A queda do Muro de Berlim, vinte e cinco anos depois

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A queda do Muro de Berlim,

vinte e cinco anos depois

Valério Arcary

“Que a socialização dos meios de produção (…) representa um tremendo benefício econômico se pode demonstrar hoje em dia não só teoricamente, mas também com a experiência da União dos Sovietes, apesar das limitações desse experimento. É verdade que os reacionários capitalistas, não sem artifício, utilizam o regime de Stálin como espantalho contra as idéias socialistas. Na realidade, Marx nunca disse que o socialismo poderia ser alcançado em um só país e, ademais, em um país atrasado. As contínuas privações das massas na União soviética, a onipotência da casta privilegiada que se levantou sobre a nação (…) não são conseqüências do método econômico socialista, mas do isolamento e atraso da Rússia, cercada pelos países capitalistas. O admirável é que nessas circunstâncias, excepcionalmente desfavoráveis, a economia planificada (…) tenha demonstrado seus benefícios insuperáveis.” (Leon Trotsky) [1]

“Se não é possível negar, antecipadamente, a possibilidade, em casos estritamente determinados, de uma frente única com a parte termidoriana da burocracia contra a ofensiva aberta da contrarrevolução capitalista, a principal tarefa política na União Soviética continua sendo, apesar de tudo, a derrubada da própria burocracia termidoriana. O prolongamento de seu domínio abala, cada dia mais, os elementos socialistas da economia e aumenta as chances de restauração capitalista.” (Leon Trtosky)[2]

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maioria do ativismo de esquerda. É compreensível que seja assim, porque se o desmoronamento das ditaduras burocrático-estalinistas despertou simpatia, a restauração capitalista foi um dos processos contrarrevolucionários mais importantes do final do século XX. A percepção de que foram as mobilizações populares de massas o principal fator que abriu o caminho para a restauração do capitalismo não é consistente com a pesquisa histórica, mas ainda prevalece, tão grande foi a campanha ideológica imperialista.

Neste terreno, auxiliada, valiosamente, pelo estalinismo remanescente na Europa e América Latina, que não hesitou em responsabilizar as massas por aquilo que estava sendo feito pelo chefes dos Partidos Comunista da ex-União Soviética, Gorbatchev e Ieltsin. As consequências político-ideológicas da queda do Muro de Berlim, e do que aconteceu em seguida com a dissolução da União Soviética, foram devastadoras para a luta mundial pelo socialismo. Tanto o imperialismo quanto os partidos de esquerda com maior autoridade coincidiram, por razões diferentes, em afirmar que aquilo que foi derrubado era o socialismo. A maioria da nova geração que chegou à vida adulta após estes acontecimentos deixou, portanto, de ter no socialismo uma referência.

A história foi sempre um campo de batalha das idéias. A distinção entre o que foi progressivo, historicamente, e o que foi regressivo é o cerne da investigação do passado. Compreender na seqüência aparentemente caótica dos acontecimentos, quais são aquelas mudanças que abriram caminho para um mundo menos desigual, e aquelas que preservaram injustiças, deveria ser a primeira obrigação de qualquer investigação. A honestidade intelectual mais elementar é posta à prova na hora de separar o que foi revolucionário do que foi reacionário. Mas é muito menos simples do que pode parecer. A historiografia e a esquerda de educação marxista foram incapazes de analisar o que estava acontecendo na China, no Leste europeu e na União Soviética durante os anos oitenta.

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Nem sequer aqueles que eram mais críticos aos rumos destes Estados, como os que se educaram na tradição trotskista, estiveram à altura do desafio histórico. A explicação é simples, embora o problema seja complexo: tudo o que acontece pela primeira vez na história é mais difícil de compreender. Compreender e valorizar o que significavam as estratégias de Deng Xiao Ping e Gorbatchev no calor dos acontecimentos demonstrou-se muito difícil.

As massas de trabalhadores e jovens em luta que se lançaram sobre o Muro de Berlim moviam-se reativamente às sequelas das medidas dos governos que estavam destruindo suas já precárias condições de existência anteriores. Não fizeram nada muito diferente do que os seus irmãos de classe em todas as revoluções da história contemporânea. Revoluções políticas iniciaram-se sempre como processos destrutivos. Quando milhões de pessoas se levantam, revolucionariamente, para derrubar regimes odiados não saem às ruas com um plano pré-estabelecido de como gostariam de reorganizar a vida social. Esses projetos político-sociais mais complexos, ou seja, estes programas, estão nas mãos de grupos, movimentos, partidos ou lideranças que aspiram, lutando impiedosamente uns contra os outros, à representação da vontade popular e á luta pelo poder. A oposição anti-burocrática no Leste europeu e na ex-União Soviética teve referência no marxismo somente até 1968. Depois da invasão da Tchecoslováquia, o marxismo passou a ser, infelizmente, uma corrente literária marginal. Que o estalinismo tenha usurpado para a defesa das ditaduras a autoridade do marxismo durante décadas ajuda a compreender esta catástrofe.

Nos prazos mais curtos da história, a restauração capitalista no Leste Europeu e na ex-União Soviética definiu a abertura de uma nova etapa histórico-política que começou, na década dos anos 1990, com uma situação reacionária. Favoreceu uma contra-ofensiva capitalista muito poderosa que se manifestou em dinâmicas de recolonização na periferia dos países

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dependentes, e a destruição maior ou menor dos direitos sociais nos países centrais.

As mobilizações anti-burocráticas de milhões de trabalhadores e jovens partiram de graus de inexperiência política tão grandes que, mesmo um quarto de século depois, a capacidade de organização independente é muito pequena. Se há uma região do mundo em que o marxismo é pouco influente neste século XXI é na Rússia e no Leste Europeu. Infelizmente, o mesmo quadro desolador persiste na China, ainda que, como sugerem as greves dos últimos anos, com maior capacidade de recuperação do proletariado.

A queda do muro de Berlim em 1989 não foi uma tragédia histórica.[3] Foi o acontecimento gatilho da última das ondas revolucionárias internacionais do século XX. E a mais i n c o m p r e e n d i d a d e t o d a a h i s t ó r i a . N o c a l o r d o s acontecimentos, a sua grandeza escapou à compreensão da maioria da esquerda e dos estudiosos brasileiros que foram educados em décadas de influência das teorias campistas que subverteram a interpretação marxista.

O campismo foi, na segunda metade do século XX, ao lado do gradualismo democrático-reformista, a mais influente teoria na esquerda mundial. Os campistas apoiavam seus argumentos com uma demonstração simples de sua estratégia. O mundo estava dividido em dois campos, o capitalista e o socialista. Seria uma questão de tempo para que a superioridade do socialismo fosse arrasadora. Revoluções sociais tinham sido enterradas pela história, porque o arsenal nuclear do imperialismo ameaçava a própria existência da civilização. Logo, toda a tática consistia em ganhar tempo para que a transição ao socialismo por via pacífica, respeitando as formas democráticas das Repúblicas burguesas, fosse conquistada. A coexistência pacífica favorecia, presumia-se, a passagem ao socialismo. A luta de classes deveria estar subordinada aos interesses diplomáticos da União Soviética nas relações com os Estados Unidos: a situação mundial se resumia a uma luta entre

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Estados. Influenciou gerações, afirmando que o mundo estava dividido em dois campos: o capitalista e o socialista, irreconciliáveis, sendo este último, presumidamente, a retaguarda estratégica das lutas de classes contra o imperialismo, apesar das oscilações da coexistência pacífica. Algumas poucas vozes marxistas alertaram para as perigosas consequências dos critérios campistas. [4]

A decadência indisfarçável dos regimes ditatoriais depois da revolução operária polonesa de 1980/81 liderada pelo Solidariedade a partir da greves de Gdansk já não permitia os entusiasmos dos anos cinqüenta, mas a influência tardia do estalinismo levou muitos dirigentes da esquerda – tanto no PCB e PCdB, quanto até no PT – a um olhar de suspeita sobre as mobilizações de massas na Alemanha, a greve geral na Tchecolosváquia e a insurreição na Romênia Não obstante, as revoluções anti-burocráticas foram das mais massivas, justas, corajosas, portanto, legítimas da história, sejam quais forem os critérios de comparação com outras revoluções democráticas. Já a decisão da maioria do Comitê Central do Partido Comunista da China de apoiar o plano das Quatro Modernizações defendido por Deng Xao Ping em 1978, e o XXVII Congreso do Partido Comunista da União Soviética em fevereiro de 1986, quando Gorbatchev conquistou o apoio para a perestroika estão entre os segundos e, ao contrário do que pensou na ocasião a maioria da intelectualidade de esquerda, não foram decisões que abriam o caminho para uma renovação do socialismo, mas para a restauração do capitalismo. Aqueles que reduzem explicações históricas de processos complexos ao balanço dos seus resultados, acabam atribuindo o que foi obra da contra-revolução à contra-revolução.

Dois processos de natureza diversa e de signos históricos opostos, estão associados, portanto, a 1989: a restauração capitalista foi um processo contrarrevolucionário essencialmente nacional, conduzido de cima para baixo pelos Estados e pelas burocracias dos partidos comunistas de cada

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país em ritmos diferentes; e a queda do muro de Berlim foi a expressão mais espetacular de uma onda de revolução democrática internacional, uma rebelião de baixo para cima de amplíssimo apoio popular, que iniciou na Praça Tian An Men em Pequim e foi derrotada no 4 de junho de 1989 com uma carnificina, mas obteve no 9 de novembro na Alemanha a primeira de uma série de vitórias que derrubaram, na seqüência, os regimes ditatoriais na Polônia, na Hungria e, antes do fim de dezembro, na Romênia.

A restauração capitalista foi uma transformação econômico-social que estava colocando abaixo a propriedade estatal, o monopólio do comércio exterior e o planejamento estatal e reintroduzindo a propriedade privada, a relação direta das empresas com o mercado mundial e a regulação mercantil.

A revolução política-democrática de 1989 foi uma vaga de lutas populares que uniu na rua a maioria da classe trabalhadora e da juventude em marchas, ocupações e greves que derrubaram os regimes monolíticos de partido único estalinistas que estavam conduzindo a restauração capitalista, e que agonizavam em função das seqüelas econômico-sociais que estavam provocando. Embora a última crise econômica mundial tenha demonstrado que os limites históricos do capitalismo são cada vez mais estreitos, do ponto de vista subjetivo estamos em condições tão adversas que são até piores que aquelas que viveram os internacionalistas da II Internacional, em minoria, antes da vitória da revolução de Outubro em 1917. A maioria da classe trabalhadora, mesmo nos países em que a industrialização já permitiu a configuração de uma classe operária importante, não abraça mais a esperança do socialismo.

Mas a luta de classes abrirá o caminho. Excessos de pessimismo histórico, mesmo se compreensíveis, não são racionalização realista. As próximas crises do capitalismo colocarão em movimento, inevitavelmente, os batalhões mais concentrados dos que vivem do trabalho. O proletariado do século XXI é mais

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poderoso que o do século passado: é mais instruído, está mais concentrado, e tem melhores condições político-sociais de arrastar atrás de si a maioria oprimida. Será nos calores destes embates que virão que se acelerará a reorganização da esquerda marxista.

[1] TROTSKY, Leon. El pensamiento vivo de Marx. Buenos Aires, Losada, 1984, p.43.

[2] TROTSKY, Leon. Programa de transição: a agonia mortal do capitalismo e as tarefas da Quarta Internacional. São Paulo: Proposta, 1981.

[3] SADER, Emir, A Esquerda depois do Muro. Carta Maior, 7 nov. 2009. Dispon;ivel em: http://bit.ly/1suou03. Consulta feita 9 nov. 2009.

[4] A tradição associada à elaboração de Leon Trotsky se destacou na reivindicação da centralidade do internacionalismo socialista: o antagonismo entre capital e trabalho permanecia a contradição ordenadora para um projeto socialista. Os internacionalistas reconheciam a existência de inúmeras outras contradições. Admitiram que seria justo se posicionar em defesa dos Estados pós-capitalistas contra os capitalistas, em defesa das nações oprimidas contra as opressoras, em defesa de regimes democráticos quando ameaçados pelo perigo de quarteladas ditatoriais, etc. Mas sustentaram que os antagonismos de classe continuavam sendo a contradição fundamental do capitalismo. Um projeto anticapitalista dependeria, estrategicamente, da reconstrução de um movimento operário internacional. Uma análise lúcida das distintas interpretações campistas – pró Moscou, ou pró Pequim – foi feita por Perry Anderson no seu clássico Considerações sobre o marxismo ocidental. Lisboa, Afrontamento, 1976.

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A queda do muro de Berlim e o

sonho da burocracia soviética

Gustavo Henrique Lopes Machado

Neste mês de novembro completa-se 25 anos da queda do muro de Berlim, prelúdio imediato do desmoronamento do mundo soviético. No segundo semestre de 1989 na Polônia, Checoslováquia, Hungria, Romênia, Bulgária e na República Democrática Alemã o poder do partido comunista abdicou sem que fosse necessário uma só batalha, uma só resistência séria por parte do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) e mesmo, exceto a execução de Nicolau Ceausescu na Romênia, sem que fosse necessário um só disparo. A União Soviética, enfraquecida, dissolvera-se algum tempo depois sob o comando de Boris Yeltsin. Um evento histórico desta magnitude ocorreu

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sem qualquer guerra civil ou resistência armada por parte dos membros do antigo poder e, não por acaso, é considerado um dos eventos mais enigmáticos da histórica contemporânea, mesmo entre os marxistas.

Sabemos que a União Soviética influenciava o conjunto das organizações comunistas espalhadas pelo globo e aparecia como um referencial central para maioria daqueles que vislumbravam alternativas para além do capital. Apesar de ser alvo de severa crítica entre alguns agrupamentos de esquerda, poucos foram os que não se viram órfãos após sua derrocada. Neste caminho, diversos teóricos marxistas decretaram o fracasso da alternativa aberta em outubro de 1917. Outros propagandeavam o fim do proletariado e o nascimento de um novo tipo de capitalismo, cujo conteúdo e fundamentos ainda se encontravam por desvelar. Muitos anunciavam a necessidade de reinventar o socialismo. Nesta direção seguiu, por exemplo, a maioria dos integrantes do Partido Comunista Brasileiro, ao dissolver a organização em 1991, dando origem ao Partido Popular Socialista.

Os ideólogos liberais e conservadores logo se apressaram em afirmar que tal acontecimento representava o triunfo definitivo do capitalismo sobre o socialismo, da economia de mercado sobre o planejamento econômico, em suma, a vitória definitiva e acachapante do capital. O conhecido artigo de Francis Fukuyama, O Fim da História, fundamentado em uma certa interpretação de Hegel, foi premeditadamente utilizado como um veículo de propaganda a respeito desta tese: o capital, com seu respectivo Estado, assentado igualdade jurídica do conjunto dos cidadãos, expressava o ponto final da história, cujo curso racional conduziu a humanidade à autoconsciência de sua liberdade. Neste caminho, a Revolução Francesa e o império napoleônico expressavam o último episódio violento da odisseia histórica rumo a igualdade e liberdade. Esta hipótese teve grande impacto nas elaborações subsequentes, como pressuposto implícito das diversas abordagens pós-modernas, que

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pressupondo uma objetividade sem devir, um todo capitalista insuperável e definitivo, tenderam para a fragmentação aleatória do conhecimento, para o abandono de qualquer perspectiva histórica totalizante e, sobretudo, a supressão de qualquer perspectiva teórica orientada ao futuro.

Seja como for, a hipótese do fim da história não explica como a insuperável economia de mercado com seu respectivo estado democrático de direito produziu no seu interior tantos movimentos de contestação, inclusive, o próprio estado soviético que acabara de ruir. Não explica como esta mesma economia de mercado, que nas suas insuficiências e contradições, propiciou o século mais revolucionário da história humana. Nos dias de hoje, tal tese se enfraquece ainda mais à luz das recentes crises e colapsos econômicos desenrolados no coração financeiro do capital: Estados Unidos e a Europa.. Ao mesmo tempo, um quadro geral de instabilidade, insegurança, incerteza e desilusão assombram o conjunto da humanidade. Neste sentido, na contramão das abordagens pós-modernas, uma velha missão hoje retorna: pensar o futuro, eis a tarefa. E para pensar o futuro é sempre necessário retornar ao passado e, em particular, ao evento que, para muitos, abriu uma nova era: o colapso do mundo soviético, que seria, ao mesmo tempo, o colapso do próprio marxismo com a perspectiva de futuro que por mais de um século este alimentou.

Como se sabe, a particularidade do marxismo no interior do movimento socialista no século XIX consistia na aposta de que para destruir o capital, em sua universalidade manifesta através do mercado mundial, faz-se necessário um sujeito social dotado de igual universalidade, cujos interesses particulares o possibilitem se elevar à universalidade da revolução socialista, para além das especificidades regionais ou nacionais: este sujeito é a classe trabalhadora. Antes de uma profecia, esta premissa se assenta em uma necessidade objetiva. Sem um sujeito universal não é possível dar cabo no capital, cujos tentáculos se estendem cada vez mais por todo

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globo, em extensão e profundidade. A possibilidade de um país socialista isolado, envolto pelo mercado capitalista mundial, com o qual precisa se relacionar econômico e politicamente, somente poderia se admitir por um curto período de tempo e, para as primeiras gerações de marxistas, neste cenário, unicamente duas saídas eram concebíveis: revolução mundial ou restauração capitalista.

A sobrevivência da revolução russa após a guerra civil, em frangalhos é verdade, e sua posterior burocratização, levantou inelutavelmente a questão: exceto por uma intervenção externa, quem seria o agente interno que possibilitaria a restauração capitalista na União Soviética? Por não possuir uma classe capitalista, uma classe de proprietários privados, muitos julgaram que tal restauração seria impossível. Países capitalistas e socialistas poderiam conviver lado a lado por um tempo indeterminado. Estava dada as bases da teoria do socialismo em um só país.

Entretanto, na contramão desta concepção e reafirmando os princípios da teoria marxista clássica, Leon Trotsky dirá em meados da década de 1930 que

“a coação exercida pelas massas no Estado operário[URSS] é diretamente proporcional às forças que tendem para a exploração ou para o perigo da restauração capitalista” (TROTSKY, 2005, p. 120), diz ainda que “ninguém negou nunca a possibilidade [na URSS] […] da restauração de uma nova classe proprietária originária da burocracia. A atual posição da burocracia, de que por meio do Estado, tem “em certa medida” as forças produtivas nas suas mãos, constitui um ponto de partida de extrema importância para um processo de transformação. Trata-se, no entanto, de uma possibilidade histórica e não de algo já realizado” (TROTSKY, 1986, p. 218-219).

Como se vê, para Trotsky, a restauração capitalista no interior da URSS era não apenas possível, como uma tendência

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inexorável que apenas poderia ser freada definitivamente pela revolução internacional. E mais ainda, seria a própria burocracia, na exata medida que se defrontassem com seus privilégios ameaçados, o germe da nova classe proprietária. No mesmo sentido, mas de maneira mais determinada, Nahuel Moreno, reafirmando a possibilidade da restauração capitalista, diz em 1979 que a

“burguesia restauracionista não será a velha burguesia, mas a ampla maioria dos tecnocratas, a burocracia, a aristocracia operária e camponesa. Estes setores aspirantes a burgueses defenderão, muito possivelmente, que as fábricas deixem de ser do ‘Estado totalitário e que passem para as mãos dos operários’ como propriedade de cooperativas de trabalhadores” (grifo nosso) (MORENO, 2007, p.112).

Ora, nos dias de hoje, sabemos à quem o processo histórico deu razão. Pressionada pelo baixo crescimento econômico da era Brejnev, a burocracia soviética através de Mikhail Gorbachev instituiu, em 1986, a perestroika que visava a abertura

econômica e a conformação de um suposto socialismo de mercado. Neste curso, foi aprovada em 1987 a lei que permitiu investimentos estrangeiros na União Soviética através de empresas mistas e, finalmente, em 1988, a propriedade privada

foi oficialmente restaurada sob a forma de cooperativas no interior da indústria, nos serviços e em sectores de comércio exterior. O previsível colapso econômico que se seguiu possibilitou aos burocratas do PCUS, finalmente, se apropriarem em definitivo dos meios de produção soviéticos. O prognóstico de Nahuel Moreno se mostrou profético.

A emergência de uma nova classe de proprietários oriunda da antiga burocracia do PCUS é hoje atestada por farta documentação e pela totalidade da historiografia que se enveredou pelo tema. Por exemplo, Eric Hobsbawn nos diz que os burocratas, “após o fim do comunismo, tomaram-se os donos

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antes sem direitos legais de propriedade” (HOBSBAWN, 1994,

p.469). O jornal Moscow Times, órgão da embaixada norte-americana em Moscou, anunciou em 1994:

“Quase da noite para o dia, os patrões do Partido e os diretores das fábricas e fazendas estatais tornaram-se os reais controladores de seu próprio destino – e também o destino dos trabalhadores. Estavam agora livres para fixarem os próprios salários, para se apoderarem dos apartamentos e automóveis entregues a eles, e para utilizarem a propriedade, o equipamento e a força de trabalho, no propósito de fazer dinheiro do modo que desejavam” (grifo nosso) (BROUÉ, 1996, 187).

No mesmo sentido, o historiador francês Marc Ferro, imune a qualquer acusação de trotskismo, diz que

“uma vez instaurada a privatização, cada qual recebeu um cupom, mas muitos tiveram que passá-los adiante a fim de saldar as despesas cotidianas. Os membros da nomenklatura mais bem posicionados adquiriram tais cupons por uma ninharia, e então o reinado da Cleptocracia teve início, caracterizado pelas privatizações feitas de modo selvagem; o petróleo, o gás, os minerais passaram para as mãos de alguns poucos poderosos, e o banditismo se impôs nos meios bancários” (FERRO, 2009, p.79-80).

O socialismo em um só país mostrou-se, como já prognosticara Marx e toda tradição dele decorrente, como insustentável. Grande parte da burocracia se encontrava, agora, livre da mediação do Partido e do Estado para apropriação privada da riqueza produzida pela classe trabalhadora russa. De uma perspectiva marxista, se alguma questão nos resta a ser respondida, não é o por que do colapso da União Soviétiva, mas por que ela durou tanto tempo.

Para concluir, mencionamos uma anedota interessante para os nossos propósitos. Em 1946, conforme nos narra o historiador

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Jean Jacques-Marie, o comandante das Forças Armadas Soviéticas durante a Segunda Guerra Mundial, Jukov, após um breve período de glória, caíra em desgraça diante de Stálin. Dentre os elementos usados contra o comandante da Batalha de Stalingrado se encontravam diversos objetos de luxo por ele roubados da Alemanha ocupada ao final da segunda guerra mundial. Interrogado, Jukov respondera em tom de lamentação que não possuía nada, que até seus troféus de guerra eram propriedade do Estado. Como se vê, os burocratas russos ainda teriam que esperar mais de quatro décadas para realizarem seu sonho. Em 1989-1991 o socialismo em um só país encontrou o seu autêntico caminho e sua antiga casta dirigente atingiu, finalmente, a libertação. Ao mesmo tempo, se consumou a derrota dos trabalhadores russos que em 1917 mostraram um novo caminho para a humanidade. O Espírito Absoluto se reconciliou consigo mesmo e a histórica chegou ao seu fim. Pelo menos, por enquanto…

Referências bibliográficas

BROUÉ, Pierre. União Soviética: da revolução ao colapso. Porto Alegre: EdUFRGS, 1996.

HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos. São Paulo, Cia das Letras, 1994.

FERRO, Marc. A Reviravolta da História: a Queda do Muro de Berlim e o Fim do Comunismo. São Paulo: Paz e Terra, 2009.

MARIE, Jean-Jacques. Stalin, São Paulo, Babel, 2011.

MORENO, Nahuel. A Ditadura Revolucionária do Proletariado. São Paulo: José Luís e Rosa Sundermann, 2007.

TROTSKY, Leon. A revolução traída: o que é e para onde vai a

URSS. São Paulo: José Luís e Rosa Sundermann, 2005.

TROTSKY, Leon. Em defesa do marxismo. São Paulo: Proposta,

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