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A Ruanda

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De irmão para irmão. De mão em mão.

ARUANDA

ECA – Espaço Comunitário Aruanda – Grupo de Estudos Aruanda – Número 1

5a. Edição eletrônica – 2013 - Editora Aruanda – Assis/SP

UMBANDA

u m a h i s t ó r i a

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Palavras do editor

Irmão de fé, elaborei este caderno, o primeiro de uma coleção, a fim de esclarecer nossos amigos sobre os fundamentos da nossa religião, a umbanda, que assiste, com compreensão exemplar, os princípios que a norteiam, distorcidos pelos preconceitos e pela intolerância religiosa.

Mas informar o público não é meu único objetivo. Quero contribuir para a formação dos nossos irmãos através de textos que esclareçam suas dúvidas em relação à prática umbandista e as questões morais que a tarefa assistencial suscita.

Sei que ainda não posso satisfazer muitos dos questionamentos dos irmãos mais experientes na umbanda, nem corresponder aos rigores de estudiosos, muito menos as exigências dos intelectuais, mas posso estimular a reflexão. Como gostaria de saber que os temas desenvolvidos neste caderno suscitaram conversas, estudos, debates... que eles contribuiram para a comunhão entre assistidos e médiuns de terreiro... que cooperaram para a dignidade da nossa religião tão incompreendida, tão sofrida, tão querida, tão bela! Que os Orixás me abençoem neste intento, saravá!

Marcelo de Ossain

www.ecaruanda.blogspot.com [email protected] Rua José Rodrigues Leme, 295

Nova Assis – Assis – SP CEP: 19803-440

Este livro tem direitos protegidos por lei, de modo que não recomendamos explorar comercialmente o seu conteúdo seja na forma impressa, digital ou em eventos de qualquer natureza sem prévia autorização do autor. Somos partidários do “Dai de graça o que de graça recebestes”, entende?

< Somos gratos à Comunidade Linux, sem a qual este livro digital não seria possível

e à imensa Comunidade Anônima que acredita (e

luta) por conteúdo livre na internet >

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Grupo de estudos?

Para quê?

Como?

A Editora Aruanda Digital edita livros eletrônicos para grupos umbandistas. Eles são feitos com amor e são gratuitos, ou seja, estão em perfeita comunhão com os ideais da Umbanda. Se o terreiro que você frequenta ainda não tem um grupo de estudos, fale com o seu dirigente sobre a importância de promovê-lo junto à sua comunidade religiosa ou reuna, você mesmo, os seus amigos para estudar a nossa religião querida!

Agora, baseados em nossa experiência,

vamos dar algumas dicas para que suas reuniões

sejam bem orientadas e proveitosas.

Sabemos que há dirigentes de terreiro que se sentem inseguros quando percebem no grupo aquele médium estudioso, curioso, inquiridor, por outro lado, parte dos umbandistas acreditam, pura e simplemente, que ser médium é meramente cooperar na assistência espiritual. Esse panorama é comum na Umbanda e dessa ignorância e comodismo resulta o trabalho espiritual de baixa qualidade, a perda de adeptos, entre outras lamentáveis consequências.

Precisamos mudar isso, pois se é verdade que estamos nos serviços de caridade é porque já despertamos, uns mais outros menos, para a realidade do espírito e já admitimos que devemos doar algo de nós próprios em benefício do nosso próximo, assim, é que estamos umbandistas: por descobrimos que o amor é magia divina que dá vida a tudo.

Mas para compreendermos a relação do amor com a prática mediúnica na umbanda é preciso ampliar a consciência e isto só conseguimos através do estudo, da reflexão e da percepção da necessidade do outro. Temos que fazer isso por nós mesmos. É isto que justifica os grupos de estudo na Umbanda.

Um grupo de estudos representa uma oportunidade para a união fraterna entre trabalhadores do terreiro e frequentadores. É um vetor para o aperfeiçoamento moral do corpo mediúnico com ótimas repercussões nos trabalhos espirituais, ou seja, constitui-se num índice de qualidade do

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terreiro em sintonia com a Umbanda do terceiro milênio.

Quando realizado no terreiro é producente o encontro semanal em dia e horário fixo. Em nosso caso, optamos por nos reunirmos, ora na residência de um membro, ora na de outro, em dia e horário variável, previamente determinado pelos componentes do grupo.

Elabore uma programação. É preciso que todos saibam os temas que serão desenvolvidos, de modo a preparar a sua participação com antecedência, segundo a própria vocação, pois há sempre aquele que deseja contribuir para enriquecer a reunião, de acordo com sua vocação, por exemplo, declamando bonita poesia, cantando uma canção ou exibindo um bom filme. Em outras palavras, não permita que o dinamismo de um grupo de estudos se transforme numa

espécie de curso onde, aos demais, caiba apenas o direito à passividade.

Determine a duração das reuniões. O GEA optou por 120 minutos, sendo os 15 iniciais destinados à abertura da reunião, realizada através da leitura de um texto de cunho evangélico e uma oração e os 15 minutos finais destinados ao encerramento da reunião com uma prece coletiva. O restante do tempo o grupo utiliza para o estudo propriamente dito.

O ambiente da reunião deve ser limpo, silencioso e, de preferência, reservado. Em nosso caso, sempre evitamos ser surpreendidos por visitas durante o encontro, mas quando ela ocorre explicamos ao visitante o objetivo de nossa reunião e convidamo-lo a tomar parte nela, ou a aguardar em silêncio o seu término, ou retornar em outro momento.

Durante as reuniões de estudo os médiuns não devem dar passividade aos espíritos. Não

devemos transformar as reuniões de estudo em sessão mediúnica, por isso, o médium

com dificuldade de controlar a manifestação mediúnica por seu intermédio deve ser orientado a procurar assistência espiritual.

Finalmente, diremos que antes, durante e depois da reunião, devemos evitar as conversas inúteis, as participações longas demais ou indevidas. Se não sabe o que falar fique em silêncio. Contribua com o propósito da reunião que é o de ser sempre elevada, cooperando para o nosso crescimento espiritual em sintonia com os Guias de Aruanda. Todo o tempo ofereça o melhor de si, no gesto, no olhar, na palavra.

Isto é tudo. Que Olorum vos conduza, saravá! GEA – Grupo de Estudos Aruanda

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Uma mistura de raças

A identidade cultural do povo brasileiro é fruto de um

lento e longo processo em que três culturas distintas se

entrelaçaram. Desse “caldo cultural” surgiu uma forma

original de ver o mundo e de nele se expressar que

nos diferencia de outros povos.

Um dos aspectos distintivos da cultura brasileira é sua forte expressividade religiosa, afinal, somos a síntese de três raças marcadamente ligadas ao simbólico que, estreitando relações no tempo, permearam-se de características culturais uns dos outros.

O processo histórico que culminará com a anunciação da Umbanda pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, através do médium Zélio de Moraes, começa com o índio, elemento nativo, se amplia com a chegada do colonizador europeu e se enriquece com a presença do africano, desse modo, ao analisarmos a contribuição de cada grupo étnico à Umbanda notamos que a influência da cultura indígena foi fundamental; a do branco notável; e a da cultura negra, importante.

A Umbanda é uma religião genuinamente brasileira, por isso reflete as raízes religiosas dos povos que estão em nossa formação histórica e esse caráter multicultural lhe confere um dilatado sentimento de fraternidade que a faz reconhecida por acolher as pessoas mais pobres e discriminadas da sociedade.

Ao visitarmos um terreiro de Umbanda facilmente perceberemos

a diversidade cultural do povo brasileiro, esta característica

comunica uma religião fraterna, aberta à todos.

Na Umbanda, a influência africana será marcante, especialmente através da música e das danças (1); a europeia, através das imagens de santos de devoção católica (2); e, à medida que dirigirmos nosso olhar as regiões onde a presença de descendentes indígenas for mais expressiva, perceberemos a maior influência da Jurema (3). Já, nos centros urbanos, onde há maior concentração de espiritualistas e espíritas, perceberemos, não raro, um viés oriental ou kardecista (4).

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(1) A influência africana irradiou-se pelo Brasil e nos legou o Catimbó, no nordeste; o Xangô, em Pernambuco; o Candomblé, na Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo; e o Batuque, no Rio Grande do Sul. Essa rica cultura devemos aos negros Jejê, vindos do Daomé; aos Nagô (Iorubás), vindos da Nigéria; aos Malê, negros islamizados; aos Banto, escravos trazidos de Angola, do Congo e de Moçambique; e os Mina, termo que designa os grupos africanos Fanti e Ashanti.

(2) A utilização de imagens de devoção católica trouxe maior complexidade aos cultos africanos que na África eram bastante simples e rústicos.

(3) Jurema denomina um conjunto de práticas religiosas de raiz indígena.

(4) O viés oriental deve-se a teosofia de Helena Petrovna Blavatski e à tradição espiritual hinduísta trazida para a umbanda, principalmente, por W. W. da Mata e Silva. O viés kardecista deve-se à obra monumental da Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec, educador francês que orienta e inspira muitos médiuns e sacerdotes umbandistas.

Caro leitor, você percebeu que a Umbanda se erigiu como fenômeno da

cultura brasileira recebendo diversas influências. Essa abertura confere um

grande dinamismo ao movimento umbandista que então se realiza através

de suas muitas vertentes. Ao longo de nossos cadernos apresentarei outros

dados sobre a história da Umbanda, relatos do que li e ouvi ao longo de

minha dedicação e que contribuirão para formar a sua própria concepção sobre o que seja

a “umbanda”, mas vá além, há muitos livros interessantes escritos por estudiosos que

contam a essa história sob óticas diferentes.

Dentre os livros que recomendo àqueles que desejam conhecer melhor

a cultura brasileira estão os do antropólogo, já desencarnado, Darcy

Ribeiro. Dentre seus livros geniais, destaco o último: “O povo

brasileiro”, de 1995, que trata da formação do nosso povo, pois o tema

que desenvolvemos está em sintonia com ele. O livro do Darcy pode ser

encontrado facilmente nas livrarias, mas é possível baixá-lo na rede, ou

simplesmente assistir o documentário produzido pela TV Cultura sobre o

livro no youtube. Aproveite!

Tema 001 – Uma mistura de raças, in Heleno, Luiz Marcelo dos Santos – Umbanda, uma história – Coleção Cadernos Aruada – número 1 – 5a. Edição - Editora Aruanda Digital – Assis – SP – 2013

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Literatura Umbandista

Durante décadas os umbandistas valeram-se das boas obras

espiritualistas e espíritas em busca de orientação. Somente

agora dispõem de um acervo literário com bom número de

autores e obras prolíficas em discussões teóricas e orientações

práticas, que traduzem as experiências próprias dos

umbandistas.

Dentre os gêneros literários mais apreciados pelos umbandistas destacam-se os romances. Alguns escritores se consagraram neste gênero, tais como, Rubens Saraceni, por suas obras: “O guardião da meia-noite”, “O Cavaleiro da Estrela-guia”, “A lenda dos Orixás” e “A lenda do Sabre Dourado”; Silvio da Costa Mattos, autor de romances leves e informativos como "O Arraial dos Penitentes" e "A Trajetória de um Guardião Viking" e Nilton de Almeida Júnior com o seu “É preciso saber viver” e “Reflexos de um passado”, ambos da Editora Madras. Robson

Pinheiro, escritor e médium espírita, tornou-se muito apreciado pelos

umbandistas por seus romances que tratam das relações entre Espiritismo e Umbanda, tais como, "Aruanda", "Tambores de Angola", “Legião”, entre outros que merecem nossa atenção.

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Além de romances, há boas obras de caráter teórico, técnico e informativo. Algumas, publicadas nas décadas de 50 e 60, merecem ser citadas: de José Antônio Barbosa, o “Manual dos Chefes

de Terreiros e Médiuns de Umbanda”; de Antônio Alva, “Como Desmanchar Trabalhos de Quimbanda”, da Editora ECO; da Academia Eclética Espiritualista Universal, o “Evangelho de Umbanda”.

Na década de 70, veio à luz a “Cartilha da Umbanda”, do estimado Cândido Emanuel Félix, da Editora ECO e o seu “Catecismo de Umbanda”, pela Edições Carinto.

Na década de 80, João Edson Orphanake destinou obras de caráter informativo a leigos e foi muito bem recebido pelo público. Hoje Orphanake conta com mais de vinte obras publicadas, várias edições e re-edições. Dentre suas obras mais conhecidas estão “Conheça a Umbanda”, “A Umbanda às suas ordens”, “Preces para todos os momentos” e o “Almanaque Umbandista”. Na mesma década a dupla

Byron Tôrres de Freitas e Wladimir Cardoso de Freitas produziram

o excelente “Os Orixás e a Lei da Umbanda - Código Sacerdotal Umbandista e Afro-Brasileiro”, da Editora ECO. Além destes, Rivas Neto, discípulo do Mestre W. W. da Matta e Silva e reitor da FTU - Faculdade de Teologia de Umbanda, lança, em 1989, o seu “Umbanda, a Proto-Sintese Cósmica” pela Editora Pensamento.

Nos anos 90 Rivas publicou “Lições básicas de Umbanda”, pela Editora Ícone que – não posso deixar de dizer - ao longo da década, relançou as obras de Woodrom Wilson da Matta e Silva, que expõe princípios filosóficos e metafísicos no esforço de oferecer aos umbandistas uma base ritualística onde os elementos fossem mais ordenados, apropriados a uma mentalidade iniciática. Dentre as obras de Da Matta destaco “Umbanda e o poder da mediunidade”.

Em 2005 vem à luz "O livro básico dos ogãs", escrito por Sandro da Costa Mattos através da ECO com muito sucesso.

Em 2008, Manoel Lopes, que muito contribui para a dignificação e divulgação da umbanda, nos apresenta o seu "Umbanda, os sete reinos sagrados", um livro excelente por trazer uma nova e interessante visão sobre a umbanda.

Atualmente o espírito Ramatís que sempre nos ofertou livros profundos, dentre os quais destacamos “A vida além da sepultura”, “O Sublime Peregrino”, “Fisiologia da Alma”, “Magia de Redenção”, depois de uma prolongada ausência parece ter se voltado especificamente para o público umbandista e nos honrado com novas obras pela inspiração do médium Norberto

Peixoto.

Não poderia deixar de citar o trabalho de editores independentes. Luiz Marcelo dos Santos Heleno lançou o informativo “Coleção Cadernos Aruanda” no propósito de inspirar a formação de grupos de estudo nos terreiros por meio de temas de discussão pertencentes ao universo umbandista. Uma coleção digital disponível no site do ECA – Espaço Comunitário Aruanda e no 4Shared. Outro editor independente é Claudio Zeus, com o seu interessante “Umbanda sem medo” cujos volumes estão também disponíveis para download gratuito no 4Shared.

Além de livros, é possível encontrar pela internet textos científicos sobre a umbanda, dentre eles destaco, de Lísias Nogueira Negrão, “Entre a cruz e a encruzilhada”, Edusp, e de Diana Brown, “Uma história da Umbanda no Rio”. Livros que gostaria muito de ler, clássicos entre os umbandistas, são: “Primeiro Congresso do Espiritismo de

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Umbanda - Trabalhos apresentados ao 1º Congresso Brasileiro de Espiritismo de Umbanda, reunidos no Rio de Janeiro, de 19 a 26 de Outubro de 1941”, publicado pela

Federação Espírita de Umbanda; o famoso “Okê, Caboclo!”, do grande Benjamim Figueiredo, editora ECO; “Magias da Umbanda”, de Jota Alves de Oliveira, editora ECO; de Decelso, “Umbanda de Caboclos”, também da ECO; e de Diamantino Fernandes Trindade, o “Umbanda e

sua História”, da Ícone Editora.

Nos últimos anos o Brasil tem se fortalecido social e economicamente, assim

é que os umbandistas, tradicionalmente oriundos das camadas mais

desfavorecidas da população, passaram a ter maior acesso a educação e aos

livros. Aproveitando-se, cada vez mais editoras voltam-se a esse público, de

modo que, ano a ano, cresce o número de autores e obras dirigidas aos

umbandistas. Nesse contexto, é natural que alguns autores se consagrem perante o

público ao lado de outros que fracassam. O momento é de consolidação neste mercado,

portanto, nunca é demais alertar para a necessidade de separarmos o joio do trigo na

literatura umbandista, em outras palavras, nem sempre o autor mais famoso ou livro mais

vendido representa o melhor opção. É preciso estar atento: pensarmos as consequências

das informações que recebemos, combinado?

Tema 002 – A literatura umbandista, in Heleno, Luiz Marcelo dos Santos – Umbanda, uma história – Coleção Cadernos Aruada – número 1 – 5a. Edição - Editora Aruanda Digital – Assis – SP - 2013

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O momento histórico da

anunciação na Umbanda

A umbanda se propagou rapidamente por todo o país,

num momento ímpar da condição do negro no brasil.

O período da escravidão negra é bem conhecido por nós, brasileiros. É um capítulo lamentável da nossa história, ainda não superado, contudo, os negros, que sofreram privações morais e físicas de todo o tipo estão aí, resistiram, são vencedores. A contribuição do negro está por toda à parte: na política, na música, na culinária, na literatura...

Na história política brasileira destacamos o abolicionista José do Patrocínio e João Cândido, o “Mestre-sala dos Mares”, comandante da Revolta da Chibata. Nos esportes, Edson Arantes do Nascimento, o “Pelé” e João do Pulo. Nas artes, o Aleijadinho, com suas esculturas em madeira e pedra-sabão; Agnaldo Manoel dos Santos, com suas esculturas de Orixás; José da Paixão Silva, com suas gravuras que retratam a vida dura dos subúrbios; e o artista plástico Emanoel Araújo, ex-diretor da Pinacoteca de São Paulo. Na literatura, Cruz e Souza, o mais expressivo poeta simbolista e os mestiços Machado de Assis e Lima Barreto. Na música, o compositor e instrumentista Pixinguinha, um dos maiores flautistas de todos os tempos, responsável pela popularização de instrumentos musicais afros no Brasil e Antônio Carlos Gomes, criador da ópera “O Guarani”, baseada no romance homônimo de José de Alencar. Na geografia, o professor Milton Santos, reconhecido internacionalmente pelo seu caráter humanitário e seu trabalho inovador. Na medicina, o médico Juliano Moreira, um dos maiores psiquiatras brasileiros, famoso por seu empenho na aprovação de leis de assistência a doentes mentais. Na engenharia, André Pinto Rebouças, por sua participação na construção do porto da cidade do Rio de Janeiro e das principais docas dos Estados de Pernambuco, Maranhão, Paraíba e Bahia. Seu irmão, Antônio Pereira Rebouças, também se destaca como construtor da estrada de ferro Paranaguá–Curitiba.

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As mulheres negras também se destacam. Dandara, como líder do Quilombo dos Palmares ao lado de Zumbi. Na política, Theodosina Rosário Ribeiro, a primeira deputada negra da Assembleia Legislativa de São Paulo, em luta pelos interesses da comunidade. Nas artes, Ruth de Souza, fundadora do Teatro Experimental do Negro e Zezé Motta, consagrada no cinema no papel de Chica da Silva, incansável na colocação de atores negros no mercado artístico e publicitário. Na literatura, Carolina Maria de Jesus, conhecida internacionalmente com o livro “Quarto de Despejo”. Na música, a mestiça Chiquinha Gonzaga e Tia Ciata, em cuja casa se reuniram os maiores músicos cariocas dos primórdios do século XX. São tantas as personalidades negras na história, que calcar nos estereótipos da mulata e do jogador de futebol a contribuição do negro para a vida brasileira é, sem dúvida, uma opção marcada pela forma mais vil de preconceito.

Dentro da história do Brasil, a das casas de Candomblé é um capítulo à parte, que merece ser conhecido, pois foram verdadeiros centros de resistência da cultura negra, onde muitos homens e mulheres se destacaram em luta pelo direito à expressão religiosa e cultural, e se uniram contra perseguições sociais, políticas e policiais em nome da religião, de modo que estranhamos quando falam da relevância do negro na cultura brasileira sem referir a importância das casas de Candomblé, afinal, sem elas, o legado africano não chegaria com tamanha expressão aos nossos dias.

A Umbanda, particularmente, deve muito ao negro brasileiro, que com seu tempero, ginga e musicalidade tornou-a ainda mais rica e bela, por isso, vamos escrever um pouco sobre a condição do negro na história aproveitando para marcar o momento em que se dá a anunciação da Umbanda, um momento difícil para as religiões de origem africana.

Vamos em frente?

Com o fim da escravatura muitos negros continuaram nas fazendas servindo aos seus senhores, outros migraram para as cidades, sobrevivendo de pequenos “bicos” ou quando a sorte lhes

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faltava, de pequenos furtos (1) e foi assim que a figura do negro foi se tornando mais e mais comum nas cidades, que cresciam.

(1) Daí originou-se o pré-conceito, que perdura até nossos dias, de que “preto tem inclinação para vadiagem, para a malandragem”.

Décadas mais tarde, com a decadência do modelo econômico baseado na agricultura, paulatinamente começaram a surgir no entorno dos centros urbanos as indústrias e com elas, os operários europeus, “importados”, devido a experiência no trabalho com máquinas.

A indústria desprezou o contingente negro e a expansão imobiliária os expulsou dos cortiços da cidade em direção à periferia. E foi ali, nos fundões das cidades, onde acabariam se fixando e edificando os barracões de Candomblé, embriões dessas imensas casas religiosas que hoje vemos nos antigos bairros das cidades metropolitanas.

Essas casas se constituíram verdadeiros centros de resistência cultural; novas senzalas onde os afro-descendentes se encontravam para rezar, festejar, dividir o escasso pão e as dores, resistindo aos mecanismos da sociedade branca e cristã que marginalizava os negros e mestiços, mesmo após a abolição da escravatura.

Adaptando-se às novas condições sociais e culturais, os afro-descendentes foram constituindo um candomblé mais aberto à participação da sociedade, oferecendo a todos sua rica e instigante interpretação do mundo.

É do Candomblé a ideia de que podemos e devemos ser nós mesmos; de que não devemos esconder ou reprimir nossos sentimentos e atitudes, nem em relação a nós mesmos, nem em relação aos outros, pois aceitar o que somos ajuda-nos a viver melhor. Em sua prática, enfatiza a noção de que a competição na sociedade é, embora dissimulada, intensa e que o conhecimento religioso e mágico nos ajuda a resolver os problemas cotidianos.

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A partir dessa lógica, o Candomblé passa a se configurar atrativa agência de serviços mágicos para a sociedade, oferecendo-lhe possibilidade de solução para seus desafios sem maiores envolvimentos com a religião. A classe média, o operário, o homem comum das cidades vai, então, à periferia, atrás do jogo de búzios e dos ebós do Candomblé, que rapidamente se popularizam por todo o Brasil, sobremaneira pelos Estados do Rio de Janeiro e Bahia e a Igreja Católica, religião oficial, dominante, incomodada com essa expansão, sopra as chamas dos preconceitos, aviva o calor das críticas no seio da sociedade brasileira que passa a enxergar o Candomblé como “culto demoníaco” e seus devotos, como se já não bastasse a condição social de ser negro, como pessoas que devessem ser evitadas, temidas, perseguidas.

É nesse contexto de desprestígio crescente do Candomblé que iria surgir a Umbanda, uma religião fundada e dirigida por brancos, exprimindo-se numa forma de culto mais ao gosto cristão. A Umbanda, “a religião brasileira por excelência”, se propagaria rapidamente por todo o país, juntando ao catolicismo europeu a tradição dos Orixás africanos e os símbolos, espíritos e rituais de referência indígena, remetendo-nos às três raças formadoras de nossa identidade, alcançando significativa popularidade.

O Candomblé só conseguiria maior legitimidade social graças a uma nova estética formulada pela classe média intelectualizada do Rio de Janeiro e de São Paulo, que nas décadas de 60 e 70 adotou e valorizou aspectos afros da nossa cultura. Hoje, há um retorno deliberado à tradição africana; estamos reaprendendo a língua, os ritos e mitos que foram deturpados e perdidos na adversidade através do Candomblé e da Umbanda. Há um esforço em se recuperar um patrimônio, cuja presença no Brasil é motivo de orgulho, sabedoria e reconhecimento público. É inegável que há uma volta à África não para ser africano, nem para ser negro, mas para ser brasileiro.

Estou certo de que o leitor percebeu, um tanto mais, a contribuição do negro

para a sociedade brasileira, bem como, a importância das casas de

Candomblé como guardiãs do patrimônio cultural africano. Queríamos,

também, que o leitor deduzisse o momento de absoluto menosprezo pela

cultura e capacidade do negro, preterido pelo europeu na nova organização

do trabalho que a indústria nascente empreendia e, de certo modo, pela própria

Umbanda, uma religião fundada por brancos que só, pouco a pouco, iria absorver a

influência africana, graças a doce influência de Pai Antônio e dos argumentos do

estudioso Tancredo da Silva Pinto.

Uma boa dica para ampliar os seus conhecimentos sobre o contexto histórico em que as

casas de Candomblé se desenvolveram é explorar na rede a fundação dos primeiros ylês

do Brasil, hoje casas imensas, muito conceituadas, quer pelo imenso legado cultural que

souberam preservar, quer pelo trabalho espiritual e social que promovem.

Tema 003 – O momento histórico da anunciação da Umbanda, in Heleno, Luiz Marcelo dos Santos – Umbanda, uma história – Coleção Cadernos Aruada – número 1 – 5a. Edição - Editora Aruanda Digital – Assis – SP – 2013

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J O R G E, A M A D O!

JORGE AMADO conviveu com ialorixás, babalaôs, com a

gente humilde e trabalhadora da Bahia e os viu espancados e presos.

Testemunhou a violência com que eram atacadas todas as formas

de expressão cultural vinda da África. A elite branca, a igreja católica

e o poder público pareciam ter constituído uma cruzada de extermínio

às tradições, costumes e crenças afro-brasileiras no Brasil.

Em 1946, durante viagem ao Ceará, testemunhou um templo protestante ser

saqueado por um grupo de fanáticos católicos, tal como, nos dias de hoje,

fazem alguns evangélicos em relação à Umbanda. Foi a gota d’água!

Indignado, decidiu escrever aquela que ficaria conhecida como a “Emenda

da Liberdade Religiosa”. O primeiro a assiná-la foi Gilberto Freire, autor do

“Casa Grande e Senzala”. Depois dele a emenda obteve mais de oitenta

assinaturas, graças a astúcia e perseverança de Jorge.

Com a aprovação da emenda, a liberdade religiosa tornara-se lei no Brasil,

integrada a Constituição Democrática de 1946. Não seria mais possível aos

intolerantes da elite e fanáticos religiosos perseguirem protestantes, nem

manterem à margem da legalidade os centros espíritas, nem ao poder

público violentar os templos afro-brasileiros e prender seus adeptos.

Foi Jorge Amado, filho dileto do Candomblé, amante dos ilês

da Bahia, que deu voz ao sentimento de liberdade fraterna

que pulsa nas religiões afro-brasileiras:

Liberdade! Liberdade! Liberdade!... para todos!

Tema 004 – Jorge, Amado!, in Heleno, Luiz Marcelo dos Santos – Umbanda, uma história Coleção Cadernos Aruada – número 1 – 5a. Edição - Editora Aruanda Digital – Assis – SP – 2013

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Um certo Zélio

A umbanda surgiu num momento histórico

delicado para o candomblé através de um jovem

e inexperiente médium carioca, considerado por muitos

estudiosos e personalidades umbandistas,

o fundador da Umbanda. Vamos conhecer

um pouco da sua história?

Zélio Fernandino de Moraes nasceu de uma família tradicional do distrito de Neves, em São Gonçalo, no Estado do Rio de Janeiro, no dia 10 de abril de 1891. Em fins de 1908, então com dezessete anos de idade, quando se preparava para ingressar na Marinha do Brasil, foi acometido por uma inexplicável paralisia dos membros, que a medicina não foi capaz de diagnosticar. Seu padecimento durou algum tempo e era entrecortado por alguns surtos estranhos em que sua voz e trejeitos de jovem, dava lugar aos de um idoso.

Um dia, Zélio ergueu-se do leito e num tom de voz que não lhe era próprio, declarou aos que o velavam, que no dia seguinte estaria curado. Momentos depois, passado o que consideraram um delírio, negaria ter feito tal afirmação, realmente não se recordava de tê-la feito... mas na manhã seguinte, Zélio, percebendo-se melhor, tentou erguer-se do leito e, lentamente e sem dificuldades, pôs-se em pé voltando a caminhar com naturalidade. Todos ficaram surpresos com a sua súbita melhora e comentavam o dia anterior, quando “alguém”, por intermédio de Zélio, havia falado.

Passada a euforia, os pais de Zélio perceberam-se incomodados: qual seria a razão de sua súbita recuperação, misteriosamente anunciada na véspera? Com essa indagação, seus pais decidiram procurar um dos médicos, membro da família, que acompanhara o caso. Este, surpreso, não encontrou uma explicação para o ocorrido e uma vez que a ciência não explicava os fatos, dirigiram-se ao padre que os assistira naqueles dias angustiosos. O sacerdote, por sua vez, revelou-se incapaz de esclarecer o fenômeno de modo satisfatório.

Os dias se passavam tranquilos com um Zélio animado, entregue às atividades quotidianas e, desse modo, as apreensões de seus pais se esvaíam, até que numa noite calma de reunião familiar, Zélio, em geral comunicativo, adotou uma postura profundamente reflexiva, então, tal como na noite que precedeu sua cura, alterou o tom de voz e declarou que era o espírito de Frei Gabriel de Malagrida quem lhes falava, um sacerdote católico que houvera padecido os tormentos da fogueira inquisitorial. Uma longa conversa foi encetada. O Espírito de Frei Malagrida contou-lhes que havia reencarnado várias vezes e que uma de suas mais significativas experiências na Terra, deu-se na roupagem física de um índio brasileiro, de modo que lhe agradaria ser identificado, daquele momento em diante, como “Caboclo das Sete Encruzilhadas”. Ao final, prometeu que viria outras vezes para trazer os fundamentos de uma nova religião, cuja “igreja” seria nomeada “Nossa Senhora da Piedade”, pois “com o mesmo amor com que Maria acolheu Jesus, esta nova religião acolherá os filhos seus”.

Surpresos diante daquele fenômeno, comentaram o ocorrido com um vizinho, espírita kardecista, que recomendou aos pais de Zélio (1) uma visita à Federação Espírita do Estado do Rio de Janeiro, em busca de esclarecimento. Dias depois, na época, na pequena sede da FEERJ sediada em Niterói, foram recebidos pelo seu presidente, Sr. José de Souza, que convidou Zélio e seu pai a

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participarem da sessão mediúnica que ali iria ocorrer.

(1) Segundo Dona Zilméia de Moraes o pai de Zélio foi leitor de livros espíritas e via a Doutrina Espírita com simpatia.

À certa altura dos trabalhos mediúnicos, manifestou-se o Caboclo das 7 Encruzilhadas que, pela primeira vez, anunciou o advento da Umbanda, “uma manifestação do espírito para a caridade”, uma religião onde os espíritos que um dia envergaram na Terra a roupagem de indígenas e preto-velhos “teriam voz e vez” e falariam aos humildes e sofredores (2).

(2) Para nós, é significativa a anunciação da Umbanda em meio espírita, pois embora o Espiritismo e a Umbanda tenham razões diferentes na Terra, no astral se complementam no ideal de um mundo onde o amor seja a ordem. É o que supomos através da nossa experiência mediúnica e, principalmente, de inúmeras obras literárias espíritas e umbandistas que nos permitiram avaliar o quanto há de

cooperação entre os espíritos espíritas e umbandistas.

Naquela sessão, Caboclo das 7 Encruzilhadas, anunciou que no dia seguinte “estarei na casa de meu aparelho, para dar início a um culto em que esses irmãos (3) poderão transmitir suas mensagens e cumprir a missão espiritual que lhes foi confiada. Será uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve haver entre todos, encarnados e desencarnados, pois Deus, em Sua infinita bondade, estabeleceu na morte o grande nivelador universal. rico ou pobre, poderoso ou humilde, todos se tornam iguais no desenlace, mas os preconceituosos, não contentes em estabelecer diferenças entre os vivos, procuram levar essas diferenças para além da morte.”

(3) Por “em que esses irmãos” entenda aqueles espíritos humildes, gente do povo, que não tinham voz, nem vez nos centros espíritas cardecistas, nem se locupletavam com as práticas mediúnicas degeneradas de feiticeiros, macumbas e terreiros onde o verdadeiro Candomblé havia sido deturpado.

No dia seguinte, na residência dos Moraes, à rua Floriano Peixoto, número 30, por volta das 20h, parentes, amigos e vizinhos da família Moraes aguardam os acontecimentos anunciados na véspera. No lado de fora da casa, pouco a pouco, forma-se uma aglomeração de curiosos.

Zélio vinha de uma família católica. Em sua casa, onde havia um pequeno altar, teve início as primeiras sessões mediúnicas com os mensageiros de Aruanda. Ali, além da manifestação do Caboclo das 7 Encruzilhadas, manifestou-se Pai Antônio, espírito que um dia experimentara a condição de escravo em terras brasileiras e que traria a Zélio o conhecimento dos Orixás associados aos santos católicos.

Na primeira engira de Umbanda do mundo, o Caboclo das 7 Encruzilhadas, anuncia que a religião que estava nascendo trabalharia com amor fraterno em benefício dos irmãos encarnados e que o culto umbandista teria por base o Evangelho de Jesus e estabeleceu normas em que ocorreriam as sessões: os médiuns estariam uniformizados de branco, o atendimento seria diário e gratuito. A casa que ora se fundava foi por ele denominada Tenda Espírita (4) “Nossa Senhora da Piedade”, pois, disse ele, “assim como Maria acolheu o filho nos braços, ali também seriam acolhidos todos os que necessitassem de ajuda e conforto.

(4) O termo “Espírita” foi empregado nas tendas porque na época ainda não se podia obter o registro como “Umbanda”.

Dito isto, respondeu a perguntas de alguns sacerdotes católicos, amigos da família, em latim e em alemão. Finalmente passou à cura de um paralítico e a prestar ajuda fraterna a outras pessoas presentes.

Naquele mesma noite incorporou o humilíssimo Pai Antônio, que negou-se a sentar numa cadeira em volta da mesa onde ocorria o culto. Preferia ficar de lado: “Nêgo num senta não, meu sinhô. Nêgo fica no toco que é lugar de nêgo”, dizia ele bem humorado. Lhe deram uma banqueta para sentar e ao lhe perguntarem se ele queria mais alguma coisa, o bondoso cacurucaia respondeu: “Minha caximba. Nego qué o pito que deixou no toco. Manda mureque buscá.” A caximba foi o

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primeiro elemento de trabalho na recém fundada Umbanda. Foi, também, Pai Antônio, a primeira entidade a solicitar uma guia, até hoje usada pelos membros da Tenda, carinhosamente chamada de “Guia de Pai Antônio”.

O evento na casa da família Moraes repercutiu.

No dia seguinte, uma verdadeira romaria formou-se na rua Floriano Peixoto: gente do povo, enfermos, cegos, coxos. Naquele dia, os que estiveram presentes na sessão, viram alguns se manifestarem mediunicamente e atenderem ao público sob a segura orientação do Caboclo das 7 Encruzilhadas.

Desde então, os espíritos que formam a egrégora da Umbanda tem se mostrado incansáveis servidores do bem. No impulso irresistível de evolução, orientam, curam, protegem os irmãos de fé e prestam valorosos serviços às entidades espirituais abnegadas, tanto no plano físico como nos recantos do astral onde estagiam as almas mais necessitadas da Misericórdia Divina.

Atendendo aos desígnios dos planos superiores da vida, no dia 15 de novembro de 1908, foi fundada, conforme registro em cartório, a primeira casa de Umbanda do mundo, a Tenda Espírita “Nossa Senhora da Piedade” (Imagem ao lado) (5), dirigida pelo médium Zélio Fernandino de Moraes.

(5) “Tenda” designa toda a casa de Umbanda estabelecida no pavimento superior de um sobrado ou prédio ou nos altos de uma região, por sua vez, “Terreiro” designa a casa de Umbanda estabelecida em casa térrea ou baixos de uma região, várzea.

A Tenda de Zélio desenvolveu-se muito bem. Foram inúmeras as consultas e curas produzidas ali. Eram tantos os fiéis, que em apenas dez anos, seguindo a orientação dos dirigentes espirituais da casa, Zélio fundou outras sete tendas, matrizes de tantas outras, que se denominariam “tenda”, “centro”, “casa” ou “terreiro” de Umbanda, nas quais os fundamentos da primeira tenda do Brasil estão presentes.

As primeiras sete tendas fundadas por Zélio foram: Tenda Espírita “Nossa Senhora da Guia”, Tenda Espírita “Nossa Senhora da Conceição”, Tenda Espírita “Santa Bárbara”, Tenda Espírita “São Pedro”, Tenda Espírita “Oxalá”, Tenda Espírita “São Jorge”, Tenda Espírita “São Gerônimo”.

Aos 55 anos, Zélio passou a direção da Tenda Espírita “Nossa Senhora da Piedade” para as suas filhas, Zélia de Moraes Lacerda e Zilméia de Moraes Cunha (já falecidas) e fundou a “Cabana de Pai Antônio”, em Boca do Mato, distrito de Cachoeiras de Macacu, no Estado do Rio de Janeiro que passou a dirigir com auxílio de sua esposa, Isabel, médium que incorporava Caboclo Roxo, no atendimento fraterno, particularmente, aos portadores de doenças psíquicas.

Zélio nunca fez de sua religião um meio para ganhar. Sempre trabalhou para garantir o seu sustento e o de seus familiares. Os parentes e amigos que conviveram com Zélio, garantem ele não aceitava ajuda monetária de ninguém, cumprindo fielmente a orientação de seu guia-chefe e, saiba o leitor, não foram poucos os Ministros de Estado, militares de alta patente e industriais que lhe quiseram retribuir às curas e bençãos recebidas preenchendo cheques vultosos, sob protestos de Zélio que os recusava. Antes, era visto ajudando aos outros, hospedando viajantes em busca de auxílio espiritual em sua própria casa, em certos períodos de sua vida, transformava sua casa num verdadeiro albergue para necessitados, além de ajudar financeiramente os templos que o Caboclo das 7 Encruzilhadas fundou.

Zélio faleceu serenamente, na cidade onde nasceu, aos 84 anos de idade enquanto dormia, em 3 de outubro de 1975. Sua vida constituiu um exemplo de fé e caridade para com os sofredores. Um exemplo que precisa estar na memória e no coração dos irmãos umbandistas.

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Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a Umbanda congrega cerca de 432.001 adeptos no Brasil (Censo 2000). Por outro lado, pesquisas que utilizam metodologias mais adequadas sempre apontam números bem superiores, que ainda assim, a mantêm como religião minoritária na sociedade brasileira. E são inúmeras as razões apontadas pelos pesquisadores para tentar esclarecer esta condição minoritária. São razões históricas, culturais, sociais, entre outras. A nossa opinião concorda com aqueles que atribuem às perseguições religiosas por parte daqueles que pretendem alcançar o reino dos céus através da violência, como obstáculo para a popularidade da Umbanda, mas cremos que a maior razão está mesmo em sua própria estrutura, uma vez que a Umbanda é uma religião de caráter familiar e fechada, com uma dinâmica diferente das religiões de “salvação” cuja natureza as predispõem a concorrer no mercado religioso. Mas apesar do sentimento anti-fraterno, as pesquisas e estudos demonstram o grande interesse da sociedade pela Umbanda e são muito valiosos para nossa análise, já que só recentemente a Umbanda ultrapassou um século de existência, constituindo uma religião em formação, e como todo sistema de crenças, é uma obra humana das quais os espíritos participam, com virtudes e defeitos a superar. Seja como for, a Umbanda está aí: valoriza a prática da fé, do amor e da caridade bem compreendidas para que nos sintamos felizes aqui e agora, com o que somos e temos e não amanhã, quando nossa situação material mudar, ou numa próxima existência, ou num outro mundo. É assim que a Umbanda bem praticada se apresenta à sociedade e ainda que permaneça pequenina em números, são grandes os seus propósitos espirituais.

Tema 005 – Um certo Zélio, in Heleno, Luiz Marcelo dos Santos – Umbanda, uma história – Coleção Cadernos Aruada – número 1 – 5a. Edição - Editora Aruanda Digital – Assis – SP – 2013

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ARUANDA

ENTREVISTA

Umbanda antes de Zélio?

O assunto é polêmico. Alguns autores afirmam que antes

da anunciação da Umbanda pelo Caboclo das 7 Encruzilhadas,

ela já existia com raízes no Catimbó, no Candomblé de Caboclos

e nas Macumbas (1) Cariocas, constituindo as diversas vertentes

que orientam muitas casas por todo o Brasil. Para esses autores,

Zélio de Moraes não pode ser considerado o fundador da

Umbanda, senão como um símbolo. Será?

O nosso entrevistado é Marcelo de Ossain, editor da Coleção de Cadernos Aruanda, responsável pelo www.ecaruanda.blogspot.com

e dirigente do ECA – Espaço Comunitário Aruanda.

ARUANDA Você concorda com os autores que afirmam a existência da umbanda antes de Zélio de Moraes?

MARCELO Não concordo. O que acontece é que a forte expressividade que a cultura negra assumiu em muitos terreiros parece dar razão a esses autores, mas a vivência na Umbanda e o estudo nos previne desse engano.

ARUANDA Então esses autores estão mal informados?

MARCELO Sim, estão mal informados, pois não são poucas as fontes históricas, documentais, que demonstram que em seus primórdios a Umbanda foi uma religião fundada e dirigida por brancos, cujo discurso e prática opunha-se veementemente ao comércio com a espiritualidade, comum às religiões de origem africana. Convém

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lembrar a estas pessoas que o primeiro terreiro de Umbanda foi registrado em cartório, por Zélio de Moraes, por determinação do Caboclo das Sete Encruzilhadas. ARUANDA Qual a origem dessa polêmica?

MARCELO Eu acredito que a confusão sobre a origem da Umbanda começa no momento em que ela se torna reconhecida pelo Estado. Nessa época, não foram poucos os terreiros de macumba, Catimbó e Candomblé que passaram a designar-se, por empréstimo, como “Umbanda”. Desse modo, os profitentes dessas religiões intentavam se precaver da repressão manifestada pelos órgãos de segurança pública à serviço do governo Vargas.

ARUANDA Houve uma “onda” de legalização das casas de macumba, Catimbó e Candomblé de Caboclo como “Umbanda”?

MARCELO Exato e foi nesse processo que alguns terreiros passaram a absorver gradativamente, uns mais, outros menos, os princípios éticos que norteavam a Umbanda e a Umbanda passou, cada vez mais, a assumir a rica influência africana, discretamente manifestada em seu seio, desde sua anunciação, por Pai Antônio, entidade que na Terra fora escravo e secundava os trabalhos na Tenda “Nossa Senhora da Piedade”, ou seja, a influência africana na Umbanda se deu por via espiritual.

ARUANDA Por via espiritual?

MARCELO Isto mesmo, por via espiritual. O advento da Umbanda foi planejado há milênios pela Espiritualidade Maior para ser branca, negra, indígena, uma religião aberta a todos, conforme demonstram os excelentes trabalhos de W. W. da Matta e Silva, mas alguns umbandistas, se pudessem, apagariam o fato de ela ter sido fundada e dirigida por brancos, esquecendo-se de que sem eles a Umbanda seria hoje mera forma “light” de Candomblé, como são alguns terreiros, ditos de Umbanda, por aí. É preciso preservar a história daqueles que negam e distorcem os fatos para favorecerem o seu partidarismo.

(1) Popularmente, a palavra “macumba” é utilizada de forma pejorativa para designar genericamente os cultos sincréticos afro-brasileiros derivados de práticas religiosas e divindades africanas trazidas pelos negros ao Brasil.

Tema 006 – Umbanda antes de Zélio?, in Heleno, Luiz Marcelo dos Santos – Umbanda, uma história – Coleção Cadernos Aruada – número 1 – 5a. Edição - Editora Aruanda Digital – Assis – SP - 2013

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ESPECIAL 

Bate-papo com

Zilméia de Moraes

A filha de Zélio de Moraes, fundador da Umbanda, fala

de seu pai, de discriminação e de como vê o movimento

umbandista depois de um século de sua anunciação

pelo Caboclo das 7 Encruzilhadas.

Tema 007 – Bate-papo com Zilméia de Moraes, in Heleno, Luiz Marcelo dos Santos – Umbanda, uma história – Coleção Cadernos Aruada – número 1 – 5a. Edição -

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UMBANDA

e a luta por seu

reconhecimento

Contar a história da Umbanda não é apenas falar

de Zélio de Moraes e das elevadas entidades que o orientaram.

Para narrar esta história, precisaríamos falar de muitos homens

e espíritos que se constituíram exemplos edificantes de amor ao próximo e

de luta pela dignidade do culto umbandista. Tal narrativa não caberia nas

páginas deste caderno, desse modo, nosso objetivo será meramente

introduzi-lo neste tema apaixonante.

Em um momento histórico-cultural difícil para a Umbanda, Zélio de Moraes uniu-se a incansáveis guerreiros dos primeiros anos da nossa querida religião para tirá-la da marginalidade a que esteve relegada no seio da sociedade brasileira em seus primórdios até meados do século passado.

Zélio Fernandino de Moraes, Benjamim Figueiredo, Domingos dos Santos, João Carneiro de Almeida, José Álvares Pessoa, Manoel Nogueira Aranha, João de Freitas, Cavalcanti Bandeira, Cícero Bernardino de Melo, Narciso Cavalcanti, Félix Nascente Pinto, Jerônimo de Souza, Henrique Landi Júnior, W. W. da Matta e Silva, Tancredo da Silva Pinto, Átilla Nunes (pai), Omolubá, Flavio da Guiné, dentre outros, são alguns nomes que destacamos no movimento pela evolução do culto e pelo reconhecimento das casas umbandistas junto às autoridades de seu tempo.

Esses primeiros umbandistas se mostraram íntegros e detentores de ideais que em muito superaram os seus dias. Eles engrandeceram a Umbanda com sua fé e determinação pelo bem, trazendo até os dias de hoje ecos de uma bela mensagem que nos permite entender a missão da Umbanda na Terra.

Considerações sobre os textos de Sergio Navarro

Querido leitor, a partir destas linhas você tomará contato com textos de autoria de Sérgio Navarro Teixeira, sacerdote da Fraternidade Umbandista “Luz de Aruanda”, formado no Templo Espírita

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Mirim (RJ).

Navarro irá nos contar a história da Umbanda através da contribuição do grande Mestre Benjamim Figueiredo, a quem conheceu. Estenda a todas as personalidades anteriormente citadas neste tópico, o mesmo espírito e ideal que dignificou a vida e a obra de Benjamim. Eles estiveram unidos na mesma missão de fazer a Umbanda digna e reconhecida sobre os alicerces da Fé, do Amor e da Caridade, erguidos por seus guias, segundo os desígnios da Divina Providência.

A anunciação da Umbanda

Texto de Sérgio Navarro Teixeira Fraternidade Umbandista “Luz de Aruanda”

Barra Mansa – RJ

Cerca de 20 anos após a Proclamação da República a sociedade brasileira vivia profundas transformações, ainda em busca de sua identidade, de sua “brasilidade”. No mundo das artes, por exemplo, um grupo de artistas revolucionava a estética e a linguagem na “Semana de Arte Moderna” de 1922. Esse sentimento nacionalista viria também a se manifestar na política, com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder, já na década de 1930. Era o fim da hegemonia da elite agrária e a implantação do Estado Novo.

A característica mestiça da população brasileira passava a ser valorizada como forma de união da nação. Por essa visão, os vários grupos raciais ganhavam igual importância na formação da civilização brasileira. Esta ideologia ajudou na crença de que o preconceito racial não existia no Brasil. Gilberto Freyre, em seu livro "Casa Grande e Senzala" (1933), foi um dos intelectuais que deram suporte a tal tese. Até o samba, manifestação cultural oriunda da cultura negra brasileira, era redescoberto e reformatado, levado a um universo mais amplo: brilhava a estrela de Carmem Miranda.

É dentro deste contexto nacional, um fato marcante para aqueles que se propõem a estudar as origens da Umbanda, veio a consolidar-se como o marco inicial da religião: a famosa manifestação do Caboclo das 7 Encruzilhadas (imagem ao lado), em 1908, através do seu médium, Zélio Fernandino de Moraes (1891-1975), na cidade de Niterói, então capital do antigo estado do Rio de Janeiro, onde diante de uma respeitada e organizada Federação Espírita Brasileira, Caboclo das 7 Encruzilhadas pôde deixar registrada a definição do novo movimento religioso: "Uma manifestação do espírito para a caridade”. Caridade, a principal lei da Umbanda, religião do amor fraterno em benefício dos irmãos encarnados, qualquer que fosse a cor, a raça, o credo e a condição social.

Sabe-se que aquela não foi a primeira manifestação mediúnica de um espírito com perfil de um índio brasileiro, uma vez que desde o final do século XIX há registro da presença destes em pequenos terreiros, espalhados à margem da sociedade daqueles dias, as ditas “macumbas cariocas”. Mas o advento do Caboclo das 7 Encruzilhadas foi realmente especial por diversos aspectos.

No início do século XX, “macumba” podia facilmente definir toda e qualquer relação mediúnica, geralmente promíscua, de curandeiros, pais-de-santo, feiticeiros, charlatões, e todos aqueles que se dispunham a intervir junto às forças invisíveis do além em troca de dinheiro e poder, como bem descreve Paulo Barreto em 1904, sob o pseudônimo de “João do Rio”, no livro “As Religiões no Rio”:

“Vivemos na dependência do feitiço, dessa caterva de negros e negras de

babaloxás e yauôs, somos nós que lhes asseguramos a existência, com o

carinho de um negociante por uma amante atriz. O Feitiço é o nosso vício,

o nosso gozo, a degeneração. Exige, damos-lhe; explora, deixamo-nos

explorar e, seja ele maitre-chanteur (9), assassino, larápio, fica sempre

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impune e forte pela vida que lhe empresta o nosso dinheiro.”

(9) Mestre-charlatão.

Daí percebe-se a grandeza da missão do Caboclo das 7 Encruzilhadas como mensageiro das diretrizes das mais altas esferas da espiritualidade. Sua presença e sua mensagem eram muito claras: uma nova legião de entidades iluminadas trabalharia pela elevação moral e espiritual do nosso povo, sob a inspiração de Cristo-Oxalá. Era o nascimento da Umbanda!

Em 12 de março de 1920, outro jovem médium viria a ser o veículo de mais um iluminado Mestre, que também se utilizando da roupagem fluídica de um índio brasileiro, veio ratificar a mensagem de humildade e caridade da Umbanda. Vinha ensinar a prática da mediunidade em sintonia e respeito à natureza e ao livre-arbítrio do praticante, na plenitude da “Escola da Vida”. Assim, Caboclo Mirim se manifestava pela primeira vez naquele que seria seu companheiro de uma vida: Benjamin Gonçalves Figueiredo (26/12/1902 – 03/12/1986).

Benjamim Figueiredo

Texto de Sérgio Navarro Teixeira Fraternidade Umbandista “Luz de Aruanda”

Barra Mansa – RJ

Benjamin Gonçalves Figueiredo (imagem ao lado), então com dezessete anos, participava com sua família de sessões espíritas kardecistas até que, em março de 1920, em uma dessas reuniões, Caboclo Mirim incorporou no jovem médium e anunciou que aquela seria a última sessão de Kardec realizada por sua família, pois as próximas passariam a ser de umbanda, religião apresentada há pouco mais de dez anos. A partir de então, toda a família Figueiredo viu-se envolvida na formação daquele que seria um dos mais importantes núcleos umbandistas do Brasil. Aos 13 dias do mês de março do ano de 1924 considerou-se fundada a Tenda Espírita Mirim. Desde o início Caboclo Mirim advertiu que aquela seria uma organização única no gênero em todo o Brasil, cujo método seria adotado por outras tendas, até mesmo em outros Estados da Federação e, de fato, o ritual da Tenda Mirim sempre se destacou no meio umbandista por trazer influências de correntes filosóficas que vão desde o Ocultismo e a Teosofia ao Espiritismo de Allan Kardec. Caboclo Mirim aboliu do seu culto diversos elementos que estavam intimamente ligados à noção de que se tinha das “macumbas” e feitiçarias reinantes naqueles tempos, bem como alguns outros também relacionados ao culto católico e à cultura africana. Ainda como parte da ruptura com outras religiões, nos terreiros orientados por Caboclo Mirim não se encontravam altares com as imagens católicas, apenas a de Jesus Cristo situado acima da altura da cabeça dos médiuns, onde se lia a inscrição “O Médium Supremo”.

Dentre as inovações de Benjamim Figueiredo estavam os grandes tambores pra serem tocados sentado ao invés dos tradicionais atabaques, comuns nas “macumbas”. As toalhas-de-guarda e as vestes rendadas coloridas, típicas da Bahia, deram lugar aos brancos uniformes e calçados, sempre sóbrios, como a lembrar a seus médiuns que todos eram apenas operários da fé, ou melhor, “Soldados de Oxalá”, como na letra de um belo hino da Tenda Mirim. Nenhum ornamento, nem guias, colares ou qualquer tipo de ostentação pessoal era aceita. Antes da abertura dos trabalhos, era até difícil ao visitante distinguir os dirigentes dos demais médiuns da casa. Foi um primeiro passo em busca de uma identidade própria para a Umbanda, buscando-se dignificar o culto e seus participantes, tendo como base a organização e a disciplina do conjunto do corpo mediúnico da casa umbandista. Percebe-se ainda a nítida influência do movimento positivista daqueles tempos, através de uma certa rigidez hierárquica e disciplinar no terreiro, o que, aliás,

(31)

atraiu muitos médiuns militares para as fileiras das casas sob a orientação de Benjamin Gonçalves Figueiredo.

Caboclo Mirim introduziu também o conceito de graduação aos seus médiuns em desenvolvimento, com uma classificação própria para cada um nos trabalhos de atendimento público. Foi a primeira escola de formação iniciática umbandista. O novo adepto da religião iniciava seu desenvolvimento mediúnico na base da pirâmide hierárquica do terreiro, e ia ascendendo nela conforme seu próprio ritmo, levando-se em conta a seriedade e a dedicação do neófito, e sempre de acordo com a intensidade e a qualidade com que seus próprios guias trabalhavam junto ao médium. Com isso, durante seu desenvolvimento, o médium exercitaria várias funções dentro dos trabalhos de caridade.

A nomenclatura dos sete graus foi baseada na terminologia da língua Nheêngatú, da antiga raça dos índios Tupy. Assim ficaram classificados: 1º Grau: Bojámirins, entidades dos médiuns Iniciantes (I); 2º Grau: Bojas, entidades dos médiuns de Banco (B); 3º Grau: Bojáguassús, entidades dos médiuns de Terreiro (T); 4º Grau: Abarémirins, entidades dos Sub-Chefes de Terreiros (SCT); 5º Grau: Abares, entidades dos Chefes de Terreiros (CT); 6º Grau: Abaréguassús, entidades dos Sub Comandantes Chefes de Terreiros (SCCT); 7º Grau: Morubixabas, entidades dos Comandantes Chefes de Terreiros (CCT).

A liturgia aplicada nos terreiros também introduzia novos conceitos à fé umbandista. Caboclo Mirim sintetizou o tradicional panteão africano em algumas linhas de trabalho sob a égide de Tupã, o Senhor da Criação na cultura Tupi-Guarani. Os Orixás evocados nos trabalhos da Tenda Mirim eram: Oxalá, Ogum, Xangô, Oxossi (e Jurema), Iemanjá, Oxum, Nanã e Iansã. Sempre se evitando o sincretismo com os santos católicos, principalmente nas curimbas cantadas. As manifestações mediúnicas davam-se sempre através dos Caboclos, Pretos-Velhos e as Ibeijadas (crianças), e não havia sequer uma saudação aos Exús e Pombagiras, muito menos uma gira ou sessão própria para o trabalho destes. Certamente uma atitude que visava ratificar a ruptura da Umbanda com as populares “macumbas”. Para muitos, Benjamin Figueiredo parecia ignorar completamente a existência do “Povo da Rua”, bem como a extensão e a importância dos trabalhos próprios dessa linha. Benjamin parecia ignorar, perante os olhares menos atentos...

Realmente, nos tempos de Benjamin Figueiredo, as casas ligadas à Tenda Mirim não faziam giras próprias de Exú e Pombagira, mas sua participação sempre foi fundamental na corrente astral da Casa. Com um olhar mais apurado observava-se a presença do “Povo da Rua” auxiliando desde o desenvolvimento dos médiuns iniciantes, bem como, trabalhando pesado no descarrego de médiuns e consulentes. Mas sempre de uma forma extremamente discreta, fosse junto aos Caboclos e Preto-velhos, fosse junto à parte do corpo mediúnico denominados “médiuns de banco”. Essa categoria de médiuns tinha como principal característica operar sentado e de forma receptiva (ou passiva), em contraponto aos médiuns de terreiro incorporados com seus Caboclos, que ministravam o passe no consulente, de forma ativa. Os médiuns de banco se doavam fornecendo ectoplasma e também auxiliando na dispersão de energias maléficas e/ou miasmas, bem como na condução de almas sofredoras ou espíritos trevosos. Este era o trabalho fundamental das sessões de caridade sob a orientação de Caboclo Mirim. Daí percebe-se que só com a segurança dos sempre alertas Exús e Pombagiras, em total sintonia e cooperação com as demais entidades presentes, se alcançava o pleno êxito em cada sessão.

Além das sessões de caridade, outro evento importante sob a direção de Caboclo Mirim eram as magníficas giras mensais. Em seu enorme terreiro (20 x 50 metros), inaugurado em 1942, cerca de 2000 (dois mil!) médiuns da Tenda Mirim, suas filiais e casas coirmãs, confraternizavam com seus Caboclos e Pretos-Velhos em uma só poderosa vibração de amor aos Orixás e à Umbanda.

A partir dos anos 50, com um trabalho já bem consolidado na sua matriz no Rio de Janeiro, Caboclo Mirim responsabilizou vários médiuns a levar as tendas de Umbanda ao longo de todo território nacional. A primeira casa descendente da Tenda Mirim foi criada em 30/06/1951, como filial, em Queimados, cidade de Nova Iguaçu. Depois desta, novas casas foram abertas em Austin, Realengo, Colégio, Jacarepaguá, Itaboraí e Petrópolis. A primeira casa descendente do Caboclo Mirim aberta fora do Rio de Janeiro foi na cidade de Assaí, no Paraná. Até 1970, já tinham sido abertas 32 casas

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sob a orientação de Caboclo Mirim.

A umbanda fora da marginalidade

Texto de Sérgio Navarro Teixeira Fraternidade Umbandista “Luz de Aruanda”

Barra Mansa – RJ

Nos primeiros anos da Umbanda, ainda no início do século XX, a repressão ao dito baixo espiritismo era bastante intensa. A Maçonaria, a Umbanda, o Espiritismo de Kardec e principalmente os cultos afro-brasileiros eram reprimidos com vigor. Pior ainda durante o período da ditadura Vargas, quando a polícia agia violentamente, com a justificativa de que a macumba tinha ligações com a subversão, servindo até para dar cobertura a grupos comunistas, segundo relatos da época. Uma lei datada de 1934 colocou todos esses grupos sob a jurisdição do Departamento de Tóxicos e Mistificações da Polícia do Rio de Janeiro, na seção especial de Costumes e Diversões, que lidava com problemas relacionados com álcool, drogas, jogo ilegal e prostituição. Praticar a Umbanda era, então, uma atividade marginal e tal classificação perdurou até a reorganização do Departamento de Polícia do Rio, em 1964.

Essa mesma lei de 1934 gerou uma situação dúbia: se o registro na polícia permitia aos terreiros a prática legal, por outro lado facilitava a ação das autoridades que passaram a ter uma lista de terreiros e isto parece ter aumentado a possibilidade de intimidação e extorsão. Registrados ou não, os umbandistas e demais praticantes de cultos afro-brasileiros ficavam expostos à severa perseguição policial do Rio. Não era difícil ver a polícia invadir e fechar terreiros, confiscando objetos rituais, muitas vezes prendendo seus participantes. Benjamin Figueiredo, Zélio Fernandino de Moraes e muitos outros foram presos diversas vezes nesse período.

Mas havia um “modelo” que vinha conquistando seu espaço na sociedade brasileira: a Federação Espírita Brasileira (FEB), fundada desde 1º de janeiro de 1884. Nos anos 30, esta já conseguira se firmar como legítima representante do Espiritismo no Brasil, unificando, fortalecendo e tornando coesas as casas espíritas. O simbolismo que carrega o vocábulo “federação”, como ideia de unidade nacional, servia ao discurso da Era Vargas, que naqueles tempos já via com bons olhos a religião espírita, como mais uma fonte de pacificação e, principalmente, controle das massas pela “elite branca” da sociedade. Tentando se livrar do estigma marginal dos feiticeiros, iniciou-se um claro movimento por uma auto-identificação dos umbandistas com o kardecismo. O próprio termo “espírita" foi usado para esconder nomes e para disfarçar os praticantes da Umbanda de sua ascendência afro-brasileira, quase como uma nova forma de sincretismo, tal qual a máscara católica que as religiões afro-brasileiras se utilizaram nos tempos do cativeiro. Daí a denominação de tantas casas umbandistas tradicionais como “casas espíritas”: Tenda Espírita Mirim, Tenda Espírita Fraternidade da Luz, Tenda Espírita Estrela Guia da Umbanda, etc..

Os números de São Paulo, apresentados pelo professor de Sociologia da Religião, Lísias Nogueira Negrão, em seu livro “Entre a Cruz e a Encruzilhada” (Edusp, São Paulo, 1996), são um ótimo exemplo: de 1929 a 1944 o número de centros espíritas kardecistas registrados em cartórios representava 94% do total de unidades religiosas registradas, contra apenas 6% das casas declaradas de Umbanda. Alguns anos depois, no período de 1953 a 1959 (após a descriminalização), este número já havia se invertido, com 68% de casas de Umbanda contra 31% de casas kardecistas.

O movimento umbandista ganhava corpo e estruturava-se a fim de obter o status de religião brasileira. O exemplo da FEB deve ter parecido a melhor opção para as lideranças umbandistas daqueles tempos. Criar uma federação para negociar com o Estado a regulamentação da Umbanda e consequentemente o fim da repressão ao culto, inserindo assim a Umbanda na estrutura do Estado pela via institucional, este foi o caminho escolhido.

Em 1939 fundou-se a Federação Espírita de Umbanda, atual União Espírita de Umbanda do Brasil. Zélio de Moraes, Benjamin Figueiredo, Tancredo da Silva Pinto e outros se uniram em torno de um só ideal: tirar a Umbanda da marginalidade, organizando-a como uma religião coerente e hegemônica assim obtendo sua legitimação social e seus esforços levaram ao “Primeiro Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda” (1), em 1941.

Referências

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