Arquiteto: Escritório Paulistano;
Local: Morumbi, São Paulo;
Área: 47.300 m²;
Ano de projeto: 2010 a 2012.
Projetado entre os anos de 2010 e 2012 pelo Escritório Paulistano de Arquitetura (liderado pelo arquiteto Eduardo Colonelli) e construído no período de 2010 a 2015, o conjunto habitacional do Real Parque consiste em um complexo de habitações de interesse social que teve como principal objetivo recuperar a antiga Favela do Real Parque (47.300,00 m²), localizada na cidade de São Paulo, no bairro de mesmo nome do bairro do Morumbi (Figura 1).
Figura 1 - Favela do Real Parque antes de sua urbanização.
Fonte: Sehab (2012).
Segundo Athias (2003, 2007 apud PRADO, 2017) A Favela do Real Parque tem início já na década de 1950, com ocupações do povo indígena Pankararu, que vieram de Pernambuco para São Paulo em busca de melhores condições de vida e também e decorrência das secas que atingiam esta região. No mesmo período, grandes obras eram construídas na região do Morumbi, como o Estádio Cícero Pompeu de Toledo (1952 – 1970) e o Palácio dos Bandeirantes (1955 – 1965), obras as quais necessitavam de uma grande quantidade de mão de obra, que seria suprida pelos novos imigrantes pernambucanos, incentivando ainda mais as ocupações na região (as quais eram em sua maioria feitas de papelão e madeira) e culminando para o que seria no futuro a favela do Real Parque (FRANÇA, 2008 apud PRADO, 2017).
As intervenções urbanísticas na favela do Real Parque tiveram início no ano de 1996, efetuadas pela Prefeitura de São Paulo, através do Programa de Verticalização de Favelas – PROVER (Cingapura). 549 unidades habitacionais foram entregues até o final do ano de 2000, as quais estão distribuídas em 42 blocos e 5 condomínios de 5 a 7 pavimentos implantados entre a Rua Paulo Bourroul e a Avenida Marginal Pinheiros.
O projeto elaborado pelo Escritório Paulista de Arquitetura surge como resposta à necessidade de fornecer moradias adequadas à população da favela do Real Parque, onde a maioria das construções eram feitas de estruturas precárias e encontravam-se assentadas em encostas com risco de deslizamento.
Além disso, a prioridade das de urbanização da favela do Real Parque se encontra, segundo os autores do projeto, em algumas importantes condicionantes urbanas:
a) sua excelente localização com relação à cidade; b) disponibilidade de infraestrutura e transporte coletivo (sobretudo no nível metropolitano a partir da integração da ferrovia da CPTM com a linha Amarela do Metro na Estação Pinheiros); c) facilidade de acessos viários representado pela proximidade da Avenida Marginal Pinheiros e ampliado com recém construída Ponte Octavio Frias de Oliveira; e d) proximidade de amplo mercado de trabalho representado pelos condomínios residenciais da região e, na margem oposta do rio Pinheiros, pelos importantes complexos comerciais e de escritórios. (ESCRITÓRIO PAULISTA DE ARQUITETURA)
O entorno do projeto encontra-se urbanizado, com as ruas que o circulam majoritariamente asfaltadas, com calçadas e guias. Além disso a área conta com galerias de água pluvial, redes de água, esgoto, gás, energia elétrica, iluminação pública e coleta de lixo, a qual atende ao sistema viário do entorno da favela. Comércios e serviços de caráter local são as atividades não-residenciais mais presentes no local e em seu entorno,
entretanto, se faz presente também nas proximidades do terreno algumas grandes lojas, como a Leroy Merlin, o Pão de Açúcar e a Decanthlon. Além destes, o terreno está próximo a inúmeros condomínios residenciais de padrão elevado do bairro Morumbi.
Ao arruamento existente integram-se duas novas vias que complementam o sistema viário. Além destas, realizou-se o alongamento da rua Paulo Bourroul a fim de melhor integrar a área com o sistema viário da região. A Imagem 2 exemplifica a relação do projeto existente com seu entorno próximo, assim como as principais vias de acesso às edificações do complexo habitacional a ser implantado.
O programa de necessidades do projeto conta com um Parque-Praça, destinado aos espaços públicos e áreas verdes, uma creche de 800m² e um centro cultural-educacional de 2.550 m², além é claro das 1.252 novas unidades habitacionais, que compreendem uma área construída de 79.355 m² e estão divididas em 11 condomínios. Além disso, foram previstos no programa de necessidades alguns módulos comerciais, que acontecerão no pavimento térreo de alguns locais (conforme prevê a legislação). Todo o programa foi alocado nos perímetros de quatro quadras: Quadra H, Quadra I, Quadra A e Quadra
“Praça”. A Figuras 2 apresenta a implantação do projeto, a qual foi feita demarcação das áreas conforme interpretação para melhor entendimento e visualização da disposição das quadras.
Figura 2 - Relação entre as quadras
Fonte: Adaptado de Escritório Paulistano de Arquitetura (2012).
A grande maioria das edificações irregulares do terreno foram removidas, dando espaço aos novos condomínios fechados, atendidos pelas redes projetadas de água, esgoto, gás e energia elétrica. Além disso, 3% das unidades habitacionais são adaptadas para pessoas com deficiência. Cada condomínio tem entre 7 e 9 pavimentos e contempla, no máximo, 150 unidades habitacionais, contando ainda com áreas de lazer internas, cobertas e descobertas, para o uso exclusivo dos moradores, as quais se configuram como praças internas do condomínio (Figura 3).
Figura 3 - Área de lazer e sacadas
Fonte: Pedro Vannucchi (2012).
Um ponto interessante do projeto é que o pavimento térreo de acesso está sempre em um nível intermediário, com 4 pavimentos superiores e de 2 a 4 pavimentos inferiores, o que elimina a necessidade da solução mecânica para a circulação vertical, a qual foi prevista apenas como alternativa opcional futura. Além disso, a circulação horizontal foi resolvida através de varandas abertas e voltadas para as áreas coletivas de lazer, fato que contribui para a socialização dos indivíduos e ainda aumenta a sensação de segurança de quem utiliza estes espaços.
Ao todo, foram criadas 6 tipologias habitacionais, com área total privativa de 55m² cada, as quais preveem dois dormitórios com varanda, banheiro, sala e cozinha integradas e área de serviço. A diferenciação das tipologias é feita no dimensionamento de cada
ambiente, a fim de atender uma gama maior de modelos familiares, conforme mostram as figuras 4 e 5.
Figura 4 - Tipologias A, B e C
Fonte: Escritório Paulistano de Arquitetura (2012).
Figura 5 - Tipologias D, E e F
Fonte: Escritório Paulistano de Arquitetura (2012).
O sistema construtivo e estrutural adotado na execução do complexo habitacional foi o sistema convencional de alvenaria estrutural, feito a partir de blocos de concreto.
Além deste, os condomínios contam com fechamento em esquadrias de alumínio e vidro e também com guarda-corpos metálicos nas sacadas.
A princípio, projeto do conjunto habitacional do Real Parque pode ser considerado um grande exemplo brasileiro de urbanização de áreas degradadas e irregulares, uma vez que buscou resolver os problemas habitacionais de uma região nobre da cidade de São Paulo, altamente especulada, sem mover as famílias que ali residiam para áreas afastadas e periféricas da cidade. A isto, somam-se as melhorias realizadas na qualidade dos conjuntos habitacionais, viabilizando à população o acesso a moradia adequada, assim como o acesso aos equipamentos urbanos básicos.
Entretanto, quando estudamos com maior atenção o funcionamento do conjunto habitacional nos dias atuais, é possível perceber algumas situações alarmantes, como por exemplo o surgimento de novas ocupações irregulares no entorno das edificações (PRADO, 2017)
Rezende (2015) faz um alerta para a possibilidade de ocorrência de um processo de expulsão e gentrificação da área, ocasionado principalmente pela valorização imobiliária local promovida pela requalificação urbana e também pela falta de instrumentos efetivos que garantam a inserção e permeância dos moradores nos novos núcleos urbanizados (apud PRADO, 2017).
Conclui-se então que o projeto de urbanização da favela do Real Parque foi de extrema importância no combate da desigualdade social presente na área e também no fornecimento de habitações adequadas à população (que antes vivia em habitações precárias e insalubres, com acessos reduzidos a saneamento básico adequado, transporte, saúde, educação, etc.), tal importância pode ser percebida na comparação entre as figuras 6 e 7, onde a figura 7 representa a favela no ano de 2008, antes da intervenções urbanísticas e a figura 8 representa a favela depois delas, em 2021.
Entretanto, apenas o projeto em si talvez não seja o suficiente para garantir de fato a revitalização da área, uma vez que hoje nota-se o surgimento de novas ocupações irregulares aos arredores das áreas do projeto, portanto, faz-se também necessário a aplicações de outras políticas de reinserção destas populações marginalizadas para garantir que estas irão de fato prosperar e se reintegrar na cidade.
Figura 6 - Favela do Real Parque no ano de 2008.
Fonte: Google Earth
Figura 7 - Favela do Real Parque no ano de 2021.
Fonte: Google Earth