C
INQUENTA ANOS EM MAUS LENÇÓISC
APÍTULO26
A
GORA QUE A FESTA ACABOU O MONUMENTO SERÁ PRATICAMENTE ABANDONADO,
E AINDA POR CIMA,
VAI SER PRECISO DEIXÁ-
LO ÀS ESCURAS!
NÃO FOI LOGO NO dia seguinte, nem uma semana depois. Mas foi tão rápido que não seria exagero se disséssemos que, assim que se apagaram as luzes da inauguração, o Cristo Redentor começou a ser abandonado.
A notícia que nos chega ainda neste ano de 1931, às vésperas do Natal, é que o monumento continua sendo muito visitado, mas o caminho que se percorre para vê-lo está muito perigoso.
Uma reportagem na primeira página do Correio da Manhã reclama que não destacaram “um policial sequer” para cuidar dos turistas em volta da estátua. E isso está facilitando a vida dos criminosos. Um homem subiu no trem cheio de turistas com uma faca e os fez reféns.
— Daqui até o Corcovado ninguém dá uma palavra — ordenou o criminoso.
A reportagem não conta muito bem o desfecho da história, mas ficamos sabendo que alguns pertences dos visitantes foram roubados. Podemos imaginar que tenham sido joias, relógios e carteiras. É uma reportagem inconsistente, como também o será o cuidado que darão ao monumento nas próximas décadas.[1]
A notícia que surge, meses depois, é que o Cristo vai ficar permanentemente iluminado durante a noite. A cidade não quer abrir mão de sua beleza nem por um instante, mas é também por causa dos crimes que as luzes lá em cima precisam ficar acesas.
E, de tempos em tempos, o Redentor é notícia.
Ou boato…
Apareceram manchas num de seus braços.
Dizem que levou tiros.
Se não respeitam o Cristo, quem irão respeitar?
“Gesto que só de vândalos poderia partir.” [2]
Mas não foi isso.
É a qualidade da construção e sua resistência às intempéries da natureza que estão sendo postas à prova.
Técnicos que fizeram uma perícia concluíram que as tais manchas são a consequência de “faíscas elétricas”, ou seja, relâmpagos que atingiram o Cristo numa tempestade. Aliás, esse será um problema eterno e, curiosamente, o dedo médio da mão direita do Redentor sofrerá para sempre com os malditos raios. [3]
Vejam o que dirá o padre Omar, muito mais tarde, quando for o reitor do santuário.
“Aquela coisa de que ‘raio não cai duas vezes no mesmo lugar’ é um mistério no dedo médio do Cristo.”[4]
Problemas meteorológicos à parte, neste começo dos anos 1930, qualquer desatenção dos católicos com seu Redentor seria perfeitamente compreensível. A chamada Revolução de 30 completou três anos e só agora o Brasil está pensando em sair deste estado provisório em que andou. Quer acabar também com esta temporada de tenentes e interventores que ocupam o lugar de administradores eleitos tanto no governo federal como nos estados.
Em 1933, abriram-se as negociações para uma nova Constituição e foi preciso reforçar o lobby na Câmara dos Deputados. Foi também o momento certo para cobrar de Getúlio Vargas pelo apoio que o cardeal Sebastião Leme lhe dera para consolidar a derrubada de Washington Luís.
Assim, a Constituição de 1934 voltou a ter benção divina.
Literalmente.
Ele aparece uma única vez, mas é na primeira linha, onde está dito que os deputados que a escreveram depositaram sua
“confiança em Deus”. Mas se Deus é de todos os cristãos, a nova Constituição é uma vitória particular dos católicos. Mesmo sem oficializar o catolicismo, a nova Carta Magna concedeu ao casamento religioso “os mesmos efeitos que o casamento civil”, abriu o caminho para o ensino religioso nas escolas, permitiu a inclusão de padres nas Forças Armadas, nos hospitais e nas
penitenciárias, e selou o processo de reaproximação entre a Igreja e o Estado — sem torná-lo religioso como no Império e sem, tampouco, fazê-lo ateu como na Velha República.[5]
Ah, sim, num momento em que há um grande clamor pelo direito ao divórcio, depois de uma série de tentativas de oficializar esse fato jurídico, a nova lei chegou afirmando aquilo que a Igreja desejava: o casamento é até a eternidade. Pela Constituição de 1934 só existem duas coisas indissolúveis: a família brasileira e a federação.
Depois de imensas vitórias católicas, o Brasil recebeu a primeira visita de ares papais de sua história. Bem… Eugênio Pacelli ainda era só cardeal, mas veio ao Rio como emissário de Pio XI e um tempo depois começará seu pontificado assumindo o nome de Pio
XII.
Ajoelhou-se diante do Redentor.
Congratulou os brasileiros pela reforma constitucional.
E disse que, para ele, a estátua no alto do Corcovado é “o sermão da montanha cristalizado em rocha”.
Getúlio Vargas retribuiu a gentileza.
“É com os mais vivos e sinceros sentimentos de regozijo que o Brasil abre seus braços acolhedores para receber a honrosa visita.”[6]
A imagem de um Brasil de braços abertos entrou no discurso oficial.[7]
E o que estamos percebendo é que a estátua está assumindo significados muito mais laicos que religiosos. A realidade concreta é que o Redentor está virando um lindo cartão-postal. E ponto-final.
A Igreja perceberá isso, mas só muito mais tarde se esforçará para ressaltar os aspectos religiosos de seu Jesus Cristo. Isso só vai acontecer mesmo nos anos 2000, quando o padre Omar Raposo pegar para si o cajado que o cardeal Leme deixou lá em cima e compreender que a linda imagem tem funções religiosas, ambientais e turísticas.
Falta muito para que se tenha tanta clareza.
Neste século XX em que do pó de cimento se fez a estátua, não existe propriamente uma devoção a ela como existe à santinha Nossa Senhora Aparecida e a tantas outras imagens às quais os brasileiros fazem pedidos e agradecimentos. O máximo que
ouviremos falar será, provavelmente, um pedido da famosa cantora lírica Gabriella Besanzoni Lage para uma “missa por graça recebida”
aos pés do Cristo.[8] Não há notícia de milagres atribuídos à imagem que traz o Sagrado Coração em seu peito. Incrivelmente, a escultura religiosa mais impressionante do Brasil é uma das poucas às quais muito raramente será atribuído um milagre.
Talvez pela falta de uma cruz em seu formato tradicional, talvez pela falta de uma paróquia propriamente dita funcionando a seus pés, por muito tempo, pouca gente olhará para o Cristo do Corcovado como um símbolo estritamente religioso. Cada vez mais, ele vai se tornar o Redentor do Rio, o “Cristo de concreto”, como dirá a canção que o americano James Taylor dedicará à cidade.[9]
Por outro lado, na falta de grandes símbolos nacionais, num tempo em que o nosso futebol ainda é uma desgraça, eliminado na primeira rodada do Campeonato Mundial deste 1934, o brasileiro viu no monumento católico um de seus maiores motivos de orgulho e o transformou numa imagem do país.
Em todos os aspectos.
Pois agora, apenas cinco anos depois da inauguração, o Redentor virou também um espelho do Brasil: maltratado e maltrapilho, com “um aspecto desolador de descuido, de abandono e até de pouco caso pela vida de seus visitantes”.[10]
O que poderá ser mais simbólico deste Brasil de euforias, tragédias e esquecimentos do que deixarem aos pés do Cristo uma escada provisória? E faz quase uma década que ela está ali. Já até apodreceu. Coloca em risco a vida dos brasileiros e estrangeiros que têm sido tão efusivamente convidados a subir a montanha.
A promessa era trocar a escada de madeira por uma de ferro, mas a negligência, como de hábito, tem sido maior que a prudência.
Além disso, a base do monumento não foi devidamente pavimentada. O piso irregular acumula poças, os mosquitos se multiplicam e não há fé que proteja o visitante.
Heitor, o maior responsável por colocar o Cristo lá em cima, sofre ao perceber que seu monumento vive um tempo de
“desolação, de tristeza”.[11] Está vendo no alto do Corcovado o que todo carioca já viu: um lugar inóspito, uma espécie de covil de malandros.
O jogo da chapinha está rolando solto.
— Nesta está, nesta não está… quem quiser dizer onde está a bolinha pode apontar. — Podemos ouvir o malandro, muito bem-vestido, preparando-se para enganar mais um trouxa, e bem aos pés do Cristo.[12]
A chapinha corre solta, mas toda vez que os “meganhas”
aparecem por lá, os “meliantes” dão um jeito de “se pirulitar”. Até que, em 1º de abril de 1936, um delegado tinhoso conseguiu prender o chefe do grupo, de apelido Meirinho. Depois de levá-lo à delegacia, o delegado ainda subiu o Corcovado de novo para prender Ceguinho, Oswaldinho e Cahavé.[13]
O pedestal magnífico sobre o Rio é também um cenário convidativo para suicidas em potencial. Não vamos aqui falar dos muitos casos que sucederam e sucederão, mas um deles, pela fama do personagem, merece registro.
Endividado dos pés à cabeça, o famoso compositor Assis Valente resolveu acabar com sua vida… de novo. A segunda tentativa é aos pés do Cristo e será impedida por alguma força invisível, ou pura sorte. Assis chegou, cumprimentou o vigia José Manoel, conversou com ele por alguns minutos, e finalmente contou sobre sua intenção.
— Vou me jogar daqui de cima! — Foi mais ou menos isso o que o cantor suicida disse ao vigia.
— Ora, seu Assis Valente… não faça isso — podemos imaginar a resposta de José Manoel.
Talvez o vigia português nem saiba que o homem é o compositor de “Cai, cai, balão” e tantos outros sucessos do rádio. Talvez saiba, pois faz tempo que chegou ao Brasil e quase todo mundo aqui conhece Assis Valente. O fato é que o vigia do Cristo foi tentar impedir o suicídio… e falhou.
Assis ainda teve o cuidado de tirar o sapato.
E se jogou.
Ocorre que o seu corpo caiu sobre uma árvore próxima.
Bombeiros foram chamados e resgataram o ferido compositor na árvore, machucado e com escoriações, mas sem qualquer gravidade.
“Milagre da Providência”, estampou o Jornal do Brasil.[14]
Entre cenas tristes que ficaram famosas, ouvimos falar muito das rodas de malandro que afugentaram turistas e de um sério problema de falta de conservação. A situação ficou tão escandalosa que, ao assumir interinamente a prefeitura do Rio, o cônego Olímpio de Melo resolveu pedir à Câmara que fizesse um empréstimo de cem contos de réis “para auxílio ao monumento”.[15]
A resposta vai demorar.
As coisas estão novamente tumultuadas no governo brasileiro.
Getúlio não está satisfeito com o poder que tem e resolveu dar um golpe de Estado para instituir uma ditadura presidencial ainda mais autoritária que a primeira parte de seu governo. Com um discurso nacionalista que se baseou numa mentira — a de que havia um plano comunista para tomar o poder —, o presidente cancelou as eleições, ficou no cargo e concentrou os poderes ainda mais em torno de si.
Dirão que os militares teriam instituído um regime autoritário
“com Getúlio, sem Getúlio ou contra Getúlio” e não é de estranhar que, em vinte anos, o Brasil se veja diante de um novo golpe, sem Getúlio, mas com o mesmo argumento de impedir a tomada de poder pelos comunistas.[16]
Assim, sob o termo propagandístico de “Estado Novo”, Getúlio vai conduzir o Brasil até 1946. Até lá, vamos todos conviver com essa ditadura. E será no começo da Era Vargas, em 1938, que a nação irá se encantar com a arte e as “bicicletas” de Leônidas.
Legal isso!
O Brasil agora descobriu que é bom de football.[17]
O time do atacante que atende pelo apelido de “Diamante Negro” mostrou seus encantos no Campeonato Mundial da França, saiu de lá derrotado, mas homenageado pelo belíssimo futebol prejudicado pela péssima atuação dos árbitros. Leônidas foi eleito o melhor do mundial. Estamos num tempo em que o samba já é paixão nacional e o futebol é uma promessa para o futuro próximo.
Jules Rimet, por enquanto, é só o nome do presidente da Fifa, mas em breve a taça que leva seu nome chegará ao Brasil e fará os brasileiros acreditarem que a terra do Cristo, da mulata e da bossa nova é o melhor lugar do mundo!
Por enquanto, o que sabemos é que o Brasil saiu da França pedindo ao sr. Rimet o direito de sediar o próximo campeonato, e o terá. Mas não nos próximos anos, pois o mundo está entrando numa guerra sem precedentes. Só em 1950 a Copa do Mundo chegará à cidade do Cristo e terminará com um maracanaço para criar oito anos de abismo na autoestima brasileira.
Mas espere, leitora…
Espere, leitor!
Ainda estamos à beira da Segunda Guerra e muita gente neste fim dos anos 1930 está iludida com o fascismo de Mussolini e o nazismo de Hitler. A ilusão é tão imensa que vão usar o Cristo Redentor para homenagear um fascista.
A estrada que sobe até o Corcovado foi reformada e o acesso de carro ficou mais fácil. É lá para o alto que estão subindo os italianos que vivem no Rio, acompanhados de um batalhão de religiosos e políticos, para rezar uma missa de sétimo dia em homenagem ao famoso Guglielmo Marconi.
Pois é… o Guglielmo.
Aquele que a lenda ainda afirma que foi o responsável por iluminar o monumento no dia da inauguração. Ele morreu em 20 de julho de 1937, sem ver a Segunda Guerra nem saber que o genocídio foi uma terrível consequência do nazifascismo que ele tanto apoiou. Os jornais brasileiros não tiveram nenhum constrangimento ao noticiar que os italianos realizaram a homenagem ao grande gênio italiano “segundo o rito fascista”, sem explicar que diabo era isso.
Quando se olhar para trás, muitas décadas depois, será estarrecedor constatar que a cerimônia fascista foi organizada pela prefeitura do Rio, embelezada pela orquestra do Theatro Municipal e enaltecida por uma esquadrilha de aviões militares do Brasil com a benção da Igreja católica.[18]
Como muitos dos bem-sucedidos populistas que ainda virão, Adolf Hitler e Benito Mussolini dizem estar defendendo seus povos quando estão em realidade pensando apenas em seus próprios interesses. Ostentam valores supostamente cristãos, em nome de suposta moral e do respeito à família, quando se sabe que a conservação de tradições à custa das liberdades nunca terá
absolutamente nada a ver com o amor incondicional que foi a base da pregação de Jesus Cristo.
Setembro de 1939 chegou e estão todos vendo mais um terrível derramamento de sangue. Mais de 6 milhões de judeus vão morrer nos campos de concentração. A carnificina já está se desenhando à vista de todos, mas o Brasil é governado por um ditador simpático ao fascismo, especialmente o fascismo italiano, e ele vai ficar neutro por muito tempo até que seja pressionado a apoiar os Aliados liderados pelos Estados Unidos.
Neste 1942, depois que submarinos alemães e italianos afundaram mais seis navios mercantes brasileiros no Nordeste do país, passou de mil o número de mortos no país de Getúlio, o povo foi às ruas protestar, e o populista do Catete finalmente se posicionou contra os genocidas. A guerra vai acabar levando ao fim da ditadura Vargas, mas neste 31 de agosto o presidente assinou o decreto declarando a entrada do Brasil nos combates.
“Não quisemos a guerra”, o presidente está dizendo, “mas os que no-la impuseram verão que não ficará impune a injúria à nossa soberania.”[19]
Dizem que o Cristo Redentor está com esses braços sempre abertos para proteger o Brasil, mas agora o Brasil também precisará protegê-lo, e proteger sua capital.
É preciso apagar as luzes.
Apenas quatro dias depois da entrada do Brasil na guerra, o Serviço de Defesa Passiva Antiaérea determinou o “escurecimento de certos focos de luminosidade” que podem permitir aos inimigos a identificação de pontos sensíveis da capital do Brasil. O primeiro da lista é o Redentor.[20]
E, para piorar, nestes tempos escuros, o Brasil vai perder seu cardeal.
Sebastião Leme, líder espiritual e político dos católicos do Brasil, o homem que fez de Nossa Senhora Aparecida padroeira e moveu montanhas para erguer o Cristo Redentor, morreu em 17 de outubro de 1942.
A perda de um líder ativo com apenas sessenta anos comoveu o Brasil.
“Desaparece com ele um patriota sempre preocupado com os problemas sociais e políticos desta terra”, escreveu o jornalista Austregésilo de Athayde.
No túmulo, na Igreja de Santana, no centro do Rio, religiosos mandaram esculpir uma imagem do cardeal Sebastião Leme de corpo inteiro, vestido em suas roupas cardinalícias, tudo em bronze.
[21] Nos lados, baixos-relevos registram quatro de seus grandes feitos. Entre eles, a imagem de Nossa Senhora Aparecida, que Leme fez padroeira, e o Cristo do Corcovado, onde para sempre veremos pulsando o coração de Sebastião.
A frase que aparece junto da imagem da estátua parece falar ao mesmo tempo do Cristo e do cardeal.
“Redentor e defensor da pátria.”[22]
C
APÍTULO27
O
FIM DA GUERRA TRARÁ ALGUMAS BOAS NOTÍCIAS,
MAS NÃO SE ESPANTE SE FICAR SABENDO QUE OS BONS VENTOS AQUI EM CIMA SÃO PASSAGEIROS. H
EITOR,
ETERNO PROTETOR DOR
EDENTOR,
IRÁ NOS DEIXAR. P
AUL,
O CRIADOR DA ESTÁTUA,
TAMBÉM PARTIRÁ
. E
A ESTÁTUA ÓRFÃ PASSARÁ MUITO TEMPO MANCHADA.
AGORA QUE HITLER ESTÁ perdendo a guerra e já não tem ameaça de submarino na costa brasileira, o Rio pode reacender as luzes de seus edifícios altos e monumentos. Está tudo ficando claro outra vez. Mas, espere… Acabam de informar que o Cristo Redentor é o único que vai continuar às escuras.
Podemos até ouvir o burburinho.
— Acenderam tudo!
— Então por que o nosso Cristo continua apagado?
Até que a prefeitura do Rio, enfim, esclareceu.
A iluminação vai demorar um pouco porque faz parte de grande reforma no alto do Corcovado. A promessa do prefeito Henrique Dodsworth é uma iluminação mais moderna e mais intensa.
O engenheiro Heitor ainda está por perto, e não há nada que o faça abandonar seu Redentor. Escreveu um longo artigo para explicar as novas luzes: a ideia é iluminar apenas a imagem de Cristo, sem jogar luz sobre seu pedestal para que ele “se apresente como que pairando no espaço”. [1]
A imagem que Heitor deseja que as pessoas tenham é parecida com a que mais tarde será eternizada na canção de Gilberto Gil, poesia em que o Cristo será visto “num véu de nuvem brilhante subindo ao céu”.[2]
Chegam, enfim, boas notícias.
Podemos ver o jornaleiro agitado.
— O genocida Adolf Hitler ficou encurralado e se matou!
O radialista está gritando.
— A Segunda Guerra acabooooooou!
E o Rio, sorrindo.
— A reforma do Cristo está pronta!
O prefeito do Rio subiu o Corcovado ao lado do presidente Getúlio Vargas e pôde mostrar a ele que a estrada de acesso foi asfaltada, que o pedestal recebeu revestimento de mármore e que, no lugar do antigo parapeito, agora tem uma balaustrada de concreto.[3]
Ah, a iluminação… ela ficou pronta.
O sucessor do cardeal Leme na arquidiocese é dom Jaime Câmara, e ele, claro, também está no alto do morro com o presidente e o prefeito para ver as plantas que Heitor levou, com os detalhes da capela que, enfim, está sendo construída do jeito que se imaginou.
Já não teremos notícias de Heitor.
Melhor dizendo…
Perdemos Heitor.
Ao lado da família, de inúmeras personalidades do Rio, engenheiros e religiosos, acompanhamos seu enterro, em 21 de abril de 1947. Despedimo-nos, neste dia cinzento, do homem que foi a alma de tudo isso. E, sendo alma, o veremos para sempre lá em cima. Pois as digitais de Heitor estão, eternamente, em cada pedaço do Redentor.
E alguns desses pedaços, que tristeza, estão caindo.
O pedestal que Heitor ajudou a construir perde placas de mármore a cada nova tempestade. Os holofotes que ele queria eternos foram colocados sobre cavaletes de madeira, amarrados com arame e se tornaram um perigo aos visitantes.
O Correio da Manhã constata uma situação de quase ruína.
“As mesmas chuvas que arrebentam com as pedras do pedestal apodrecem as tábuas dos cavaletes e enferrujam o arame.” [4]
Isso seria até simples de resolver, mas ninguém resolve. E o que é muito pior: o rosto de Jesus está manchado. As manchas escuras descem do queixo ao pescoço e escorrem pelo peito como se
quisessem representar a agonia do Redentor em seu Calvário. Mas não é nada disso. É descuido mesmo.
Há queixas também sobre a dificuldade que os idosos enfrentam para subir a escadaria. Muita gente reclama de falta de água e da falta de banheiro. E se alguém falar de novo em falta de policiamento, isso vai soar como uma eterna reclamação.[5]
O esperado 1950 chegou, o Brasil se prepara para receber a Copa do Mundo e o monumento no alto do Corcovado ganhou seu primeiro restaurante, e isso quer dizer também que vai ter banheiros
O esperado 1950 chegou, o Brasil se prepara para receber a Copa do Mundo e o monumento no alto do Corcovado ganhou seu primeiro restaurante, e isso quer dizer também que vai ter banheiros