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NOTAS PARA A COMPREENSÃO DE UM NOVO LEITOR: O DO TEXTO DIGITAL

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Academic year: 2018

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INTRODUÇÃO

“Aquilo que outrora só era permitido pela comunicação manuscrita ou a circulação dos impressos encontra hoje um suporte poderoso com o texto eletrônico”.

Roger Chartier

Embora saibamos que a leitura é importante tanto para a obtenção de informações quanto para os vôos criativos e, como nos lembra Olgária Matos (2006) para o desenvolvimento de uma sociedade humanizada sensível, sabemos também que incentivar a leitura é uma tarefa muito difícil. Ela parece tornar-se ainda mais difícil quando falamos da época em que vivemos. Nossos jovens estão cercados de “atrações” que lhes chamam muito mais a atenção que um livro, pois estas “atrações” são como eles procuram: têm resultados imediatos, ou seja, não se processam de forma lenta como no caso de um livro e não exigem reflexão como no cawo do livro impresso. Isso acontece com o computador, o videogame, a televisão, o celular, o MP3, o palmtop, entre outras mídias (já que, a cada dia, aparece uma novidade).

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Folha On Line de 16 de março de 2006, sob título “Leitura no Brasil é uma "vergonha", diz "The Economist". Estes veículos geralmente indicam que o problema com a leitura é a falta de incentivo e, como foi possível perceber ao longo do estudo, mesmo aqueles motivados, como dissemos anteriormente, não liam, foi levantada uma hipótese de que o distanciamento do livro se deve pelas linguagens utilizadas pelas outras mídias, com imagens e sons.

Por meio de alguns levantamentos junto aos jovens na prática de sala de aula, a respeito de obras clássicas da literatura, pude perceber que, como menciona Lévi, “ávidos por novas tecnologias”; esta geração, influenciada pelo poder sedutor das mídias eletrônicas, não estaria se afastando do livro ou outros textos impressos, para realizarem a leitura num meio digital? Caso o jovem encare a leitura como forma de entretenimento e também de conhecimento, que outras fontes de conhecimento e entretenimento estão à disposição dos jovens e em que proporção cada uma delas recebe a dedicação deles? Estando em meio digital, que tipo de textos de ficção atraem estes jovens para leitura, ou seja, qual é o tipo de leitura feita por eles quando estão na Internet, por exemplo? Há algo novo relativo à produção de textos de ficção nos meios digitais? Que novidades são estas? Que influências tais meios provocam em seus leitores, tanto relativas às questões cognitivas e motoras quanto as relativas às questões sócio-político-econômicas?

Nas leituras canônicas, a exemplo de “Os Lusíadas”, de Luiz Vaz de Camões e “Iracema”, de José de Alencar, que são exemplos de obras de leitura obrigatória para os jovens em fase escolar, é visível que muitos deles fazem a leitura por meio digital.

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questões teóricas que justificam o grande espaço tomado por determinadas linguagens em confronto com o espaço perdido pela leitura/escrita/leitura (livro impresso) como recurso conceitual, podendo, assim, fazer uma relação entre experiências filosóficas e técnicas e, a partir disto, analisar e compreender as questões da Internet e entender que linguagens e mecanismos nela são utilizados para poder comparar às do livro impresso e também que atrativos carrega e desperta em seus usuários para confrontá-los com a leitura do livro impresso.

O corpo de autores mobilizado é amplo. No que diz respeito à história da leitura, baseamo-nos principalmente na obra de Alberto Manguel. Os caminhos da escrita impressa e ato de ler em si, assim como as questões sociais da leitura, foram investigados sob o ponto de vista e através de leituras da obra conjunta de Peter Burke e Asa Briggs. Roger Chartier foi convocado para que pudéssemos fazer um paralelo entre o livro impresso e a Internet. Interessou-nos ainda o pensamento de Pierre Lévy, que nos possibilitou apontar algumas definições do ciberespaço. No tocante à produção literária em meio digital, lemos Giselle Beiguelman e Janet Murray e em matéria de crítica severa às mídias massivas, seguimos as considerações de autores como Eugenio Bucci e Olgária Matos.

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A LEITURA

“Os verdadeiros analfabetos são aqueles que aprenderam a ler e não lêem” Mário Quintana

2.1 O ato de ler

A leitura é um processo que supõe autor, texto e leitor, sem os quais não poderia existir. Além de envolver enunciador, enunciado e enunciatário, para que aconteça o ato de ler, outros fatores, mais externos, são os sociais e os históricos, entre outros, são necessários. Se ler é atribuir significado a um significante, isso pressupõe a cultura do leitor, ou seja, “todos os elementos do legado humano maduro que foi adquirido através do seu grupo pela aprendizagem consciente, ou, num nível algo diferente, por processos de condicionamento – técnicas de várias espécies, sociais ou institucionais, crenças, modos padronizados de conduta” (SANTAELLA, 2003, p. 31). Para Helena Brandão (apud MICHELETTI, 2006, p. 42) a leitura mobiliza os conhecimentos do leitor para dar coerência às possibilidades; promove uma reconstrução de mundo a partir de indicações oferecidas pelo texto; refaz o percurso do autor, transformando-se em co-enunciador, concluindo que o leitor é cooperativo, produtivo e, sendo assim, é sujeito do processo da leitura e não um mero objeto.

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daquela que é feita olhando para as palavras, a própria entonação daquele que lê pode ser sugestiva de sentidos para quem escuta. Manguel nos diz que Cícero afirmava que “o mais agudo dos sentidos é a visão”. Portanto ler é apreender os signos através da visão. Quando ouvimos, não somos o leitor propriamente dito, apesar de fazermos uma

leitura daquilo que ouvimos. Leitor realmente é aquele que capta o texto pelos olhos

(MANGUEL, 1997, p. 42).

Já no século V a.C., estudiosos buscavam entender o que acontecia para que se desse a apreensão de sentido feita pela visão. Algumas teorias tentavam explicar o fenômeno, como as de Epicuro e Euclides, que diziam serem os leitores que capturam as letras da página e as teorias de Aristóteles e Galeno, que diziam que as letras iriam aos sentidos (mas há uma diferença entre Aristóteles e Galeno: enquanto para Aristóteles, o observador era passivo, recebendo pelo ar a coisa observada, Galeno - século II d.C., propunha a teoria de um espírito visual, nascido no cérebro e que atravessava o nervo ótico, saindo pelo ar e fazendo com que o ar fosse capaz da percepção, fazendo o caminho inverso em seguida) o observador seria ativo, tornando o ar sensível e levando a visão para o fundo do cérebro (idem, p. 43).

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O lugar em que a leitura é feita pode interferir no ato de ler, seja pelos elementos presentes no ambiente, seja pelo que o ambiente pode oferecer ao leitor. Em determinados casos, como nos lembra Manguel (1997, p.177) a respeito de Colette, que dizia parecer haver uma necessidade de que o ambiente fosse totalmente diferente daquele constante no conteúdo lido a fim de provocar uma oposição, como se o leitor, ao ler texto em afinidade com o ambiente, provocasse uma certa “redundância”. Parece que os conteúdos exigem um ambiente propício para que uma “viagem seja feita” no momento da leitura. Ir a um lugar diferente, transportar para um lugar desconhecido, algo distinto daquilo em que estamos no mundo real, para que a sensação do virtual seja mais intensa. Além disso, dependendo do ambiente em que se encontre o leitor, como se sabe, há possibilidades de posição para que se realize a leitura.

Também já foi explorado por muitos, mas cumpre neste momento ressaltar a interferência do suporte. No caso de um livro impresso, por exemplo, não apenas o fato de ser um códice determina a leitura, por ser lido por páginas, mas também o formato desse códice, como o tamanho, que é também um diferencial muito importante para a escolha do leitor, pois o tamanho vai ser determinante para a posição de leitura e para o ambiente em que será ou poderá ser lido. Para além disso, o tamanho do livro determina o conforto do leitor.

De todas as formas que os livros assumiram ao longo do tempo, as mais populares foram aquelas que permitiam ao leitor mantê-lo confortavelmente nas mãos. Mesmo na Grécia e em Roma, onde os rolos costumavam ser usados para todos os tipos de textos, as cartas em geral eram escritas em pequenas tabuletas de cera reutilizáveis, protegidas por bordas elevadas e capas decoradas. (MANGUEL, 1997, p.152).

Além disso, o tipo de texto é um outro fator que tem grande influência na leitura. Atualmente, fala-se muito de hibridismo. Um texto totalmente verbal será diferente daquele com imagens, pois a imagem desperta o sentimento do leitor.

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indivíduos a teriam no hemisfério esquerdo do cérebro e uma pequena parte a desenvolveria no hemisfério direito. Apesar disso, o indivíduo somente será capaz de codificar ou decodificar depois de ser exposto à linguagem e, segundo André Roch Lecours (apud Manguel, 1997, p. 50-52) para que se desenvolva plenamente, é necessária a exposição à linguagem oral e escrita.

O ato de ler acontece, então, segundo Lecours, em dois estágios: é necessário ver a

palavra e levá-la em consideração de acordo com informações conhecidas. (ibidem). O indivíduo que não tenha um conhecimento de mundo amplo, não terá a mesma riqueza de leitura de um indivíduo com mais conhecimentos, pois através desses conhecimentos, ele poderá fazer uma teia de conexões muito mais ampla, evidentemente. Sendo assim, ler é compartilhar informações num determinado lugar e num determinado tempo:

[...] Tal como o escriba sumério de milhares de anos atrás, eu encaro as palavras. Eu olho as palavras, vejo as palavras, e o que vejo organiza-se de acordo com um código ou sistema que aprendi e que compartilho com outros leitores de meu tempo e lugar – um código que se estabelece em seções específicas de meu cérebro. (ibidem, p. 51).

A leitura acontece nestes dois estágios, sem os quais não poderia existir. Ainda que um indivíduo conheça muito um determinado assunto, se não domina os códigos da escrita, será incapaz de ler e, embora domine muito bem esses códigos, não compreenderá um texto cujo conteúdo não conheça ou não domine completamente, como é sabido de todos.

No vídeo “O que acontece quando lemos”1, é citado um exemplo da criança que sabe

tudo sobre as regras do futebol, mas não poderá ler um texto que fale do assunto, se, evidentemente, não conhecer os signos lingüísticos; ou, ao contrário, embora conheça os signos, se não sabe nada das regras de futebol, a leitura não será plena. As duas habilidades, então, estão intricadas uma à outra, ambas são fundamentais para que aconteça o ato da leitura.

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É interessante lembrar que somos capazes de ler mesmo antes de lermos de fato. Essa habilidade já existe em cada indivíduo e Manguel (1997, p. 50) faz uma comparação com o ato de falar: os dois seguem um mesmo processo, no qual descobrimos uma palavra porque o objeto que ela representa já está em nossa mente.

Um aspecto técnico da leitura é que, ao contrário do que pensávamos, os olhos, ao ler, não deslizam sobre as páginas, mas saltam três a quatro vezes por segundo numa velocidade de duzentos graus por segundo e é a velocidade do movimento e não o movimento que interfere na percepção. Surpreendentemente, é na breve pausa de movimentos que a leitura acontece, segundo pesquisas do oftalmologista francês Émile Javal. Muito mais que um ato mecânico, ler é um ato cognitivo e social. Cognitivo por passar pelo intelecto, pelo conhecimento, pela capacidade de interpretar, conhecer, reconhecer; e social pelas relações com as vivências do leitor.

A escrita é um prolongamento da memória e, ao ler, o leitor passa a fazer parte desta memória comunal; a memória de um pensamento, de um conhecimento escrito por alguém no passado e que é resgatado no presente. Ao resgatar essa memória, o leitor não só compartilha como renova essa memória. (MANGUEL, 1997, p. 89).

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2.2 A figura do leitor

“Uma das primeiras tentativas do mundo de decodificar a vida de toda uma sociedade data do século XVIII a.C.” na Babilônia do Rei Hamurabi (MANGUEL, 1997, p. 205). Desde então, temos a figura oficial do leitor propriamente dito. Mas podemos afirmar que esta figura sempre existiu, pois, a todo o momento, decodificamos o mundo nas mais variadas situações e, como dissemos, o ato de ler já existe em nós antes mesmo de aprendermos a ler (decodificar a escrita). Aqui, pensaremos o leitor de forma mais tradicional, aquele que decodifica os signos das linguagens de um livro, seja ele impresso ou digital e a história desse tipo de leitor nasce muito antes, juntamente com a história do livro, por volta de quatro mil a.C., muito provavelmente por motivos comerciais.

Uma vez que o objetivo do ato de escrever era que o texto fosse resgatado – isto é, lido -, a incisão criou simultaneamente o leitor, um papel que nasceu antes mesmo de o primeiro leitor adquirir presença física. [...] O escritor era um fazedor de mensagens, criador de signos, mas esses signos e mensagens precisavam de um mago que os decifrasse, que reconhecesse seu significado, que lhes desse voz. Escrever exigia um leitor. (Grifo nosso) (MANGUEL, 1997, p. 207).

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Em Barthes, vemos que, no momento em que é escrito, o texto é “frígido”, não há afeto em relação ao leitor, pois o leitor não seria alguém e nem um objeto, mas seria apenas um espaço para o qual o escritor se dirige.

O senhor se dirige a mim para que eu o leia, mas para si nada mais sou que essa direção; não sou a seus olhos o substituto de nada, não tenho nenhuma figura (apenas a da Mãe); não sou para si um corpo, nem sequer um objeto (isto pouco se me dá: não é a alma que reclama seu reconhecimento), mas apenas um campo, um vaso de expansão. Pode-se dizer que finalmente esse texto, o senhor o escreveu fora de qualquer fruição; e esse texto-tagarelice é em suma um texto frígido, como o é qualquer procura, antes que nela se forme o desejo, a neurose. (BARTHES, 2002, p. 9).

Percebe-se que, apesar do leitor ainda não ser nada no momento da escrita para o

autor, a partir do momento em que o texto está escrito, ele passa a ser o elemento fundamental, por isso, mais adiante, Barthes relata a respeito da necessidade de formar este desejo, esta neurose no leitor; e esta visão em relação ao leitor o coloca (o leitor) numa posição privilegiada em relação ao escritor, pois, para ele, todo texto deve despertar desejo e desejo no leitor. O leitor é quem absorverá aquilo que deseja do texto e, mais ainda, criará nele aquilo que é necessário para a fruição desse desejo. Sendo assim, de acordo com Alberto Manguel, “o leitor tem o dever de emprestar voz às letras silenciosas” (1997, p. 62), fazendo com que a escrita tome vida e alcance a sua finalidade.

Por outro lado, podemos refletir sobre esse desejo que deve ser despertado no leitor. Nem todo tipo de texto atingirá esse propósito em todo e qualquer leitor. Parece ser o leitor quem determina se o texto será capaz ou não de fazer isso. Sabemos também que, embora conheçamos toda a importância da leitura, nem sempre é um ato prazeroso. Isto porque a obtenção desse prazer está relacionada muitas vezes ao conteúdo de um texto, às aptidões necessárias para que se faça a leitura, à própria “bagagem do leitor” e muitas vezes pelos objetivos que movem esse leitor.

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Sabemos que a leitura, nos nossos dias, principalmente na escola e, mais especificamente, a leitura de textos literários, tem se tornado uma obrigação para os nossos jovens. Muitos deles lêem apenas por uma recompensa, a nota. Mas não

podemos deixar de refletir que, se a leitura (de ficção) deve ser feita com o objetivo de obter prazer, como forma de entretenimento, como pode haver obrigatoriedade. É evidente que ninguém é obrigado a fazer aquilo de que gosta ou aquilo que deseja, mas somente algo de que não goste, aquilo que não lhe dá prazer.

Ler será desagradável somente se não houver um entendimento de que a leitura é um meio de aquisição de conhecimento, de libertação, de participação da memória comunal de uma sociedade da qual fazemos parte ou até mesmo quando não fazemos parte dela, já que o conhecimento é universal. Ler não é desagradável quando há um objetivo de leitura e não uma obrigação.

É através da figura do leitor que se dá a significação ao texto, mesmo que ele não tenha conhecimento exato do que o seu autor pretendia ao escrevê-lo. Nesse caso, de acordo com Alberto Manguel (1997, p. 212), se o autor quiser conferir um sentido a seu texto, deverá se tornar o seu leitor, baseando-se no que assinala Jacques Derrida, no que diz respeito a qualquer tipo de texto:

[...] é legível mesmo se o momento de sua produção estiver irrevogavelmente perdido e mesmo que eu não saiba o que seu suposto autor conscientemente pretendia dizer no momento de escrevê-lo, isto é, quando abandonou o texto à sua deriva essencial. (DERRIDA apud MANGUEL, ibidem)

Entretanto, como um texto possui múltiplos leitores, ainda assim, não há garantias de que haverá apenas um sentido, já que as vivências são diferentes, sendo assim, está entregue também a uma liberdade de significação, conforme assinala Roger Chartier (1999, p. 77) pois “a leitura é sempre apropriação, invenção, produção de significados. [...] Toda história da leitura supõe, em seu princípio, esta liberdade do leitor que desloca e subverte aquilo que o livro lhe pretende impor”. e ainda, como vemos em Fiorin:

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Sendo a leitura uma forma de conhecer o mundo e a si mesmo e uma atividade interna que não se pode descrever, Roger Chartier assinala que é o leitor quem coloca em ação “os sentimentos, a vontade, a memória, a imaginação, a inteligência. (1999, p. 14). É no leitor que o texto revive através de uma atividade interior e por meio das associações e inferências que ele faz.

Além dessa definição de Roger Chartier, que se atém ao momento em que acontece a leitura e o leitor se apropria do texto e o modifica, ele ainda nos chama a atenção de que o que organiza a leitura também diferencia uma da outra. São as práticas de leitura de determinadas comunidades que determinam o tipo e a maneira da leitura. Ele cita como exemplos: místicos, mestres da escolástica da Idade Média, determinadas classes sociais do século XIX. Cada qual possui sua singularidade, sua especificidade. (CHARTIER, 1999, p. 92).

Fiorin diz que o texto se faz à luz do leitor, ou seja, é para ele. O leitor é um fim. Portanto, o escritor, sendo leitor, até consegue impor uma significação, mas, apesar da evidência de que os códigos de um texto delimitam sua significação, pode morrer em si mesma se o texto for compartilhado com outros leitores. Ao escrever um texto, o autor imagina um leitor padronizado, que apreenderá do texto aquilo que ele (autor) imaginou; por outro lado, ao ler, o leitor também imagina um autor padronizado, que tem a dizer aquilo que ele busca.

Mas o papel do leitor diante de um texto é primordial, não apenas na decodificação dos signos ali registrados, como na construção de significação. É como se o leitor fosse então co-autor daquela obra, naquele momento (sem esquecer o papel fundamental do texto, pois, segundo Eco, é primordial na construção dos sentidos por não deixar possibilidades de uma interpretação insustentável). Blinkstein também confirma o vimos relatando sobre a importância do repertório do leitor no momento da leitura:

Esta rede constitui a nossa bagagem cultural ou repertório. O repertório vem a ser, portanto, toda uma rede de referências, valores e conhecimentos históricos, afetivos, culturais, religiosos, profissionais, científicos etc.

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Paulo Freire2 defende que esta leitura de mundo antecede a leitura da palavra, do

código. E a cada leitura feita, o leitor adquire mais conhecimento para outras leituras; assim como para Alberto Manguel, que define que “ler é cumulativo e avança em progressão geométrica: cada leitura nova baseia-se no que o leitor leu antes” (1997, p. 33), e ainda, “somos aquilo que lemos” (ibidem). O grau de compreensão de um texto passa pelo prévio conhecimento do assunto lido. O leitor será incapaz de apreender algo de um texto cujo conteúdo não domine, como já foi exposto anteriormente. Nesse caso, ele faz apenas a decodificação dos signos registrados.

Além disso, é o leitor quem seleciona do texto aquilo que lhe parece mais ou menos importante. Principalmente se o objetivo desse leitor for adquirir conhecimento e em maior escala dependendo do suporte que abriga o texto, como é caso dos jornais, dos quais o leitor lê apenas as seções que lhe interessam e mesmo num único texto, por vezes lê somente algumas partes.

[...] não lemos tudo com a mesma intensidade de leitura; um ritmo se estabelece, desenvolto, pouco respeitoso em relação à integridade do texto; a própria avidez do conhecimento nos leva a sobrevoar ou a passar por cima de certas passagens. (BARTHES, 1987, p. 16).

Há de se levar em conta, também, segundo Roger Chartier, que, além dos conhecimentos e vivências do leitor, a leitura está relacionada com o período histórico em que se encontra este leitor.

[...] O que muda é que o recorte dessas comunidades, segundo os períodos, não é regido pelos mesmos princípios. Na época das reformas religiosas, a diversidade das comunidades de leitores é em ampla medida organizada a partir da pertinência confessional. No mundo do século XIX ou XX, a fragmentação resulta das divisões entre as classes, dos processos diferentes de aprendizagem, das escolaridades mais ou menos longas, do domínio mais ou menos seguro da cultura escrita. (...) no século XVIII, entre os leitores de um tipo antigo, que reliam mais do que liam, e leitores modernos que agarravam com avidez as novidades... (CHARTIER, 1999, p. 92).

2 Veja artigo de Maria Lúcia Moreira Gomes para a Revista Thelos, da Universidade Tecnológica

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O papel dos leitores talvez seja tornar visível – na fina expressão de Al-Haytham – aquilo que a escrita sugere em alusões e sombras (MANGUEL, 1997, p. 55). Blinkstein sugere que, para garantir uma codificação e decodificação corretas, o emissor (aqui na figura do autor ou escritor) deverá ter domínio do código, mas, ainda assim, isto não é uma garantia, pois, como foi exposto, a decodificação é apenas um dos requisitos para a leitura e tornar visível o que são “alusões e sombras” num texto é exatamente extrair dele aquilo que não está codificado, mas encoberto, e ainda, aquilo que não aparece no texto, mas interage com outros textos. Perissé assinala que “Ler com atenção, a rigor, significa compreender. E compreender significa também interpretar, discernir, captar em profundidade, discordar, ampliar...” (PERISSÉ, 1996, p. 16).

Para Alberto Manguel (1997, p. 107), embora haja necessidade de conhecer dados sobre a criação de um texto, dados históricos do autor e a intenção dele para fazer uma leitura; no nível mais superficial, o leitor pode construir um significado para qualquer texto, independente do tipo de texto, e diz que, com um mesmo texto, um leitor pode se desesperar e outro pode rir (idem, p. 113), isso porque cada leitor supõe uma história.

Mas além de tudo o que foi relacionado a respeito do ato de ler e da figura do leitor, há algo de que não podemos esquecer e que está muito ligado à motivação principal deste estudo, a leitura como forma de cidadania. Como diz Mário Quintana, não ler, sabendo fazê-lo, é o pior tipo de analfabetismo. Além disso, o tipo de relação de um leitor com a sociedade em que está inserido certamente é mais intenso que a relação daquele que não lê. Santiago vai um pouco além, pois relaciona a leitura de romances com a realidade local ou uma visão cosmopolita do leitor:

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O autor assinala que a leitura pode ser direcionada para as questões locais, mas pode ser direcionada para o universal e que, depois do modernismo, passou-se a um processo de desconstrução de local e universal. Nesta desconstrução, os textos passaram a ser fragmentados, causando um certo desconforto no leitor pela falta de linearidade e pela dificuldade de uma leitura analítica. Mas é na literatura que descobrimos os desejos e anseios (locais ou cosmopolitas) de uma sociedade, de um indivíduo. É a leitura que insere o indivíduo, seja de forma regional, seja universal. O autor indica o que é requisito para uma leitura para a cidadania:

Para se o ler politicamente, pressupõe-se alguém de muito especial: um leitor alfabetizado. Ou seja, alguém que, no Brasil, não só tenha adquirido a habilidade de ler e escrever, como também a de poder trabalhar, com inteligência e imaginação próprias, o processo de decodificação do texto escrito ficcional, sua especificidade retórica e sua tradição. (SANTIAGO, 2004, p. 176).

E para que isso aconteça, é necessário que o leitor adquira hábitos de leitura, e não apenas isso, mas que leia muitos tipos de texto, a fim de poder aprender a compreender e analisar cada um deles.

1.3 Das formas e objetivos de leitura

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texto seja lido, o leitor possa se localizar tanto no tempo quanto no espaço dos quais o texto fez parte e do qual ele próprio faz parte. Assim fazendo, o leitor terá melhores condições para fazer uma boa interpretação do que foi lido em relação ao que o autor quis dizer, apesar de seu “repertório”.

Através de Platão, percebemos que “cada logos, a partir do momento em que foi escrito, rola para todos os lados, tanto na direção dos que o compreendem quanto na daqueles com os quais nada tem a ver, não sabendo a quem deve ou não deve falar”. Portanto devemos pensar sobre algumas questões que são essenciais para a história da leitura. É preciso pensar nas relações entre os sistemas de comunicação não somente por meio da oposição oral / escrito, mas também no próprio interior do oral que assume formas diferentes, quer se trate de um discurso simplesmente falado, quer se trate de uma reconstituição oral de um texto escrito feito por um indivíduo leitor, ou de uma representação, como um jogral, por exemplo. O discurso falado, que Platão considera um “discurso de verdade”, escolhe seus interlocutores, pode estudar suas reações, esclarecer suas perguntas, responder a seus ataques. Já o discurso escrito, pelo contrário, é como uma pintura: se lhe indagamos alguma coisa, ele não consegue responder, apenas se repete eternamente, como já foi bastante explorado por estudiosos.

Como vemos em Alberto Manguel (1997, p. 57-60), antes do século X, a maneira usual de leitura era aquela feita em voz alta. Havia inclusive a função leitor para isso. Até aquele momento, as letras eram signos dos sons, no sentido mais profundo. Ao serem lidas, deveriam reproduzir estes sons que, por sua vez, reproduziam pensamentos. O interessante é que as palavras ler e falar, no aramaico, têm o mesmo nome, portanto,

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feita em voz alta é o fato de que a maioria das pessoas não sabia ler e, portanto, era necessário que houvesse alguém que fizesse a leitura.

Segundo vemos em Manguel, havia (e há) muitas formas de ouvir um texto. Os jograis são citados por ele como formas de leitura em voz alta, mas uma leitura que havia sido registrada na memória desses declamantes. É interessante que esse tipo de leitura

punha maior ênfase no texto e dependia do desempenho tanto do intérprete como do leitor (quem ouvia) (MANGUEL, 1997, p. 139). Um aspecto interessante desse tipo de leitura é o fato de que ela acontece em duas fases: o leitor que lê o texto e depois declama e o leitor que ‘lê’ o texto enquanto ouve. O texto, na verdade, passa por duas modificações. São atribuídos significados a ele no momento da primeira leitura e passados através da interpretação do declamante aos ouvintes e em seguida, aquele

que ouve atribui novas significações de acordo com as suas experiências.

Às vezes, a leitura em voz alta tinha o objetivo de informar, (e até de curar) (MANGUEL, 1997, p. 144), às vezes de entreter. Mas, independente do objetivo da leitura em voz alta, pelo fato de ser um ato social, a escolha do texto é de extrema importância, já que deve contemplar tanto o leitor como o ouvinte, que eu chamaria de leitor-ouvinte. Para Manguel, a leitura em voz alta pode tanto enriquecer quanto empobrecer o leitor-ouvinte, já que, quando ouvimos, não podemos dar ritmo, entonação, ênfase, fazendo com que esse ato seja menos pessoal e conseqüentemente, parte da leitura, da interpretação, do sentido desse texto fique por conta de quem faz a leitura e não de quem ouve:

O ouvido é condenado à língua de outra pessoa, e nesse ato estabelece-se uma hierarquia (às vezes tornada aparente pela posição privilegiada do leitor, numa cadeira separada ou num pódio) que coloca o ouvinte nas mãos do leitor. Até fisicamente, o ouvinte seguirá amiúde o exemplo do leitor [...] Acrescente-se uma terceira pessoa à cena e ela se submeterá à lei das duas anteriores. [...]. Ao mesmo tempo o ato de ler em voz alta para um ouvinte atento força freqüentemente o leitor a se tornar mais meticuloso, a ler sem pular e sem voltar a um trecho anterior, fixando um texto por meio de uma certa formalidade ritual. [...] (MANGUEL, 1997: 146).

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como a separação em palavras e frases; sinais de pontuação; a distinção de letras maiúsculas e minúsculas e, devido a isto, antes que se lesse um texto à outra pessoa, era necessário que fosse lido previamente para evitar erros de interpretação. Isto reforça a posição privilegiada do leitor, que obriga intervenções e mudanças no ato primeiro, ou seja, na escrita do texto, em função de objetivos de leitura.

O primeiro relato de uma leitura silenciosa data do ano 383 referente a Ambrósio em que santo Agostinho relata sua estranheza a respeito dessa maneira de ler, mas que tornou-se usual apenas no século X.

A implicação é que esse método de leitura, esse silencioso exame da página, era em sua época algo fora do comum, sendo a leitura normal a que se fazia em voz alta. Ainda que se possam encontrar exemplos anteriores de leitura silenciosa, foi somente no século X que esse modo de ler se tornou usual no Ocidente (idem, p. 59).

A leitura silenciosa trazia consigo algo inesperado. Ler, com esse aspecto de intimidade, “sonhando acordado”, abria a possibilidade de voar no pensamento, e isto seria incontrolável para os detentores do poder. O ato de ler tem este caráter libertador, especialmente se for um ato íntimo, ato que não sofre intervenção de ninguém.

Outro aspecto desse tipo de leitura é que, a partir da leitura silenciosa, o leitor começa a estabelecer relações não feitas antes. O tempo de uma leitura, por exemplo, foi modificado, diminuiu, já que a decodificação acontece com maior rapidez ao fazer a leitura com os olhos do que ao pronunciar as palavras, além de poder refletir sobre as palavras, e compará-las a outros textos. Os leitores passaram a ter mais intimidade com o texto; as leituras eram feitas em lugares mais íntimos. Além disso, os textos, já no formato de códice, davam maior liberdade de leitura e mais proximidade com o leitor:

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Santaella (2004, p. 20) ratifica que, através da leitura silenciosa, “o leitor podia estabelecer uma relação sem restrições com o livro e com as palavras, que não precisavam mais ocupar o tempo exigido para pronunciá-las”, pois um novo espaço se formara na leitura, que era o espaço “interior”.

Como sugere Guaraciaba (apud MICHELETTI, 2000, p. 17), geralmente, a leitura é um ato solitário, mas ler sozinho não é a única forma de ler. A escola é um local onde a leitura é socializada, compartilhada, mediada pelo professor. Apesar do aparecimento da leitura silenciosa, muitas formas de leitura em voz alta são praticadas ainda em nossos dias. Além da escola, no seio familiar, a leitura pode ser mediada pela mãe, pelo pai, por alguém letrado; que aos poucos introduz o indivíduo no mundo da leitura. Braga (2002, p. 27) observa que a leitura, por ser um processo ativo, remete para o social e, por este motivo, crianças expostas aos livros em casa tendem a desenvolver a leitura com maior facilidade. Mas não podemos nos esquecer de que, a todo momento, várias formas de leitura em voz alta são feitas em nosso cotidiano, como nos telejornais, apesar de envolver outras formas de linguagem e não ser objeto de nosso estudo.

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desse tipo de leitura? A Internet seria um aliado ou um adversário à leitura de qualidade?

Uma outra característica que nos chama a atenção é a questão da memória. Manguel assinala que enquanto para Sócrates, a escrita seria como uma ameaça à memória, pois os leitores, acomodando-se a encontrar na escrita tudo o que fosse necessário, não exercitariam a memória, para De Fournival apud Manguel, 1997, p. 78-79, devido ao pouco tempo de vida humana, a leitura nos leva ao conhecimento acumulado por outros, fazendo com que aumente a riqueza de nosso próprio conhecimento. Mas além dessas duas posições, podemos nos deparar com uma terceira questão: a quantidade de literatura produzida a respeito de um mesmo assunto em nossos dias. Resgatar a memória pela leitura é também desafiador, já que devemos ter a habilidade de selecionar os textos.

A leitura dá poderes ao leitor. Um dos poderes que se pode relacionar é a liberdade. É através da leitura, conforme já comentado, que o leitor passa a fazer parte do conhecimento comunal, da história de sua sociedade. Não que não haja outra maneira de fazer parte dela, pois como sabemos, há sociedades, até os dias de hoje, de tradição oral, mas, com a escrita, o indivíduo passa a ter autonomia para escolher o que saber e como saber, já que, lendo com os próprios olhos, seleciona e reconstrói o texto, conforme os seus próprios caminhos. Apesar de que, como acabamos de mencionar, a seleção de textos para a leitura é um dos grandes desafios de nossos leitores nos dias de hoje.

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acesso não apenas a informações revolucionárias, mas a idéias revolucionárias construídas por esse leitor. Um exemplo dado por Manguel foi a alfabetização dos escravos em 1660 na Inglaterra, o que provocou nos donos desses escravos um temor muito grande, por crerem que eles poderiam “encontrar idéias revolucionárias perigosas nos livros” (MANGUEL, 1997 p. 311).

Um outro tipo de poder atribuído à leitura está relacionado a estar carregada de saber, já que é fonte de conhecimento. Chartier nos lembra de que o livro era (e é) sinônimo de autoridade e isso destacava a pessoa que o possuísse:

O livro indicava autoridade, uma autoridade que decorria, até na esfera política, do saber que ele carregava. [...] Pela representação do livro, o poder funda-se sobre a referência do saber. Assim ele se mostra “esclarecido”. (CHARTIER, 1999, p. 84).

Entre os séculos XVI e XIX, os estilos de leitura sofreram mudanças e Briggs & Burke, destacam cinco formas de leitura que consideram das mais importantes, a saber: “a crítica, perigosa, criativa, extensiva e privada”. (Briggs & Burke, 2004, p. 69). Eles assinalam que a leitura crítica surgiu depois da invenção da imprensa, devido à possibilidade de comparar um determinado assunto em mais de um livro. Antes disso, os leitores tinham um grande respeito pelos livros, o que fazia com que não duvidassem daquilo que estava escrito.

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No caso da leitura criativa, Briggs & Burke (idem, p.72) destacam que o alvo de estudo é o texto, já que ele pode receber uma significação diferente daquela outorgada pelo autor. O leitor então aparece como alguém que participa no processo de criação do texto. Certa vez, Mário Prata escreveu uma crônica a respeito das “Meninas Moça”3,

título que se referia à equipe de voleibol feminino com patrocínio do “Leite Moça” da Nestlé. Sua crônica foi utilizada por um vestibular de medicina e o surpreendente foi que o próprio autor do texto não conseguiu responder as questões sobre o texto que ele próprio havia escrito. Este é um exemplo de que o texto foi tomado por leitura criativa e, conseqüentemente, foi dada uma significação bem diferente da interpretação esperada pelo autor.

O leitor intenso que podemos comparar com o leitor mencionado por Santaela, o contemplativo, é aquele que, segundo Briggs & Burke (ibidem), “rumina” um texto; lê e relê várias vezes. Este tipo de leitura era mais comum num período da história em que os livros, por não haver tantos deles, eram sacralizados, o que muda depois do século XVIII e XIX, em que leitura passa a ser extensiva devido à quantidade de livros que se tornam disponibilizados no mercado. Apesar disso, Briggs & Burke assinalam que tanto a leitura intensiva como a extensiva são praticadas “de acordo com a necessidade” de cada leitor.

Por fim. Briggs & Burke (idem 72-73) destacam a leitura privada que apareceu depois de pelo menos dois fatos da história da leitura. Por um lado, devido ao formato do livro. Antes, com fólios extremamente grandes, seria impossível a leitura na cama, pois necessitavam de móveis de apoio como estantes e mesas, por exemplo. Por outro lado, a leitura silenciosa contribuiu bastante para esse tipo de leitura a que se referem os autores.

Não devemos perder de vista que a leitura, além desses cinco tipos assinalados por Briggs & Burke, acontece também de acordo com a intenção de leitura. A leitura pode ser feita em busca de uma informação, para obter conhecimento, para instrução moral e

3 Leia a crônica que se encontra no Anexo I deste trabalho e a carta escrita ao Ministro da Educação

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religiosa ou por diversão, sendo que este último começou a aparecer somente no século XV, mas garantiu seu lugar na sociedade definitivamente a partir do século XVIII e que tem grande importância para nosso trabalho, pois, conforme Matos “a literatura (ficção) é que protege a nosso língua”.

INTERNET

2.1 Internet: vilã ou mocinha?

É indubitável que a Internet seja mais um meio de comunicação extremamente útil no que diz respeito ao acesso às informações, mas nem tudo são rosas. Até que ponto a Internet realmente disponibiliza acesso a essas informações? Até onde é mais uma forma de ampliar conhecimentos?

Realmente, a Internet é mais um meio de comunicação que leva o conhecimento às pessoas. O lado positivo é que muito desse conteúdo é gratuito e atinge um número de pessoas nunca antes atingido, porém há que tomar muito cuidado, pois nem tudo do que é encontrado na rede é realmente verdadeiro ou correto. Sendo assim, o desafio é saber selecionar tais conteúdos e essa tarefa de instruir nossos jovens sobre esta seleção cabe, principalmente, aos pais e professores.

Por outro lado, sabemos que, no Brasil, nem todos têm acesso ao computador, portanto, a idéia de democratização da informação ainda é algo que passa bastante longe da realidade brasileira, assim como de outros países, embora ela também passe longe, se pensarmos em relação ao acesso aos livros impressos.

Outro fator muito questionado, defendido por uns e crucificado por outros, embora não seja objeto de nosso estudo, é a linguagem. Sabe-se que a linguagem é como roupa, como nos lembra o professor Ernani Terra4. Para cada momento utilizamos uma. Conversamos de uma maneira entre amigos, de outra no trabalho, em cada ambiente

4 Veja artigo “O conceito de erro em Língua” no site

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usamos a linguagem que seja mais adequada. Especialistas concordam que não há problema em usar essa linguagem telegráfica que é aplicada na rede. O problema está em não distinguir em que momento usá-la. Jamais se devem empregar siglas como “tb”, “pq”, “vc” em documentos formais e, muito menos usar neologismos como “naum”, como sabemos, mas parece que muitos de nossos jovens ainda não conseguiram distinguir o momento certo de usá-la.

Os indivíduos desta geração da informação deverão passar, portanto, por mais alguns processos de aprendizagem. Deverão ser orientados sobre a seleção de informação; como usar a linguagem certa para cada situação; como distinguir as diferentes linguagens e não esquecer de que o computador é mais um meio de informação e, sendo assim, não se descartam os outros, como é o caso de um bom livro. Deverão também compreender que, para que não sejam excluídos, será necessário saber lidar com as novas tecnologias; e mais ainda, os autores desta geração deverão saber escrever para estes leitores.

Sendo muitos os meios de fazer leitura nos dias atuais, e sendo um dos questionamentos deste trabalho que as novas tecnologias agem diretamente no comportamento dos indivíduos da pós-modernidade, principalmente dos mais jovens, aprofundaremos um pouco mais o estudo sobre a Internet devido a algumas características da rede e da possibilidade maior de imersão a ela inerente.

Para tanto, é necessário, primeiramente, que entendamos um pouco de seu funcionamento e dos interesses existentes por trás dela, através da sua história.

2.2 Breve histórico

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computadores em pontos estratégicos para que, descentralizando as informações, não acontecesse de serem destruídas por bombardeios se estivessem localizadas em um único servidor. Nota-se que o conceito de descentralizar já estava intrínseco na rede desde o seu surgimento. Antes disso, em 1962, foram escritos memorandos por J. C. R. Licklider, do MIT, sobre uma rede de computadores que poderia fazer uma interação social, em que todos teriam acesso a programas de dados em qualquer lugar. Essa previsão de Licklider é algo muito próximo do que é a Internet hoje. Foi ele quem deu início e liderou a pesquisa na ARPA e quem convenceu os sucessores a respeito do projeto.

O sucessor de Licklider, em 1963, foi Bob Taylor, que chama para seguir no projeto, juntamente com ele, Larry Roberts e Ivan Sutherland. Em 1967, convidam universidades para compartilharem os recursos de computação que havia no país e assim economizarem dinheiro, quatro universidades são escolhidas por eles e formam uma rede de pacotes chamada de Darpanet, logo depois renomeada de Arpanet.

O primeiro ponto de conexão foi a Universidade da Califórnia de Los Angeles, utilizando um equipamento chamado Interface Message Processor (IMP) para conexão e um protocolo denominado Network Control Protocol (NCP). Em seguida, Douglas Englebart monta o segundo nó da rede, no Instituto de Pesquisas de Stanford. Naquele mesmo ano, seriam montados mais dois nós, um na Universidade da Califórnia de Santa Bárbara (UCSB) e outro na Universidade de Utah, formando, assim, a rede.

Em 1971, o projeto da Arpanet já contava com 15 nós e 23 hosts, conectados, entre outros, os computadores da BBN, Rand Corporation, Universidade Harvard, Universidade de Stanford, Universidade de Illinois, em Urbana, Universidade Carnegie Mellon (CMU) e do centro de Pesquisas Ames da Agência Nacional de Administração Espacial (NASA).

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Universidades de Londres e da Noruega. No ano seguinte, surge o primeiro serviço comercial conectado à Arpanet, o Telenet da BBN.

Em 1974, o número de hosts já era de 62, o que estava muito além dos 19 previstos por seus idealizadores. A saída para solucionar o problema foi a adoção do TCP/IP (Transmission Control Protocol/Internet Protocol), proposto por Vinton Cerf e Larry Roberts, capaz de oferecer uma capacidade de quatro bilhões de conexões (substituição que foi feita progressivamente até 1983).

No ano de 1975, a então Arpanet passa a se chamar Darpa e contava com dois mil usuários, cujas mensagens nem sempre tratavam de assuntos de defesa, conforme observamos em Briggs & Burke (2004, p. 311). Como apontam os autores, é neste cenário que surge a Fundação Nacional de Pesquisas (NSF) e, logo em seguida, a Rede de Pesquisa da Ciência da Computação (CSNET) (1979), esta apoiada pela NSF.

Em 1979, começa a operar o primeiro provedor, o CompuServe, já que, para que a net crescesse, seria necessária uma infra-estrutura comercial, seguida da American On-line e do Prodigy, que somavam, em 1983, 3,5 milhões de assinantes. Briggs & Burke nos chamam a atenção para o fato de que, assim como outros meios de comunicação, o uso da Internet se ampliou quando passou a atrair interesses comerciais.

(36)

O êxito do projeto da Arpanet fez com que, em 1981, fosse lançado no mercado o computador pessoal através da IBM. É criado então um sistema privado de troca de mensagens, o BBS (Bolletim Board Sistem) e logo em seguida, em 1983, o FidoBBS que era compatível com os IBM-PC, fazendo com que qualquer um pudesse fazer sua BBS em casa.

Na virada para a década de 90, a Arpanet é dividida em MILNET (para organismos militares) e NSFNET (para pesquisadores) e é oficialmente encerrada. Em seguida a NSFNET engloba também as organizações comerciais. Acaba a Arpanet e nasce o que hoje conhecemos por Internet, que explodiria na comunicação do final do século XX.

2.3 O ciberespaço

O primeiro provedor de acesso comercial do mundo surgiu em 1990, o World (http//www.world.std.com), fazendo com que qualquer pessoa que possuísse um computador, uma linha telefônica e um modem pudesse ter acesso à rede, espalhando o interesse comercial por países de todos os continentes

Em 1993, surge a “primeira janela para o ciberespaço” (BRIGGS & BURKE, 2004, p. 311), considerado um momento de grande avanço na história da Internet, no qual usuários, provedores e os pioneiros em programas puderam fazer uso da rede através do programa de navegação Mosaico.

Um computador conectado à Internet é a representação do universal, a soma de

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Na definição de Lévy, ciberespaço é o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial de computadores e através dele, instaura-se a “democratização da informação”. O autor chama a atenção de que “o crescimento do ciberespaço resulta de um movimento internacional de jovens ávidos para experimentar, coletivamente, formas de comunicação diferentes daquelas que as mídias clássicas nos propõem” (LÉVY, 1999, p.11). Os saberes encontram-se num ambiente em que podem ser compartilhados, mas que não existe um centro. É “o universal sem totalidade”, pois todos participam desta inteligência coletiva. Um lugar no qual já temos acesso a um grande acervo de livros digitalizados, e a tendência é de que este acesso cresça ainda mais. Mas esse otimismo frente a uma nova mídia não é novo, pois através do estudo da história da escrita, percebe-se que, no século XVIII, acreditava-se que a disseminação do conhecimento pelo texto escrito garantiria a igualdade entre os homens.

De qualquer forma, segundo dados do Ministério da Ciência e Tecnologia, assessorado pela SEPIN no ano 2000, cerca de 6 milhões de brasileiros tinham acesso à Internet. Hoje de acordo com dados divulgados pela ONU, éramos 22 milhões no início de 2006 no Brasil,5 chegando a 30 milhões neste ano, de acordo com dados do site e-commerce.

Conforme podemos visualizar no gráfico a seguir, dados nos mostram que o crescimento de usuários vem crescendo numa proporção realmente avassaladora. Mas este crescimento ainda não seria suficiente para a disseminação do conhecimento tão sonhada desde o século XVIII. Além disso, não podemos esquecer que nem sempre os usuários da Internet fazem uso dela de maneira eficiente.

5 Ver no site da Sociedade Brasileira da Computação

(38)

Usuários da Internet no Brasil

1,15 1,3 2,35

6,79 9,84

12,04 13,98 14,32

20,05 25,9

30,01

0 5 10 15 20 25 30 35

1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 ano

us

ri

os

e

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m

ilhõe

s

(39)

Países com maior número de internautas

209

123 86

51 40 38 34 31 30 30

0 50 100 150 200 250 Esta dos

Unidos Ch ina Japã o Alem anha Índi a Inglat erra Kore a Itália

França Brasi l País u su ár io s e m m ilh õ es

(40)

Embora sejam números expressivos, ainda é baixa a população com acesso à rede, principalmente nos países mais pobres, mas não podemos ignorar que o crescimento acontece a passos largos e, se o objetivo é comparar, sabemos que o acesso à leitura de livros impressos, que é um meio bastante antigo, nos países pobres também passa por dificuldades. Percebe-se, então, que o problema de acesso à Internet não estaria relacionado somente aos custos desta tecnologia e ao domínio de técnicas, mas também a questões sociais e políticas que poderiam ser discutidas em outro momento.

(41)

UM NOVO LEITOR, UMA NOVA FORMA DE LER

“Na era digital

Será que somos lidos

Por leitores reais?!”

Gustavo Dourado

3.1 Um novo leitor

Com as novas tecnologias, novas formas de leitura surgiram e, conseqüentemente, um novo leitor, assim como aconteceu na passagem do rolo para o codex. Isto porque o suporte do texto e o ambiente em que se dá a leitura influenciam na relação do leitor com o texto. Atualmente no mesmo ambiente onde se encontra um livro, há outros tipos de objetos que dividem a atenção do leitor. Para Lévy (1999, p.11), é uma geração em que “o crescimento do ciberespaço resulta de um movimento internacional de jovens ávidos para experimentar, coletivamente, formas de comunicação diferentes daquelas que as mídias clássicas nos propõem” e isso inclui a leitura do livro impresso. Portanto, como nos lembra Beiguelman, pertencemos a uma sociedade em que, principalmente entre os jovens, a leitura acontece num ambiente onde outras atividades são feitas a um só tempo:

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Azevedo nos lembra de que, ao estudarmos hoje os textos literários nos meios digitais, precisamos atentar para todo tipo de linguagem que esses meios comportam:

[...] podemos elucidar que uma reformulação cultural do fazer poético e da produção do conhecimento não passa apenas pela escrita verbal, e sim na composição de uma escritura que abarca signos imagéticos e sonoros que se encontram em um estágio de expansão (AZEVEDO, Wilton.

www.textodigital.ufsc.br, ano 2 n.1 2006).

Além das linguagens indicadas por Azevedo, Santaella (2004, p. 21) assinala que “o efeito que o texto é capaz de produzir em seus receptores não é independente das formas materiais que o texto suporta”. Chartier (2002, p. 23 e 109) explicita que os textos eletrônicos, sejam de que tipo forem (livro, revista, jornal...), utilizam um mesmo suporte fazendo uma alteração na relação com o leitor, já que os textos impressos, conforme nos lembra o autor, por sua materialidade, permitem que o leitor consiga perceber um tipo de texto, uma particularidade, um objetivo, pois diz que “A ordem do discurso é assim estabelecida a partir da materialidade própria de seus suportes: a carta, o jornal a revista o livro, o arquivo etc.” (idem, p. 109). Neste novo formato de texto, ou seja, no texto eletrônico, esta possibilidade de distinção a partir da materialidade desaparece e obriga o leitor a adquirir novas competências e habilidades a fim de que possa diferenciar um tipo de texto de outro. Um outro aspecto lembrado por Chartier é que a forma de distribuição do texto na tela é totalmente diferente, já que é o próprio texto que desliza na tela.

Apesar de deslizarem nas telas, já sabemos que tal fato não significa que esta é a forma como os textos se apresentarão nos meios digitais, pois já existem narrativas bastante interessantes na rede e que também podem perfeitamente ser produzidas num CD-Rom e que são totalmente diferentes do que estamos habituados a visualizar no computador, como nos chama a atenção Beiguelman para a criação de Morrisey6;

Nela, o texto não desliza conforme aponta Chartier para definir a apresentação dos textos digitais na tela, mas é um texto em que o andamento da narrativa vai sumindo e aparecendo da tela ao serem clicados determinados links e sendo construído o texto,

de maneira que a forma de leitura é totalmente nova, que não se pode comparar nem

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com o codex, nem com o rolo e nem ao que estamos acostumados a ver nos meios digitais; algo realmente novo e, segundo Beiguelman, “uma proeza louvável”. (2003, p. 23). Para um momento em que a busca pela imagem é crescente, Beiguelman ainda cita a narrativa não-linear por imagens do site www.z360.com/what, em que o autor reinventa a narrativa que, sendo interativa, proporciona ao leitor fazer a opção do caminho que vai seguir, participando, assim de uma “invenção narrativa” e, acima de tudo, “narrativa sobre o tempo exemplar. Isso porque é tão passível de fruição linear como não linearmente” (BEIGUELMAN, 2003, p. 24). A autora chama a atenção para a possibilidade de que a imagem seja “mapeável”. Mas questiono esse tipo de leitura, não pelo texto em si, mas pelo fato de ser diferente de ler um texto verbal, pois a imagem, pura e simples, priva determinadas etapas do pensamento e da reflexão e, neste caso, os leitores estariam fadados a deixar de estimular a criatividade e a “imaginação”.

As imagens são delirantes, pois é próprio do delírio excluir a consciência, não se converter a explicações lógicas (...) O extremo realismo procura mostrar as coisas sem qualquer mediação teórica, isto é, sem nenhum exercício de pensamento, como se o que existisse fosse despojado de sua essência, a realidade destituída de sua idéia. O real, a pura existência imediata é intransitivo, indubitável e “sem fundamento”. (MATOS, 2006, p. 31).

Embora estejamos num bombardeio de novidades, as práticas de leitura, segundo Chartier, não se transformam de um dia para outro, já que elas ocorrem de maneira muito mais lenta que os avanços tecnológicos, fazendo com que antigas formas de ler continuem sendo utilizadas para um novo objeto de leitura. Apesar disso, percebe-se que há alterações que foram acontecendo nesse novo leitor devido a uma avidez pelo híbrido, pelo fluido e que é saciada em ambientes como a rede, por exemplo. Diante desse novo leitor, detemo-nos em duas preocupações: um novo tipo de analfabetismo, já que, para acesso a esses novos textos, são necessárias não apenas novas competências e novas habilidades, como também novas ferramentas, às quais nem todos têm livre acesso. Referente a isto, Chartier assinala:

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É a exclusão, tanto pelo “iletrismo”, como pelo não acesso às novas tecnologias”. Embora, tampouco isso seja novidade, já que a exclusão está ligada também a outros fatores e sabe-se que muitos também não têm acesso ao livro impresso e esse tipo novo de “iletrismo” não substitui o anterior porque o analfabetismo impossibilita esse acesso, já que 20% da população mundial é analfabeta, de acordo com dados da Unesco.

3.2 Cognição e percepção do novo leitor

Santaella (2004, p. 20-24) descreve que os leitores, no decorrer da história, foram mudando cognitiva e corporalmente na forma de ler. A autora relaciona os três tipos de leitores (contemplativo, movente e imersivo) aos momentos da história.

Segundo Santaella, o leitor contemplativo, que aparece por volta do século XII, século este em que algumas transformações na leitura decorreram do fato de que deveria ser feita em silêncio nas bibliotecas, é um tipo de leitor cuja leitura acontece de maneira interiorizada, um “leitor imóvel”, mas que, na verdade, apesar de parecer passivo, está num trabalho mental extremamente ativo. É o tipo de leitor que desenvolve calmamente o raciocínio sobre aquilo que lê, medita, tem tempo para isso.

A leitura do livro é, por fim, essencialmente contemplação e ruminação, leitura que pode voltar às páginas, repetidas vezes, que pode ser suspensa imaginativamente para a meditação de um leitor solitário e concentrado. (ibidem).

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leitor movente, um tipo de leitor que necessitava de “aparelhos externos para fortalecer a sua memória”, um leitor cuja percepção, adequando-se ao tipo de sociedade em que está inserido, deve ser instável, móvel:

[...] aquele que nasce com o advento do jornal e das multidões nos centros urbanos habitados de signos. É o leitor que foi se ajustando a novos ritmos de atenção, ritmos que passam com igual velocidade de um estado fixo para um móvel. É o leitor treinado nas distrações fugazes e sensações evanescentes cuja percepção se tornou uma atividade instável, de intensidades desiguais. É, enfim, o leitor apressado, de linguagens efêmeras, híbridas misturadas. (SANTAELLA, 2004 p. 29).

Para Santaella, esses dois tipos de leitores já foram bastante pesquisados, mas um terceiro, o leitor imersivo, cujo aparecimento despertou um estudo mais intenso sobre os dois primeiros, talvez por nostalgia e medo do desaparecimento do livro, como sugere a autora, é o mais recente tipo de leitor, bem pouco explorado em pesquisas. Ele surge na era digital e em relação à época em que se encontra esse leitor, há que se destacar que é um período em que temos uma sociedade em busca de novidades, uma sociedade de imagens, (principalmente no meio de jovens como foi dito anteriormente), pois, segundo a autora, “o ser humano passou a se preocupar muito mais com a vivência do que com a memória” (idem, p. 27). É um indivíduo acostumado à rapidez e à enxurrada de informações e que a maneira de vivenciá-las acabou por torná-lo menos sensível, por isso tem a necessidade de algo que seja muito mais estimulante que em outros tempos:

Nessa nova realidade, as coisas fragmentam-se sob efeito transitório, do excessivo e da instabilidade que marcam o psiquismo humano com a tensão nervosa, a velocidade, o superficialismo, a efemeridade, a hiperestesia, tudo isso convergindo para a experiência imediata e solitária do homem moderno. (SANTAELLA, 2004, p. 29) (grifo nosso).

Essa busca se dá tanto na escolha de textos que satisfaçam esse novo momento vivido, como na escolha de suportes que atendam a essa nova realidade. É um tipo de leitor que não tem mais o tempo para contemplar, meditar sobre a leitura conforme o primeiro tipo de leitor descrito acima, mas deriva das transformações anunciadas no leitor movente e que culminaram no imersivo.

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vivência é mais importante que a memória” e, como é sabido, esses textos, além de rápidos, detêm um caráter do cotidiano, do momento, mas isso não bastaria ao leitor do século XXI, cuja procura vai além de textos (entenda-se aqui o texto escrito), precisa de imagens, sons; e o ciberespaço abre essa possibilidade. É nele que o leitor tem a possibilidade (e a responsabilidade) de selecionar aquilo que quer ler e o caminho que vai seguir (como no caso dos hipertextos).

Santaella, em sua pesquisa ainda chama a atenção para o que acontece com a percepção e a cognição desse novo leitor. Ela delineia que, dependendo do tipo de navegador, o que ela classifica como errante, detetive e previdente, utilizará mais ou menos as operações de abdução, indução e dedução. No caso dos errantes, navegam pela abdução, o detetive pela indução e o previdente pela dedução. Ou seja, em cada navegador (ou leitor) uma das operações é mais recorrente, o que não quer dizer que não se utilizem de outras. O leitor imersivo, mesmo aquele mais experiente, chamado por Santaella de previdente, sempre se deparará com situações novas e neste momento deverá passar pela errância e pelo detetive para encontrar o seu rumo e as possibilidades (SANTAELLA, 2004, p.121).

Santaella (ibidem, p. 146-148) destaca que, apesar de parecer imóvel, o leitor, ao usar o computador, está totalmente ativo, através de inúmeras atividades motoras e cognitivas. Ela chama a atenção para a habilidade que ele deve ter para mover o

mouse com as mãos e fazer as escolhas na tela, e assinala algumas das capacidades

que ele tem que desenvolver para esta leitura:

a) utilização de forças musculares que provém de propriedades elásticas intrínsecas a eles;

b) atenção ou estado de alerta ligados a sistemas físicos e mentais; c) coordenação viso-motora;

d) construção de automatismos sensórios-motores;

e) sistema de equilíbrio do corpo em relação ao chão e em relação à tela; f) sistema investigativo (cabeça, olhos e mãos);

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Não bastam então aquelas várias habilidades citadas no primeiro capítulo, a saber a decodificação e a compreensão por meio das vivências em relação ao texto lido. Além dessas, o novo leitor dever ser capaz de, ao mesmo tempo, gerenciar novas capacidades mentais e físicas para ler nos meios digitais (computador, palmtop, celular...).

3.3 Internet e leitura

Com o acesso à Internet, surge uma nova forma de leitura como foi exposto, do códex para os hipertextos, apesar de que os hipertextos não sejam novidade, já que, como se sabe, muitos textos fazem referência a outros. Mas o que muda é a facilidade na passagem de um “nó” para outro, na potencialização, na dimensão dos hipertextos. Uma revolução que, segundo Chartier (1999, p. 13), está no modo de ler e no suporte do texto: a revolução do livro eletrônico.

Toda história da leitura supõe, em seu princípio, esta liberdade do leitor que desloca e subverte aquilo que o livro lhe pretende impor. Mas esta liberdade leitora não é jamais absoluta. Ela está cercada por limitações derivadas das capacidades, convenções e hábitos que caracterizam, em suas diferenças, as práticas de leitura. Os gestos mudam segundo os tempos e lugares, os objetos lidos e as razões de ler. (CHARTIER, 1999, p. 77).

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virtual a outra, de um acervo a outro, infinitamente. Mas o que está em jogo não é apenas o acesso público a documentos, livros entre outros, já que, se por um lado a Internet oferece benefícios que antes pareciam utópicos, por outro lado, não devemos nos esquecer de que esse sonho é realizável para uma pequena parcela da população: aqueles que têm acesso a ela, pois, de acordo com o que observamos nos gráficos da página 38 e, segundo Chartier (2002, p. 113), o número de leitores de livros eletrônicos é ainda minoria.

Algumas tentativas de minimizar os efeitos desse tipo de exclusão têm sido tomadas como é o caso de projetos do Governo como o Gesac, programa de inclusão digital do Ministério das Comunicações, que, de acordo com artigo do jornal Folha de São Paulo do dia 24 de abril de 2007, anunciava disponibilizar acesso à Internet em banda larga para alunos de cerca de dez mil escolas públicas, do ensino médio e profissionalizante, além de implantar outros três mil e trezentos pontos de conexão em telecentros comunitários, bibliotecas públicas, postos de saúde, entre outras entidades.

Uma outra ação neste sentido é o programa "Computador Para Todos”, de 2005, com o objetivo de aumentar o número de brasileiros com acesso a micros e também à Internet, isentando o equipamento de tributos e oferecendo financiamento para pessoas de baixa renda. Algumas ONGs também se movimentam na tentativa de um programa de inclusão digital, mas todas essas ações caminham a passos bem lentos em relação ao desenvolvimento dessas tecnologias.

Apesar de muitos não terem acesso a essas bibliotecas e a esses textos eletrônicos, não podemos negar que um benefício muito importante na digitalização de textos é que, diferentemente do texto impresso, está livre da ação do tempo e de outras fatalidades das quais estão sujeitos os textos em papel:

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E embora seja de grande utilidade, as bibliotecas e os sites com acervos digitalizados não poriam fim às bibliotecas materiais, sendo esta uma forma de manutenção e conservação da história da escrita segundo Chartier:

[...] A biblioteca eletrônica sem muros é uma promessa do futuro, mas a biblioteca material, na sua função de preservação das formas sucessivas da cultura escrita, tem, ela também, um futuro necessário. (CHARTIER, 1999, p. 153)

Em relação à leitura, do livro impresso, onde as frases são lidas da direita para a esquerda, do começo ao fim de uma página; páginas são viradas, da primeira à última, ao computador em que as página’ deslizam sobre a tela, podemos ressaltar que,

enquanto os textos impressos podem ser tocados e haja uma proximidade maior entre leitor e texto, podemos destacar que os textos eletrônicos oferecem outras vantagens como maior rapidez ao comparar textos e uma interatividade com eles, como no caso de um wiki:

Extremamente simples de usar, não só dá possibilidade para qualquer leitor tornar-se co-autor, incorporando imediatamente suas modificações ao corpo do trabalho, como cria um histórico dessas modificações e, simultaneamente, arquiva todas as mudanças realizadas até o momento, gerando um curioso e-palimpsesto. (BEIGUELMAN, 2003, p. 38).

Mas a maior revolução do meio eletrônico, o que há de novo, de acordo com Chartier é que as práticas de leitura não são passadas pela geração precedente. Rompe-se uma forma de ler para dar início à outra. Há um desligamento relativo aos hábitos do leitor e isso aconteceu bem poucas vezes na história da escrita, ou seja, a forma anterior de leitura é completamente diferente da que se inicia, conforme vemos em Chartier, (1999, p. 93) “Esses leitores defrontavam-se com um objeto novo, que lhes permitia novos pensamentos, mas que, ao mesmo tempo, supunha o domínio de uma forma imprevista, implicando técnicas de escrita ou leitura inéditas”.

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é feita quando da leitura de um livro impresso para outro. Se há necessidade de fazer alguma consulta em relação a algo do texto lido, em um outro texto impresso leva muito mais tempo que clicar sobre um link que abre em seguida a informação desejada. Mas

a novidade não é o texto, ou melhor, o hipertexto, já que “essa prática textual já é há muito utilizada no meio impresso (SALES, C. www.textodigital.ufsc.br), mas exatamente na forma de ler de acordo com Chartier e, como nos lembra Sales na potencialização desse tipo de leitura, pois para ele, este é o primeiro “grande ganho” em relação às práticas do meio impresso.

Nos casos da leitura dos hipertextos, existe a vantagem de que o leitor pode ter uma visão mais ampla em relação a um determinado assunto. E como já foi dito no capítulo que trata da figura das formas de ler e cita as idéias de De Fournival em relação à amplitude de conhecimento a que estamos expostos ao ler um livro, podemos concluir que isso se multiplica infinitamente dentro da rede.

Por um outro prisma, esta leitura de um texto não linear pode causar num leitor menos experiente, ou que não domine o conteúdo, uma falta de compreensão. Em todo caso, interessa saber que a leitura de hipertextos é bem distinta da leitura de livros impressos já que ao mesmo tempo é leitura e é escritura, onde o leitor é quem determina o rumo do texto e passa a construí-lo ao mesmo tempo em que o lê:

O funcionamento da máquina hipertextual coloca em ação, por meio de conexões, um contexto dinâmico de leitura comutável entre vários níveis midiáticos. Cria-se, com isso, um novo modo de ler. A leitura orientada hipermidiaticamente é uma atividade nômade de perambulação de um lado para outro, juntando fragmentos que vão se unindo mediante uma lógica associativa e de mapas cognitivos personalizados e intransferíveis. É, pois, uma leitura topográfica que se torna literalmente escritura, pois, na hipermídia, a leitura é tudo e a mensagem só vai se escrevendo na medida em que os nexos são acionados pelo leitor-produtor. (SANTAELLA, 2004, p. 175).

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necessidade de se ajustar a novos ritmos e ser capaz de uma tenção ainda maior para ser capaz de ler a multidão de signos da cidade, de textos híbridos que incluem imagens. O leitor imersivo, motivo maior deste trabalho, é aquele que surge da revolução da informação, aquele que estabelece uma relação com a Web e deve ter a habilidade da utilização de ferramentas. (SANTAELLA, 2004, p. 29).

Analisando este último, Santaella salienta três diferentes tipos de leitores imersivos: o novato, o leigo e o experto. O novato, que ainda não adquiriu nenhuma intimidade com a rede, para o qual tudo nesse meio é novidade; o leigo, que entra na rede através de algumas memorizações de caminhos a serem percorridos, mas com a qual não tem ainda familiaridade e nem competência para lidar; e o experto, que domina todos os segredos da tela. (idem, p. 57-59).

A autora assinala que ainda aparece um outro tipo de classificação dos usuários da Internet de acordo com a união das habilidades motoras e as habilidades cognitivas, mentais: o internauta errante, o internauta detetive e o internauta previdente, os quais surgiram a partir da mistura das características do novato, do leigo e do experto com operações mentais como a abdução, a indução e a dedução.

[...] Revistas à luz desse novo pressuposto, as diferenças específicas que se apresentam nos processos de navegação exibidos pelos novatos, pelos leigos e pelos expertos demonstram corresponder uma delas à dominância de um dos tipos de inferências. Os novatos exibem a predominância da abdução, os leigos, da indução, e os expertos, da dedução. Vem daí os três tipos de internautas revelados por esta pesquisa: (a) o internauta errante, aquele que pratica a arte da adivinhação [...] (b) o internauta detetive, aquele que segue pistas e aprende com a experiência [...] (c) o internauta previdente, aquele que sabe antecipar as conseqüências de suas ações [...] (SANTAELLA, 2004, p. 90).

Santaella aponta que os internautas que passaram da fase da aprendizagem continuam buscando novas formas de navegar no ciberespaço. Para Lévy, como há sempre novas hipóteses de navegação, é necessário experimentar para poder aprender e se aventurar na rede.

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Figura 1 – página wiki

Referências

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