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Palavras-chave: extração de marisco; Anomalocardia brasiliana; marisqueiros; teoria do forrageio ótimo

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A EXPLORAÇÃO DE Anomalocardia brasiliana (GMELIN, 1791) (MOLLUSCA,

BIVALVIA, VENERIDAE) POR MARISQUEIROS DE GROSSOS (RN) SOB A

PERSPECTIVA DA TEORIA DO FORRAGEIO ÓTIMO

Silva, C.J.F.1*; Costa, R.S. da1; Lopes, P.M.2,3

1. Laboratório de Dinâmica e Ecologia Pesqueira (LADEP), Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) Mossoró, RN, *cirojosefe@hotmail.com; 2. Depto. Botânica, Ecologia e Zoologia, Universidade Federal do Rio

Grande do Norte, Natal, RN; 3. Fisheries and Food Institute, Campinas, SP

RESUMO

No Rio Grande do Norte, a exploração do marisco A. brasiliana é feita artesanalmente por diversas comunidades espalhadas ao longo da costa. Apesar da sua importância econômica, estudos que investiguem o seu processo de extração pelos marisqueiros ainda são inexistentes. O objetivo deste trabalho é fornecer uma caracterização preliminar da atividade da pesca do molusco A. brasiliana e sobre os processos de tomadas de decisões pelos marisqueiros do município de Grossos, RN. Foram realizados 23 acompanhamentos da atividade de mariscagem no período de janeiro a maio de 2010, durante três ou quatro dias por mês nas semanas de baixa-mar. Observou se que, em média, o marisqueiro gastou 3h18min mariscando (±45.3min) e esse tempo resultou em média em 28 kg (±7.9kg) de marisco com concha. Ao final do processo, incluindo o tempo de beneficiamento primário, o marisqueiro obtém uma renda de R$39,2 para 7,72 horas/dia trabalhadas. Os marisqueiros não permanecem mais tempo mariscando quando vão a lugares mais longe, como seria esperado pela Teoria do Forrageio Ótimo, mas obtêm maior retorno líquido a distâncias maiores. Tais informações, que consideram as especificidades de cada região resultam num primeiro passo para criação de planos de gestão pesqueira mais eficientes e aplicáveis.

Palavras-chave: extração de marisco; Anomalocardia brasiliana; marisqueiros; teoria do forrageio ótimo

INTRODUÇÃO

Os mariscos são recursos de extrema importância na pesca artesanal por contribuírem tanto para o enriquecimento da alimentação das populações litorâneas como também por apresentarem papel importante na complementação da renda dessas pessoas. A extração desse recurso, de uma forma geral, é feita por mulheres e filhos de pescadores denominados de marisqueiros (Gil et al. 2007).

O sul, o sudeste e o nordeste do Brasil destacam-se na exploração comercial, ainda que de forma artesanal, de mariscos, com destaque especial para Anomalocardia brasiliana (Verenidae, Gmelin 1791) (Aveiro 2007). No nordeste, a exploração de pequena escala vem sendo estudada em diversos estados, como na Paraíba (Nishida et al. 2004, 2006), Bahia (Bispo et al. 2004 ), Pernambuco (Silva et al. 2007), Alagoas (Botelho e Santos 2005) e Ceará (Araújo e Rocha-Barreira 2004; Rocha-Barreira e Araújo 2005). No Rio Grande do Norte, a exploração deste marisco também é

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feita artesanalmente por diversas comunidades espalhadas ao longo da costa, especialmente, mas não exclusivamente, por mulheres (Dias et al. 2007). Estudos que investiguem a sustentabilidade de tal exploração ainda são raros (Silva-Cavalcanti e Costa 2009), embora recentemente projetos como o “Gente da Maré”, uma parceria entre o governo canadense (World Fisheries Trust) e brasileiro (Ministério da Pesca), venham buscando não somente entender as implicações ecológicas e sócio-econômicas da exploração, mas também capacitar e profissionalizar marisqueiras. No entanto, apesar da importância econômica deste recurso, estudos que investiguem o processo de extração e o processo de tomada de decisão pelos marisqueiros a respeito de como, quando e onde explorar o recurso ainda são inexistentes.

Um modelo interessante para determinar o processo de decisão de marisqueiros é a teoria do forrageamento ótimo, a qual tem se mostrado útil especialmente no entendimento da exploração de presas sésseis, como mariscos (Bird e Bliege Bird 1997). Nessa teoria, pressupõe-se que a energia investida pelo forrageador (por exemplo, marisqueiros) na forma, no local e no tempo da atividade de pesca e extração, deve resultar em uma razão positiva entre esse tempo gasto pela energia adquirida através da obtenção/consumo do recurso (Mac Arthur e Pianka 1966). O retorno pode ser ainda traduzido monetariamente, através da venda do marisco, podendo ser utilizado então para satisfazer outras necessidades básicas do forrageador, como a obtenção de outras fontes calóricas e protéicas (Nehrer e Begossi 2000). Os processos de tomadas de decisões (onde ou quanto tempo mariscar) pelos marisqueiros determinam o sucesso da extração em termos de rendimento energético (Boer et al. 2002). A partir destas considerações, o objetivo deste trabalho é fornecer uma caracterização preliminar da atividade da pesca do molusco A. brasiliana e sobre os processos de tomadas de decisões pelas marisqueiras de Grossos (RN), utilizando uma abordagem de forrageio ótimo.

MATERIAL E MÉTODOS

O município de Grossos (4º58´46"S e 37º9´16"W) se localiza na região norte do estado do Rio Grande do Norte. A área de estudo englobou duas das principais comunidades de extração de marisco na região: Barra e Pernambuquinho.

Foram realizados 23 acompanhamentos no período de janeiro a maio de 2010, durante três ou quatro dias por mês nas semanas de baixa-mar. Para a obtenção dos dados de forrageio foram acompanhados marisqueiros de ambos os sexos, escolhidos de forma aleatória através de sorteios, tanto que estavam forrageando individualmente ou em duplas, sendo que nesta situação dois pesquisadores anotavam simultaneamente os tempos. As variáveis de tempo foram determinadas por um cronômetro, sendo elas: tempo gasto de viagem de ida e volta da casa das marisqueiras à praia, e o tempo gasto para ir e vir da praia à mancha e tempo de forrageio (somatória entre os tempos de deslocamento na mancha, raspagem do substrato por baldes e cata do molusco resultante). Além destes tempos, o peso bruto dos animais capturados foi determinado por uma pesola digital com capacidade total de 25 kg, enquanto o peso líquido foi obtido após o beneficiamento primário (cozimento e retirada da concha) realizada pelos próprios marisqueiros. Os dados de tomada de decisão foram analisados através de regressões lineares simples.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A atividade de mariscagem neste estudo nunca foi uma atividade isolada. Quando um marisqueiro/a foi para a “maré”, nunca ele/a estava sozinho: ou estava acompanhado de seus pares (4.2±0.9 acompanhantes; média ± desvio padrão) ou havia marisqueiros independentes explorando o recurso na mesma região (6.3 outros marisqueiros ±3.9).

Em média, o marisqueiro gastou 3h18min mariscando (±45.3min), incluindo desde o tempo que deixa sua casa/associação de marisqueiras até o momento em que retorna a estes locais. Destes, em

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média 33.26 min (±14.52min) foram gastos em deslocamento da casa/associação até o local de extração do recurso e vice versa, enquanto o restante do tempo foi gasto em explorar ativamente o recurso propriamente dito (1h23min ± 24.53min) ou se deslocar dentro da própria mancha (5.28 min ± 3,97min), seja para procurar novos aglomerados de mariscos ou para transportá-los de um balde menor para um maior, por exemplo. Ao final desta etapa de forrageio, um marisqueiro obteve em média 28 kg (±7.9kg) de marisco.

Embora a primeira vista este pareça um tempo relativamente curto de forrageio, é importante salientar que a extração do recurso na mancha é apenas o primeiro passo. Para ser consumido ou vendido, A. brasiliana precisa ser lavada, fervida e retirada da concha, um processo que levou entre 3,5 e 5h entre os marisqueiros acompanhados. Ao final deste processo, o marisqueiro obteve um rendimento médio de 5.6 kg (±3.4kg) de marisco, o qual pode ser então efetivamente consumido ou vendido. Tendo em vista que o marisco em Grossos é comercializado a R$7,00 kg, um marisqueiro que trabalhou em média 7,72 horas/dia receberá apenas R$39,20.

Quando se considera o processo de tomada de decisão, utilizando aqui a perspectiva do forrageio ótimo, observa-se que os marisqueiros não buscaram compensar uma maior distância de viagem (ida e volta até o ponto de forrageio) permanecendo maior tempo na mancha (r2 = 0.019; p>0.05). Poderia ser suposto que isso tenha ocorrido em função de uma baixa variação no tempo de viagem. No entanto, foi observado que o tempo de viagem variou de 4 a 66 minutos. Ir mais longe também não implicou em maior retorno da atividade de forrageio bruto, ou seja, o marisqueiro neste caso não buscou compensar o maior gasto energético da maior distância percorrida para chegar a mancha através de uma maior obtenção de recursos brutos (r2 = 0.019; p=0.27). No entanto, o marisqueiro quando foi mais longe otimizou o seu retorno líquido, sendo que a distância explicou pelo menos 21% do que ele obteve ao final da sua atividade de forrageio (r2 = 0.21; p=0.02) (Figura 1).

Figura 1. Relação entre tempo de viagem (ida e volta) entre casa/associação e mancha e retorno final obtido em kg. Retorno bruto: Y=32.33 – 0.13X, r2 = 0.019; p=0.27; Retorno líquido: Y = 1.7 + 0.11X, r2 = 0.21; p=0.02.

A extração de A. brasiliana, tanto em Grossos quanto em outras localidades, dá-se apenas no intervalo entre a alta-mar e a baixa-mar (lua cheia e lua nova) (Dias et al. 2007b), de forma que é possível que haja a maior otimização possível do processo de extração do recurso neste período (Boer et al. 2007). Talvez esse fator tenha sido determinante para que sempre tivesse mais de 10 marisqueiros na mancha trabalhando de forma associada ou competindo pelos mesmos recursos.

A dificuldade de transportar a presa capturada de volta para casa, geralmente é um fator limitante do rendimento final bruto para certos grupos de forrageadores (Bird e Bird 1997). Porém não se pode atribuir esse mesmo aspecto como sendo fator agravante de não existir uma correlação entre maior tempo de viagem com maior tempo na mancha, pois apenas 8,7% dos marisqueiros acompanhados não possuíam nenhum meio que facilitasse o transporte da presa, os demais se locomoviam com o auxílio de carro-de-mão, carroça e até mesmo de motos. A justificativa dada pelos marisqueiros para ir até uma localidade mais distante da sua casa/associação é a necessidade de conferir a disponibilidade do recurso nas outras comunidades. Um maior rendimento líquido nas manchas mais distantes pode ser em função da comunidade da Barra apresentar uma maior

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abundância e densidade relativa da A. brasiliana em relação a Pernambuquinho (Rodrigues 2009). No entanto, cabe ainda investigar como isto não se traduz em maior rendimento bruto na Barra.

Os resultados aqui apresentados, embora preliminares, fornecem uma visão das características da pesca e do modo como os marisqueiros locais se comportam. Tais informações, que consideram as especificidades de cada região resultam num primeiro passo para criação de planos de gestão pesqueiras mais eficientes e aplicáveis (Hilborn 1985).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Bispo, E. S.; Santana, L. R. R.; Carvalho, R. D. S.; Leite, C.C. e Lima, M. A. C. 2004. Processamento, estabilidade e aceitabilidade de marinado de vôngole (Anomalocardia brasiliana). Ciência e Tecnologia Alimentar 24: 353-356.

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