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Migração internacional, multiculturalismo e identidade: sírios e libaneses em Minas Gerais

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Migração internacional, multiculturalismo e identidade: sírios

e libaneses em Minas Gerais

∗∗

Leonardo Hipólito G. Fígoli♣♣ Elaine Meire Vilela♦♦

Resumo

Os imigrantes sírios e libaneses, residentes em Minas Gerais, mantêm uma forte ligação com suas sociedades de origem e respectivas tradições culturais, por maiores que tenham sido as pressões exercidas pela sociedade brasileira para a sua assimilação. No Brasil, observa-se a coexistência e o confronto diferencial no qual imigrantes buscam acomodar-se aos padrões da cultura hospedeira sem, no entanto, perder seus traços distintivos, num esforço dirigido à construção e manutenção das redes e identidades sociais num contexto geralmente adverso, imposto pela sociedade anfitriã. Portanto, o jogo multicultural das diferenças, cujas regras se definem em processos sociais marcados por lutas sociais, resulta na convivência de várias linhagens étnicas envolvidas em intensos processos de contato interétnico. Sírios e libaneses se, por um lado, se incorporaram à sociedade brasileira, por outro, o fazem por meio de um sistema singular de relações que resulta do contato intenso entre grupos que se vêem como essencialmente diferentes e, em virtude de uma "ótica étnica", delimitam espaços de inclusão e exclusão. Nesse sentido, a consciência das diferenças tem promovido a construção de identidades étnicas, as quais são artifícios culturais de interação, organização e resposta ao desaparecimento social, organizacional e simbólico, imposto pela sociedade hospedeira.

Trabalho apresentado no XIV Encontro Nacional de Estudos Populacionais, ABEP, realizado em Caxambú- MG – Brasil, de 20- 24 de Setembro de 2004.

Professor do Departamento de Sociologia e Antropologia, da Universidade Federal de Minas Gerais.(UFMG)

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Migração internacional, multiculturalismo e identidade: sírios

e libaneses em Minas Gerais

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Leonardo Hipólito G. Fígoli♣♣ Elaine Meire Vilela♦♦

Processos Migratórios e Contextos Culturais

São múltiplos os fatores – sociais, econômicos, políticos e religiosos- que historicamente tem conduzido parcelas significativas dos povos do Oriente Médio, particularmente entre sírios e libaneses, a abandonar seus territórios para emigrar a outros países. Entre tantos destinos, o Brasil tem sido, desde muito cedo, um dos mais importantes lugares de assentamento dessa corrente migratória internacional.

Mesmo considerando essa longa história dos movimentos migratórios que partiram do Oriente Médio, focalizaremos nossa análise com base nos dados levantados relativos a um segmento desse amplo e antigo fluxo migratório, limitando nossas reflexões ao grupo de sírios e libaneses que tem se dirigido, a partir de fins do século passado, ao Brasil, particularmente, ao Estado de Minas Gerais (Região Sudeste do Brasil).

À luz desses dados, queremos, em primeiro lugar, apontar as modalidades de deslocamento que tem apresentado o movimento migratório desde fins do século passado; em segundo lugar, apresentar uma descrição e interpretação etnográfica das formas efetivas de

incorporação dos migrantes aos sistemas de organização regional e urbana; e por último,

num outro plano de abordagem do fenômeno, argumentar que o fenômeno migratório como um todo, desde a partida até a instalação e fixação nos locais de destino, rurais ou urbanos, é

apreendido e percebido, pelos agentes, migrantes e segmentos da sociedade receptora, segundo uma ótica etnizada. Argumentamos que esse modo de percepção lhes provê uma

forma de apreensão e explicação tanto do processo migratório quanto dos de inserção, vividos na sociedade de destino.

Trabalho apresentado no XIV Encontro Nacional de Estudos Populacionais, ABEP, realizado em Caxambú- MG – Brasil, de 20- 24 de Setembro de 2004.

Professor do Departamento de Sociologia e Antropologia, da Universidade Federal de Minas Gerais.(UFMG)

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Em outras palavras, com o propósito de compreender as especificidades do fenômeno da migração de sírios e libaneses, levamos em conta os aspectos típicos demográficos do deslocamento mas também sublinhamos o caráter étnico que assume o processo, quando se observa o fenômeno desde a perspectiva dos próprios agentes.

Com esse propósito, estaremos tomando a própria etnia como uma forma de

representação coletiva – no sentido durkheimniano do conceito- isto é, assumimos que a

própria etnia apresenta-se como um dos termos de um sistema de relações assimétricas (contrárias ou contraditórias), a qual se expressa nas identidades étnicas desses grupos, manifestas em diversos contextos interativos. Em outras palavras, consideraremos o

fenômeno étnico como produto de um sistema simbólico dinâmico, manifesto nos contextos interativos produzidos pela migração. Ainda, tomaremos o fenômeno como essencialmente relacional, contrastivo e situacional, expresso em identidades étnicas que operam como núcleos de ideologias articuladas em torno a valores etnocêntricos (FIGOLI, 1982;

VILELA, 2002).

Assim, as representações coletivamente elaboradas em e pela situação de contato promovida pela migração, se impõem como estruturas aos agentes como sendo “o mundo” mesmo, fazendo com que os agentes vivam suas ações por meio da ideologia étnica. Portanto, será no plano das ideologias produzidas nesses contextos sociais e culturais, em que ocorre o processo migratório, que poderemos surpreender os agentes expressando não apenas suas relações objetivas predominantes entre os grupos étnicos em contato, mas as relações

imaginárias, vividas das relações reais entre os grupos. (FIGOLI: 1982: 110). A ideologia,

portanto, tal como a concebemos, não é mera transposição das relações sociais ao nível do imaginário e sim um sistema simbólico com propriedades performativas, uma força modeladora das condutas dos seus portadores. Nessa linha de argumentação, concordamos com Bourdieu (1977) com a idéia de que a representação do mundo social não é um mero dado ou registro, um simples reflexo desse mundo, mas o produto de inúmeros atos de construção depositados nas palavras comuns, nos termos performativos, que fundam o sentido do mundo social ao tempo que o registram, que contribuem a produzir a ordem social,

produzindo os grupos que elas designam e que elas mobilizam. Assumimos, com esses

pressupostos, que os elementos simbólicos presentes no fenômeno migratório são forças essenciais na promoção e manutenção das redes sociais (networks) e laços, de um lado, entre migrantes e, de outro, destes com suas sociedades de origem, apesar das enormes pressões exercidas pela sociedade anfitriã para a assimilação dos migrantes.

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Com efeito, a pesquisa mostrou que os imigrantes, num contexto interativo de coexistência caracterizado pelo confronto diferencial com a sociedade receptora, em ambientes geralmente adversos impostos pela sociedade envolvente, buscam acomodar-se aos padrões da cultura hospedeira sem, no entanto, perder seus traços distintivos, revelando esforços constantes dirigidos à manutenção dos laços de solidariedade grupal por meio da alimentação das suas identidades sociais. Desta forma, sírios e libaneses se, por um lado, tem-se incorporado à sociedade brasileira, por outro, o fazem como grupos que são vistos e tem-se

percebem como etnicamente diferentes, em virtude do que delimitam espaços sociais

específicos de inclusão e exclusão.

É necessário assinalar que o fenômeno da etnicidade, isto é, a relação que se estabelece entre grupos que se vêem e são vistos pelos outros como étnica e culturalmente distintos, se dá no interior de uma sociedade pluriétnica. É, portanto, nessa intensa interação de contato étnico, ou, em outros termos, nesse jogo multicultural de diferenças marcado por lutas sociais e pela convivência de várias linhagens étnicas, que constitui o contexto em que os imigrantes lutam por inserir-se nos sistemas organizativos nacionais, sem perder suas respectivas identidades.

Nesse sentido, a consciência das diferenças tem promovido a construção de identidades étnicas, as quais são artifícios culturais de interação, organização e resistência ao desaparecimento social, físico e simbólico imposto pela sociedade dominante.

A migração de Sírios e Libaneses para o Brasil

Desde os primórdios da colonização portuguesa, o Brasil tem sido um local de absorção de imigrantes. Primeiro foram os próprios colonizadores portugueses e, mais tarde, os escravos negros. A partir dos últimos dois séculos, entraram no país uma variedade imensa de imigrantes de todas as origens: europeus, asiáticos, povos do Oriente Médio, etc.

O início de uma corrente migratória livre de sírios e libaneses para o Brasil se dá no último quarto do século XIX. Antes dessa data, há registros de alguns poucos indivíduos que ingressaram ao país sob o rótulo genérico de “turcos-árabes”. Essa denominação foi aplicada a aqueles que viajavam com documentação emitida pela Turquia, que dominou a região do Oriente Médio por mais de 400 anos, e aos indivíduos pertencentes a algum dos numerosos países que constituíam o chamado Mundo Árabe1. As circunstâncias em que ocorrera o deslocamento fez com que os imigrantes fossem logo classificados pelos agentes e

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pelas instituições governamentais, ao ingressar ao território brasileiro, com várias designações genéricas como “turcos”, “árabes”, “turco-árabes” ou mesmo

“sírio-libaneses”, o que explica a imprecisão dos registros oficiais por origem. De fato, afirma

Knowlton (1961) que todos os imigrantes do Oriente Médio, sem distinção, foram classificados como “turcos” até 1892, quando os sírios passaram a ser listados separadamente – mas incluindo sob esta denominação os migrantes libaneses, uma vez que estes faziam parte da Grande Síria2. Os libaneses só passariam a ser distinguidos como tais a

partir de 1926, por ocasião da proclamação da República Libanesa, ao separar-se da Síria.

A imigração para o Brasil se inicia com índices modestos. De 1870 a 1880, entraram oficialmente nos portos brasileiros um total de 1.946 “turco-árabes”. Entre 1882 e 1895, o fluxo migratório vai aumentando lentamente, apresentando um rápido crescimento a partir de 1898 quando registra 1.131 entradas somente naquele ano. No ano seguinte, o ingresso de migrantes quase duplica, e alcança o número de 2.110 indivíduos. Apesar do rápido crescimento nesse período, a seguir se verifica uma súbita queda do número de entradas, que chega apenas a 431 imigrantes durante o ano de 1902. Segundo os dados históricos, corroborados pelas informações fornecidas pelos próprios imigrantes, tanto sírios quanto libaneses, a forte diminuição da entrada de pessoas do Oriente Médio é conseqüência da proibição à emigração, imposta pelo governo turco aos países sob seu domínio, exceto o Egito. De fato, a proibição tornou-se mais rigorosa por volta de 1900, à medida que a Turquia, envolvida numa série de guerras balcânicas e coloniais, demandava de homens para suprir o exército turco, impedindo a saída de indivíduos em idade militar. Em 1903, derrogada a lei imposta pela Turquia que impedia a emigração, o contigente de indivíduos provenientes da Síria e do Líbano para o Brasil volta a crescer ininterruptamente até a Primeira Grande Guerra. Nos anos que a precederam, até o próprio ano de seu início, o número de entradas chegou a 33.220 imigrantes, sendo que 10.866 o fizeram durante o ano de 1914. (AB`Saber, 2001).

Os imigrantes sírios e libaneses que entraram no Brasil no período que vai de 1870, quando se inicia o forte deslocamento internacional, até 1914, podem ser considerados os

pioneiros, migrantes da primeira geração que foram promotores de uma imigração de caráter livre, isto é, constituída, em grande parte, por indivíduos que não escolheram o Brasil como

destino de sua migração. De fato, em primeiro lugar, temos aqueles indivíduos que, por razões sanitárias ou educacionais, não foram aceitos pelos Estados Unidos e foram desviados

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para o Brasil, aceito como destino alternativo; em segundo lugar, aqueles que chegaram ao Brasil ludibriados pelas companhias de navegação que prometendo levá -los a América (do Norte) os aportavam na América do Sul, alegando não haver diferenças; ainda, há uns poucos aventureiros que, almejando vir para a América, não se importavam em que país iriam aportar; e, por último, por um número pequeno que veio intencionalmente ao Brasil, pois detinham informações que os levaram a tomar a decisão de migrar diretamente para o país.

No período da Grande Guerra, poucos foram os sírios e libaneses que puderam deixar seus países. Mais tarde, entre 1920 e 1930, a imigração experimenta uma flutuação anual que varia entre mil e cinco mil, alcançando um pico de 7.308 em 1926. A depressão econômica de 30 e a adoção, pelo Brasil, do sistema de quotas para entrada de imigrantes reduziram a imigração a níveis bastante baixos. Com a deflagração da Segunda Guerra Mundial, esse número caiu ainda mais (cf. KNOWLTON, 1961).

Neste período, se destaca uma segunda geração de imigrantes sírios e libaneses, caracterizada pelo fato de ser uma migração em massa para o Brasil, que escolheu seu destino pelas notícias obtidas entre os primeiros imigrantes, bem como na própria presença dos pioneiros produtores de redes sociais. Essa geração de imigrantes, na grande maioria, contou com uma estruturada e ampla rede social (social networks) constituída por conhecidos e parentes que se encontravam inseridos, mesmo que em alguns casos precariamente, no meio social e econômico, rural ou urbano, do País, rede essa que ofereceu ampla assistência para o estabelecimento dos novos imigrantes, constituída de moradia, obtenção de trabalho, aprendizado da língua, entre outros recursos vitais para a sobrevivência no novo local.

A partir dos anos 50, enquanto a imigração de sírios apresenta uma queda contínua, a de libaneses se intensifica, provavelmente reflexo da instabilidade política e econômica que experimenta a região de origem, em conseqüência do recém constituído Estado de Israel. A entrada de milhares de refugiados palestinos e a invasão dos exércitos da Síria, Israel e Irã em território libanês, resultaram em vários e graves conflitos que redundaram em uma prolongada guerra, que duraria quinze anos (1975 a 1990). A situação de intensos conflitos sociais e de confronto bélico estimulou fortemente a emigração de importantes contingentes de libaneses

Os que vieram após a Segunda Guerra Mundial, em uma imigração em massa e

intencionalmente dirigida, constituem uma terceira geração de imigrantes, á qual pertence à

maioria dos informantes. Esses, chegaram ao país com local de destino e residência certos. O papel das redes sociais na decisão de migrar e nas modalidades de instalação é crucial nesta

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geração. Diferentemente da leva anterior, esta geração de imigrantes se desloca convocados pelos parentes ou amigos já estabelecidos.

Atualmente o quadro de migração é completamente diferente, são pouquíssimos os libaneses que se dirigem ao Brasil. O número reduzido de entradas de migrantes libaneses no país pode ser parcialmente explicado pelas dificuldades impostas pelo governo brasileiro na obtenção do visto de permanência. Por seu lado, os sírios, com a estabilidade política do seu país, alcançada em 1970, reduziram significativamente o fluxo de emigrantes para o Brasil.

A migração internacional supõe muitos riscos mas a confiança nas redes interpessoais de informação e solidariedade entre os migrantes da mesma geração e entre as várias gerações que se sucedem na vinda ao Brasil, se mostrou um recurso estratégico tanto na tomada de decisão de emigrar quanto na escolha do local de destino e, fundamentalmente, na superação das dificuldades de estabelecimento no novo meio social. Nesse sentido, entendemos que a migração que protagonizam sírios e libaneses desde fins do século passado para o Brasil não pode ser considerada produto de uma empreitada individual, efeito de agentes desgarrados do tecido social de suas origens. Ao contrário, como também apontam outros estudos “a maior parte dos que emigraram o fez não com a decisão tomada individualmente, mas apoiada por uma base familiar ou, no mínimo, uma rede de conterrâneos” (TRUZZI, 1997:34). Com efeito, um avultado movimento de remessas de dinheiro, junto ao caráter inicialmente temporário da migração, não permite sustentar a imagem de aventureiros desgarrados em busca de interesses exclusivamente individuais. (cf: ibidem)

De fato, pudemos verificar um fenômeno que já foi observado em outros movimentos migratórios similares, de caráter étnico, em que o deslocamento, muitas vezes pioneiro de um indivíduo ou mesmo de uma família nuclear, revela profunda solidariedade com um projeto

migratório grupal, pois suas trajetórias e experiências precursoras são logo estendidas

facilitando a migração e a instalação de amigos e parentes ligados por consangüinidade e afinidade, que muitas vezes se instalam nos mesmos locais. Freqüentemente, como acontece com os sírios e libaneses, ocorre uma fragmentação temporária do grupo familiar, suficiente para permitir a recomposição do grupo. Em migrações de caráter grupal se observa que a

fragmentação não tem duração mais que a necessária para assentar as bases de subsistência do mesmo, no lugar de destino. Decidido isto, apoiado numa base econômica duradoura, a reconstrução do grupo familiar é imediata, estendendo as bases de seu assentamento para outros grupos

domésticos aparentados que os sucederam rapidamente. (cf. FIGOLI, 1982:55). Em outras palavras, podemos surpreender assim, na singularidade da migração individual ou mesmo familiar o caráter grupal do processo migratório, manifesto em todas a etapas do mesmo,

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desde a tomada de decisão de emigrar, passando pela modalidade migratória até a inserção nos locais de destino.

A inserção dos migrantes nos sistemas de organização rurais e urbanos

Ao chegar ao Brasil a geração dos pioneiros contou com escassas opções de trabalho, pois, em primeiro lugar, os migrantes se depararam com uma estrutura agrícola baseada em grandes lavouras que, de um lado, lhes vedava o acesso a terra, e de outro, lhes resultava totalmente estranha uma vez que culturalmente estavam mais habituados à agricultura familiar de pequeno porte; em segundo lugar, como a maioria não contava com recursos financeiros, tornar-se proprietários rurais era quase impossível; em terceiro lugar, converter-se em colonos nas grandes fazendas exigia concorrer com imigrantes europeus, preferidos3 pela elite rural brasileira, que muitas vezes arribavam com empregos garantidos. Todavia, alguns sírios e libaneses aventuraram-se como colonos, mas por pouco tempo pois logo se trasladaram para as cidades mais próximas, devido à falta de perspectivas de rápida melhoria de vida.. Os relatos de insucesso desses imigrantes que experimentaram a vida de colonos também contribuíram para dissuadir outros a trabalhar na agricultura (cf. KNOWLTON: ) Não tendo muitas opções, e desejando voltar para a terra natal o mais breve possível, os primeiros sírios e libaneses que aqui chegaram, segundo as trajetórias laborais que pudemos traçar, também verificadas em outros estudos (EL KADI,1997), transformaram-se em “mascates”, mercadores ambulantes que desempenhariam um papel econômico essencial, enquanto distribuidores de mercadorias, no complexo sistema da cadeia produtiva.

Uma vez que os imigrantes vieram em sua imensa maioria solteiros, com a determinação de acumular riqueza e retornar à terra natal, muitos deles não hesitaram em optar por “mascatear”. Essa atividade econômica se mostrava primeiro, adequada ao projeto do enriquecimento rápido, segundo, conferia também uma certa autonomia de trabalho, fundamental para garantir a liberdade necessária para efetuar o retorno, muito mais difícil entre os empregados contratados, colonos ou operários (TRUZZI, 1997).

O ofício de vendedor ambulante tinha seus riscos, mas muitas vantagens. O comércio de mercadorias dispensava de qualquer habilidade técnica4, bem como de uma soma significativa de recursos econômicos. Igualmente, não exigia mais que um conhecimento

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Preferidos porque a elite brasileira os via como elementos de melhoria na composição genética do povo brasileiro que era composta, na maioria, de negros e mulatos. Seria uma forma de promover o branqueamento da população mestiça. Além disto, os europeus estavam dispostos a trabalharem na lavoura, diferentemente dos sírios e libaneses.

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rudimentar da língua portuguesa, que o próprio trabalho se encarregava de aperfeiçoar. O desemprego também não constituía ameaça, como o era para colonos e operários. Além disto, mascatear prometia levar mais rapidamente à prosperidade, ainda que fosse ao custo de muito sacrifício. Como nos relata um imigrante sírio:

“(...) no primeiro dia que chegou foi trabalhar e, sem saber falar o português, ele ganhou dez mil réis. Dez mil réis, naquele tempo, era dinheiro. Com três anos no Brasil, ele comprou esta casa (...). Meu pai contava que sentava num restaurante tinha vontade de comer dois pratos, mas só podia comer um, para economizar o outro.” (A., sírio)

Segundo os depoimentos registrados, a estratégia econômica modal dos migrantes consistia em, logo que pudessem, com proventos suficientes, deixavam de viajar a pé e compravam uma tropa de burros. Mais tarde, com mais recursos acumulados, buscavam fixar-se nos vilarejos da maior freguesia, com uma pequena loja. Estabelecer-se, fixar a loja era a meta de todos os comerciantes; lojas-bazares, ou de secos e molhados, onde se “vendia de tudo: tecidos, ferragens, miscelâneas; matava porco e vendia o toucinho fresco no balcão”, como descreve um de nossos informantes5.

As lojas tornaram-se verdadeiros centros comerciais, e, como tais, fontes de atração e estímulo para a renovação do fluxo migratório. Segundo pudemos registrar nos relatos migratórios, o comércio bem sucedido se tornou um forte incentivo para a migração em massa. O mais comum era que seus proprietários, frente ao relativo sucesso econômico obtido, remetiam logo recursos necessários para auxiliar suas famílias e trazer os parentes e amigos, com o objetivo de incorporá-los, trabalhando nos arredores como vendedores do seu comércio.

De acordo com nossos dados, os primeiros a fixarem-se no país contribuíram para que se formassem, em todo o território brasileiro, núcleos ou colônias que iriam a ser procurados por todos os recém-chegados. Parentes, conterrâneos, amigos, provenientes da mesma aldeia ou região, de acordo com os padrões identitários prevalecentes no local de origem, encontravam nesses núcleos formas de solidariedade e cooperação. Os pioneiros formaram assim uma rede social vital, que oferecia todo tipo de ajuda aos novos viajantes, amenizando o custo da acomodação à nova situação, fornecendo informações indispensáveis para a sobrevivência e entrada no mercado de trabalho.

Esse quadro não demorou muito para se ampliar e estender. Os mascates de outrora passaram logo a lojistas de cidades maiores, geralmente armarinhos especializados no

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comércio de tecidos e aviamentos. As trajetórias, na maioria dos casos estudados, mostram que uma grande parte se inicia nas atividades econômicas em sociedades estabelecidas com patrícios, parentes, amigos ou conterrâneos, separando-se logo que prosperaram. Em muitos casos, tornaram-se empresários, com grandes lojas de atacado e varejo. Não poucos deram o passo seguinte, o do estabelecimento de uma indústria, geralmente têxtil ou de confecções.

A inserção ocupacional em massa de sírios e libaneses na atividade comercial, geralmente no mesmo ramo de produtos, exige uma análise. Os próprios migrantes justificam a escolha partilhada como produto de uma certa “inclinação natural”, atividade que, no dizer deles, “está no sangue”. Mas, ao contrário do que poderíamos supor, não se trata de atividade econômica que os migrantes praticassem antes da partida, nos locais de origem, sendo a agricultura familiar e as criações as ocupações econômicas mais citadas. Portanto, o que é apontado como uma característica do grupo, propriedade natural, comum, hereditária, transmitida pelo sangue, faz parte de uma percepção etnizada da experiência singular de inserção à estrutura econômica e do sistema de ocupações locais, vivido pelo grupo no Brasil. Atribui-se assim, no plano discursivo, uma propriedade de origem étnica às condutas econômicas que resultaram duma escolha padronizada de um tipo de atividade comercial. Sem dúvida, expressa-se desse modo não apenas as relações econômicas objetivas predominantes no processo de incorporação ao sistema econômico no local de assentamento dos migrantes, mas relações que são imaginárias, vividas que têm por referência as relações reais que tomam lugar entre os grupos em interação. Sob a forma de uma explicação étnica, os agentes “naturalizam” um tipo de conduta comum que, como vimos, resulta de outros condicionantes que foi como estratégia frente às escassas opções de trabalho no momento da chegada. Opções julgadas desvantajosas e inadequadas para o projeto e as metas dos migrantes. Portanto, a atividade comercial se revela uma estratégia econômica do grupo de migrantes no processo de inserção à estrutura sócio-econômica do Brasil, revestida de um certo caráter étnico, uma vez que a “naturalização” dessa conduta social tende a substituir o arbitrário social que a origina, isto é, as condições históricas e estruturais do momento da chegada, por um discurso etnocêntrico que afirma a existência de habilidades naturais, vistas como valores característicos do grupo.

O homem, como se sabe, é o resultado do meio cultural em que foi ou está sendo socializado. Mais ainda, a antropologia nos ensinou que “ele é um herdeiro de um longo processo acumulativo, que reflete o conhecimento e a experiência adquiridas pelas numerosas gerações que o antecederam” (LARAIA,1986: 46). Assim também, herdeiros das experiências das primeiras gerações de imigrantes, e provavelmente de experiências bem

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sucedidas de correntes migratórias com destinos similares ao do Brasil, transmitida pela via ágil das redes sociais, os sírios e libaneses se entregaram às atividades comerciais não por questões “naturais” ou genéticas, como quer o próprio grupo, e sim por constituir uma resposta adaptativa, constitutiva da cultura migratória elaborada pelo grupo como um todo.

Sírios e libaneses, com uma forte inserção no comércio e até na indústria alcançaram importantes posições econômicas nos quadros da sociedade brasileira, destacando-se nos mais diversos meios urbanos, em praticamente todas as regiões do Brasil. Porém, não ficaria completa a descrição das formas efetivas de inserção dos migrantes nos quadros da sociedade hospedeira se limitamos a análise às atividades econômicas, seja o comercio ou a indústria, uma vez que, atualmente, o grupo apresenta uma forte presença no campo político. De fato, na última legislatura brasileira, estimou-se em mais ou menos oitenta o número de parlamentares de origem libanesa ou síria. Pode se afirmar, em conseqüência, que o êxito alcançado seja em mobilidade social ou representação política, provavelmente, não encontra paralelo em outras comunidades étnicas fixadas no território brasileiro.

Multiculturalismo: os jogos de identidades

As teorias interacionistas que fundamentam nossas análises do fenômeno étnico, propõem que este assenta-se em relações de competição entre grupos, que são vistos pelos outros e se vêm a si mesmos como culturalmente distintos. Assim, expressões básicas da etnicidade podem ser apreendidas nas distinções sistemáticas que elaboram os grupos para separar o interno e o externo, ou melhor, nas fronteiras que se delimitam com simples termos como nós e eles, distinções essas que são inerentes a todo processo de contato de caráter interétnico. Desse modo, entendemos que os migrantes sírios e libaneses, partícipes das mesmas etapas, circuitos de deslocamento, e modos de inserção, constituem uma

comunidade de experiência (FIGOLI, 1992: 171) assentada na instância objetiva da

migração, na qual a competição e as contradições com a sociedade hospedeira se evidenciam, promovendo a ativação da identidade que opera como suporte de uma luta comum. A própria migração constitui uma instância social crítica que reforça, pela comunhão das relações objetivamente travadas com os diversos segmentos da sociedade anfitriã, uma identidade de relações vividas (Ibidem: 175). As identidades étnicas elaboradas nessas condições por sírios e libaneses são, em outros termos, categorias sociais produzidas em situações sociais de competição e conflito; resultantes diretos de um contexto social hierarquizante, no qual sírios e libaneses, enquanto grupos étnicos minoritários, são situados numa escala social em que a sociedade receptora, em tanto majoritária, se coloca no topo da mesma. A identidade

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étnica, socialmente construída sob os critérios e rótulos dominantes, se apresenta menos como

uma incorporação passiva da definição social imposta pelo grupo majoritário que como uma apropriação diferencial dessa mesma construção para canalizar as lutas comuns na acomodação à sociedade local. Nisto nos parece residir o caráter paradoxal que assume a

identidade étnica nessas condições, de um lado sendo o produto da definição dominante, de outro, o núcleo de uma ideologia etnocêntrica capaz de mobilizar os seus portadores em função dos seus interesses (Ibidem: 170).

Os grupos considerados aqui, sírios, libaneses e os segmentos da sociedade brasileira, envolvidos em relações de fricção interétnica (CARDOSO DE OLIVEIRA, 1976), caracterizados pela competição e o conflito são produtores de ações e discursos estigmatizantes que cristalizam numa série de rótulos e estereótipos, manipulados pelos grupos, que alimentam atitudes discriminatórias. Nos discursos levantados, pudemos registrar numerosos termos etnocêntricos e carregados de uma visão homogeneizadora para designarem indistintamente a sírios e libaneses:

a) “turcos”; rótulo que além de apontar para a origem regional possui um sentido pejorativo, pois a ele estão associado idéias de avareza, mesquinharia, excesso de interesse por dinheiro e deslealdade nos negócios.

b) “árabes”, “turco-á rabes”, fazem alusão à língua e portanto à origem regional, mas enquanto rótulo salienta muitas vezes os aspectos exóticos da cultura, como as atitudes políticas extremas, as concepções religiosas fundamentalistas e o rigor e dominação com as mulheres. Esta visão é compatível com todo um discurso orientalista6 elaborado pelo

ocidente – como tem mostrado o palestino Edward Said (1990) - bastante comum na imprensa, nos estudos eruditos até em pesquisas, com o objetivo também de justificar um ponto de vista dominador e controlador sobre a região.

c) sírio-libanês; é um rótulo menos freqüente; em si, não carrega um sentido fortemente negativo quanto os anteriores, porém fica claro que ignora as diferenças próprias do Mundo Árabe, e em especial da existência das nações Síria e Líbano. A sua indistinção é produto principalmente das dificuldades dos brasileiros em reconhecer a origem particular dos imigrantes, evidenciando o caráter arbitrário e classificatório dos estereótipos e rótulos sociais. A ele estão associados os estereótipos anteriores.

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Veja sobre o discurso orientalista analisado por Edward Said em seu livro: Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente.

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Mas, as ideologias etnocêntricas elaboradas por e no contato interétnico não se afirmam isoladamente, supõem uma relação e se elaboram contrastivamente, seguindo uma lógica de inclusão e exclusão que produz, em contra partida, entre sírios e libaneses, rótulos pejorativos equivalentes sobre os brasileiros, a quem atribuem desinteresse pelo trabalho, de moral liberal e vida indisciplinada; os preconceitos empregados com mais freqüência foram: “preguiçosos”, ”irresponsáveis”, “liberais”, ”farristas” e “ mulherengos”.

Entretanto, é necessário assinalar que existem contrastes de caráter étnico no interior do grupo de migrantes, isto é, anteriores àqueles gerados nas relações interétnicas consideradas, entre o grupo de migrantes e a sociedade hospedeira. Com efeito, em determinados espaços de interação, caracterizado pela ausência do grupo majoritário, é possível assistir à emergência de alteridades que se expressam sob um discurso étnico, que operam unicamente nos limites internos do grupo de migrantes. Quando possível, e em contextos favoráveis ao reconhecimento dessas distinções – alcançado por meio das observações etnográficas- sírios e libaneses demarcam fortemente suas fronteiras. Os libaneses sublinham as diferenças que os separam dos sírios julgando-se mais cultos, mais habilidosos e, fundamentalmente, mais “civilizados” que os sírios, justificando sua superioridade apelando a eventos de teor mítico, como as grandes realizações dos que afirmam são os seus antepassados diretos, os grandes navegadores e comerciantes fenícios. Apesar da aparente antiguidade da divisão entre ambos grupos, a emergência e acirramento das alteridades entre sírios e libaneses não parece estar fundada além do fim do poderio dos turcos-otomanos no Oriente Médio e a entrada posterior das grandes potências européias, quando dividida toda a região do Oriente Médio de acordo com os interesses dos novos dominadores, transformaram parte da Grande Síria em dois países distintos. Desde então, os libaneses vêm manifestando o desejo de uma separação definitiva da Síria. Os sírios, ao contrário, resistem à separação e lutam pela manutenção da união. Julgam arrogante a atitude dos libaneses ao querer marcar diferencias e alegam, com a mesma convicção, serem eles também descendentes dos grandes fenícios.

Fora a disputa travada em torno a autenticidade da descendência direta dos “heróis fundadores” que ambos grupos reivindicam para si, encontramos ainda um outro sistema contrastivo de lealdades baseado em identidades religiosas, no parentesco ou no pertencimento as aldeias de origem, sistema complexo de referência que se revela de suma importância, em determinados espaços de interação, capaz de gerar novas fronteiras de ordem sub-grupal. Não foi difícil observar, por exemplo, que as segregações religiosas prevalecentes nas aldeias de origem foram reproduzidas e empregadas entre os migrantes nos espaços

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privados de interação. Os subgrupos religiosos que alcançamos a identificar, podem ser ordenados segundo dois critérios: a) de máximo contraste: cristãos e muçulmanos; b) multivariado: maronitas, melquitas, ortodoxos, siríacos, druzos, muçulmanos (xiita, sunitas)7.

Constatamos que, sendo as identidades étnicas e religiosas fluidas e negociáveis, libaneses e sírios manipulam intensamente o complexo de identificações e rótulos que suportam, como “turcos”, “árabes”, “sírio-libanês”, ou aqueles que são próprios de espaços mais restritos de interação como “cristãos”, “muçulmanos”, ou então, “ortodoxos” ou

“maronitas”, identidades que são atualizadas de acordo com as circunstâncias e vantagens

proporcionadas.

Do ponto de vista externo, como vimos, sírios e libaneses são percebidos como um grupo étnico relativamente homogêneo, passível de certas adscrições feitas sob diversos rótulos como “turco’, “árabe”, “sírio-libanês”, etc. Entretanto, como pudemos apontar, é composto pelas duas categorias étnicas pois, mesmo reivindicando uma mesma ascendência mítica, se distinguem mutuamente como essencialmente diferentes, ao tempo que, cada um deles, são internamente heterogêneos quando observados os classificadores religiosos, de parentesco ou de aldeias de origem, uma vez que estes delimitam fronteiras fluidas mas eficazes, suportando a delimitação de subgrupos que sustentam outras formas de identidades contrastativas, freqüentemente instrumentadas.

Os imigrantes, num espaço interativo marcado pelo confronto diferencial e étnico com a sociedade receptora buscaram acomodar-se às estruturas sócio-econômicos da cultura hospedeira, realizando esforços constantes dirigidos à manutenção dos laços de solidariedade grupal e alimentação das suas identidades sociais. Sírios e libaneses, por um lado, se incorporaram à sociedade brasileira mas, por outro, o fizeram como um grupo que é visto e

percebido como etnicamente diferente, em virtude do que demarcaram fronteiras sociais

específicas, de inclusão e exclusão. Contrariamente à percepção externa, sírios e libaneses não constituem um grupo homogêneo, mesmo que assim possa ser percebido e agir e em quanto tal, por apropriação dos rótulos impostos desde a sociedade anfitriã. Apontamos que, contrariamente a essa percepção dominante, o grupo é constituído por duas categorias étnicas que, se capazes de agir conjuntamente em determinados níveis de etnicidade vis-à-vis segmentos da sociedade nacional, internamente e em determinados espaços de interação

7

Os druzos em sua maioridade da cidade de Kornael (Líbano) se concentraram em Teófilo Otoni; os ortodoxos e Melquitas de Yabroud e Homs (Síria) em Juiz de Fora e Uberlândia. Os Maronitas de Zahle (Líbano) e muçulmanos do Líbano em Belo Horizonte.

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ambos grupos buscam diferenciar-se e se apresentam como linhagens étnicas que reivindicam para si propriedades distintivas herdadas dos ancestrais míticos. Por outro lado, ambas as categorias,“sírios” e “libaneses”, são ainda compostas por sub-grupos que se organizam em torno a um sistema de lealdades baseado em critérios religiosos, de parentesco ou de locais de origem. Em espaços de interação com a sociedade que os hospeda, sírios e libaneses subordinam estas alteridades e atuam como um grupo minoritário com relativa homogeneidade, sendo muito mais o resultado da apropriação dos rótulos e estereótipos dominantes –que não reconhecem as distinções entre eles- e da comunidade de experiência que provê a própria migração, do que por afrouxamento ou perda das alteridades e oposições subordinadas, as quais – internamente- valem como condição de pertencimento aos grupos étnicos.

Ao buscarmos compreender o processo de migração internacional vivido por sírios e libaneses que se dirigiram ao Brasil, salientamos o caráter grupal do empreendimento posto a luz pelas características nas modalidades migratórias e, especificamente, pelas estratégias empregadas nas formas de inserção aos sistemas organizacionais nos locais de destino, segundo tem mostrado as trajetórias de vida dos migrantes. Mas, assinalamos principalmente argumentar que o fenômeno migratório como um todo é apreendido e percebido, pelos

agentes, tanto migrantes quanto segmentos da sociedade receptora, segundo uma ótica etnizada, suportada por ideologias etnocêntricos. Procuramos argumentar que esse modo de

percepção, ancorados nas identidades étnicas forjadas nos contextos multiculturais de interação propiciados pela migração, provê aos agentes uma forma de apreensão e explicação tanto do processo migratório em si, quanto das condições de inserção vividas na sociedade receptora. Essas formas de percepção, originadas nos estereótipos impostos desde fora, nas e pelas condições de competição e conflito da migração, são apropriados e implementados pelos migrantes como recursos simbólicos essenciais na promoção e manutenção das redes e laços étnicos - entre migrantes e com suas sociedades de origem- fornecendo suporte à acomodação na sociedade de destino e, ao mesmo tempo, como meio de resistência às pressões de assimilação. .

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