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ILUSTRAR PARA VER, PARA LER E 0 QUE MAIS NOS APETECER!

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Academic year: 2021

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ILUSTRAR PARA VER, PARA LER E 0 QUE MAIS NOS APETECER!

TERESA LIMA

Ilustrar para ver

As palavras escritas encerram um mundo de ideias que cada ilustrador, através da sua sensibilidade, gosto pessoal e modo particular de se expressar graficamente, vai usar para

«dar a ver» essas mesmas ideias, por si interpretadas, através de formas, cores, texturas, composições.

O texto oferece o tema e naturalmente influencia o pro­

cesso criativo - cada texto, pela sua particularidade, pedirá imagens com características que se lhe adeqúem - mas no entanto a relação que se estabelece entre a escrita e a imagem deverá ser sempre de complementaridade e nunca de servilis­

mo. Nada acrescentará a um livro uma ilustração que se limite a traduzir visualm ente uma parte específica do texto, do mesmo modo que não se esperaria que um escritor, a partir de uma imagem, criasse um texto m eram ente descritivo da mesma.

A ilustração constrói-se aliando a parte conceptual, que

encerra a ideia do que se vai representar e com que intenção, à

componente meramente plástica. O aliar de uma boa ideia com

uma boa execução técnica é seguramente um bom caminho para

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276 NO BRANCO DO SUL AS CORES DOS U ROS

se alcançar uma boa ilustração. É da área do ilustrador o domí­

nio dos elementos da linguagem plástica que lhe vão permitir transformar o espaço vazio do suporte em que actua em compo­

sições mais ou menos elaboradas, de formas, figuras, espaços, cores, a que os materiais seleccionados (aguadas transparentes, guaches e acrílicos opacos, recortes, colagens, texturas, etc.) usa­

dos com saber, criam imagens que valem por si mesmas e que ditam o estilo pessoal do criador.

O apreciar destes aspectos por parte do leitor do livro ilustrado vai certamente torná-lo também um fruidor mais sensível aos aspectos de carácter plástico.

Assim, da mesma forma que o texto literário denota as q u alid ad es, o dom ínio da escrita e a criativ id ad e do autor/escritor, proporcionando prazer e fruição estética a quem o lê, uma ilustração bem conseguida pelo domínio da linguagem plástica, pela imaginação, fantasia, criatividade e originalidade do autor/ilustrador vai certamente produzir o mesmo tipo de fruição a nível visual. É lógico que uma boa paginação, todo o trabalho feito a nível do design gráfico, vai igualmente contribuir para a qualidade plástica da obra. E quando se aliam estes dois prazeres (o de ler e o de ver) num mesmo espaço que é o livro ilustrado, então podemos dizer que esse livro é de facto um objecto de prazer.

Ilustrar para ler

A ilustração tem sempre um papel de enriquecimento num livro, pois acrescenta-lhe um outro tipo de leitura - a lei­

tura visual - por um lado a do ilustrador que a executou (que interpretou o texto, filtrando-o através do seu mundo pessoal, e lhe acrescentou outros elementos) e por outro a daqueles que por sua vez a interpretam ao olhá-la e assim acrescentam signi­

ficados à sua leitura da escrita.

É realmente mais neste sentido que encaro o contributo

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TERES M IM ,

a

277

da ilustração na leitura do livro e não tanto como ajuda à com­

preensão do texto. Um bom escritor não necessita de ilustrações no seu livro para passar a sua mensagem, para criar esse espa­

ço de prazer que é a nossa relação íntima com a palavra escrita e o modo como a interpretamos de acordo com as nossas vivências pessoais. Creio que um excerto da mensagem do 2 de Abril de Ján Ulièiansky, a propósito da obra de Hans Chris- tian Andersen, «ilustra» bem o que acabo de dizer - «Nos cinco volumes de várias cores não havia uma única ilustração, mas aqueles livros iluminaram milagrosamente as noites que a minha mãe tanto temia.»

Mas a leitura duma ilustração deverá ser sempre e sobretudo realizada a nível dos aspectos plásticos, sensibili­

zando o leitor para o valor estético que dela emana.

E o que mais nos apetecer

A ilustração é um espaço de liberdade, porque mesmo condicionada pelo texto, o espaço de manobra para a criativi­

dade do ilustrador tem o limite que a mesma lhe ditar.

Gostava de dizer, para finalizar, que espero que aos poucos se comece a encarar a ilustração, não como algo secun­

dário, ou arte menor, mas sim com a importância que lhe é devida.

Assim a ilustração infantil coloca-me o desafio de tentar, com muito trabalho e algum talento, que cada original ilustra­

do seja algo artisticamente com valor, que é oferecido a quem o desfruta nas suas repetidas reproduções nos livros. E devo confessar que considero as minhas estantes pequenas arcas de tesouros onde guardo aquelas que eu considero «obras-pri­

mas» dos meus autores/ilustradores preferidos, que visito repetidamente na busca de momentos de prazer. Encontrem- no vocês também nos muitos bons livros ilustrados que exis­

tem por aí.

Referências

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