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Uso de bebidas

No documento A Ruanda (páginas 41-44)

De raiz indígena e africana, o uso de bebidas alcoólicas faz parte dos fundamentos da Umbanda devido a sua grande importância simbólica (1) e terapêutica e, a par dos benefícios, resulta numa polêmica já bastante antiga.

(1) O álcool simboliza a passagem do plano material para o etéreo, pois tem sua origem na cana-de-açúcar que vem da terra (terra), é líquido (água), inflama (fogo) e é extremamente volátil (ar).

Para compreendermos a importância terapêutica do álcool, consideremos o que dizem os espíritos. Eles informam que parte notável do álcool ingerido pelas pessoas é eliminada através dos pulmões, sendo assim, eles dão pequenos tragos ou molham os lábios e depois sopram ou dão baforadas em direção aos centros de força, chacras, aura e partes doentes do corpo do assistido. Nesse momento, o álcool volatizado está impregnado de fluido magnético animal do corpo do médium associado a energias da natureza, graças à participação de elementais, eliminando miasmas e larvas astrais, destruindo os campos magnéticos deletérios, geralmente vinculados à feitiçaria.

Cabe ainda ressaltar a importância do sopro.

Na mitologia africana Nanã deu barro para Obatalá (2) moldar os seres humanos. Obatalá assistido por Exú moldou o barro, então, Olorum soprou ar nas narinas do molde concedendo-lhe vida. No livro do Gênesis, veremos que do barro Deus fez o homem e com o sopro lhe deu a vida. Os alquimistas, assim como muitos cientistas do passado, acreditavam que o sopro era a fonte de vida. Os pajés, em seus rituais de cura, sempre fazem uso do sopro, da mesma forma que as mães quando sopram a área dolorida quando o filho se machuca. Há muito para se dizer sobre o sopro, mas o importante é saber que através dele, sob o impulso de nossa vontade, transmitimos nossa energia vital produzindo energias curativas.

(2) Obatalá, “O Rei do Pano Branco”, divindade africana é assim chamado por ser considerado raiz de todos os Oxalás. Diz-se na Bahia que há dezesseis tipos de vibração de Oxalá.

A polêmica, no entanto, permanece devido à ingestão das bebidas alcoólicas pelos médiuns.

Há médiuns predispostos ao alcoolismo e há aqueles que sofreram com a doença. Para esses médiuns o uso da bebida nas engiras não se justifica, pois pode avivar o desejo do médium, por isso, as entidades que trabalham com ele, compreensivas, sempre adotam outros procedimentos. Por outro lado, há médiuns que não sofrem de alcoolismo, mas em sua vida privada apreciam o estado de embriaguez. São médiuns desequilibrados, necessitados de orientação e ajuda para se reajustarem, afinal, o uso abusivo de bebidas alcoólicas atrai entidades de pouca luz, desejosas de satisfazerem seus apetites materiais, predispondo o médium a graves desequilíbrios. Devido ao perigo que o abuso do álcool representa é que mentores espirituais e dirigentes encarnados restringem ou proíbem seu uso, especialmente durante a fase de desenvolvimento dos médiuns. Quem freqüenta engiras de Umbanda, sabe que o uso do álcool pelas entidades serve a outros propósitos que não a embriaguez. Nas engiras o álcool é consumido em quantidades ínfimas. Na realidade esta polêmica é gerada mais pelo uso perigoso que as pessoas fazem das bebidas alcoólicas na vida diária do que pelo seu uso ritual. O mesmo acontece com o fumo.

Paramentos

Na Umbanda, normalmente os médiuns usam roupas brancas, como simbolo de pureza e em homenagem a Oxalá, “O Rei do Pano Branco”; os pés descalços como símbolo de humildade e guias (colares) de proteção. A polêmica reside na personalização imposta por alguns Guias espirituais e dirigentes de terreiro, pois há quem exija o uso de roupas coloridas, por exemplo, vermelha e branca nas engiras de Ogum e verde e branca nas engiras de Oxossi durante as engiras. Há também Guias espirituais que recomendam aos seus médiuns utilizarem peças de vestuário e apetrechos que lhes assemelhem.

No primeiro caso, minha opinião é de que em datas festivas em homenagem aos Orixás, o uso de roupas coloridas se justifica do mesmo modo quando nos preparamos, de modo especial, para um evento social relevante, mas em dias normais de trabalho não há necessidade desse expediente, inclusive, por ser expendioso para o médium umbandista, geralmente pessoa humilde, trabalhador comum. No segundo caso, é uma tolice. Este tipo de exigência é um índice seguro de mistificação por parte da entidade e de fascinação por parte do médium, afinal, qual a utilidade de tal procedimento nas tarefas de caridade? Nenhuma.

Quanto ao uso de guias e apetrechos há dirigentes e médiuns vaidosos que as ostentam como se fossem insignias de modo a se distinguirem dos demais, esquecidos de que tais objetos se justificam somente em casos muito particulares, por sua utilidade na terapia espiritual (3) desenvolvida pelas entidades e dentro da maior discrição possível. Sejamos fiéis à divina mensagem da Umbanda que nos recomenda a modéstia e a naturalidade possível. Fora com tais procedimentos!

(3) Guias e apetrechos ao serem manipulados pelas entidades contribuem para a proteção do médium servindo como acumuladores e condensadores de energias, que depois são dissipadas em elementos apropriados.

Atualmente, alguns dirigentes de terreiro eliminaram o uso de bebidas e fumo de suas engiras de modo a corresponder à parcela do seu público, partidária do “politicamente correto” que não veem tais elementos de culto com “bons olhos”. Não me preocupo com eles. Os partidários do politicamente correto, se você pensar bem, são daqueles que nunca pensaram em nada, mas que a ter maior acesso a bens de consumo passam a absorver conceitos que configuram verdadeira forma de controle social por parte da elite. Por que agem assim? Porque são justamente os hábitos de consumo e os conceitos que exposam o que mais os distingue em sociedades consumistas como a nossa. Na raiz disto tudo: vaidade, orgulho. Graças a Olorum, dirigentes mais esclarecidos, lutam para manter as nossas tradições, afinal, o pito do preto-velho, o fumo do pajé, a aguardente do malandro é parte do legado cultural da Umbanda e deve perpetuar-se, dentro é claro, das normas de comedimento que o uso ritual impõe. Todos os umbandistas sabem que espíritos não fumam, não bebem, nem comem. É preciso resistir às pressões desta “ordem” que deseja substituir a ética pelo politicamente correto. É preciso resistir à pressão desta “ordem” que deseja padronizar comportamentos. É como disse Lévi-Strauss em sua última visita ao Brasil: “percebo que um poder invísivel petende transformar a humanidade numa plantação de beterrabas”, ou seja, todos iguaizinhos, vestindo terno e a bíblia debaixo do suvaco...

Tema 011 – Polêmicas na Umbanda, in Heleno, Luiz Marcelo dos Santos – Umbanda, uma história – Coleção Cadernos Aruada – número 1 – 5a. Edição - Editora Aruanda Digital – Assis – SP – 2013

O terreiro e seus

No documento A Ruanda (páginas 41-44)

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