Entrevista com
a Drª. Penny Sartori
Pesquisadora da Experiência de Quase Morte,
e autora de As Experiências de quase-morte de
pacientes hospitalizados em terapia intensiva:
Um estudo clínico de cinco anos
Entrevistadora: Sandie Gustus
INTRODUÇÃO
Drª. Penny Sartori iniciou sua carreira como enfermeira na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Morriston no País de Gales em 1993. Ela empreendeu o primeiro e mais abrangente estudo clínico de longo prazo sobre a experiência de quase-morte dentro de uma unidade de terapia intensiva do Reino Unido, cujos resultados foram publicados em um livro intitulado “ As Experiências de quase-morte de pacientes hospitalizados em terapia intensiva: Um estudo clínico de cinco anos”. O trabalho de Penny foi supervisionado pelo Dr. Peter Fenwick, uma reconhecida autoridade internacional no que se refere a relação entre a mente e o cérebro, e pelo Professor Paul Badham que, na época em que Penny iniciou a sua pesquisa, era o diretor do curso “ Morte e Imortalidade” da Universidade de Wales.
Eu contatei Penny pela primeira vez em 2003 quando pedi a ela para contribuir com alguns comentários para um artigo que eu estava escrevendo e, desde então, venho acompanhando seu traba-lho com interesse. Agora que sua pesquisa de cinco anos está con-cluída e publicada, e tendo tomado conhecimento de que ela não produziu evidência empírica sobre o fenômeno da EQM, eu a entre-vistei para saber mais sobre sua pesquisa em geral e, especifica-mente, para compreender quais os desafios e dificuldades que ela enfrentou em suas tentativas para verificar objetivamente as ale-gações de EQMs dos pacientes.
ENTREVISTA
SG: Como iniciou o seu interesse pelo fenômeno da EQM? PS: Fiquei interessado na EQM através do meu trabalho como
enfermeira de UTI. Não surpreendentemente, eu tinha que lidar muitas vezes com a morte de meus pacientes. E não eram apenas os idosos mas também os jovens que muitas vezes morriam inesperadamente e sob circunstâncias inesperadas. Eu fiquei particularmente desolada com o declínio de um paciente com o qual eu tinha uma grande ligação, e essa experiência e me fez parar e me questionar:
• se nós realmente necessitamos prolongar a vida de nossos pacientes, tratando-os com todos os recursos, quando eles morrerão de qualquer forma, e
• seria realmente a morte uma coisa tão ruim?
Havia pouca informação disponível sobre a morte e o que vem depois da morte para apoiar os enfermeiros como eu, e para ajudar os pacientes que estavam morrendo, eu comecei a ler tanto quanto eu podia sobre o assunto. Foi então que eu comecei a aprender sobre a EQM. Perguntei a uma colega minha de UTI se algum dos seus pacientes já havia relatado ter uma EQM, e ela disse que sim, que não era incomum. Fiquei tão interessado em querer saber mais sobre a EQM, que se tornou uma espécie de obsessão para mim, e eu comecei um doutorado com o Professor Paul Badham e Dr. Peter Fenwick como meus supervisores. Eu fiz um piloto em 1997 e a pesquisa formal entre 1998 e 2003. Os resultados desta são abordados em meu livro.
SG: Você pode resumir o estudo clínico de cinco anos - como ele
funcionou e quais os desafios e dificuldades que você encontrou no caminho?
PS: No primeiro ano, eu entrevistei todos os pacientes que
sobreviveram a sua internação na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), independentemente do que havia de errado com eles, para verificar se lembravam de alguma coisa que houvesse ocorrido durante o período em que eles estavam inconscientes. Então essa foi a minha primeira amostra. Eu estava interessado em detectar se estar na UTI fazia com que eles se percebessem mais doentes
do que realmente estavam e se isso poderia precipitar uma EQM, mas isso não ocorria. Dos 243 pacientes entrevistados, dois relataram uma EFC (experiência fora do corpo) (eles estavam inconscientes, não cumprindo os critérios clínicos de morte) e dois relataram uma EQM.
Foi um trabalho tão árduo acompanhar todos esses pacientes que a partir daí decidi entrevistar e estudar apenas aqueles pacientes que tinham tido uma parada cardíaca. Este grupo foi a minha segunda amostra. Durante o período de cinco anos eu estudei 39 destes pacientes. Dos 39, 7 tiveram uma EQM, sendo um considerável aumento percentual.
A terceira amostra estudei incluiu qualquer um que, durante os cinco anos, tenha passado um tempo na UTI, independentemente da causa, e que tenha relatado uma EFC ou uma EQM durante seu tempo de internação. Neste período 15 pacientes relataram uma EQM e 8 relataram uma EFC. Estes dados foram consistentes com os achados de outros investigadores realizando estudos semelhantes.
No intuito de produzir evidencias da EQM, montei símbolos específicos ou imagens em papel intensamente fosforescente que iria atrair a atenção de alguém fora do corpo, em cima do monitor cardíaco ao lado da cama de cada paciente. A única maneira que estes símbolos e imagens podiam ser vistos era por cima. Uma das dificuldades do estudo foi que, devido ao fato de que os pacientes estavam em estado crítico, eu considerei que não era apropriado informá-los sobre os símbolos e dizer-lhes para procurar por eles caso viessem a ter uma EQM. Assim, nenhum deles estava ciente do experimento com exceção de um homem que teve diversas EFC e para quem eu pude falar sobre o meu estudo.
Dos pacientes que saíram do corpo, apenas alguns relataram aumento do distanciamento acima do corpo. Aqueles que subiram mais alto do que os símbolos relataram que eles eram tão tomados pela sua própria cena de reanimação que não olharam para nenhum outro lugar. Embora o homem que teve várias EFC soubesse sobre os símbolos, uma vez fora do corpo ele flutuou na direção errada, e não viu o papel fosforescente. No entanto, houve um outro paciente que relatou com incrível precisão as ações do médico, o fisioterapeuta e eu durante seu tempo fora do corpo. A descrição precisa do ambiente da reanimação era comum entre os pacientes que saiam o corpo. Como comparação, eu também entrevistei diversos
pacientes que tiveram parada cardíaca, porém não tiveram nem EFC nem EQM e perguntei se poderiam descrever o cenário de sua reanimação. A maioria deles não tinha idéia. Alguns conjecturaram com base no que tinha visto em filmes na TV, mas o que foi relatado era extremamente impreciso.
SG: Qual foi o objetivo do estudo?
PS: Os meus principais objectivos foram descobrir quão freqüentes
essas experiências são e entender se a EQM é um mecanismo de defesa, uma alucinação, induzida por drogas administradas ao paciente, ou algo a mais que a ciência e a medicina no momento não entendem.
Quando eu era estudante em treinamento para ser enfermeira e fui informada pela primeira vez sobre a EQM pelos pacientes, eu não acreditei que fosse possível, devido a minha formação científica. Mas quando eu mais tarde comecei a ler sobre a morte eu compreendi que havia muito mais relacionado ao processo do que era reconhecido na época e eu pensei que seria muito útil para ambos, os doentes e os enfermeiros, se pudéssemos compreender este fenómeno. As pessoas ainda são muito avessas a discutir suas experiências com medo da reação dos outros, assim outro importante objetivo foi sensibilizar as pessoas para estas experiências assim como a equipe para dar apoio a pacientes as vivenciaram.
SG: Você desenvolveu alguma teoria sobre por que você não foi
capaz de fornecer qualquer evidência empírica da EQM durante o período de cinco anos? Qual é o seu entendimento do porquê que isto é tão difícil de alcançar?
PS: Eu acho que é possível obter provas uma vez que muitas pessoas
estão tendo estas experiências nas UTIs. Eles só não estavam olhando na direção que precisavam. Um homem disse que se ele soubesse, ele teria ido até o topo do monitor cardíaco e teria dado uma olhada e que ele teria facilmente sido capaz de ver os símbolos uma vez que tudo estava tão claro quando ele estava fora do corpo. Estamos prosseguindo com estes estudos, porque acreditamos que é apenas uma questão de tempo até obter um resultado.
Atualmente estou envolvido em outra grande pesquisa chamada “AWARE Study – AWAreness during REsuscitation” (Consciência durante a Ressuscitação)
[http://www.horizonresearch.org/main_page.php?cat_id=38] sendo conduzida pelo Dr. Sam Parnia juntamente com o Dr. Peter Fenwick e os professores Stephen Holgate e Peveler Robert da Universidade de Southampton. A equipe está colaborando com mais de 25 dos principais centros médicos em toda a Europa, Canadá e Estados Unidos. Novamente símbolos estão sendo colocados pró-ximos aos leitos dos pacientes. Dr. Parnia decidiu não informar os pacientes sobre o estudo, a menos que tenham uma parada cardíaca, mas está sendo gerada tanta propaganda sobre o mesmo que algumas pessoas podem saber sobre a respeito quando entrarem na UTI e terem certas expectativas.
SG: Em termos gerais, ou talvez você tenha alguns exemplos
específicos, qual o impacto que a EQM teve sobre os pacientes? Ela trouxe alguma mudança de perspectiva em suas vidas, uma redefinição de prioridades de como eles gastam o seu tempo, uma mudança de ponto de vista religioso?
PS: Eu acompanhava os pacientes do estudo a cada seis meses,
mas muitos deles morreram. Entre aqueles que eu pude acompanhar, um homem começou a ler a Bíblia com mais frequência e isso lhe deu força quando sua esposa faleceu. Ele também era previamente mão fechada com seu dinheiro, mas mudou completamente sua atitude e tornou-se mais generoso. Outro homem disse que perdeu o medo da morte e não se importava a quem ele contava. Ele disse que até que você tenha tido a experiência, você não pode compreendê-la. Ele morreu no ano passado.
SG: Algum dos pacientes relatou encontrar ou comunicar com uma
pessoa não-física durante a EQM?
PS: Um homem que teve uma EFC muito nítida, foi para uma outra
sala onde se encontrou com seu pai, que já havia falecido e uma mulher que ele nunca conhecera, mas que ele sabia por fotos ser sua falecida sogra. Ele também viu uma figura que ele descreveu como ‘parecendo Jesus’, mas a imagem não era o que ele esperava
ser a aparência de Jesus, pois seu cabelo era longo e desalinhado e precisava ser penteado. O componente mais comum relatado pelos que passaram pela EQM foi encontrar parentes falecidos que lhes disse para voltar.
SG: Qual é a sua compreensão do mecanismo por trás do fenômeno
da EQM e do contexto em que este fenômeno ocorre?
PS: A ciência não pode explicar. Eu não posso explicar. Até o
momento podem ter havido alguns bons argumentos da ciência como a conhecemos, mas agora está claro que atuais explicações não são sustentadas pela pesquisa clínica que está sendo feita. Ao invés da consciência ser um produto do cérebro, ela basicamente não é criada pelo cérebro. O cérebro funciona como uma espécie de filtro na consciência.
SG: Quais são as conclusões sobre o fenômeno que você retira do
estudo?
PS: Uma coisa interessante que eu notei durante o andamento do
estudo foi que muitas pessoas que tiveram uma EQM tornam-se sensíveis aos equipamentos elétricos e que equipamentos elétricos podem apresentar defeitos em sua presença. Parece que a expe-riência ocasiona algumas mudanças no seu campo eletromagnético/ energético. Isso não é algo que os pacientes associaram com a EQM, até que eu tenha sugerido a eles. Estou muito interessada em saber se essa mudança no campo elétrico de uma pessoa pode potencial-mente ser medida. Se alguém pudesse inventar um dispositivo elétrico para medir o campo eletromagnético de uma pessoa, eu gostaria de executar medições antes e depois de uma EFC. Estou averiguando as capacidades do que é chamado de ‘Pip scanner’. Ele funciona de forma semelhante a fotografia Kirlian. É uma exten-são da mesma. Ele é ligado a uma câmera de vídeo e é executado através de um computador. A pessoa fica em frente a um fundo branco, você aponta a câmera de vídeo nela e ela capta um campo de energia. Alguns médicos já estão usando isso para detectar doenças.
COMENTÁRIOS FINAIS
Os pontos referentes a minha conversa com Penny que eu achei mais interessantes foram, em primeiro lugar, saber que a motivação de Penny para fazer esta investigação foi em grande parte impulsionada por um desejo de dotar os enfermeiros como ela com informações autênticas sobre o fenômeno da EFC para ajudar e tranqüilizar os pacientes terminais ... a ajudá-los a perder o medo da morte.
Em segundo lugar, embora eu certamente compreendo a inadequação de informar o paciente a respeito do estudo quando eles entram na UTI, eu sinto que isso iria aumentar muito as chances de alguém ser capaz de identificar com precisão o símbolo colocado em cima do monitor cardíaco ao lado de sua cama. Haverão sem dúvida mais casos de pacientes que tenham múltiplas EFCs enquanto em TI e uma vez que eles se tornam mais familiarizados com a experiência, será mais fácil para eles ter autocontrole fora do corpo e dirigir sua atenção para os símbolos.
Em terceiro lugar, acho que o fato de que cientistas como Penny estão começando a reconhecer que a ciência convencional não pode explicar adequadamente o fenômeno da EFC representa um progresso significativo. Conversei com Penny sobre o que nós conhecemos como o Paradigma Consciencial, ou seja, que as ciências que estudamos e ensinamos estão baseadas em uma perspectiva mais ampla, que reconhece a natureza multidimensional da existência. Eu informei a ela sobre o campus de pesquisa da IAC e nossos laboratórios, o Projectarium em particular. Ela estava muito interessada em saber mais sobre nosso trabalho e está entusiasmada com a vinda para fazer o CDP, em Londres.
Sandie Gustus, B.A., Dip. Ed., MCIPR, é gerente de
comunica-ções para a região européia, Oriente médio e África para uma empresa multinacional. Ela é voluntária e professora da IAC no centro educacional de Londres desde 2003 e publicou inú-meros artigos sobre a EFC e fenômenos relacionados interna-cionalmente.