• Nenhum resultado encontrado

Rev. Bras. Psiquiatr. vol.22 número3

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2018

Share "Rev. Bras. Psiquiatr. vol.22 número3"

Copied!
1
0
0

Texto

(1)

103

Rev Bras Psiquiatr 2000;22(3):103

Existem atualmente duas tendências opostas na psiquiatria mundial. De um lado está o interesse pelos estimulantes avan-ços biológicos, como a pesquisa do genoma humano. Cada vez mais jovens psiquiatras, especialmente no Reino Unido, dedi-cam-se à pesquisa de determinantes biológicos para a saúde mental precária. De outro, discutivelmente menos influente, está a “escalada” da teoria e prática desenvolvimentista, resul-tante do fracasso do desenvolvimento econômico nacional de “beneficiar financeiramente” boa parte da população pobre de países em desenvolvimento. Profissionais especialistas em de-senvolvimento, e até mesmo economistas, estão cada vez mais interessados em estudar o impacto das relações sociais sobre o desenvolvimento. Alguns psiquiatras hoje em dia desenvolvem trabalhos que ganham projeção a respeito da grande valia do capital social* e de seu papel no desenvolvimento econômico. Esses psiquiatras têm muito a oferecer à teoria e à prática desenvolvimentista, devido ao seu conhecimento do ônus de-corrente de relações sociais pobres e frágeis em termos de uma saúde mental precária e pelo fato de poderem indicar o cami-nho para intervenções potencialmente eficazes voltadas ao for-talecimento dessas relações sociais. À medida que os psiquiatras aprenderem a se comunicar em “linguagem desenvolvimen-tista”, eles passarão a exercer um importante papel. Embora a ênfase atual sobre o capital social no desenvolvimento seja cri-ticada por negligenciar as relações econômicas (de poder) e por dar importância excessiva às relações sociais, ela permite que a saúde mental esteja no centro das atenções como sendo um resultado importante das relações sociais. Está aí a oportu-nidade para que os psiquiatras lancem mão de sua influência.

As atuais tendências desenvolvimentistas, resumidas acima, são impulsionadas pela reconhecida necessidade de reduzir a pobreza. A associação entre pobreza e saúde mental em países em desenvolvimento é hoje bem demonstrada por dois estudos que enfatizaram a alta prevalência de saúde mental precária especialmente em áreas geográficas de população de baixa ren-da, como favelas, assentamentos e bairros miseráveis. Mais importante, porém, é que esses estudos comparam a saúde men-tal nos diversos grupos socioeconômicos, apontando as desi-gualdades. O artigo de Ilona Blue, neste número da Revista

Brasileira de Psiquiatria, é um exemplo disso. As

caracterís-ticas presentes em estados de pobreza que determinam uma saúde mental precária são traduzidas em um grande número de ocorrências, muitas dificuldades em longo prazo e falta de apoio da sociedade para amortecer (ou reduzir) o efeito dessas situa-ções de estresse.

Como o meio urbano caracteriza-se por um excesso desses fatores de risco1, há uma necessidade premente de ir além da

descrição da extensão do problema e realizar estudos sobre a eficácia de intervenções para melhorar a saúde mental, em es-pecial entre mulheres de baixa renda vivendo em cidades, por-que são elas por-que sofrem o ônus maior. Os psiquiatras precisam procurar encontrar, por um outro prisma, tipos de intervenções baseadas na comunidade que seriam mais eficazes para redu-zir a precariedade da saúde mental em populações urbanas de baixa renda. A área de saúde, por meio da assistência primária, pouco tem feito para melhorar a saúde mental. Poderia ser pro-dutivo para os psiquiatras ocuparem-se do diálogo com profis-sionais especialistas em desenvolvimento, envolvidos em pro-jetos microfinanceiros (visando aumentar a renda), engenhei-ros ambientais que buscam soluções para melhorar as condi-ções do meio (em especial o suprimento de água e a rede de esgotos) e, portanto, aliviar o ônus dessas populações, e assis-tentes sociais com experiência em fortalecer as relações soci-ais. Talvez uma mudança no estado de saúde mental deva ser usada regularmente como um indicador do impacto em proje-tos de desenvolvimento. Profissionais especialistas em desen-volvimento normalmente desconhecem seu potencial de con-tribuição para influir sobre a qualidade da saúde mental. Nós da área de saúde mental temos a obrigação de alertá-los sobre essa possibilidade.

Pesquisas sobre a sinergia interdisciplinar e práticas interse-toriais certamente proliferaram na nova década. Trata-se de um avanço e desafio animadores, com a abertura de várias opor-tunidades que devem ser tão atraentes quanto a crescente linha biológica dentro da psiquiatria.

Trudy Harpham

South Bank University, London, UK

Editorial

Saúde mental, desenvolvimento e pobreza

* Capital social pode ser definido como as normas e associações da sociedade civil que facilitam a cooperação entre cidadãos e instituições

Reference

Referências

Documentos relacionados

Portanto, podemos concluir que a atitude mais adequada em relação aos fitoterápicos é considerá-los com o mesmo rigor com que lidamos com os medicamentos sintéticos, ba- seando

The results related to the second concern revealed that, compared to Aclimação, living in Brasilândia had a nega- tive effect on mental health status that remained after con-

Um viajante francês que percorreu o Brasil na primeira me- tade do século XIX é exemplar para definir o papel da Miseri- córdia no Brasil, quando relata que “existe em São Paulo

No artigo sobre tratamento de pacientes esquizofrênicos, publicado por Itiro Shirakawa na Rev Bras Psiquiatr 2000;22(supl 1):56-8, no item Psicoterapia, o autor diz: “Não se

No livro “Bases Biológicas dos Transtornos Psiquiátricos”, subdividido em 20 capítulos, temos inicialmente a satisfação de rever as bases anatômicas e fisiológicas que permeiam

lacionados à depressão são aborda- dos: transtorno bipolar, distimia, depressão psicótica, depressão puerperal, suicídio e depressão as- sociada a outras doenças.. Os subti-

Se a alteração nos gânglios da base por anticorpos formados pela reação cruzada imunológica constitui um fator comum para alguns pacientes que apresentam um dos vários transtornos

Desde então criou-se um movimento que se organizou primeiramente em torno do GRINEAA (Grupo Interdisciplinar de Estudos do Ál- cool e do Alcoolismo), depois ABEAA (Associação