MARCOS ANTONIO DE ALMEIDA FORNACIARI
A ARQUITETURA ENQUANTO OBJETO DE IGUALDADE: UM EDIFÍCIO MULTIFUNCIONAL NA CIDADE DE BAURU.
BAURU 2022
A ARQUITETURA ENQUANTO OBJETO DE IGUALDADE: UM EDIFÍCIO MULTIFUNCIONAL NA CIDADE DE BAURU.
Trabalho Final de Graduação apresentado ao Centro de Ciências Exatas e Sociais Aplicadas do Centro Universitário Sagrado Coração, como parte dos requisitos para obtenção do título de bacharel em Arquitetura e Urbanismo.
Orientador: Prof. M.e. Vítor Locilento Sanches.
BAURU 2022
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) de acordo com ISBD
Fornaciari, Marcos Antonio de Almeida F727a
A arquitetura enquanto objeto de igualdade: um edifício multifuncional na cidade de Bauru / Marcos Antonio de Almeida Fornaciari. -- 2022.
109f. : il.
Orientador: Prof. M.e Vítor Locilento Sanches
Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Arquitetura e Urbanismo) - Centro Universitário Sagrado Coração - UNISAGRADO - Bauru - SP
1. Habitação. 2. Segregação socioespacial. 3. Edifício multifuncional. I. Sanches, Vítor Locilento. II. Título.
Elaborado por Lidyane Silva Lima - CRB-8/9602
A ARQUITETURA ENQUANTO OBJETO DE IGUALDADE: UM EDIFÍCIO MULTIFUNCIONAL NA CIDADE DE BAURU.
Trabalho Final de Graduação apresentado ao Centro de Ciências Exatas e Sociais Aplicadas do Centro Universitário Sagrado Coração, como parte dos requisitos para obtenção do título de bacharel em Arquitetura e Urbanismo.
Aprovado em: 06/12/2022.
Banca examinadora:
___________________________________________________
Prof. M.e. Vítor Locilento Sanches Centro Universitário Sagrado Coração
___________________________________________________
Prof. M.e. Renan Amauri Guaranha Rinaldi Centro Universitário Sagrado Coração
___________________________________________________
Arq. Bianca Pereira Milano
Como forma de gratidão, dedico este trabalho aos meus pais e família, pelo apoio, afeto, carinho e cuidado. Sem eles, nada seria possível.
Agradeço primeiramente aos meus pais e à minha irmã, por todo apoio e carinho que me deram ao longo de todos estes anos e, principalmente, pelos valores a mim ensinados, os quais tornaram possível a minha formação enquanto humano e, ainda, complementaram, junto ao curso de Arquitetura e Urbanismo, minha formação enquanto profissional.
Agradeço aos meus amigos, aos presentes e também aos ausentes, que me ajudaram a entender melhor as questões da vida. Agradeço principalmente aos que serviram de apoio emocional e souberam me entender e me acolher nos momentos mais difíceis da minha trajetória. Agradeço às risadas e brincadeiras que estiveram presentes ao longo destes cinco anos e que tornaram o curso mais leve e divertido.
Agradeço infinitamente a todo o corpo docente do curso de Arquitetura e Urbanismo, que foram verdadeiros mestres em transmitir, da melhor forma possível, os conhecimentos acerca de um tema tão complexo como é a arquitetura, e que sempre me acolheram com atenção e nunca deixaram de atender às minhas dúvidas, mantendo a qualidade e a força de seus discursos mesmo nos difíceis anos de pandemia.
Por fim, agradeço à dedicação e confiança do meu orientador Prof. M.e. Vítor Locilento Sanches, que, com todos os seus conhecimentos, me guiou durante todo o processo de produção deste trabalho, enriquecendo de maneira extraordinária todos os conteúdos que aqui estão escritos.
“[...] A arquitetura não é somente uma utopia, mas um meio para alcançar certos resultados coletivos” (BO BARDI, L.).
Entendendo o caráter de centro regional que se atribui à cidade de Bauru, e os problemas habitacionais presentes nesta, e baseado na fundamentação teórica que relaciona a conformação das cidades e seus problemas (cidade legal x ilegal), o presente trabalho almeja elaborar o projeto de um edifício multifuncional que abranja em seu programa de necessidades áreas de comércio, lazer e cultura, a fim de criar um espaço público agradável e utilizável por todos os cidadãos. Dentro da questão de multifuncionalidade integra-se a este um programa habitacional amplo, que possibilite a coexistência de várias configurações familiares, oriundas de diferentes camadas sociais, em um só edifício, com o principal objetivo de designar o acesso ao espaço urbano de qualidade a uma variedade maior de pessoas e, desta forma, criar uma dinâmica de habitação diferente da que se tem disponível no mercado atual, fundindo os interesses da iniciativa pública com os da iniciativa privada e obtendo como produto um sistema de cooperação entre estas, que beneficia não só a um indivíduo, mas a todo um conjunto.
Palavras-chave: Habitação. Segregação socioespacial. Edifício multifuncional.
ABSTRACT
Understanding the character of a regional center that is attributed to the city of Bauru, and the housing problems present in it, and based on the theoretical foundation that relates the conformation of cities and their problems (legal x illegal city), the present work aims to elaborate the project of a multifunctional building that includes in its program of needs areas of commerce, leisure and culture, in order to create a public space that is pleasant and usable by all citizens. Within the issue of multifunctionality, this includes a broad housing program, which allows the coexistence of several family configurations, from different social strata, in a single building, with the main objective of assigning access to quality urban space to a variety of people and, in this way, create a housing dynamic different from what is available in the current market, merging the interests of the public initiative with those of the private initiative and obtaining as a product a system of cooperation between them, which benefits not only to an individual, but to a whole group.
Keywords: Housing. Socio-spatial segregation. Multifunctional building.
Figura 1 - Favela do Real Parque antes de sua urbanização. ... 29
Figura 2 - Relação entre as quadras ... 31
Figura 3 - Área de lazer e sacadas ... 32
Figura 4 - Tipologias A, B e C ... 33
Figura 5 - Tipologias D, E e F ... 33
Figura 6 - Favela do Real Parque no ano de 2008. ... 35
Figura 7 - Favela do Real Parque no ano de 2021. ... 35
Figura 8 - Sesc Pompeia de Lina Bo Bardi ... 36
Figura 9 - Sesc Pompeia de Julio Neves ... 37
Figura 10 - Implantação do Sesc Pompeia ... 38
Figura 11 - Passarelas do Sesc Pompeia ... 39
Figura 12 - Espelho d'água adicionado ao galpão existente ... 40
Figura 13 - Conjunto Nacional, Avenida Paulista, SP ... 42
Figura 14 - Mansão em art-nouveau de Horácio Belfort Sabino ... 43
Figura 15 - Croqui do Conjunto Nacional de São Paulo ... 44
Figura 16 - Colagem promocional do edifício do ano de 1957 ... 44
Figura 17 - Esquema de fluxos do pavimento térreo ... 46
Figura 18 - Relação entre a cobertura geodésica com a rampa elíptica do Conjunto Nacional46 Figura 19 - calçada do Conjunto Nacional ... 48
Figura 20 - Clarinetista se apresentando na calçada da edificação... 49
Figura 21 - Percurso interno do Conjunto Nacional ... 50
Figura 22 - Livraria Cultura ... 51
Figura 23 - Rampa Elíptica ... 52
Figura 24 - Relação da rampa com a cobertura geodésica ... 53
Figura 25 - Cobertura geodésica ... 53
Figura 26 - Obras de material reciclado ... 54
Figura 27 - Obras de material reciclado aproximadas ... 54
Figura 28 - Lâmina vertical ao fundo e geodésica à frente ... 55
Figura 29 - Entrada do Edifício Guayupiá... 56
Figura 30 - Localização da Cidade de Bauru no Estado de São Paulo ... 58
Figura 31 - Zona ZC1 do Zoneamento de Bauru ... 60
Figura 32 - Localização do terreno na cidade de Bauru ... 61
Figura 34 - Mapa de Gabarito... 63
Figura 35 - Mapa de Cheios e Vazios ... 64
Figura 36 - Mapa de Situação do Terreno ... 65
Figura 37 - Imagem aérea da ocupação existente no terreno ... 66
Figura 38 - Vista do terreno atualmente ... 66
Figura 39 - Visada 01 do terreno ... 68
Figura 40 - Visada 02 do terreno ... 68
Figura 41 - Visada 03 do terreno ... 68
Figura 42 - Visada 04 do terreno ... 69
Figura 43 - Visada 05 do terreno ... 69
Figura 44 - Visada 06 do terreno ... 69
Figura 45 - Visada 07 do terreno ... 70
Figura 46 - Visada 08 do terreno ... 70
Figura 47 - Visada 09 do terreno ... 70
Figura 48 - Visada 10 do terreno ... 71
Figura 49 - Visada 11 do terreno ... 71
Figura 50 - Visada 12 do terreno ... 71
Figura 51 - Corte topográfico ... 73
Figura 52 – Implantação (sem escala) ... 74
Figura 53 – Pavimento superior ... 75
Figura 54 - Torres habitacionais ... 76
Figura 55 - Corte volumétrico A (sem escala) ... 77
Figura 56 - Corte volumétrico B (sem escala) ... 77
Figura 57 - Volumetria ... 78
Figura 58 - Perspectiva 1 ... 79
Figura 59 - Perspectiva 2 ... 79
Figura 60 - Perspectiva 3 ... 79
Figura 61 - Implantação (sem escala) ... 81
Figura 62 - Térreo: programa de necessidades ... 82
Figura 63 - Esquema de fluxos e acessos (sem escala) ... 83
Figura 64 - Subsolo (sem escala) ... 84
Figura 65 - Primeiro pavimento (sem escala) ... 85
Figura 66 - Corte B (sem escala) ... 86
Figura 68 - Perspectiva 2 ... 87
Figura 69 - Segundo pavimento (sem escala) ... 88
Figura 70 - Acesso ao segundo pavimento (sem escala) ... 88
Figura 71 - Terceiro pavimento (sem escala) ... 89
Figura 72 - Detalhe do telhado verde (sem escala) ... 90
Figura 73 - Pavimentos tipo ... 91
Figura 74 - Tipologia 1 (84,60 m²) ... 92
Figura 75 - Tipologia 2 (43,00 m²) ... 92
Figura 76 - Tipologia 3 (132,60 m²) ... 93
Figura 77 - Tipologia 4 (61,27 m²) ... 94
Figura 78 - Tipologias 5a e 5b ... 95
Figura 79 - Tipologias 5c e 5d ... 96
Figura 80 - Corte A (sem escala) ... 97
Figura 81 - Corte B (sem escala) ... 98
Figura 82 - Corte C (sem escala) ... 98
Figura 83 - Corte D (sem escala) ... 99
Figura 84 - Corte E (sem escala) ... 99
Figura 85 - Corte F (sem escala) ... 100
Figura 86 - Esquema estrutural (sem escala) ... 101
Figura 87 - Perspectiva geral do empreendimento ... 102
Figura 88 - Perspectiva da praça a partir da Rua Antonio Alves ... 103
Figura 89 - Perspectiva a partir do cruzamento das ruas Antonio Alves e Manoel Bento da Cruz ... 103
Figura 90 - Perspectiva da fachada principal do bloco B a partir da Rua Manoel Bento da Cruz ... 104
Figura 91 - Perspectiva interna do bloco A ... 104
1 INTRODUÇÃO ... 12
1.1 JUSTIFICATIVA ... 13
1.2 OBJETIVOS ... 13
1.2.1 Objetivo geral ... 13
1.2.2 Objetivos específicos ... 14
1.3 MÉTODOS DE PESQUISA ... 14
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ... 15
2.1 A CIDADE ATRAVÉS DA HISTÓRIA ... 15
2.2 A CIDADE BRASILEIRA ... 22
2.3 A CIDADE ILEGAL ... 24
2.4 ATUAIS POLÍTICAS DE HABITAÇÃO NO BASIL ... 27
3 OBRAS CORRELATAS ... 29
3.1 CONJUNTO HABITACIONAL DO REAL PARQUE – ESCRITÓRIO PAULISTANO ... 29
3.2 SESC POMPEIA – LINA BO BARDI ... 36
3.3 CONJUNTO NACIONAL SÃO PAULO – DAVID LIBESKIND ... 42
4 VISITA TÉCNICA AO CONJUNTO NACIONAL DE DAVID LIBESKIND 48 5 O PROJETO: ESTUDO PRELIMINAR ... 58
5.1 MUNICÍPIO ... 58
5.2 LOCALIZAÇÃO E ANÁLISE DA ÁREA ... 60
5.3 CONCEITO E PARTIDO ... 72
5.4 PROGRAMA DE NECESSIDADES ... 72
5.5 MACROZONEAMENTO / IMPLANTAÇÃO ... 73
5.6 CORTES VOLUMÉTRICOS ... 77
5.7 ESTUDO VOLUMÉTRICO ... 78
6 ANTEPROJETO ... 80
6.1 IMPLANTAÇÃO ... 80
6.2 SUBSOLO ... 84
6.3 PRIMEIRO PAVIMENTO ... 85
6.4 SEGUNDO PAVIMENTO ... 87
6.5 TERCEIRO PAVIMENTO ... 89
6.6 PAVIMENTO TIPO: RESIDENCIAL ... 90
6.7 CORTES ... 97
6.9 PERSPECTIVAS ... 102 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 105 REFERÊNCIAS ... 106
1 INTRODUÇÃO
A cidade de Bauru, localizada na região Oeste de São Paulo, que teve seu crescimento diretamente atrelado à produção de café e ao desenvolvimento de sua malha ferroviária, é atualmente um importante polo comercial e educacional para sua região, é ainda, a cidade mais populosa desta, possuindo elevados índices de urbanização, características estas que a qualificam como capital regional dentro da hierarquia urbana.
Por conta disto, Bauru vem enfrentando alguns problemas recorrentes nas grandes metrópoles brasileiras, como a falta de moradia e o crescimento do déficit habitacional, que pode ser observado, dentro do contexto da cidade, através de ocupações irregulares, as quais carecem de equipamentos urbanos básicos, como coleta de águas pluviais, esgoto, energia elétrica e etc.
Defronte a esta problemática, o presente trabalho buscou entender de forma mais detalhada a dinâmica espacial da cidade e suas origens, através de um levantamento bibliográfico, para posteriormente estudar, de forma mais profunda, a desigualdade social e a segregação socioespacial presentes nas grandes metrópoles brasileiras, a fim de entender melhor as origens dos assentamentos de risco e também compreender a forma que o solo urbano é ocupado nos dias atuais, que é na maioria das vezes através de práticas especulativas das iniciativas privadas, para, por fim, aplicar os conhecimentos adquiridos no projeto de um edifício multifuncional na cidade de Bauru, que apesar de possuir um cunho interiorano, ainda enfrenta problemas relacionados à desigualdade social e segregação socioespacial.
Ainda, a fim de aumentar o repertório, realizou-se a pesquisa e a análise de três obras correlatas consideradas importantes para o projeto, sendo elas: o Conjunto Habitacional do Real Parque, realizado pelo escritório Paulistano de Arquitetura, o SESC Pompeia, de Lina Bo Bardi e, por fim, o Conjunto Nacional, de David Libeskind, no qual fez-se ainda uma visita técnica, visto que o programa de necessidades deste assemelha-se muito com o proposto pelo presente projeto, a fim de entender e definir de forma mais clara as decisões projetuais a serem adotadas.
Por fim, conclui-se este trabalho com a analise espacial da área de intervenção, através do levantamento de dados a respeito de algumas condicionantes, como uso e ocupação do solo, gabarito, equipamentos urbanos e etc., para a concepção do projeto de um edifício multifuncional, que agregue em seu programa de necessidades, além das habitações, um centro comercial e de lazer aberto a um público mais amplo e diverso.
1.1 JUSTIFICATIVA
Atualmente, o déficit habitacional é um problema urbano que afeta inúmeras cidades do Brasil e do mundo. A fim de minimizar este problema, o Estado se dispõe a criar políticas de habitação e programas de habitação social que, teoricamente, serviriam para suprir a falta de habitação e garantir o direito de moradia a todos os cidadãos brasileiros.
Porém, ao estudar mais a fundo a dinâmica das habitações sociais, e principalmente os locais adotados pelo Estado para a implantação das mesmas, que geralmente são terrenos periféricos, longes dos centros urbanos e com uma carência gigantesca de equipamentos urbanos adequados, é possível perceber que, ao resolver o problema do déficit habitacional, o Estado cria um outro problema tão grave quanto o primeiro, que seria a marginalização e a segregação socioespacial de uma classe social específica, mantendo as pessoas mais ricas no centro, e expurgando as pessoas mais pobres para as bordas da cidade, com a falsa premissa de garantir o direito à moradia para todos.
Com base nisto, o presente estudo visa buscar uma alternativa para amenizar o déficit habitacional na cidade, e ainda garantir acesso ao centro urbano para uma maior parcela de indivíduos, relacionando os interesses da iniciativa pública com os interesses da iniciativa privada, a fim de minimizar a segregação socioespacial e criar uma nova dinâmica urbana, a qual envolveria a cooperação de todos os indivíduos.
1.2 OBJETIVOS
Para uma melhor compreensão do que se pretende propor com este trabalho, a seguir listam-se os principais objetivos a serem alcançados, a fim de justificar os tópicos que aqui se desenvolverão e auxiliar na compreensão da importância que cada um representa para a obra como um todo.
1.2.1 Objetivo geral
Desenvolver, para a cidade de Bauru, a proposta de um edifício multifuncional, que abranja em seu programa de necessidades amplos espaços de lazer, comércio, convivência e, acima de tudo, um complexo habitacional de qualidade que possa ser utilizado pelos
diferentes nichos que compõe a sociedade, garantindo desta forma que o solo urbano seja acessível a uma quantidade maior e mais variada de pessoas.
1.2.2 Objetivos específicos
• Entender, de forma geral, a história das cidades, como elas se desenvolveram e também as origens de seus problemas;
• Estudar a formação das metrópoles brasileiras para, desta forma, compreender melhor as raízes da desigualdade socioespacial presente no país;
• Compreender o conceito de cidade ilegal, assim como sua dinâmica de formação e ainda os impactos negativos que estes aglomerados urbanos causam na qualidade de vida do indivíduo e também da sociedade.
• Pontuar as atuais políticas habitacionais em vigor no brasil e discutir se estas estão sendo de fato eficazes no combate do déficit habitacional presente nas metrópoles brasileiras;
• Desenvolver projeto de edificação que permita reflexões acerca do tema fundamentado.
1.3 MÉTODOS DE PESQUISA
A fim de obter maiores embasamentos a respeito do tema que aqui se propõe desenvolver, o presente estudo se inicia através de uma fundamentação teórica baseada no levantamento bibliográfico de trabalhos já existentes, coerentes com o tema proposto.
Posteriormente, faz-se a pesquisa e a análise de obras correlatas já executadas com elementos projetuais semelhantes aos que se pretende adotar. Por fim, como um complemento às análises correlatas, realizou-se uma visita técnica com a catalogação das percepções arquitetônicas captadas pelo autor. Na produção desta obra, foram utilizados como fontes de conhecimento: livros, artigos científicos, entrevistas, dissertações de mestrado e doutorado, sites e obras referenciais arquitetônicas.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 A CIDADE ATRAVÉS DA HISTÓRIA
A definição do conceito chamamos hoje de “cidade” está em constante transformação e associar este termo a um único significado é uma tarefa árdua, se não impossível, uma vez que suas definições estão diretamente ligadas a contextos históricos, geográficos e temporais (VASCONCELOS, 2015).
Tampouco é possível afirmar que a cidade, assim como o espaço geográfico, existe no mesmo momento em que a humanidade surge no planeta, uma vez que a existência de ambos só é viável a partir do momento em que o homem possui as condições e destrezas necessárias para modificar a natureza a seu redor, e produzir a partir dela algo humano e sociável. (CARLOS, 2009, p.57)
Para Sposito (2008, p.11), podemos entender as cidades atuais como “resultado cumulativo de todas as outras cidades de antes [...] produzidas pelas transformações sociais ocorridas através dos tempos”. Portanto, entendemos que a construção do conceito de cidade (e não seu surgimento concreto), nasce junto com o homem primitivo, e, por conseguinte, atravessa sua história, estando em constante mudança até os dias atuais.
É logo no período paleolítico da história da humanidade, período o qual é caracterizado pelo nomadismo e comportamento predatório, que o homem começa a flertar com o interesse de se relacionar com o espaço a sua volta. (SPOSITO, 2008, p.12)
Embora a caverna ainda não fosse sua morada fixa, era nela que o homem paleolítico encontrava segurança, praticava seus rituais e desenvolvia sua arte.
(MUMFORD, 1985, apud SPOSITO, 2008, p.12)
Portanto, pode-se dizer que as práticas artísticas e religiosas seriam o embrião primitivo da própria cidade, uma vez que eram estas práticas que, de tempos em tempos, atraiam de volta os povos nômades a espaços já habitados a fim de praticar rituais e cultuar seus mortos.
A cidade dos mortos antecede a cidade dos vivos. Num sentido, aliás, a cidade dos mortos é a percursora, quase núcleo, de todas as cidades vivas, A vida urbana cobre o espaço histórico entre o mais remoto campo sepulcral da autora do homem e o cemitério final, a Necrópolis em que uma após outra civilização tem encontrado o seu fim. (MUMFORD, 1982, p.13)
Posteriormente a isto, no período neolítico, teremos a dominação das técnicas agrícolas, fato que possibilitou a fixação do homem à terra, e consequentemente impulsionou o surgimento das primeiras vilas, que proporcionaram ao homem primitivo uma mudança significativa em seus hábitos, uma vez que as antigas práticas predatórias não se faziam mais necessárias, materializando assim a primeira condição para o surgimento das cidades (SPOSITO, 2008, p.13)
Foi na aldeia que o homem teve a capacidade de se desenvolver, entretanto, estas estruturas ainda não tinham potencial suficiente, por mais povoadas que fossem, para caracterizar a cidade, uma vez que sua economia não passava de um pequeno aglomerado primitivo de agricultores, cuja as divisões de trabalho se restringiam a aspectos como idade e sexo.
Foram, de fato, necessários milhares de anos para que o homem pudesse atingir este nível de estabilidade proporcionado pelas aldeias, e ao fazê-lo, poucos estímulos promoveu para um desenvolvimento progressivo ainda maior (MUMFORD, 1982, p.26). O próximo passo na história das cidades carecia de um impulso externo, que movesse o homem de sua forma primitiva para um estado minimamente civil. E este impulso veio na forma evoluída da figura do caçador paleolítico, o qual passou a desenvolver um papel importante dentro da aldeia neolítica. Enquanto o aldeão era responsável pela produção agrícola, pelo armazenamento de cereais e pela confecção de jarros e cestos, o caçador, detentor do conhecimento necessário para manipular as armas de pedra, ficava encarregado de proteger os demais indivíduos da aldeia dos ataques hostis dos tigres, leões, lobos e outras feras primitivas.
Com o passar do tempo, a figura do caçador assume o papel de chefe político que, por sua vez, irá assumir a postura de rei soberano. E foi esta mesma figura de rei que conduziu a economia desorganizada do pequeno conjunto de agricultores a uma economia urbana altamente organizada, assim como afirma Mumford (1982, p.44): “O que eu sugeriria é que o mais importante agente na efetivação da mudança de uma descentralizada economia de aldeia para uma economia urbana altamente organizada foi o rei, ou melhor, a instituição da realeza.”
Instituição a qual ocorre, segundo toda documentação histórica, pelo menos no Egito e na Mesopotâmia, locais os quais são considerados com unanimidade pelos autores como ponto de origem das primeiras civilizações: por volta de 3.500 a.C na Mesopotâmia e, um pouco mais tarde, a 3.100 a.C no vale do rio Nilo. (SPOSITO, 2008, p.18).
Como visto anteriormente, a arte sempre esteve presente na história da humanidade e serviu como o primeiro impulso que estimulou a relação do homem com o espaço, entretanto, quando se fala em cultura ocidental, poucas ligações são feitas com os povos primitivos originários do sul da França ou com os aborígenes americanos, na verdade, quase toda a bagagem cultural ocidental originou-se no Egito antigo, uma vez que, segundo Sigfried Giedion: “os artistas gregos aprenderam com os egípcios, e todos nós somos alunos dos gregos.” (apud ALONSO PEREIRA, 2010 p.29).
Emergindo a partir dos esforços humanos somados às perfeitas condições geográficas proporcionadas pela faixa setentrional de terra irrigada pelo ciclo das águas do rio Nilo, a civilização egípcia se desenvolve por mais de seis milênios, quase totalmente apartada das demais, já que se situava em uma região cercada por desertos a leste e a oeste, pelo mar Mediterrâneo ao Norte, e por cataratas ao sul, o que a tornava completamente inacessível a povos invasores da época (ALONSO PEREIRA, 2010).
O Egito resulta, assim, em um laboratório estável e impermeável que desenvolve uma civilização própria; um laboratório que reduz a complexidade das dimensões arquitetônicas espaço-temporais, admitindo só a linearidade como dimensão urbana e a superfície como dimensão arquitetônica e evitando com astúcia a temporalidade (ALONSO PEREIRA, J. R. 2010, p.30-31).
Portanto, foi a partir do conhecimento construído pelos egípcios, ainda no período pré-clássico, que surgiram as primeiras noções civis e urbanísticas que conhecemos hoje dentro da cultura ocidental. Logo, se estas noções foram construídas pelos egípcios, as mesmas foram solidificadas e aprimoradas pelos gregos, no período clássico da história da humanidade.
É observando a Grécia antiga que conseguimos enxergar, de forma clara, as raízes do urbanismo ocidental, expressas principalmente pelas relações dos gregos com o espaço urbano, que aconteciam nos templos, onde o significado político se sobressaia ao religioso, uma vez que era o templo que detinha a função de armazenar os arquivos públicos, guardar o erário do Estado, registrar os tratados firmados com povos estrangeiros e ainda servia essencialmente como centro das festas solenes da nação. (ALONSO PEREIRA, 2010).
Além dos templos, estas relações com o espaço urbano também aconteciam na ágora, que é o exemplo máximo deixado pelos gregos de espaço público. A ágora era o espaço urbano que possibilitava os debates políticos, o comércio e os encontros sociais dos cidadãos da pólis grega. Devido ao caráter da utilização deste espaço, o termo se solidificou e passou a ser utilizado por alguns autores como sinônimo para espaço público.
Portanto, é possível concluir que as principais atividades dos cidadãos gregos aconteciam nos espaços externos das residências e dos templos, logo, assim como aponta Alonso Pereira (2010, p.70) “pode-se dizer que a história da arquitetura grega foi essencialmente uma história do urbanismo”.
Este modelo de espaço público criado pelos gregos serviu de base para inúmeros outros, principalmente os que foram produzidos pelos romanos, os quais tinham como principal representação de espaço público o Fórum Romano, que possuía funções similares ao da ágora grega no contexto da urbe romana, servindo como espaço público, político e religioso. Além dos fóruns, podemos citar como grande exemplo de peça pública as termas, que eram edificações voltadas à serviços de higiene e desportivos sociais, que desempenhavam um importante papel na vida social do cidadão romano. Fazia-se ainda parte do conjunto urbano romano os teatros, os anfiteatros e circos, todos de caráter público e cultural. Um grande destaque do urbanismo romano se dá, também pela construção de infraestrutura urbana por meio das cloacas e aquedutos, além da adoção do traçado hipodâmico como organizador das vias de circulação. (ALONSO PEREIRA, 2010).
De fato, a caracterização do espaço público criada pelos gregos e maximizada pelos romanos, permanece presente ainda nos dias contemporâneos atuais, contudo, em um contexto geral, a cidade ocidental que conhecemos hoje certamente sofreu fortes influências de outros períodos históricos sucessores ao período clássico, assim como define Sposito (2008, p.6): “a cidade de hoje, é o resultado cumulativo de todas as outras cidades de antes, transformadas, destruídas, reconstruídas, enfim produzidas pelas transformações sociais ocorridas através dos tempos”.
Após a queda de Roma, ocasionada em meados de 410 d.C por invasões bárbaras, teremos outro período importante para a história das cidades ocidentais: a Idade Média, que, segundo Carlos (2009), é essencialmente marcada por uma nova estrutura de classes, onde a posse de terra passa a ser o símbolo máximo de riqueza, símbolo este que se concentrava na mão das instituições religiosas e também da nobreza. Junto a isto, tem-se ainda uma economia baseada em atividades agrícolas auto suficientes, onde a produção estava diretamente ligada ao consumo, diferentemente da antiguidade, que possuía um traço comercial muito marcante.
Sposito (2008) afirma que a consequência mais marcante da queda do império romano foi, de fato, a desarticulação da rede urbana criada até então, que ocorreu devido à descentralização do poder político. Junto a isto, soma-se o bloqueio islâmico do comércio
marítimo mediterrâneo, que colocou um fim definitivo às atividades comerciais do povo europeu, e atribuiu a estes um caráter restrito às atividades agrícolas de subsistência.
Por este motivo, os povoamentos que surgiram logo no início deste período não podem ser considerados econômica e politicamente como aglomerados, de fato, urbanos, uma vez que estavam intrinsecamente ligados à agricultura e não forneciam muitos serviços políticos, como acontecia nas cidades da antiguidade (SPOSITO, 2008).
As cidades medievais começaram a se solidificar apenas do século XI, quando o comércio volta a ter relevância no cenário econômico da época, que acontece através de pequenos comerciantes alojados em pontos estratégicos de venda, como estradas, encruzilhadas e também aos arredores dos burgos. Segundo Carlos (2009), a cidade só se faz possível enquanto organização espacial quando a economia autossuficiente do feudo do início da idade média transfigura-se em uma economia monetária, promovendo fortes mudanças de valores e alavancando o desenvolvimento do comércio e consequentemente da população. Ou seja, as cidades ganham força à medida que se desenvolve a manufatura e para ela se converge a grande massa de trabalhadores do campo.
A grosso modo, a intensificação das atividades comerciais durante os quase mil anos (do século V ao século XV, aproximadamente) de idade média repercutiu no desenvolvimento de uma sociedade baseada no capital, mas especificamente na acumulação dele por uma classe dominante através da mão de obra da classe trabalhadora.
A partir desta necessidade de acumulação e produção do capital, intensificou-se o incentivo ao desenvolvimento técnico e científico, que tinha como objetivo a produção de máquinas que já não dependiam exclusivamente da força humana (SPOSITO, 2008).
“[...] Antes era possível acumular-se a partir do comércio de todo o tipo que a economia mercantil permitia (inclua-se aí os saques e a pirataria, por exemplo). Agora, era possível reproduzir este capital acumulado, investindo-o na produção, através da compra dos meios de produção necessários: matéria-prima, ferramentas, máquinas e torça de trabalho.
Embutido no preço do produto, agora sob a determinação do capitalista, estava o "lucro", aquilo que a economia liberal considera a remuneração do capital investido, e que, na verdade, constitui-se na apropriação de parte da riqueza produzida pelo trabalhador que o seu salário não remunera — a mais-valia.” (SPOSITO, 2008, p.47)
Tal processo foi tão transformador e decisivo que tomou para si o nome de revolução, lançando sob a humanidade novas perspectivas sociais e culturais, revolucionando inclusive o próprio processo de urbanização (OLIVEIRA et al, 2019).
Com a industrialização do processo de produção ocasionada pela revolução industrial, que se deu início na Inglaterra logo na segunda metade do século XVIII (SPOSITO, 2008) e se caracteriza principalmente pela substituição do modo de produção manufatureiro pelos processos fabris, assim como pela evolução tecnológica e também pela busca de novas fontes energéticas, fez-se necessária uma maior demanda da mão de obra operária, que era constituída principalmente por camponeses que deixavam o campo e migravam para as cidades em busca do trabalho assalariado, surgindo assim uma nova classe social: a do proletário (MILANO, 2011).
Segundo Milano (2011), como consequência deste massivo aumento demográfico, tem-se o aparecimento de um novo modelo urbano, o qual detinha a fábrica como seu núcleo principal e os assentamentos residenciais operários emergiam aos seus arredores, com condições qualitativas muito inferiores às adequadas para as condições de vida humana, apresentando alta densidade, ausência completa de espaços livres, ausência de recuos laterais nos lotes, insalubridade, congestionamentos.
Para Oliveira et al (2019), a “modernização” advinda da revolução industrial foi a grande responsável por todas as barbáries e cenários de miséria da contemporaneidade, sendo as cidades mais desenvolvidas as também mais miseráveis, pobres e de subúrbios urbanos mais degradados.
Milano (2011) afirma que, já na primeira metade do século XIX, as problemáticas urbanas causadas pelo processo de industrialização das cidades inglesas passaram a ameaçar todas as outras classes que coexistiam nos mesmos espaços urbanos, uma vez que a insalubridade dos assentamentos habitacionais operários favorecia a proliferação de doenças e ainda “enfeiavam” a paisagem urbana. Benevolo (2003) ainda ressalta que por este motivo, tanto os representantes das classes dominantes quanto os das classes subalternadas (os radicais e os socialistas), propuseram novas formas de intervenção pública. (apud MILANO, 2011).
É, portanto, a partir dos efeitos colaterais causados pela cidade industrial, tais quais as altas taxas de mortalidade, disfunções sociais, habitações inadequadas e também a pobreza, que se tem início ao planejamento urbano moderno, marcado por uma sucessão de campanhas de reforma que tinham como objetivo humanizar a mesma (CARMO, 2020).
Para Carmo (2020), este planejamento era idealizado pelos seus percursores com base na colonização planejada, que consistia em criar uma nova cidade assim que a anterior atingisse determinado tamanho populacional, as quais eram separadas por um
cinturão verde, e além deste, baseavam-se também em avenidas radiais, no desenho de praça central e em indústrias periféricas.
Dentro deste modelo, destaca-se a Garden City, idealizada por Ebenezer Howard, que concentrava sua essência na importância simbólica dos espaços verdes e também na imagem que se tinha do campo (CALABI, 2012 apud CARMO, 2020). A cidade-jardim de Howard seguiria a mesma proposta da colonização planejada: seria envolta por um cinturão verde, com um limite populacional fixo que, ao ser excedido, desenvolver-se-ia outra cidade nas proximidades.
Jacobs (2011), entretanto, faz ásperas críticas a esta linha de planejamento ortodoxa, uma vez que seu autor só se interessava pelos aspectos urbanos que eram condizentes com sua utopia e não possuía interesse em questões importantes que envolvem os centros urbanos, como a segurança pública, a troca de ideias, o funcionamento político, etc. Sendo as Cidades Jardim, nas próprias palavras da autora, “cidades realmente muito agradáveis se os moradores fossem dóceis, não tivessem projetos de vida próprios e não se incomodassem em levar a vida em meio a pessoas sem projetos de vida próprios.”
(JACOBS, 2011, p.23).
A autora ainda destaca que as concepções urbanísticas adotadas no modelo de Cidade Jardim difundiram ideias equivocadas a respeito dos elementos que compõem o espaço urbano. Infelizmente foram estas as bases adotadas pelos planejadores urbanos modernos dos anos 20, que caracterizavam as ruas como um lugar ruim e hostil para os seres humanos, que em geral adotavam as superquadras como unidade básica do traçado urbano e ainda subordinavam o comércio a um espaço restrito previamente “calculado”
com base na demanda do bairro.
O planejamento urbano moderno trouxe fortes características de zoneamento e setorização dos diversos usos urbanos. Este fator colaborou com os esvaziamentos dos espaços urbanos em diferentes momentos do dia conforme a dinâmica das cidades, por exemplo, áreas residenciais ficam esvaziadas durante o horário comercial e os centros das cidades, durante a noite e finais de semana, podem tornar-se vazios quando as lojas estão fechadas. A cidade contemporânea deve ser pensada misturando as diversas funções trazendo vida para os bairros e, principalmente os centros das cidades.
2.2 A CIDADE BRASILEIRA
No Brasil, o desenvolvimento urbano foi uma consequência do processo de colonização portuguesa, que se deu início, segundo os registros históricos, a partir do ano 1500. Contudo, durante os primeiros anos de colonização, não houveram quaisquer processos de urbanização, uma vez que as relações de Portugal com sua colônia eram baseadas em uma economia predatória da extração do pau-brasil, como aponta Reis Filho (1968, p.183).
A princípio, o Brasil era uma retaguarda rural para os mercados europeus, logo, sua estrutura era baseada em grandes centros agrícolas operados à base de trabalho escravo, portanto, a relação das áreas rurais com os núcleos urbanos desta época era completamente diferente do modelo adotado na Europa até então, uma vez que as primeiras redes urbanas no brasil tinham como função amparar as atividades agrícolas de exportação. Este cenário perdura aproximadamente até meados do século XVII (REIS FILHO, 1968).
A produção do espaço urbano e arquitetônico do período colonial terá o lote e a rua como base unitária, sendo suas construções edificadas sobre o alinhamento das vias públicas e também sobre os limites laterais do terreno. A uniformidade e padronização das casas também é um ponto marcante do período colonial, as quais eram erguidas a partir de mão de obra escrava e, portanto, possuíam um baixíssimo nível técnico-construtivo, esquema este baseado, segundo Reis Filho (2000), no urbanismo medieval-renascentista de Portugal.
Portanto, é possível concluir que durante séculos o Brasil se caracterizou como um país cujo o cenário econômico era baseado essencialmente em atividades agrárias, tendo suas cidades como “[...] uma emanação do poder longínquo, uma vontade de marcar presença num país distante.” (SANTOS, 1993, p.17).
Segundo Oliveira et al. (2019), a urbanização brasileira caracteriza-se como uma
“realização social tardia”, uma vez que seu desenvolvimento veio a se solidificar apenas na segunda metade do século XX, contudo, ocorreu de forma extremamente rápida, tendo a população urbana maior que a rural já na década de 70 (IBGE, 2010, apud OLIVEIRA et al. 2019, p. 122)
Singer (1990, p.15) define a cidade como um “[...] modo de organização espacial que permite à classe dominante maximizar a transformação do excedente alimentar, não diretamente consumido por ele, em poder militar e este em dominação política.” (apud OLIVEIRA et al. 2019, p.119), portanto, a partir desta reflexão, pode-se entender a cidade
como um organismo favorável a uma classe dominante e diretamente controlado pela mesma, característica esta que se faz presente na história brasileira desde o surgimento de suas primeiras cidades e carrega consigo problemas como a segregação socioespacial e a concentração de renda por uma minoria.
Um exemplo disto é a Lei da Terra de 1850, a qual inviabilizava a reforma agrária e dificultava a ocupação das terras produtivas aos que nelas trabalhavam (escravos, indígenas, camponeses, meeiros, ribeirinhos, entre outros), tornando os centros urbanos, ou melhor, os subúrbios urbanos (já que os centros eram altamente especulados) como uma das poucas alternativas de habitação que estas pessoas possuíam. (OLIVEIRA et al. 2019).
Outro exemplo de dominação e segregação social do espaço urbano pertinente a ser citado, dentre muitos outros, foram as políticas higienistas aplicadas em São Paulo e no Rio de Janeiro entre os séculos XIX e XX, as quais tinham como objetivo a higienização das cidades a partir de medidas públicas voltadas ao combate de doenças e de seus focos de proliferação, focos estes que se faziam presentes principalmente nas habitações de pessoas mais pobres (cortiços). (OLIVEIRA SOBRINHO, 2013)
As precárias condições sanitárias presentes nas casas dos bairros de imigrantes, juntamente com as encontradas nos cortiços espalhados por quase toda a cidade, justificaram a expansão do aparelho oficial de fiscalização higiênica, cujos resultados antecederam os que seriam alcançados no Rio de Janeiro na primeira década do século XX – não por acaso pelas mesmas elites paulistas. (MARINS, 2006, p. 173-175, apud OLIVEIRA SOBRINHO, A. S., 2013, p.231).
Partindo da premissa de transformar a cidade em um local mais seguro e livre de doenças, os governos se empenhavam em afastar os pobres para as periferias das cidades, pautados cada vez mais em modelos importados da Europa, os quais detinham o homem branco como o perfil ideal que compunha a estrutura social. Portanto, podemos concluir que as políticas higienistas não buscavam apenas higienizar as cidades de doenças, mas também de camadas mais pobres da sociedade, expurgando-as para as margens.
Este processo de expropriação de terras e concentração de renda perdurou no Brasil durante anos, contribuindo com o surgimento massivo de moradias precárias e irregulares nos subúrbios dos grandes centros urbanos brasileiros, um problema que persiste até os dias atuais.
2.3 A CIDADE ILEGAL
Como apontado anteriormente, o problema da segregação socioespacial está entranhado nas origens das cidades brasileiras, uma vez que os próprios governos se encarregavam de criar mecanismos para concentrar as terras e o capital nas mãos de uma minoria e paralelamente expulsar a população mais pobre dos centros urbanos, segregando- as nas periferias.
O processo de urbanização brasileiro deu-se, praticamente, no século XX.
No entanto, ao contrário da expectativa de muitos, o universo urbano não superou algumas características dos períodos colonial e imperial, marcados pela concentração de terra, renda e poder, pelo exercício do coronelismo ou política do favor e pela aplicação arbitrária da lei.
(MARICATO, E. 2003, p.151)
É fato que as metrópoles brasileiras enfrentam hoje um grande problema relacionado ao déficit habitacional e também ao crescimento desgovernado de assentamentos irregulares e habitações precárias, fato este que é reflexo de um longo histórico de exploração da terra e concentração de renda nas mãos de uma classe dominante privilegiada que se fez presente durante toda a história da urbanização do Brasil.
Segundo o site de notícias CNN (2021) estudos realizados através da análise de imagens de satélite feitos pelo projeto MapBiomas, as favelas no Brasil tiveram um aumento significativo no período entre 1985 e 2020, aumento o qual é equiparável ao território de 11 cidades de Lisboa (capital de Portugal, que possui uma área de 100 km²).
Ainda, segundo dados coletados por pesquisas realizadas pelo Instituto Locomotiva, em parceria com o Data Favela e a Central Única das Favelas (CUFA), cerca de 17,1 milhões de pessoas habitam as favelas brasileiras, número este que representa 8%
da população nacional, 2% a mais do que o apresentado no censo demográfico de 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Além disso, a pesquisa também aponta que 89% desta população (a que reside nas favelas) está situada em regiões metropolitanas, o que torna a favela uma condição urbana das metrópoles brasileiras. (ISTOÉ, 2016)
Para Maricato (2003) a segregação urbana (ou ambiental) é um dos componentes mais cruciais da desigualdade social, funcionando ainda como promotor da mesma, uma vez que o indivíduo segregado está exposto a problemas urbanos
À dificuldade de acesso aos serviços e infra-estrutura urbanos (transporte precário, saneamento deficiente, drenagem inexistente, dificuldade de abastecimento, difícil acesso aos serviços de saúde, educação e creches, maior exposição à ocorrência de enchentes e desmoronamentos etc.) somam-se menos oportunidades de emprego (particularmente do emprego formal), menos oportunidades de profissionalização, maior exposição à violência (marginal ou policial), discriminação racial, discriminação contra mulheres e crianças, difícil acesso à justiça oficial, difícil acesso ao lazer. A lista é interminável.” (MARICATO, E. 2003, p.152)
A exclusão social, segundo Maricato (2003), não é algo passível de mensuração, porém caracteriza-se por alguns indicadores, como a pobreza, baixa escolaridade, a irregularidade e ilegalidade, a raça, o sexo, a origem e, principalmente, como destaca a autora, a ausência de cidadania.
A cidade ilegal, como o próprio nome já sugere, é aquela que cresce em paralelo aos padrões detalhados de construção, amparados pelas leis de parcelamento do solo, zoneamento, plano diretor, entre outras, a qual a única regra é a contravenção. Segundo Maricato (2003), “A maior parte da produção habitacional no Brasil se faz à margem da lei, sem financiamento público e sem o concurso de profissionais arquitetos e engenheiros”
(apud MARICATO, 2001 e Instituto Cidadania, 2000).
Como apontado nos parágrafos anteriores, a população que compõe a chamada
“cidade ilegal” carece de vários fatores necessários para uma vida saudável e adequada, é inclusive carente do direito mais básico do cidadão brasileiro, a própria cidadania, logo esta mesma população deveria receber um amparo maior dos governos brasileiros, a fim de se cumprir o que é estabelecido no artigo 6º da constituição federal de 1988, amplificado após a Emenda constitucional nº 26/2000, a qual inclui a moradia como um direito social.
A legislação brasileira é de fato muito completa quando o assunto é a ocupação do solo urbano e rural, uma vez que temos à disposição inúmeros mecanismos de controle, como os planos diretores, as leis de parcelamento, os códigos de obras e até mesmo o próprio estatuto da cidade, contudo, segundo Maricato (2003, p.157), a legislação urbana só se faz presente quando o solo em questão é de interesse do mercado capitalista, o próprio Estado brasileiro se faz tolerante às práticas de ocupação ilegal do solo urbano, como destaca a autora: “[...] Aparentemente constata-se que é admitido o direito à ocupação, mas não o direto à cidade”.
E é por este e vários outros motivos que as cidades ilegais crescem cada vez mais em terrenos de proteção ambiental e inadequados para a habitação, com altos riscos de enchentes e deslizamento de terras. Ademais, a falta de legislações, ou melhor, a falta de
aplicabilidade das legislações já existentes, condena estas pessoas a um mundo carente por equipamentos urbanos e sanitários básicos e ainda, como se já não bastasse todo este desamparo, abandonado à mercê do poder das milícias.
Infelizmente, além do Estado, a sociedade, e principalmente as elites, também insistem em ignorar a existência da cidade ilegal, e acabam apoiadas em um falso discurso de meritocracia culpabilizam os próprios moradores por ocuparem áreas de risco. Para Demo (1993, p.2) “ser pobre não é apenas não ter, mas sobretudo ser impedido de ter, o que aponta muito mais para uma questão de ser do que de ter” (apud MARICATO, 2003).
Oliveira Sobrinho, (2013, p. 124-125) faz uma importante reflexão acerca da
‘naturalização’ da segregação socioespacial, a qual, segundo o autor, “[...] é na verdade um discurso que visa perpetuar o status das elites dominantes, uma colocação que coloca a condição de pobreza enquanto uma incapacidade deste próprio sujeito no meio social.”
Contudo, sabe-se que a realidade do sistema social brasileiro é absolutamente outra, o qual articula-se de forma a criar um mecanismo que tem como principal objetivo beneficiar os detentores do capital, perpetuando a diferença de classes e a segregação social.
Estes espaços são pensados e feitos para a reprodução ampliada do capital, isto é, os pobres são aqui posicionados de forma secundarizada, além de serem responsabilizados pelo próprio fracasso socioeconômico.
Enfim, a construção social do espaço urbano não é necessariamente um produto de suas condicionantes sociais, mas é uma intencionalidade previamente estabelecida e calculada para adquirir as feições espaciais que lhe definem (OLIVEIRA SOBRINHO, A. S., 2013 p.124-125).
2.4 ATUAIS POLÍTICAS DE HABITAÇÃO NO BASIL
Uma das formas mais eficiente de sanar os problemas habitacionais nas metrópoles (e até mesmo nos municípios) do Brasil é sem dúvida a aplicação de políticas públicas habitacionais eficazes, que garantam não só o direito à moradia, mas também o direito à cidade, uma vez que a população urbana brasileira, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada em 2015 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), equivale a 84,72% da população total.
O histórico de políticas públicas voltadas a sanar o problema do déficit habitacional nas cidades do brasil tem início no ano de 1964 com a criação do Banco Nacional de Habitação (BNH) e o Serviço Federal de Habitação e Urbanismo (Serfhau). Segundo Ribeiro e Azevedo (1996), durante os vinte e dois anos de atividade do BNH (1964 – 1986), foram financiadas um total de 5,5 milhões de unidades habitacionais, o que causou um impacto significativo na economia do país. (apud MELCHIORS, 2016).
Após a extinção do programa BNH, em 1986, o Brasil enfrentou uma atuação governamental descontínua e fragmentada, sem novas perspectivas para a aplicação de políticas habitacionais consistentes
Em 1996, quase dez anos após a extinção do BNH, lançou-se a Política Nacional de Habitação (PNH), elaborada durante o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). A PNH tinha como proposta integrar a habitação com a produção da cidade, priorizando o reconhecimento da função social da terra e a necessidade da criação de mecanismos para o estímulo da participação coletiva nos processos de decisão (CAMPOS;
MENDONÇA, 2013 apud MELCHIORS, 2016).
Aprovada efetivamente em 2004, a Política Nacional de Habitação vigora até o presente momento como principal normativa do Governo Federal em relação às políticas habitacionais, como o Programa Casa Verde e Amarela, sucessor do antigo Programa Minha Casa, Minha Vida (PMCMV), que foi fundado em 2008 com o intuito de impactar a economia brasileira através dos efeitos multiplicadores da construção civil, como uma resposta à grande crise econômica iniciada nos Estados Unidos no mesmo ano.
(MELCHIORS, 2016).
Extinto em 2021, o programa Minha Casa, Minha vida abre espaço para o novo programa habitacional Casa Verde e Amarela, o qual foi lançado no dia 25 de agosto de 2020 pelo Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR) e é basicamente uma reformulação de seu antecessor, uma vez que ambos possuem as mesmas bases e os
mesmos fins: viabilizar o acesso à moradia para a população brasileira de baixa renda.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento Regional (MDF), o programa se compromete em financiar 1.6 mil imóveis, regularizar 2 milhões de moradias e reformar 400 mil até o ano de 2024.
O principal diferencial entre o atual programa habitacional e seu antecessor está principalmente na extinção da chamada “faixa 1” de renda, a qual beneficiava com juros zero os cidadãos cuja a renda per capita mensal fosse de até R$ 1.800,00. A população de baixa renda que antes se beneficiava da Faixa 1 do Programa Minha Casa, Minha Vida, passa agora a atender os requisitos do “Grupo 1” do programa Casa Verde e Amarela, o qual atende pessoas com renda de até R$: 2.000,00, entretanto com taxas a partir de 4,25%
(GOVERNO FEDERAL, 2020).
Como forma de amparar a população antes atendida pela Faixa 1 do PMCMV, a qual se concentrava a maior necessidade habitacional (ROLNIK, 2020), o Programa Casa Verde e Amarela pretende viabilizar a renegociação das dívidas de financiamento dos imóveis destas pessoas, uma vez que cerca de 500 mil famílias se encontram na situação de inadimplência.
Para Rolnik (2020), as novas diretrizes adotadas pelo programa Casa Verde e Amarela, em especial a mudança do indexador do crédito imobiliário para a taxa IPCA (inflação), permitem a chamada “securitização” das dívidas financeiras das famílias de baixa renda atendidas pela extinta Faixa 1 do PMCMV, ou seja, vender as dívidas destas pessoas para fundos de investimentos e agentes financeiros, o mesmo esquema, segundo a autora, que provocou a crise hipotecaria nos Estados Unidos em 2008.
Desta forma, podemos concluir que o Brasil vem há muito tempo pautando suas políticas públicas habitacionais em sistemas de financiamento imobiliário conciliados com instituições de iniciativa privada, um fato que acaba tornando a moradia social também um objeto de especulação por parte destas instituições, o que pode ser um problema, uma vez que, a terra disponibilizada para estes complexos habitacionais é, em muitos dos casos, localizada em áreas muito afastadas dos centros urbanos, o que acaba perpetuando a dinâmica segregacionista presente na história brasileira, impactando diretamente a qualidade de vida dos indivíduos e, ainda, contribuindo para uma sociedade desigual, onde a localização urbana favorece uns enquanto destrói outros.
3 OBRAS CORRELATAS
3.1 CONJUNTO HABITACIONAL DO REAL PARQUE – ESCRITÓRIO PAULISTANO
Arquiteto: Escritório Paulistano;
Local: Morumbi, São Paulo;
Área: 47.300 m²;
Ano de projeto: 2010 a 2012.
Projetado entre os anos de 2010 e 2012 pelo Escritório Paulistano de Arquitetura (liderado pelo arquiteto Eduardo Colonelli) e construído no período de 2010 a 2015, o conjunto habitacional do Real Parque consiste em um complexo de habitações de interesse social que teve como principal objetivo recuperar a antiga Favela do Real Parque (47.300,00 m²), localizada na cidade de São Paulo, no bairro de mesmo nome do bairro do Morumbi (Figura 1).
Figura 1 - Favela do Real Parque antes de sua urbanização.
Fonte: Sehab (2012).
Segundo Athias (2003, 2007 apud PRADO, 2017) A Favela do Real Parque tem início já na década de 1950, com ocupações do povo indígena Pankararu, que vieram de Pernambuco para São Paulo em busca de melhores condições de vida e também e decorrência das secas que atingiam esta região. No mesmo período, grandes obras eram construídas na região do Morumbi, como o Estádio Cícero Pompeu de Toledo (1952 – 1970) e o Palácio dos Bandeirantes (1955 – 1965), obras as quais necessitavam de uma grande quantidade de mão de obra, que seria suprida pelos novos imigrantes pernambucanos, incentivando ainda mais as ocupações na região (as quais eram em sua maioria feitas de papelão e madeira) e culminando para o que seria no futuro a favela do Real Parque (FRANÇA, 2008 apud PRADO, 2017).
As intervenções urbanísticas na favela do Real Parque tiveram início no ano de 1996, efetuadas pela Prefeitura de São Paulo, através do Programa de Verticalização de Favelas – PROVER (Cingapura). 549 unidades habitacionais foram entregues até o final do ano de 2000, as quais estão distribuídas em 42 blocos e 5 condomínios de 5 a 7 pavimentos implantados entre a Rua Paulo Bourroul e a Avenida Marginal Pinheiros.
O projeto elaborado pelo Escritório Paulista de Arquitetura surge como resposta à necessidade de fornecer moradias adequadas à população da favela do Real Parque, onde a maioria das construções eram feitas de estruturas precárias e encontravam-se assentadas em encostas com risco de deslizamento.
Além disso, a prioridade das de urbanização da favela do Real Parque se encontra, segundo os autores do projeto, em algumas importantes condicionantes urbanas:
a) sua excelente localização com relação à cidade; b) disponibilidade de infraestrutura e transporte coletivo (sobretudo no nível metropolitano a partir da integração da ferrovia da CPTM com a linha Amarela do Metro na Estação Pinheiros); c) facilidade de acessos viários representado pela proximidade da Avenida Marginal Pinheiros e ampliado com recém construída Ponte Octavio Frias de Oliveira; e d) proximidade de amplo mercado de trabalho representado pelos condomínios residenciais da região e, na margem oposta do rio Pinheiros, pelos importantes complexos comerciais e de escritórios. (ESCRITÓRIO PAULISTA DE ARQUITETURA)
O entorno do projeto encontra-se urbanizado, com as ruas que o circulam majoritariamente asfaltadas, com calçadas e guias. Além disso a área conta com galerias de água pluvial, redes de água, esgoto, gás, energia elétrica, iluminação pública e coleta de lixo, a qual atende ao sistema viário do entorno da favela. Comércios e serviços de caráter local são as atividades não-residenciais mais presentes no local e em seu entorno,
entretanto, se faz presente também nas proximidades do terreno algumas grandes lojas, como a Leroy Merlin, o Pão de Açúcar e a Decanthlon. Além destes, o terreno está próximo a inúmeros condomínios residenciais de padrão elevado do bairro Morumbi.
Ao arruamento existente integram-se duas novas vias que complementam o sistema viário. Além destas, realizou-se o alongamento da rua Paulo Bourroul a fim de melhor integrar a área com o sistema viário da região. A Imagem 2 exemplifica a relação do projeto existente com seu entorno próximo, assim como as principais vias de acesso às edificações do complexo habitacional a ser implantado.
O programa de necessidades do projeto conta com um Parque-Praça, destinado aos espaços públicos e áreas verdes, uma creche de 800m² e um centro cultural-educacional de 2.550 m², além é claro das 1.252 novas unidades habitacionais, que compreendem uma área construída de 79.355 m² e estão divididas em 11 condomínios. Além disso, foram previstos no programa de necessidades alguns módulos comerciais, que acontecerão no pavimento térreo de alguns locais (conforme prevê a legislação). Todo o programa foi alocado nos perímetros de quatro quadras: Quadra H, Quadra I, Quadra A e Quadra
“Praça”. A Figuras 2 apresenta a implantação do projeto, a qual foi feita demarcação das áreas conforme interpretação para melhor entendimento e visualização da disposição das quadras.
Figura 2 - Relação entre as quadras
Fonte: Adaptado de Escritório Paulistano de Arquitetura (2012).
A grande maioria das edificações irregulares do terreno foram removidas, dando espaço aos novos condomínios fechados, atendidos pelas redes projetadas de água, esgoto, gás e energia elétrica. Além disso, 3% das unidades habitacionais são adaptadas para pessoas com deficiência. Cada condomínio tem entre 7 e 9 pavimentos e contempla, no máximo, 150 unidades habitacionais, contando ainda com áreas de lazer internas, cobertas e descobertas, para o uso exclusivo dos moradores, as quais se configuram como praças internas do condomínio (Figura 3).
Figura 3 - Área de lazer e sacadas
Fonte: Pedro Vannucchi (2012).
Um ponto interessante do projeto é que o pavimento térreo de acesso está sempre em um nível intermediário, com 4 pavimentos superiores e de 2 a 4 pavimentos inferiores, o que elimina a necessidade da solução mecânica para a circulação vertical, a qual foi prevista apenas como alternativa opcional futura. Além disso, a circulação horizontal foi resolvida através de varandas abertas e voltadas para as áreas coletivas de lazer, fato que contribui para a socialização dos indivíduos e ainda aumenta a sensação de segurança de quem utiliza estes espaços.
Ao todo, foram criadas 6 tipologias habitacionais, com área total privativa de 55m² cada, as quais preveem dois dormitórios com varanda, banheiro, sala e cozinha integradas e área de serviço. A diferenciação das tipologias é feita no dimensionamento de cada
ambiente, a fim de atender uma gama maior de modelos familiares, conforme mostram as figuras 4 e 5.
Figura 4 - Tipologias A, B e C
Fonte: Escritório Paulistano de Arquitetura (2012).
Figura 5 - Tipologias D, E e F
Fonte: Escritório Paulistano de Arquitetura (2012).
O sistema construtivo e estrutural adotado na execução do complexo habitacional foi o sistema convencional de alvenaria estrutural, feito a partir de blocos de concreto.
Além deste, os condomínios contam com fechamento em esquadrias de alumínio e vidro e também com guarda-corpos metálicos nas sacadas.
A princípio, projeto do conjunto habitacional do Real Parque pode ser considerado um grande exemplo brasileiro de urbanização de áreas degradadas e irregulares, uma vez que buscou resolver os problemas habitacionais de uma região nobre da cidade de São Paulo, altamente especulada, sem mover as famílias que ali residiam para áreas afastadas e periféricas da cidade. A isto, somam-se as melhorias realizadas na qualidade dos conjuntos habitacionais, viabilizando à população o acesso a moradia adequada, assim como o acesso aos equipamentos urbanos básicos.
Entretanto, quando estudamos com maior atenção o funcionamento do conjunto habitacional nos dias atuais, é possível perceber algumas situações alarmantes, como por exemplo o surgimento de novas ocupações irregulares no entorno das edificações (PRADO, 2017)
Rezende (2015) faz um alerta para a possibilidade de ocorrência de um processo de expulsão e gentrificação da área, ocasionado principalmente pela valorização imobiliária local promovida pela requalificação urbana e também pela falta de instrumentos efetivos que garantam a inserção e permeância dos moradores nos novos núcleos urbanizados (apud PRADO, 2017).
Conclui-se então que o projeto de urbanização da favela do Real Parque foi de extrema importância no combate da desigualdade social presente na área e também no fornecimento de habitações adequadas à população (que antes vivia em habitações precárias e insalubres, com acessos reduzidos a saneamento básico adequado, transporte, saúde, educação, etc.), tal importância pode ser percebida na comparação entre as figuras 6 e 7, onde a figura 7 representa a favela no ano de 2008, antes da intervenções urbanísticas e a figura 8 representa a favela depois delas, em 2021.
Entretanto, apenas o projeto em si talvez não seja o suficiente para garantir de fato a revitalização da área, uma vez que hoje nota-se o surgimento de novas ocupações irregulares aos arredores das áreas do projeto, portanto, faz-se também necessário a aplicações de outras políticas de reinserção destas populações marginalizadas para garantir que estas irão de fato prosperar e se reintegrar na cidade.
Figura 6 - Favela do Real Parque no ano de 2008.
Fonte: Google Earth
Figura 7 - Favela do Real Parque no ano de 2021.
Fonte: Google Earth
3.2 SESC POMPEIA – LINA BO BARDI
Arquiteto: Lina Bo Bardi;
Local: Barra Funda, São Paulo;
Área: 23.000 m²;
Ano de projeto: 1986.
Conceituar o sesc
O Sesc (Serviço Social do Comércio) é uma organização privada que tem como principal objetivo proporcionar o bem estar e a qualidade de vida aos trabalhadores brasileiros e também às suas famílias. Fundado em 1946, o Sesc carrega um sólido projeto cultural e educativo e ainda traz consigo a marca da inovação e da transformação social por meio da educação, desta forma, através de uma rede de 43 unidades operacionais destinadas à cultura, ao esporte, à saúde e à alimentação, ao desenvolvimento infantojuvenil, à terceira idade, ao turismo social, etc., viabiliza o acesso à cultura de qualidade a todas as camadas da sociedade (SESC, c2022)
Figura 8 - Sesc Pompeia de Lina Bo Bardi
Fonte: Pedro Kok
A unidade de Pompeia (Figura 8), concebida pela ilustre arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi (1914 – 1992) e idealizada durante o ano de 1986 a partir de antigas instalações de tipologia industrial da década de 30, é a própria materialização dos princípios abordados pelo Sesc, uma vez que seu programa de necessidades foi elaborado a fim de promover o encontro das atividades esportivas e culturais, compondo desta forma uma atmosfera atrativa às diversas faixas etárias e viabilizando a cultura para as diversas classes sociais.
O primeiro projeto para o Sesc Pompeia, elaborado por Julio Neves (Figura 9), objetivava, segundo Lima (2015), a demolição completa do complexo fabril dos Irmãos Mauser, datado de 1938, para a implantação de um novo complexo cultural em escalas monumentais, entretanto, esta ideia foi logo abandonada em decorrência das proporções do projeto, do tempo que se levaria para sua execução e também de preço demasiadamente elevado que as obras custariam. Decidiu-se então realizar a revitalização da área a partir do talento de Lina Bo Bardi, que, logo em seus primeiros levantamentos, percebeu que a estrutura daquela ocupação fabril fora calculada pelo engenheiro francês François Hennebique, no início do século XX, e talvez fosse a única estrutura calculada por ele conhecida no Brasil, atribuindo uma importância ainda maior ao conjunto já existente no terreno (LIMA, 2015).
Figura 9 - Sesc Pompeia de Julio Neves
Fonte: Sesc TV (2014).1
1 Captura de tela. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=qhBZXCle8Z8&t=330s>. Acesso em: 19 mai. 2022.