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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ

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ISABELA SERRAGLIO DO NASCIMENTO

A COMUNICAÇÃO COMO INSTRUMENTO DE MOBILIZAÇÃO SOCIAL: UM ESTUDO SOBRE A PASTORAL DA CRIANÇA

CURITIBA 2016

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A COMUNICAÇÃO COMO INSTRUMENTO DE MOBILIZAÇÃO SOCIAL: UM ESTUDO SOBRE A PASTORAL DA CRIANÇA

Trabalho apresentado como requisito parcial à obtenção de grau de bacharela em Comunicação Social com habilitação em Relações Públicas no Departamento de Comunicação Social, do Setor de Artes, Comunicação e Design, da Universidade Federal do Paraná.

Orientador: Profº Dr. Elson Faxina

CURITIBA 2016

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“O trabalho social precisa de mobilização das forças. Cada um colabora com aquilo que sabe fazer ou com o que tem para oferecer. Deste modo, fortalece-se o tecido que sustenta a ação, e cada um sente que é uma célula de transformação do país”

Zilda Arns Neumann

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Este trabalho tem como objetivo identificar e analisar o papel da comunicação no processo de mobilização social. Para isto, foi realizada uma análise sobre uma das maiores organizações sociais da atualidade, a Pastoral da Criança. Com mais de 30 anos de existência, a Pastoral da Criança atua em comunidades carentes em prol da saúde, nutrição, cidadania e educação das crianças. O trabalho da organização mobiliza milhares de voluntários em todo o Brasil e impacta a vida de milhões de famílias. A fim de identificar os elementos comunicativos que contribuem para esta mobilização, foram utilizados métodos qualitativos e exploratórios de pesquisa. Assim, foi constatado que para atingir seu propósito, a Pastoral da Criança conta com diversos elementos comunicativos que permeiam todas as suas ações.

Dessa forma, a comunicação se desenvolve como instrumento essencial para a mobilização social.

Palavras-chave: Mobilização Social; Cidadania; Pastoral da Criança; Comunicação Popular.

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FIGURA 1 - ORGANOGRAMA DA PASTORAL DA CRIANÇA ... 36

FIGURA 2 - SITUAÇÃO DE ABRANGÊNCIA DA PASTORAL DA CRIANÇA NO BRASIL EM 2014 ... 47

LISTA DE GRÁFICOS GRÁFICO 1 – GÊNERO DOS VOLUNTÁRIOS – BRASIL ... 38

GRÁFICO 2 – GÊNERO DOS VOLUNTÁRIOS – SANTA CÂNDIDA ... 39

GRÁFICO 3 – IDADE – BRASIL ... 39

GRÁFICO 4 – IDADE – SANTA CÂNDIDA ... 40

GRÁFICO 5 – ESCOLARIDADE – BRASIL ... 40

GRÁFICO 6 – ESCOLARIDADE – SANTA CÂNDIDA ... 41

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CEBs - Comunidades Eclesiais de Base

CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil

FABS - Folha de Acompanhamento e Avaliação Mensal das Ações Básicas de Saúde e Educação na Comunidade

IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

NOMIC - Nova Ordem Mundial da Informação e Comunicação ONG – Organização Não Governamental

OSC - Organização Da Sociedade Civil PC – Pastoral da Criança

PCç – Pastoral da Criança

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1 INTRODUÇÃO ... 10

2 METODOLOGIA ... 14

3 CIDADANIA E MOBILIZAÇÃO SOCIAL NO BRASIL ... 17

3.1 CIDADANIA ... 17

3.2 MOBILIZAÇÃO SOCIAL ... 20

3.3 TERCEIRO SETOR ... 22

4 COMUNICAÇÃO NOS MOVIMENTOS SOCIAIS ... 25

4.1 COMUNICAÇÃO POPULAR ... 25

4.2 O DESENVOLVIMENTO DA COMUNICAÇÃO POPULAR ... 26

4.3 RELAÇÕES PÚBLICAS POPULARES ... 28

5 A PASTORAL DA CRIANÇA ... 33

5.1 HISTÓRIA ... 33

5.2 A RELIGIÃO DENTRO DA PASTORAL DA CRIANÇA ... 35

5.3 A ESTRUTURA ORGANIZACIONAL ... 35

5.4 PERFIL DOS VOLUNTÁRIOS ... 37

5.4.1 Gênero ... 38

5.4.2. Idade ... 39

5.4.3 Escolaridade ... 40

5.5 VALORES INSTITUCIONAIS ... 41

5.6 ATIVIDADES ... 42

5.6.1 Ações Básicas ... 43

5.6.2 Ações Complementares ... 44

5.6.3 Ações Opcionais ... 44

5.7 RESULTADOS DAS AÇÕES DA PASTORAL DA CRIANÇA ... 45

5.8 ABRANGÊNCIA E APORTE FINANCEIRO ... 47

6 ELEMENTOS DE MOBILIZAÇÃO NA PASTORAL DA CRIANÇA ... 49

6.1 PROPÓSTIO ... 49

6.2 ATORES ... 51

6.2.1 Produtor Social ... 51

6.2.2 Reeditor Social ... 54

6.2.3 Editor ... 55

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6.6 ACOMPANHAMENTO DE RESULTADOS ... 59

7 COMUNICAÇÃO NA PASTORAL DA CRIANÇA ... 61

7.1 COMUNICAÇÃO INTERNA E EXTERNA ... 61

7.2 COMUNICAÇÃO ESTRATÉGICA ... 63

7.3 A COMUNICAÇÃO COMO INSTRUMENTO DE MOBILIZAÇÃO SOCIAL NA PASTORAL DA CRIANÇA ... 64

7.3.1 Guia do Líder ... 65

7.3.2 Caderno do Líder e a FABS ... 67

7.3.3 Camisetas ... 70

7.3.4 Comunicação Interpessoal ... 72

8 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 75

REFERÊNCIAS ... 79

APÊNDICE ... 82

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1 INTRODUÇÃO

Problemas sociais são constantemente divulgados e facilmente identificados.

Eles têm origem em conflitos de interesses entre grupos e classes e afetam rotineiramente a vida de milhões de indivíduos. Os movimentos sociais se originam a partir da reflexão sobre as contradições da sociedade que afligem determinados grupos sociais. Pessoas se mobilizam, individualmente ou em grupos, em prol de causas, lutam por direitos e espaços democráticos de representatividade. “Nesse sentido, os movimentos sociais estruturam-se de acordo com a conjuntura, com interesses de grupos específicos, classes ou extrações de classes e em torno de projetos alternativos de sociedade” (FESTA, 1986, p. 11).

Esse processo faz parte da construção da cidadania de uma sociedade. Um dos principais autores que tratam sobre a definição de cidadania, Marshall (1967) a divide em três partes: civil, política e social.

O elemento civil é composto dos direitos necessários à liberdade individual - liberdade de ir e vir, liberdade de imprensa, pensamento e fé, o direito à propriedade e de concluir contratos válidos e o direito à justiça.[...]. Por elemento político se deve entender o direito de participar no exercício do poder político, como um membro de um organismo investido da autoridade política ou como um eleitor dos membros de tal organismo [...]. O elemento social se refere a tudo o que vai desde o direito a um mínimo de bem estar econômico e segurança ao direito de participar, por completo, na herança social e levar a vida de um ser civilizado de acordo com os padrões que prevalecem na sociedade. (MARSHALL, 1967, p. 63)

A busca pelos elementos civis, políticos e sociais que constituem a cidadania é uma luta constante e plural, a fim de conquistar direitos básicos para toda a população.

Especialmente no Brasil, esse processo é marcado por retrocessos e avanços intercalados, sendo que, ainda hoje, há um grande caminho pela frente para se conquistar a cidadania plena e completamente democrática. A construção do Brasil conta com diversos momentos de conflitos sociais, incluindo a divergência de interesses de classes que tencionam o país. Segundo Festa (1986), na década de 1970 surgem vários movimentos sociais de resistência no Brasil, abrangendo pautas diversificadas.

Festa ainda aponta que nessa mesma época, a Igreja demonstrava preocupação com as causas sociais e também se articulava para contribuir de

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alguma forma. Entre o final da década de 60 e o final da década de 70, surgiram milhares de Comunidades Eclesiais de Bases (CEBs) apoiadas pela Igreja católica.

As CEBs são núcleos de reflexão que reúnem pessoas de diferentes perfis para pensar os signos da vida e a transformação da sociedade a partir do evangelho.

Esses núcleos foram responsáveis pela aproximação entre a Igreja e as classes operárias, além de serem a porta para a participação feminina nos movimentos sociais.

É nesse cenário de contradições sociais e busca por soluções - que perdura até hoje, sem perspectivas de solução em curto prazo -, aliado à aproximação da Igreja Católica com grupos sociais menos favorecidos, além da crescente participação feminina nos movimentos sociais, que surge a Pastoral da Criança (PC). A organização é um organismo de ação social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, fundado em 1983 e voltado à assistência ao desenvolvimento de crianças carentes por meio de orientações básicas sobre os aspectos de saúde, nutrição, educação e cidadania. A Pastoral acompanha desde a gestação até os 6 anos de idade das crianças acompanhadas. É importante ressaltar que mesmo sendo uma organização ligada à Igreja Católica, a Pastoral tem uma atuação inter-religiosa.

Mais de 30 anos após sua fundação, a Pastoral da Criança hoje está presente em todos os estados brasileiros, além de atuar também em mais 17 países da África, Ásia, América Latina e Caribe. Os resultados do trabalho global da Pastoral da Criança são mensurados permanentemente e mostram a transformação que a organização é capaz de causar em suas comunidades de atuação.

A Pastoral da Criança é umas das maiores organizações de mobilização social hoje no Brasil. Dados levantados no primeiro trimestre de 2013, e disponíveis no site da organização1, apontam o número de 1.247.924 crianças de 0 a 6 anos sendo acompanhadas por 197.945 voluntários treinados, que contam o apoio de mais 88.423 voluntários em suas comunidades. Mais de 90%2 dos voluntários da PC são mulheres.

Com sua ação voltada para comunidades e famílias carentes, a PC é um retrato da mobilização social que trabalha em prol dos menos favorecidos. O

1Site da Pastoral da Criança, Quem Somos, Resultados, acessado em 10/06/2016

2 Gráfico 1

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trabalho da Pastoral é pautado pela busca de solução para problemas oriundos da desigualdade social, frutos dos conflitos de interesse de classe já citados.

Um fator interessante é que a grande maioria dos voluntários atua em suas próprias comunidades, ou seja, muitas vezes esses agentes lidam com problemas com os quais já estão familiarizados, pois fazem parte de sua própria realidade de vida. Ao trabalhar os conceitos básicos para o desenvolvimento saudável de uma criança, a Pastoral da Criança trabalha paralelamente a cidadania. Começa-se o processo com o empoderamento dos voluntários, para que estes sejam agentes de transformação e também possam empoderar as mães, famílias e crianças acompanhadas pela organização. A dinâmica de troca de experiências e partilha de conhecimento vai muito além dos cuidados com a saúde da gestante e da criança, ela pode também influenciar as relações de poder e autonomia dentro de uma sociedade.

O impacto social que o trabalho da Pastoral da Criança causa conta com uma grande aliada: a comunicação. Durante esta pesquisa, foi possível constatar a importância da comunicação no trabalho de mobilização social. A comunicação está presente em todo o processo e se caracteriza como popular.

Portanto, este trabalho analisa a mobilização social da Pastoral da Criança pela ótica da comunicação, considerando que esta é fundamental para que as ações sociais se concretizem. A partir, principalmente, do levantamento teórico, da pesquisa de campo e da análise de dados secundários, o objetivo da pesquisa foi identificar o uso da comunicação na Pastoral da Criança como agente e ferramenta para a mobilização social.

O primeiro capítulo desta pesquisa trata sobre a construção da cidadania e as formas de mobilização social no Brasil. O histórico dos movimentos sociais, suas motivações, formatos e sua importância para o cenário brasileiro são apresentados

Por meio de obras de autores e autoras consagrados na área da Comunicação Social e das Relações Públicas comunitárias, esta pesquisa também aborda os aspectos fundamentais da comunicação popular e alternativa, que é amplamente utilizada nos movimentos sociais.

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No quinto capítulo, é apresentada a organização tema desta pesquisa, a Pastoral da Criança. As ações da PC, que tiveram início em uma cidade do interior do Paraná, foram ampliadas ao longo dos anos e hoje alcançam comunidades carentes em diversas partes do globo, salvando a vida e levando cidadania a milhares de crianças e suas famílias. O trabalho realizado, guiado pelo amor pelas crianças e pelos princípios do evangelho, tem sua estrutura apresentada a partir das informações obtidas através de outras obras sobre a Pastoral, além de dados coletados no próprio site da organização e no seu sistema de informações disponível online.

Tendo pontuado as principais características da comunicação popular, este trabalho se embasa nas colocações de Bernardo Toro e Nílsia Werneck para identificar dentro da Pastoral da Criança quais são os elementos fundamentais da mobilização social. É interessante apontar que os elementos de mobilização podem frequentemente ser tidos como elementos de comunicação. Tendo isso em mente, o capítulo que aborda a mobilização social na Pastoral da Criança já deixa clara a importância da comunicação popular para a organização.

Por fim, é apresentada a comunicação dentro da Pastoral da Criança. Mais especificamente, são analisados cinco elementos comunicativos importantes para a PC: a camiseta, o Guia do Líder, a Revista Pastoral da Criança, o Caderno do Líder e a comunicação interpessoal.

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2 METODOLOGIA

Este trabalho utiliza a metodologia de Estudo de Caso visando alcançar os objetivos estabelecidos. A pesquisa se constitui principalmente a partir de dados qualitativos coletados em fontes primárias e secundárias. Isto foi possível devido à abertura dada pela Pastoral da Criança nas visitações às Celebrações da Vida – pesagens mensais das crianças e também momento de confraternização entre as famílias - e Reuniões de Reflexão e Avaliação – reuniões de voluntários (coleta de dados primários); à colaboração nas respostas de questionários e entrevistas (dados primários); ao empréstimo e doação de materiais gráficos (dados secundários); e também graças ao amplo arquivo de dados disponível no sistema de informações online da organização (dados secundários).

Assume-se também o caráter exploratório deste estudo – característica familiar ao estudo de caso. Gil (2002, p. 41) afirma que a pesquisa exploratória “tem como objetivo proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná- lo mais explícito ou a constituir hipóteses”. O autor também trata sobre a flexibilidade desse tipo de pesquisa, que pode assumir diversas formatações e ter variado embasamento, mas que frequentemente recai sobre as formas de pesquisa bibliográfica e estudo de caso. As duas formas citadas por Gil podem ser identificas na atual pesquisa.

No que compete às definições de estudo bibliográfico, Gil o caracteriza como aquele que é desenvolvido a partir de materiais já elaborados por outros autores, principalmente livros e artigos científicos. “A principal vantagem da pesquisa bibliográfica reside no fato de permitir ao investigador a cobertura de uma gama de fenômenos muito mais ampla do que aquela que poderia pesquisar diretamente”

(GIL, 2002, p. 44-45). Neste aspecto, foram utilizados alguns autores e autoras consagrados no presente trabalho. Margarida Kunsch, Cicilia Peruzzo, Regina Festa, Paulo Freire, Bernardo Toro e Nísia Werneck são alguns exemplos de estudiosos referenciados bibliograficamente na presente pesquisa. A utilização de suas obras foi fundamental para compreender os aspectos e história da mobilização social e da comunicação popular.

Quanto ao estudo de caso, Yin (2001, p.32) define que:

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Um estudo de caso é uma investigação empírica que investiga um fenômeno contemporâneo dentro de seu contexto da vida real, especialmente quando os limites entre o fenômeno e o contexto não estão claramente definidos.

Como citado, esta pesquisa obteve dados qualitativos de fontes primárias e secundárias. Explorando este aspecto, é importante pontuar que os dados primários foram coletados através um roteiro de entrevista respondido pela equipe de comunicação da Pastoral da Criança e pela pesquisa observatória de campo. Em relação aos dados secundários, essas informações foram obtidas pela pesquisa documental e por um breve questionário respondido por voluntárias da organização.

O roteiro de pesquisa foi aplicado a fim de complementar as análises que já estavam sendo feitas a partir de fontes secundárias, como os materiais impressos.

O questionário foi respondido por oito voluntárias que estavam presentes na Reunião de Reflexão e Avaliação do ramo3 Santa Cândida do mês de abril de 2016.

As cinco questões eram abertas, porém extraíram dados quantitativos que foram o caminho encontrado para delinear o perfil das voluntárias do ramo estudado, possibilitando também o comparativo com as informações pesquisadas pela Pastoral da Criança.

A pesquisa documental é caracterizada por Gil (2002, p.46) como a pesquisa que conta com fontes secundárias diversificadas e dispersas, incluindo regulamentos, relatórios e tabelas – que muitas vezes já foram analisados previamente. No que tange a esta pesquisa, se enquadram nessa definição o acesso às informações disponibilizadas pela Pastoral da Criança em seu Sistema de Informações online, além da análise dos materiais impressos que foram emprestados ou cedidos durante o processo.

Também é importante pontuar aqui a definição de estudo de campo, outra metodologia também utilizada nesta pesquisa, na medida em que foram feitas visitas às Pesagens e Reuniões Mensais. Gil (2002, p. 52) afirma que a pesquisa de campo focaliza uma comunidade e “é desenvolvida por meio da observação direta das atividades do grupo estudado e de entrevistas com informantes para captar suas explicações e interpretações do que ocorre no grupo”.

Com o objetivo de realizar uma análise mais próxima da realidade, e também obter dados primários a partir da observação, foi preciso eleger um ramo para se

3 Conjunto de comunidades, de uma mesma região, que contam com o trabalho da Pastoral da Criança.

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aprofundar na pesquisa de campo. O ramo escolhido foi o Santa Cândida, que pertence ao setor norte da cidade de Curitiba, conforme a regionalização feita pela Pastoral da Criança.

Este ramo foi escolhido por diversos motivos. Primeiramente, pela facilidade de acesso. Desde o primeiro contato, as voluntárias se mostraram solícitas, dispostas a colaborar com a participação nos encontros. Em segundo lugar, este ramo conta com o trabalho da Pastoral da Criança há cerca de 20 anos e, neste período, passou por diversas fases da mobilização, incluindo enfraquecimentos eventuais e fortalecimento das atividades. Há também certa variedade de realidades acompanhadas nas comunidades. É fato que todas as regiões atendidas são carentes, mas algumas contam com uma concentração maior de famílias pobres ou em estado mais delicado. Atualmente, o ramo conta com 4 comunidades ativas:

Santa Cândida, Jardim Aliança, Jardim Cruzeiro e Roça Grande. Há uma comunidade prestes a retomar as atividades, que é a Ouro Verde. Além dessas, há duas comunidades que estão há alguns anos paradas por falta de voluntários: Vila Guaraci e Jardim Carvalho.

As Celebrações da Vida de todas as comunidades do ramo Santa Cândida acontecem no 4º sábado de cada mês. As visitas domiciliares não tem uma data fixa definida pelas comunidas, elas dependem da disponibilidade das líderes, mas de maneira geral acontecem nos dias de semana que antecedem a Celebração da Vida. As Reuniões de Reflexão e Avaliação acontecem uma vez ao mês no centro catequético da comunidade matriz, que é a Santa Cândida.

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3 CIDADANIA E MOBILIZAÇÃO SOCIAL NO BRASIL

Antes de apresentar a comunicação como agente e ferramenta de impacto social, é importante escrever sobre a sua base de atuação nesta direção, conceituando temas como cidadania, mobilização social e o terceiro setor. Para tanto, diversos autores expressam seus conhecimentos em teses que, na maioria das vezes, se complementam, trazendo embasamento teórico para conceituações e apresentando as possibilidades de desdobramento.

3.1 CIDADANIA

Se há a importância de ações focadas em mudança e impacto social, pode-se afirmar que seus focos de atuação objetivam exterminar determinados problemas sociais. Para tanto, é fundamental que sejam observados os aspectos de cidadania que envolvem cada causa. A cidadania é prática norteadora dos direitos humanos, civis e políticos, prezando pelas responsabilidades e pela liberdade de se viver em uma sociedade justa. Kunsch define que:

Em princípio, cidadania refere-se aos direitos e às obrigações nas relações entre Estado e o cidadão. Falar em cidadania implica recorrer a aspectos ligados a justiça, direitos, inclusão social, vida digna para as pessoas, respeito aos outros, coletividade e causa pública no âmbito de Estado- nação. (KUNSCH, 2007, p.63)

Complementando, Peruzzo afirma:

Havendo cidadania, haverá desenvolvimento social. Cidadania quer dizer participação, nos seus múltiplos sentidos e dimensões, incluindo a cidadania cultural, que garante o direito à liberdade de expressão e de acesso aos bens culturais. (PERUZZO, 2007, p. 52)

Assim como as autoras trazem aspectos que constituem a cidadania, o autor Marshall (1988, p. 20 apud DUARTE, 2007, p. 103), um dos principais autores clássicos que iniciaram os estudos sobre o tema, determina, de maneira mais específica, três elementos que compõem a cidadania: o primeiro seria a conquista dos direitos civis, como a liberdade individual, de expressão, de pensamento e de crença; o segundo elemento refere-se aos direitos políticos, tratando do direito ao voto e ao cargo público; por fim, a última parte diz respeito ao social, abrangendo

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questões como o direito a segurança, bem-estar econômico e de viver como um ser civilizado, seguindo os padrões estipulados pela sociedade.

A definição de Duarte (2009, p. 111-112) para cidadania traz os conceitos de mobilização, cooperação e formação de vínculos de corresponsabilidade para com os interesses coletivos. A autora fala sobre os três elementos definidos por Marshall ao tratar da realidade brasileira em relação à luta pró-cidadania: “as lutas mais recentes por direitos políticos, civis e sociais ajudaram o Brasil a ampliar a noção de cidadania enquanto um direito universal, não restrito a grupos ou classes sociais”.

Trazendo a realidade brasileira para o centro deste estudo, segundo Duarte (2009, p. 95), o problema no Brasil é que nem todos podem exercer plenamente a cidadania. Observando a história do país, incluindo os dias de hoje, é possível perceber que em determinados períodos e regiões, somente algumas parcelas da população puderam exercer sua cidadania, em detrimento de outras, que muitas vezes eram a maioria. Nesse sentido, Kunsch (2007, p. 65) afirma que “no Brasil e em outros países da América Latina, ter direito à educação, propriedade privada e bens de consumo coletivo é uma coisa, ter real acesso a essas coisas é outra”.

No Brasil, o processo de desenvolvimento da cidadania tem ganhado força, ainda que de maneira lenta e não linear, sendo marcado por momentos de retrocessos, além dos avanços. Tal afirmação parte tanto de Duarte (2009), quanto de Peruzzo (2003). Ambas as autoras pontuam algumas fases da formação da cidadania no Brasil. Duarte afirma que na época da Colônia a luta pela cidadania buscava reformar questões nacionalistas, culminando na base para o surgimento de uma identidade nacional. Passando para o período do governo imperial, a cidadania ganha espaço e passa a tratar de conteúdos regionais, dando os primeiros passos rumo a ideais liberais e socialistas. Neste momento, o foco está na reivindicação de questões socioeconômicas, sem necessariamente contestar o regime jurídico vigente.

O período da república trouxe consigo uma suposta nova ordem política, que não consegue superar as raízes elitistas e oligárquicas que ainda excluem determinados grupos da participação social. Passando para o século XX, a luta pela cidadania abraça novas demandas. Principalmente no período do governo Getúlio Vargas, a militância volta seus olhos e forças para a luta pelos direitos trabalhistas.

Mais para frente, na década de 1970, a bandeira dos direitos humanos, levantada

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internacionalmente, também influencia fortemente o desenvolvimento da cidadania no Brasil.

Festa (1986, p. 12) fala sobre os 10 anos que sucederam o Ato Institucional nº5, promulgado no final de 1968 e grande marco da repressão imposta pelo regime militar que o Brasil vivia. Segundo a autora, o período gerou “extraordinários e heroicos espaços de resistência social”:

De um lado, a repressão direta e a censura aos meios de comunicação de massa tentavam bloquear as manifestações e as reivindicações populares, com o objetivo de impor um isolamento ao movimento de base e à sociedade civil como um todo. De outro lado, as próprias condições de marginalidade social e política, acrescidas à crescente pauperização das classes subalternas, construíam pólos de conflito e resistência (FESTA, 1986, p. 12).

Completando a periodização, Peruzzo define quatro fases da cidadania brasileira a partir da década de 70. Esse período, segundo a autora, é a fase da mobilização. É nessa época que as primeiras grandes manifestações ganham forma e tomam as ruas e praças, como aconteceu na greve dos metalúrgicos do ABCD4 paulista. A segunda fase seria a da organização. Nesse momento, os movimentos passam por um processo de fortalecimento interno, caminhando rumo a certa profissionalização das suas atividades, com criação de estatutos, especialização de seus membros, etc.

A próxima fase é a de articulação. No final dos anos 80, amplia-se a nível nacional a abrangência de diversas pequenas organizações, que se unem para ganhar mais forças. A quarta fase é a de parcerias, quando a cidadania se desenvolve visando a busca de soluções concretas para os problemas sociais, dessa vez através de parcerias entre organizações sociais, órgãos públicos e organizações não governamentais.

De certa forma continuando a linha do tempo dos movimentos sociais e da cidadania, Kunsch fala sobre o impacto da globalização na atualidade, que resulta no que ela chama de cidadania planetária. Primeiramente, a autora aponta a dualidade da globalização. Se por um lado há benefícios e avanços indiscutíveis para a sociedade em rede, por outro, ainda existe uma imensa parcela da população sem acesso à tecnologia e até mesmo sem acesso à educação básica. “Tais fatos

4 Área industrial que fica localizada na região metropolitana da cidade de São Paulo. O ABCD Paulista é composto por quatro municípios: Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul e Diadema.

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têm impulsionado reações e novas formas de luta da sociedade civil organizada em nível local, nacional, regional e global” (KUNSCH, 2007, p. 67)

A organização desses agentes que integram a sociedade civil organizada, como movimentos sociais, ONGs, associações ativistas, grupos de interesse e depressão, redes sociais, comunidades virtuais, etc., possibilita uma mobilização social em torno de objetivos comuns e em defesa dos direitos humanos e da cidadania, que ultrapassem as fronteiras nacionais.

Daí assumirem um caráter de cidadania planetária. (KUNSCH, 2007, p. 67)

A definição de Kunsch para a cidadania em tempos de globalização está alinhada com a definição de McGrew (1992 apud HALL, 2006) para o próprio termo globalização:

Como argumenta Anthony McGrew (1992), a "globalização" se refere àqueles processos, atuantes numa escala global, que atravessam fronteiras nacionais, integrando e conectando comunidades e organizações em novas combinações de espaço-tempo, tornando o mundo, em realidade e em experiência, mais interconectado. (HALL, 2006, p. 64)

Neste contexto globalizado, em que as questões sociais tomam formas e proporções diferentes do conhecido há alguns anos, vale atribuir a responsabilidade pela movimentação das pautas sociais às organizações que trabalham em prol de uma sociedade mais organizada, melhor informada e que trilham o caminho da cidadania ativa. Hoje esses agentes precisam se adaptar para conseguir abraçar as problemáticas da globalização, mas a sua atuação já carrega anos de história.

3.2 MOBILIZAÇÃO SOCIAL

Primeiramente, é importante definir a mobilização social, que segundo Toro e Werneck (1996) “ocorre quando um grupo de pessoas, uma comunidade ou uma sociedade decide e age com um objetivo comum, buscando, quotidianamente, resultados decididos e desejados por todos”. Os autores também definem que:

Toda mobilização é mobilização para alguma coisa, para alcançar um objetivo pré-definido, um propósito comum, por isso é um ato de razão.

Pressupõe uma convicção coletiva da relevância, um sentido de público, daquilo que convém a todos. Para que ela seja útil a uma sociedade ela tem que estar orientada para a construção de um projeto de futuro. Se o seu propósito é passageiro, converte-se em um evento, uma campanha e não em um processo de mobilização. (TORO e WERNECK, 1996, p.5)

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Ainda segundo Toro e Werneck: “como falamos de interpretações e sentidos também compartilhados reconhecemos a mobilização social como um ato de comunicação” (1996, p.5). Esse reconhecimento da mobilização como um ato comunicativo será evidenciado nos próximos capítulos.

Duarte (2009, p. 102) cita como exemplos de organizações que atuam na mobilização social as comunidades eclesiais de base, as pastorais sociais, as entidades culturais de educação e saúde, de assistência material e jurídica, como as universidades e a Ordem dos Advogados do Brasil, “que têm contribuído para o fortalecimento dos movimentos sociais populares e sindicais”. A autora reforça que:

Num contexto de desigualdade como o brasileiro, é absolutamente necessário que se possa assegurar e estimular os indivíduos a exercer os direitos civis e políticos e de conquistar, em definitivo, os direitos sociais.

Assim sendo, a participação deixa de ser apenas um ato político e passa a ser também um ato educativo, na medida em que, por meio dela, novos conhecimentos são gerados e conquistas viabilizadas. Consequentemente, a ampliação da cidadania confere ao homem o potencial para agir enquanto sujeito e não simples objeto de sua história. (DUARTE, 2009, p. 103)

Duarte ainda discorre sobre os desdobramentos da participação e atuação cidadã:

Em geral, essas organizações têm pautado suas iniciativas por uma filosofia de ação coletiva sobre a gestão de bens comuns da humanidade como o meio ambiente, a educação, a saúde, a água, etc., segundo a qual a participação da sociedade civil, o interesse público, os serviços públicos e a diversidade cultural devem prevalecer sobre os mecanismos de mercado.

(DUARTE, 2009, p. 110)

Os movimentos sociais, portanto, são fundamentais para guiar a participação democrática na construção da cidadania, pois são responsáveis por pluralizar essa participação, a fim de alcançar resultados mais compatíveis com a realidade de todos.

Não se trata de ser construída uma ordem social por quem acha que sabe fazê-lo para que os outros se integrem a ela. Trata-se de construir com todos, inclusive com os pobres, uma ordem social onde todos possamos conviver e ser produtivos econômica, política, cultural e socialmente. Uma sociedade é democrática e produtiva quando todos os que dela participam podem fazer competir organizadamente seus interesses e projetar novos futuros. (TORO e WERNECK, 2004, p.13)

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Quando se fala em contexto brasileiro, Peruzzo (2003, p. 286-287) aponta as principais dificuldades do processo de mobilização social no país, que seriam a concentração de renda, a precariedade da formação cultural e difícil acesso à educação formal básica, e a limitada participação política na discussão e definição dos temas de interesse coletivo. Complementando, Duarte (2009, p. 111) afirma que

“além das dificuldades de formação histórica, social e cultural do país, é preciso enfrentar as questões legais e econômicas que criam barreiras”.

Na contramão das dificuldades, Peruzzo (2004) também ressalta que a partir das contradições advindas da globalização, surge um maior interesse por parte da população em relação aos assuntos divulgados na mídia.

Há uma prontidão na sociedade civil para contribuir para a ampliação dos direitos e deveres de cidadania, refletida no crescente número de ONGs (Organizações não Governamentais), associações e movimentos organizativos de toda espécie; no trabalho voluntário; na continuidade do trabalho social de igrejas; no clima de responsabilidade social que contagia as empresas; na eleição histórica de um Presidente da República que canalizou o interesse por mudança da ampla maioria da sociedade brasileira, e assim por diante. (PERUZZO, 2004, p. 4-5)

Considerando o conceito de cidadania planetária e os impactos da globalização, a tendência é de que as pautas dos movimentos sociais sejam cada vez mais extensas, quebrando barreiras territoriais. A evolução histórica da mobilização social mostra sua capacidade de adequação às transformações da própria sociedade, o que evidencia e justifica a pluralização das mobilizações em prol de causas diversificadas.

3.3 TERCEIRO SETOR

Englobando os movimentos sociais anteriormente citados, que vêm ganhando força e se multiplicando com o passar do tempo no Brasil, define-se o terceiro setor.

Considerando o primeiro setor como o poder público e seus órgãos, e o segundo setor como as empresas e organizações que visam o capital, o terceiro setor surge para quebrar essa dicotomia, objetivando combater os problemas sociais históricos de determinados contextos.

No meio acadêmico, o terceiro setor tem ganhado espaço nos últimos anos, em diversas áreas. Segundo Roque (2007), termos como “filantropia”,

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“responsabilidade social”, “desigualdade” e “cooperação” estão sendo mais usados no meio acadêmico:

Eles remetem à consciência social que, em um cenário político-econômico mundial marcado por assimetrias, a universidade pode contribuir para a inserção e o fortalecimento de uma nova ordem, mais justa e participativa.

Essa consciência legitimou o campo do estudo do terceiro setor, como uma das mais exemplares iniciativas de atuação interdisciplinar. (ROQUE, 2007, p. 237)

Quando o termo “terceiro setor” estava começando a ser usado no Brasil, Fernandes (1997, p. 26) escreveu sobre a origem da expressão, que é oriunda do inglês (third sector) e, na época, já contava com certa recorrência de uso na área da sociologia nos Estados Unidos. Segundo o autor, no país norte americano, o termo era frequentemente relacionado com outros dois: organizações sem fins lucrativos e organizações voluntárias. Ambas expressões levam a refletir sobre o afastamento das relações comerciais e de lucro em tais organizações.

Hoje em dia, há considerável discussão no ambiente acadêmico quanto à definição do setor. Os estudos são amplos e, a medida que são aprofundados, várias questões são levantadas e geram debate. Um dos principais fatores que norteiam a discussão sobre o tema é relativo, justamente, aos elementos que compõem o terceiro setor. Muitos autores divergem sobre quais organizações o terceiro setor engloba, tendo em vista a polêmica por trás do verdadeiro objetivo da atuação dessas organizações.

Para Peruzzo (2007, p.155), o terceiro setor é constituído por Organizações da Sociedade Civil (OSCs), abrangendo entidades sem fins lucrativos, privadas, mas de caráter público, que atuam a serviço dos interesses coletivos. A autora reforça que a imprecisão do termo se deve as divergências entre definições dos autores, como citado anteriormente:

Há os que incluem apenas as organizações formais, enquanto outros contam as atividades informais e individuais. Alguns estudiosos excluem as fundações empresariais, sendo que em outros casos os sindicatos, movimentos políticos insurgentes, as seitas e afins ora são considerados pertencentes, ora são excluídos do conceito. (PERUZZO, 2007, p. 156)

Ainda segundo Peruzzo, a discussão sobre o tema cresce ao analisar a função dessas organizações:

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Se por um lado coloca-se o terceiro setor como esfera que se destina a enfrentar os grandes problemas nacionais, por outro aponta-se essa proposta como artimanha do capital para abrandar as responsabilidades que cabem ao Estado e às próprias empresas dentro de suas áreas de competência. (PERUZZO, 2007, p.155)

Fernandes (1997, p.28-30) levanta a questão: “Sendo tantos e tão variados os componentes desse ‘terceiro setor’, que sentido há em agrupá-los sob um mesmo nome?”. O mesmo autor responde a essa pergunta baseado em quatro justificativas.

O primeiro aspecto em comum dessas organizações é que elas fazem um contraponto às ações do governo, são ações particulares que contribuem para os bens e serviços púbicos, que são, teoricamente, responsabilidades do primeiro setor.

Ao mesmo tempo, essas organizações também fazem contraponto às ações do mercado, tendo em vista que ele gera demandas que não consegue satisfazer. O terceiro setor trabalha para conscientizar o meio empresarial e recebe investimentos dos mesmos, dessa forma, consegue suprir, ao menos em parte, aquilo que o segundo setor não consegue ou não lhe interessa fazer. Outro fator que unifica as organizações do terceiro setor é que, juntas, ela se fortalecem e dão um sentido maior para seus componentes. A composição variada do setor legitima ações de voluntariado, de solidariedade social, manifestações em prol de um bem comum e a participação cidadã. Por fim, a quarta justificativa trata sobre a visão integradora da vida pública. O terceiro setor existe para cobrar resultados e pressionar o governo em relação à eficácia dos serviços públicos. Também, sem o governo, não existiriam normas que pudessem legitimar e regularizar as ações do terceiro setor. Em relação ao segundo setor, pode-se afirmar que as organizações sem fins lucrativos só existem porque há geração de lucros nesse plano. O autor ainda ressalta que a relação de coexistência entre os três setores não exclui conflitos entre esses. A dinâmica dessa complementaridade envolve diversos fatores de interesse, produtividade e eficácia.

Diante das definições aqui expostas, independente das divergências apontadas, será considerado que o objeto de estudo deste trabalho, a Pastoral da Criança, faz parte dos movimentos sociais e enquadra-se no terceiro setor, tendo a cidadania como um dos seus pilares e livre de influência comercial direta na definição de suas ações.

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4 COMUNICAÇÃO NOS MOVIMENTOS SOCIAIS

Em busca de representatividade, abrangência e conquistas, os movimentos sociais contam com um grande aliado: a comunicação. Há diversos profissionais da área da comunicação dispostos a trabalhar em prol de causas sociais, aplicando o conhecimento adquirido com a experiência de mercado e de estudos no terceiro setor. Não obstante, diversos autores pesquisam sobre a influência e as possibilidades da comunicação aliada à mobilização social. As produções acadêmicas sobre o tema contam com grande número de publicações, o que amplia o horizonte do debate e pesquisa sobre o papel da comunicação na sociedade.

4.1 COMUNICAÇÃO POPULAR

Como demonstrado no terceiro capítulo deste trabalho, os movimentos sociais têm como essência a busca e o fomento da cidadania. Nesse cenário, a comunicação frequentemente ganha formas alternativas, dando voz aqueles que não encontram representatividade na mídia tradicional, de massa, ou nem mesmo tem acesso à mesma. Essa é a comunicação para o povo, pelo povo e sobre o povo, em especial se referindo aos grupos mais excluídos da sociedade, e que será tratada neste capítulo. Nessa perspectiva, a comunicação mostra seu poder de mobilização e reflexão sobre questões profundamente ligadas à cidadania:

O direito à comunicação é matéria discutida em fóruns nacionais e internacionais e, diante da multiplicidade de demandas e necessidades em que se expressa a construção da democracia, envolve questões fundamentais para o cidadão, como a concentração da propriedade dos meios de comunicação, monopólios e oligopólios, a propriedade cruzada, a inclusão digital, mídias comunitárias, produção e identidade cultural, acesso e controle da informação, educomunicação, transparência, publicidade das ações do Estado e do Governo, mobilização social, debate de temas de interesse público, etc. (DUARTE, 2009, p.105)

A comunicação alternativa e popular, característica dos movimentos sociais e atrelada à luta pela cidadania, nasceu da necessidade de representação de determinadas organizações, considerando a sua existência dentro de um sistema de comunicação tradicional. É o que retrata Peruzzo ao afirmar que:

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Os movimentos sociais e as demais organizações sem fins lucrativos, uma vez percebendo-se ausentes da grande mídia na representação de seu modo de vida e de suas necessidades comunicacionais, passam a forjar uma comunicação própria, que em última instância participa de um processo de mobilização, visando à transformação social. (PERUZZO, 2007, p. 52)

Como desdobramento disso, surgem novos espaços de diálogo e de difusão de informação. Esses espaços ganham força com o passar do tempo e, consequentemente, dão cada vez mais voz a mais pessoas.

A crescente demanda pela participação social nos meios de comunicação, especialmente locais e comunitários, permitiu a inclusão de novos atores e novas mídias, que têm promovido a diversificação de programas, de conteúdos e até mesmo de canais midiáticos específicos para as necessidades de diferentes públicos/comunidades. (DUARTE, 2009, p.106)

Como exemplos dos novos espaços de diálogo e difusão de informação, Duarte cita alguns meios e plataformas de comunicação que surgiram a partir de demandas sociais mais recentes:

Como exemplo, podemos citar as rádios e TVs comunitárias, canais de televisão dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, das Universidades, dos jornais comunitários, e dos novos sites da Internet, os veículos controlados por grupos de interesse como as Igrejas, os Partidos Políticos, as TVs educativas, etc. [...] São novas visões de mundo colocadas em discussão, temas inéditos ou limitados a áreas muito específicas de atuação.

Para Duarte (2009, p.100), a comunicação teria o papel de promover a mobilização social, empoderando o cidadão e tornando-o apto a tomar decisões em prol da articulação de mudanças sociopolíticas e culturais. A autora define a comunicação como “instrumento indispensável na construção de uma cidadania ativa, que luta para ver concretizadas as práticas democráticas”.

4.2 O DESENVOLVIMENTO DA COMUNICAÇÃO POPULAR

Iniciando uma linha cronológica do desenvolvimento da comunicação popular, Peruzzo (2007, p.49-50) escreve sobre o fortalecimento e a atenção recebida pela área na década de 70, quando surgiu a ideia de uma Nova Ordem Mundial da Informação e da Comunicação (Nomic). A Nomic teria papel fundamental na quebra do fluxo de informações mundial, que acontecia prioritariamente partindo dos países

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mais ricos para os mais pobres. Além disso, no Brasil, seria importante para a implantação de novas políticas comunicacionais que valorizassem a produção, a identidade e a cultura nacional. A Nova Ordem seria norteada pelos princípios da comunicação autônoma e democrática, buscando impactar, inclusive, os meios de comunicação massivos de abrangência nacional. Por mais que a preconização não tenha sido concretizada, é possível vislumbrar os pontos de interesse da comunicação popular a partir das melhorias propostas. Outra questão em alta na época era a consciência ambiental, que começava a receber interesse crescente através da mobilização social.

Peruzzo (2007, p.51) continua a linha do tempo abordando a inclusão das novas tecnologias da comunicação na sociedade, que ocorreu entre o final do século XX e início do XXI. A luta pela universalização do acesso às novas tecnologias entra em pauta, ainda que sem tomar o espaço da mobilização pelo suprimento de carências básicas. “Havendo a decisão de colocar as tecnologias a serviço da população e, por meio delas, dar acesso às informações, às culturas, à educação, etc., elas desempenham papel primordial no desenvolvimento social e cidadania”, afirma a autora. Duarte (2009, p.108) complementa essa questão defendendo o papel essencial das novas tecnologias no desenvolvimento da cidadania, na medida em que estas viabilizam a produção de conteúdo de interesse direto das comunidades.

É certo que as estruturas de participação ainda são difusas e pouco organizadas, e que seu processo de construção é tímido e fragmentário, mas também é fato que a comunicação e as novas tecnologias da informação têm influenciado decisivamente o processo de transformação da sociedade brasileira, em especial o estabelecimento de uma nova cultura política, que propugne pela participação política baseada na conscientização e não simplesmente no dever cívico do voto. (DUARTE, 2009, p.102)

Outra informação que Peruzzo (2007, p. 52) apresenta é que, no Brasil, foi a partir de meados da década de 1990 que a participação cidadã na comunicação começou a crescer. Esse crescimento se deve tanto às participações na mídia alternativa, que tem um ambiente favorável a isso, quanto na grande mídia, que passou a dar maiores espaços para a participação cidadã, porém, prioritariamente com finalidade de entretenimento e atrelado a interesses econômicos.

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Kunsch complementa sobre o cenário complexo em que a sociedade – e, consequentemente, os movimentos sociais e a comunicação alternativa – se desenvolve:

No âmbito de uma sociedade cada vez mais complexa, reserva-se à comunicação um papel de crescente importância nas organizações que procuram trilhar o caminho da modernidade. Os movimentos sociais e as comunidades têm de orientar-se por uma política que privilegie o estabelecimento de canais efetivos de ligação com os diferentes setores da sociedade, abrindo caminhos para efetiva mobilização e articulação. A comunicação deve constituir-se em uma estratégia de direção, agregando valor, facilitando processos interativos e viabilizando as necessárias mediações. (KUNSCH, 2007, p. 295-296)

Analisando o histórico dos movimentos sociais, fica claro que, com o passar dos anos, novas demandas foram surgindo e as mobilizações foram tomando novos e diversificados formatos. A comunicação popular, ao acompanhar esses movimentos, também acompanhou as mudanças e se adaptou para compreender as necessidades do processo de fortalecimento da cidadania, incluindo novos espaços, tendências e cenários.

Em face da comprovada incapacidade do Estado de atender a todas as demandas sociais, criou-se um espaço para um crescimento enorme de fundações, organizações não governamentais e movimentos da sociedade civil. Além disso, as ações de responsabilidade social desenvolvidas pelas empresas privadas já não são apenas uma tendência, mas uma realidade em curso. (KUNSCH, 2007, p. 296)

4.3 RELAÇÕES PÚBLICAS POPULARES

Diante desse contexto, pode-se afirmar que o surgimento de novas organizações e de novas causas vem para atender novas demandas sociais, além de potencializar os resultados de mobilizações já existentes. Nesse sentido, Henriques destaca a função da comunicação de atrair a atenção dos públicos para as causas sociais:

Na comunicação dos movimentos sociais ou de projetos mobilizadores, uma questão central é que as estratégias são requeridas especialmente para dirigir aos públicos apelos que possam convencê-los de que uma causa existe em função de um problema concreto, de que ele deve interessar a todos e é passível de transformação. Só assim é possível posicionar (e enquadrar) publicamente um problema que poderia estar restrito a âmbitos particulares, com uma questão que potencialmente afeta a coletividade e cuja relevância é de notório reconhecimento. (HENRIQUES, 2007, p.103)

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Para Henriques (2007, p.101), “a comunicação dos movimentos pode ser caracterizada como um problema de relações públicas”. Nesse sentido, o autor aponta a aproximação entre a mobilização social e as Relações Públicas, na medida em que as estratégias de comunicação e relacionamento precisam lidar com diversos públicos, sempre buscando estreitar relações.

A necessidade de relacionamento público faz emergir a atividade de relações públicas – estreitamente associada aos grandes interesses do capital privado em busca de legitimação pública, em um cenário de modernização e de emergência de uma opinião pública de massa.

Entretanto, em uma visão mais ampla, podemos compreender que a atividade se aplica a qualquer demanda de relacionamento que se apresente entre instituições e seus públicos. (HENRIQUES, 2007, p. 101)

As Relações Públicas aqui apresentadas podem ser chamadas de Relações Públicas Populares ou Comunitárias, sendo que Peruzzo pontua os princípios que as norteiam:

Elas têm a ver com uma concepção de mundo e uma concepção de homem que: a) Acredita no homem, na sua potencialidade de construir uma sociedade justa e livre; b) Que enxerga a desigualdade social, as contradições de classes e quer o bem-estar, a plenitude e os direitos de cidadania assegurados para todos os homens; c) Acredita nas possibilidades de mudança, e na sociedade civil como gestora de mudanças e de nova hegemonia; d) Implica a interdisciplinaridade entre vários campos do conhecimento e da ação político-educativa; e) Que se realizem de modo orgânico ao interesse público, e preferencialmente inseridas em experiências concretas e alicerçadas na metodologia de uma educação popular libertadora; f) Favoreça a ação coletiva, a autonomia, a partilha do poder de decisão, a co-responsabilidade (tanto pelas práticas participativas como pela implementação de políticas públicas em conformidade com as necessidades e interesses da comunidade) e, claro, respeitando a dinâmica própria dos movimentos onde se inserem. (PERUZZO, 1993, p. 128-129)

As Relações Públicas Comunitárias e a Comunicação Popular formam uma relação de apropriação mútua, se mesclam, se complementam e partem dos mesmos princípios. Diante disso, neste trabalho não serão definidas as suas diferenças, considerando que um conceito faz parte do outro, são integrados. O foco será a contribuição para a cidadania que ambos os conceitos têm em comum.

Portanto, as definições apresentadas estarão abrangendo todo o processo comunicativo e de relacionamentos na mobilização social.

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Uma vez inseridas no processo dos movimentos populares e sindicais as relações públicas se realizam de modo interdisciplinar, ou seja, correlacionadas com outras áreas da comunicação e com outras áreas do conhecimento. No campo do comunitário, do sindical etc. é difícil isolar as atividades de comunicação em relações públicas, em jornalismo, em propaganda etc. Aí se fala e se pratica comunicação. (PERUZZO, 1993, p.

129)

Prova disso é a definição das funções da comunicação apresentadas por Duarte, que cita fatores totalmente alinhados aos princípios das Relações Públicas Comunitárias anteriormente citados. Duarte (2009, p. 112) afirma que a comunicação é fundamental para a dinâmica da vivência da cidadania, considerando que é responsável por “viabilizar acesso à informação, estimular debates das questões públicas, disponibilizar canais de comunicação e facilitar a participação em algumas esferas deliberativas”.

A comunicação deve ser plena a tal ponto que possa oferecer ao cidadão condições de se expressar enquanto personalidade crítica e autônoma, emancipar-se e compreender-se, de modo a fomentar uma capacidade de organização e mobilização dos sujeitos que consistirá, em última instância, na concretização de uma cidadania ativa, fruto do aprendizado, da produção coletiva de saberes, capaz de romper formas de exclusão e opressão e encontrar caminho e modelos próprios de organização da vida coletiva.

(DUARTE, 2009, p. 133)

De forma complementar e sintetizadora, Peruzzo afirma:

No âmago da questão, o que está colocado, falado de modo claro e sintético, é a premência do uso dos meios de comunicação em benefício da cidadania e que esta é construída pelos próprios cidadãos, na sua interação com as outras forças constitutivas da sociedade. O desenvolvimento só faz sentido se promover a igualdade no acesso à riqueza e o crescimento integral da pessoa e de todos, ou seja, se tiver como mola-mestra o ser humano. (2007, p. 51)

A comunicação nos movimentos sociais contribui para a promoção dessa integração dos indivíduos com a sociedade ao lhes oferecer voz no espaço público, de forma a amenizar ou extinguir desigualdades. A efetividade desse papel está diretamente relacionada ao planejamento da comunicação. É importante reforçar que, como para qualquer tipo de organização, um planejamento estratégico é importante para a obtenção de resultados efetivos, ainda mais considerando o contexto desafiador da mobilização.

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As dimensões aqui consideradas impõem aos movimentos o desafio de estabelecer um relacionamento público, ou seja, de apresentar e defender publicamente seus interesses, lidar com uma variada gama de públicos, em busca da legitimação de sua existência e da adesão às suas causas, e manter os vínculos horizontais entre os atores mobilizados. (HENRIQUES, 2007, p. 100-101)

Entretanto, há certos fatores nos projetos sociais que se diferenciam da realidade empresarial e devem ser levados em conta:

É preciso considerar que, mesmo apoiadas sobre os mesmos fundamentos e justificativas por demandas semelhantes, as ações empreendidas pelos movimentos estão sujeitas a inúmeras especificidades, que não se restringem apenas aos desenhos institucionais distintos (em termos de hierarquias e processos), mas também por uma dinâmica diferente de atuação, o que requer rever a visão tradicional dos públicos como unidades funcionais pouco dinâmicas e compreende-los como agrupamentos que compõem complexos sistemas de relacionamento. (Henriques, 2002 apud Henriques, 2007, p. 102).

Outra característica do processo comunicativo dentro dos movimentos é a participação dos indivíduos, deixando de assumir apenas o papel de receptor da mensagem, mas passando a ser, também, emissor. Essa participação é o norte da comunicação e ocorre, ainda que em intensidades diferentes, em todos os níveis do processo, “na criação do meio, na discussão sobre seu perfil editorial, na produção, difusão de conteúdos e assim por diante” (PERUZZO, 2007, p. 167).

Considerando a necessidade de planejamento e a participação coletiva anteriormente citados, Murade (2007) apresenta o processo da comunicação popular em um cenário ideal:

Em suma, trata-se de oferecer às comunidades informações e ferramentas de comunicação (assessoria) que possibilitem a leitura de mundo (pesquisa- diagnóstico da realidade), a articulação em torno de pólos e de projetos reivindicativos (planejamento e organização), à ação transformadora da realidade (execução), para, uma vez superada a situação geradora da controvérsia, chegar ao consenso e estimular novas reivindicações dissenso – com base na releitura do mundo (avaliação). (MURADE, 2007, p.159)

Murade aprofunda seu conceito de comunicação popular apresentando as possibilidades de leitura do mundo que as relações públicas comunitárias podem trazer. Vale notar que as duas opções se enquadram no processo comunicativo defendido pelo mesmo autor:

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As relações públicas comunitárias podem possibilitar a leitura de mundo dos grupos populares de duas formas: a primeira, incentivando a expressão das informações e dos valores construídos previamente em função dos outros relacionamentos do sujeito na família, na escola, no trabalho e na sociedade; a segunda, despertando o interesse dos indivíduos por novas informações que possibilitem ampliar o conhecimento buscando-as em livros, jornais, na internet e até mesmo em outras pessoas do grupo ou fora dele. (MURADE, 2007, p. 159-160)

Peruzzo (1993, p. 131) levanta treze possibilidades de contribuição das relações públicas comunitárias paras os movimentos populares entre elas:

diagnóstico; planejamento; incremento da comunicação e articulação;

relacionamento adequado com diversos públicos; produção de materiais comunicativos; organização de eventos; pesquisas de opinião; documentação de fatos e da história do movimento.

De forma conclusiva - considerando a realidade brasileira no início dos anos 90, mas que podem representar parcialmente o cenário atual – Peruzzo afirma que as Relações Públicas comunitárias acreditam no poder da transformação social e são inconformadas com o status quo:

Ou seja, é um olhar inconformado no sentido de não se conformar, não aceitar a realidade de opressão a que está sujeita a maior parte da população brasileira. Opressão essa que está refletida nas condições de miséria, na carência de moradia digna, na subnutrição de um terço da população brasileira, na falta de saúde, no aumento do número de meninos e meninas de rua e tantas outras coisas que afetam a vida. (PERUZZO, 1993, p. 126)

Nesse sentido, as Relações Públicas comunitárias voltam sua atenção para os problemas sociais, buscando soluções a partir de seus preceitos básicos. Assim, tomam forma práticas que assumem tanto o caráter de mobilização, quanto de comunicação.

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5 A PASTORAL DA CRIANÇA

5.1 HISTÓRIA

Em seus mais de 30 anos de existência, a Pastoral da Criança tem aperfeiçoado e difundido seu trabalho ao redor do mundo, sendo considerada uma das instituições globais mais importantes atualmente. Fundada em 1983, as primeiras ações da Pastoral da Criança aconteceram em Florestópolis, cidade no interior do Paraná. A organização tomou forma com o trabalho da médica pediátrica e sanitarista Zilda Arns, que recebeu o convite da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) para estruturar o projeto através de seu irmão, o então cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns.

Constatou-se que a PCç teve suas origens numa reunião da ONU, realizada em Genebra no ano de 1982. Nessa reunião, D. Paulo Evaristo Arns aceitou a proposta de fazer com que a Igreja ensinasse as mães a prepararem o soro caseiro para seus filhos vítimas de diarreia e desidratação. Pode-se dizer que a história da PCç inicia-se “nas alturas”; afinal, uma organização, seja eclesial, governamental ou laica, que tem sua origem em semelhante reunião, não deriva somente das bases populares. Mas tal origem possibilita grandes sucessos nos seus intentos, pois supõe o apoio de grandes poderes políticos e econômicos. (BARBOSA, 2008, p.99)

Como organismo de ação social da CNBB, a Pastoral da Criança atua na orientação e acompanhamento de crianças, desde o ventre materno até os seis anos de idade, juntamente às suas famílias, através de ações básicas de saúde, educação, nutrição e cidadania. Com um trabalho baseado na solidariedade e na partilha do saber, a Pastoral cria um vínculo entre ação social, educação e saúde, objetivando o desenvolvimento integral da população infantil.

A Pastoral da Criança alicerça sua atuação na organização da comunidade e na capacitação delíderes voluntários que ali vivem e assumem a tarefa de orientar e acompanhar as famílias vizinhas emações básicas de saúde, educação, nutrição e cidadania tendo como objetivo o "desenvolvimento integral das crianças, promovendo, em função delas, também suas famílias e comunidades, sem distinção de raça, cor, profissão, nacionalidade, sexo, credo religioso ou político. (PASTORAL DA CRIANÇA, 2016)5

5 Site da Pastoral da Criança, Quem Somos, acessado em 10/06/2016.

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Reimberg (2009, p.29) ressalta que a “Pastoral da Criança fez uma opção pelos pobres. Atua nas comunidades carentes e fomenta discussões que levam a construção da cidadania”.

Ao tomar forma no início da década de 1980, a Pastoral da Criança fortalece a luta dos movimentos sociais, dos partidos de esquerda e da própria CNBB, em prol dos direitos humanos e da democracia. Na época, tais mobilizações estavam ganhando espaço, em plena expansão e atividade, travando grandes embates com o Estado no período derradeiro do regime militar (FAXINA, 2001).

Ainda sobre o contexto em que a PC foi criada, Faxina fala sobre questões políticas que envolveram seu surgimento:

A Pastoral da Criança já nasceu sob o signo da contradição, por estruturar- se de maneira diametralmente oposta ao pensamento presente no campo político6 brasileiro e ao novo desenho da presença da Igreja Católica no mundo, e no Brasil. Como não poderia deixar de ser, seu surgimento dividiu na época as opiniões dos responsáveis pelas Pastorais Sociais7 da CNBB e de muitas outras lideranças religiosas ligadas aos setores classificados de

‘progressistas’, que viam como uma contradição a parceria entre a Igreja e o Estado na busca da superação dos problemas relativos à criança. (FAXINA, 2001, p. 131)

O autor complementa afirmando que essas questões não se limitaram ao momento de criação da PC, mas permeiam a organização ainda hoje:

Ainda hoje há resquícios desse entendimento. Trata-se, na realidade, de uma contradição surgida a partir da união dos diferentes em torno de um objetivo comum. Contrária à imensa maioria das organizações que compõem o grande espectro do que chamamos de movimentos sociais, a Pastoral da Criança nasceu a partir do desejo de pessoas que sempre tiveram um pé no governo e outro nos movimentos eclesiais, ou que estavam apenas num ou noutro lado. (FAXINA, 2001, p. 131)

Ainda que o nascimento da Pastoral da Criança tenha contado com a importante premissa do suporte da CNBB, é importante destacar que o engajamento dos voluntários foi fundamental para a sua concretização. A força do voluntariado, o apoio da Igreja e também as parcerias com o governo continuam sendo fundamentais para a realização do trabalho da organização.

6 Por campo político aqui entende-se o cenário onde acontecem os debates em torno do poder, reunindo políticos, empresários, entidades sociais e eclesiais.

7 Núcleo que reúne todas as pastorais ligadas à CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – que têm como cenário de atuação o campo social.

Referências

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