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Síndrome Amotivacional nos Consumidores de Canábis

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Academic year: 2021

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2019/2020

Bruno Emanuel Teixeira Lameiras

Síndrome Amotivacional nos

Consumidores de Canábis /

Amotivational Syndrome in

Cannabis Consumers

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Bruno Emanuel Teixeira Lameiras

Síndrome amotivacional no

Consumidores de Canábis /

Amotivational Syndrome in Cannabis

Consumers

Mestrado Integrado em Medicina

Área: Psiquiatria

Tipologia: Monografia

Trabalho efetuado sob a Orientação de:

Manuel António Fernandez Esteves

Trabalho organizado de acordo com as normas da revista:

Journal of Psychiatry Research

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Dedicatória

Estes 6 anos foram um caminho difícil, de muito trabalho, dedicação e horas de sono perdidas, tudo em busca de um sonho, o sonho de ser médico. Consegui chegar aqui, à reta final desta longa caminhada, mas tal não teria sido possível sem a ajuda e o suporte de todos que me acompanharam até aqui.

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer ao meu orientador, Professor Doutor Manuel Esteves, por me ter proporcionado a oportunidade e o prazer de ser orientado por alguém que tanto admiro. Quero agradecer aos meus colegas de curso, que tantas vezes me ajudaram, tanto a nível escolar como a nível emocional, sem eles teria sido, sem dúvida, muito mais difícil ter chegado até aqui. Todo o meu grupo de amigos, tanto os de Fafe, Braga, Viseu e até do Brasil, alguns dos quais já me acompanham há mais de 18 anos, merecem sem dúvida um forte agradecimento, pela estabilidade e harmonia que me proporcionaram durante todo este tempo e por me terem apoiado na minha decisão de desistir do curso que frequentava já há 3 anos, para seguir o sonho de ser médico. Sem o apoio deles provavelmente não teria tido a coragem de tomar esta decisão. À minha família (avós, tios, primos, irmã e afilhada), sem esquecer os que já não estão entre nós, o meu muito obrigado por, ao longo da minha vida, me terem dado as ferramentas necessárias, para ter a capacidade de enfrentar todas as adversidades que me foram impostas ao longo do meu percurso e por fazerem de mim a pessoa que sou hoje.

Por fim, mas não menos importante, quero agradecer aos meus pais por terem dado a melhor educação possível, por terem lidado tantas vezes com o meu mau humor, por me terem dado a oportunidade de poder estudar e de me permitirem, com muito sacrifício, dedicar 9 anos da minha vida à universidade, sem nunca duvidarem de mim e tendo-me dado sempre um apoio incondicional.

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Sumário

Numa altura em que se fala cada vez mais na legalização da canábis, tanto para uso recreativo como para uso medicinal, é importante, antes de ser tomada qualquer decisão, perceber qual as consequências do seu uso. Uma informação de qualidade pode fazer toda a diferença na decisão de a legalizar ou não e na preparação para lidar com os efeitos adversos do seu uso. Alguns dos efeitos da canábis são mais conhecidos que outros. Esta revisão tem como principal objetivo tentar perceber se existe um relação entre o consumo de canábis e o síndrome amotivacional, um conceito que não reúne consenso desde sua introdução. Apesar de os resultados não terem sido conclusivos, parece haver uma maior probabilidade da existência desta relação do que o contrário, isto nos consumidores pesados de canábis. Além disso, alguns estudos apresentam uma explicação da biologia por de trás deste síndrome associado ao consumo de canábis, explicado por uma diminuição da reatividade da dopamina e dos seus níveis no cérebro nos consumidores

pesados. Parece haver, também, uma maior suscetibilidade por parte dos adolescentes. No entanto

são necessários mais estudos e de melhor qualidade para poder tirar uma conclusão definitiva.

Introdução

A canábis é a droga ilícita mais consumida do mundo. Um relatório sobre o seu consumo estima que 4% da população mundial adulta a consome todos os anos e, em alguns países, cerca de metade dos jovens inquiridos já experimentou. Este mesmo relatório, afirma que, em alguns países da Europa, o consumo de canábis viu um enorme crescimento nas ultimas 3 décadas do século 20 e aponta também para um aumento na potência da canábis (World Drug Report 2006.

Volume 1: Analysis, 2006). Além disso, tem-se vindo a notar uma diminuição da idade de início

de consumo, por exemplo, um grande estudo, conduzido na Holanda, concluiu que o primeiro consumo de canábis aos 13 anos duplicou (Monshouwer et al., 2005).

A maioria dos consumidores não reporta efeitos negativos do uso de canábis e uma porção significativa deles considera uma experiência prazerosa, no entanto, uma pequena percentagem deles pode desenvolver problemas e o relatório mencionado acima afirma isso mesmo, chamando a atenção para o aumento dos problemas mentais relacionados com o uso da canábis.

Por vivermos numa altura em que se debate bastante a legalização do uso de canábis, tanto para uso medicinal, como para uso recreativo, é importante perceber os efeitos. Atualmente, parece haver uma diminuição da perceção do risco do seu uso por parte da população (Pacek et al., 2015). Portanto, um bom conhecimento sobre o tema é, não só fundamental para conseguir identificar quando e se a canábis é a fonte de algum problema, assim como perceber como tratá-lo, mas também para permitir fazer uma educação da população de forma eficaz e informada, pois, isso pode ter implicações profundas na saúde pública e nas políticas adotadas.

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Alguns dos efeitos negativos são já conhecidos e reúnem algum consenso, como por exemplo cognição prejudicada (Conroy et al., 2015) lesão por acidente de viação (Blows et al., 2005), diminuição da escolaridade (Fleming et al., 2012), abandono escolar (McCaffrey et al, 2010), menor satisfação com a vida (Swain et al., 2012), tentativas de suicídio (Kalant, 2004) e risco de psicose tóxica (Wilkinson et al., 2014). Alem disso, um estudo que acompanhou estudantes universitário do primeiro ano até 6 anos após a faculdade, mostrou mesmo que, os consumidores crónicos de canábis e aqueles que foram aumentando o consumo, saem-se pior em vários resultados de saúde física e mental, tais como comprometimento funcional e sofrimento psicológico (Arria et al., 2016; Caldeira et al., 2012). Quanto a estes efeitos secundários, parece não haver grande discordância na literatura. No entanto, existem outros efeitos secundários, decorrentes do uso de canábis, que não reúnem tanto consenso ou não são tão conhecidos. Nesta revisão decidimo-nos focar em um dos sintomas, em que, para além de não haver um grande consenso quanto à sua existência, a literatura sobre ele é relativamente escassa. O sintoma que falamos é o chamado síndrome amotivacional.

O conceito de síndrome amotivacional foi introduzido em 1968 por Smith (Smith, 1968) e desde então que tem vindo a ser controverso (Volkow et al., 2016). É definido como um conjunto de sintomas, incluindo apatia, ineficácia e improdutividade, considerados para refletir um défice na motivação geral, em consumidores de canábis (Smith, 1968). Estes sintomas têm semelhanças quer com os sintomas negativos da esquizofrenia, quer com os de depressão major, ambos associados também ao uso de canábis (Kalant, 2004; Watanabe et al., 1984), por isso, conseguir fazer um bom diagnóstico diferencial é fundamental para um tratamento eficaz, isto caso haja um tratamento e/ou se comprove a existência deste síndrome.

Esta revisão tem como objetivo clarificar melhor o que é o síndrome amotivacional, a sua relação com o consumo de canábis, perceber se ele existe ou não, assim como a explicação biológica para a sua existência.

Métodos

Para estudar se de facto havia uma relação entre o consumo de canábis e o síndrome amotivacional, foi feita uma revisão compreensiva utilizando a base de dados do PubMed, usando uma combinação de termos como “amotivational syndrome”, “cannabis”, “marijuana”, “motivation”, “motivational syndrome”. Foram incluídos nesta revisão todo o tipo de estudo, fossem estudos de intervenção, estudos observacionais, meta-analises, revisões narrativas ou sistemáticas. Selecionámos apenas artigos escritos em inglês e excluímos os estudos realizados em animais. Focámo-nos nos estudos que abordavam o tema de interesse com alguma profundidade e excluímos aqueles que apenas o mencionavam, mas não o desenvolviam. Inserimos alguns artigos que o próprio PubMed considerou similares durante a pesquisa. Foram

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incluídos, também, estudos publicados até dezembro de 2019.

A seleção de artigos foi feita inicialmente pela leitura dos abstrats daqueles que obedeciam às condições supracitadas, em seguida fizemos uma leitura completa dos mesmos e aí foram selecionados aqueles que se adequavam a nossa revisão. Incluímos também alguns artigos com base nas referências bibliográficas daqueles que foram previamente incluídos na nossa revisão.

Resultados e Discussão

O síndrome amotivacional continua a ser um assunto controverso, apesar de haver alguns estudos que mostram a sua existência, outros mostram exatamente o contrário. Na tabela 1 (em anexo) vários estudos sobre este tema estão descritos, especialmente no que diz respeito ao tipo de estudo, detalhes da pesquisa e as principais conclusões de interesse para o tema. Apesar de não pormos restrições ao tipo de estudos incluídos, os únicos que cumpriram os critérios para fazerem parte desta revisão ou eram estudos transversais, longitudinais, revisões ou casos controlo, alguns com mais de 40 anos. Foram incluídos estes tão antigos, pela escassez de estudos sobre este tema em específico. Além disso, alguns deles, o principal foco nem sequer foi o síndrome amotivacional, mas como continham alguma informação que nos pareceu relevante, decidimos incluí-los. Outros, apesar de não estudarem ou mencionarem o síndrome amotivacional em específico, tinham como foco principal a motivação, o que anda de mãos dadas com este síndrome, sendo muitas das vezes, dependendo da definição usada para a motivação, indistinguível, daí alguns desses estudos também terem sido incluídos.

Como já foi referido, vários estudos negam a existência de uma relação entre o consumo de canábis e o síndrome amotivacional. Um desses estudos, de 1976, estudou trabalhadores jamaicanos. Numa primeira fase incluiu trabalhadores de diferentes profissões fumadores e não fumadores de canábis, posteriormente só cortadores de cana de açúcar, também fumadores e não fumadores de canábis. O estudo durou 2 anos, estudou 7 comunidades diferentes, por aproximadamente 6 meses cada. Concluíram que os consumidores de canábis não tinham uma motivação diminuída para o trabalho, não tinham sinais de apatia ou ineficácia, concluído assim que o síndrome amotivacional não se relaciona com o consumo de canábis, no entanto, os autores admitem que estes resultados podem ter a ver com a cultura, uma vez que os sujeitos estudados acreditam que a canábis os ajuda a realizar melhor o trabalho e os ajuda a lidar com a fadiga (Comitas, 1976). Outro estudo que também nega a relação entre o consumo de canábis e o síndrome amotivacional, também de 1976, teve como participantes 960 homens que frequentavam o primeiro ano da universidade. Os autores usaram o abandono escolar para medir a motivação. Chegaram à conclusão que não existia evidência entre o consumo de canábis (mesmo quando consumida juntamente com outras drogas) e o abandono escolar, independente do contexto familiar, relacionamento com os pais durante o ensino secundário e valores sociais. Parece que estes fatores contribuíam mais para o abandono escolar do que o consumo de drogas. No entanto,

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os autores admitem que este é um grupo não representativo da população em geral, uma vez que se trata de um grupo de homens suficientemente motivados e competentes para procurar e obter admissão em uma universidade pública de alto nível e que o uso de drogas pode ser mais problemático para homens menos motivados, que são menos direcionados a objetivos e menos bem equipados para alcançar os objetivos que estabeleceram para si mesmos. De qualquer das formas, neste estudo, não foi encontrada evidencia para o síndrome amotivacional relacionado com a canábis ou outras drogas (Mellinger et al., 1976). Uma revisão, de 1988, também com o objetivo de fazer uma visão geral sobre a canábis, conclui que a canábis pode produzir diretamente uma reação aguda de pânico, um delírio toxico, um estado paranoico agudo, ou mania aguda, mas se pode provocar diretamente estados depressivos ou esquizofrênicos, ou se pode levar à sociopatia ou mesmo a síndrome de amotivacional, é muito menos certo (Hollister, 1988). Outro estudo, realizado em 2006, também não suporta a existência do síndrome amotivacional. Contou com a participação de 1300 participantes. Destes 1300 fizeram-se dois grupos, um com aqueles que reponderam não consumir canábis, outro grupo com aqueles que responderam consumir 7 vezes por semana. Conclui-se que não existia uma diferença significativa, no que diz respeito à motivação, estre os que consumiam canábis 7 vezes por semanas e não consumidores. A única diferença encontrada, foi uma ligeira diferença no bem estar, mas, uma análise posterior, revelou que esta diferença se devia à contribuição daqueles usuários que usam canábis de forma medicinal e à própria doença que os levava a consumir que poderia ser a causa do mau estar, não o consumo de canábis. Mas mais uma vez, tal como em outros estudos abordados até aqui, os autores consideram que a cultura pode ter influência, uma vez que os participante deste estudo eram maioritariamente caucasianos e educados. Admitem que em outras etnias e níveis de educação diferentes, os resultados poderiam ser diferentes (Barnwell et al., 2006). Já o estudo (Schwartz, 1987), uma revisão que pretendia fazer uma visão geral sobre a canábis, não conseguiu chegar a uma conclusão no que diz respeito ao síndrome amotivacional, os estudos selecionados, para estudar este tema, eram contraditórios, alguns apoiavam a existência da relação com a canábis outros negavam-na. Estes são os estudos que negam ou não apoiam a relação entre o consumo de canábis e o síndrome amotivacional. Importante realçar que a maior parte destes estudos, os autores admitem que a cultura e o nível de educação podem ter influência nos resultados. Ao contrário do estudos anteriores, os que se seguem encontraram resultados e conclusões diferentes no que diz respeito à relação entre o síndrome amotivacional e o consumo de canábis. Um desses estudo, de 1995, realizado com 39 participantes, todos consumidores de canábis, entre os 19 e os 21 anos, recrutados em um lugar público de um campus universitário, foram divididos em 4 grupos, um grupo constituído por fumadores leves de canábis, outro por fumadores pesados de canábis, outro por sujeitos com depressão e por fim, um com sujeitos sem depressão. Concluiu-se que apesar de haver uma relação entre o consumo de canábis e a perda de motivação, os sintomas de perda de motivação nos fumadores pesados se deviam à depressão, pois só fumadores

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pesados com depressão apresentavam síndrome amotivacional, não estando presente nos fumadores pesados sem depressão. Neste estudo os autores admitem também a hipótese que o

consumo intenso de canábis permite aos usuários não ter de lidar com a depressão, o que exacerba a perda de motivação (Musty & Kaback, 1995). Uma revisão, realizada em 2014, chegou à conclusão que a canábis, para alem de estar associada a psicose aguda associada a intoxicação (por canábis) e transtorno de psicose persistente, está também associada a síndrome amotivacional quando há um consumo intenso e crónico. No entanto apontam que alguns estudos mais recentes sugerem que variáveis de confundimento, tais como abuso de outras substâncias, pobreza e outros transtornos psiquiátricos, podem explicar este síndrome. Os autores chamam à atenção tanto para a semelhança entre os sintomas negativos da esquizofrenia e este síndrome, como para o facto de doentes esquizofrénicos, que usam canábis, terem menos sintomas negativos, do que aqueles que não usam (Wilkinson et al., 2014). Em 1984, em um ensaio clínico, decidiu-se testar a eficácia da caeruleína, um decapeptídeo quimicamente relacionado ao octapeptídeo de colecistocinina (CCK-8), no tratamento do síndrome amotivacional em um consumidor pesado de canábis. Fez-se isso por causa da semelhança entre os sintomas negativos da esquizofrenia e este síndrome e também por se achar que ambos são induzidos por disfunções no sistema límbico. Usou-se este composto uma vez que ele foi previamente testado em um ensaio terapêutico, em 1982, em um doente com esquizofrenia, em que a terapêutica neuroléptica teria sido ineficaz, tendo tido resultados positivos. O participante foi um consumidor pesado de cannabis, desde há 24 meses, do sexo masculino, com diagnóstico de síndrome amotivacional ao fim de 13 meses de uso. Hospitalizado por episódio agudo de confusão mental (um tipo de psicose induzida pela canábis) que desapareceu ao fim de 3 dias de hospitalização com a toma de neurolépticos, mas que, ainda assim, ao fim de 8 semanas de hospitalização, manteve o síndrome amotivacional. Neste ensaio a caeruleína mostrou uma melhoria da sintomatologia do síndrome amotivacional, mas como o sujeito tomou neurolépticos durante o estudo (haloperidol 3 mg/dia, prometazina 75 mg/dia, e nitrazepam 5 mg/dia), os autores assumem a possibilidade de haver uma interação entre a caeruleína e os neurolépticos o que poderá explicar estes resultados. Como este tratamento teve um efeito benéfico em um usuário de canábis de longo prazo com síndrome amotivacional, que não respondia à terapia neuroléptica, sugere-se que a caeruleína possa ser um medicamento útil e eficaz no tratamento do síndrome amotivacional (Watanabe et al., 1984). Já em 2017, um estudo longitudinal, com 505 estudantes universitários, que pretendia estudar o síndrome amotivacional, conclui que o consumo de canábis foi um preditor positivo significativo de menor iniciativa e mais baixos níveis de esforço durante o período do estudo. No geral, os resultados apoiam a hipótese da relação entre síndrome de amotivacional e o consumo de canábis, independentemente da demografia, o consumo de tabaco, álcool, cigarros e personalidade (Lac & Luk, 2017). Uma revisão, de 2000, realizado com o objetivo de estudar os efeitos do uso de canábis em adolescentes na escolaridade, revisão foi encontrada uma associação significativa entre o

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consumo de canábis nos adolescentes e o abandono escolar, piores notas, menor satisfação com a escola e atitude negativa para com a escola, mais marcado quanto mais cedo fosse iniciado o consumo. São propostas possíveis explicações para isto, incluído o síndrome amotivacional, no entanto os autores consideraram existir pouca evidência empírica para suportar essa hipótese. Uma outra explicação tem a ver com o contexto social em que começam o consumo de canábis, associado a estilos de vida não convencionais e afiliação a delinquentes. Uma outra hipótese, tem a ver com o facto de adolescentes com pior performance escolar terem maior probabilidade de iniciarem consumo de canábis, por isso o consumo pode ser consequência da má performance escolar e não a causa (Lynskey et al., 2000).

Além destes estudos, há outros, que apesar de não se focando no síndrome amotivacional, mas que relacionam défices de motivação com o consumo de canábis. Sendo que, como já foi referido acima, um défice de motivação provocado pela canábis é muito difícil de distinguir de síndrome amotivacional, podendo mesmo chegar a ser indistinguível, daí o porquê de estes estudos também terem sido incluídos nesta revisão. Um deles, é uma revisão, de 2018, que pretendia estudar os efeitos do uso de canábis no comportamento humanos, incluindo cognição, motivação e psicose. Chegou-se à conclusão de que o uso intensivo de longo termo de canábis está associado a insucesso escolar e motivação prejudicada. Constatou-se que há evidências laboratoriais preliminares que evidenciam uma associação entre motivação reduzida para comportamentos relacionados à recompensa em consumidores de canábis em comparação com indivíduos controle. Verificou-se também que os usuários de canábis apresentam uma diminuição da capacidade de síntese de dopamina no estriado, além disso o uso de canábis parece induzir mudanças no sistema endocanabinoide incluindo diminuição dos níveis de anandamida no fluido cerebrospinal humano e a redução dos níveis do recetor canabinoide 1, sendo que um crescente número de literatura pré-clínica implica este recetor e o seu ligando nos efeitos motivacionais do uso da canábis, explicando assim o porquê da diminuição de motivação (Volkow et al., 2016). Outro estudo, que relaciona a motivação com o consumo de canábis, é um caso-controlo de 2005, que teve como participantes 34 adolescentes, do sexo masculino e feminino, entre os 14 e 18 anos. Foram divididos em dois grupos, um constituído por 14 elementos, com aqueles considerados fumadores regulares de canábis, o outro grupo, com os restantes participantes, serviram de controlo. Teve como objetivo medir os níveis de motivação de adolescentes fumadores regulares de canábis comparativamente a um grupo controlo. Foram dadas duas opções aos participantes, a opção “work”, que exigia sistematicamente aumentar a produção de respostas, o que proporcionava um maior retorno monetário do que a outra opção, a “non-work”, que não exigia produção de resposta para gerar dinheiro. A mudança da opção “work” para “non-work” foi interpretada como uma medida de redução de motivação. Foram encontradas diferenças significativas entre os grupos, o grupo dos adolescentes fumadores de canábis mudaram mais cedo para a opção “non-work” e a diferença na percentagem de ganhos, comparativamente com os não fumadores, foi grande. Foi

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possível concluir então que os adolescentes fumadores de canábis têm níveis de motivação reduzidos, comparativamente com os não fumadores (Lane et al., 2005).

Mesmo não havendo um consenso para existência da relação entre o consumo de canábis e o síndrome amotivacional, alguns estudos tentam arranjar uma explicação bioquimica para a sua existência. Um desses artigos é uma revisão, de 2013, que conclui que várias substâncias atuam no sistema de recompensa e algumas delas podem levar a um dano, que parece levar a disfunção dopaminérgica. No caso da canábis a disfunção por ela causa aparenta levar ao síndrome amotivacional. Ao que parece, poderá haver um metabolismo dopaminérgico anormal no cérebro de um individuo viciado em canábis, o que implica o comprometimento da capacidade geral de recompensa. Assim sendo, nestes casos, os autores afirmam que medicamentos pro-dopaminérgicos devem ser considerados úteis, devido ao seu impacto positivo no sistema dopaminérgico hipotrófico, enquanto os anti-dopaminérgicos devem ser evitados, se possível, especialmente em regimes de longo prazo (Rovai et al., 2013). Um outro estudo, de 2014, que teve como participantes 14 consumidores regulares de canábis, teve como principal objetivo tentar perceber a ligação entre a função da dopamina e a apatia em usuários de canábis. Para o fazer, partiram do princípio de que a canábis diminui a síntese de dopamina e que aumenta a apatia. O principal achado foi que, quanto maior a diminuição de síntese de dopamina no estriado, maior os níveis de apatia. Os resultados do estudo foram estatisticamente independentes da idade de início do consumo de canábis (Bloomfield et al., 2014). Este outro estudo, também de 2014, tal como o anterior também tentou relacionar, entre outras coisas, a dopamina, ou falta dela, a défices de motivação nos consumidores de canábis. Trata-se de um caso controlo que teve como principal objetivo encontrar relação entre a reatividade do cérebro à dopamina no abusadores de canábis, emocionalidade negativa (incluindo amotivação) e severidade da adição. Participaram 24 abusadores de canábis e 24 controlos. Todos eles tomaram ou um placebo ou metilfenidato, uma droga que eleva a dopamina extracelular, para sondar a reatividade do cérebro à estimulação de dopamina. A dopamina foi medida, em todos os participante, antes e depois da toma do metilfenidato ou placebo. Foi medida também a emocionalidade positiva, negativa e restrições de cada participante. O que o estudo mostrou foi que os abusadores de canábis tinham uma resposta atenuada ao metilfenidato, não só a nível de comportamento, mas também a nível cardiovascular, alem de terem um volume de distribuição atenuado no estriado comparativamente aos controlo, ou seja os consumidores de canábis apresentaram uma diminuição da reatividade do cérebro à estimulação de dopamina. Conclui-se também que não há diferenças significativas de recetores D2/D3 entre abusadores de canábis, não sendo esta a causa da diminuição da reatividade à dopamina. Os abusadores de canábis mostraram scores mais baixos para emocionalidade positiva e mais altos para emocionalidade negativa, consistentes com baixa sensibilidade para recompensa e motivação e, por outro lado, com maior reatividade ao stresse e irritabilidade. Por fim

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conclui-se que a emotividade negativa foi pior quanto mais cedo a idade de iniciação do abuso de canábis (Volkow et al., 2014).

Ao contrário destes últimos artigos, uma revisão de 2011, que teve como objetivo estudar os parâmetros de transmissão de dopamina por imagem na dependência de canábis, concluiu que, em adultos, o THC, o composto com efeito psicoativo da canábis, parece ter como efeito agudo do um aumento dos níveis dopaminérgicos, mas no uso crónico, ou mesmo na dependência, não foram encontradas alterações nos parâmetros dopaminérgicos. No entanto em adolescentes que consomem cronicamente canábis, este parece ter interferência no sistema dopaminérgico, havendo uma libertação diminuída de dopamina, porem os autores consideraram ser necessários mais estudos para provar este último ponto (Ghazzaoui & Abi-Dargham, 2014). Importante referir que os autores deste artigo focaram-se na dependência não na motivação, no entanto este artigo foi incluído por ser uma revisão que contraria as conclusões do estudo anterior.

No final, com a informação disponível, fica difícil tirar uma conclusão definitiva, quer seja a favor ou contra a existência de uma relação entre o síndrome amotivacional e o consumo de canábis. Alem de a literatura ser escassa, contradiz-se. No entanto, ao analisar estes estudos no conjunto, parece haver uma maior probabilidade de existir do que o contrário, uma vez que, a grande maioria dos estudos que negou a sua existência, admitem que a cultura e o grau de motivação do grupo de pessoas estudadas, possa ser diferente do da população em geral, quer seja por crenças, estatuto social ou educação e podendo isso enviesar os resultados. Além disso, ao que parece, existe uma explicação bioquimica para existência de uma relação entre o consumo de canábis e este síndrome, o défice de dopamina ou diminuição da reatividade dela nos consumidores de canábis. Mais, vários artigos, apesar de não mencionarem o síndrome amotivacional, relacionam um maior abandono escolar e um sucesso escolar inferior nos consumidores de canábis, o que apesar de não se tratar necessariamente de um síndrome amotivacional, à partida, indicará uma menor motivação (Marzheevskaia et al., 2015; Phillips et al., 2015; Suerken et al., 2016).

No que diz respeito aos adolescentes, a sua suscetibilidade à canábis parece ser ainda maior quando se fala da falta de motivação, assim como o início precoce de consumo.

Apesar das evidencias apresentadas, tal como foi mencionado no estudo (Ghazzaoui & Abi-Dargham, 2014) a falta de motivação pode não se dever diretamente ao consumo de canábis, mas sim ao tipo de indivíduos que decidiu iniciar o seu consumo, ou seja, poderiam ser indivíduos já como uma motivação menor e por isso terem iniciado o consumo de canábis e não o contrário. Sabendo que na maioria dos estudos foi nos consumidores pesados de canábis que se demonstrou a relação entre o síndrome amotivacional e o consumo de canábis, não tanto nos consumidores

leves, uma outra possível explicação é o facto de alguns consumidores pesados poderem passar

grande parte do tempo intoxicados e o síndrome amotivacional ser confundido com os efeitos psicoativos da canábis.

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consumidor pesado ou leve, variar de estudo para estudo e a questão que fica é se os resultados

teriam sido outros se todos assumissem as mesmas definições para este conceito. Outra limitação foi o facto de, em nenhum dos estudos aqui incluídos, ter sido mencionado qual os níveis de THC da canábis usada e muitos deles não referem, sequer, qual é o tipo de canábis e como os participante a consomem. Portanto, é importante, em próximos estudos, isto ser algo a ter em consideração. Além disso, é espectável que indivíduos com baixa motivação possam esta menos motivados a participar em estudos, o que pode ter influenciado os resultados daqueles que tiveram resultados negativos neste tema. Por fim, estes estudos não tiveram acesso a informação do como seria a personalidade dos indivíduos antes de iniciar o consumo de canábis e isso é essencial para perceber se a canábis é responsável pelo síndrome amotivacional ou se os comportamentos característicos deste síndrome possam estar relacionados com a iniciação do consumo de canábis.

Conclusão

Continua sem haver um consenso para existência ou não da relação entre o síndrome amotivacional e o consumo de canábis, no entanto, no conjunto, parece haver mais argumentos a favor do que contra. De qualquer das maneiras, é importante que se façam mais estudos nesta área, de uma maneira mais padronizada, mais focados nesta relação e de maior qualidade, pois só dessa forma é que se poderá tirar uma conclusão definitiva, pois, atualmente a informação disponível não chega para o fazer.

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(18)

Anexo:

Tabela 1. Dados da literatura sobre a relação entre o síndrome amotivacional e o consumo de canábis Tipo de

estudo

Participantes Detalhes do estudo Principais conclusões de interesse para o tema Referencias Ano do artigo

Revisão S/ participantes Revisão da bibliografia para estudar o

Síndrome amotivacional como um paradigma de sintomas negativos no abuso de substâncias

Várias substâncias têm efeito no sistema de recompensa e algumas delas podem levar a eventual dano, que parece provocar disfunção dopaminérgica. No caso da cannabis, esta parece causar uma disfunção que se traduz em síndrome amotivacional. O metabolismo dopaminérgico anormal no cérebro de um individuo viciado em cannabis implica o comprometimento da capacidade geral de recompensa. Nestes casos medicamentos pro-dopaminérgicos devem ser considerados úteis, devido ao seu impacto positivo no sistema dopaminérgico hipotrófico, enquanto os anti-dopaminérgicos devem ser evitados, se possível, especialmente em regimes de longo prazo. (Rovai et al., 2013) 2013 Estudo transversal Trabalhadores jamaicanos de diferentes profissões, 30 fumadores de cannabis, 30 não fumadores. Posteriormente, apenas cortadores de cana de açúcar, 72 fumadores de cannabis, 82 não fumadores.

Este estudo teve como objetivo estudar a existência de síndrome amotivacional.

De junho de 1970 a fevereiro de 1972, os efeitos da canábis foram estudados em usuários crónicos na Jamaica. A equipe foi responsável por determinar os padrões de uso de canábis entre as classes trabalhadoras jamaicanas, selecionando as amostras de fumantes e não fumantes para estudo clínico e documentando sobre o contexto comportamental no qual os achados clínicos poderiam ser totalmente explorados. Para atingir esses objetivos, sete comunidades foram estudadas por essa equipe, cada uma por aproximadamente 6 meses.

Foi evidente em todos os aspetos desta pesquisa que o consumo excessivo de canábis não reduz a motivação para o trabalho. Mais importante, é claro que não há sinais de apatia, ineficácia, impropriedade produtividade, ou défices na motivação geral entre os trabalhadores. Os autores admitem que este achado pode se dever à relação entre a cultura em relação cannabis e a padronização dos seu uso e efeitos. Uma vez que os sujeitos estudados acreditam que a canábis os ajuda a realizar melhor o trabalho e combater a fadiga.

(Comitas,

(19)

Ensaio clínico Um consumidor pesado de cannabis desde há 24 meses, do sexo masculino, com diagnóstico de síndrome amotivacional ao fim de 13 meses de uso. Hospitalizado por episódio agudo de confusão mental (um tipo de psicose induzida pela canábis) que desapareceu ao fim de 3 dias de hospitalização, com a toma de neurolépticos, mas que manteve o síndrome amotivacional ao fim de 8 semanas de hospitalização.

O objetivo do estudo foi tratar o síndrome amotivacional num consumidor pesado de cánabis, que não respondia a neurolépticos, usando caeruleína, um decapeptídeo quimicamente relacionado ao octapeptídeo de colecistocinina (CCK-8), testado, previamente, em um ensaio terapêutico, em 1982, em um doente com esquizofrenia em que a terapêutica neuroléptica teria sido ineficaz. Testou-te este composto para tentar tratar o síndrome amotivacional por causa da semelhança entre os sintomas da esquizofrenia e este este síndrome e por se achar que ambos são induzidos por disfunções no sistema límbico.

O sujeito foi tratado durante 4 semanas, através de injeções intramusculares semanais (1 vez por semana) de caeruleína, em uma dose de 0,6 µg/kg. Durante o período do estudo ele foi mantido sob sua medicação neuroléptica prévia (haloperidol 3 mg/dia, prometazina 75 mg/dia, e nitrazepam 5 mg/dia)

Os efeitos da caeruleína no sujeito com síndrome amotivacional mostraram um melhoria da sintomatologia e os efeitos mantiveram-se 2 semanas após a quarta injeção semanal.

Como o sujeito tomou neurolépticos durante o estudo, os autores assumem a possibilidade de haver uma interação entre a caeruleína e os neurolépticos o que poderá explicar estes resultados.

A caeruleína parece atuar no sistema límbico e, como teve um efeito benéfico em um usuário de canábis de longo prazo com síndrome amotivacional que não responderam à terapia neuroléptica, sugere-se que possa ser um medicamento útil e eficaz no tratamento da síndrome amotivacional. (Watanabe et al., 1984) 1984 Estudo transversal 39 sujeitos consumidores de canábis.

O objetivo deste estudo foi tentar perceber a relação entre motivação e depressão em consumidores crónicos de canábis.

70 sujeitos, entre os 19 e 21 anos foram recrutados em lugares públicos de um campus universitário. Fizeram questionários sobre o consumo de canábis e só aqueles que responderam ter consumido vários dias durante o último ano é que foram incluídos no estudo (39 sujeitos). Os indivíduos foram divididos em 4 grupos, baseados na quantidade de canábis (fumador pesado ou leve) consumida e nos scores de depressão (tem ou não depressão). Aí tentou estabelecer-se uma relação entre estes fatores e o síndrome amotivacional.

Os dados sugerem que os sintomas de motivação observados em consumidores pesados de cannabis são devidos à depressão, aliás neste estudo só fumadores

pesados com depressão apresentavam síndrome

amotivacional. Portanto a hipótese proposta pelo estudo é a de que é necessário haver depressão para haver síndrome amotivacional. Admite também a hipótese que o consumo intenso de cannabis permite aos usuários não ter de lidar com a depressão, o que exacerba a perda de motivação.

(Musty & Kaback, 1995)

(20)

Revisão S/ participantes Revisão da bibliografia para estudar os impactos do uso de canábis no desenvolvimento de transtorno de psicose.

Exposição a canábis é associado a um número distinto de síndromes, incluindo psicose aguda associada a intoxicação por canábis, intoxicação aguda que dura para alem da intoxicação por canábis e transtorno de psicose persistente. O uso cronico e principalmente o uso intenso de canábis parece estar associado a síndrome amotivacional. Os sintomas deste síndrome são muito semelhantes aos sintomas negativos da esquizofrenia, no entanto doentes esquizofrénicos que usam canábis têm menos sintomas negativos que aqueles que que não usam. Estudos mais recentes sugerem que variáveis de confundimento tais como abuso de outras substâncias, pobreza e outros transtornos psiquiátricos, podem explicar este síndrome.

(Wilkinson et al., 2014)

2014

Revisão S/ participantes Revisão da bibliografia para estudar os efeitos do uso de canábis no comportamento humanos, incluindo cognição, motivação e psicose

O uso intenso de longo termo de canábis está associado a insucesso escolar e motivação prejudicada. Há evidências laboratoriais preliminares que evidenciam uma associação entre motivação reduzida para comportamentos relacionados à recompensa em consumidores de canábis em comparação com indivíduos controle. Suportando esta teoria, os usuários apresentam uma diminuição da capacidade de síntese de dopamina no estriado, além disso o uso de canábis parece induzir mudanças no sistema endocanabinoide incluindo diminuição dos níveis de anandamida no fluido cerebrospinal humano e reduz os níveis do recetor canabinoide 1. De facto, um crescente número de literatura pré-clínica implica este recetor e o seu ligando nos efeitos motivacionais do uso da canábis.

(Volkow et al., 2016) 2018 Estudo longitudinal 505 estudantes universitários com uma média de idades de 19.06 anos

O objetivo do estudo foi testar o síndrome amotivacional. Foi feito com base em dois questionários respondidos, pelos participantes, via e-mail, o segundo questionário (T2) foi respondido um mês após o primeiro (T1). Nesses questionários foram avaliados o consumo de canábis, o consumo de outras substâncias como tabaco álcool e cigarros, a auto-eficácia geral e a personalidade. Os resultados T2 de iniciativa, esforço e persistência (auto-eficácia geral) foram estimados em três modelos de regressão hierárquica separados, previstos por medidas em T1.

Conclui-se que consumo de canábis foi um preditor significativo de menor iniciativa e persistência durante um período de 1 mês no estudo

Usuários de canábis relataram níveis mais baixos de esforço do que não usuários em T1, não tanto em T2. No geral, os resultados apoiam a hipótese da relação entre síndrome de amotivacional e o consumo de canábis, independentemente da demografia, o consumo de tabaco, álcool, cigarros e personalidade

(Lac & Luk, 2017)

(21)

Estudo longitudinal 960 homens que frequentavam o primeiro ano de faculdade

O objetivo do estudo era estudar o síndrome amotivacional em estudantes universitários.

Os dados de coorte foram colhidos em dois momentos. No tempo 1 (inverno 1970) realizado aos 960 participantes. O dados foram recolhidos através de entrevistas pessoais e formulários autoadministrados. A taxa de conclusão foi 92% da amostra inicial. Os mesmos homens foram abordados no tempo 2 (primavera 1973) através de questionários autoadministrados. 87% dos que responderam no tempo 1 responderam no tempo 2 (80% dos iniciais). Foi questionado, para alem do consumo da canábis, o consumo de outras drogas.

Os homens que não usaram outras drogas além de canábis, e mesmo entre a maioria dos usuários múltiplos de drogas, não havia evidências de que o uso de drogas tivesse uma relação com o abandono escolar, independente do contexto familiar, o relacionamento com os pais no ensino secundário, e valores sociais. Parece que, para a maioria dos usuário, esses fatores foram responsáveis pelo abandono escolar e não o uso de drogas em si.

No entanto os autores relembram que os sujeitos que serviram de base a este estudo, são um grupo de homens academicamente selecionados, suficientemente motivados e competentes para procurar e obter admissão em uma universidade pública de alto nível. O uso de drogas pode ser mais problemático para homens que são menos direcionados a objetivos e menos bem equipados para alcançar os objetivos que estabeleceram para si mesmos.

(Mellinger et al., 1976)

1976

Revisão S/ participantes Revisão da bibliografia para fazer uma visão geral sobre a

canábis. Estudos publicados sobre prisioneiros egípcios e em adultos jovens nepalês instruídos, providenciam uma evidencia forte para a associação entre síndrome amotivacional e o consumo de canábis.

Em contradição estudos antropológicos na Grécia, Jamaica e Costa Rica mostram que o consumo de canábis não se associa ao síndrome amotivacional, no entanto estes estudos, têm algumas falhas na sua arquitetura e na seleção dos indivíduos.

(Schwartz, 1987) 1987 Estudo transversal 487 participantes adquiridos através de e-mail

Este estudo teve como objetivo estudar a relação entre o consumo de canábis, a motivação e a satisfação com a vida. Os participantes responderam a uma solicitação por e-mail para concluir uma pesquisa na Internet sobre o uso e atitudes de canábis. Um e-mail inicial foi enviado a 200 estudantes universitários que fizeram um curso sobre drogas e comportamento humano e a 100 conhecidos do segundo autor. Foi-lhes solicitado no e-mail que preenchessem o questionário e o encaminhassem para outras pessoas. Aproximadamente 1300 pessoas responderam de diversas origens.

Entre outras perguntas, foi questionado se já tinham experimentado canábis, os que responderam “Não” foram alocados no grupo “não consumidores” (N=244) e os que

Neste estudo, os participantes que usaram canábis 7 dias por semana, não demonstraram diferenças nos indicies de motivação em relação aos não consumidores. Ou seja, neste estudo mostrou-se que não há relação entre o consumo de canábis e o síndrome amotivacional. A única diferença encontrada foi uma pequena diferença no bem-estar, mas, uma análise posterior, revelou que esta diferença se devia à contribuição daqueles usuários que usam canábis de forma medicinal e a própria doença que os levava a consumir poderia ser a causa do mau estar, não o consumo de canábis.

Por a maioria dos participantes serem caucasianos e educados, os autores admitem que pode haver diferenças entre outras etnias e níveis de educação diferentes, no que

(Barnwell et al., 2006)

(22)

responderam “7 vezes por semana” foram alocados no grupo “usuários frequentes de canábis” (N=243)

diz respeito à relação entre a motivação e o consumo de canábis.

Revisão S/ participantes Revisão da bibliografia para fazer uma visão geral sobre a canábis.

Canábis pode produzir diretamente uma reação aguda de pânico, um delírio toxico, um estado paranoico agudo, ou mania aguda. Se pode provocar diretamente estados depressivos ou esquizofrênicos, ou se pode levar à sociopatia ou mesmo a síndrome de amotivacional, é muito menos certo.

(Hollister, 1988) 1988 Caso-controlo 34 adolescentes, com idades entre os 14 e 18, do sexo feminino e masculino.

Este estudo teve como objetivo medir os níveis de motivação de adolescentes fumadores regulares de canábis comparativamente a um grupo controlo. Os participantes foram recrutados através um anúncio no jornal local. Aqueles com problemas médicos, com histórico de dependência de drogas alem de canábis, que usavam medicação ou outras drogas alem de canábis foram excluídos do estudo.

Foram divididos em dois grupos, o primeiro constituído por 14 elementos, com aqueles considerados fumadores regulares de canábis, o outro grupo, com os restantes participantes, serviram de controlo. Posteriormente, foram dadas duas opções aos participantes, a opção “work”, que exigia sistematicamente aumentar a produção de respostas, o que proporcionava um maior retorno monetário do que a outra opção, a “non-work”, que não exigia produção de resposta para gerar dinheiro. A mudança da opção “work” para “non-work” foi interpretada como uma medida de redução de motivação.

Para reduzir os viés, mediram a função cognitiva e social, para isso foram administrados os Youth Self-Report e o Shipley Institute of Living Scale, respetivamente.

Foram encontradas diferenças significativas entre os grupos. De facto, o grupo dos adolescentes fumadores de canábis mudaram mais cedo para a opção “non-work” e a diferença na percentagem de ganhos, comparativamente com os não fumadores foi grande. Isto permite concluir que os adolescentes fumadores de canábis têm níveis de motivação reduzidos, comparativamente com os não fumadores.

(Lane et al., 2005) 2005

(23)

Revisão S/ participantes Revisão da bibliografia para estudar os parâmetros de transmissão de dopamina por imagem na dependência de canábis

Durante o consumo, o THC parece ter como efeito agudo do um aumento dos níveis dopaminérgicos, mas no uso crónico, ou mesmo dependência, não foram encontradas alterações nos parâmetros dopaminérgicos. No entanto quando o consumo é durante a adolescência o uso crónico parece ter interferência no sistema dopaminérgico, havendo uma libertação diminuída de dopamina, porem os autores consideraram ser necessários mais estudos para provar este último ponto (estudavam a dependência, não a motivação) (Ghazzaoui & Abi-Dargham, 2014) 2011 Estudo-transversal 14 consumidores regulares de canábis

O principal objectivo deste estudo foi perceber a ligação entre a função da dopamina e a apatia em usuários de canábis.

Neste estudo partem do pressuposto que a canábis diminui a síntese de dopamina e que aumenta a apatia. O objetivo do estudo foi tentar perceber se existe uma relação direta entre estas duas variáveis nos consumidores de canábis de longo termo.

Todos os participantes eram maiores de 18 anos, com boa condição física e sem nenhuma condição medica prévia de maior. Consumiam há 4.9 anos, em média, e pelo menos semanalmente. Foi despistado o uso de outras drogas. A síntese de dopamina foi medida através de um método de imagem (PET scan) e a apatia subjetiva foi medida usando a “Apathy evaluation Scale” (método de autoavaliação).

O principal achado foi que quanto maior a diminuição de síntese de dopamina no estriado maior os níveis de apatia. Os resultados do estudo foram estatisticamente independentes da idade de início do consumo de canábis. Não foi encontrada nenhuma associação entre a apatia e resposta psicogénica à canábis.

(Bloomfield et al., 2014) 2014 Caso-controlo 24 abusadores de canábis e 24 controlos.

O objetivo do estudo foi encontrar relação entre a reatividade do cérebro à dopamina no abusadores de canábis, emocionalidade negativa (incluindo amotivação) e severidade da adição. Os participantes foram recrutados através de um anúncio no jornal e foram feitas pelo menos duas entrevistas clínicas. Foram excluídos participantes que consumissem outras drogas ou tivessem alguma condição médica.

Os participantes, de ambos os grupos (abusadores de canábis e controlos), tomaram metilfenidato, uma droga que eleva a dopamina extracelular, para sondar a reatividade do cérebro à estimulação de dopamina, ou então tomaram um placebo. Mediram-se os níveis de dopamina no cérebro antes e após a toma de metilfenidato/placebo. A dopamina foi medida através de PET scan e e fizeram o “Multidimensional Personality Questionnaire” que

O estudo mostrou que os abusadores de canábis tinham uma resposta atenuada ao metilfenidato, tanto a nível de comportamento, como a nível cardiovascular e um volume de distribuição atenuado no estriado, quando comparado com os controlo, o que consiste numa diminuição da reatividade do cérebro à estimulação de dopamina. Conclui-se também que não há diferenças significativas de recetores D2/D3 entre abusadores de canábis e controlos e forneceu evidência preliminar de reatividade anormal da dopamina no mesencéfalo em usuários de canábis.

Os abusadores de canábis mostraram scores mais baixos para emocionalidade positiva e mais altos para emocionalidade negativa, consistentes com baixa sensibilidade para recompensa e motivação e, por outro, com maior reatividade ao stresse e irritabilidade. Essas

(Volkow et al., 2014)

(24)

classifica a emocionalidade positiva, negativa e restrições. características se sobrepõem ao síndrome amotivacional e à maior sensibilidade ao stresse associada ao abuso de canábis.

A emocionalidade negativa e a idade de iniciação do abuso de canábis associa-se a piores resultados

Revisão S/ participantes Revisão da bibliografia para estudar os efeitos do uso de canábis em adolescentes na escolaridade

Nesta revisão foi encontrada uma associação significativa entre o consumo de canábis nos adolescentes e o abandono escolar, piores notas, menor satisfação com a escola e atitude negativa para com a escola, mais marcado quanto mais cedo for iniciado o consumo. São propostas possíveis explicações para isto tais como o síndrome amotivacional e a possibilidade de comprometimento cognitivo provocado pela canábis, no entanto acharam pouca evidencia empírica para ambas as possibilidades. Outra possível razão tem a ver com o contexto social em que começam o consumo de canábis, associado a estilos de vida não convencionais e afiliação a delinquentes. Por fim, outra explicação, tem a ver com o facto de adolescentes com pior performance escolar terem maior probabilidade de iniciarem consumo de canábis, por isso o consumo pode ser consequência da má performance escolar e não a causa

(Lynskey et al., 2000)

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