TEXTO DE REFERÊNCIA
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A escola do Ensino Médio, os jovens e seus Projetos de Vida
Quem são os jovens brasileiros que já nasceram no século 21? Quem são os estudantes que frequentam o Ensino Médio? Qual é a relação deles com a escola? Como promover a participação desses estudantes como protagonis- tas da sua vida e do seu processo de aprendizagem? Como o projeto de vida impacta o seu presente e o seu futuro? Estas são algumas das perguntas que buscaremos responder aqui, com o intuito de aproximar mais os profissionais de educação da realidade das juventudes brasileiras.
1. Jovens, juventude e juventudes
Jovens: o Estatuto da Juventude | Brasil (acesso em: 15 mar. 2021) consi- dera jovem todas as pessoas com idade entre 15 e 29 anos. O Brasil tem 46,9 milhões de jovens com idade entre 15 e 29 anos, que representam 25% da população.
Juventude: o termo no singular define o que é ser jovem levando em conta as particularidades dessa condição. Isso permite que os jovens, mesmo sendo diferentes uns dos outros, identifiquem-se como tal.
Juventudes: no plural, o termo indica que existem múltiplas formas de se viver a juventude, condição atravessada por diversos fatores, como situação socioeconômica, raça e etnia, gênero e orientação sexual, territorialidade, entre outros. Significa compreender que as experiências de juventude para uma jovem negra, um jovem indígena, um jovem morador de periferia, um jovem que frequenta escola particular ou um jovem da zona rural podem ser bem diferentes entre si.
Juventude perdida: muitos mitos corroboram com a ideia de que a juven- tude atual está perdida e que os jovens de hoje seriam mais mimados, des- respeitosos ou descompromissados. Esse tipo de percepção costuma fazer parte do imaginário de adultos, ao se depararem com o que os distingue das gerações que os sucedem.
Juventude redentora: no outro extremo, uma parcela da população acredita que a juventude atual salvará a todos, depositando nos jovens suas esperan- ças em relação ao futuro, à mudança e à solução de problemas estruturais da sociedade.
Juventude estigmatizada: para além dos mitos, um número cada vez maior de jovens carrega o estigma de “Nem-nem”, uma vez que nem estudam,
nem trabalham. No Brasil, um pouco mais de 10 milhões de jovens estão nessa condição (Pnad Educação, 2019). Em sua maioria, são mulheres que saem da escola para cuidar de filhos, irmãos ou serviços domésticos, ou homens que deixam as salas de aula para buscar emprego sem ter qual- quer tipo de especialização.
Nativos digitais: o universo digital se tornou algo imprescindível para a maio- ria dos jovens, uma vez que boa parte deles não conheceu o mundo sem internet, celular e, consequentemente, sem as redes sociais. No entanto,
limitações de acesso ainda afetam uma parte importante dessa população.
Estudos apontam que as principais atividades dos jovens no mundo digital estão relacionadas a comunicação, lazer e informação. Os temas que eles mais buscam e sobre os quais mais criam conteúdo são música, cinema/
vídeo, esporte e turismo/viagem.
Jovens de 15 a 29 anos no Brasil em 2019:
22,1% do total não trabalhavam, não estudavam, nem se qualificavam;
27,5% das jovens mulheres estavam nesta condição;
25,3% dos jovens pretos e pardos estavam nesta condição.
Fonte: IBGE/Pnad
TIC Kids Online Brasil 2019 | Cetic (acesso em: 15 mar. 2021):
89% dos brasileiros entre 9 e 17 anos são usuários de internet;
75% entre os que vivem na zona rural;
79% entre os que moram nas regiões Norte e Nordeste;
80% entre os que residem em domicílios das classes DE.
1,8 milhão de brasileiros de 9 a 17 anos não são usuários de internet;
4,8 milhões deles vivem em domicílios que não têm acesso à rede.
TIC Educação 2019 | Cetic (acesso em: 15 mar. 2021):
98% dos estudantes costumam acessar a internet pelo celular;
18% deles só conseguem acessar a rede pelo celular;
39% dos estudantes de escolas públicas não possuem tablet ou computador em casa.
Música e mídias: além de muito conectados, os jovens do século 21 costu- mam ser criativos e questionadores, entre outras características marcantes.
Gostam de games, mídias, músicas de estilos variados e de fazer amizades.
Influenciadores: curtem muito os influenciadores digitais. Diferente das estrelas de TV, os famosos da internet são mais próximos da realidade das juventudes, uma vez que compartilham seu dia a dia e interagem com seus seguidores. Além disso, os youtubers, instagrammers, blogueiros e outras webcelebridades exercem grande influência pelo status social e sucesso financeiro que demonstram ter. Em 2016, das 20 personalidades que mais influenciavam os brasileiros com idade entre 14 e 17 anos, 10 já eram youtu- bers. No entanto, os ídolos desses jovens não são apenas pessoas famosas.
Familiares, lideranças religiosas ou de bairro, além de professores, são tidos como referência. De acordo com a pesquisa 10 Desafios do Ensino Médio no Brasil | Unicef (acesso em: 15 mar. 2021), de 2014, os professores de Ensino Médio são menos idealizados do que os de Ensino Fundamental, mas seguem como fonte de motivação para os estudantes.
Vulnerabilidades: violência, maternidade precoce, falta de acesso à cul- tura e desemprego são realidades comuns para muitos jovens, assim como envolvimento com drogas e com a criminalidade. Jovens de 15 a 29 anos são as principais vítimas de homicídio no país. Essas mortes têm cor da pele e endereço certo: são negros, sobretudo, moradores de periferia e áreas metropolitanas dos centros urbanos. Acidentes de trânsito, automutilação e suicídio também impactam fortemente a vida das juventudes brasileiras.
Especialistas apontam que os níveis baixos de serotonina no período da ado- lescência e as incertezas em relação ao futuro levam à solidão, à depressão,
Os mais influentes entre jovens do Brasil | Igor Ribeiro | Meio&Mensagem (acesso em: 22 jan. 2021) Para os jovens, uma personalidade deve ter:
Autenticidade (16%) Originalidade (15%)
Inteligência (12%)Senso de humor (11%)
aos transtornos alimentares e aos comportamentos autolesivos. Muitos jovens ainda são alvo recorrente de outras formas de violência psicológica, moral, sexual e patrimonial. Dentre elas, destaca-se o bullying, que não raras vezes ganha intensidade no ambiente escolar.
Desigualdades: a desigualdade está no cerne da maioria das violências e dos entraves que desafiam o presente e comprometem o futuro dos jovens brasileiros. A escola, que deveria ser um local privilegiado para a promoção da igualdade, muitas vezes reproduz essas iniquidades, especialmente quando não reconhece as singularidades dos estudantes. Cada vez mais presente na sociedade, o debate sobre diversidade, equidade e inclusão também se faz necessário na escola.
Homicídios no Brasil em 2018 57.956 homicídios registrados 75,7% das vítimas eram negras
53,3% das vítimas eram jovens de 15 a 29 anos Fonte: Atlas da Violência 2020
Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência 2017 | Brasil (acesso em: 22 jan. 2021):
O risco relativo de uma jovem negra ser vítima de homicídio é 2,19 vezes maior do que de uma jovem branca.
A chance de um jovem negro ser assassinado é quase três vezes (2,7) superior à de um jovem branco.
“Assim como outras instituições sociais, a escola é uma das responsáveis pela manutenção dos mecanismos de poder que reproduzem desigualdades, preconceitos e exclusão social”, diz Meir- yelle Paixão Menezes, pesquisadora da Universidade Federal de Sergipe.
“Por ser um espaço em que ocorrem encontros, vínculos e conflitos, a escola pode ser, em vez de um lugar de reprodução de preconceitos, um ambiente ideal para aceitar, respeitar e valorizar as diferenças. Ainda, é importante ressaltar que, quando a escola não reconhece as desigualdades e diversidades, a discriminação ganha espaço”.
Fonte: Censo Escolar 2015
“Questões de gênero, religião, raça/etnia ou orientação sexual e sua combinação direcionam práticas preconceituosas e discriminatórias da sociedade contemporânea. Se o estereótipo e o preconceito estão no campo das ideias, a discriminação está no campo da ação, ou seja, é uma atitude. É a atitude de discriminar, de negar oportunidades, de negar acesso, de negar humani- dade. Nessa perspectiva, a omissão e a invisibilidade também são consideradas atitudes, também se constituem em discriminação.”
Fonte: Gênero e Diversidade na Escola: Formação de Professoras/es em Gênero, Sexualidade,O- rientação Sexual e Relações Étnico-Raciais, e-Clam | CNPQ. (Acesso em: 22 jan. 2021)
“[...] o preconceito dos jovens pode ser entendido como um reflexo das atitudes dos adultos, con- clui-se que o combate à discriminação também deve chegar aos professores e demais profissionais direta e indiretamente envolvidos no processo educativo.
A conscientização sobre seus próprios preconceitos e a abertura para aprender com os alunos são ótimas vias. Dessa forma, é possível não apenas ensinar ao estudante a ser tolerante como ainda servir de modelo para que ele tome certas atitudes no seu dia a dia.”
Fonte: Preconceito em sala de aula: como o professor pode ajudar a superar? | Amanda Viegas | Plataforma Educacional Somos Par. (Acesso em: 22 jan. 2021)
Abandono e evasão escolar: no Brasil, um a cada quatro jovens deixa a escola antes de concluir o primeiro ano do Ensino Médio. O cenário tende a piorar com os efeitos da pandemia de Covid-19 e o crescimento das desi- gualdades sociais no país. PRINT O estudo Políticas públicas para redução do abandono e evasão escolar de jovens | Gesta (acesso em: 15 mar. 2021) destaca os principais fatores que contribuem para que os estudantes deixem as salas de aula na última etapa da Educação Básica. No âmbito externo à escola, destacam-se a dificuldade de acesso, as deficiências físicas e cogni- tivas, a demanda por inserção no mundo do trabalho, a pobreza, a gravidez/
maternidade, a violência e o envolvimento com atividades ilegais. Já dentro da escola, as principais causas são o déficit de aprendizagem, a falta de significado prático do currículo e de atratividade das atividades escolares, a baixa qualidade da educação, a falta de flexibilidade curricular, o clima da
escola, a dificuldade de percepção da importância da escola e da educação, além de desafios emocionais.
Abandono e Evasão Escolar:
20,2% dos jovens de 15 a 29 anos não completaram alguma das etapas da Educação Básica 71,7% são pretos ou pardos
8,1% não estão na escola aos 14 anos 14,1% não estão na escola aos 15 anos 18% não estão na escola aos 19 anos
75% dos jovens de 18 a 25 anos estão atrasados ou abandonaram os estudos Fonte: IBGE/Pnad
2. A multidimensionalidade dos adolescentes e jovens
Durante a adolescência e a juventude, o cérebro ganha intensa plastici- dade, em função da reorganização pelas quais passam as suas estruturas.
Trata-se, portanto, de uma fase muito propícia a mudanças de padrões e comportamentos. Isso quer dizer que adolescentes e jovens estão muito abertos a aprender com o ambiente. Se conviverem em espaços saudáveis, acolhedores, solidários, democráticos e éticos, a tendência é que também desenvolvam essas caraterísticas. Se a convivência se der em ambientes indi- vidualistas, violentos ou desrespeitosos, também será mais fácil incorporar esses tipos de atitude.
Adolescentes e jovens aprendem pelo exemplo e conseguem perceber com alguma clareza quando discurso e prática entram em contradição. Como são muito questionadores, sempre testam os adultos e a realidade à sua volta para saber se as coisas precisam mesmo ser do jeito que encontraram ou se podem ser diferentes; se devem permanecer como estão ou se precisam mudar porque já não fazem mais sentido diante das novas realidades que vão se configurando.
A fase da adolescência e juventude também traz muitas turbulências emo- cionais que têm sido intensificadas pelas tecnologias e por um mundo em constante mudança, que gera incertezas e ambiguidades. Adolescentes e jovens têm cada vez mais dificuldade para saber o que é o certo e entender o que o futuro lhes reserva. Multiplicam-se os casos de ansiedade e depres- são, que levam à automutilação e ao suicídio. Quando observados de perto, descartando-se julgamentos e estereótipos, percebe-se que a grande maioria deles anseia por acolhimento, reconhecimento, desafio e propósito.
Acolhimento: é na adolescência e juventude que se intensifica o desenvol- vimento de funções cerebrais ligadas às relações sociais. Por isso, os jovens têm o desejo de ser apreciados, de pertencer, de fazer parte de um mundo mais amplo do que o seu círculo familiar. Também por essa razão sofrem
tanto com a rejeição, o preconceito e o bullying. Acolher, portanto, significa se importar com eles, percebê-los em suas singularidades, aceitá-los em suas diversidades, fazer com que se sintam enxergados e amparados. Não é tarefa fácil saber como lidar com as mudanças de humor, as ações intem- pestivas, a eventual apatia e os questionamentos das juventudes. Vale lem- brar que o desenvolvimento intelectual se processa mais rápido do que o desenvolvimento emocional. Assim, muitas vezes, os adolescentes e jovens têm conhecimento sobre as consequências, mas não conseguem controlar os seus impulsos. Por isso, é importante não levar suas provocações para o lado pessoal. Cabe aos adultos manter a estabilidade do ambiente, ajudá-los a pensar sobre suas atitudes e dar chance para que aprendam com seus erros.
Reconhecimento: e quando eles aprontam? Mais do que a repreensão, é o reconhecimento que faz com que adolescentes e jovens se tornem mais produtivos e contributivos em qualquer ambiente, especialmente na escola.
Há potências a serem descobertas no interior de cada um deles, mesmo entre os mais introvertidos, os que vão mal nos exames ou os que recebem a pecha de encrenqueiros. Quando esse potencial não é bem canalizado, os resultados costumam ser desastrosos. Para virar esse jogo, é preciso livrá- -los dos rótulos e das inviabilidades e criar oportunidades para que possam
expressar seus talentos, dar sua contribuição e ser reconhecidos por isso. É preciso dedicar tempo para conhecer cada jovem em suas particularidades.
A qualidade da relação com os adultos tem influência direta no seu compor- tamento e desenvolvimento. Adolescentes e jovens costumam se ressentir quando se sentem invisíveis, ou quando não se importam com eles.
Desafio: o desânimo dos adolescentes e jovens também tem explicação.
Além de não verem sentido em muitas das coisas que lhes são oferecidas, especialmente nas escolas, eles estão passando por uma fase em que o cérebro reduz em um terço a quantidade de receptores para dopamina, um neurotransmissor que proporciona o prazer. Para liberar mais dopamina e sentir mais prazer, eles precisam de experiências mais intensas. Ou seja, o organismo dos adolescentes e jovens tende a procurar prazer externo para equilibrar a apatia interna. Por isso, estão sempre atrás de novidades, come- tem excessos, assumem comportamentos de risco – o que não precisa ser necessariamente ruim, já que a busca pelo prazer os move a descobrir coisas novas e a batalhar por sua independência. É essa a razão de ser tão impor- tante que as atividades educativas proporcionadas para eles sejam animadas, interessantes, desafiadoras e prazerosas. Isso não significa deixá-los fazer apenas o que querem. Quando os adultos acreditam que eles são capazes,
costumam oferecer desafios à altura da sua capacidade. E quando eles se sentem desafiados, se enchem de coragem, se esforçam e se superam.
Identidade e propósito: mas a animação gerada por atividades pontuais não dura se os jovens não aprendem a se conhecer e se apreciar, a ter sonhos e aspirações, a expandir seus horizontes e possibilidades. Muitos deles vivem em situações extremamente desafiadoras, repletas de obstáculos externos e receios internos. A escola e a vida ganham sentido quando sabem quem são e aonde querem chegar, planejam o que precisam fazer para alcançar o que desejam e acreditam que são capazes de realizar seus objetivos. Nesse caso, a construção de um projeto de vida que inclua planos para sua realização como pessoa, profissional e cidadão os ajuda a desenvolver o propósito, a autonomia e a responsabilidade de que precisam para tomar boas decisões em relação a sua vida presente e futura.
3. O impacto da escola na mitigação de vulnerabilidades
A escola tem enorme potencial de contribuir para mitigar as vulnerabilidades que ameaçam os jovens brasileiros, ainda que seu enfrentamento dependa da ação articulada de diversos segmentos da sociedade, como famílias, pro- fissionais de saúde, assistentes sociais e defensores de direitos.
Superação de desigualdades: no Brasil, de modo geral, o local de nasci- mento costuma determinar o futuro das pessoas. A escola pública, apesar dos seus inúmeros dilemas, tem potencial para ser uma das principais vias de superação das barreiras da desigualdade. Para que esse potencial se realize, é fundamental que professores e gestores acreditem que seus estudantes podem se transformar por meio da educação e aprofundem seus conhe- cimentos sobre como lhes oferecer uma experiência escolar transforma- dora. Precisam, ainda, refletir a respeito de como facilitar o aprendizado para adolescentes e jovens que vivem em situação de escassez, violência e falta de oportunidades, entre outros. Só assim poderão proporcionar ambientes e práticas pedagógicas mais relevantes e efetivas para esses grupos, sem subestimar a sua capacidade.
Acolhimento de diferenças: os padrões e comportamentos juvenis muda- ram de forma profunda nas últimas décadas, gerando resistências, espe- cialmente por parte de segmentos mais conservadores da sociedade. Em tempos de polarização e ânimos acirrados, esses e outros estranhamentos se transformam em intolerância contra aqueles considerados diferentes:
por sua deficiência, tipo físico, religião ou orientação sexual, entre outros fatores. Essa discriminação também acontece no ambiente escolar, onde
os estudantes são tanto agentes quanto alvos de preconceito. Muitas vezes, é esse sentimento de rejeição que mina a autoconfiança, provoca crises emocionais e desdobra-se em consequências ainda mais graves. É preciso prevenir as rotulações, o bullying e a intolerância na escola, fazendo com que essas situações sejam denunciadas por quem as sofre, mediadas por quem as testemunha e reparadas por quem as provoca. Todos os estudantes têm direito a conquistar um lugar de respeito na comunidade escolar.
Prevenção à violência: a violência presente nos domicílios e nas ruas em que vivem os estudantes adentra o ambiente da escola, onde precisa ser discutida e desconstruída por regras claras e acordadas coletivamente, por processos fortes de mediação e pelo firme exemplo dos adultos. Uma ação violenta não deve ser naturalizada nem gerar mais violência. É preciso entender quais são as suas causas e discutir suas consequências, por meio de ações preventivas e restaurativas que mantenham a harmonia do clima escolar. A escola tem condição de oferecer outros canais de expressão para seu estudantes, além de estimulá-los a serem mediadores de conflitos dentro e fora da escola.
Equilíbrio emocional: a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) propõe que a aprendizagem das áreas do conhecimento aconteça de forma articulada
estudantes para lidar com os desafios da vida pessoal, profissional e cidadã.
Entre essas competências, estão aquelas que podem ajudá-los a lidar com suas emoções e relações. A proposta busca reduzir os efeitos de diversas vulnerabilidades, entre elas os conflitos e os desequilíbrios emocionais, como depressão, ansiedade e automutilação.
4. O impacto da escola nas grandes definições e no projeto de vida dos jovens
A época da adolescência e juventude constitui-se em um período de gran- des definições na vida do ser humano, muitas das quais são profundamente impactadas por seu processo de desenvolvimento, pelas oportunidades que ele encontra e pelas escolhas que faz. E a escola é determinante para abrir essa janela de possibilidades.
Desenvolvimento: processos educativos significativos e instigantes mobili- zam a potência intelectual, física, cultural, social e emocional dos estudantes.
Já experiências escolares rasas ou pouco estimulantes têm a capacidade de atrofiar o potencial que trazem consigo, como acontece com os bonsais, cujas sementes poderiam gerar árvores frondosas, mas que se apequenam diante da pouca quantidade de água e nutrientes que recebem.
Oportunidades: escolas que expandem horizontes, opções e conexões tam- bém contribuem para multiplicar sonhos, perspectivas e esperança, função especialmente relevante na vida de jovens predestinados às impossibilidades, ao fracasso e ao desalento.
Escolhas: currículos que promovem o desenvolvimento integral e o projeto de vida dos estudantes fortalecem a sua capacidade de tomar decisões éticas, responsáveis, sustentáveis e solidárias, afastando-os de situações de risco.
Projeto de vida: a forma mais profunda de protagonismo que um ser humano pode exercer é ser agente do seu próprio destino. Orientar os jovens na construção do seu projeto de vida significa apoiá-los a descobrir suas aspi- rações e fazer escolhas assertivas nos âmbitos pessoal, social e profissional, a fim de que possam assumir a condição de autores da sua história. Fruto de um trabalho pedagógico intencional e estruturado, seu objetivo primordial é desenvolver a capacidade dos estudantes de dar sentido à sua existência, tomar decisões, planejar o futuro e agir no presente com autonomia e res- ponsabilidade. Mais do que ajudá-los a decidir o que querem ser quando crescer, a proposta é fazê-los refletir sobre quem desejam ser. Para tanto, é preciso ajudá-los a desenvolver suas motivações (para que sejam seres
desejantes, tenham garra, determinação, entusiasmo para correr atrás dos seus sonhos), seus propósitos (para que sonhos possam se traduzir em obje- tivos concretos, factíveis e relevantes) e seus planejamentos (para definirem os caminhos a trilhar para realizar suas metas). O projeto de vida pode ser abordado tanto de forma transversal a tudo que acontece na escola, quanto como componente curricular. Nesse caso, é preciso facilitar processos de autoconhecimento (em que reconheçam potências, desafios, interesses e aspirações), de ampliação de horizontes e repertórios (para que possam identificar oportunidades diversificadas) e de planejamento (com a elabo- ração do projeto propriamente dito, com metas, ações e percursos a serem percorridos). Com isso, espera-se ainda que os jovens possam lidar melhor com as ansiedades, as incertezas e a apatia que costumam impactá-los.
5. O que adolescentes e jovens pensam e esperam de suas escolas
A pesquisa Nossa Escola em (Re)Construção | Porvir (acesso em: 15 mar.
2021) ouviu mais de 260 mil jovens de todas as regiões do Brasil em 2019.
A maioria dos respondentes afirma que gosta de estudar em suas escolas, onde acha que aprende coisas úteis para sua vida. Mas há muitas coisas que os participantes gostariam que fosse diferente.
Infraestrutura: em termos de infraestrutura, os estudantes querem mais tecnologia, de preferência espalhada por toda escola, e não apenas no labo- ratório de informática. Por outro lado, valorizam as quadras esportivas e áreas verdes, numa clara demonstração de que buscam um equilíbrio entre o universo digital e o mundo físico. Querem participar de atividades educati- vas em outros espaços dentro e fora da escola e organizar a sala de aula de formas diferentes.
Currículo: a grande maioria dos estudantes ouvidos também querem fazer escolhas em relação ao que vão aprender. Além dos componentes curri- culares tradicionais, desejam saber mais sobre política, direitos humanos e cidadania, aprender a lidar melhor com suas emoções e sua qualidade de vida. Os temas relacionados à fase da adolescência e juventude também continuam despertando o seu interesse. Essas demandas estão diretamente relacionadas à concepção de educação integral proposta pela BNCC, que busca promover os desenvolvimentos intelectual, cultural, físico, social e emocional dos estudantes.
Práticas pedagógicas: adolescentes e jovens são enfáticos ao dizer que aprendem melhor com atividades práticas. Pedem mais projetos, seja aqueles
realizados em laboratórios, seja os que buscam melhorar a comunidade. Que- rem mais interatividade, mais protagonismo e mais autoria. Desejam colocar a mão na massa para entender melhor e saber aplicar os conhecimentos adquiridos. Demandam mais atividades de artes e campeonatos esportivos.
Gostam quando os professores diversificam suas aulas, mas também querem ter certeza de que estão aprendendo.
Clima escolar: o clima escolar é um tema cada vez mais sensível. Estudan- tes e profissionais da educação preocupam-se com o aumento nos níveis de tensão, agressividade e desrespeito que afetam os relacionamentos e a saúde emocional e física de todos os integrantes da comunidade escolar. A violência e intolerância do entorno transbordam para dentro da escola, que precisa realizar ações intencionais para cuidar melhor do seu ambiente. No centro dessa crise está a relação entre professores e jovens. Alguns docentes ainda acreditam que precisam manter uma certa distância dos estudantes ou que só serão respeitados se forem exigentes e durões. Não é isso o que dizem os discentes. A grande maioria afirma que aprende mais com pro- fessores que explicam bem o conteúdo, mas também sabem acolhê-los e estimulá-los a questionar e buscar conhecimentos.
Participação: a maciça maioria dos estudantes acham que devem partici- par das decisões da escola. Especialistas indicam que adolescentes e jovens respeitam mais as regras de convivência quando colaboram com a sua cons- trução. Diretores e professores atestam que uma gestão mais democrática reduz os conflitos e ajuda a melhorar o clima escolar. Alguns ainda apontam que os estudantes geralmente trazem ideias e soluções criativas para os pro- blemas da escola. No entanto, menos da metade dos adolescentes e jovens ouvidos dizem que há participação estudantil efetiva em suas escolas.
Singularidades: os estudantes se ressentem quando o professor dá o mesmo tipo de aula todos os dias, sem considerar que eles têm diferentes caracte- rísticas, interesses, níveis de dificuldade e ritmos de aprendizagem. Também se incomodam quando os educadores dão aula apenas para os jovens que consideram mais promissores ou engajados. Muitos ficam pelo caminho por não conseguirem acompanhar os demais, por se acharem incapazes ou por se sentirem ignorados por seus docentes. O olhar para cada um, o incentivo genuíno e a diversificação de estratégias pedagógicas contribuem para que adolescentes e jovens não desistam da escola e superem deficiências de aprendizagem. Além disso, garantem direitos iguais a todos e a cada um dos estudantes.
6. Como adolescentes e jovens aprendem melhor
A escola deixou de ser o único espaço de aprendizagem. Os jovens passaram a aprender utilizando tecnologias, redes sociais, games, entre outras possibi- lidades. Do ponto de vista da neurociência, há várias formas de estimular o cérebro do jovem a aprender melhor. No livro The Power of the Adolescent Brain (O Poder do Cérebro Adolescente, em tradução livre), o autor Thomas Armstrong aponta onde as escolas estão falhando com os jovens e indica práticas positivas que podem ajudar na aprendizagem.
Figura 1: Barreiras para a aprendizagem na adolescência (dúvida)
Não dá aos jovens a oportunidade de aprender com os próprios erros e fazer melhores escolas da próxima vez Política de disciplina tolerância zero
O que atrapalha o cérebro... Porque...
Ignora ou suprime a exuberância jovem do sistema límbico, inibindo possíveis contatos positivos entre o cérebro emocional e o córtex pré-frontal
Baixa temperatura emocional em sala de aula
Limita um meio potencialmente útil através do qual os pares podem aprender uns com os outros
Proibição do acesso a redes sociais na sala de aula
Cria estresse que pode prejudicar a saúde física e mental, num momento em que o adolescente/jovem está particularmente vulnerável ao impacto negativo do estresse
Mais dever de casa, exigências mais duras, dia de escola mais longo
Exacerba a privação de sono do jovem, que pode ter consequências cerebrais e contribuir para uma série de problemas de comportamento
Início das aulas muito cedo pela manhã
Envergonha estudantes num momento em que estão especialmente sensíveis ao que seus pais pensam sobre eles
Divulgação de notas em provas e testes
Impede o jovem de experimentar uma variedade de escolhas de trabalho e estilos de vida em potencial e de escolher disciplinas eletivas que sejam interessantes para eles
Restringir os estudantes a um programa de aulas preparatórias para a universidade
Faz com que os alunos tomem decisões cruciais para suas vidas num momento em que suas capacidades de tomada de decisão ainda estão em estágios iniciais de desenvolvimento
Exigir que os estudantes escolham uma área principal de estudo no 9º ano ou antes
Contribui para a obesidade juvenil e deixa de aproveitar o papel neuroplástico do cerebelo em ‘pensamentos de ordem superior’
Eliminação ou diminuição do recesso, educação física e atividades físicas em sala de aula
Reprime aspectos-chave do desenvolvimento do cérebro jovem, incluindo a necessidade de interação entre pares, a autoatualização, oportunidades de tomada de decisão, expressão criativa e atividades de aprendizado emocional
Fonte: Armstrong, 2016.
Currículo centrado no professor, baseado em aulas e orientado por livros didáticos
Figura 2: Aspectos que potencializam a aprendizagem na adolescência
Ajudam a tomar decisões menos arriscadas e mais sensatas na vida
Oportunidades de escolha
O que ajuda o cérebro... Porque...
Auxiliam a definir o seu senso de identidade ainda em desenvolvimento
Atividades de autoconhecimento
Exploram a preferência de estar entre pares Conexões para aprendizado por
pares
Integra o cérebro emocional (sistema límbico) com as áreas racionais do cérebro (córtex pré-frontal) Aprendizado afetivo
Explora a plasticidade do cerebelo por meio de aprendizado físico que ensina “habilidades de ordem superior”
Aprendizado pelo corpo
Aproveitam a capacidade emergente na adolescência e juventude para o pensamento operacional formal (“pensar sobre pensar”)
Estratégias metacognitivas
Canalizam as energias emocionais crescentes do jovem em produtos e processos artísticos conscientes e socialmente apropriados
Atividades de expressão artística
Dão oportunidade de praticar funções executivas em condições cognitivas “quentes”
Experiência do mundo real
Fonte: Armstrong, 2016.
7. Como promover a participação dos estudantes na escola
Adolescentes e jovens costumam nos surpreender positivamente quando abrimos espaço para que utilizem todo o seu potencial crítico e criativo para propor novas ideias, resolver problemas e realizar projetos dentro e fora da escola. Quando não criamos oportunidades para que manifestem toda a sua potência, perdemos a chance de desenvolver seus talentos e utilizá-los a favor das ações da própria escola. Também geramos frustrações que podem acabar provocando ruídos.
Engajar os estudantes passa necessariamente por acreditar, apoiar e valorizar as suas capacidades. Para fortalecer essa intenção, gestores e educadores podem promover processos de escuta, escolha, coautoria e corresponsabilização.
Escuta: as escolas raramente perguntam a opinião dos estudantes. Na maioria das vezes, seus descontentamentos e sugestões não ultrapassam as conversas de corredor. A falta de diálogo favorece a apatia e o conflito. O problema se acirra quando o nível de insatisfação aumenta e provoca reações mais radicais, como indisciplina, depredação, protestos e ocupações. Escutar os estudantes significa criar oportunidade para que compartilhem opiniões
sobre infraestrutura, atividades pedagógicas, mudanças no currículo e na organização escolar. Para engajar os adolescentes e jovens, essas consultas precisam ser realizadas com o suporte de dinâmicas, instrumentos e lin- guagens compreensíveis e estimulantes para eles. Também precisam ser inclusivas, para que capturem múltiplas vozes, mesmo as mais silenciosas e dissonantes. Nesse caso, a opinião dos estudantes mais comportados, extro- vertidos e eloquentes não deve se sobrepor à dos mais rebeldes, tímidos ou que apresentam dificuldade de se expressar. Todas as perspectivas precisam ser contempladas. Mas a escuta pode ter efeito reverso, se não gera retorno e consequências concretas.
Escolha: os estudantes são diferentes e aprendem de formas diversas. Às vezes, o que se encaixa bem para uns, não funciona para os demais. Outras vezes, o que os educadores propõem não faz sentido para eles. Quando têm a oportunidade de escolher entre duas ou mais opções, adolescentes e jovens encontram alternativas mais interessantes e se sentem mais valorizados e engajados no processo. Por outro lado, nem tudo pode ser escolhido pelos estudantes. Eles sabem disso e entendem que grande parte do que acon- tece na escola deve ser proposto por profissionais experientes. Ainda assim, desejam ter mais flexibilidade e autonomia, inclusive para se sentirem mais
identificados e motivados em relação à sua aprendizagem. Para escolher, os estudantes precisam desenvolver a sua capacidade de analisar, tomar decisão e assumir as consequências sobre as suas escolhas. Quando a escola oferece esse tipo de situação, também os prepara para serem mais assertivos em relação às demais escolhas que farão ao longo da vida.
Coautoria: os estudantes tendem a se engajar mais na sua aprendizagem quando têm espaço para criar. A autoria começa com pequenas produções em atividades educativas cotidianas, como desenhos, cartazes e dramati- zações. Ganha potência com criações mais robustas, como peças de teatro, composições musicais, vídeos, blogs, revistas em quadrinhos e animações.
E cresce ainda mais quando os estudantes se envolvem na elaboração de projetos, seja para desenvolver um produto, como um livro, jogo, robô ou foguete de garrafa PET, seja para resolver um problema concreto, como a melhoria de uma praça, a preservação do meio ambiente ou a redução de conflitos. Os estudantes também podem ajudar seus professores a criar práticas educativas, especialmente quando utilizam tecnologias e outros recursos pedagógicos mais contemporâneos.
Corresponsabilização: os estudantes também podem colaborar com discus-
gestão mais democrática já costumam abrir espaços interessantes para a participação efetiva dos estudantes via grêmios, assembleias, conselhos e instâncias afins. No entanto, boa parte das discussões em que eles se envol- vem ainda trata de temas mais laterais, como festas e eventos esportivos.
Experiências mais aprofundadas têm conseguido engajar os adolescentes e jovens na solução de questões realmente desafiadoras, como a indisciplina, a depredação física, as dificuldades de aprendizagem e o orçamento da escola. Além de trazerem novas perspectivas sobre esses problemas e suas causas, os estudantes conseguem apoiar os educadores a formular soluções mais efetivas e a implementá-las.
REFERÊNCIAS
FUNDO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A INFÂNCIA. 10 desafios do ensino médio no Brasil:
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