos notícias que envolvem crimes entre imigrantes. No título da notícia, o jornal apresenta o envolvido qualificando-o, ‘desordeiro incorrigível’, ‘desordeiro provocador’. Muitas vezes os sujeitos das notícias criminais são apresentados já adjetivados, produzindo um efeito no leitor ao inserir na trama elementos de qualificação ou desqualificação desses sujeitos. Sabemos que o discurso dos periódicos por meio de palavras, frases, adjetivações e variados recursos evidenciam uma concepção do jornal. Títulos e subtítulos desempenham uma função que demarcam seu propósito, sua intenção e as palavras utilizadas fazem parte de discursos que compõem a construção de uma memória.

Percebemos esse projeto editorial analisando as inúmeras características tanto em A

Gazeta, quanto em o Correio Paulistano.

No dia 28 de setembro de 1907, o Correio Paulistano trazia entre pequenas notícias cotidianas, na seção Factos Diversos, o título “Briga entre mulheres”,

Hontem as 11 horas da manhã, engalfinharam-se na rua Bandeirantes, por questões íntimas, Maria Luiza Ferreira e Joanna Maria das Dôres, moradoras do cortiço na travessa Guarany. Turbulentas que eram, foram presas em flagrante e conduzidas á prezença do segundo subdelegado do distrito de São Caetano, que se fez recolher ao xadrez daquelle posto. (Correio Paulistano, 28/09/1907, p.5)

Nessas pequenas notícias, o jornal destaca os locais onde ocorrem os fatos e, de forma persistente constrói na sua narrativa, a produção de sujeitos caracterizados.

Factos Diversos – Ciume feroz

Na Villa de Santa Cruz – No Largo do Arouche – Escandalo sobre escândalo – Um pae que se revolta contra os desatinos da filha – Amante sanguinário

Existe no largo do Arouche uma espécie de cortiço, que se denomina Villa de Santa Cruz. É um extenso corredor symetrico de cazinholas, de pintura egual, e pelas quaes se entra por um amplo portão commum aberto sempre a quem quer que seja, como uma acanhada artéria pública. Muitas famílias pobres se abrigam sobre aquelles tectos. Dentre elles a família Pedrone composta de um velho trabalhador, dois filhos e uma filha, estes porém, sem muito apreço pelo trabalho, por isso não se recomendam muito a sympatia dos demais habitantes daquelle formigueiro humano. Os Pedrone, a excepção do velho, tem dado muito assunto para os noticiários da imprensa, com os escândalos a que o cortiço assiste, sem intervir, habituado as suas violências, que tomam sempre papel saliente, o cacete, a faca e o revólver. Há cerca de trez mezes, está na memória de todos os habitantes de Villa de Santa Cruz, que Ana Luiza, filha de Pedrone, foi causa de um grande sarilho, em que ferveu o cortiço, [...] dando lugar a que a polícia invadisse no intuito de restabelecer a ordem [...] para a garantia dos honestos trabalhadores que habitam muita cazinholas. Ana Luiza tinha um amante, e amante perigoso, um tal de João Franco de Camargo, desordeiro, vulgar, faquista réles, [...] e lá se deu a scena do rompimento do amor ilícito. Embora separados, o pae de Ana não quiz a filha em sua residência e mandou-a que tratasse da vida. Longe dos seus, Ana

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Luiza entregou-se a uma vida de desregramento. Passaram-se os tempos e dizendo estar corrigida de seus desatinos retornou ao cortiço.

Hontem 9 horas da noite Ana palestrava com duas amigas quando viu João passar na Villa. Ana ignorou o chamado de João que como não tivesse resposta, atirou-se a ella num salto desfechando-lhe profundo golpe de faca no peito, [...] abandonando a víctima se poz a gritar e deu o encontro ao irmão de Ana, dirigindo-lhe dois pesados insultos, que aliás lhe ficavam muito bem, Camargo desviou-se dos musculosos braços que abriam-se procurando detel-o, riscando a faca com a agilidade de um capoeira. [...] muitos populares e policiaes acudiram, desarmaram o criminoso prendendo-o. Ana Luiza foi levada a Santa Casa devido a gravidade da lesão. Está aberto inquérito no posto policial da Consolação. (Correio Paulistano, 07/12/1907, p.4).

A narrativa não trata apenas do crime, mas de personagens cujas caracterizações dadas pelo próprio jornal levam a compor determinados tipos sociais. O ambiente, o cortiço, inúmeras vezes destacado nas crônicas, é descrito como ‘formigueiro humano’, habitado por pobres já habituados a violência, que de forma ‘saliente tomam o cacete, a faca e o revólver’. Local de gente trabalhadora como o pai de Ana e outros moradores, mas também de desocupados, como seus filhos, e também de Ana Luiza, que não é vista como uma ‘moça de família’, e que foi expulsa pelo pai, a fim de que se restabelecesse a honra da família, já que se envolveu em amor ilícito com um amante perigoso, um capoeira.

Em 21 de março de 1908 o Correio trazia mais uma pequena notícia envolvendo a cena de um cortiço,

Lucta de dois menores – um magote de pretos que se opõem a prisão – Falsa autoridade – debandada geral

Hontem, as oito horas da noite aproximadamente, dois menores empenharam-se em lucta no quintal do cortiço existente a Alameda Barão do Rio Branco n. 83. Interviu o rondante da rua que ao penetrar no cortiço foi ameaçado por um magote de negros alli residentes que se oppozeram a prisão. O rondante, no cumprimento do seu dever, pediu auxilio a outros praças, e quando estas já haviam comparecido, surgiu um tal Armando Silveira, que se dizendo autoridade policial, deu voz de prisão as praças. Chegando o facto ao conhecimento da policia da Santa Iphigenia, compareceu ao local o subdelegado, dr Camara Lopes. Os turbulentos já se tinham evadido, não sendo efectuada nenhuma prisão. (Correio Paulistano, 21/03/1908, p.2).

Nesta notícia o jornal faz referência às denominadas ‘algazarras’ que ocorriam nos cortiços e que são cotidianamente descritas nas páginas dos periódicos. Neste, foi o fato de a polícia ter sido ludibriada pelos sujeitos envolvidos, que além de resistirem à prisão, enganaram os policiais e fugiram. A narrativa descreve-os como ‘magote de pretos’, turbulentos. A notícia traz ainda que o policial estava no cumprimento de seu dever, o de manter a ordem evitando confusões. Apesar de pequena, a notícia em suas descrições, tipifica os sujeitos.

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SCENA DE CORTIÇO – um soldado de folga ao intervir numa discussão é aggredido a cacetadas – fuga do agressor- inquerito sobre o facto

Entre Jose Scotta e Augusto de tal, moradores do cortiço a rua Paim n.12 sucitou-se uma desintelligencia, hontem as 23 horas. Quando os dois se achavam empenhados em violenta disputa, interviu o soldado Dionysio Nascimento n.259 da segunda companhia da guarda cívica. Apezar de achar-se de folga e a paizana, Dionysio pretendeu acalmar os ânimos, porem mal recebido levou varias cacetadas na cabeça. O aggressor evadiu-se. O dr Tamandaré Uchoa delegado interino e o medico legista compareceram ao local. O offendido recebeu os curativos. Foi aberto inquérito. (CORREIO PAULISTANO, 22/07/1915, p.5).

Nas narrativas envolvendo o espaço dos cortiços, os sujeitos envolvidos são descritos como violentos, agressores, sem respeito às regras sociais. Os cortiços foram as moradias populares mais comuns durante as primeiras décadas do XX, a grande maioria em áreas de concentração de trabalhadores fabris e vendedores ambulantes, lavadeiras, cocheiros e carroceiros. Alguns próximos de bairros abastados como a Avenida Paulista. Santa Efigênia, por exemplo, ficava próximo aos Campos Elíseos. A imprensa burguesa destacava os problemas que advinham dos cortiços, como a sujeira, epidemias, imoralidade, roubos, crimes, ociosidade, vícios e prostituição. Dessa maneira o discurso nos periódicos enfatizava o saneamento, a limpeza, o policiamento e o controle intensos dessas áreas, como forma de coibir e manter a ordem.

Parte das notícias de crimes estão relacionadas com condutas e posturas inadequadas moralmente e insistentemente criticadas pelos jornais. São elas de ordem social o alcoolismo, vícios, ociosidade e de ordem moral o adultério, traição, amores ilícitos. Nessa perspectiva observamos que as crônicas policiais colocam os sujeitos enquanto indivíduos moral e socialmente maculados: “a mulher honesta”, “a mulher desonrada”, “o trabalhador”, “o ocioso”, “o viciado”, “o desordeiro e provocador”, “a de vida fácil”, entre outros. Não apenas adjetivando os sujeitos, mas marcando o local onde vivem ou frequentam, caracterizando os espaços às condutas. Quando lemos “conflito num botequim”, “cena de sangue em um cortiço”, “drama de um adultério”, “o maldito ciúmes”, “histerismo e homicídio”, “violência no cortiço”, não estamos lendo apenas sobre as atitudes que a crônica enfatiza, mas o que dela emerge sobre o local e os sujeitos.

A temática do crime relaciona-se diretamente com questões do cotidiano, oferecendo pistas para se compreender o comportamento popular, embora não sejam os sujeitos envolvidos, apenas de segmentos pobres, longe disso, mas a crônica policial por muitas vezes constrói o

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universo popular. Porém elas mostram uma versão do comportamento desses indivíduos no cotidiano e carregam discursos de funcionários da justiça, delegados, juízes, que são os conhecidos representantes da ordem e do jornalista, redator e dos grupos sociais a qual pertencem, que transformam o ocorrido em fato a ser conhecido. As crônicas policiais narradas nos jornais podiam variar entre pequenas notas, aparentemente sem grande importância, trazendo fatos corriqueiros do cotidiano da cidade, como também se estender por mais tempo narrando por dias o desenrolar de um crime. A repetição sistemática destas notícias, cotidianamente nas páginas dos jornais, bem como seus desdobramentos “em pedaços”, fragmentados dia a dia, sendo recapitulados toda vez que se tinha um ‘fato novo’, nos leva a acreditar na construção de uma memória sobre os tipos de crimes e sobre os sujeitos neles envolvidos.

Essas pequenas notícias compõem uma reflexão maior sobre a construção da memória do crime e dos sujeitos criminosos na cidade de São Paulo no início do XX. As narrativas do

Correio Paulistano e A Gazeta trazem discursos e carregam a influências do controle higienista,

de teorias científicas e do saber médico, para justificar o controle de populações pobres, pretas e imigrantes.

Nas seções em que essas crônicas foram publicadas, o leitor encontra outras tantas notas diárias com temas correlatos, sejam de crimes por roubos, seja por desavenças, brigas entre mulheres, cenas de cortiços, desacatos, vadiagem, suicídios. Ao mesmo tempo tem-se boletins com as estatísticas de presos, serviços sanitários, captura de ociosos, denúncias, sumário de culpas, entre outros. A diagramação e a organização das notícias nas páginas dos periódicos focam na sua intencionalidade. Essas notícias exerciam uma sedução sobre o leitor dos periódicos da fase da imprensa industrial, pois nela encontram-se o universo privado, a fascinação pelos dramas e segredos, pelos detalhes, trazendo “um pouco de tudo”, nesse sentido cresce a atração pelas notícias de crimes e delitos. Entre as brigas, cenas de cortiços, furtos e gatunagens figura-se a notícia do drama de sangue, aquela que continua nos dias subsequentes fisgando o leitor a acompanhá-la. Seja o universo privado ou o universo da rua, espaço urbano que fascina e expõe as tragédias individuais e coletivas, as crônicas trazem um propósito. Mais que aumentar a venda dos jornais dentro da lógica comercial, além da demanda emocional, elas carregam intencionalidades, projetando tipos sociais, determinando papéis preestabelecidos, sugerindo valores morais, denunciando comportamentos.

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