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Cad. Saúde Pública vol.26 número4

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Academic year: 2018

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VALIDADE CIENTÍFICA DO SB BRASIL 2003 667

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 26(4):647-670, abr, 2010

Rita Barradas Barata

Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, São Paulo, Brasil. rita.barradasbarata@gmail. com

Epidemiologia

vs

. Estatística: a velha

contenda entre racionalismo e empirismo?

O artigo Validade Científica de Conhecimento Epidemiológico Gerado com Base no Estudo Saú-de Bucal Brasil 2003 apresenta granSaú-de riqueza Saú-de aspectos para alimentar um velho debate entre correntes de pensamentos que dominaram a ci-ência e o pensamento ocidental desde o Renas-cimento. De um lado, o racionalismo intrínseco ao pensamento lógico e matemático, nesse artigo representado pela Estatística, e, de outro, o em-piricismo das ciências aplicadas que constroem suas “leis” pela observação metódica dos fenô-menos da realidade, neste caso representadas pela epidemiologia.

A reivindicação de maior rigor estatístico no tratamento e na análise de dados produzidos em grandes inquéritos nacionais certamente é meritória e justificada quando se está buscan-do exatidão e precisão nas medidas. O processo complexo de amostragem utilizado nos grandes inquéritos populacionais exige que o procedi-mento de análise dos dados considere no cálculo das estimativas a ponderação dos dados pelas frações amostrais, pelas perdas e pelo efeito do desenho para gerar estimativas mais precisas dos fenômenos estudados. Do ponto de vista teórico e na perspectiva racionalista não há o que objetar a essa colocação.

No entanto, como os autores demonstram por intermédio de dados empíricos, na prática a teoria é outra. Os grandes inquéritos, por tra-balharem dados obtidos em amostras amplas e visarem ao cálculo de prevalência de problemas relativamente freqüentes (caso contrário não seriam do interesse da saúde pública), mesmo quando analisam seus resultados sem considerar a complexidade da amostra, produzem resulta-dos muito próximos daqueles que seriam obti-dos com o uso correto da estatística.

Aqui surge um ponto extremamente interes-sante que está subjacente à argumentação apre-sentada pelos autores: a epidemiologia como disciplina do campo da Saúde Coletiva, tem com-promisso com a prática. É preciso, portanto, dis-tinguir entre a pesquisa epidemiológica voltada prioritariamente para o avanço do conhecimen-to e a pesquisa cujo principal objetivo é subsidiar intervenções de saúde pública como parece ter sido o caso do inquérito de saúde bucal.

Neste caso, segundo os autores vale admitir algum grau de imprecisão, desde que as infor-mações obtidas possam orientar de maneira oportuna às intervenções. Conforme os dados

apresentados, as diferenças nas estimativas por ponto e intervalo são desprezíveis e para as me-didas de associação nem existem.

Não se trata evidentemente de desconsiderar a necessidade de rigor metodológico nem muito menos de questionar a utilidade das ferramen-tas estatísticas para a construção do saber epi-demiológico. Trata-se antes de relativizar certo “purismo” teórico e valorizar a relevância prática e social dos conhecimentos produzidos com a finalidade de orientar as políticas de saúde. Dito de outro modo, as ferramentas estatísticas não podem passar de meio à finalidade quando se trata de produzir informações epidemiológicas.

Gostaria ainda de comentar o sentido do ter-mo representatividade. Não creio que o uso ou não das ponderações no cálculo das estimativas tenham a ver com a representatividade. Os pro-cedimentos estatísticos têm a ver com a precisão das estimativas, mas não com a representativida-de. Podemos imaginar diversas situações em que as estimativas são precisas, mas não são repre-sentativas, bastando para tanto que apenas uma parte da variabilidade populacional do evento estudado esteja representada na amostra.

A representatividade é uma qualidade relacio-nada, a nosso ver, especialmente com as técnicas de amostragem e não com as técnicas de análise. Se o procedimento amostral não conseguir re-fletir a diversidade existente na população alvo, então, ainda que a análise incorpore as técnicas apropriadas, os dados não serão representativos.

Infelizmente não há fórmulas ou cálculos que nos digam quão representativa nossa amos-tra conseguiu ser. Por isso precisamos nos valer de técnicas de amostragem e recursos metodo-lógicos para evitar o viés de seleção, o que nem sempre é possível ou completamente alcançado. De todo modo, a avaliação da representatividade é essencialmente qualitativa.

Referências

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