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Rodrigo Alvarez REDENTOR

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Academic year: 2022

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(1)
(2)

Rodrigo Alvarez

R EDENTOR

A

BIOGRAFIA DO

C

RISTO DE BRAÇOS ABERTOS

,

ILUSTRE MORADOR DO

C

ORCOVADO

,

ORGULHO DO

B

RASIL

,

MARAVILHA

DO MUNDO

(3)

Ana Cristina Nasciutti

RODRIGO ALVAREZ é autor de doze livros de ficção e não ficção, entre eles os best-sellers Maria e Aparecida. Nasceu no Rio de Janeiro e, depois de percorrer o mundo como correspondente da TV

Globo, vive agora nos Estados Unidos.

(4)

S

UMÁRIO

Nota do autor

P

RIMEIRA PARTE

O C

RISTO NUM VÉU DE NUVEM BRILHANTE SUBINDO AO CÉU 1. O Corcovado antes do Redentor

2. O refúgio dos escravos

3. O morro tem água e problemas 4. As primeiras visões

5. A ideia da princesa Isabel

6. O Cristo da Argentina inspira o Brasil 7. A Igreja excluída pela República 8. 1921: o ano da decisão

9. Heitor da Silva Costa vence o concurso

10. Uma chuva de críticas ao projeto do Redentor 11. A discussão artística

12. Sebastião Leme cria uma campanha de doações 13. A polêmica com os evangélicos

14. A decisão de abrir os braços de Jesus 15. À procura de um escultor europeu 16. Paul Landowski aceita o desafio 17. A estátua está nascendo em Paris

18. O Cristo vai ser revestido com pedra-sabão 19. O Redentor e a Liberdade

20. A estátua está quase pronta

21. A primeira vitória: Aparecida padroeira 22. O histórico ano de 1931

23. A inauguração

24. A Igreja, mais forte, pressiona o governo 25. Todos querem ver o Cristo Redentor

(5)

S

EGUNDA PARTE

C

INQUENTA ANOS EM MAUS LENÇÓIS 26. Abandono

27. O fim da Segunda Guerra

28. Quem tem a chave do Redentor?

29. Dizem que a estátua vai cair!

30. Venderam o Redentor

31. A visita do papa João Paulo II

32. Problemas

33. O Cristo que não gosta de samba

T

ERCEIRA PARTE

R

IO

,

VOCÊ FOI FEITO PRA MIM 34. A retomada

35. O cardeal barrado no Santuário

36. A estátua que é a cara do Brasil pede socorro 37. Padre Omar dá nova vida ao Redentor

Epílogo

SE TODOS FOSSEM IGUAIS AVOCÊ

Notas

Agradecimentos Caderno de fotos

(6)

A Heitor da Silva Costa, Paul Landowski, cardeal Leme, Afonso Celso, Laurita Lacerda, Dílson, Floriano e Magda Gonçalves, Tom Jobim, Joãosinho Trinta, cardeal Scheid, cônego Marcos William, padre Omar Raposo e todos aqueles que colocaram e colocam nosso Redentor nas alturas.

(7)

N

OTA DO AUTOR

É QUASE UM MILAGRE que ele esteja agora lá em cima, com seu olhar ainda sereno, noventa carnavais nas costas, braços de concreto ainda abertos sobre o Brasil, impávido como quem foi visto subindo aos céus. Primeiro, porque a ideia da princesa Isabel de construir uma estátua de Jesus no alto do Corcovado (na realidade uma recusa à ideia de fazerem a imagem dela própria como redentora) veio apenas um ano antes que a monarquia terminasse e os positivistas liderados por Deodoro da Fonseca assumissem o lugar de Pedro II para criar uma República que não gostava de igreja.

Depois, porque, nesse ambiente adverso, os católicos precisaram sonhar em vão durante três décadas até que o clima político mudou e apareceu um cardeal tão poderoso que, se preciso fosse, até montanhas seria capaz de mover.

Foi só com a força de Sebastião Leme que as senhoras e os senhores obstinados da Comissão Central para o Monumento do Cristo, liderados por um conde ufanista, conseguiram convencer o presidente Epitácio Pessoa a lhes ceder um pedacinho de montanha para construir a imagem que lhes restituiria a glória. Foi Leme quem mobilizou os católicos do Brasil para doarem fortunas que seriam transformadas em cimento e ferro. O processo todo de gestação do monumento já seria uma saga digna de série de tevê, mas o que veio em seguida foi muito mais complexo, heroico, trágico e impressionante: depois de construir uma estátua de trinta metros num morro de 704 metros, os brasileiros descobriram que mais difícil ainda era cuidar da estátua gigante que agora morava no alto do morro gigante.

Praticamente abandonaram o Redentor.

Raios cortaram seu dedo e mancharam seu coração.

Malandros de todos os tipos se aproveitaram da estátua que praticamente só era lembrada quando alguma autoridade queria impressionar algum visitante estrangeiro. A Igreja demorou décadas

(8)

para perceber que estava perdendo seu Cristo e que nem sequer tinha a chave que dava acesso ao interior da estátua (muito bem guardada por uma família de comerciantes que esteve presente ao longo de toda a história até ser expulsa por uma licitação turva e contestada). E só muito recentemente apareceram padres jovens e ousados o suficiente para iniciar um processo de retomada do Cristo.

Este livro foi ideia de um deles, o padre Omar Raposo, que desde que se tornou reitor do Santuário Cristo Redentor vem dando voltas pelo Rio e pelo mundo para divulgar a ideia de que o nosso Jesus de concreto não é só uma das estátuas mais bonitas do mundo, mas, também, um símbolo religioso, cenário para demonstrações de fé nas alturas, batismos encantados, casamentos estelares e — porque não — gravação de novelas e filmes espetaculares.

Para escrever estas páginas, precisei, antes de tudo, entender que ao longo de mais de um século de história — desde que a ideia surgiu em 1888 — pouca atenção se deu ao difícil processo de arquivamento e cuidado com a informação histórica. Muitos livros foram escritos com base em fontes duvidosas, ou, simplesmente, suposições. Aliás, muita gente se esforçou para detonar o Redentor antes mesmo que sua pedra fundamental fosse colocada lá em cima.

De tempos em tempos, como foi o caso do monsenhor Maurílio, duas décadas atrás, apareceram pessoas preocupadas em resgatar a memória e compreender os muitos significados do Cristo Redentor. Esses trabalhos são boas referências, assim como são fundamentais os depoimentos dos padres e funcionários da Arquidiocese do Rio, aqueles que de fato cuidam da estátua e a defendem dos aproveitadores. Mas jamais teríamos uma biografia fidedigna do Cristo Redentor se não fosse o trabalho de inúmeros jornalistas que ao longo desses anos se ocuparam de apurar fatos e produzir reportagens — umas mais precisas que outras — relatando nos muitos jornais brasileiros aquilo que viam e ouviam com o objetivo de informar o país.

Faço questão de expressar minha convicção de que, sem uma imprensa livre e atuante, a verdade se dissolverá rapidamente em

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discursos ideológicos vazios de informação, inventados mesmo para desinformar, criar cortinas de fumaça e depois virar pó de internet.

Por fim, subo as escadarias do Redentor para convidar você leitora, leitor (tendo ou não uma religião), a entrar nesta história com o coração sereno e os braços abertos. Penso que vai se surpreender — e se encantar — tanto quanto eu me surpreendi e me encantei ao debruçar sobre esses acontecimentos que falam muito, mas muito mesmo, sobre nosso país e nossa cultura. No fim das contas, este livro é sobre todos nós, brasileiros.

A biografia do jovem senhor de concreto começa ainda no século XIX, num tempo em que o Rio é a capital do Império, por onde transitam mais escravos que pessoas livres, no vaivém das carruagens dos homens brancos que mandam no país, ao som de pássaros tropicais e cachoeiras monumentais, aos pés de um morro que, por enquanto, não tem nome certo nem faz parte da cidade…

(10)

PRIMEIRA PARTE

O C

RISTO NUM VÉU DE NUVEM BRILHANTE SUBINDO AO CÉU

(11)

C

APÍTULO

1

A

NTES DO

R

EDENTOR

,

O MORRO QUE PARECE UM CAMELO É O REFÚGIO DO IMPERADOR

. E,

APESAR DAS TROVOADAS

,

AS CONDIÇÕES EM CIMA LHE PARECERÃO PERFEITAS PARA PROTEGER O

B

RASIL

. P

OR ISSO MESMO

,

ALI NASCERÁ O TELÉGRAFO MANUAL QUE

P

EDRO I USARÁ PARA SE PROTEGER DA AMEAÇA ESTRANGEIRA

.

O CRISTO AINDA NÃO está lá em cima. Mas está por perto. Faz tempo que chegou pregado nas cruzes portuguesas e daqui nunca mais saiu. Agora anda até na mente dos índios e dos escravos que não o conheciam, mas que o inseriram em sua vida, ainda que não tenham sido completamente incluídos na sociedade que está sendo criada por aqueles que os escravizaram. E são eles, os portugueses e seus descendentes, os que andam vendo Jesus Cristo por toda parte.

Dizem que, muito antes que alguém visse na montanha maravilhosa uma corcova, ou uma corcunda (como a do famoso personagem de Notre-Dame), os navegantes que primeiro avistaram aquela pedra gigante chamaram-na de Pináculo da Tentação.

Delírio?

Miragem?

Visão?

No momento em que chegavam à terra que só mais tarde seria batizada com o nome do santo Sebastião, ao verem morro tão íngreme, o identificaram com a montanha de Jericó onde os evangelhos nos contam que Jesus viveu seus quarenta dias de provação, tentado pelo maldito diabo, sem jamais se deixar seduzir pelas artimanhas de Lúcifer, antecedendo seus dias de caminhada histórica pelos desertos da Galileia.

(12)

Foi no pináculo de Jericó, antecedendo a pregação de amor e apocalipse, que o mundo começou a mudar.

Dizer que o Corcovado foi batizado como esse nome evangélico, no entanto, é tradição sem comprovação (como muitas que ainda virão). Num mapa feito por italianos em 1523, o que se lia era, em latim, pinaculo detentio, Pináculo da Detenção. E isso permitiu uma interpretação de que se tratava do morro onde o navegador Gonçalo Coelho ficou “detido”, ou seja, forçosamente parado com sua expedição, antes de seguir viagem.[1]

É possível.

No entanto, de acordo com um livro que será publicado pouco depois da construção do monumento ao Cristo, o historiador americano Henry Harrisse percebeu no mapa italiano um erro de grafia, relendo o nome do morro como Pináculo não da detenção, mas da Tentação.[2]

Os navegadores europeus gostavam de dar nomes santos às terras que encontravam, e não terá sido outro o motivo de terem batizado de Pascoal o monte baiano onde a primeira caravela chegou em 1500 e de Vera Cruz a terra imensa que encontraram naquele mesmo dia pensando que fosse uma ilha, e que só mais tarde se chamaria Brasil.

O nome que teria sido escolhido ainda nos dias de Cabral estaria emprestando uma sacralidade antecipada ao morro que, muito mais tarde, receberia a estátua gigante de Jesus Cristo.

Faz sentido.

Mas ninguém tem certeza.

O mapa mais antigo do Rio de Janeiro, o que está num certo Atlas Náutico do Mundo, de 1519, dá à montanha corcunda o nome de Sombreyro, possivelmente porque os navegadores viram nela o formato de um chapéu (que os espanhóis diriam sombrero).

Mas esse nome nunca vingou.[3]

Muito tempo se passou até que apareceram pelas terras dos índios e das araras outros exploradores europeus, homens intelectualizados, menos dados às conquistas e muito interessados nas excentricidades do povo e de sua natureza. E eles, sendo alemães, holandeses ou franceses, começaram a anotar coisas interessantes em seus diários. Fizeram também muitos desenhos

(13)

que eternizaram imagens de um tempo em que não havia câmeras para registrar coisa alguma. Um deles, presença marcante na história do Brasil, foi o francês Jean-Baptiste Debret, que, ao contar as aventuras que ele próprio chamou de “pitorescas e históricas”

pelo país que o encantava, fez algumas incursões ao que já era conhecido como Morro do Corcovado.[4]

Mas quem terá sido o primeiro, ou a primeira, a comparar a forma da montanha com uma pessoa de costas curvas ou um camelo das arábias com sua protuberante corcova?

Imaginamos que, num dia de sol quente, algum viajante olhou para aquela pedra maravilhosa e pensou algo como…

— Posso ver um camelo deitado… neste morro corcovado.

Terá sido, sem dúvida, um dromedário que, do alto de sua corcova única, é também um tipo de camelo. Mas isso pouco importa. Foi a ele, o camelo de uma só corcova, a quem Jesus se referiu quando disse que seria difícil a salvação de uma pessoa apegada a riquezas.

— Mais fácil um camelo passar no buraco de uma agulha que um rico entrar no Reino do Céu. — Podemos ouvir Jesus dizendo aos discípulos, vendo diante de si as águas ainda claras do Jordão, tendo ao fundo as montanhas corcovadas que foram o cenário de grande parte de sua pregação.[5]

Chamar o morro carioca de Corcovado foi ideia de um religioso?

[6]

Ou terá sido a gaiatice de algum brasileiro?

Quem sabe… Às vésperas do carnaval, alguém achou graça da coluna entortada do morro cheio de nascentes de água fresca e resolveu dar a ele o nome de algo que define justamente o animal que pode passar semanas sem beber água?

Talvez a visão da montanha como um camelo deitado tenha sido um prenúncio. Pois, mesmo com sua natureza imbatível, o Rio de Janeiro enfrentará sérios problemas de abastecimento. E seu povo, como os camelos, precisará arrumar maneiras de armazenar água para não se sentir num deserto.

E se o motivo for outro?

Com tantos franceses apaixonados pelo Rio, não terá vindo de um deles a ideia de batizar o belo morro com o nome do

(14)

personagem de Victor Hugo, o Quasímodo, que ficou famoso mundialmente como Corcunda de Notre-Dame?

Não, senhora…

Pas de tout, monsieur!

O Corcunda de Notre-Dame será criado um pouco mais tarde.

Mas a vida tem suas coincidências (e aqueles que procuram, costumam achá-las). O corcunda francês nascerá em 1831, exatamente cem anos antes da inauguração do Redentor no alto da corcunda do morro brasileiro.

Mais cedo ainda, neste 1824 para o qual nos transportamos agora, uma grande comitiva saiu do centro do Rio de Janeiro para mais um passeio dominical. Quem nos conta é o pintor Debret, o francês mais carioca que você vai conhecer.

Debret saiu acompanhado de alguns outros estrangeiros, e isso não é novidade. Mas ele foi também acompanhado de nobres brasileiros e de Sua Majestade Imperial e Fidelíssima, o imperador Pedro. Aliás, faz pouquíssimo tempo que dom Pedro disse ao povo

“que fico” e, rebelado contra o pai dom João VI, declarou a Independência do Brasil.

Pedro ainda não sabe que a história o conhecerá como primeiro e muito menos que haverá um segundo Pedro, pois seu filho caçula ainda está por nascer. Mais que isso. Pedro teme que o Brasil não passe de um efêmero sonho de verão, pois nem por um segundo deixa de pensar em todo o esforço que precisa fazer para garantir que a decisão de ficar, expressa de uma janela do Paço Imperial, e o brado de independência que retumbou às margens do rio Ipiranga em setembro, não tenham sido em vão.

O jovem imperador está decidido a nacionalizar quase tudo, tirando das mãos de Portugal e de outros europeus o que for possível para fazer do Brasil um país soberano. É nesse contexto de separação recente, ainda temendo que naus inimigas lhe apareçam diante do forte de Santa Cruz, que dom Pedro está subindo um dos morros mais exuberantes da capital de seu império. Dirão que ele foi

“o primeiro homem branco a chegar ao cume do Corcovado”, mas isso é bobagem, mais um daqueles mitos tolos que se criarão e divulgarão sem qualquer critério.[7]

(15)

Podemos imaginar que, ao menos durante a caminhada, Pedro trocou os temores pelo encantamento. A subida a cavalo está sendo, mais uma vez, agradabilíssima. Que delícia beber a água que brota tão limpa e fresca dos veios deste Corcovado!

Imaginamos o esforço dos muitos escravos que vão levando mantimentos para que Pedro possa compartilhar de uma deliciosa refeição com o pintor e com seus outros convidados. O que ficará escrito no diário de Debret é que, diante da natureza única da cidade, fizeram todos uma refeição campestre, uma espécie de piquenique imperial, perto da árvore onde Pedro já havia inscrito a data de uma visita anterior ao morro do futuro Redentor: 22 de fevereiro de 1824.

Alguns meses atrás, o imperador descobriu essa trilha e se tornou um assíduo frequentador do Corcovado. Daqui de cima, pode ver de longe se por acaso alguma embarcação se aproximar. Ele, inclusive, já mandou fazer algumas obras de urbanização. Ajeitou o caminho, criou uma espécie de mirante e um parapeito que são de muita serventia neste memorável dia.

O Corcovado lhe parece tão estratégico que o imperador quer iluminar a subida com as novas lâmpadas a óleo que comprou. Quer também montar aqui mais um ponto de seu “telégrafo” que, na realidade, não passa de um sistema manual de comunicação a distância por meio de bandeiras. Mas vai ser assim mesmo, com essa tecnologia manual, que sua majestade vai conectar o Rio de Janeiro ao Cabo Frio e, particularmente, ao palácio de Santa Cruz, onde passa momentos prazerosos e preocupados.

Pois a ameaça de invasão não lhe sai da coroa.

Se os portugueses resolverem voltar para reconquistar suas terras, ó pá, hão de vir, muito provavelmente, pelas águas desta baía de Guanabara que Pedro agora admira, e muito provavelmente a primeira coisa que hão de ver será este morro lindo e sem Cristo.

Mas, se os navios do pai de Pedro vierem mesmo enfrentá-lo, um guarda imperial vai rapidamente enviar um sinal de bandeiras para que os militares, lá embaixo, preparem a defesa.

Abraçar o Corcovado.

Ora, isso sim é proteger o Brasil!

(16)

Nada, no entanto, impediu os estragos causados por uma terrível tempestade que lançou raios sobre o local onde funciona o tal telégrafo de bandeiras e, vejam só, logo sobre a Bandeira Nacional e Imperial que acaba de ser desenhada com o brasão criado pelo mesmo Debret que acompanha o imperador neste passeio.[8] Talvez o raio sobre a bandeira tenha sido um prenúncio.

Pois muito em breve a monarquia vai ser atacada… furiosamente atacada… até que a coroa será arrancada da cabeça do segundo Pedro.

Mas, curiosamente, será depois que a República expulsar os antigos monarcas e cortar os laços governamentais com a Igreja, quando o Brasil tiver se tornado um país legalmente sem religião e sem Deus, depois que o cristianismo trazido pelos portugueses for escorraçado pelos positivistas ateus que serão os novos donos da política… vai ser justamente numa reviravolta em cima da reviravolta, sendo ele próprio o símbolo dessa reconquista, que o Cristo Redentor vai nascer sobre a corcova do Rio de Janeiro.[9]

(17)

C

APÍTULO

2

N

A MONTANHA ONDE OS ESCRAVOS BUSCAM PROTEÇÃO

,

O

R

IO DE

J

ANEIRO SE REFLETIRÁ EM PÉROLAS QUE ESCORREM PELO ÉBANO DAS BOCHECHAS

. H

Á UM QUILOMBO PERTO DE ONDE UM DIA VAI ESTAR O

C

RISTO

R

EDENTOR

,

E OS ESCRAVOS FUGIDOS AMEAÇAM A PAZ DOS SENHORES BRANCOS

. S

ERÁ PRECISO COMBATÊ

-

LOS

!

UM NOBRE MORADOR DA praia do Flamengo perdeu seu relógio de ouro quando passeava no Corcovado. Era um relógio de bolso de fabricação inglesa, mais que adequado para um nobre representante de uma elite que veste cartola para passear na charmosíssima rua do Ouvidor, mesmo nos dias em que os termômetros se aproximam dos quarenta graus. O cavalheiro decidiu publicar num jornal da cidade este anúncio oferecendo 50 mil-réis para quem lhe devolver o relógio. É fácil identificá-lo, pois tem “um pequeno sinete atado por uma fita preta”.[1] E isso um dia poderá ser compreendido como uma ótima notícia: um objeto tão valioso perdido no alto do Corcovado em 1822 pode ser recuperado.

É um Rio mágico!

Atmosfera que, essa sim, não se poderá reaver.

A capital ainda não tem as mazelas que o futuro lhe reserva.

Mas já está vendo as sementes…

Nas páginas dos jornais, estampam-se inúmeros anúncios que oferecem pessoas escravizadas. Elas são pretas. Vieram da África ou nasceram de ventres africanos. Estão à venda, sim, senhor! Se você precisa de uma doméstica pode comprar uma “preta ladina, de dezoito anos, que sabe cozinhar, lavar, e o mais serviço de uma casa”.[2]

(18)

E há outros anúncios tratando de uns quantos escravos que fugiram, como um certo João, homem pardo que saiu da casa do senhor vestindo uma jaqueta de riscado roxo. João levou com ele uma faca. E não era para menos, “pois já esteve fugido por um ano no morro do Corcovado”.[3] Pela devolução do escravo, Francisco da Costa oferece os mesmos 50 mil-réis que o anunciante anônimo ofereceu pelo relógio de ouro.

Um bom preto vale um relógio?

Ou vale ouro?

Lá em cima, onde um dia vai estar o Redentor, há um homem alto olhando para o Rio. Podemos imaginá-lo perto do cume, onde muito tempo depois será erguido um famoso monumento. E, se o homem não está de braços abertos, é porque a vida lhe foi demasiadamente dura.

Mas a esperança não se perdeu.

A cabeça virou-se para baixo.

O olhar está sereno como um dia será o do Redentor.

Dizem que seu nome é José, e ele agora está diante de uma cascata na sombra de uma palmeira. É neste momento que lhe aparece um estranho que fala estranho.

Ah, sim… que novidade!

Mais um francês falando português.

Higino de Brémoy vai nos contar que aquele jovem tem os olhos fixos na imensidão do mar. O que faz esse preto no Corcovado?

— Estou rogando as águas de levar minhas saudades à minha terra.

O branco francês notou que “o negro infeliz” usa as mangas de sua camisa cinza para secar “duas lágrimas grossas que brilham como pérolas sobre o ébano de suas bochechas”.

É o próprio Rio que vemos refletido nas pérolas de José.

Higino reparou que o ex-escravo tem uma expressão de orgulho e que, “apesar de suas roupas grosseiras”, tem uma dignidade em sua postura “que realça ainda mais sua altura”. Parece que José ficou feliz de ver que um branco conversava com ele, pois resolveu convidá-lo para conhecer seu refúgio.

É uma cabana coberta com folhas de árvores que não tem nada além de duas escadas e uma esteira de junco.

(19)

O único ornamento é uma cruz.

Foi José quem a talhou num pedaço de jacarandá.[4]

Ao mesmo tempo que roga às águas para levar suas saudades, José tem rezado ao Jesus Cristo que vê em sua cruz na esperança de um dia juntar dinheiro para voltar a Angola. Faz três meses que se mudou para esta cabana no Corcovado. E desde então a cruz está dependurada num prego, com uma pequena caixa em sua base.

Dentro da caixa há quatro esculturinhas em madeira escura.

“Este aqui é meu tio e meu rei”, José está contando ao visitante francês enquanto pega os bonequinhos na mão. “Este é meu pai.

Esta é minha esposa. E este… ah, o que posso dizer? Os bárbaros não me deram tempo de vê-lo nascer.” [5]

Terá sido a cruz de José a primeira no alto do Corcovado?

Ou este José só existe na imaginação de um ficcionista francês?

Nunca saberemos.

Seja como for, a história que foi publicada numa revista francesa neste 1840 nos revela algo sobre o morro e seus primeiros moradores, os antecessores do Redentor.

O primeiro registro formal de que uma cruz foi fincada no alto do Corcovado aparece num jornal. Em 7 de setembro de 1853, para comemorar os 31 anos da Independência do Brasil, o escritor e diplomata José Maria do Amaral liderou um grupo nacionalista que construiu um pequeno monumento com uma cruz de ferro, praticamente no mesmo lugar onde mais tarde estará a estátua de Jesus Cristo.

É meio que “para sempre” que o nacionalismo vai andar de mãos dadas com o cristianismo no Brasil.[6] E vai ser de um movimento nacionalista que o Cristo Redentor vai nascer. Sendo assim, faz todo sentido pensar nessa primeira cruz como uma precursora do futuro monumento. E os nacionalistas do século XIX

gravaram na cruz o dia da Independência assim como os nacionalistas do século XX desejarão construir uma estátua de Jesus para comemorar o centenário dessa mesma data de orgulho nacional.[7]

Na base da cruz nacionalista do Corcovado, está escrito um trecho do livro de Joel, do Antigo Testamento.

(20)

“Fazei sobre isto uma narração a vossos filhos, e os vossos filhos a seus filhos, e os filhos destes às outras gerações.”[8]

Muito mais que uma mensagem religiosa, no entanto, o que Amaral quer transmitir às gerações futuras é a ideia de um Brasil feito pelos brasileiros e para os brasileiros. É um discurso de aversão ao estrangeiro que, de tempos em tempos, vai causar euforia.

“Aceitar e guardar religiosamente, como dogma santo da sociedade, o artigo 1º da Constituição Política do Império…

ajudando o governo, seja qual for a sua cor política, a expelir o estrangeiro de qualquer ponto do território e rios do Brasil.”[9]

Podemos pensar que antes mesmo desta cruz nacionalista deve ter havido no Corcovado alguma outra cruz. Claro que sim. Podia estar no oratório de uma das casas dos muitos estrangeiros que se instalaram por aqui (e não foram expulsos), como um ex-general de Napoleão que se mudou para a montanha ainda antes que dom Pedro resolvesse passear aos domingos.

O branco Dirk van Hogendorp saiu às pressas da Europa em 1816 e veio se exilar na mesma encosta onde se esconde o preto José, seja ele real ou imaginário, onde alguns anos depois o tal Amaral cravou sua cruz.[10], [11]

Neste começo de século XIX, o Rio tem 150 mil almas, das quais ao menos 90 mil são de escravos.[12] Ou seja, se você conhecer cinco moradores da capital brasileira, dois deles serão os donos dos outros três. E, já na metade do século, essa população vai saltar para 450 mil. Na falta de um IBGE, um diplomata estrangeiro que anda pelo Rio vai supor que a proporção desse rio de lágrimas sobre peles escuras é de um cidadão livre para dois escravizados.

[13]

E assim como José, eles fazem o possível para ver o mar.

Fogem aos montes.

E para os montes.

Escapam de seus senhores com justíssimos anseios de liberdade, coisa que a elite que acorda dizendo bonjour não aceita.

E ninguém pode dizer que os poderosos do Brasil não sabem do que anda acontecendo pelo mundo.

(21)

Eles conhecem perfeitamente a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, nascida com a Revolução Francesa que eles tanto admiram. Sabem que está escrito lá que “todo homem nasce e permanece livre com direitos iguais”. Sabem que os movimentos de proibição do comércio escravo estão ganhando força no mundo inteiro. Sem falar que, ainda em 1793, os pretos da ilha de Santo Domingo humilharam as tropas coloniais de Napoleão para fazer do Haiti a primeira nação sem escravidão, tornando-se, pouco depois, um país independente e governado pelos ex-escravos.[14]

Eterno casuísmo… Querendo manter seus privilégios, o Brasil de dom Pedro ainda encontra desculpas maltrapilhas para seguir escravizando almas. E a revolta brota furiosamente. É provável que os pretos brasileiros estejam sendo inspirados pelos haitianos, e certamente estão informados de como as coisas já mudaram também em Portugal.

Na esperança de viverem livres e com direitos iguais, muitos se refugiaram, justamente, aos pés do morro de águas frescas onde a floresta é dadivosa e os protege tão bem, não muito longe do ponto por onde o imperador gosta de passear nos fins de semana.

Mais de um século depois do surgimento do histórico Quilombo dos Palmares no Nordeste brasileiro, os pretos fugidos formaram aos pés do Corcovado um dos primeiros quilombos dos morros do Rio de Janeiro — o que um dia será visto também como uma das primeiras favelas.[15]

Quilombo, como contará Laurentino Gomes em sua obra sobre a escravidão, é uma palavra de origem angolana que podia significar acampamento, arraial, união ou cabana. Laurentino mostrará que

“fugas eram formas de resistência à escravidão bastante comuns em todo o continente americano”, e citará um relato espantado do francês Gabriel Dellon. [16]

“Os maus-tratos obrigam-os por vezes a fugir para o mato e a viver por aí pilhando tudo o que encontram pela frente, vingando-se de certo modo dos tormentos que lhes foram impostos.”[17]

Está claro que a origem do crime nos morros do Rio é a resistência à opressão e à crueldade impostas aos escravos pelos brancos, especialmente homens brancos e poderosos que deveriam

(22)

saber que, em vez de se comportar como humanos, estão agindo como uns diabos em seus pináculos tropicais.

Já faz anos que os quilombolas moram no Corcovado. E por mais justos que sejam seus anseios, os homens e as mulheres que lutam por suas liberdades de fato roubam. Para sobreviver sem as correntes que lhes impuseram, não encontram alternativa que não seja descer o morro e roubar as casas dos ricos que os escravizavam, em bairros como Catete e Botafogo.

É a resistência.

Vingança também.

Eterna busca pela sobrevivência.

Mas, para quem decide os rumos do país, os pretos do Corcovado são meramente ladrões. E, assim, entre o quilombola faminto e o senhor branco que até sonha em língua estrangeira, estamos vendo aqui as origens da cidade partida que se partirá de maneira cada vez mais profunda até chegar ao século XXI.[18]

Será que falta um Cristo gigante para lembrar a decência aos brasileiros nestes primeiros séculos de atraso? Ou o que falta aos nobres senhores é seguir os ensinamentos do Jesus que eles tanto proclamam para começarem de uma vez a tratar o próximo com o imenso amor que dedicam a si mesmos?

Os quilombolas preparam o contra-ataque. Estão armados até os dentes com os fuzis que lhes chegaram pelas mãos de militares desertores que se juntaram ao movimento. E eles, brancos e pretos, prometem lutar até cair.

Percebendo o vespeiro que está surgindo, numa certa noite de 1827, policiais e milicianos fizeram um ataque coordenado ao quilombo do Corcovado e prenderam mais de sessenta homens.[19]

Muitos morreram.

Um jornal carioca que é publicado em língua francesa está agora comemorando a destruição do que batizou de “covil de ladrões”. É mais uma referência bíblica ao morro que já foi comparado às montanhas de Jericó.

Engraçado…

Os moradores deste país tropical abençoado por Deus estão o tempo todo a ver Jesus lá em cima, mas, como nos dirá um dia uma certa canção suburbana, com frequência, ele “está de costas”.[20]

(23)

A realidade nua e crua é que este morro já está se transformando num símbolo do Rio. Não apenas do Rio maravilhoso que abre seus braços a todos, mas também daquele que aparece coberto de nuvens, eterno paradoxo da cidade em que o rico e o pobre convivem na natureza mais impressionante que pode existir

— a capital dedicada a são Sebastião crivado, onde cada ribanceira é uma nação.

Como nada parece derrotar os quilombolas do Corcovado, em 1829 formou-se um batalhão de soldados “indígenas civilizados”

para combatê-los. O francês Debret nos contará em seu diário que isso foi necessário porque há certo número de ex-escravos que à noite descem à cidade à procura de alimentos, roubando as casas burguesas.

Novamente, os anseios dos ricos por fazer o Rio à imagem e semelhança de Paris se chocam com a urgência de seu povo empobrecido por resistir à opressão.

A invasão será um massacre.

E isso não merecerá destaque.

Escravos foragidos têm agora o mesmo status de criminoso que se dará mais tarde aos traficantes de drogas que aterrorizarão o Rio. E tudo isso está acontecendo no mesmo morro onde, dentro de um exato século, se erguerá a sereníssima imagem do Cristo Redentor.

Por fim, depois de quatro dias de combates, algumas dezenas de ex-escravos caíram como estevãos. E os poucos que conseguiram sobreviver acabaram por se entregar às forças imperiais. As mulheres e as crianças foram levadas presas sabe-se lá para onde. Foi uma tragédia humana que o Cristo de concreto, mesmo que lá estivesse, não teria como evitar.[21]

A desigualdade já está se formando de maneira inextinguível, não só com abismos separando brancos e pretos, mas também com os bairros nobres cada vez mais diferentes dos bairros ordinários, conforme o jornal Aurora Fluminense resolveu estampar numa grande reportagem de capa, exatos cem anos antes da inauguração do monumento ao Redentor.

“Nos bairros mais feios […] as ruas são muito irregulares e imundas. As casas de ordinário são miseráveis cabanas

(24)

espalhadas, umas de encontro às outras, entre as colinas e o mar.”

[22]

O mesmo artigo exalta a beleza única da cidade que, só mesmo por desatenção, ainda não foi batizada de Maravilhosa.[23]

“Talvez não haja no Universo terra senão a do Rio de Janeiro que ofereça nas suas paisagens belezas tão numerosas e variadas, quer se atente à forma magnífica das montanhas, quer aos contornos da margem do terreno.” [24]

E num momento em que o governo imperial se esforça para

“aformosear a cidade”, a construção que mais chama a atenção, considerada inclusive a mais importante, é a do aqueduto da Carioca, que leva “a excelente água do Corcovado até o centro da cidade”, “sobre arcos muito elevados” que mais tarde serão chamados da Lapa.[25]

Volta e meia, lá do quilombo do Corcovado, as famílias de brasileiros que fugiram de seus cativeiros, “por malvadeza ou descuido”, cortam a água dos brasileiros livres.[26]

Isso aconteceu de novo em 1833.

E de novo…

E de novo.

Agora um grande incêndio deixou o Rio sem água.

A culpa?

Vá para os quilombos!

(25)

C

APÍTULO

3

D

OS TEMPOS DE DOM

P

EDRO ÀS

U

NIDADES DE

P

OLÍCIA

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,

E ATÉ MESMO NA FUTURA VISITA DE

M

ICHAEL

J

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,

PRESERVAÇÃO

,

PACIFICAÇÃO E REDENÇÃO SERÃO IDEAIS RECORRENTES NESTE MORRO DO

C

ORCOVADO

. E

OS BRASILEIROS DO

I

MPÉRIO ESTÃO PERCEBENDO

:

SUA SOBREVIVÊNCIA DEPENDERÁ IMENSAMENTE DA CONSERVAÇÃO DA NATUREZA

!

O MINISTÉRIO DO IMPÉRIO resolveu, enfim, destacar três guardas e construir para eles um pequeno quartel nos arredores da tubulação do Corcovado. Os guardas são parte da Divisão Militar da Guarda Real de Polícia, criada logo depois da chegada da corte portuguesa, em 1809. Vão morar lá em cima para manter vigilância permanente sobre os pretos.[1]

É a avó das UPPs?[2]

“Acima do quartel, e no estreito caminho que conduz ao Corcovado haverá um portão fechado com cerca de espinhos de um e outro lado.” [3]

Não é exatamente a proposta humanitária e social das Unidades de Polícia Pacificadora que surgirão muito mais tarde. Os guardas reais que ocupam o morro são comandados pelo major Vidigal (uma espécie de coronel Ustra dos tempos do Império). O major é famoso por punir os descumpridores da lei com torturas públicas, em sessões de chicoteamento que, pela cor que deixam na pele dos pretos, são conhecidas como ceias de camarão.[4]

Coincidências da história…

Muitas décadas depois desses dias inaugurais do Corcovado, será quase aos pés do Cristo Redentor que surgirá a primeira UPP,

(26)

tentando impor na favela Santa Marta, no morro Dona Marta, e depois em outras comunidades, um modelo de ocupação com a proposta de uma polícia que apoia e deseja ser apoiada pela comunidade.

Neste mesmo morro, com uma vista parcial do Corcovado e inteira do Redentor, o cantor Michael Jackson gravará, em 1996, o videoclipe da música “They Don’t Care About Us”, chamando a atenção para uma cidade que aparentemente nunca se importou com seus pobres.

De volta ao Rio imperial do primeiro Pedro, o crime ainda não aterroriza tanto assim. O que apavora é o eterno risco de faltar água. Por isso, os guardas encarregados de cuidar dos encanamentos na nascente do Corcovado foram munidos com um pequeno arsenal. Sua principal missão é combater os crimes cometidos pelos escravos e proteger a elite brasileira.

Será que um dia isso muda?

Cada um ganhou uma espada, uma granada, um fuzil e um cinturão “com dezesseis cartuxos embalados”. Além disso, esses antecessores dos PMs, vestidos com seus gibões, receberam três machados para abrir caminhos na floresta caso precisem combater um novo incêndio.[5] A armadura de couro é necessária porque na cidade de Sebastião ainda há muitos índios. E volta e meia os soldados levam flechadas.

Em meio a tudo isso, está surgindo um problema que, muito antes de toda a preocupação ambiental que se verá no fim do século XX, já merece atenção: a destruição das florestas.

O Ministério do Império está preocupado porque os quilombolas estão derrubando árvores para construir moradias. Além disso, eles abrem roçados para plantar comida. Os franceses (que são o ideal romantizado da elite brasileira) já desmataram o país deles a torto e a direito, mas aprenderam que a natureza cobra caro. Faz tempo que replantam florestas para não terem que abrir mão do imenso prazer de caçar veados.[6] Por causa das roças que agora nascem aos pés do Corcovado, está surgindo um clarão nesse pedaço de Mata Atlântica que até bem pouco tempo era virgem.

São as primeiras de muitas áreas desmatadas que ainda virão, apesar de tudo o que o governo de Pedro está desejando fazer.[7] E,

(27)

quando um dia houver satélites em volta da Terra para fotografar essa maravilha, veremos imensos clarões ocupados de barracos e lajes de cimento, palco perfeito para se erguer, numa homenagem póstuma, uma estátua de Michael Jackson com braços abertos que receberá o apelido gaiato de Redentor da Santa Marta.

Por fim, as autoridades do Rio imperial encontraram os culpados pelo incêndio do Corcovado. E eles não são pretos. São três homens livres, donos de chácaras.

É o pecuarista do futuro que já está botando as pazinhas de fora?

Por falta de uma lei específica, o decreto publicado no Correio Oficial mandou os culpados plantarem árvores nas áreas desmatadas do morro do Corcovado. Por fim, pediu que o legislativo lhes imponha “uma rigorosa pena”, um castigo forte o suficiente para levar outras pessoas a desistirem “de semelhante abuso, do qual de certo resultarão imensos males ao povo desta cidade”.[8]

As autoridades imperiais já perceberam coisa que autoridades republicanas do futuro vão negligenciar: o meio ambiente precisa ser protegido. Entre 1846 e 1853, os funcionários do império vão plantar mais de 5 mil “arbustos em madeira de lei” na tentativa de repor o que foi perdido.[9] Pena que dessa semente tão bonita não brotarão árvores frondosas na quantidade necessária para evitar a destruição de enormes pedaços da Mata Atlântica.

Ao manifestar seu encantamento com as inúmeras belezas da floresta do Corcovado, com suas bromélias, bananeiras e figueiras imensas, o naturalista inglês Charles Bunbury registrará também suas impressões mais sinceras.

“Os arredores do Rio podem bem ser chamados de Paraíso Terrestre, mas os habitantes, certamente, não se acham em estado de inocência.”[10]

Ele não fala só dos desmatamentos, claro que não.

Charles está falando de toda a sorte de crimes e desmandos que testemunha ao caminhar pelas ruas do Rio, e também em seus arredores, onde fica o Corcovado. Mas o desmatamento volta e meia será notado por estrangeiros e brasileiros que já estão nos alertando para a necessidade de preservar a natureza.

(28)

C

APÍTULO

4

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ESUS

C

RISTO VOLTA E MEIA APARECERÁ NO ALTO DA MONTANHA ESCARPADA E POR SERÁ VISTO TAMBÉM UM

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IO ANDA DELIRANDO

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!

AINDA FALTAM MAIS DE noventa anos para que um escultor empreste linhas francesas ao monumento que será a própria imagem do Brasil. O Rio ainda não copiou os boulevards franceses nem surgiu aqui uma cópia reduzida da Ópera da cidade-luz para ser batizada de Theatro Municipal. Mas para o monsieur que frequenta os cafés ou para a madame que pode desfilar numa lindíssima soirée, o Rio tornou-se uma Paris tropical.

A elite brasileira manda seus filhos estudarem na França e, assim que possível, os traz de volta para que se tenham no Brasil advogados e médicos como os franceses. Admiram-se as coisas de lá com tamanha profundidade que até as prostitutas para serem bem-sucedidas no Rio precisam sussurrar em francês. Cabarés fazem o homem viajado se sentir no Bal Mabille ou no Château Rouge de Paris.

Quem tem dinheiro para dançar…

Ah, já sabe onde vai terminar!

E, assim, num tempo em que até os pães precisam ser chamados de franceses para parecerem melhores, passeando pela famosa rua do Ouvidor, o diplomata Melchior Yvan não sente a menor saudade de casa.

“Encontram-se nessa rua as novidades mais caprichosas apenas surgidas em Paris: alfaiates franceses, sapateiros franceses,

(29)

livrarias francesas e, o que há de mais francês ainda, modistas parisienses!”[1]

Mas, alheia aos encantos da alta-costura que embeleza a nobreza brasileira, longe das ruas estreitas onde a história do Rio se escreve, a estrada que sobe do Cosme Velho ao Corcovado está uma buraqueira só. Pedro I abdicou da coroa em 1831 e vai levar algum tempo até que o segundo Pedro dê à montanha corcunda a mesma atenção. Foi preciso um decreto municipal para exigir que a Câmara do Rio de Janeiro faça reparos no caminho “que comunica com as propriedades do morro, e que se acha quase intransitável”.[2]

Assim mesmo, Melchior subiu ao cume do Corcovado e viu de lá

“um dos pontos de vista mais bonitos do Universo… um espetáculo magnífico”. Mais que isso. Depois de descrever as belezas naturais da montanha e de sua cidade, derramou-se em encantamento.

“Em que outro lugar o olho humano pode ser tomado por uma imensidão tão maravilhosa?”[3]

O diplomata francês teve dificuldade de chegar ao cume porque a ponte que Pedro I construiu em ferro e cimento está aos pedaços.

Só será reconstruída em 1856, quando fizerem ali um terraço com um novo parapeito de segurança para que os visitantes admirem a vista.[4] Melchior viu também as “ruínas de um velho pavilhão, uma espécie de tenda permanente que o antigo imperador mandou fazer”. [5]

Há destruição e obras de reparo por todos os lados.

Os deslizamentos de terra nas encostas já não são novidade.

E o aqueduto está precisando de consertos, cheio de vazamentos.[6] Lá em cima, onde não tem obra, de vez em quando aparece um caçador apontando seu fuzil para os pássaros que povoam a floresta.

O tempo passa, o Rio se expande e o Corcovado se incorpora cada vez mais à vida brasileira. Como era de se esperar, aparece de quase tudo no morro que um dia pertencerá ao Redentor.

Certo Miguel foi condenado pelo assassinato de certo Ricardo.[7]

O crime foi no lugar conhecido como Gruta dos Quilombolas. De acordo com a sentença que lhe foi anunciada em 1853, Miguel pegou “galés perpétuas”. Ou seja, se não fugir, vai passar a vida

(30)

com correntes no tornozelo, fazendo trabalhos forçados e dormindo cada uma de suas noites na prisão.[8]

Olhando por outro prisma, Miguel teve sorte.

Escapou da pena de morte!

Ainda no mundo do crime, a notícia agora é que falsificaram notas de 100 mil-réis e as autoridades perceberam que os falsários erraram justamente nas curvas do Corcovado. Se desse jeito, nua como Deus lhe trouxe ao mundo, a montanha já é um símbolo do Brasil, o que acontecerá se um dia lhe derem um belíssimo Jesus Cristo? E se, além disso, a imagem for criada pelas mãos de um famoso escultor francês?

Esperemos, no entanto.

O que temos por ora é mais incêndio.

Um balão saiu de Niterói, atravessou a baía de Guanabara e foi queimar o pedaço de Mata Atlântica que havia na chácara de um certo sr. Castro, no Corcovado.[9]

O desmatamento sem controle preocupa.

E vai piorar.

A imprensa noticia, opina e critica — e sem seus registros, precisos e imprecisos, não será possível jamais fazer um livro que conte essa história. Depois de mais um acontecimento, o Diário do Rio de Janeiro é só lamento.

“Este incêndio nos faz lembrar o abandono em que andam as nossas matas, entregues ao machado de quem quer cortá-las.” [10]

Talvez tenha sido ao ver um desses muitos incêndios que alguém olhou para o alto do Corcovado e pensou, pela primeira vez, que lhe cairia muito bem um Jesus Cristo.

Houve, isso é certo, um escritor anônimo que disse ter visto um anjo lá em cima. Assinou como Jeremias. Nome de profeta muito bem escolhido para a narrativa em questão.

“Vi um clarão como o de um relâmpago imenso… Um sulco com as cores do arco-íris desceu sobre o cume do Corcovado e, no mais alto da montanha gigante, apareceu um Anjo do Senhor.”[11]

Na visão deste Jeremias, o anjo do Corcovado tinha forma humana “em colossais proporções”. Um gigante, portanto. E tinha o corpo coberto com um tecido branco.

Estava Jeremias profetizando?

(31)

Viu a estátua gigante que só será erguida em mais de oitenta anos?

Que nada!

Ao terminar a leitura do artigo, descobrimos que Jeremias inventou essa visão celestial para criticar os homens que influenciam Pedro II.

“Porque as almas corruptas deles se comprazem na lama da corrupção.”

É de partir o coração a constatação de que a corrupção brasileira é praga histórica, mas chega a ser divertido ler o artigo que saiu no Sentinela da Monarquia.

O tal Jeremias disse que ouviu o anjo lhe dizer que o Brasil tinha sido criado por Deus para ser “a primeira entre todas as nações”.

Algo como… Deus é brasileiro e não está feliz com os rumos de Seu país. Ele antecipou, de certa forma, a ideia de que a monarquia precisará acabar quando disse que, um dia: “Tu, Povo, vais escolher os teus mandatários”.

Mas, por enquanto, quem manda é o imperador.

E quem decide as minúcias da vida brasileira são os poderosos que, como dirá mais tarde um certo presidente democrático, “se locupletam” às custas dos cofres públicos, como “vagabundos em um país de pobres e miseráveis”.[12]

Na Paris tropical que é o Rio do século XIX, além de vagabundos, pobres e miseráveis há uns quantos sonhadores imaginando que, com a devida proteção, esta terra de natureza incomparável poderá ser, sim, o país do futuro.

Quem sabe…

Se houver um Cristo a lhe proteger!

Pois foi justamente pensando em proteger o Brasil que, em 1882, o imperador resolveu fazer uma expedição ao alto do morro como as que seu pai fazia. Pedro II não subiu o Corcovado pensando em estátua. Temendo invasões estrangeiras, mandou instalar um sinalizador para alertar os militares sobre qualquer embarcação suspeita que se aproximasse do Rio. É uma atualização do “telégrafo de bandeiras” criado por seu pai. Mais um sinal de que este morro tem vocação para proteção.

(32)

No mesmo ano, os engenheiros João Teixeira Soares e Pereira Passos, futuro prefeito da capital, obtiveram uma concessão para construir uma linha férrea ligando o Cosme Velho ao Corcovado.[13]

O imperador lhes fez apenas uma exigência: não usar mão de obra escrava na construção.

O trem começou a subir o morro em sua incrível velocidade de quatro quilômetros por hora, inaugurou-se o Hotel das Paineiras, e esses novos atrativos impulsionaram o turismo. Novamente fica claro que esse morro corcunda sempre viveu, e viverá, entre a visão religiosa e o turismo. Pedro II mandou fazerem algo mais bonito lá em cima. Onde havia só um parapeito e um abrigo improvisado, instalou um quiosque de ferro e vidro que importou da Bélgica.[14] O Chapéu do Sol ainda vai ficar muito famoso e terá que ser desmontado quando resolverem construir o grande monumento em seu lugar.

Conhecendo o Brasil imperial, não deveríamos nos surpreender nem por um instante ao descobrir que as primeiras pessoas a defender a construção de uma estátua do Redentor lá em cima foram uma princesa e um padre francês. Verdade que eles não o imaginaram de braços abertos como o veremos um dia, mas a tradição nos conta que foi no fim deste século XIX que desejaram fazer do Corcovado, pela primeira vez, o pináculo de uma grande basílica chamada Brasil.

(33)

C

APÍTULO

5

A

PRINCESA REDENTORA QUE ACABOU COM A ESCRAVIDÃO NO

B

RASIL NÃO QUER UMA ESTÁTUA SUA NO

C

ORCOVADO

. E

VAI DAR ORDEM PARA

,

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,

CONSTRUÍREM UM VERDADEIRO

R

EDENTOR EM CIMA

!

DIZ A TRADIÇÃO QUE o padre Pierre-Marie Bos estava numa janela do Colégio da Imaculada Conceição, na praia de Botafogo, quando imaginou pela primeira vez uma estátua de Jesus Cristo no alto do morro do Corcovado. Alguns escritos tardios, e sem fundamento, dirão que foi em 1859, logo no ano em que chegou ao Brasil. Mas como é possível… se nessa época o padre Bos ainda nem sonhava morar em Botafogo?

Não há um único documento de credibilidade histórica a afirmar qual foi exatamente o dia em que o missionário francês resolveu defender a ideia de erguer uma estátua de Jesus Cristo lá em cima.

A única data concreta que se tem com relação ao padre Bos é o ano de 1903, quando ele registrou seu desejo num poema, no prefácio de um livro que publicou no ano seguinte.

Para esclarecer a confusão…

Muitos padres, historiadores e teólogos dirão que foi o missionário religioso quem teve a visão e a soprou no ouvido da princesa, mas os documentos históricos, examinados com atenção, só nos permitirão atribuir a originalidade da ideia à própria princesa.

Pois é Isabel quem está registrando isso pela primeira vez. E mais até: a princesa resolveu transformar a ideia de erguer uma estátua de Cristo no Corcovado numa ordem imperial.[1]

Depois de promulgada a lei que aboliu a escravidão no Brasil, os abolicionistas quiseram homenagear a princesa que José do Patrocínio apelidara de redentora mandando esculpir sua imagem

(34)

numa estátua. E a ideia dos abolicionistas já chegou quase pronta: a estátua da redentora tem que estar no alto do Corcovado!

Entre os apoiadores da ideia estão muitos representantes da elite empresarial brasileira, o jornal O Paiz e os donos da Companhia Estrada de Ferro do Cosme Velho ao Corcovado, que certamente veem na estátua da princesa um incentivo a mais para que os visitantes paguem o bilhete do trem para subir a montanha.

Criaram até uma Comissão Organizadora, que acaba de entregar um ofício ao ministério dos Negócios do Império do Brasil pedindo autorização para construir o monumento.[2]

Isabel esperou dez dias para responder.

Mas, gentilmente, declinou.

Pela carta-resposta do ministério imperial, ficamos sabendo que Isabel mandou trocarem sua imagem pela de Jesus. Em vez da redentora, quer ver o Redentor lá em cima.

Se há, portanto, uma data histórica para o surgimento da ideia do monumento ao Cristo Redentor, é este 2 de agosto de 1888, quando o ministro dos Negócios, José Fernandes da Costa Pereira Júnior, respondeu ao visconde de Santa Victória, presidente da Comissão Organizadora.

“Manda sua Alteza, a Princesa Imperial Regente […] mudar a dita homenagem […] por uma estátua do Sagrado Coração de Nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiro redentor dos homens, que se fará erguer no alto do morro do Corcovado.”[3]

Numa coletânea de documentos históricos que publicará em 2005, o arquivista Eduardo André Chaves Nedehf contará que, em cumprimento da ordem da princesa, os viscondes de Santa Victória e Mauá viajaram a Paris. Foram a uma casa especializada em esculturas religiosas para encomendar uma estátua de Jesus em bronze e com quinze metros de altura.[4]

Provavelmente foi só por coincidência que no ano seguinte, 1889, a casa francesa Raffl Verrebout, fornecedora de estátuas religiosas para muitas igrejas pelo mundo, resolveu anunciar suas esculturas num almanaque que registra os grandes acontecimentos de cada ano no Brasil.[5] O arquivista Nedehf dirá que a estátua do anúncio é a mesma que os dois viscondes encomendaram em

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Paris: um Jesus Cristo com o coração em relevo no peito e… os braços abertos.

Até a cabeça levemente voltada para baixo, conforme um dia será o Cristo Redentor, está no anúncio da casa francesa. No entanto, não há fontes que nos permitam saber se foi essa mesmo a estátua de Jesus que os viscondes encomendaram.

De qualquer forma, com a ordem da princesa, o projeto de erguer uma estátua de Jesus Cristo no alto do Corcovado tinha tudo para dar errado, pois, meses depois, ela perdeu a coroa. Ainda conforme o relato de Nedehf, o presidente Deodoro da Fonseca mandou cancelar o projeto por considerar o monumento “uma carolice monarquista”. No lugar, mandou instalar uma base telegráfica para os militares.

Em seu livro, Nedehf termina a página sobre a alegada participação do visconde de Mauá e do visconde de Santa Victória no primeiro projeto de um Cristo no Corcovado demonstrando sua indignação com os maus hábitos da República.

“Os 190 contos de réis para a construção do monumento, doados pelo visconde de Santa Victória, nunca foram devolvidos, desaparecidos nas brumas da corrupção governamental da Velha República.” [6]

Mais de uma década depois, já sem monarquia, o missionário francês Pierre-Marie Bos exaltou exatamente a mesma ideia no prólogo do livro Imitação de Cristo, um clássico que ele traduziu para o português.[7]

“O Corcovado!

Lá se ergue o gigante de pedra alcantilado, Altaneiro e triste,

Como interrogando o horizonte imenso:

Quando virá?”

Padre Bos se refere ao Corcovado como “pedestal único no mundo”, como uma base feita pela natureza para receber a grande escultura. E ele faz o questionamento como se fosse o próprio Corcovado a pedir uma estátua em seu pináculo.

“Quando vem a estátua…

Como eu colossal, imagem de Quem me fez?”

Será que o padre Bos está com ciúme dos argentinos?

(36)

Pois três anos atrás, em 1900, o arcebispo de San Juan Cuyo, Marcolino Benavente, decidiu erguer uma grande estátua de Jesus.

Dom Benavente estava atendendo ao desejo do papa Leão XIII, que queria celebrar um período de homenagens a Jesus e, mais especificamente, às estátuas que o representam como Cristo Redentor, com a cruz e o planeta em suas mãos.

Depois de arrecadar dinheiro na comunidade cristã argentina, a comissão criada pelo arcebispo Benavente deixou o projeto nas mãos do escultor Mateo Alonso, que, em 1902, concluiu seu trabalho.

É provável que o padre Bos, fluente em cinco línguas e muito ligado nos acontecimentos do mundo, estivesse ciente de que os argentinos haviam construído um Cristo de bronze medindo seis metros de altura, segurando uma cruz, de pé sobre o globo terrestre. Na época em que Bos escreveu o famoso prefácio sobre o Cristo do Corcovado, em 1903, o Cristo argentino já estava sendo desmontado para viajar de trem até a Cordilheira dos Andes, a 3832 metros de altitude, onde ficou em definitivo, para celebrar a paz entre Argentina e o vizinho Chile.

E então…

O padre Bos teve um lampejo?

Foi dele a ideia de um Cristo gigante no alto do morro?

Ou o Redentor argentino fez ressurgir o Redentor da princesa e a imaginação do padre voou outra vez nas alturas?

Quando Pierre-Marie Bos publicou o prefácio pedindo a estátua do Redentor, não houve qualquer comentário sobre a originalidade da ideia. Saiu, sim, uma crítica literária elogiando as qualidades intelectuais do padre, que escrevia num português impecável, quebrando uma regra de que “em geral, franceses residentes no Brasil não conhecem o idioma, sempre erram, alteram, estropiam e deturpam as palavras”.[8]

Em seu português perfeito, o padre Bos registrou também a ideia perfeita: aquela que foi decretada pela princesa Isabel e que recebeu na Argentina sua primeira versão sul-americana.

(37)

C

APÍTULO

6 ATTENÇÃO!

FOI ASSIM, ESCANDALOSO, O título da seção em que saiu pela primeira vez num jornal, de maneira concreta, a notícia de que estavam planejando construir uma estátua em homenagem ao Cristo.

O pedido escandaloso por atenção, no entanto, era para os resultados de uma loteria. A notícia mesmo, aquela que mudaria a história do Brasil, não teve título.

“No alto do Corcovado vai ser erigida uma estátua ao Redentor do Mundo, idêntica à que o Chile fez erigir no alto dos Andes”, escreveu o Gazeta de Notícias, em 17 de janeiro de 1909.

Escreveu.

Mas errou feio.

É sabido que quem mandou construir a estátua foram os católicos da Argentina, e que só depois de pronta surgiu a ideia de levá-la até a fronteira com o Chile. Outro problema é que a fonte da reportagem é “o simpático jornal de Buenos Aires El Diário”, que citou como fonte apenas “um telegrama” que lhe teria sido enviado do Brasil.

Será que foi um “telegrama de bandeiras”, puro sensacionalismo ou só fake news?

Ora…

Um jornal argentino está dizendo que vão construir uma estátua no alto do Corcovado e o jornal brasileiro não checou a notícia com nenhuma autoridade?

Nem sequer procurou a Igreja?

Não perguntou se o projeto existe?

O jornalista que escreveu a nota na Gazeta de Notícias imaginou, primeiro, que fariam uma espécie de altar de igreja no alto do morro.

(38)

“Irão colocar o Cristo debaixo do Chapéu do Sol, num altar de proporções normais, constantemente florido por mãos piedosas?” [1]

Depois dessa especulação sem sentido, ele acertou no que não viu: praticamente descreveu o monumento que um dia de fato vai existir.

“Demolirão o Chapéu do Sol para que o píncaro do Corcovado sirva de base a uma imensa estátua, cujo perfil suave do Redentor se recorte na claridade diáfana deste céu azul?”

Pois…

Agora sim!

O jornalista que deu “copiar e colar” na notícia dos colegas argentinos acabou enxergando o Redentor exatamente como ele será quando for inaugurado em 1931. E foi certeiro também ao antecipar a dificuldade que será aprovar a construção de um monumento religioso num país comandado por ateus hostis ao cristianismo.

“A ser verdadeiro o projeto, só poderá ir avante depois de um acordo entre os clérigos e os positivistas, atualmente em violento antagonismo por causa do emblema da Bandeira Nacional.”[2]

Por enquanto não tem projeto algum.

E o lema que vai ficar impresso na bandeira é Ordem e Progresso mesmo, em perfeita harmonia com a filosofia do francês Auguste Comte, fundador do positivismo. Mas, em breve, os astros vão se realinhar e a Igreja vai encontrar políticos menos preocupados com as estrelas do Cruzeiro que com o apoio dos católicos. No lugar desta República que ainda não se acha velha, nascerá, de braços dados com os católicos e com alma nacionalista, uma nova República.

Mas ainda é cedo para se falar nisso… Por enquanto, a ideia que o jornal argentino jogou no ventilador está voando como balão desgovernado pelos céus do Rio.

No mesmo 1909, os jornais publicaram a notícia de que

“senhoras da alta sociedade” do Rio de Janeiro pretendem arrecadar fundos para comprar uma grande imagem de Jesus Cristo e colocá-la no morro do Corcovado.[3] Uma dessas reportagens explicou que o plano era inscrever no pedestal da estátua “o nome de D. Isabel, a redentora”.[4]

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