UNIVERSIDADE DOS AÇORES
DEPARTAMENTO DE OCEANOGRAFIA E PESCAS
Caracterização Ecológica e Sócio-Económica
do Sítio de Importância Comunitária
Ponta da Ilha (PTPIC0010)
e Medidas de Gestão Propostas
Arquivos do DOP Série Relatórios Internos
N.º 15/2004
Samanta Vizinho, Rogério R. Ferraz, Pedro Frade, Vera Guerreiro, Vanessa Santos, Frederico Cardigos,
Os Arquivos do DOP são publicações internas não periódicas e reúnem documentos técnicos e científicos, relatórios internos, estatísticos, de cruzeiros e documentais, de edição restrita, realizados por investigadores do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores (DOP/UAç) e do Centro do IMAR da Universidade dos Açores. Estes trabalhos podem não conter conclusões definitivas, podendo fazer referência apenas à aplicação e desenvolvimento de uma técnica de trabalho ou a resultados parciais de uma investigação. Como consequência, as opiniões emitidas nestas publicações comprometem exclusivamente o(s) seu(s) autor(es).
UNIVERSIDADE DOS AÇORES
DEPARTAMENTO DE OCEANOGRAFIA E PESCAS PT-9901-862 HORTA
PORTUGAL
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Arquivos do DOP. Série Relatórios Internos
ISSN 0873-2841
Departamento de Oceanografia e Pescas (DOP)
Centro do IMAR da Universidade dos Açores
Arquivos do DOP. Série: Relatórios Internos. N.º 15/2004
CARACTERIZAÇÃO ECOLÓGICA E SÓCIO-ECONÓMICA DO SÍTIO DE IMPORTÂNCIA COMUNITÁRIA PONTA DA ILHA (PTPIC0010)
E MEDIDAS DE GESTÃO PROPOSTAS
Samanta Vizinho, Rogério R. Ferraz, Pedro Frade, Vera Guerreiro, Vanessa Santos, Frederico Cardigos, Fernando Tempera & Ricardo S. Santos
Departamento de Oceanografia e Pescas, Universidade dos Açores, PT 9901-862 Horta, Açores, Portugal.
FICHA TÉCNICA
Coordenador
Ricardo Serrão Santos
Redactores Pedro Frade Rogério Ferraz Samanta Vizinho Vanessa Santos Vera Guerreiro
Colaboradores & Revisão
Carla Gomes João Gonçalves Ricardo Medeiros
Autoria
A informação apresentada neste relatório é baseada na recolha de informação efectuada pela Equipa de Caracterização dos Sítios de Importância Comunitária e Sócio-Economia do Projecto OGAMP – Ordenamento e Gestão de Áreas Marinhas Protegidas (Interreg IIIb – MAC/4.2/A2).
Citação (este documento deverá ser citado como)
Samanta Vizinho, Rogério R. Ferraz, Pedro Frade, Vera Guerreiro, Vanessa Santos, Frederico Cardigos, Fernando Tempera & Ricardo S. Santos. 2004. Caracterização Ecológica e Sócio-económica do Sítio de Importância Comunitária Ponta da Ilha (PTPIC0010) e Medidas de Gestão Propostas. Arquivos Internos
A
GRADECIMENTOSA recolha da informação necessária para a elaboração deste documento não teria sido possível sem a colaboração de diversas instituições e pessoas individuais às quais se agradece:
Direcção Regional do Ambiente Direcção Regional das Pescas Tripulação da L/I Águas-Vivas Norberto Serpa
Í
NDICE ÍNDICE... I RESUMO ... III CAPITULO I – DESCRIÇÃO ... 1 1. INFORMAÇÕES GERAIS... 1 Localização e Descrição ... 1 Descrição Sumária... 2 Estatutos de Protecção... 2 2. CARACTERIZAÇÃO AMBIENTAL... 5 Características Físicas... 6Características Biológicas / Ecológicas ... 7
3. CARACTERIZAÇÃO SÓCIO-ECONÓMICA... 16
Caracterização Geral da Ilha do Pico ... 16
Caracterização dos Utilizadores da Zona Costeira... 19
Inquérito Geral ... 19
Inquéritos Específicos... 22
Turistas como meio de divulgação ... 27
Aspectos Estéticos e Paisagísticos ... 27
Valores Patrimoniais ... 29
CAPÍTULO II – AVALIAÇÃO E OBJECTIVOS ... 30
1. AVALIAÇÃO DAS COMPONENTES... 30
Critérios de Avaliação Ecológica ... 30
2. CRITÉRIOS DE AVALIAÇÃO SÓCIO-ECONÓMICA... 33
Valor Potencial ... 33
Atractivo Paisagístico... 34
Benefícios Indirectos... 34
3. FACTORES QUE INFLUENCIAM A GESTÃO... 35
Factores Naturais... 35
Factores Introduzidos pelo Homem ... 35
Factores Jurídicos... 36
4. ORIENTAÇÕES E OBJECTIVOS DE GESTÃO... 36
Definição das orientações de gestão... 36
CAPÍTULO III – MEDIDAS DE GESTÃO... 38
1. MEDIDAS, ACÇÕES E ACTIVIDADES... 38
Regras de Utilização ... 38
Monitorização Ambiental e Sócio-Económica... 39
Vigilância e Fiscalização ... 39
Promoção Ambiental... 40
2. CRONOGRAMA DE TRABALHOS POR ÁREA... 41
CAPITULO IV – BIBLIOGRAFIA UTILIZADA ... 42
1. MONOGRAFIAS, ARTIGOS CIENTÍFICOS E RELATÓRIOS... 42
2.FOLHETOS INFORMATIVOS... 42
3. PÁGINAS DE INTERNET... 42
4. LEGISLAÇÃO... 42
ANEXO I – DESCRIÇÃO DOS LIMITES DO SIC ... 44
ANEXO II - PROTOCOLO PARA A MONITORIZAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO AMBIENTAL DOS SIC... 45
BIÓTOPOS... 45
Enseadas e Baías Pouco Profundas (1160)... 45
Recifes (1170)... 45
Grutas Marinhas Submersas ou Semi-Submersas (8330) ... 46
Espécies... 46
FICHAS DE REGISTO... 46
Fichas de Mergulho... 46
Fichas de Caracterização Fisiográfica de Biótopo... 48
Fichas de Espécies ... 50
Escala de Abundância SACFOR ... 50
ANEXO IIA – FICHA DE MERGULHO... 53
ANEXO IIB – FICHAS DE CARACTERIZAÇÃO FISIOGRÁFICA DE BIÓTOPOS ... 54
ANEXO IIC – FICHA DE ESPÉCIES... 55
ANEXO III – MÉTODO DE ESTIMAÇÃO DE BIOMASSA DE LAPAS ... 56
ANEXO V – RESULTADOS DA ESTIMAÇÃO DA BIOMASSA DE LAPAS ... 61
ANEXO VI - PROTOCOLO PARA A CARACTERIZAÇÃO SÓCIO-ECONÓMICA DOS SIC ... 62
INQUÉRITOS... 62
RECONHECIMENTO DA ÁREA ENVOLVENTE DO SIC ... 62
COMPILAÇÃO DE INFORMAÇÕES... 62
ANEXO VIA – INQUÉRITOS UTILIZADOS NA CARACTERIZAÇÃO SÓCIO-ECONÓMICA DOS SIC – INQUÉRITO GERAL ... 63
ANEXO VIB – INQUÉRITOS UTILIZADOS NA CARACTERIZAÇÃO SÓCIO-ECONÓMICA DOS SIC – OPERADORES DE ACTIVIDADES MARÍTIMO-TURÍSTICAS... 66
ANEXO VIC – INQUÉRITOS UTILIZADOS NA CARACTERIZAÇÃO SÓCIO-ECONÓMICA DOS SIC – PESCADORES... 68
ANEXO VID – INQUÉRITOS UTILIZADOS NA CARACTERIZAÇÃO SÓCIO-ECONÓMICA DOS SIC – CAÇA-SUBMARINA ... 69
ANEXO VIE – INQUÉRITOS UTILIZADOS NA CARACTERIZAÇÃO SÓCIO-ECONÓMICA DOS SIC – “TASCAS” E FESTAS ... 70
ANEXO VII – RESULTADOS DA CARACTERIZAÇÃO SÓCIO-ECONÓMICA DOS SIC... 71
ANEXO VIII – METODOLOGIA DE AVALIAÇÃO AMBIENTAL ... 72
DIMENSÃO... 72
DIVERSIDADE... 72
NATURALIDADE... 73
Intervenção Terrestre... 73
Exploração Costeira... 73
Modificadores Antropogénicos (Área Marinha)... 74
Espécies Não Nativas... 74
ANEXO IX – LISTA DE ESPÉCIES MARINHAS INTRODUZIDAS NOS AÇORES ... 76
ANEXO X – METODOLOGIA DE AVALIAÇÃO SÓCIO-ECONÓMICA... 78
VALOR DO SIC PARA OAMT ... 78
VALOR DO SIC PARA A PESCA... 78
R
ESUMONeste documento é apresentada a Caracterização Ecológica e Sócio-económica do Sítio de Importância Comunitária (SIC) Ponta da Ilha (PTPIC0010) efectuada no âmbito do Protocolo de Planos de Gestão de Sítios seleccionados nos Açores (celebrado entre a Secretaria Regional do Ambiente dos Açores e o IMAR - Instituto do Mar) e são propostas medidas de gestão para esta área.
A caracterização do ambiente marinho do SIC teve especial incidência nos habitats e espécies constantes nos anexos das directivas, mas também em espécies que possuem algum tipo específico de protecção internacional, nacional ou regional, ou propostas para serem protegidas. Para a realização deste trabalho foram realizados mergulhos de caracterização ao longo de todo o SIC, além de se ter compilado a informação existente para a zona costeira dos Açores, em especial para esta área. A caracterização sócio-económica do SIC e de toda a área envolvente foi baseada na realização de inquéritos junto dos utilizadores do SIC (população em geral, pescadores, caçadores submarinos, operadores de actividades marítimo-turísticas e turistas), complementados com informação estatística publicada.
C
APITULOI
–
D
ESCRIÇÃO1. Informações Gerais Localização e Descrição Localização e Limites
Fig. 1. Mapa com a localização do SIC Ponta da Ilha (PTPIC0010) na ilha do Pico (para descrição dos limites do SIC ver Anexo I) (Carta militar: Série M889 1/25.000; Sistema de projecção: Universal Transversa de Mercator; Datum: WGS84).
Nome do sítio: Ponta da Ilha Código: PTPIC0010
Ilha: Pico População: 14.806 Densidade populacional: 33,29 hab/km2
Número de freguesia: 17 Concelho: Lajes Coordenadas: 28º 02’ 00’’ W – 38º 25’ 00’’ N Área Terrestre: 107 ha Área Marinha: 291 ha Área Total: 398 ha Total da linha de costa da ilha: 146.666 m
Linha de Costa do SIC: 6.557 m (4,4% do total da ilha)
Altitude máxima: 50
Altitude mínima: Supra-litoral Profundidade máxima: 50 m
Descrição Sumária
Toda a costa do SIC Ponta da Ilha, no Pico, é formada por rochas vulcânicas, maioritariamente basaltos peridóticos de tendência andesítica.
A zona marinha do SIC apresenta uma área de grande dimensão à qual corresponde uma linha de costa de aproximadamente 7 km. Esta zona é caracterizada por possuir um leito rochoso de bastante irregular, intercalado com clareiras de sedimento. A uma maior distância da costa, evidencia-se a presença de blocos de rocha de tamanhos variados. O declive do fundo é suave e a linha de costa é orlada por paredes de diferentes inclinações.
A temperatura superficial da água varia entre 16,3ºC em Janeiro e os 26,3ºC em Setembro, tendo como média 18,4ºC (RODRIGUES 2003). Tratando-se de um dos extremos da Ilha do Pico, e por não ficar abrigado por nenhuma outra ilha, este local é influenciado pelas tempestades de quase todos os quadrantes, com excepção das tempestades de quadrante Oeste.
Apesar do acesso por terra não ser fácil, a área marinha deste SIC sofre alguma influência antrópica, maioritariamente causada pelos pequenos aglomerados populacionais que existem na área. Em toda a área há alguma actividade de exploração de recursos vivos, seja através da pesca costeira (profissional e lúdica) ou caça submarina. Além disso, e apesar de pouco intensa, há alguma actividade turística nesta zona, nomeadamente de observação de cetáceos.
Estatutos de Protecção
Serão considerados apenas os estatutos de protecção que se aplicam à área sujeita à influência do mar, ou seja, aquela que vai desde o limite superior do supra-litoral até à zona subtidal. A classificação deste local como SIC foi baseada na ocorrência de determinados habitats e espécies constantes dos anexos das respectivas directivas†, abaixo apresentados:
Habitats
1160 - Enseadas e baías pouco profundas 1170 - Recifes
1220 - Vegetação perene das praias de calhau rolado
1250 - Falésias com flora endémica das costas da Macaronésia 8330 - Grutas marinhas submersas ou semi-submersas
Espécies
Fauna Caretta caretta* (Tartaruga-careta)
Columba palumbus azoricus * (Pombo-torcaz-dos-Açores) Sterna dougallii * (Garajau-rosado)
†
Directiva Aves - Directiva n.º 79/409/CEE, do Conselho, de 2 de Abril, alterada pelas Directivas n.º 91/244/CEE, da Comissão, de 6 de Março, e n.º 97/49/CE, da Comissão, de 29 de Junho; Directiva Habitats – Directiva n.º 92/43/CEE, do Conselho, de 21 de Maio, alterada pela Directiva 97/62/CE do Conselho de 27 de Outubro de 1997 e Decreto Lei n.º 140/99 de 24 de Abril
*
Sterna hirundo (Garajau-comum) Tursiops truncatus (Roaz)
Flora Azorina vidalli * (Vidália)
Spergularia azorica
Durante a realização dos trabalhos de caracterização foi identificado outro habitat, constante na directiva, mas que não foi incluído na definição do SIC:
1110 - Bancos de areia permanentemente cobertos por água do mar pouco profunda 1210 - Vegetação anual das zonas de acumulação de detritos de maré
Além das espécies constantes nos anexos das respectivas directivas, existem outras que, por possuírem algum nível de protecção regional, nacional ou internacional ou por serem especialmente importantes para o local, deverão ser tidas em conta. São elas:
Espécies registadas para o local ‡
Invertebrados Megabalanus azoricus (Craca)
Octopus vulgaris (Polvo-comum) Patella aspera (Lapa-brava) Patella candei (Lapa-mansa)
Peixes Epinephelus marginatus (Mero)
Mullus surmuletus (Salmonete) Parablennius ruber (Caboz-lusitano) Phycis phycis (Abrótea)
Aves Ardea cinerea (Garça-real)
Arenaria interpres (Rola-do-mar) Calidris alba (Pilrito-das-areias)
Chaladrius alexandrinus (Borrelho-de-coleira-interrompida) Columba livia (Pombo-da-rocha)
Larus cachinnans atlantis (Gaivota) Larus marinus (Alcatraz-comum) Larus ridibundus (Guincho)
Cetáceos Delphinus delphis (Golfinho-comum)
Grampus griseus (Moleiro ou grampo)
‡
Flora
Porphyra sp. (Erva patinha) [Alga comercialmente explorada na costa]
Espécies com importância para a conservação não registadas mas de ocorrência provável no SIC §
Invertebrados Maja brachydactila (Santola)
Palinurus elephas (Lagosta) Scyllarides latus (Cavaco)
Peixes Coryphoblennius galerita (Caboz-de-crista)
Diplecogaster bimaculata pectoralis (Peixe-ventosa-dos-ouriços) Gaidropsarus guttatus (Viúva)
Gobius paganellus (Bochecha) Lipophrys pholis (Caboz-gigante) Lipophrys trigloides (Caboz) Mycteroperca fusca (Badejo)
Pagellus bogaraveo (Carapau quando juvenil) Pagrus pagrus (Pargo)
Parablennius ruber (Caboz-lusitano)
As diferentes condicionantes legais que se podem aplicar a este local são: CITES (Decreto Lei n.º 114/90 de 5 de Abril);
Convenção de Berna (Decreto Lei n.º 316/89 de 22 de Setembro);
NATURA 2000 (Decreto Lei n.º 140/99 de 24 de Abril, Decreto Legislativo Regional n.º 18/2002/A de 16 de Maio);
Instrumentos de Gestão Territorial (Decreto Lei n.º 380/99 de 22 de Setembro, com a adaptação à região pelo Decreto Legislativo Regional n.º 14/2000/A de 23 de Maio, com as alterações do Decreto Legislativo Regional 38/2002/A de 3 de Dezembro e do Decreto Legislativo Regional 24/2003/A de 12 de Maio);
Lista de SIC (Decisão da Comissão de 28 de Dezembro de 2001 e aprovação para a região pela Resolução n.º 30/98 de 5 de Fevereiro, rectificada pela Declaração n.º 12/98 de 7 de Maio e adaptação à Região do Decreto Lei n.º 140/99 de 24 de Abril pelo Decreto Legislativo Regional n.º 18/2002/A de 16 de Maio);
Lista de ZPE (Decreto Regulamentar Regional n.º 14/2004/A de 20 de Maio);
Introdução de espécies não indígenas (Decreto Lei n.º 565/99 de 21 de Dezembro, Resolução n.º 148/98 de 25 de Junho);
Regulamentação da Pesca (Decreto Regulamentar n.º 43/87 de 17 de Julho); Pesca por Apanha (Portaria n.º 1102-B/2000 de 22 de Novembro);
Pesca à Linha (Portaria n.º 1102-C/2000 de 22 de Novembro, Portaria n.º 101/2002 de 24 de Outubro);
Pesca por Arte de Armadilha (Portaria n.º 1102-D/2000 de 22 de Novembro, Portaria n.º 30/2004 de 22 de Abril com a rectificação pela Declaração n.º 2/2004);
Pesca por Arte de Arrasto (Portaria n.º 1102-E/2000 de 22 de Novembro);
Pesca por Arte Envolvente-Arrastante (Portaria n.º 1102-F/2000 de 22 de Novembro); Pesca por Arte de Cerco (Portaria n.º 1102-G/2000 de 22 de Novembro);
Pesca por Arte de Emalhar (Portaria n.º 1102-H/2000 de 22 de Novembro, Portaria n.º 35/94 de 21 de Julho);
Domínio Público Hídrico (Decreto Lei n.º 468/71 de 5 de Novembro, Lei n.º 16/2003 de 4 de Junho);
Reserva Ecológica Nacional - pendente (Decreto Lei n.º 93/90 de 19 de Março);
Regulamento de faróis (Portaria n.º 537/71 de 4 de Outubro, Decreto Lei n.º 584/73 de 7 de Novembro).
Tamanhos mínimos de captura (Portaria n.º 27/2001 de 15 de Janeiro, Regulamento CE n.º 850/98 de 30 de Março, Portaria n.º 19/83 de 3 de Maio);
Caça submarina (Decreto Legislativo Regional n.º 5/85/A de 8 de Maio);
Regulamento da Observação de Cetáceos (Decreto Legislativo Regional 10/2003/A de 22 de Março, Portaria n.º 5/2004 de 29 de Janeiro);
Apanha de lapas (Decreto Legislativo Regional n.º 14/93A de 31 de Julho, com a Declaração de Rectificação n.º 182/93 de 30 de Setembro, Portaria n.º 43/93 de 2 de Setembro);
Exploração de crustáceos costeiros (Portaria n.º 19/83 de 5 de Maio)
Condicionantes técnico-científicas
Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal 1 o estatuto V: Epinephelus marginatus (Mero);
o estatuto R: Lipophrys pholis (Caboz gigante);
o estatuto I: Mycteroperca fusca (Badejo), Gaidropsarus guttatus (Viúva);
o estatuto K: Mullus surmuletus (Salmonete), Gobius paganellus (Bochecha), Blennius ocellaris (Caboz-ocelado), Coryphoblennius galerita (Caboz-de-crista), Lipophrys trigloides (Caboz), Parablennius incognitus (Caboz-das-cracas), Parablennius ruber
(Caboz-lusitano), Diplecogaster bimaculata pectoralis (Peixe-ventosa-dos-ouriços); o estatuto CT: Pagellus bogaraveo (Carapau quando juvenil), Pagrus pagrus (Pargo),
Phycis phycis (Abrótea);
Espécies regionais propostas para o Anexo V da Convenção OSPAR (Oslo - Paris) (Decreto n.º 59/97 de 31 Outubro):
o Patella aspera (Lapa-brava); o Megabalanus azoricus (Craca).
2. Caracterização Ambiental
Para caracterização das comunidades biológicas existentes neste SIC foram realizados 6 mergulhos distribuídos por 6 locais (Fig. 2). No Anexo II são apresentadas mais informações relativas aos mergulhos e metodologia aplicada.
1
Nota: estatuto V – Vulnerável; estatuto R – Raro; estatuto I – Indeterminado; estatuto K – Insuficientemente Conhecido
Fig. 2. Localização dos 6 locais onde se realizaram os mergulhos de caracterização do ambiente marinho no SIC Ponta da Ilha.
No âmbito da caracterização ambiental do SIC foi também realizada a estimação de biomassa de lapas (Patella aspera) para toda a ilha (detalhes sobre o método no Anexo III), visto a dinâmica populacional desta espécie ser muito influenciada pelo estado da população total e não apenas pelo estado da população da área em estudo. Foi dada especial atenção a este recurso de forma a melhorar a caracterização ambiental do SIC, uma vez as lapas, principalmente a lapa-brava, desempenham um importante papel na ecologia costeira dos Açores, sendo simultaneamente um recurso muito explorado.
Características Físicas
A zona marinha do SIC da Ponta da Ilha no Pico apresenta como principal característica a predominância de um leito rochoso bastante irregular (Fig. 3a), intercalado com clareiras de sedimento. A uma maior distância da costa, evidencia-se a presença de blocos de rocha de tamanhos variados (Fig. 3b), predominando os de maior dimensão (>1 m). Os blocos apresentam formas entre o anguloso e arredondado, relevo de superfície lisa, estabilidade de boa a média e calibração média. Na maioria das vezes estão localizados sobre leito rochoso e apresentam depósitos de sedimento.
Na costa há acumulação de blocos para W do pequeno promontório (Ponta de Gil Afonso) localizado no extremo SW do SIC. Esta acumulação é aparentemente causada por fenómenos de erosão de colunas basálticas, formações bastante conspícuas na linha de costa.
O fundo de sedimento é composto por partículas minerais de grandes dimensões (Fig. 3c), nomeadamente gravilha, areia grosseira e média. Da Manhenha para o extremo W do SIC nota-se uma redução das dimensões destas partículas, passando a dominar a areia grosseira e média. O relevo superficial das zonas com sedimento apresenta-se por vezes ondulado e irregular, de firmeza média a mole e estabilidade e calibração médias. Toda a costa do SIC é formada por rochas vulcânicas, maioritariamente basaltos peridóticos de tendência andesítica.
Fig. 3. Alguns tipos de fundo encontrados durante a caracterização do SIC Ponta da Ilha da ilha do Pico. a) Leito Rochoso; b) blocos de rocha de tamanhos e formatos variados; c) fundo de sedimento composto por partículas minerais de grandes dimensões.
Características Biológicas / Ecológicas
No decorrer das imersões realizadas foram identificadas 196 espécies (ver lista de espécies no Anexo IV) distribuídas por 15 filos, num total de 145 espécies animais, 50 espécies de algas e 1 espécie do reino Protista. Os filos com maior riqueza específica foram, nas algas, o filo Rhodophycota (28 espécies), e nos animais o filo Chordata (com 42 espécies, todas de peixes), Mollusca (22 espécies) e Arthropoda (18 espécies) (Fig. 4). A diversidade de alguns grupos está bastante subestimada dado que a identificação se concentrou nas espécies que atingem maiores dimensões e são responsáveis por uma maior ocupação da superfície bentónica. Para além disso, a identificação de espécies dentro de alguns grupos requer um trabalho profundo de taxonomia, que não foi possível realizar dentro do horizonte temporal do projecto.
Comunidades Bentónicas
Algas
Ao longo do SIC da Ponta da Ilha há espécies que, independentemente da sua abundância, estão presentes sistematicamente em todos (ou quase todos) os mergulhos realizados.
Algumas foram mesmo identificadas em todos os locais de mergulho, como as clorófitas Anadyomene stellata e Codium elisabethae (Fig. 5a), as faeófitas Colpomenia sp., Dictyota adnata e D. dichotoma, Halopteris filicina (Fig. 5b), Padina pavonica (Fig. 5c), lâminas castanhas de espécie indeterminada e Zonaria tournefortii e as rodófitas Amphiroa sp., Asparagopsis armata (espécie invasora) e rodófitas encrustantes não calcárias. Outras espécies sem ocorrência integral foram, ainda assim, encontradas em mais de metade das imersões, como a clorófita Valonia utricularis, as faeófitas encrustantes indeterminadas e as rodófitas indeterminadas da ordem Ceramiales, coralináceas erectas (dos géneros Corallina e Jania), coralináceas encrustantes, Mesophyllum lichenoides, Peyssonnelia spp. (predominantemente de cor rubra) e Pterocladiella capillacea.
Fig. 5. Algumas espécies de algas observadas durante a caracterização do SIC Ponta da Ilha. a)
Codium elisabethae; b) Halopteris filicina; c) Padina pavonica.
Invertebrados
O mesmo acontece relativamente aos invertebrados, tendo a presença de determinadas espécies sido registada de uma forma geral por todo o SIC.
Fig. 6. Algumas espécies de invertebrados observados durante a caracterização do SIC Ponta da Ilha. Da esquerda para a direita: o ouriço Sphaerechinus granularis; o crinóide Antedon bifida; o gastrópode
Calliostoma zizyphinum; e a holotúria Holothuria forskali
Zonação
Zonação horizontal
Algas
Salvaguardando o facto de que o método de amostragem ser naturalmente condicionado pela limitada extensão de fundo que é possível cobrir em cada imersão e pelo facto de não se ter efectuado replicação da amostragem dos trecho de costa, são de referir indicações de que a distribuição de algumas espécies de algas pode estar limitada a uma fracção do SIC.
De facto, algumas espécies parecem apresentar um padrão de distribuição que interessa referir. Assim, na parte N do SIC (vertente E e NE, ou seja, a N da Ponta da Manhenha) estão presentes espécies que não parecem ocorrer na restante fracção do SIC: Dictyota cf. linearis e Asparagopsis taxiformis. Já as rodófitas da ordem Gigartinales, as clorófitas Bryopsis sp. e Codium adherens e a faeófita Cystoseira abies-marina, estas duas últimas típicas de zonas expostas, ocorrem apenas desde a zona da Ponta da Manhenha para W (vertente S do SIC) (Fig. 7).
Invertebrados
Também nos invertebrados existem indícios de zonação ao longo do SIC. Espécies como o briozoário (Schizoporella dunkeri), o coral-negro (Antipathes wollastoni), os búzios Charonia lampas e Lunatia sp. (posturas), o nudibrânquio Tambja ceutae ou a esponja Terpios fugax foram apenas registados para a vertente S do SIC. Pelo contrário, outras espécies foram apenas registadas para a parte N do SIC: as esponjas Hymedesmia sp., Cliona celata e Sycon ciliatum, bem como o tunicado Eudistoma angolanum (Fig. 8).
As diferenças encontradas na distribuição de algas e invertebrados parecem dever-se à diferente exposição ao hidrodinamismo dos trechos de costa que constituem o SIC. A posição do SIC relativamente à ondulação predominante (de W-SW) determina que a costa S esteja mais sujeita ao hidrodinamismo, razão pela qual estarão presentes o coral-negro e espécies de algas típicas de zonas expostas. Já as costas E e N estão um pouco mais protegidas. Tendo em conta a posição relativa das costas e as comunidades biológicas aí existentes, pode considerar-se, de modo geral, que a costa S é exposta, enquanto que as costas E e N são moderadamente expostas.
Zonação vertical
Algas
Desde a superfície até cerca dos 3 a 5m de profundidade são características as presença de um tapete da alga verde Codium adhaerens, intercalado frequentemente pela rodófita Pterocladiella capillacea. Depois deste limite e até cerca dos 10 a 15m de profundidade, a comunidade é dominada por um povoamento musciforme rasteiro denso de coralináceas erectas, entre as quais se encontram espécies dos géneros Amphiroa, Corallina e Jania, associado às faeófitas Dictyota dichotoma, D. adnata, Dictyota cf. linearis, Cystoseira abies-marina e às rodófitas Asparagopsis armata, coralináceas encrustantes e espécies da ordem Ceramiales. Estas algas, nos últimos metros da sua distribuição associam-se à alga castanha Padina pavonica que se estende predominantemente até cerca dos 20 m, acompanhada de Halopteris filicina e lâminas castanhas (“Peyssonnelia verde”). A partir daqui e até aos máximos limites batimétricos investigados o povoamento passa a ser dominado pela alga castanha Zonaria tournefortii (Fig. 9).
Invertebrados
Juntamente com os primeiros povoamentos algais, a craca (Megabalanus azoricus), a lapa-brava (Patella aspera) e os ouriços Arbacia lixula e, pontualmente, Paracentrotus lividus são frequentes acima dos 7 a 8m, por vezes também acompanhados das anémonas Corynactis viridis, que podem ser encontradas até cerca dos 15m de profundidade. A partir desta profundidade pode ser encontrado o coral-negro (Antipathes wollastoni).
Habitats e Abundâncias
Os biótopos fornecem habitat a uma série de espécies de algas e invertebrados. Consoante as características específicas destas estruturas, pode haver uma maior ou menor afinidade por parte das comunidades bentónicas para se fixarem nelas. Vários tipos de biótopos, caracterizados pelo tipo de espécies presentes e sua abundância, foram amostrados: paredes, fundos de leito rochoso, blocos, fendas e fundos de sedimento.
O biótopo que apresentou maior riqueza específica (número total de espécies identificadas) foi o das fendas (110 espécies), sendo o fundo de sedimento aquele em que foi identificado um menor número de espécies (12 espécies) (Quadros I). A abundância de cada espécie em cada tipo de fundo é apresentada entre parêntesis de acordo com a Escala SACFOR (ver Anexo II para detalhes).
Quadro I
Número de espécies identificadas por biótopo no SIC da Ponta da Ilha.
Biótopo Número de espécies
Parede 86
Fundo de leito rochoso 78
Blocos 80
Fendas 110
Fundo de sedimento 12
É de referir que os peixes não estão contabilizados nesta distribuição por biótopos, uma vez que devido à sua grande mobilidade se considerou que não são uma componente caracterizadora dos mesmos.
Sedimento
Não foi registado qualquer crescimento algal no fundo de sedimento (Fig. 10a). Relativamente aos invertebrados, o método utilizado não permite conhecer a meio- -fauna bentónica para além dos organismos que, por qualquer condicionante, ficam expostos. Deste modo, a caracterização que é possível fazer deste biótopo baseia- -se em poucas observações e é bastante superficial. Do pouco que é conhecido, todas as espécies se apresentam como raras, o que é provavelmente uma condicionante do método e não uma consequência da sua real abundância. As espécies registadas em mais que um mergulho são o gastrópode Lunatia sp. (R) (Fig. 10c), identificado devido à presença das suas posturas conspícuas, o poliqueta Lanice conchilega (R) e o ouriço Brissus unicolor (R) (Fig. 10b). Outras espécies foram também registadas neste biótopo, na sua maioria bivalves e poliquetas.
Fig. 10. Fundo de sedimento (a). Apesar de o método utilizado não permitir a caracterização da endofauna existente, foi possível identificar algumas espécies presentes neste habitat. b) Brissus unicolor, c) postura de Lunatia sp.
Leito Rochoso e Paredes
predominantemente até cerca dos 15 a 18m, sendo mais evidente no leito rochoso (C) que nas paredes (F). A partir daqui, e até aos limites batimétricos máximos prospectados, o povoamento passa a ser dominado pela alga castanha Zonaria tournefortii (C). Com uma zonação menos evidente encontram-se as algas clorófitas Anadyomene stellata (R), a alga castanha Halopteris filicina (O), as lâminas faeófitas “Peyssonnelia verde” (O) e as rodófitas Asparagopsis armata (O), coralináceas encrustantes (O) e outras rodófitas encrustantes não calcárias (R no geral mas A no extremo N do SIC). Algumas algas, como a clorófita Codium elisabethae (F), que se apresenta sobre a forma de globos, são mais evidentes no leito rochoso, enquanto outras predominam principalmente nas paredes, como a clorófita Bryopsis sp. (R e restrita à zona a S) e a faeófita Colpomenia sp. (O).
Relativamente aos invertebrados, as cracas (Megabalanus azoricus) (F) são frequentes acima dos 7m, por vezes também acompanhadas das anémonas Corynactis viridis (R), que podem ser encontradas até cerca dos 15m de profundidade.
Sem qualquer zonação ao longo do biótopo evidenciam-se os poliquetas Hermodice carunculata (F) (Fig.11c), Sabella spalanzanii (R), Polycirrus sp. (R) e poliquetas serpulídeos indeterminados (R), os decápodes Calcinus tubularis (R) e Pagurus cuanensis (R), os hidrozoários do género Aglaophenia (O), os equinodermes Ophidiaster ophidianus (O) e Sphaerechinus granularis (O), o bivalve Pinna rudis (O), os gastrópodes Columbella adansoni (C no extremo W do SIC) e Stramonita haemastoma (F), a esponja dos géneros Tedania e/ou Myxilla (O) e as ascídeas Clavelina oblonga (R), Cystodites dellechiajei (R), Distaplia corolla (R) e espécies indeterminadas da família Didemnidae (R); nas paredes estão predominantemente presentes o briozoário Reptadeonella violacea (R) e hidrozoários indeterminados (O).
Fig. 11. Fundo de leito rochoso (a) e algumas espécies aí encontradas: b) Codium adhaerens; c)
Hermodice carunculata.
Blocos
Nos blocos (Fig. 12a) os aspectos de zonação referidos anteriormente mantêm-se, sendo este biótopo dominado, até cerca dos 15m, por um povoamento musciforme rasteiro de coralináceas erectas onde se incluem espécies dos géneros Amphiroa (F), Corallina (F) e Jania (O). Conjuntamente, encontram-se faeófitas Dictyota dichotoma (C) e D. adnata (F), aqui também acompanhadas de Asparagopsis armata (O) e coralináceas encrustantes (O). Na fracção N do SIC está também presente Dictyota cf. linearis (C).
Quanto à presença de invertebrados, são abundantes o poliqueta Hermodice carunculata (O) e poliquetas serpulídeos indeterminados (R), os decápodes Calcinus tubularis (F) e Percnon gibbesi (R), o briozoário Reptadeonella violacea (R), hidrozoários do género Aglaophenia (R), os ouriços Sphaerechinus granularis (R) e Arbacia lixula (F localmente, mas restrito aos primeiros metros de água), a estrela-do-mar Ophidiaster ophidianus (O) (Fig. 12c), o bivalve Pinna rudis (O), as esponjas Cliona celata (F e apenas na fracção N do SIC) e Tedania e/ou Myxilla (O) e a ascídea Clavelina oblonga (R).
Fig. 12. Blocos de rocha (a) encontrados no SIC Ponta da Ilha durante a caracterização realizada, e algumas espécies a eles associadas: b) Zonaria tournefortii; c) Ophidiaster ophidianus.
A menor abundância da maioria das espécies observada nos blocos (relativamente ao fundo rochoso, paredes e fendas) dever-se-á provavelmente à presença de depósitos de areia, uma vez que muitos dos blocos assentam sobre fundo de sedimento. Este sedimento, poderá constituir tanto uma barreira à fixação larvar e dos propágulos algais, como também um factor de mortalidade devido à abrasão que pode provocar.
Fendas
Nas fendas o crescimento algal é bastante reduzido e, por essa razão, não é evidente a zonação batimétrica observada para os biótopos mais expostos. Assim, as fendas são em grande parte revestidas por algas encrustantes, tanto rodófitas – coralináceas (F) e não calcárias (O) - como crostas faeófitas (O). Além destas, mas menos abundantes e restritas à zona menos profunda das fendas, surgem ocasionalmente as clorófitas Bryopsis sp. (O mas limitada à vertente S do SIC), Anadyomene stellata (R) e Valonia utricularis (R), as faeófitas Cystoseira abies-marina (R mas restrita à vertente S), Dictyota adnata (R) e Sargassum sp. (R), e as rodófitas da ordem Ceramiales (R) e coralináceas erectas dos géneros Amphiroa (R), Corallina (R) e Jania (R).
Quanto aos animais invertebrados, as fendas albergam uma importante comunidade, distinta tanto pela sua riqueza específica como pela sua abundância relativa. Neste biótopo dominam espécies de cnidários e equinodermes. No primeiro caso, são frequentes os corais do género Caryophyllia (F) e hidrozoários, tanto pertencentes ao género Aglaophenia (O) (Fig. 13a), como de espécies indeterminadas (F). Nos equinodermes distinguem-se os crinóides Antedon bifida (C), as holotúrias Holothuria forskali (F) (Fig. 13b) e os ouriços Centrostephanus longispinus (R) e Sphaerechinus granularis (R).
Fig. 13. Algumas espécies registadas no biótopo das fendas do SIC da Ponta da Ilha: a) Aglaophenia sp.; b) Holothuria forskali; c) Percnon gibbesi.
Menos abundantemente observaram-se diversas esponjas, como Oscarella lobularis (R) e Tedania e/ou Myxilla (R) e tunicados – Clavelina oblonga (R), Cystodites dellechiajei (R), Diplosoma listerianum (R), Eudistoma angolanum (R mas apenas na fracção N) e espécies da família Didemnidae (R).
Peixes
As espécies de peixes mais frequentes e abundantes ao longo do SIC da Ponta da Ilha são, nas zonas rochosas (que incluem leito rochoso, blocos e paredes), a castanheta-azul (Abudefduf luridus), o bodião-verde (Centrolabrus caeruleos), a castanheta-castanha (Chromis limbata), o peixe-rei (Coris julis), o sargo (Diplodus sargus), o bodião-vermelho (Labrus bergylta), a salema (Sarpa salpa), o rascasso (Scorpaena maderensis) (Fig. 14a), o peixe-cão (Bodianus scrofa), a garoupa (Serranus atricauda), a veja (Sparissoma cretense), a raínha (Thalassoma pavo), o sopapo (Sphoeroides marmoratus), o trombetão (Symphodus mediterraneus) e o caboz-de-três-dorsais (Trypterygion delaisi delaisi) (Fig. 14b).
Nas fendas são muito comuns e exclusivas deste biótopo o folião (Apogon imberbis), o moreão (Gymnothorax unicolor), a moreia-preta (Muraena augusti) e a abrótea (Phycis phycis). Outras espécies aparecem com grande predominância nas fendas e buracos, embora não sejam exclusivas destes biótopos, como o rascasso (Scorpaena maderensis) ou o caboz-de-três-dorsais (Trypterygion delaisi delaisi) (Fig. 14b).
Relativamente a espécies características da coluna de água, no SIC da Ponta da Ilha são abundantes espécies como a boga (Boops boops), o encharéu (Pseudocaranx dentex), a salema (Sarpa salpa) (Fig. 14c).ou a bicuda (Sphyraena viridensis). No fundo de sedimento a espécie mais abundante é o salmonete (Mullus surmuletus).
Estimação da biomassa de lapas
Num dos mergulhos realizados para amostragem de lapas não se efectuaram capturas - mergulho 1. O máximo de lapas foi capturado no mergulho 13, em que se capturaram 350 g, correspondendo a 34 indivíduos de lapa-brava (Patella aspera). Os máximos e mínimos de apanha num mergulho foram ambos obtidos em locais de reserva para as lapas (Anexo V - Quadro XII).
Com os dados obtidos foi possível estimar a biomassa de lapas existente após a época de apanha de 2003 na ilha do Pico. Assim, na ilha existiam cerca de 1.800 kg de lapas (cerca de 220.000 indivíduos), dos quais cerca de 1.000 kg dentro da área de apanha e cerca de 670 kg na área de reserva. Na área do SIC existiriam cerca de 50 kg (±4.500 indivíduos) (Quadro II).
Quadros II
Resultados obtidos em cada uma das amostragem de lapa-brava (Patella aspera) realizadas na ilha do Pico no âmbito da caracterização ambiental dos SIC Ponta da Ilha (PTPIC0010) e Lajes dos Pico
(PTPIC0011).
Área Estimação (kg) Estimação (número)
Ilha 1.808 223.869
Apanha 991 114.133
Reserva 659 86.920
SIC 49 4.474
3. Caracterização Sócio-Económica Caracterização Geral da Ilha do Pico Demografia populacional
A ilha do Pico, ao longo do último século, tem vindo a sofrer uma diminuição na população residente. O maior número de habitantes (27.855) na ilha registou-se para o ano de 1878; a partir dessa década a população entrou num declínio gradual. Nas décadas de 40 e 50 observou-se um aumento na população residente, sendo que em 1950 o número de habitantes era de 22.557. A partir da década de 1950 ocorreu uma nova queda abrupta no número de habitantes residentes na ilha, provavelmente favorecida pela emigração para o Canadá e Estados Unidos da América. Actualmente a população do Pico encontra-se em declínio (Fig. 15).
0 5000 10000 15000 20000 25000 30000 1864 1878 1890 1900 1911 1920 1930 1940 1950 1960 1970 1981 1991 2001 Anos N º de hab itant es
De acordo com o Anuário de 2001, em Dezembro de 2000 o número de habitantes do sexo masculino era ligeiramente superior aos do sexo feminino (7.295 e 7.262, respectivamente) e o maior número de habitantes pertencia à faixa etária dos 25 aos 49 anos. (Fig. 16). 0 100 200 300 400 500 600 700 800 Nº de ha b ita nte s 0 a 14 15 a 24 25 a 49 50 a 64 65 ou mais
Grupo etário (Anos)
sexo masculino sexo feminino
Fig. 16. Número de habitantes por grupo etário e por sexo na ilha do Pico em 31/12/2000
Actividades económicas
Segundo o Censo de 2001, a percentagem da população com actividade económica (empregados e desempregados) na ilha do Pico é de 48%, sendo a restante constituída por estudantes, domésticas, reformados e incapacitados.
Através do trabalho realizado junto da população, 75% têm actividade económica, sendo que 21% dedica-se ao sector primário, 5% ao sector secundário e 74% ao sector terciário. Quanto à população sem actividade económica distinguem-se os reformados (23%), os estudantes (62%) e as domésticas (15%).
Indicadores de actividade económicas e sociais
Ao longo dos últimos anos, não ocorreram oscilações significativas nos indicadores de actividades económicas e sociais na ilha do Pico.
Quanto a alguns indicadores de actividades económicas, no concelho das Lajes do Pico (concelho onde o SIC está inserido), segundo os dados dos anuários regionais (1998 e 2003), foram concedidas 320 licenças para construções e obras. No ano de 2003 existiam:
1 estabelecimentos hoteleiros publicitados 5 caixas Multibanco
1 seguradora
Considerando alguns indicadores sociais, existiam em 2003 nestes concelhos:
22 estabelecimentos de ensino público (8 pré-escolas, 13 do ensino básico e 1 do ensino secundário), totalizando 885 alunos matriculados e 164 docentes
1 ecoteca
Dado o nível de variação sofrido por estes indicadores nos últimos anos, pode-se considerar que a dimensão populacional de ilha se encontra estabilizada, o que não deverá ocasionar um aumento da pressão antropogénica sobre a área costeira e sobre a área do SIC, em particular.
Despesas com o Ambiente
De seguida será considerado o investimento efectuado na ilha Graciosa com a protecção e qualidade do Ambiente (Quadro III). Para tal foi considerado o investimento na Protecção do recurso água que engloba o tratamento e controlo da qualidade da água para o abastecimento, o sistema de drenagem e o sistema de tratamento de águas residuais; na Gestão de resíduos que inclui a recolha e transporte de resíduos sólidos e infra-estruturas para o seu tratamento e deposição; na Protecção da Biodiversidade e todo o tipo de investimentos nesta área que poderão ter ocorrido.
Ao longo dos últimos anos (1998-2003) o gasto total com a protecção e qualidade do Ambiente, na ilha, foi de cerca de € 2.844.893. Em 2003, o concelho das Lajes do Pico, teve um gasto com o Ambiente de € 176.000 (ver Quadro III).
Quadro III
Despesas (em euros) das autarquias da ilha do Pico com a protecção e qualidade do ambiente entre os anos de 1998 e 2003.
1998 1999 2000 2001 2002 2003 Protecção do recurso de água
Lajes do Pico 0 0 0 0 0 0
Madalena 0 0 0 0 0 0
São Roque do Pico 0 0 0 0 0 0
Gestão de resíduos
Lajes do Pico 78.660 86.721 267.031 154.000 186.000 176.000
Madalena 29.394 428.193 150.347 52.000 36.000 457.000
São Roque do Pico 38.232 389.760 51.974 42.000 160.000 48.000
Protecção da biodiversidade
Lajes do Pico 0 0 0 0 0 0
Madalena 0 0 0 0 0 0
São Roque do Pico 13577 0 0 0 0 0
Outros
Lajes do Pico 0 0 0
Madalena 0 0 0
São Roque do Pico 0 0 0
Fonte: Anuário Estatístico. Região Autónoma dos Açores. Açores 1998, 1999, 2000, 2001, 2002 e 2003. As linhas sombreadas correspondem ao concelho onde o SIC está inserido.
Utilização da zona costeira
Com base em dados fornecidos pela Direcção Regional das Pescas dos Açores foi possível caracterizar algumas das utilizações da zona costeira.
Para o ano de 2004, a Região Autónoma dos Açores licenciou 485 residentes no arquipélago para apanhar polvo (258), algas (39), cracas (128) e lapas (60). Destes, 48 são residentes na ilha do Pico, ou seja, 9,9% do total. Das licenças, 21 são para a apanha de polvo, 9 para a apanha de cracas e 3 para apanha de algas e 15 para a apanha de lapas.
Quanto à pesca de linha de mão a Região Autónoma dos Açores, licenciou em 2004, 466 residentes no arquipélago, destes, 112 são residentes na ilha do Pico, o que representa 24% dos licenciados para esta actividade no arquipélago.
Considerando o período entre 1998 e 2003 e segundo dados publicados nos anuários regionais, verificou-se uma diminuição progressiva do número de embarcações registadas na região até 2002, tendo sido registadas em 2003 apenas mais 5 embarcações do que no ano anterior (Quadro IV).
Quadro IV
Número de embarcações (com e sem motor) registadas na Região Autónoma dos Açores entre 1998 e 2003.
1998 1999 2000 2001 2002 2003
Embarcações com motor 1294 1272 1250 1236 1216 1222
Embarcações sem motor 437 425 420 413 408 407
Total 1731 1697 1670 1649 1624 1629
Fonte: Anuário Estatístico. Região Autónoma dos Açores. Açores 1998, 1999, 2000, 2001, 2002 e 2003.
Caracterização dos Utilizadores da Zona Costeira
Nesta secção são apresentados dados recolhidos através de inquéritos efectuados directamente aos diferentes utilizadores da zona costeira: pescadores, caçadores submarinos, operadores de actividades marítimo-turísticas e população em geral (Fig. 17).
Fig. 17. Entrevistas aos diferentes utilizadores da zona costeira pescadores, caçadores submarinos e operadores de actividade marítimo-turísticos e à população em geral.
Inquérito Geral
O inquérito geral diz respeito aos dados gerais recolhidos a todos os inquiridos, independentemente da relação que possam ter com a zona costeira.
Grupo etário, sexo e escolaridade dos inquiridos
0 2 4 6 8 10 12 14 16 Per ce nt age m d os en tr ev is tad os 0 a 14 15 a 24 25 a 49 50 a 64 65 ou mais Grupo etário (Anos)
sexo masculino sexo feminino
Fig. 18 Grupos etários dos entrevistados.
Relativamente aos níveis de escolaridade, a maioria dos inquiridos possui o nível de instrução do secundário complementar (Fig. 19).
0,00 5,00 10,00 15,00 20,00 25,00 30,00 35,00 40,00 Pe rc ent ag em dos en tr ev is ta do s sem nível de estudo 1º ciclo (básico) 2º ciclo (básico) 3º ciclo (básico) secundário complementar superior Nível de instrução
Fig. 19. Nível de instrução dos entrevistados.
Áreas Marinhas Protegidas (AMP)
No Pico, 37% dos indivíduos questionados mostraram ter conhecimento da existência de áreas marinhas a serem protegidas, ou mesmo de alguma Área Marinha Protegida (AMP), sendo as mais citadas: as Lajes do Pico, a costa da Criação Velha, o Ilhéu da Madalena, a zona do Cachorro, a Prainha Norte e o Farol da Manhenha.
Dos inquiridos, 77% revelam acreditar na importância da existência de AMP, os quais declaram servir para:
“Preservar as espécies da extinção”
“Para dar protecção a certas espécies”
“...se não tiver áreas protegidas, não teremos nada em outro lado...” “Para servir de criadores de peixes”
A maioria dos inquiridos (85%), concorda com a existência de fiscalização nas AMP, 2% responderam o contrário e 13% optaram por não responder à questão. Na figura 20, é apresentada a opinião dos inquiridos sobre qual a entidade que deve ser responsável por esta fiscalização, sendo que a maioria (57%) se refere à autoridade marítima.
56,86%
9,80% 3,92% 15,69%
13,73%
autoridade marítima direção regional do ambiente GNR
outros não opinaram
Fig. 20. Opinião dos inquiridos sobre que entidade deve ser responsável pela fiscalização das AMP.
Sítio de Importância Comunitária (SIC)
Dos entrevistados, 90% desconhece o significado do termo Sítio de Importância Comunitária (SIC). Os que afirmam conhecer o termo (10%), definem SIC como:
“São áreas que precisam ser protegidas”
“São áreas protegidas pela Comunidade Europeia” “É uma futura área marinha protegida”
“São áreas marinhas protegidas pela Comunidade Europeia, por causa da importância única de
algumas espécies”
Utilização da zona costeira
A zona costeira do Pico é frequentada e/ou utilizada por todos os inquiridos e todos frequentam e/ou utilizam a área de abrangência do SIC.
Dentro das diversas actividades que podem ser desenvolvidas nas zonas costeiras, as preferidas pelos inquiridos são as actividades balneares (33%), observação da paisagem (38%) e a pesca de linha a partir da costa (pesca lúdica) (14%) (Fig. 21).
33,33% 37,98% 13,95% 3,88% 8,53% 2,33% actividades balneares observação da paisagem pesca de linha das pedras mergulho
whale watching passeios náuticos
Fig. 21. Actividades praticadas na costa pelos utilizadores.
Na ilha do Pico, 51% dos inquiridos optam por dar um passeios a pé pela zona costeira (Fig. 22). 1,23% 46,91% 1,23% 50,62% barco a motor a pé pela costa carro moto
Fig. 22. Meios utilizados pelos utilizadores para se deslocarem até as zonas costeiras.
Fauna observada pelos inquiridos
Na ilha do Pico, os animais marinhos que alegadamente são observados na zona costeira pelos inquiridos encontram-se descritos no Quadro V.
Durante a aplicação dos inquéritos os inquiridos referiram a toninha (Delphinus delphis) como alimento nos dias actuais. Nada foi referido sobre o cagarro (Calonectris diomedea borealis) e a tartaruga careta (Caretta caretta).
Quadro V
Aves, mamíferos e répteis marinhos avistados na zona costeira pelos inquiridos na ilha do Pico.
Nome comum Espécies Percentagem dos entrevistados
Aves
Cagarro Calonectris diomedea borealis 92%
Gaivota Larus cachinnans atlantis 94%
Garajau-comum Sterna hirundo 77%
Garajau-rosado Sterna dougallii 2%
Mamíferos marinhos
Toninha Delphinus delphis 90%
Cachalote Physeter macrocephalus 65%
Falsa-orca Pseudorca crassidens 4%
Golfinho pintado Stenella frontalis 10%
Golfinho riscado Stenella coeruleoalba 10%
Baleia piloto Globicephala macrorhynchus 8%
Moleiro Grampus griseus
Répteis
Tartaruga comum Caretta caretta 52%
Inquéritos Específicos
Foram aplicados inquéritos específicos às pessoas que praticam algum tipo de actividade específica na zona costeira, ou seja, caçadores submarinos, operadores de actividades marítimo-turísticas e pescadores.
Operadores de Actividades Marítimo-Turísticas (OAMT)
Na ilha do Pico foram inquiridos três OAMT. Esses OAMT deram início as actividades em 1987, 1994 e 1999.
O outro operador oferece aos clientes apenas a actividade de observação de cetáceos.
Segundo os OAMT há uma maior procura dessas actividades por turistas estrangeiros, em especial da França, Alemanha, Suécia, Itália, Finlândia e Noruega.
Características das embarcações das OAMT
Todos os operadores do Pico são proprietários de embarcações, totalizando, 9. Os comprimentos das embarcações variam entre os 5 e os 9 metros, todas são semi-rígidas e 89% têm o motor outbord. A tripulação varia entre um e dois tripulantes.
Uso e ocupação da zona costeira pelos OAMT
Os locais preferidos pelos OAMT é o Canal Faial/Pico, o Ilhéu de São Roque, a Piedade, a Madalena e as Lajes do Pico (Fig. 23).
Fig. 23. Áreas indicadas como utilizadas pelos Operadores de Actividades Marítimo-Turísticas na ilha do Pico.
Emprego directo gerado pelos OAMT
Como consequência das condições climatéricas dos Açores as operadoras geralmente não exercem actividades durante os meses de Outono e Inverno estando mesmo com as instalações encerradas durante esse período.
Desta forma, na ilha do Pico são quarenta e sete os empregos directos gerados por esses OATM durante a Primavera e Verão.
Evolução das actividades
Um dos operadores relatou que houve um grande aumento na procura de tais actividades entre os anos de 1996 a 1998 e depois desse período estagnou.
Brifingue ambiental
Todos os operadores inquiridos realizam um brifingue ambiental dirigido aos turistas. Dois dos OAMT, tem contrato com um biólogo, o qual é responsável pelo brifingue nas instalações da operadora (em terra) com duração de 30 minutos aproximadamente e no próprio barco, com duração de 15 minutos. O outro realiza o brifingue durante as saídas de barco e o responsáveis pela transmissão desta informação é o proprietário, o qual, não tem formação em nenhum ramo da biologia e/ou ambiental. O tempo do brifingue é de aproximadamente 15 minutos.
Pescadores
Os pescadores inquiridos na ilha do Pico encontram-se distribuídos entre os 21 e 71 anos de idade e apresentam um baixo nível (1º ciclo) de escolaridade. Destes, 57% depende exclusivamente da actividade piscatória como fonte de rendimento.
Segundo 57% dos entrevistados, a qualidade de vida dos pescadores está: “Pior, só para os armadores é que esta bom”
Os restantes (43%), acreditam que a qualidade de vida está melhor, pois: “Antes o peixe tinha um valor muito baixo”
Uso e ocupação da zona costeira pelos pescadores
A partir das informações fornecidas pelos inquiridos, obteve-se que a Ponta da Ilha é o local preferido pelos pescadores (Fig. 24).
Fig. 24. Áreas indicadas como utilizadas pelos pescadores na ilha do Pico.
Caracterização da actividade pesqueira
O tempo que os pescadores levam a chegar aos pesqueiros varia entre os 30 minutos e 1 hora e o tempo de pescaria é sempre superior as 4 horas, podendo muitas vezes atingir as 12 horas.
Os iscos mencionados pelos pescadores inquiridos são: o chicharro (Trachurus picturatus), a cavala (Scomber japonicus), a lula (Loligo forbesi) e a sardinha (Sardina pilchardus) para o engodo. Dos pescadores inquiridos, 20% compram o isco, 40% capturam o isco e os outros 40% compram e/ou capturam o isco.
As espécies capturadas mais citadas pelos pescadores são: a garoupa (Serranus atricauda), a abrótea (Phycis phycis), o goraz (Pagellus bogaraveo), o pargo (Pagrus pagrus), o congro (Conger conger), o lírio (Seriola rivoliana), a veja (Sparisoma cretense) e a bicuda (Sphyraena viridensis).
Dos pescadores inquiridos, 86% concordam com a obrigatoriedade de descarregar o pescado na Lota, alegando que:
“Se não passar na Lota, não temos hipótese da reforma” “Temos que descontar para garantir o futuro”
“...eu desconto para o fim da vida (reforma)...”
Todos os inquiridos, observam caçadores submarinos na proximidade das zonas de pesca, e destes, 86% acreditam que esse tipo de actividade origina impactos na pesca. Segundo esses pescadores:
“Eles não tem mentalidade de que isso (caça) pode prejudicar” “É preciso haver zona protegida contra os caçadores”
“Eles (caçadores) afugenta os peixes da costa”
“Rendimento” da zona costeira para os pescadores
As condições climatéricas e oceanográficas dos Açores dificultam a ida dos pescadores ao mar durante alguns meses do Outono e Inverno, resultando numa alegada insegurança quanto ao rendimento mensal esperado. Sendo assim, a zona costeira do Pico rende em média mensalmente, por pescador, aproximadamente € 316 mensais (em valor bruto).
Futuro da pesca
São filhos de pescadores 43% dos inquiridos, tendo os mesmos, aprendido essa arte com os seus antecessores.
Da totalidade, 43% não gostaria de ver essa profissão passada às gerações seguintes, não desejando que os filhos e netos optem por ser pescadores. Os pescadores (57%) que gostariam que os filhos seguissem a mesma profissão acreditam que:
“É rentável e trabalha-se por conta própria” “É rentável e eu gosto da profissão”
Turistas
Açores (Anón. 2001a), pode-se avaliar as actividade dos mesmos quando visitam esta ilha.
Dos turistas entrevistados, 70% apresenta idades compreendidas entre os 25 e os 54 anos, observando-se a maior percentagem no escalão dos 25 aos 34 anos. Dos entrevistados, 43% apresentam nível superior universitário.
A maioria dos turistas são residentes de Portugal (72%) e os residentes no estrangeiro no estrangeiro são essencialmente, provenientes dos EUA, Canadá e dos países europeus mais desenvolvidos (Alemanha, Países Nórdicos, Reino Unido e França).
Motivo da viagem
A viagem à região constituía a primeira visita de 41% dos inquiridos.
As características consideradas como importantes na escolha da região e o como principal motivo da viagem foram:
descanso e lazer beleza natural ambiente calmo
novidade e exotismo das ilhas
É importante ressaltar que as características consideradas menos importantes na sua escolha são:
vida nocturna compras
Isto evidencia a imagem de um destino ecológico e tranquilo, aliado ao exotismo próprio dos destinos insulares, que os turistas procuram quando optam pelos Açores.
Actividades praticadas pelos turistas As actividades mais praticadas pelos visitantes são:
apreciar a gastronomia açoreana
fazer compras (apesar de não ser uma característica importante na escolha do destino)
visitar monumentos
realizar percursos pedestres pelo interior das ilhas
frequentar zonas balneares.
Pontos fortes e fracos dos Açores segundo os turistas
Os turistas inquiridos ressaltaram como características positivas dos Açores: ambiente natural
hospitalidade dos residentes
segurança
e relataram como as piores características: estradas e sinalização
serviços de restauração
vida nocturna
compras
preços das refeições
preços de alojamentos
Turistas como meio de divulgação
Dos turistas inquiridos, 84% levam boas recordações dos Açores e pretendem sugerir aos amigos e familiares que também visitem a região, favorecendo, a divulgação e publicidade da região.
Aspectos Estéticos e Paisagísticos
A área envolvente do SIC Ponta da Ilha caracteriza-se por apresentar diferentes atractivos estéticos e paisagísticos, entre eles podendo-se destacar (Fig. 25):
As enseadas As baías As falésias
Os campos de lava e escavações naturais As grutas
Fig. 25. Alguns aspectos estéticos e paisagísticos do SIC Ponta da Ilha.
No decurso das imersões realizadas no SIC da Ponta da Ilha foram identificadas diversas espécies que se afiguram como importantes para o turismo tendo em conta as suas características estéticas, dimensionais ou emblemáticas (Fig. 26).
Nas algas há a referir:
clorófita (Codium elisabethae) rodófita (Asparagopsis armata)
Quanto aos invertebrados, foram registadas as seguintes presenças:
anémonas (Actinia equina, Corynactis viridis, Parazoanthus sp. e Telmatactis forskali) ascídea (Distaplia corolla)
bivalve (Pinna rudis)
burrié-bicudo (Calliostoma zizyphinum) buzina (Charonia lampas)
camarão-narval (Plesionika narval) caranguejo (Percnon gibbesi) crinóide (Antedon bifida)
estrelas-do-mar (Marthasterias glacialis e Ophidiaster ophidianus) holotúria (Holothuria forskali)
lapa-burra (Haliotis coccinea)
ouriços (Arbacia lixula, Centrostephanus longispinus e Sphaerechinus granularis) poliquetas (Hermodice carunculata e Sabella spalanzanii)
polvo (Octopus vulgaris) santola (Maja brachydactila)
Relativamente aos peixes foram identificados: abrótea (Phycis phycis)
badejo (Mycteroperca fusca) bicuda (Sphyraena viridensis) bodião-verde (Centrolabrus trutta) bodião-vermelho (Labrus bergylta) congro (Conger conger)
enxaréu (Pseudocaranx dentex) garoupa (Serranus atricauda) írio (Seriola rivoliana)
mero (Epinephelus marginatus) moreão (Gymnothorax unicolor)
moreia-preta (Muraena augusti) moreia-preta (Muraena helena) peixe-cão (Bodianus scrofa) peixe-rei (Coris julis) raínha (Thalassoma pavo). ratão (Dasyatis pastinaca) salmonete (Mullus surmuletus) sopapo (Sphoeroides marmoratus) trombetão (Symphodus
mediterraneus)
veja (Sparissoma cretense)
Fig. 26. Algumas das espécies com interesse para o turismo encontradas na caracterização do SIC Ponta da Ilha. a) Sabella spalanzanii, b) Marthasterias glacialis, c) Berthellina edwardsi, d) Telmatactis
Valores Patrimoniais
Os valores patrimoniais existentes na área envolvente do SIC são: Museu dos Baleeiros
Farol da Ponta da Ilha
Zona balnear, cujas habitações são predominantemente, ocupadas na época de Verão
C
APÍTULOII
–
A
VALIAÇÃO EO
BJECTIVOS1. Avaliação das Componentes Critérios de Avaliação Ecológica Dimensão
A parte marinha do SIC Ponta da Ilha (291 ha) representa 73% da área total do SIC (398 ha). Todas as dimensões avaliadas encontram-se dentro da média dos SIC do arquipélago (Quadro VI).
Quadro VI
Avaliação da Dimensão do SIC Ponta da Ilha na ilha do Pico. A classificação aplicada é descrita no Anexo VIII.
Classificação
Área Marinha Média
Área Total Média
Linha de Costa Média
As dimensões do SIC são apresentadas na secção da Localização e Descrição (pag. 1)
Diversidade
Na parte marinha do SIC Ponta da Ilha, os habitats naturais são diversificados, estando presentes 7 habitats constantes do Anexo I da Directiva Habitats (92/43/CEE), alguns utilizados na definição de SIC. Esta característica confere a este SIC importância a nível europeu.
Relativamente às espécies marinhas constantes no Anexo III da Directiva Habitats, foi registado o roaz (Tursiops truncatus) no decorrer da caracterização biológica do SIC. Existem, também, registos da presença de tartaruga-careta (Caretta caretta), espécie cuja presença foi registada pelos observadores do projectos POPA**, Macetus †† e Cetamarh ‡‡
durante o trabalho de mar realizado entre 1999 e 2003.
Em termos de biótopos, o fundo apresenta uma diversidade média em relação aos restantes SIC, com 5 tipos de biótopos amostrados (ver secção Habitats e Abundâncias). Esta diversidade de biótopos pode suportar uma elevada diversidade de comunidades intertidais e subtidais. O SIC marinho da Costa das Quatro Ribeiras apresenta uma diversidade biológica média (Quadro VII).
Quadro VII
Avaliação da Diversidade do SIC Ponta da Ilha no Pico. A classificação aplicada é descrita no Anexo VIII.
Total Registado no SIC Classificação
Características Físicas
N.º Habitats (Anexo I) 7 Superior
N.º Biótopos 5 Média
Características Biológicas
Espécies (Anexo III) 2 Superior
Algas 50 Média
Invertebrados 103 Média
Peixes 42 Média
Total* 196 Média
* O valor apresentado para o Total tem em conta espécies não incluídas nos grupos considerados.
**
POPA – Programa de Observação para as Pescas dos Açores ††
Macetus - Estudo da estrutura populacional, distribuição, movimentos e utilização do habitat de Physeter macrocephalus, Globicephala macrorhynchus, Tursiops truncatus e Stenella frontalis na Região Macaronésica (Arquipélago dos Açores, Canárias e Madeira) (Interreg IIIb – MAC/4.2/M10).
‡‡
Fragilidade
Este SIC apresenta várias áreas de ocupação humana bem como áreas semi-naturais com influência antrópica. O acesso por terra à parte marinha do SIC não é fácil, com a excepção da zona da Manhenha, acessível pela estrada que leva ao farol.
Na generalidade do SIC, as principais ameaças reais são a exploração de recursos costeiros, a caça submarina, a exploração ilegal de lapas e a observação de cetáceos, enquanto que a exploração de inertes se apresenta como ameaça potencial.
Os potenciais impactes nos quais estas ameaças se poderão materializar são diversos: sobre-exploração local de recursos haliêuticos, perturbação de aves marinhas com o seu consequente abandono do território, perturbação de cetáceos com o seu consequente afastamento da área ou a destruição de habitats.
Representatividade
O SIC da Ponta da Ilha não é especialmente representativo de nenhum tipo de habitat, processo ecológico, comunidade biológica ou característica fisiográfica.
A zona próxima da costa, especialmente do lado N do SIC, caracteriza-se, como todas as zonas costeiras com extensões de fundo de baixa profundidade, por alguma presença de juvenis de espécies de peixes, que aqui encontram habitat propício ao seu crescimento. Neste SIC, no entanto, a abundância de juvenis registada no decorrer das imersões realizadas não foi tão elevada como noutros SIC estudados. Isto poderá também dever-se ao facto de alguns dos locais terem sido amostrados no Outono, já fora da época de reprodução da generalidade das espécies.
Raridade
Durante as imersões realizadas na Ponta da Ilha foi registada a presença do coral negro (Antipathes wollastoni), notável pela baixa profundidade a que foi encontrado.
O mero (Epinephelus marginatus) e o caboz-das-cracas (Parablennius incognitus) foram registados no decurso da caracterização deste SIC. Sendo espécies constantes no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, a sua presença confere a este SIC importância nacional. O número de outras espécies de invertebrados e peixes de interesse neste SIC encontra-se abaixo da média.
Naturalidade
A área marinha do SIC da Ponta da Ilha apresenta um grau médio de degradação antrópica (Quadro VIII).
As áreas de ocupação humana existem mas, uma vez que as áreas urbanas em seu redor são de pequena dimensão, a ocupação está mais relacionada com a exploração de recursos vivos e com o turismo.
Fig. 27. Na caracterização do SIC Ponta da Ilha, do Pico, foram realizados alguns registos que mostram que já existe alguma influência antrópica no meio marinho. a) Restos de aparelho de pesca; b) a espécie não-nativa Clavelina oblonga.
Neste SIC, os habitats naturais estão também ligeiramente modificados pela colonização de espécies não-nativas (ver lista completa de espécies não-nativas registadas para os Açores no Anexo IV). Relativamente à flora, há a referir a rodófita Asparagopsis armata, que está bem espalhada pelo SIC e é ocasional. No filo Phoronida, foi registada a presença de Phoronis hippocrepia, embora apenas na parte SW do SIC e com abundância reduzida (raro). Quanto às ascídeas, Distaplia corolla está presente por todo o SIC de forma rara, enquanto que Clavelina oblonga (Fig. 27b), também disseminada, é um pouco mais abundante (rara a ocasional). Estas espécies, por constituírem uma potencial ameaça ao equilíbrio da comunidade biológica local, e dada a sua capacidade de disseminação, merecem uma atenção especial e, eventualmente, monitorização regular.
Quadro VIII
Avaliação da Naturalidade do SIC Ponta da Ilha na ilha do Pico. A classificação aplicada é descrita no Anexo VIII.
Índice Classificação de Naturalidade
Intervenção Terrestre ÌÌÌ
Efeitos de Exploração Costeira ÌÌÌÌÌ
Modificadores Antropogénicos (área marinha) ÌÌÌ
Espécies não-nativas ÌÌÌÌ
Ponderação final ÌÌÌÌ
Escala de Importância do Sítio
A escala de importância do SIC é uma avaliação global dos factores acima descritos. Neste sentido, além da importância de cada um dos factores avaliados, é ainda atribuída a relevância desse factor (Quadro IX). A maior importância atribuída ao SIC Ponta da Ilha relaciona-se com a diversidade, nomeadamente a nível dos habitats e espécies constantes dos Anexos I e III, respectivamente, a qual lhe confere importância a nível europeu.
Quadro IX
Escala de Importância do SIC Morro de Castelo Branco na ilha do Faial.
Importância Relevância
Dimensão -- Reduzida
Diversidade Europeia Elevada
Fragilidade -- Média
Representatividade Local Reduzida
Raridade Nacional Média